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Quando estudei religião na faculdade, num
curso de pós-graduação na PUC aqui de São Paulo, aprendi muita coisa
interessante sobre as mais diversas manifestações religiosas. Das aulas que
tive, nos três anos em que me vi cercado de excelentes mestres que me
apresentaram autores que provavelmente jamais teria tido a chance de
conhecer e que hoje considero fundamentais em minha formação, guardo com
carinho as do professor Fernando Torres-Londoño, que nos apresentou o
Islamismo.
Sempre tive uma simpatia enorme pelo Islã por
conta da face mística da religião representada pelo Sufismo, ainda que só tenha
lido textos introdutórios sobre o tema e visto alguns documentários na TV sobre
os dervixes da ordem Mevlev, aqueles que rodopiam lindamente num ato devocional
de entrega e busca divinos. Aparece lá no Baraka,
um documentário espetacular do Ron Fricke, uma cena linda que encanta a todos
que assistem ao filme pela primeira vez, dos dervixes rodando numa sala de
braços abertos, vestes brancas, flutuando em êxtase... coisa mais bela não há.
Gostar dos mistérios é fácil, mas eis que me
pego fascinado pela história do Islã, pela vida do Profeta, pela beleza
encontrada no livro sagrado dos muçulmanos, me surpreendendo ao saber que
Maria, mãe de Jesus Cristo é mais citada no Alcorão do que na própria Bíblia,
você sabia disso? (mais precisamente 34 vezes, fui pesquisar); aliás, Maria é a
única mulher citada pelo nome próprio no livro sagrado dos muçulmanos e por
eles muito reverenciada.
Não irei me estender muito sobre o islamismo,
porque nosso interesse aqui é outro, mas gostaria de acrescentar que para o
Islã existem cinco pilares que formam a estrutura de vida dos muçulmanos, a
saber: O Testemunho de fé, a Oração, a Caridade compulsória (o
zakat), o Jejum no mês de Ramadã e a Peregrinação
à Meca (Hajj).
Já li muitos textos sobre o Hajj, porque esse tipo de experiência
religiosa é um tema que me atrai em particular; entretanto, nunca havia lido um
relato não acadêmico ou que não tivesse sido escrito de maneira a exaltar
exclusivamente a religião. Sentia falta de ler uma narrativa com um olhar mais
antropológico, sobre o comportamento das pessoas que participam do Hajj, a
ambientação, os lugares, os ritos... e encontrei um texto que vai direto ao
ponto, escrito há quase 60 anos por um norte-americano de origem muçulmana
chamado Ahmad Kamal para a Revista Reader’s
Digest, (Seleções, no Brasil), intitulado "Eu vi a cidade proibida".
É um relato cru, emocionante e imparcial,
sobre uma das experiências mais transformadoras que alguém pode viver na vida.
Se você tiver um pouco de curiosidade, convido-o a ler a narrativa do Ahmad que
resgato com alegria de um velho livro que tive a sorte de encontrar largado no
chão de um sebo. Salaam Aleikum! (Que a Paz esteja com você)
♣
Eu vi a cidade proibida, by Ahmad Kamal
Eu me encontrava em Java escrevendo um livro
quando resolvi fazer a peregrinação sagrada à mais secreta e proibida de todas
as cidades – Meca, o lugar onde nasceu Maomé, na Arábia.
Muitos aventureiros não muçulmanos já tentaram
entrar furtivamente nessa cidade que, no ano 630 da era cristã, o Profeta Maomé
fechou para sempre para o mundo exterior. Muitos voltaram antes de por o pé no
solo sagrado, aniquilados pelo calor. Outros prosseguiram, penetrando cada vez
mais nos mistérios da peregrinação, até que cometeram algum erro no ritual.
Desmascarados, foram então massacrados pelos fanáticos ou morreram sob a espada
do carrasco.
Um rosto claro como o meu não podia deixar de
despertar suspeitas; meu cabelo é louro, minha feição nórdica. Além disso, sou
americano cem por cento, pois nasci numa estância de gado no Colorado. Sou, porém,
de origem maometana, descendente dos turcos setentrionais da Rússia e, em
criança, aprendi muitas das preces maometanas. Para ajudar-me ainda mais, em
muitos anos de viagem pelo Médio e Extremo Oriente, acrescentei várias línguas
ao inglês e ao turco que aprendi quando menino. Por fim, um amigo javanês
chamado Amir Izzet, que já estivera em Meca, decidiu acompanhar-me. Seria um
companheiro inestimável.
Em fins de agosto de 1952, eu e Amir Izzet
tomamos um avião em Jacarta, recostamo-nos nas poltronas e murmuramos baixinho:
“Sejam em nome de Deus a viagem e a chegada”. Era a primeira prece do ritual da
peregrinação e eu estava procurando decorar todas elas.
