domingo, 21 de maio de 2017

Uma palavra: Komorebi

.

Gosto de colecionar palavras bonitas, estranhas, que causam surpresa quando descobrimos seus significados. Algumas destas palavras nem mesmo têm tradução literal para outras línguas, o que aumenta seu encanto. Escrevo-as em pedaços soltos de papel que guardo numa caixinha de madeira, na esperança de um dia usá-las em algum texto.

Quando busco inspiração para escrever, vez ou outra abro a caixinha velha de tabaco e leio os recortes de papel; acredito que essas palavras servem como um gatilho de ideias, um exercício que ajuda a ordenar os pensamentos.


Hoje pensei em buscar palavras que nos conectam com o ato de caminhar, viajar, peregrinar, passear na natureza... há uma relação enorme de palavras-conceito que pensei em tirar da minha caixinha e dividir com os leitores aqui no Odepórica. A escolhida de hoje, para abrir nosso “Pequeno dicionário de palavras odepóricas” vem do Japão: 木漏れ日- komorebi.

Uma das coisas mais bonitas de se ver numa caminhada em um bosque ou numa floresta é o momento em que o sol atravessa as folhas das árvores criando um espetáculo de luzes e sombras a que os japoneses dão o nome de komorebi.


Tal como diversos outros termos da língua japonesa, komorebi destaca a influência da natureza e da estética que é própria da cultura do Japão; não se trata diretamente do efeito da luz que passa através das folhas, senão da captura de um componente estético envolvido no komorebi.

A beleza dos raios de sol filtrados pelas folhas das árvores nos aproxima de uma experiência de comunhão íntima com a natureza, um lampejo de epifania. O escritor cristão C.S. Lewis conseguiu capturar a essência do komorebi numa passagem de sua obra Oração: Cartas a Malcolm, em que escreve a um amigo meditando sobre as várias questões entre o homem e Deus, e o papel da oração nessa relação com o divino.



“Qualquer fragmento de luz solar em uma madeira irá lhe mostrar algo sobre o sol que você nunca conhecerá lendo livros de astronomia; esses prazeres puros e espontâneos são fragmentos de luz divina nos bosques de nossa experiência.”



Para finalizar, encontrei na revista do The New York Times um poema que também captura essa beleza do komorebi, autoria da poeta irlandesa Caitríona O’Reilly, que traduzo livremente a seguir:

Komorebi
Entre o mundo e a palavra
São três formas pequenas,
Os sinais de ''árvore'', '' escape'' e ''sol''.

Eu vejo como a luz escapa através deles,
Moldando uma sombra em ambas as direções
No final do ano, na trilha castanho-avermelhada

Barrado pelas sombras das árvores.
Adoro como exulta, como qualquer fugitivo,
No lento reflexo das ondas no lago,

Em faixas radiantes ascendendo os troncos de bétula
De acordo com uma frequência desconhecida,
E no corvo-marinho estendendo-lhe suas asas molhadas 

Em um gesto messiânico,
Como se deslumbrado frente ao absoluto
Pela palavra e pela beleza do mundo.