Folheando a revista Viagem e Turismo, edição de dezembro de 2013, encontrei um artigo
assinado por Cristovão Tezza, escritor bastante premiado e, como ele mesmo
escreve no artigo que você lerá, muito viajado. Nesse texto, em que temos a
sensação de estarmos presente, ouvindo o próprio escritor divagando sobre a
experiência da viagem, algumas sacadas são muito bem vindas - quando achamos
que já lemos de tudo e um pouco mais sobre o ato de viajar, ainda que não haja
nada de errado com isso: faz parte da natureza humana contar e recontar suas
histórias, dar novas roupagens às figuras míticas que auxiliam o ser humano a se
compreender melhor em sua jornada mundo afora.
Para mim o autor conseguiu, de maneira muito
simples e sem qualquer afetação, escrever sobre as grandes viagens de sua vida
e demonstrar como elas foram importantes para transformar um rapaz sonhador em
um dos grandes nomes da literatura brasileira. Leitura que vale a pena e que
nos faz querer conhecer um pouco mais a obra de Cristovão Tezza. Namastê!
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Durante milhares de anos, desde que o advento
da agricultura fixou o homem à terra, a esmagadora maioria das pessoas passava
a vida inteira no lugar em que nasceu – para elas, o mundo real tinha poucos
quilômetros de diâmetro. A simples ideia de “viajar” carregava-se de magia
poética; não por acaso, a grande literatura surgiu com narrativa de viagens,
como a Odisseia, de Homero, e durante
séculos as viagens mantiveram sua aura fantástica e maravilhosa.
Só pessoas corajosas e excepcionas viajavam.
Na Renascença, com o surgimento do livro impresso, os relatos de viagens eram
best-sellers, seguindo a trilha inesgotável das histórias de Marco Polo, o
italiano que foi à China e, diz a lenda, trouxe o macarrão de lá. E nos últimos
500 anos, com o comércio se globalizando, a intensa urbanização do mundo e o
avanço da ciência e dos meios de transporte, inverteu-se a equação – hoje
parece que o normal, o desejável, e até obrigatório, é “viajar”.
Como estímulo irresistível, a última grande
revolução tecnológica do mundo inteiro simultâneo, em que o tempo e espaço
finalmente são uma coisa só. Para o internauta de hoje – que, como o camponês
de 5 mil anos atrás, pode passar a vida inteira no mesmo lugar, agora diante de
um monitor -, não há mais mistério na Terra. Basta clicar no Google Earth e
rodar o mundo.
Mas, por mais digital que tenha se tornado
nossa vida, viajar continua sendo uma atividade essencialmente “analógica” – é
preciso ver o mundo, fisicamente, de outro ponto de vista. Viagens mexem com
tudo: transformam a cabeça, quebram convenções, relativizam hábitos, abrem
caminhos. E, mesmo sob as condições extremamente seguras das viagens de hoje,
resta sempre nelas uma margem de risco, um certo deslocamento da “zona de
conforto” do nosso dia a dia, que é justamente o charme de sair da toca.
É verdade que cada fase da vida tem as suas
viagens. A expectativa de um jovem de 18 anos que vai passar dois meses
estudando na Inglaterra não é a mesma de um casal de turistas cinquentões
rodando a Itália dentro de um ônibus, que por sua vez é substancialmente
diversa da do aventureiro visitando o Nepal com uma mochila nas costas, ou de
um adolescente visitando a Disneylândia - os exemplos são infinitos. O que há
em comum em todos esses casos? Talvez o simples e secreto desejo de mudar.
Olho para a minha própria vida e vejo como
fui transformado pelas viagens, desde a primeira delas, esta sem escolha –
criança, após a morte de meu pai, saí de Lages, no interior de Santa Catarina,
e vim para Curitiba com a mãe e os irmãos num caminhão de mudança. A primeira
estranheza foi curiosamente linguística – em Curitiba chamavam “picolé” de “dolé”
(palavra hoje desaparecida) e “salsicha” de “vina”. Eram os anos 60, quando o
Brasil inteiro queria viajar, ou de Fusca ou de Varig – e foram anos de
mudanças radicais em todo o mundo. Desde logo eu quis ser escritor, e meu
primeiro mandamento foi, justamente, o imperativo de viajar.
Naquele tempo, esse projeto vinculava-se
tanto à ideia de rompimento quanto de aventura; havia uma mistura de Che
Guevara com Marco Polo na cabeça de cada jovem. Sob a ditadura militar, toda
uma geração de brasileiros em diáspora passou a ver o Brasil criticamente de
longe.
Num primeiro momento, tentei ser piloto da
Marinha Mercante, no sonho romântico de rodar o mundo escrevendo livros, mas
fugi da escola, que era pesada, e me engajei num grupo de teatro popular. Uma
lembrança forte de 1972 foi viajar desde Caruaru, onde participei de um
festival, até Curitiba, pedindo caronas com o dedão na estrada – com direito a
passar uma noite dormindo ao relento nas areias de Itapuã, em Salvador,
seguindo o roteiro de Vinicius de Moraes. Era um Brasil ainda inocente, em que
ainda se podia pedir ou dar carona.
Em seguida, desembarquei em Portugal apenas
com a passagem de ida e US$ 200 no bolso – outro sinal da inocência do mundo.
Aqueles 14 meses sobrevivendo na Europa foram marcantes na minha vida. Lembro
de uma viagem maravilhosa de trem, de Coimbra a Frankfurt. Não era nenhum
turismo – fui para lavar pratos e esfregar chão com imigrantes ilegais, de modo
a juntar um bom dinheiro -, mas, aos 22 anos, que diferença isso faz?
De novo no Brasil, outra viagem radical: um
ano vivendo no Acre, em 1977, já casado e, enfim, entrando na universidade. No
ano seguinte, retornei a Curitiba, e as viagens prosseguiram – mas agora,
professor estável durante duas décadas, eram mais seguras e planejadas, algumas
profissionais, outras estritamente turísticas, o que também passou a ter sua
graça.
A idade avança, e mudam-se exigências e escolhas.
Hoje gosto especialmente de provar cervejas estrangeiras e visitar museus – um
dia sozinho num bom museu, sem pressa nem horário, é um prazer para mim, e
sempre um descanso dentro de uma viagem mais longa.
De repente, me bateu de novo o sonho de
mudar, como se eu voltasse num rompante aos anos 60, e me demiti da
universidade – agora, finalmente, vivo apenas de escrever. O que está mais uma
vez me colocando na estrada, como um caixeiro-viajante. Fui me tornando um
“turista acidental”, especialista em malas pequenas, previsão meteorológica,
espera em aeroporto, placas indicativas e carregadores elétricos – e aderi ao
livro digital, que é perfeito para viagens.
E não contem para ninguém, mas sou aquele
chato que está sempre com uma boa máquina fotográfica, colecionando fotos e
retratos de toda parte (mas que jamais vão ao Facebook). Fotografar em viagens
tornou-se um prazer especial, que me obriga a ver onde estou, e é sempre uma
boa companhia para caminhar por ruas desconhecidas em terra estranha.
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Site do Tezza: cristovaotezza.com.br







