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Faz pouco tempo estava assistindo a um
programa de televisão em que dois homens vivem viajando pelos Estados Unidos à
procura de raridades, objetos antigos que as pessoas guardam em casa e que
algumas vezes valem um bom dinheiro, dependendo do estado de conservação em que
se encontram e do potencial de venda, na maioria das vezes, para
colecionadores.
Foram parar numa casa no Texas onde a dona,
uma enfermeira aposentada, estava disposta a vender quase todos os itens de sua
eclética coleção de quinquilharias - de tudo um pouco: brinquedos, latas,
calotas de carros, ferramentas, sabonetes de hotel, revistas, instrumentos
médicos, nada combinando com nada, mas a cabeça de um colecionador compulsivo
não parece seguir um critério lógico de qualquer maneira.
Entretanto, o que me chamou a atenção no
episódio não foi a quantidade absurda de bugigangas daquela casa, mas a atitude
dos caçadores de relíquias. A dinâmica do negócio é simples: eles pegam o que
lhes interessa e perguntam à pessoa quanto ela quer pelo objeto. Normalmente o
dono pede um valor e eles regateiam, até chegarem a um preço que seja do agrado
de ambas as partes, algo normal nesse tipo de negócio. O que eu não esperava
ver era o contrário do habitual, quando ao perguntarem quanto uma senhora queria
por uma peça de um maquinário de trem ela respondeu 70 dólares e eles lhe
ofereceram $170, porque aquele era o valor mínimo que alguém poderia oferecer
pela peça. A mulher mal pode acreditar, assim como eu, pelo que pensei: que bom
que existe gente assim no mundo.
Escrevo sobre isso porque muitas vezes
acontece a mesma coisa comigo quando encontro em um sebo um livro que buscava
há algum tempo e ao encontrá-lo me surpreendo com o valor irrisório indicado na
contracapa, a lápis. Será possível? Esse valor deve estar errado, como assim?
Mas quando o livreiro me confirma o preço eu sinto um misto de felicidade e de
decepção, afinal de contas meu objeto de desejo vale muito mais do que aquele
valor insignificante. A decepção, claro, passa rapidinho, e a felicidade segue
comigo na volta a casa.
Foi o que me aconteceu quando consegui um
exemplar fora de catálogo do pequeno e fascinante livro El Caminante (Caminhada, em português), do bem-aventurado escritor alemão Hermann Hesse (e se
não estou enganado, foi uma indicação de leitura do colega Davi, do blog
vousairparaverocéu).
Tive que esperar quarenta dias para ter o
livro em mãos, que arrematei pela Abebooks
e que me foi enviado por um livreiro do Chile. Trata-se de uma edição espanhola
de 1981 da obra de Hesse e tem o tamanho padrão de um livro de bolso: El caminante: prosas, poemas y acuarelas del
autor de Siddharta. São apenas 105 páginas com 23 pequenos relatos e poemas
inspirados nos passeios que Hermann Hesse fez pela região dos Alpes em 1918. A
natureza e a solidão andam de mãos dadas nessa coletânea de Hesse, que
aproveitou a beleza dos lugares por onde andou para pintar suas aquarelas, de
modo que o pequeno volume dessas impressões do viajante pelos vales e povoados
suíços ainda brinda o leitor com os singelos traços aquarelados do escritor.
O exemplar usado que tenho em mãos está cheio
de anotações a lápis, mas ao invés de me causar desagrado, fiquei curioso ao
comparar aquilo que lia com o que o antigo dono havia anotado e que deveria ter
lhe parecido importante e de uma maneira estranha senti que minha leitura de
certo modo invadia a intimidade de alguém, que pelo contexto das anotações,
deveria estar vivendo um intenso período de melancolia.
Melancolia é uma palavra que se encaixa bem
em diversos momentos dessa obra, que traz à luz muitas passagens da vida do
autor e também seu apreço pela solidão e pelos mistérios da vida, a
espiritualidade sempre latente em sua obra: “Eu confio que Deus está em mim /
confio que minha tarefa seja sagrada / e desta confiança vivo”, momento
inspirador em que fala sobre as árvores, e que continua assim:
Quando estamos tristes e mal conseguindo
suportar a vida, uma árvore pode nos falar assim: Aquieta-te! Aquieta-te!
Contempla-me! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Esses são pensamentos
infantis. Deixe que Deus fale dentro de ti que logo esses pensamentos se
emudecerão. Tu estás triste porque teu caminho te afasta da mãe e da pátria.
Mas a cada passo teu e a cada dia te aproximas mais de tua mãe. A pátria não se
encontra nem aqui, nem ali; ou a pátria está em teu interior, ou não está em
parte alguma.
