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Mary Paterson é uma bonita canadense de olhos
grandes que por muitos anos foi instrutora de yoga em Toronto. Mulher viajada
pelas bandas do Oriente, publicou um livro muito interessante: Os monges e eu: como 40 dias no mosteiro
francês de Thich Nhat Hanh transformaram minha vida.
Para quem não conhece, Thich Nhat Hanh é um
monge budista vietnamita que por suas boas ações já foi indicado ao Prêmio
Nobel da Paz; prolífico escritor, poeta e pacifista, fundou um movimento
denominado “budismo engajado”, que nada mais é do que a aplicação dos
princípios budistas no dia-a-dia, seja para os que vivem a vida monástica ou
para os leigos simpáticos à filosofia budista.
O bom homem continua ativo aos 90 anos,
vivendo na comunidade que fundou em 1982 no interior da França, chamada de Plum Village
– Vila das Ameixeiras. Foi para esse local que Mary Paterson, em busca de uma
mudança em sua vida, se dirigiu para viver um retiro monástico de 40 dias, e
seu livro é um testemunho dessa jornada física e espiritual.
Entre a entrada e a saída de Mary do
monastério, temos 40 capítulos relativamente curtos, que correspondem a cada um
dos dias de sua permanência nas Ameixeiras. Em cada capítulo, um ensinamento
budista que a autora, na medida do possível, se esforça por colocar em prática,
seguindo sempre que pode os preceitos do budismo engajado.
Desse modo, iremos aprender com Miss Paterson
um pouco sobre como funciona um retiro espiritual no sul da França, que não
difere muito da dinâmica dos retiros que temos aqui mesmo pertinho de nós. O
foco do livro é mostrar como os ensinamentos do mestre Thich Nhat, em sua
essência simples, podem mudar a vida de uma pessoa quando colocados em prática.
É o que Mary se propõe a fazer em sua peregrinação.
Em cada capítulo/ dia de jornada aparece um
ensinamento budista que a autora se esforça por encaixar em sua rotina diária,
nem sempre com sucesso: mente concentrada, ética, silêncio, fé, gentileza,
impermanência, transcendência, gratidão... tudo o que, de uma maneira ou de
outra, guia as nossas vidas, tenhamos ou não um comprometimento religioso.
A leitura é agradável e equilibradamente
didática; aprende-se um pouco sobre os ensinamentos do monge vietnamita, sobre
a vida monástica, e também sobre o comportamento humano, com direito a vergonha
alheia quando a autora descreve a conduta questionável de uma peregrina
brasileira, Rita, “irascível, que gera um certo incômodo à sua volta”.
Recolhi do texto da Mary algumas passagens que
me encantaram durante a leitura e que agora divido com você. Os títulos não fazem
parte do texto original, servem apenas para apontar um pensamento que se
encontra dentro de um contexto maior.
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A ação no Caminho
Há muito tempo, havia um velho monge que, com
prática diligente, atingira certo grau de sabedoria espiritual. Esse monge
tinha um jovem noviço de 8 anos de idade. Um dia, olhando para o rosto do
garoto, o monge viu que este morreria em poucos meses. Entristecido, o monge
lhe disse que tirasse umas longas férias e fosse visitar os pais. “Não se
apresse”, disse o monge. “Não precisa ter pressa para voltar”. Ele acreditava
que o garoto deveria estar com a família quando morresse. Três meses depois,
para seu espanto, o monge viu o garoto voltar, subindo a montanha. Quando este
chegou, o monge olhou atentamente para seu rosto e viu que ele agora viveria
longos anos. “Conte-me tudo que aconteceu quando você estava fora”, disse o
monge.
O garoto falou-lhe da viagem descendo a
montanha, das vilas por que passara, dos rios que atravessara e das montanhas
que havia escalado. Então o garoto contou ao monge que um dia chegou a um
riacho que transbordara. Enquanto tentava atravessá-lo, percebeu que uma
colônia de formigas tinha ficado presa em uma ilhota formada na enchente.
Por compaixão das pobres criaturas, o garoto
pegou um galho de árvore e o deitou sobre uma parte do riacho até que chegasse
à ilhota. As formigas começaram a atravessar, e ele segurou o galho até que
todas tivessem escapado para a terra.
“Então”, pensou o velho monge, “é por isso
que os deuses prolongaram-lhe os dias”.
No livro The
Art of Power, Thich Nhat Hanh frisa que “a qualidade de sua ação depende da
qualidade de seu ser”. Se você não estiver feliz, por exemplo, não conseguirá
oferecer a verdadeira felicidade a nenhum outro ser. “Portanto, há um vínculo
entre fazer e ser. Se não conseguir ser, você não conseguirá fazer”.