Quando chegamos a Dharan, Na Saudi-Arábia, a
temperatura marcava 46 graus. No dia anterior, 14 peregrinos haviam morrido de
insolação. Eram muitos os que trocavam ali os seus trajes nacionais pelo
vestuário da peregrinação. Reunidos em torno das bicas de água fora do
aeroporto, procediam às abluções do cerimonial e envolviam-se em simples mantos
brancos, sinal de que renunciavam, entre outras coisas, à violência, às
relações conjugais, ao uso de perfume, joias e adornos pessoais, até haverem
cumprido os ritos que havia para cumprir.
Nobres e plebeus, todos usavam mantos
idênticos; alguns mais previdentes abriam guarda-sóis. Uma vez feitos os votos
e envergadas as vestes sagradas, ninguém pode cobrir a cabeça antes do término
da peregrinação.
Quando partimos de avião para Jidá, o porto
de Meca no Mar Vermelho, a temperatura subira a 52 graus. Convergiam para aí
aviões de transporte da Somália, Etiópia, do Sudão, do Egito, da Síria, do
Iraque, da Indonésia, todos levando peregrinos. O aeroporto era um verdadeiro
pandemônio. Centenas de peregrinos de todas as cores andavam, suados, de um
lado para outro, à procura das suas bagagens, que eram quase sempre embrulhos
amarrados com corda, difíceis de distinguir uns dos outros. Não havia sistema,
nem organização, nem língua comum. Mulheres egípcias, habituadas a soltar
gritos agudos quando zangadas ou aflitas, enchiam a noite com o seu berreiro.
Um manto de umidade incrivelmente opressivo
cobre Jidá. Em vez de se evaporar e refrescar o corpo, a transpiração fica
aderida à pele como um ácido, infetando quase todos com brotoejas que coçam
terrivelmente. Amir Izzet já tremia todo sob aquele tormento sem alívio.
Um árabe examinou o meu passaporte americano.
Esperava ter na sua frente mais um técnico em petróleo... e descobriu um visto
de peregrino. Mais que depressa convocou outros funcionários. Interrogado no
meio da confusão, expliquei a minha origem racial. Houve uma pausa sinistra e
vazia. Vi-me cercado de olhares desconfiados e frios.
Apareceu o Dr. Fahmi Murat, o médico da
quarentena, que era de origem turco-tártara; falava o mesmo dialeto turco que
eu. Assegurou que eu não era um impostor e, assim, pude respirar.
Conseguimos alojamento no Hotel Al-Taysir.
Havia mais seis peregrinos em nosso quarto, jornalistas maometanos do Cairo, de
Tunes e de Teerã. Todos nós teríamos preferido a terra dura àquelas camas
imundas; mas os peregrinos, mais de 300.000, tinham transformado as ruas de Jidá
e o deserto em volta numa vasta estrumeira.
Os habitantes de Jidá e de Meca consideram os
fiéis uma presa enviada por Deus. O Al-Taysir, inferior a qualquer hotel de
última classe, cobrou-nos o equivalente a 200 cruzeiros por noite. Ali não
circula dinheiro em papel e os peregrinos que chegavam tinham de comprar, com
prejuízo, moedas de ouro e de prata dos cambistas de Jidá. Os transportes eram
uma concessão particular do ministro das Finanças, que aumentava os preços das
passagens à medida que os navios despejavam gente.
Em Jidá, a 72 km de Meca, todos os peregrinos
têm de trocar os seus passaportes por salvo-condutos. Tentar passar pelos
postos de fiscalização da estrada de Meca sem esse documento seria morte certa.
Disseram-nos que dois incréus de Jerusalém haviam sido descobertos e mortos a
pedradas na estrada de Meca. “Foi tudo muito rápido”, disse um árabe muito
naturalmente. “Depois que eles morreram, descobriu-se que os salvo-condutos de
ambos estavam em ordem; mas eram louros e levavam máquinas fotográficas. Se
morreram como mártires, devem estar no Paraíso. Deus seja louvado!”
Amir Izzet e eu passamos três dias esperando
nervosamente o meu salvo-conduto. “Os funcionários estão assoberbados de
serviço”, disse o velho agente que aparentemente estava tratando de nossos
papéis. No quarto dia pela manhã, cada vez mais inquieto, meti, em dado momento,
a mão no bolso para coçar a coxa, pois também estava atacado de brotoejas – e
vi os olhinhos do agente cintilarem de avidez. Tirei do bolso uma libra de
ouro, e daí a uma hora estava com o salvo-conduto na mão.