A vontade de vagamundear faz meu coração
acelerar quando ouço ao entardecer o sussurro das árvores; se escutares por um
longo momento e com a quietude necessária, vais aprender também a essência e o
sentido desta necessidade do caminhante. Não é, como parece, uma fuga do sofrimento,
senão a nostalgia da pátria, da lembrança da mãe, de novas parábolas para a
vida, que é o que te conduz ao lar. Todos os caminhos te levam para casa, cada
passo é um nascimento, cada passo é uma morte, cada tumba uma mãe.
É isso o que sussurra a árvore ao entardecer,
quando temos medo de nossos próprios pensamentos infantis. As árvores têm
pensamentos dilatados, prolixos e serenos, assim como uma vida mais longa do
que a nossa. São mais sábias que nós, enquanto não as ouvimos, mas quando
aprendemos a escutá-las, a brevidade, a rapidez e a pressa infantil de nossos
pensamentos adquirem uma alegria sem precedentes. Quem aprendeu a escutar as
árvores já não deseja ser uma árvore. Não deseja ser nada além do que já é.
Isso é a pátria. Isso é a felicidade.
Coisa mais linda não há. Quando leio
passagens como essa me sinto muito cru para a vida, porque há tantas coisas a
serem descobertas e vividas e o tempo passando tão rápido... precisamos nos
conectar novamente com essa fonte primordial e é inegável o quanto somos
beneficiados quando podemos estar mais próximos da natureza.
Por isso sou um apaixonado pelas viagens em
que caminhar é a rotina principal dos dias e uma vez que você se entrega a esse
tipo de viagem, nada mais parecerá tão interessante, nem o museu mais aclamado,
nem o restaurante mais estrelado, e muito menos as compras mais desejadas.
Todas essas coisas são apagadas de nossas memória com o tempo, mas as longas
jornadas, essas permanecem para sempre conosco, porque foram vividas de maneira
mais intensa, às vezes até mesmo sofridas.
Acredito que a leitura dessa obra de Hesse
sobre suas caminhadas ganhe ainda mais brilho hoje do que na época em que foi
editada, há quase cem anos. Talvez porque temos tendência a achar que no
passado as coisas eram melhores, uma visão romântica das coisas que em parte
não deixa de ser real, se olharmos à nossa volta e vermos o que fizemos com a
natureza, só para citar um exemplo.
Sentimos falta de tudo aquilo que o escritor
relata ter vivido naquela viagem pelos Alpes, experiências e visões cujos
títulos, tão simples, escondem escritos profundos de uma alma inquieta e
sonhadora como a dele: Cemitério rural,
Passeio ao entardecer, Aldeia, A ponte, Granja, Árvores, Tempo chuvoso, Capela,
Céu nublado... E o incrível é que todo o cenário por ele descrito se
assemelha muito a qualquer paisagem de uma cidadezinha do sul de Minas, de modo
que a empatia com os textos desse relato nos acomete naturalmente. Veja alguns
excertos:
(...) Não deixarei aqui o meu coração, como
se diz nas cartas de amor. Oh, não, o coração eu o levarei comigo, também dele
necessito nas montanhas e em todas as horas. Porque sou um nômade, não um
camponês. Sou um amante da infidelidade, da mudança, da fantasia. Não me seduz
encadear meu coração a um pedaço de terra.
(...) Desde as montanhas sopra uma rajada
úmida. Do outro lado, ilhas azuis e celestes contemplam nossas terras; sob
aqueles céus serei feliz e com a mesma frequência sentirei saudades de casa. O
perfeito representante de minha espécie, o puro vagamundo, não deveria conhecer
esta nostalgia. Eu a conheço, não sou perfeito e também não pretendo sê-lo.
Quero saborear minha nostalgia como saboreio os meus amigos.
(...) Todos nós vagamundos somos feitos dessa
maneira... Nossa ânsia de errar e vagamundear é em grande parte amor, erotismo;
a metade do romantismo de uma viagem não é outra coisa senão uma esperança de
aventura; mas a outra metade é uma necessidade inconsciente de transformar e
diluir o erótico. Nós caminhantes estamos acostumados a albergar desejos
amorosos precisamente por conta de seu caráter irrealizável, e aquele amor que
deveria pertencer a uma mulher nós o repartimos, brincando, entre povoado e
montanha, lago e desfiladeiro, crianças do caminho, os mendigos de uma ponte, o
boi de uma pradaria, um pássaro, uma borboleta. Separamos o amor do objeto, o
amor em si é suficiente para nós, do mesmo modo que não buscamos o destino na
peregrinação, senão unicamente desfrutá-lo, estar a caminho é o que importa.
