segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Viagens com minha tia, by Graham Greene


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Disse Graham Greene que Viagens com minha tia foi o único livro que ele escreveu por diversão. E é isso o que ele nos entrega com essa novela de humor um pouco datado, publicada em 1969. Garimpei meu exemplar em um sebo, uma bonita 1ª edição em capa dura, de 1970, publicada pela Civilização Brasileira.

Considerado um dos grandes romancistas do século XX, Greene teve várias de suas obras adaptadas para o cinema. Sua escrita contempla o universo da espionagem e da política, sendo que o próprio autor trabalhou para o serviço secreto britânico, pelo que escreveu com muita propriedade sobre essa temática.



Convertido ao catolicismo em 1926, narrou a perseguição religiosa no México em 1938 nas obras The Lawless Roads (1939) e o aclamado O Poder e a Glória (1940); desse momento em diante a religiosidade também teve importância em seus escritos, embora não gostasse de ser tratado como um escritor católico, chegando a afirmar “não ser um escritor católico, mas um católico que escreve”.

O trabalho o levou a viajar para terras distantes a partir da década de 1930: Serra Leoa, Libéria, México, Havana e grande parte da América do Sul e da África. Sua estadia em Cuba, no final dos anos 1950, inspirou o romance Nosso Homem em Havana, um de seus grandes sucessos literários.

Outra obra que contempla sua produção odepórica, também muito conhecida e estimada, Jornada sem Mapas (1936), trata de sua viagem pelo interior da Libéria, quando trabalhava para a inteligência britânica. Atribui-se o título desse livro ao fato de que não existiam na época mapas do interior da Libéria e o insólito é que um mapa do governo norte-americano mostrava o país africano com o espaço todo em branco, contendo apenas a palavra “canibais”.



Confesso que ignorava totalmente a importância literária de Graham Greene, mas depois de conhecer um pouco melhor sua história de vida e também a relevância das viagens em suas obras, estou ansioso para me aprofundar em sua leitura.

O acaso me levou a conhecê-lo por sua obra mais leve, se cabe o termo. Em Viagens com minha Tia, Greene se diverte, como diz, contando a história de Henry Pulling, um monótono cinquentão inglês, bancário aposentado, que tem como hobby cultivar dálias em seu jardim suburbano.

No funeral da mãe, Henry se depara com Tia Augusta, a quem não via desde menino:

“Reconheci com certa dificuldade, graças a uma fotografia do álbum da família, minha tia Augusta, que chegara atrasada, vestida como só a falecida Rainha Mary, de saudosa memória, seria capaz de se vestir, se ainda estivesse viva e se adaptasse um pouco à moda atual. Espantei-me com seu cabelo ruivo e brilhante, penteado de maneira monumental, e com seus dois grandes dentes da frente, que lhe davam um vigoroso ar de Neandertal.”



Desse encontro entre tia e sobrinho surge uma divertida história cheia de mistérios, tramas e viagens além-oceano que levarão o aposentado Henry a abandonar sua vida sem graça e solitária para viver aventuras só imaginadas em livros e filmes policiais.

É certo que o charme dos personagens se deve à enorme diferença de personalidades e à hilária inversão de papéis entre eles: a tia de 75 anos, deliciosamente louca, uma Lucille Ball metida em espionagens, sexualmente ativa, que fala palavrões e que ama as viagens, uma cigana, e o sobrinho careta, celibatário, que nunca sai do bairro onde mora, em pleno final dos anos 60 e que vive de tristes lembranças familiares de um cotidiano sem nenhuma abertura para surpresas... Uma idosa que vive o presente de olho no futuro e o jovem (em comparação a ela) que mal vive o presente e se aprisiona no passado, para quem viajar pode ser uma enorme perda de tempo.

Mas as viagens acontecem aos montes ao longo da trama. A primeira é breve e não tão distante, com destino a Paris, com tempo suficiente para Henry ouvir as mirabolantes histórias de tia Augusta, que de tão extraordinárias parecem inventadas.  



A viagem a Paris serviu de aperitivo para a próxima, uma longa jornada pelo Expresso do Oriente. A partir desse momento fica evidente a noção de que Henry não viaja somente para acompanhar sua tia, mas também para dar um sentido à sua própria vida, claramente inspirado pelas aventuras de tia Augusta. É a clássica viagem de autodescoberta, facilitada pelo deslocamento da viagem externa.

“(...) lembrei-me de Southwood, com uma tolerância cordial... lugar onde eu próprio já não me sentia à vontade. Era como se eu tivesse fugido de uma prisão aberta, descendo por uma escada de corda e entrando num carro à minha espera, que me transportara para o mundo de minha tia, o mundo de personagens improváveis e acontecimentos imprevistos.”