Partimos pela estrada de Meca ao escurecer,
com o calor ainda fortíssimo. Peregrinos em êxtase fluíam para o interior
através daquela desolação de fornalha, em automóveis, caminhões e ônibus
desmantelados; em lombo de camelo e de burro; e a pé. Algumas famílias
caminhavam havia dois anos, tendo atravessado todo o continente africano. Eram
pretos pobres de Serra Leoa e de Gana. Três vezes naquela congestionada estrada
fomos detidos em sujos postos de guarda e examinados pela polícia árabe armada.
E então, subitamente, as portas da cidade de Meca surgiram no meio da noite
empoeirada.
A luz dos faróis dos carros rendilhava a
sufocante escuridão; árabes com odres cheios de água ofereciam-se para matar a
sede em troca de moedas de prata. O calor pesava sobre nós como um animal arquejante,
mas a noite estava cheia de preces delirantes. Os peregrinos não se lembravam
nem se importavam de terem sido explorados a cada passo de sua jornada.
Buzinando forte, passou por nós rapidamente
uma caravana de carros de luxo. Era um potentado árabe com suas mulheres,
escoltado à frente e à retaguarda por jipes cheios de escravos armados...
atravessamos uma rampa cheia de buracos
e descemos para as dispersas luzes amarelas de Meca. Senti os cabelos
arrepiarem-se. Estávamos na cidade secreta.
Todos os peregrinos que chegam a Meca correm
para a Mesquita do Santuário. Ali, no grande pátio interno, fica a Caaba,
construção de pedra coberta de panos azuis, sem janelas e apenas com uma porta
– “o edifício mais antigo do mundo, o templo junto ao qual Adão, aflito, rendeu
culto a Deus depois da sua expulsão do Paraíso”. Esse é o lugar mais sagrado do
Islã; onde quer que se ajoelhem para orar, os maometanos voltam-se na direção
de Meca e da Caaba, de onde, segundo se crê, as preces, pronunciadas em
uníssono, convergem de todos os cantos da Terra e sobem verticalmente à atenção
de Deus.
Encontramos um lugar em frente à porta da
Caaba para dizer a prece preparatória. Graças a um claro momentâneo no
turbilhão de gente, avistei a sagrada pedra preta, meteorito erguido sobre um
altar a um canto da Caaba – a pedra que, segundo a tradição sagrada, foi levada
a Abraão e Ismael pelo Arcanjo Gabriel durante a reconstrução do templo depois
do Dilúvio.
O alarido da multidão rezando constituía como
que um trovão antifônico para os relâmpagos de calor que riscavam as trevas.
Muita gente chorava. Terminadas as nossas preces, tínhamos, antes de dormir, de
percorrer sete vezes o itinerário sagrado entre os montes As-Safa e Al-Marwah. Fora
ali que Agar, a serva egípcia de Abraão, andara correndo desorientada atrás de
miragens e à procura de água para si e para o pequeno Ismael.
Lutamos para romper o refluxo humano,
tentando correr por onde Agar havia corrido. No mínimo 50 mil pessoas se moviam
incessantemente entre os dois montes, entoando as preces rituais. Um moribundo
observava o rito do fundo de uma vacilante liteira levada à cabeça de
carregadores.
As nossas acomodações para o resto daquela
noite, partilhadas com peregrinos javaneses, foram uns catres no quinto andar de
uma estrutura de pedra com séculos de idade e que parecia uma masmorra. Às 10
horas da manhã seguinte, numa temperatura de 46 graus (160 peregrinos haviam
morrido nas 24 horas anteriores), fomos ao coberto Mas’a para fazer uma visita
às barracas do bazar; havia ali toneladas de rosários de âmbar, de pedras
preciosas e de madeira perfumada. Havia sedas e almíscar, incenso, essências,
água de rosas e bebidas refrigerantes.
Na rua escaldante um mercador vendia água
suja açucarada aos passantes. Aproximou-se um paquistanês de olhos fundos,
mostrando a bolsa vazia e a língua grossa e pedindo a caridade de um gole. No
momento em que o vendedor enxotava o homem, apressamo-nos e pagamos-lhe um copo
da beberagem. Isso provocou um protesto indignado do vendedor.
- O Alcorão diz que quem não tiver recursos
para a viagem não deve fazer a peregrinação. Vocês aumentaram o sofrimento
desse homem prolongando-lhe a agonia!
Alguns dos ritos mais importantes da
peregrinação têm lugar no deserto, no Vale de Arafat. À tardinha, os caminhões
que haviam transportado tendas e provisões para lá voltavam com os cadáveres
daqueles que, já não dispondo de dinheiro para o transporte, tinham partido a
pé para aquele inferno.
Ao pôr do sol a cidade secreta estremeceu e,
em meio de uma vasta cortina de poeira, despejou no deserto quase todos os
seres humanos que a enchiam. Eu e Amir viajamos no alto de um ônibus
desconjuntado, juntamente com 20 javaneses e dois novilhos amarrados e
destinados ao sacrifício de sangue.
