domingo, 17 de março de 2019

As viagens na Idade Média, parte IV - final


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Tabernas em comum

Voltando aos lugares ordinários para alojamento, se os mercadores, sobretudo em cidades como Veneza, acostumaram-se a se alojar em construções específicas, metade armazéns (os fondaci), os peregrinos e viandantes ocuparam as locandas que, caídas em desuso depois das invasões bárbaras ou transformadas em locais duvidosos, frequentados por pessoas sem dinheiro, passaram por uma verdadeira recuperação até tornar-se, no século XIV, o único ponto de referência para quem viajava.


Essas locandas não tinham nada a ver com nossos albergues. Na Europa Ocidental e Central, em geral, eram edifícios de pedra ou de madeira com uma única lareira, e hospedavam ao mesmo tempo pessoas e animais. O número de leitos oscilava entre três e vinte, colocados em círculo nos andares superiores, ao passo que nos inferiores se encontravam os estábulos, depósitos, cozinhas e salas de refeição.


Para os hóspedes mais endinheirados havia a possibilidade de ficar em quartos privados. Nas locandas mais equipadas, os leitos eram com baldaquino ou com rodinhas, com cobertas e lençóis, enquanto nas mais humildes o pernoite era em um simples colchão de palha.

Normalmente todos comiam juntos, sem distinção, e a comida era bastante frugal: vinho e pão, às vezes algum acompanhamento. Apenas hóspedes importantes podiam consumir refeições mais abundantes (com peixe e carne) em quartos separados.


Nas zonas menos desenvolvidas, como na Europa do leste, ou na Espanha – onde multidões de peregrinos acorriam pelos caminhos que levavam a Santiago de Compostela -, a situação era claramente pior: o antigo provérbio francês “O amor é como uma locanda espanhola: cada um encontra somente aquilo que leva consigo” é muito eloquente a esse propósito.

Nem todas as locandas eram iguais. As das cidades, em geral, eram melhores do que as rurais. Na Alemanha e na França, ademais, elas se distinguiam com base na tipologia dos fregueses: senhores a cavalo, cocheiros, forasteiros a pé. Existiam locandas para estudantes, operários, mulheres, enfermos e, obviamente, os bordéis.


Em todas, de qualquer modo, as condições higiênicas estavam muito longe das nossas. Água corrente não havia, os viajantes eram muitos e dormiam nas mesmas camas, em toda parte reinava a promiscuidade. Avistar piolhos se movendo sobre os colchões de palha não devia ser um espetáculo muito raro.


Tabernas e locandas – as primeiras com uma fama nitidamente péssima – eram lugares onde, além de pernoitar, se podia comprar mercadorias como em um verdadeiro mercado, o que explica por que, com a difusão dos comércios e a ascensão da classe mercantil na Baixa Idade Média, essa segunda “atividade” foi sendo deixada em segundo plano até desaparecer quase por completo.

Como se reconhecia uma locanda? Com certeza, ao menos a partir do século XIII, pela insígnia: em geral era uma coroa ou um barril com um círculo metálico suspenso, que indicava a venda de vinho. A isso, passou a ser cada vez mais comum acrescentar, da Baixa Idade Média em diante, o nome: “Da coroa”, “Ao Cervo”, e assim por diante. De resto, pela aparência não se distinguia muito das demais habitações.


Os proprietários das tabernas, contrariamente ao que os clichês difundidos levariam a pensar, nem sempre eram pessoas de condição humilde. Havia, nessa categoria, também um conspícuo número de gente conhecida, rica e respeitada; isso, obviamente, se refletia na “fama” da locanda.

Em Florença, por exemplo, os Estatutos das Artes contemplavam três categorias de taberneiros: os melhores ofereciam comida e alojamento ao viajante e à cavalgadura; os médios hospedavam apenas uns ou outros; e os inferiores forneciam ou comida ou alojamento.


