domingo, 22 de dezembro de 2019

Frugalidade e Desregramento na alimentação. Papa Leão XIII


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Inspirado pelas festas de final de ano, onde o rito da comensalidade sempre volta à tona, trago um texto que me cativou logo nas primeiras linhas, apaixonado que sou por escritos que contemplam  a culinária de forma poética, que fazem dela uma arte à altura das iguarias preparadas e servidas na narrativa.

O texto, na verdade uma epístola (literária, de caráter não doutrinário) do Papa Leão XIII escrita em latim a um amigo, Fabrizio Rufo, foi publicado na revista La Civilitá Cattolica de 22/março/1897 sob o tema da frugalidade e desregramento na alimentação.



A epístola papal rendeu assunto. Eça de Queirós, reconhecidamente anticlerical, escreveu um artigo intitulado Encíclica Poética (Revista Moderna, 20/out/1897) satirizando, como não poderia deixar de ser, os excessos sibaríticos do Papa, tão contraditórios à doutrina cristã se compararmos suas divagações com as condutas espartanas dos primeiros santos e santas cristãos à mesa. Um tema e tanto.

O texto abaixo foi traduzido do italiano pelo editor e tradutor Cláudio Giordano, de quem me orgulho ser sobrinho e admirador. Publicado na edição número 4 da Revista Bibliográfica & Cultural (junho/2019) que além deste artigo, com a íntegra da epístola papal e do delicioso texto de Eça, nos presenteia com mais de uma dezena de textos do mais alto calibre literário, obrigatória na biblioteca de todos os que amam a boa literatura.
Satisfeito com o alimento frugal, foge do desregramento- Carta a Fabrizio Rufo



Para que possas conduzir-te a vida saudável e plena de vigor, com qualquer alimento, o bom Ofelo, fiel e dedicado seguidor de Hipócrates, oferece estes conselhos, em elegante discurso há pouco desenvolvido. Falava muito sobre o desregramento, mas o tom era então sério.

Em primeiro lugar cuida da limpeza. Não seja demasiado ornada tua mesa; mas impecável a louça e cândida a toalha estendida. Da adega de Alba trarás o vinho puríssimo, que aquece o coração e afasta as preocupações: cuida, porém, de não confiar em Baco, nem te aborreças de com frequência alternar com água teu copo.



Seja branco e bem assado o pão. Prepara a refeição com galinha, carne de boi e carneiro e come confiante, pois são ótimos alimentos para restaurar as forças.

Sejam as carnes macias, e que os pratos cozidos não acabem estragados, por excesso de requinte ou de temperos.

Tenhas grande apreço pelos ovos frescos e te seja do agrado engrossar o caldo em fogo lento numa panela pequena, ou talvez aches mais agradável sorvê-lo direto com os lábios, ralo como ele costuma ser.




Com não menos prazer toma bastante leite espumante: ele te alimentou quando eras criança, e agora que és adulto com vantagem te servirás dele. Apanha também o dom celeste que é o precioso mel e com parcimônia saboreia o suave néctar siciliano.

E a tudo acrescenta as tão viçosas hortaliças que crescem na horta fértil do subúrbio; e também o assaz tenro legume, do qual apenas se extraiu sua rama.



Acrescenta ainda a madura e doce fruta que a estação fértil produz, em especial as maçãs saborosas, que lindamente recolhidas em cestinhos, alegram a mesa com o seu vermelho.

Venha depois a cálida bebida, extraída daquelas bagas torradas, que Moka e o Oriente nos transmitiram; beberica devagarinho o enegrecido líquido na borda da xícara: é bebida agradável que cai bem no estômago.

Observa e pratica confiante estas regras sobre a frugalidade na alimentação, para que saudável e viçoso leves teus dias até uma longa velhice.

II



Mas ao contrário (tais coisas o sábio Ofelo acrescentava arguto), a glutonaria deve ser evitada, sereia cruel e selvagem sempre tramando insídias e levando o homem à ruína.

Primeiro, ela se empenha em aparelhar a mesa com variada pompa, de modo que brilhe com toalhas bordadas e tecidos purpúreos. Observa como estão abertas e estendidas amplas mantas, obra de tecido macio e trabalhado! 

Em toda a volta estão arrumados grandes copos e taças de metal, xícaras com pratos e louça de prata. A mesa exala aroma de tomilho, aipo e de variadas flores, presos em maços ou guirlandas.



Tudo ricamente disposto, falando em tom suave e fingido, engana os convidados incautos; com semblante carinhoso, convida-os a entrar em casa e acomodar-se nos macios assentos à volta da mesa. 

E sem demora nenhuma, extraído há pouco do tonel escondido faz brilhar nos copos o excelente vinho Cecubo e com ele o envelhecido Falerno.

Mas oferece antes aos que bebem o finíssimo licor destilado com insólita arte da uva e da maçã. Disputando, os convivas regam as gargantas, enquanto, gulosos, vão saboreando deliciosos pasteizinhos.



E eis, regado de azeite e apimentado, sobre a mesa, fumegando o javali lucano, e gordas postas de lebre e gostosas iscas de fígado de ganso, e gordurosos tordos e belos pombos assados no espeto.

Ainda se vê peixe de mistura com as carnes: ostras delgadas com as conchas abertas, mexilhões, e numa travessa, a enorme moreia nadando em cebolas.

Devoram primeiro com os olhos, depois com os dentes: engolindo tudo, enchendo a barriga, saciados até a náusea.




Mas, carregados já de vinho, entupidos de comida, levantam-se, caminham pela sala, desnorteados, trocando de assentos entre si, entre brigas e gritos, até que esgotados e fora de si aquietam-se.

Ri-se então o desregramento, ri-se porque o jogo surtiu o efeito desejado por ele; e, continuando em sua pérfida arte, diverte-se fazendo os seus convivas submergir entre tantas ondas, como capitães sepultados no mar.



Abundante escore o suor; estimulada, a bile espalha-se largamente pelo estômago, e afligindo os flancos, provoca violento espasmo no fígado perturbado. Os membros todos vacilam, o rosto aparvalhado empalidece.

Mas, conquistado e abatido o corpo, que mais deseja o desregramento? Gostaria ainda para vergonha dele lançá-lo ao solo; e mais, quereria, se possível, extinguir a própria alma, a alma imortal, áurea centelha divina daquele Sol que não morre.

Leão XIII, Papa
Fonte: Revista Bibliográfica & Cultural. Número 4 – junho 2019. Oficina do Livro / Imprensa Oficial.