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Um mestre no Caminho
Hoje mais cedo, durante a palestra de Dharma,
Thây comentou detalhadamente como havia lavado o rosto esta manhã. O semblante
sereno do monge estava cheio de autêntica gratidão ao descrever minuciosamente
a maravilhosa sensação da água no rosto e a grande alegria ao reconhecer a
fonte profunda do milagre que é a água:
Meus dedos tocaram essa água que veio de tão
longe, de montanhas distantes ou das profundezas da terra, e milagrosamente,
estava ali em minhas mãos, em meu rosto, com o simples abrir de uma torneira.
Enquanto espalhava devagar essa dádiva no rosto, pensei em toda a vida
terrestre que existe graças à água. Ela estava tão fria e fresca. E eu fiquei
feliz. Minha atenção me fez feliz.
Depois de descrever a experiência
transcendental da lavagem do rosto, Thây contou-nos uma história de sua
infância no Vietnã. Numa excursão escolar, centenas de crianças, em pequenos
grupos, aventuraram-se a subir uma montanha para apreciar do alto a paisagem.
O jovem Thây ficou animado com a aventura
porque ouvira dizer que um eremita, um budista misterioso, vivia e meditava em
solidão naquelas montanhas. Na animação, Thây e as demais crianças de seu grupo
subiram a montanha depressa e, a meio caminho, já haviam bebido toda a água que
levavam. E depois, para decepção de Thây, esse fugidio eremita, um ser quase
semelhante ao Buda, não se encontrava em lugar nenhum.
Quando as crianças se sentaram para comer
seus lanches, Thây resolveu explorar um pouco mais e entrou sozinho no bosque.
Não demorou muito e o escolar ouviu o som de água correndo. Seguiu-o e
encontrou uma nascente de água. Por
estar com muita sede, o futuro mestre zen ficou encantado ao ver a nascente.
Ao levar à água as mãos em concha, Thây caiu
em sono profundo ao lado da nascente e, ao acordar, não sabia onde estava.
Porém uma coisa o futuro mestre zen sabia; havia bebido a água mais deliciosa
do mundo.
O jovem Thây nunca contou aos colegas a sua
descoberta da nascente, por achar que isso poderia diluir a poderosa
experiência espiritual que ela representara para ele. Mas, após muitos anos e
muito estudo, o monge acabou contando a história do eremita e da nascente por
desejar ardentemente que todos encontrassem seu próprio eremita em sua própria
vida.
Como disse Thich Nhat Hanh: “Você já pode ter
visto seu eremita sem o reconhecer. Talvez seu eremita não seja uma nascente.
Ele pode ser uma rocha, uma árvore, uma criança ou uma montanha. Mas quando
tiver encontrado seu eremita, você saberá aonde ir. E encontrará paz”.
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Sobre viajantes e malas: uma
reflexão
Para minha viagem à França, levei duas malas
grandes com todas as coisas de que eu precisaria nos quatro meses de minha
estadia. Nelas estavam minhas roupas favoritas para todos os tipos de ocasião,
livros, os produtos orgânicos para o corpo de que mais gosto e várias outras
coisas. E o que aconteceu foi isto: ambas as malas ficaram pesadas demais,
obrigando-me a pagar as altas taxas por excesso de bagagem no aeroporto.
Depois, arrastar essas malas pelas escadas do
metrô de Paris revelou-se uma coisa praticamente impossível. Dizer que eu
fiquei sobrecarregada é um eufemismo. Por sorte, um mês depois de minha
chegada, surgiu uma luz: uma amiga canadense veio visitar-me em Paris e
concordou em levar consigo para Toronto uma de minhas malas. Minha salvadora!
Mas a mala que ficou estava cheia a ponto de
arrebentar, e eu logo percebi que meus pertences haviam se tornado mais que uma
carga meramente física. Quando afinal fui para a Vila das Ameixeiras, aquela
mala inchada já tinha me deixado mentalmente perturbada.
“Abrir mão de posses materiais é uma boa
prática para abrir mão de ideias”. Quem me dera ter ouvido esse sábio conselho
enquanto estava fazendo aquelas malas. O Buda disse: “Apego a opiniões, apego a
ideias, apego a percepções é o maior obstáculo à verdade”. No livro The Art
of Power, Thich Nhat Hanh explica:
É como subir uma escada. Quando chega ao
quarto degrau, você pode pensar que está no degrau mais alto, que não pode
subir mais, e se prende a esse degrau. Mas na verdade há um quinto degrau; se
quiser chegar a ele, você precisa se dispor a abandonar o quarto. Ideias e
percepções são coisas que devemos abandonar o tempo todo, para dar lugar a
ideias melhores e percepções mais verdadeiras. É por isso que precisamos sempre
nos perguntar: “Estou certo disso?”.
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Leia: Os
monges e eu: como 40 dias no mosteiro
francês de Thich
Nhat
Hanh transformaram minha vida. Mary Paterson. Editora
Pensamento, 2013.