Naturalmente, não eram obrigados a acolher todo mundo, aliás, tinham o dever de manter distantes pessoas suspeitas não apenas por disposição legal (a obrigação específica apareceria somente no século XV), mas também porque seriam chamados a responder por eventuais crimes ou ações desonestas que essas pessoas cometessem. Antes de entrar no local, os hóspedes (salvo raras exceções) tinham de entregar as armas: se não o fizessem, o taberneiro podia recusar-se a atendê-los. 

Uma vez acolhidos, eles tinham de observar algumas normas de comportamento, sob pena de ser denunciados à autoridade competente. O jogo era proibido ao menos nos períodos das festas, assim como não eram permitidas apostas de bebidas, embriaguez, xingamentos e palavrões. O quanto essas regras eram de fato obedecidas, é impossível dizer.

Viagens fantásticas


As viagens na Idade Média, portanto, comportavam uma série de provas físicas significativas. Conseguir realizá-las sem danos era, em certo sentido, um empreendimento que nem todos eram capazes de levar a termo. Mas havia um outro tipo de viagem, a “espiritual”, feita na imaginação, em busca de terras prometidas, do paraíso, ou da Verdade. 

Era possível ser um viator (“viandante”, literalmente, “aquele que vai pela via”) por itinerários preestabelecidos, ou então um peregrinus (“peregrino”), não apenas no sentido espiritual e religioso. A viagem podia ser uma metáfora da vida, ou uma busca no mundo das ideias e das imagens mentais.


Um caso todo particular é a narrativa fantástica relacionada à navegação de São Brandão, um monge que realmente viveu no contexto histórico da Irlanda dos séculos V-VI, em sua grande parte ainda pagã e percorrida de Norte a Sul por missionários que pregavam o Evangelho e construíam mosteiros.
A trama da obra é simples. 

Depois de apresentar o protagonista, narra-se o seu encontro com o Abade Barinto, que o informa de uma viagem realizada com seu discípulo Mernoc em busca da misteriosa “Terra prometida dos santos”: uma ilha onde o sol nunca se põe, e não existe nem fome nem sede, e o ar é cheio de um perfume maravilhoso.


Ao ouvir isso, Brandão decide parir para encontrá-la. Tendo escolhido quatorze monges, depois de um jejum preparatório de quarenta dias, a comitiva zarpou em direção à Ilha de Santo Enda. 

Recebida a benção, os frades preparam um barco de madeira recoberta de couro, o curach, e iniciam uma viagem cheia de peripécias que os levará, por sete anos, a visitar as mesmas ilhas, cada ano por ocasião da mesma festividade: a Ilha das Ovelhas, a Ilha Baleia, a Ilha dos pássaros e a de Santo Abão, habitada por uma comunidade de frades dedicados ao silêncio. Os frades se mantêm graças à intervenção divina.


Navegando, Brandão e os seus enfrentam monstros marinhos, precisam abrir passagem no mar denso pelo gelo, assistem a épicos combates entre feras, desembarcam em uma ilha habitada por três comunidades diferentes cuja ocupação é cantar perpetuamente os salmos, recebem como dons frutos enormes capazes de nutri-los com seu suco.

E também se deparam com águas transparentes povoadas de peixes, encaram uma coluna de cristal infinita que surge do mar e toca o céu e são agredidos com projéteis ardentes atirados por ferreiros selvagens. Chegando às portas do inferno, encontram Judas preso a um rochedo no meio do mar: essa não é sua punição eterna, mas apenas um “refresco” momentâneo que lhe foi concedido pela clemência de Cristo, pois geralmente ele ferve como uma massa de chumbo derretido no interior da montanha infernal.


A companhia parte novamente e encontra, em outra ilha, o eremita Paulo, que sobrevive coberto apenas com seus cabelos e pelos, graças à água milagrosa de uma fonte. Alimentados pela última vez, os viajantes chegam à sua meta. Aqui um jovem prediz ao santo que sua morte está próxima e o exorta a carregar o barco com frutos e brotos antes de partir de volta para casa. Chegando a sua pátria, e depois de narrar tudo que viu, Brandão entrega a alma a Deus.


