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Há muitos motivos que levam alguém a viajar para além do
simples turismo de lazer. Há gente que viaja a trabalho e há os que trabalham
para viajar; há os que viajam para ir estudar e há os que estudam para poder
viajar; há os que viajam para se encontrar e há os que viajam para se perder;
há os que viajam para ajudar e há os que viajam para serem ajudados; há quem
viaje para curar e há os que viajam para serem curados e são destes últimos de
quem eu gostaria de falar dessa vez, das pessoas que usam a viagem como um
processo de cura.
Solvitur
ambulando – isso se resolve caminhando, uma máxima atribuída a Diógenes
e a Santo Agostinho, seria uma boa epígrafe para essa postagem. Isso porque
acabei de ler Ghost Rider, A Estrada da
Cura, narrativa de viagem escrita por Neil Peart que fez da estrada a
medicina para curar sua alma sofrida.
Não li muitos relatos de viagem que abordassem
exclusivamente desse tema, talvez não tenha lido nenhum, mas com certeza me
lembro de várias passagens de narrativas de viajantes discorrendo sobre suas
perdas, suas tristezas e amarguras em algum episódio ocorrido durante a viagem.
Entretanto, conheci muitas pessoas que viajavam para se
curar de suas feridas emocionais. Acontecia com frequência, quando fui
voluntário na Espanha em alguns refúgios por um período de seis meses alguns
anos atrás. Eu nada podia oferecer, naquelas ocasiões, a não ser uma acolhida
calorosa e um prato de comida, além de um ombro amigo.
Foi assim que conheci uma brasileira, que resolvera fazer
o Caminho de Santiago logo após um tratamento quimioterápico. Visivelmente
debilitada, andava devagarinho, mas ainda assim muito determinada em chegar ao
seu destino. Havia perdido alguns dentes durante a peregrinação, que ia
guardando numa latinha de balas, como testemunho de sua entrega. Sua dor física
era incontestável, assim como a alegria que sentia em estar ali, viva,
caminhando seus oitocentos quilômetros. Por que resolvera fazer a peregrinação,
o que a motivara? - perguntei-lhe. Para curar-me, foi o que ela me respondeu.
Havia tido um sonho, após o fim da quimioterapia, em que uma cigana lhe dissera
para visitar o túmulo de Santiago em Espanha. E assim o fez.
Conheci uma mexicana, linda, jovem, que chegou ao refúgio
triste, muito emocionada, a quem vi chorar num canto da sala após o jantar. Foi
ter com o cura, que lhe disse para voltar àquele sítio depois que chegasse a
Santiago. Estava de volta alguns dias depois. Era outra mulher, havia
encontrado a paz; caminhava para curar a tristeza da mãe recém-falecida. Diz
que o Caminho a curou. Acreditei de imediato. Coisas do Caminho.
Recebi um rapaz que também viajava para curar sua alma
triste. Levava na mochila as cinzas do pai, que havia feito o mesmo trajeto no
ano anterior. Disse que lhe prestava uma homenagem e que em muitos momentos na
caminhada sentia que o pai lhe acompanhava. Estava feliz porque descobrira que
a morte não existe, foram suas palavras, e o Caminho o estava curando, pasito a paso. Anos depois li a mesma
história num livro e também assisti a um filme cujo enredo se assemelha muito a
esse. O Caminho cura.
Neil Peart não é um peregrino a Santiago, mas sua
história é parecida com a dos peregrinos citados acima. No período de um ano,
pouquinho mais talvez, perdeu a filha única em um acidente de carro e meses
mais tarde, a esposa, de um câncer avassalador. O Neil é um cara famoso,
baterista da mais prestigiada banda de rock canadense, o Rush, e escreve tão
bem quanto maneja suas baquetas. Em A
estrada da cura ficamos conhecendo sua história sob a perspectiva do luto.
Neil viaja para curar sua “pequena alma de bebê”, como ele escreve. Enquanto
atravessa o Canadá, os Estados Unidos e o México de moto vamos acompanhando sua
jornada externa e também sua viagem interior pela estrada da cura.
Há muito para se refletir num relato como esse. Pensei em
muitas coisas enquanto lia essa obra. Talvez seja necessário ter passado por
alguma experiência semelhante na vida para poder entender o sentimento de Neil,
sua conduta enquanto a viagem se desenrola.
Talvez porque tenha perdido meu pai enquanto estava
viajando e não ter podido voltar a tempo para me despedir eu tenha entendido
uma fração do que é estar sozinho vivenciando o processo de luto. No meu caso,
não foi uma atitude opcional, diferente do Neil que partiu para buscar algum
tipo de conforto bem longe de casa, montado numa moto sem rumo totalmente
definido e sem tempo de voltar.
(...) Logo no início desse duplo pesadelo, lembro de ter
pensado: “Como alguém sobrevive a uma coisa dessas? E, se sobrevive, em que
estado esse alguém ressurge do outro lado?
(...) Viajar tem me proporcionado pequenos momentos de
Verdade e Beleza (estradas, paisagens, vida selvagem) e até mesmo alguns
momentos efêmeros em que curto a vida novamente. Ainda há lágrimas e humores
sombrios, e aquele onipresente “buraco negro profundo”, mas é sempre melhor
estar em movimento.
