domingo, 31 de março de 2019

Chuva com lembranças, by Cecília Meireles


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Há tempos não passava uma manhã de sábado perambulando pelos sebos de São Paulo. Para quem gosta de livros, programa melhor não há para se fazer nessa cidade que vê, pouco a pouco, suas livrarias fechando as portas, fato triste que ocorre em todas as cidades, alguém há de explicar o motivo.

Mas os sebos parecem resistir, só não sabemos até quando, porque as mudanças acontecem num ritmo assustador, sobretudo para quem já não vive mais no mesmo ritmo da juventude. Quando tudo parece pedir urgência, ter um livro em mãos e um tempo razoável de ócio chega a parecer uma provocação, um desperdício de tempo que não acompanha a realidade da vida que se leva hoje.



Gosto dos sebos pelo ar de mistério que alguns deles possuem; gosto do cheirinho de mofo, da ordem desordenada de suas prateleiras, do silêncio, de abrir livros ao léu procurando dedicatórias, de ler passagens grifadas e anotações miúdas feitas a lápis nas páginas amareladas pelo tempo, meu voyeurismo literário.

E nessa última andança pelos sebos, em que não buscava nenhuma obra em particular, vejo sobre uma pilha de livros no chão um livrinho branco de capa dura com bonita ilustração de uma pessoa pedalando uma bicicleta, no que parece ser um final de tarde e que, para minha surpresa, descubro tratar-se da obra Escolha o seu sonho, de Cecília Meireles.




Abro o livrinho e está lá a dedicatória que o Luiz Carlos Cardozo fez à amiga Gigi em 1974, com amizade e votos de felicidade. Há quantos anos eu não ganho de presente um livro com uma dedicatória? – me pego pensando.

De Cecília Meireles não é preciso falar nada além do que já sabemos todos: foi uma de nossas excelsas poetisas. Mas o livrinho que tenho em mãos é uma seleção de crônicas publicadas no mesmo ano em que Cecília nos deixou, 1964. São todas belas, carregadas de poesia e domínio da língua que tanto me fascina nessa grande escritora.

Escolha o seu sonho, a que dá nome à obra é de fato uma das crônicas mais bonitas, porém decidi transcrever outra que muito me marcou pela beleza e que também traz um viés odepórico saudosista, ao tratar das lembranças das chuvas em nossas viagens. Vale muito a pena a leitura.
Chuva com lembranças



Começam a cair uns pingos de chuva. Tão leves e raros que nem as borboletas ainda perceberam, e continuam a pousar, às tontas, de jasmim em jasmim. As pedras estão muito quentes, e cada gota que cai logo se evapora. Os meninos olham para o céu cinzento, estendem a mão – vão fazer outra coisa. (Como desejariam pular em poças d´água! – mas a chuva não vem...).

Nas terras secas, tanta gente a esta hora está procurando, também, no céu um sinal de chuva! E nas terras inundadas, quanta gente estará suspirando por um raio de sol!

Penso em chuvas de outrora: chuvas matinais que molham cabelos soltos, que despencam as flores das cercas, que entram pelos cadernos escolares e vão apagar a caprichosa caligrafia dos exercícios!



Chuvas de viagens: tempestade na Mantiqueira, quando nem os ponteiros do para-brisa dão vencimento à água; quando apenas se vê, na noite, a paisagem súbita e fosfórea mostrada pelos relâmpagos. Catadupas despenhando sobre Veneza, misturando o céu e os canais numa água única, e transformando o Palácio dos Doges num barco mágico, onde se movem pelos tetos e paredes os deuses do paganismo e os santos cristãos.




Chuva da Galileia, salpicando as ruas pobres de Nazaré, regando os campos virentes, toldando o lago de Tiberíades por onde andaram os apóstolos. Chuva pontual sobre os belos campos semeados da França, e na fluida paisagem belga, por onde imensos cavalos sacodem, com displicente orgulho, a dourada crina...

Chuvas antigas, nesta cidade nossa, de eternas enchentes: a de 1811, que com o desabamento de uma parte do morro do Castelo soterrou várias pessoas, arrastou pontes, destruiu caminhos e causou tal pânico em toda a cidade que durante sete dias as igrejas e capelas estiveram abertas, acesas, com os sacerdotes e o povo a pedirem a misericórdia divina.




Uma, de 1864, que Vieira Fazenda descreve minuciosamente, com árvores arrancadas, janelas partidas, telhados pelos ares, desastres no mar, e “vinte mil lampiões de iluminação pública completamente inutilizados”.

Chuvas modernas, sem trovoadas, sem igrejas em prece, mas com as ruas igualmente transformadas em rios, os barracos a escorregarem pelos morros; barreiras, pedras, telheiros a soterrarem pobre gente! Chuvas que interrompem estradas, estragam lavouras, deixam na miséria aqueles que justamente desejariam a boa rega do céu para a fecundidade de seus campos...




Por enquanto, caem apenas algumas gotas aqui e ali, que nem as borboletas percebem. Os meninos esperam em vão pelas poças d´água onde pulariam contentes. Tudo é apenas calor e céu cinzento, um céu de pedra onde os sábios e avisados tantas coisas liam, outrora...

São Jerônimo, Santa Bárbara Virgem,
Lá no céu está escrito,
Entre a cruz e a água benta:
!Livrai-nos, Senhor, desta tormenta!”

Leia: Escolha o seu sonho. Cecília Meireles. Círculo do Livro: São Paulo, 1974.