.
Não sou muito de mar, confesso, porque amo as montanhas e a segurança dos meus pés no chão. Mas um lado meu ama as histórias de aventuras marítimas, sobretudo as de naufrágios e de bravos sobreviventes que acabam indo parar em uma ilha perdida desses mares sem fim.
Também adoro a imagem dos faróis, tão simbólicos em suas estruturas salvadoras, sua solidão imponente, quem não se encanta? E temos a impressão, nós que vivemos longe do mar, que parecem nem existir os tais faróis que vemos reproduzidos por aí, em pôsteres e quadrinhos mal pintados das lojinhas de souvenir de cidades litorâneas. E foi assim, lembrando de uma imagem, a mesma que você vê aí abaixo, que Paco Nadal se inspirou, durante uma viagem, para escrever sobre uma foto, que é linda e fantástica e cuja história merece ser contada.
♣
Como foi feita essa foto? O faroleiro morreu
ao ser atingido por uma onda? Eu me fiz essa pergunta quando vi pela primeira
vez essa imagem impactante em um pôster já nem me recordo onde. Depois a vi
centenas de vezes em lugares diferentes, como você também provavelmente já deve
ter visto: é um dos pôsteres mais vendidos em lojas de lembranças e
recordações.
E olha onde me encontro hoje: na ilha
francesa de Ouessant, na Finisterre da Bretanha, quando tropeço sem querer com
a história dessa foto e do faroleiro que a protagoniza.
O farol se chama La Jument e é uma das
lanternas de mar mais espetaculares da costa francesa; está a dois quilômetros
mar adentro da ilha de Ouessant e foi construído entre 1904 e 1911 para
sinalizar um ponto perigosíssimo onde antes houve muitos naufrágios.
A história da foto aconteceu em 21 de dezembro
de 1989. O fotógrafo francês especializado em imagens de faróis, Jean Guichard,
sobrevoava de helicóptero La Jument em um dia de forte tormenta buscando a foto
perfeita dessas ondas gigantes do Atlântico golpeando a estrutura do farol.
Dentro, o faroleiro Theophile Malgorn, que naquela época rondava os trinta
anos, escutou as repetidas passagens do helicóptero e pensou que algo estranho
estivesse acontecendo; podia ser que o piloto estivesse tentando entrar em
contato com ele por conta de um naufrágio ou por algum acidente. E em uma
atitude insana, abriu a porta para ver o que se passava.
A ação completa durou apenas dois segundos. Guichard
viu aquele homem na porta e seu instinto de fotógrafo lhe disse que ali havia
uma composição perfeita: o homem e a força da natureza. Pôs-se a disparar sua
câmera alucinadamente até quase o momento em que uma onda gigantesca começava a
abraçar com toneladas de água embravecida a estrutura do farol. Nesse mesmo
instante, o faroleiro Malgorn – assomado junto à porta do farol, escutou uma
trovoada seca, como um estampido brutal (o impacto da onda contra a frente do
farol) e soube que havia cometido um erro tremendo. Tão rápido como abriu
voltou a fechar a porta, apenas um milésimo de segundo antes que a onda
arrasasse tudo. Estava vivo por um milagre.
No carretel da câmera fotográfica de Guichard
ficaram impressas 9 imagens – as que deram tempo de serem disparadas pelo motor
do equipamento e que fariam o fotógrafo famoso por toda sua vida e com as quais,
em 1990, conquistaria o segundo lugar na premiação da World Press Photo (o
primeiro foi para a célebre imagem de um manifestante chinês parando sozinho
uma coluna de tanques de combate em
Tianammen).
O faroleiro Theophile Malgorn continua vivendo
na ilha de Ouessant e não quer que ninguém lhe volte a perguntar sobre a
maldita foto. Seus amigos me contaram que ele se aborreceu muito naquele
momento porque o haviam colocado em uma situação mortal de maneira
irresponsável e além do mais por um motivo comercial; ele saiu para ver o que
estava acontecendo por profissionalismo e isso quase lhe custou a vida. Mas
pouco tempo depois Guichard o visitou em sua casa, presenteou-lhe com uma foto
autografada daquele “momento decisivo” – como diria Cartier Bresson – e acabaram
ficando muito amigos.
O último faroleiro abandonou La Jument em 26
de julho de 1991, desde então convertido em um farol automático. Theophile é
agora um telecontrolador do farol de Creac’h, também em Ouessant. Os vizinhos
costumam vê-lo passear com seus cães pelo sendeiro que margeia a costa da ilha,
com o olhar perdido no mar bravio batendo nas falésias, observando a silhueta
escura dos faróis onde, quando jovem, passou grandes momentos de solidão em um quarto
úmido e escuro.
Os faroleiros são (ou eram) gente muito
especial. Seres solitários e pouco falantes, artistas com todo o tempo do mundo
para escrever, pintar ou esculpir. Filósofos de uma vida que muito poucos
teriam sido capazes de suportar.
É por isso que eles acham difícil adaptar-se
a uma vida sedentária, controlando um farol diante de um computador em uma sala
limpa e aquecida depois de haverem sido os últimos românticos do mar; filósofos
solitários que a cada noite acendiam luzes que salvariam vidas de navegantes
anônimos que nunca lhes conheceriam nem encontrariam ocasião de agradecê-los.
Como Theophile Malgorn.
♣
Fonte: Blog do Paco Nadal, El País