O autor constrói sua narrativa com a ajuda de cartas,
inúmeras cartas e postais que enviava a pessoas mais próximas, especialmente seu melhor
amigo, Brutus. Aliás, não bastasse a perda da mulher e da filha (e também do
cachorro), Neil ainda teve que suportar a tristeza de ver seu melhor amigo ser
preso, por conta de um ato ilícito de comércio de ervas. Como se vê, nada é tão
ruim que não possa piorar, mas isso faz parte do jogo. Diz Ramakrishna, grande
mestre indiano, que o Universo é uma grande lila
(em sânscrito, “brincadeira”, “jogo Divino”) do Senhor, em que jogamos o jogo
de viver. Creio que o Neil entenderia muito bem essa metáfora.
Não é preciso dizer que cruzar dois ou três países
montado em uma moto bacana sugere uma experiência cheia de aventuras. Elas aparecem,
mas na narrativa do Neil tudo é muito comedido, o que fez com que eu criasse
uma imagem muito simpática dele, de um homem que não escreve para se gabar de
seus atos, porque fácil seria botar uma banca de Hell’s Angels e sair contando vantagens, mas longe disso. E ele bem
que poderia.
Pode ser que o luto humanize mais as pessoas, que nesse
jogo divino a lição seja a de que somos seres indefesos, por mais que tentemos
nos valer de armaduras e máscaras; não há como fugir do destino que nos aguarda
inevitavelmente ali na esquina, a morte. Há quem possa afirmar não ter medo de
morrer, mas dificilmente haverá alguém que não tenha medo de perder uma pessoa
amada, um ente querido. A morte sempre será temida, é um fato, mas é preciso
sempre arrumar forças para conseguir continuar na brincadeira até que chegue sua
própria vez.
(...) Eu não tinha um motivo de verdade para continuar, não tinha interesse algum na vida, no
trabalho ou no mundo lá fora. Mas, ao contrário de Jackie, que sem dúvida
desejava a própria morte, eu parecia estar blindado por algum instinto de
sobrevivência, algum reflexo interno que se atinha à convicção de que “algo
aconteceria”.
Devido a uma força (ou falha) de caráter, nunca me
questionei “por que” deveria sobreviver, mas apenas “como” o faria – embora
essa fosse uma questão relevante o suficiente para ocupar minha mente na época.
(...) Eu não sabia, mas ao longo daquele tempo de luto, tristeza, desolação e
completo desespero, alguma coisa dentro de mim parecia determinada a seguir em
frente. Algo aconteceria.
(...) De qualquer maneira, agora eu partia com a minha
motocicleta para tentar descobrir que tipo de pessoa eu me tornaria e em que
tipo de mundo eu viveria.
E então foi assim que Neil decidiu tentar se curar,
viajando solitariamente por longas estradas. Não que tenha sido essa sua
primeira busca de ajuda; passou por outras etapas, comum nesse processo de
luto: terapia, conforto de amigos e parentes, leitura de obras específicas
sobre o tema, até chegar ao ponto de “abandonar o lar”. De novo, como sempre, a
clássica jornada mítica do Herói que parte em uma jornada de busca. Por tudo o
que viveu e sofreu, ao fim da leitura podemos sentir que Neil cumpriu com
sucesso sua jornada de Herói.
Apesar de ter gostado bastante da leitura, não acredito
que agradará a qualquer leitor: é preciso que haja alguma empatia com o autor,
que a todo instante, entre chegadas e partidas, retoma o melancólico tema da
perda. Faz parte do luto contar e recontar o trágico, como se com o tempo a dor
fosse se diluindo até que continuar vivendo não se torne um fardo. Quem nunca
perdeu alguém que amasse muito, os pais, um irmão, um filho ou um amigo íntimo,
talvez se sinta entediado com a narrativa do Neil. Por outro lado, aqueles que
perderam uma pessoa amada hão de se beneficiar com essa leitura, uma vez que o
autor consegue passar uma mensagem sincera do que é conseguir continuar levando
a vida quando uma parte de você foi embora para sempre.
(...) Naquela manhã, eu havia escrito um título otimista
na frente do meu diário, “A estrada da cura”, e depois de uma salada e de um
“combo triplo” de costelinhas, souvlaki e camarão, escrevi as seguintes
reflexões sobre o tema:
Enquanto
me empanturrava, eu pensava que me sinto melhor hoje à noite do que jamais me
senti em amis de um ano. Alcancei a “imersão” na Jornada, o que costumava ser
um estado de espírito obrigatoriamente limitado: principalmente quando era
interrompido pelo trabalho. Ou pelo fim da jornada. Na presente situação,
nenhuma das duas coisas é uma possibilidade real...
Talvez
hoje tenham sido 950 quilômetros de cura. “Não é sempre
agradável pensar isso?”
Esta frase final de O
sol também se levanta, obra de Ernest Hemingway, tinha adquirido um sentido
novo para mim nos últimos tempos, na ironia consciente de alimentar um desejo
sem acreditar na sua possibilidade. Eu não acreditava realmente que chegaria ao
destino chamado “cura”, mas pelo menos eu havia começado a acreditar na
estrada, e isso era o suficiente para me manter rumo ao oeste.
“Você
pode levar essas rodas até o final da estrada. Você ainda encontrará o passado
logo atrás de você.”
Neil Peart
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Leia: Ghost Rider
– a estrada da cura. Neil Peart. Ed
Belas Letras, 2014.