Na viagem de trem, Henry conhece a jovem Tooley, uma adolescente hippie cuja companhia “era uma novidade muito interessante” e logo os dois se aproximam, apesar da diferença de idade entre ambos. Fuma, sem desconfiar, um cigarrinho de maconha com ela, e isso, somado a um comentário sobre minissaias e uma canção assobiada dos Beatles são as poucas passagens do livro que nos situam a época em que a ação transcorre.



Na segunda parte do livro o autor começa a amarrar as pontas soltas da trama, e os mistérios de tia Augusta começam a ser desvelados. Para isso, Henry é levado de navio para a América do Sul, ao encontro da tia, no Paraguai. Daqui em diante não posso continuar para não estragar a surpresa de um possível leitor da obra.

Viagens com minha Tia foi uma das obras de Greene adaptadas para o cinema em 1972, e coube a Maggie Smith o papel de Tia Augusta.

Para encerrar, gostaria de comentar uma passagem desse romance que me pareceu brilhantemente construída; trata-se de uma das histórias de Tia Augusta sobre um dos homens da família Pulling.



Para mim, Greene escreveu uma cena que, numa primeira leitura, pode parecer apenas uma inverossímil história criada pela fantasiosa cabeça de uma mulher que gosta de contar anedotas do passado. Mas depois de processar o que ela descreve ao sobrinho, veremos que existe ali uma maravilhosa filosofia de vida, a viagem como metáfora da própria existência.

Tomei a liberdade de pular alguns trechos apenas para encurtar um pouco o texto, sem contudo descaracterizar a narrativa.


Excerto do Capítulo VII  

Tia Augusta reserva dois leitos para o Expresso do Oriente, numa viagem de três noites rumo a Istambul. O diálogo entre ela e o sobrinho, Henry, segue abaixo:

- Mas se a senhora quer ir a Istambul, é muito mais fácil e mais cômodo tomar um avião.
- Só ando de avião quando não há nenhum outro meio de transporte.
- Mas não há perigo.
- É uma questão de preferência, e não de nervos. Sempre me senti perfeitamente segura naquelas engenhocas. Mas não aguento que me falem o tempo todo por meio de alto-falantes. Ninguém nos chateia numa estação de trens, mas os aeroportos sempre me lembram aqueles campos de férias organizados.

- Eu não estou muito acostumado a viajar pelo exterior. A senhora não vai gostar... 
- Comigo você aprende logo. Os Pullings sempre foram grandes viajantes. Acho que foi seu pai que me contagiou.
- A senhora deve estar enganada. Meu pai nunca saiu do centro de Londres.
- Ele viajou de uma mulher para outra, Henry. A vida inteira. Dá no mesmo. Novas paisagens, novos costumes. O acúmulo de recordações. Vida longa não é uma questão de anos. Um homem sem recordações pode viver cem anos e achar que sua vida foi muito curta. Seu pai me disse uma vez: “A primeira moça com quem dormi se chamava Rose. Por coincidência, trabalhava numa loja de flores. Parece que foi há um século”. E o seu tio também...

- Não sabia que eu tinha um tio.
- Era quinze anos mais moço do que seu pai e morreu quando você era criança.
- Ele viajava muito?
- No fim, as viagens ganharam uma forma estranha. (...) Seu tio era um bookmaker conhecido por Jo. Fez uma fortuna considerável, mas seu único desejo era sempre viajar mais. Queria retardar o ritmo da vida e achava, com razão, que as viagens fariam com que o tempo andasse menos depressa. Por isso resolveu dar a volta ao mundo.

Começou a viagem, por estranha coincidência, no Simplon Oriente, o mesmo trem que vamos tomar na semana que vem. Da Turquia, pretendia seguir para a Pérsia, Rússia, Índia, Malásia, Hong Kong, China, Japão, Havaí, Taiti, Estados Unidos, América do Sul, Austrália, talvez Nova Zelândia.

Num ponto qualquer, pegaria um navio de volta. Infelizmente foi retirado do trem logo no começo da viagem, numa maca, depois de um derrame.

- Que pena.
- Isso não modificou nem um pouco o seu interesse de viver muito. Naquela ocasião, eu estava trabalhando em Veneza e fui visitá-lo. Ele decidira viajar mentalmente, já que não podia fazê-lo fisicamente. Pediu que descobrisse uma casa com trezentos e sessenta e cinco quartos. Queria passar um dia e uma noite em cada um. Achava que, dessa maneira, a vida seria praticamente interminável.

