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Encontrei num albergue de peregrinos um
pedaço de papel pregado em um quadro de avisos um texto muito bonito de autoria
de um samurai anônimo do século XIV. Embora tenha sido escrito visando, imagino
eu, a educação moral de um guerreiro samurai, nesse texto estão condensadas
afirmações que servem como inspiração a todos os tipos de guerreiros, numa
compreensão arquetípica do termo. Em viagens onde a dor, o medo e a solidão se
fazem presentes, onde a busca espiritual, com todas as suas dificuldades e
provações é uma possibilidade, não soa exagerado chamar o viajante de guerreiro.
Acredito que a pessoa que pregou essa mensagem no quadro daquele albergue também
deva pensar assim. Ultreya y Sueseya!
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CREDO DE UM GUERREIRO
Não tenho país: Fiz do céu e da
terra o meu país.
Não tenho lar: Fiz da percepção o meu
lar.
Não tenho vida ou morte: Fiz do fluir e
refluir da respiração a minha vida e a minha morte.
Não tenho poder divino: Fiz da
honestidade o meu poder divino.
Não tenho recursos: Fiz da compreensão
os meus recursos.
Não tenho segredos mágicos: Fiz do
caráter o meu segredo mágico.
Não tenho corpo: Fiz da resistência o
meu corpo.
Não tenho olhos: Fiz do relâmpago os
meus olhos.
Não tenho ouvidos: Fiz da sensibilidade
os meus ouvidos.
Não tenho membros: Fiz da diligência os
meus membros.
Não tenho estratégia: Fiz da mente
aberta a minha estratégia.
Não tenho perspectivas: Fiz de “agarrar
a oportunidade por um fio” as minhas perspectivas.
Não tenho milagres: Fiz da ação correta
os meus milagres.
Não tenho princípios: Fiz da adaptabilidade
a todas as circunstâncias os meus princípios.
Não tenho táticas: Fiz do pouco e do
muito as minhas táticas.
Não tenho talentos: Fiz da agilidade
mental os meus talentos.
Não tenho amigos: Fiz da minha mente o
meu amigo.
Não tenho inimigos: Fiz do descuido o
meu inimigo.
Não tenho armadura: Fiz da benevolência
e da imparcialidade a minha armadura.
Não tenho castelo: Fiz da mente
imutável o meu castelo.
Não tenho espada: Fiz da ausência do
ego a minha espada.
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