A figura de Brandão é uma perfeita síntese tanto do peregrinus quanto do viator: como o primeiro, é estrangeiro em relação ao lugar aonde vai e precisa de sustento, no seu caso, oferecido pela providência; como o segundo, sabe que está cumprindo um caminho que lhe é indicado por Cristo e tem em Cristo a proteção que o guardará até alcançar sua meta.


A viagem de Brandão, assim como outros itinerários imaginários medievais (não por último, a Divina Commedia de Dante), oferece vários níveis de interpretação. De fato, pode-se entendê-la como a viagem de um monge que se entrega à providência divina movido pela curiosidade de ver o paraíso. Ou pode-se entender a narrativa como o simples relato de uma viagem. Mas talvez a melhor chave seja ler Brandão como um herói temerário, nisso muito moderno, que, desafiando as forças da natureza, chega a saborear os mistérios do conhecimento.

O mundo mágico do Preste João


Um pouco mais tarde, por volta do início do século XII, começaram a circular no Ocidente várias histórias lendárias sobre a existência, fora a Terra Santa e as Índias, de um poderoso rei chamado Presbyter Johannes, isto é, “Preste João”.

O primeiro a registrá-las por escrito foi, em 1147, o cronista austríaco Óton de Freising que, em sua Chronica, cita um “certo Preste João, que habita no Extremo Oriente além da Pérsia e da Armênia, rei e sacerdote, cristão como o seu povo, porém nestoriano”. O seu reino é imenso; situa-se nos confins da Ásia, onde nenhum ocidental jamais penetrou, sua terra era legendária e povoada de toda espécie de animais e plantas, de homens estranhos com características a meio-caminho entre o misterioso e o horrendo.


Preste João era riquíssimo: seu palácio infinito transbordava, segundo os relatos, ouro e pedras preciosas. Mas era também pio e generoso. Assim que soube da queda da Terra Santa na mão dos infiéis, teria, inclusive, partido para libertá-la. Era de tal modo virtuoso que até mesmo os seus súditos se acasalavam apenas para procriar e não existiam ladrões nem criminosos.

Verdade ou fantasia? Na segunda metade do século XII, o imperador de Bizâncio Manuel Commeno recebeu do elusivo rei uma suposta carta que, depois, veio parar no Ocidente com Frederico Barbarossa.

O escrito teve um sucesso tão grande que até Marco Polo, mais de um século depois, chegou a falar do Preste João como se o tivesse encontrado pessoalmente. O reino, na realidade, nunca existiu. Formou-se, com o tempo, na imaginação dos ocidentais que, jamais tendo chegado tão longe, extraíam informações a partir das histórias contadas pelos mercadores, por sua vez ouvidas dos guias de caravanas que se deslocavam ao longo da Rota da Seda.


Relatos que combinavam com o que tinham escrito os autores antigos, de Plínio a Solino, de Marciano Capela até os Padres da Igreja. Nesses relatos apareciam também seres estranhos dos confins da realidade: os monópodes, homens que tinham uma só perna e apenas um – enorme – pé, e viviam nas Índias;

Os blêmias na África, sem cabeça e com a face no peito;


Os panotis, dotados de orelhas longuíssimas...



Reunidas pelo grande enciclopedista Isidoro de Sevilha nos séculos VI-VII, essas cognições imaginárias forneceram – monstros à parte – a descrição do paraíso terrestre, situado pela tradição exatamente na Ásia. E proporcionaram aos que viveram na Idade Média um lugar mágico, quase um modelo a ser aspirado, mas que, como os sonhos, jamais poderia ser alcançado.

Fonte: capítulo 4 da obra A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes. Petrópolis, 2018.