A uma hora e um quarto de Meca entramos no
Vale de Arafat. Mais de 80 mil tendas estavam armadas no chão pedregoso do
árido vale em torno de uma montanha isolada de rocha nua que se projetava do
centro.
“Quando Adão e Eva foram expulsos do Paraíso
ficaram separados. Durante 200 anos se procuraram através da terra, sem
descansar, até que os próprios céus se comoveram diante de tanto amor. Foi aí
que eles se encontraram. Do alto desta montanha, Eva viu ao longe Adão vindo ao
seu encontro”.
Acima do rugido dos motores e do balir dos
carneiros condenados ao sacrifício, reboava o imenso marulho das vozes
recitando o zikr, a hipnótica
repetição de louvor a Deus.
Uma hora depois do nascer do sol, o
termômetro marcava 53 graus; um egípcio tropeçou nas cordas da nossa tenda e
teve um colapso. Um sírio morreu, esguichando sangue do nariz. Um aguadeiro
árabe descansou no chão, com gestos vacilantes, as latas de querosene que
carregava num varal e caiu junto delas.
Apesar de tudo, os crentes continuavam a
chegar, pois quem não estivesse no vale à passagem do sol pelo seu meridiano
perderia a peregrinação. Era o Dia da Absolvição, quando Deus se revelaria aos
Seus servos.
Ao meio-dia em ponto, todos os que não estavam
mortos se levantaram e se voltaram para a montanha, que flutuava num lago
mercuriado – uma miragem. As preces começaram, elevando-se da multidão qual
imensa sinfonia, acorde após acorde, e continuaram durante horas.
Os peregrinos capazes fisicamente permaneceram
de pé nas suas tendas escaldantes até que o sol desapareceu atrás do horizonte.
Então, de repente, a grande multidão fugiu do vale sagrado. Também isso faz
parte do ritual, embora não se saiba mais a sua significação.
A multidão nos arrastou para um caminho mais
baixo, onde fomos obrigados a ficar à margem enquanto passava uma coluna de
caminhões, tão lotados de soldados que os fuzis eram levados suspensos acima da
cabeça. Depois passou o rei numa limusine veloz, seguido de uma escolta.
Agarrados à coberta do nosso arquejante
ônibus, seguimos para a arruinada aldeia de Mina, ponto final da peregrinação,
numa torrente homicida de tráfego. Vimos dois carros se chocarem, saltarem cada
um para um lado e correrem desgovernados pelo deserto, onde se arrebentaram nas
pedras, capotando e jogando longe os passageiros. Ninguém parou. Quem o
fizesse, seria esmagado pela onda que vinha atrás.
Foi em Mina que Abraão se preparou para
sacrificar o filho (Gênese, XXII) quando, por intercessão divina, um carneiro
apareceu para tomar o lugar do menino. Ali, na manhã escaldante, o mar humano
invadiu a rua onde se veem três monumentos de pedra e cal que marcam os lugares
onde Satanás apareceu três vezes ao filho de Abraão, tentando o menino a fugir,
e por três vezes foi afugentado a pedradas. Durante a marcha desde Arafat todos
os peregrinos se haviam munido de pedras com as quais durante três manhãs
apedrejariam ritualmente as colunas.
Passamos quase todo o segundo dia deitados em
nosso acampamento, arfando com falta de ar. Só saímos à noite, vindo então a
saber que 4.411 peregrinos haviam morrido desde o amanhecer; ás 11:20 da manhã,
o mercúrio do termômetro subira a 61 graus centígrados!
Nessa noite acordei sacudido por Amir Izzet.
As brotoejas o martirizavam tanto que ele respirava com soluços e gemidos
involuntários. Acima de nós, num muro arruinado, jaziam dos cadáveres em começo
de putrefação. Não suportamos mais.
Cobrindo o nariz com o manto, passamos por cima
dos peregrinos javaneses adormecidos e atravessamos às pressas a aldeia;
atiramos as pedras que nos restavam nas três colunas de Satanás para cumprir o
ritual.
Além do cimo do vale, compramos passagem num
carro e daí a uma hora estávamos em Meca. Uma semana depois eu me encontrava em
Nova Iorque. Tinha assistido à mais antiga cerimônia religiosa do mundo – um
ritual milênios mais velho do que a religião que o adotou.
♣
Texto extraído da coleção Janelas para o Mundo, vol 35, Seleções do Reader's Digest . 1a edição. São Paulo. Editora Ypiranga S/A, 1960.
Para ir mais longe, Karen Armstrong:
O Islã. Ed Objetiva.
Maomé: uma biografia do Profeta. Companhia
das Letras.





