(...) Encontrei uma casa velha, que já fora um palazzo, castello ou coisa parecida. Estava praticamente em ruínas. Contei os quartos. Dividindo o porão em quatro, com alguns tabiques, e somando o lavatório, o banheiro e a cozinha, o total subia a cinquenta e dois. Quando Jo soube, ficou encantado: um quarto para cada semana do ano. Tive que por uma cama em todas as peças até mesmo no banheiro e na cozinha. No lavatório não cabia uma cama, mas comprei uma poltrona confortável, com extensão para os pés.

Esse quarto podia ficar para o fim. Eu achava que Jo não viveria o bastante para ocupá-lo. Uma enfermeira o acompanharia, quarto após quarto, chegando de vez em quando com um certo atraso, para dar a impressão de uma viagem verdadeira.

- Mas que plano extraordinário!
- Funcionou às mil maravilhas. Quando Jo estava no décimo quinto quarto ele me disse que tinha a impressão de que já se mudara há pelo menos um ano. E se quinze quartos davam a impressão de um ano de vida, ele ainda tinha vários anos de viagens pela frente.

A enfermeira me disse que, no quarto dia depois de cada mudança, ele começava a ficar inquieto, ansioso por viajar de novo. No primeiro dia em um novo quarto, dormia mais do que o normal, cansado da viagem. Ele começou no porão, foi subindo aos poucos, até atingir o último andar, e já começava a falar numa segunda visita aos antigos aposentos: “Desta vez, seguiremos uma ordem diferente e sairemos noutra direção”.

Concordou em deixar o lavatório para o fim: “Depois de todos esses quartos luxuosos – comentou – será divertido. Um pouco de falta de conforto mantém a gente em forma. Não quero ser um desses velhos excêntricos que andam pela primeira classe da Cunard, reclamando do caviar”.

Estava no quinquagésimo primeiro quarto quando teve o segundo derrame. Ficou paralítico de um lado e quase impossibilitado de falar.

Eu estava em Veneza, na ocasião, mas obtive permissão para deixar a companhia, por alguns dias, e Mr. Visconti me levou de carro ao palazzo de Jo. Estavam tendo um trabalho incrível com ele. Já passara sete dias no quinquagésimo primeiro quarto quando sofreu o derrame, mas o médico insistia para que ficasse na cama, sem se mover, pelo menos por mais dez dias. “Qualquer pessoa – disse o médico- daria Graças a Deus de poder ficar quieto”.

“É que ele quer viver o máximo possível” – expliquei ao médico.
- “Nesse caso, deve ficar onde está, até o fim. Se tiver sorte, poderá durar mais uns dois ou três anos”.

Contei a Jo o que o médico dissera. Ele respondeu algo que não entendi, passou bem a noite e a manhã seguinte. A enfermeira estava certa de que ele se resignara a ficar quieto. Deixou-o dormindo e foi tomar uma xícara de chá no meu quarto. De repente ouvimos um barulho estranho e forte, vindo de cima. Parecia que alguém estava trocando os móveis de lugar. Corremos para o andar de cima, e sabe o que encontramos? Jo Pulling saíra da cama.

Amarrara uma velha gravata listrada, de um de seus clubes, na alça da mala, porque não tinha mais forças nas pernas, e se arrastava pelo corredor, a caminho do lavatório, puxando a mala. Gritei para que parasse, mas não me deu a menor atenção. Era uma cena dolorosa. Ele se movia com lentidão, fazendo grande esforço.

O corredor era ladrilhado. Passar de um ladrilho a outro provocava-lhe uma incrível exaustão. Desfaleceu antes de o alcançarmos e lá ficou, ofegante. Para mim, o mais triste de tudo foi o laguinho de pipi que fez no ladrilho. Não convinha removê-lo antes do médico chegar. Colocamos um travesseiro embaixo da cabeça de Jo, a enfermeira deu-lhe uma pílula e disse: “Cattivo”. Isso significa: “Velho traquinas”.

Ele sorriu para nós duas e disse, “Parecia que não ia acabar mais” – e morreu antes da chegada do médico. Tinha lá suas razões para fazer aquela última viagem, desobedecendo às ordens do médico, que só lhe prometera poucos anos de vida.

- Ele morreu no corredor? – perguntei.
- Morreu viajando – disse minha tia, num tom reprovador – Como sempre desejou.

Leia: Viagens com Minha Tia. Graham Greene. Editora Civiização Brasileira. 1ª ed. Rio de Janeiro, 1970.