Creio que esse livro me tocou pelo fato de
ser uma coletânea de relatos e visões das coisas simples que acontecem a todo
instante em nossas vidas e já não mais nos damos conta, até mesmo por uma
questão geográfica, pelo que viajar se torna algo mais do que um prazer, senão
uma necessidade, uma oportunidade de podermos mudar o ritmo de nossas vidas e
voltar a olhar o mundo com os olhos de uma criança, citando Matisse.
É dessa maneira que podemos fazer do ato de
viajar um rito, onde alguns pré-requisitos se tornam necessários, entre eles o
contato com a natureza e as longas caminhadas, duas coisas que nós, que vivemos
nas grandes cidades, não temos acesso e não praticamos com a frequência que
deveríamos. Particularmente, sempre desconfio da sanidade daqueles que afirmam
detestar caminhar. Bem aventurado o ser que caminha e que sabe praticar a
solidão.
Hermann Hesse tinha esse perfil de
caminhante, um verdadeiro peregrino - per
agro -, aquele que viaja pelos
campos. Interessante notar que Hesse escreveu essa obra depois de um longo
período de abstinência literária, durante a qual ele deu assistência a
prisioneiros de guerra. Viajando por aqueles campos e montanhas, pintando suas
aquarelas, vivendo uma vida mais simples e imerso em solidão, ele colocou em
prática uma rotina mais contemplativa e, provavelmente não por acaso, foi
depois dessa viagem que ele escreveu seus melhores e mais aclamados textos,
entre eles Demian (1919), Siddharta (1922), O Lobo da Estepe (1927) e Narciso
e Goldmund (1930).
E quando não podemos cair na estrada, seja
por falta de oportunidade, seja por preguiça ou outra desculpa qualquer, ainda
nos restam os livros, nossas setas, apontando caminhos, despertando novas
possibilidades, quem sabe... Lendo El Caminante, de Hermann Hesse, me fez
querer viajar novamente pelo interior das Minas Gerais (sempre Minas...),
acordar cedo e depois do café andar sem pressa por uma estradinha de terra,
subir um morro e ver o mar de montanhas se perdendo no horizonte da Mantiqueira
até o por do sol chegar. No meio do caminho, uma parada para comer, e se não
houver um bar por perto, se improvisa algo, assim como fazia Hesse em seus
passeios:
(...) Hoje meu lugar se encontra sob uma
árvore à margem de um lago; desenhei uma cabana com o gado e algumas nuvens.
Escrevi uma carta que não irei remeter. Agora tiro de minha mochila o almoço:
pão, salsichão, nozes e chocolate.
Aqui perto há um pequeno bosque de bétulas e
vi muitos galhos secos no chão. Me acomete o desejo de fazer uma pequena
fogueira, convertê-la em minha camarada e sentar-me ao seu lado. Vou até ali,
recolho um montão de lenha, ponho papel debaixo e meto fogo. A fumaça fina
ascende alegre e ligeira, a chama vermelha tem um aspecto singular ao sol do
meio dia.
O salsichão é bom, amanhã comprarei mais.
Quem dera tivesse algumas castanhas para assá-las no fogo! Depois do almoço
estendo a jaqueta sobre a relva, descanso nela a cabeça e contemplo minha
pequena fumaça sacrificial, que sobe às alturas.
(...) O fogo apagou, o sol se moveu
imperceptivelmente. Hoje quero caminhar ainda um longo trecho. Enquanto guardo
as coisas e fecho o meu bornal, me lembro de uns versos de Eichendorff, que
cantarolo de joelhos: “Logo, tão logo, chegará o tempo sereno / e também eu
descansarei / e em cima de mim / sussurrará a bonita solidão do bosque / e nem
aqui conhecerei alguém.
Sinto pela primeira vez que nestes amados
versos a melancolia é também a sombra de uma nuvem. Esta melancolia não é mais
do que a música suave da caducidade, sem a qual o belo não nos emociona. Carece
de dor. Sigo meu caminho com ela e subo, contente, pelo sendeiro da montanha, o
lago se encontra muito abaixo de onde estou; passo junto ao arroio de um
moinho, um grupo de castanheiras e uma roda abandonada, e me adentro no dia
azul e silencioso.
♣
Leia: Caminhada. Hermann Hesse. O
livro foi editado no Brasil pela Ed. Record, mas encontra-se fora de catálogo.
É possível encontrá-lo a bom preço no site da Estante Virtual.


















