terça-feira, 3 de outubro de 2017

À margem da linha, by Paulo Rodrigues

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Muitos são os relatos de viagem que contemplam aquilo que nos estudos antropológicos se conhece como ritos de passagem ou de transformação. Um rito de passagem clássico, bastante estudado e de farta literatura acadêmica, é o da peregrinação, sobretudo a que contempla a visita aos lugares considerados sagrados: templos, mesquitas, catedrais, santuários, grutas, montanhas, rios, formações rochosas, só para citar os mais comuns.

Entretanto, há viagens sem nenhum cunho espiritual ou religioso que têm a particularidade de transformar um vagamundo em outra pessoa, na clássica interpretação de que, ao fim da jornada, aquele que parte jamais será o mesmo ao retornar, uma transformação simbólica e reveladora, um novo ciclo de vida.

Em seu primeiro romance, À margem da linha, Paulo Rodrigues trabalhou com perfeição esse modelo de rito de passagem, contando a trajetória de um menino de dez anos que, ao lado do irmão mais velho, parte de casa numa longa jornada a pé em busca do pai.


  
O menino mais novo é o narrador da história; praticamente um miserável, sua família vive à margem de uma estrada de ferro e pouco sabemos de sua vida a não ser o fato de que, ao partir com Mano (seu irmão e guia) não deixa quase nada para trás, a não ser a mãe, mulher sofrida e abandonada pelo marido e mais dois irmãos, de quem fala com carinho. Uma dicotomia: não deixa quase nada, mas ao mesmo tempo deixa tudo; a decisão de partir provém não só do sofrimento, mas também do amor e da admiração que sente pelo irmão.

A viagem dos garotos se aproxima do drama vivido pelos retirantes nordestinos, igualmente vítimas da miséria, e talvez a busca pelo pai ausente seja apenas uma desculpa para justificar o abandono do lar. Na realidade, esse texto permite múltiplas interpretações e nisso reside seu encanto. O autor não dá nome ao narrador, nem tampouco ao seu irmão, se levarmos em conta que Mano é apenas uma referência, um grau de parentesco e não o nome de fato do seu companheiro de viagem. Dessa forma o texto se abre para que cada leitor se coloque no lugar de um ou de outro (Quem somos nós nessa história? Os que guiam ou os que são guiados?).



Os incidentes que aparecem em capítulos curtos e muito bem escritos (o autor costura lindamente as palavras) não irão surpreender o leitor, uma vez que quase nada de extraordinário transcorre na narrativa. Mas o pouco que acontece, nessa economia de emoções, se traduz numa enorme transformação na vida dos garotos, resultando em um final surpreendentemente belo.

A linha de trem, que serve de orientação aos meninos nessa viagem, pode ser entendida como uma metáfora da vida; é preciso tomar coragem para, em algum momento, desviar-se da rota e abandonar o ninho, estar aberto ao acaso e às surpresas escondidas nos caminhos. Quando isso acontece, um ciclo se fecha e a vida se renova. Algumas pessoas se arriscam (toda jornada implica riscos), outras não. E só no final da vida, naquele momento em que já não nos resta mais nada a não ser viver das lembranças, é que saberemos se tomamos as decisões certas quando o destino nos ofereceu seus desvios incertos e cheios de possibilidades.



“(...) Diante da agitação em que eu me encontrava, o Mano decidiu me explicar o quanto seria bom, dali pra frente, a gente se manter afastado das coisas desconhecidas. Com isso, eu refletia, ele queria gravar em minha mente a importância da nossa viagem, para que eu pudesse suplantar o medo e as incertezas com a força da convicção. Era como se me dissesse que devíamos manter o olhar firme, fixando num ponto lá adiante, onde os trilhos se juntam, a nossa meta. Do seu jeito confuso, mas preciso, o Mano determinou que seguiríamos em frente, desviando do caminho apenas o estritamente necessário.

Olhando o Mano caminhar alguns metros à minha frente, lembrei-me de um dia em que eu, bem pequeno, garimpando um caco de magnésia, lhe perguntei se aquilo era uma esmeralda. Foi a primeira e única vez que os olhos dele se encheram d’água ao me responder que isso não tinha importância, pois de todo modo, fosse joia ou vidro, era sempre uma beleza. Com isso, ele insinuou que as coisas têm sempre o valor que a gente lhes dá. E era nessa forma, eu intuí, que ele gostaria de moldar o meu espírito.

A partir daí, começamos a sair juntos à procura de tesouros perdidos, mas foi muito, muito tempo depois desse dia que comecei a alcançar a exata medida dos seus pensamentos, e a perceber que os seus ensinamentos iam sempre muito além das parcas palavras. (cap. 6, págs 33-34)”


Leia: À margem da linha. Paulo Rodrigues. Cosaic & Naify, 2001.