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Pode
parecer estranho, nos dias que correm, alguém se dispor a escrever sobre um ato
simples e até certo ponto banal sobre o ato de caminhar. Não estou falando sobre a caminhada enquanto
exercício físico, aquela que milhares de pessoas mundo afora praticam
rotineiramente com o propósito seguro de manter a saúde em dia e ainda de
quebra arejar a mente e os pulmões. A caminhada a que me refiro é aquela em
desuso, démodé em sua própria essência e romântica por natureza: a caminhada
que exercita o corpo, a mente e o espírito.
Partindo
dessa premissa romântica da caminhada, no sentido literário da questão, foi que
o acadêmico, professor de literatura da Universidade de Glascow, Jeffrey C.
Robinson escreveu uma interessante obra intitulada The Walk: notes on a romantic image. (A Caminhada: notas sobre uma
imagem romântica). O professor Robinson é um apaixonado pelos poetas e
escritores do período romântico (séculos XVIII e XIX) e em suas pesquisas notou
que muitos daqueles escritores e poetas românticos eram também bons
caminhantes, do tipo que saíam por aí flanando sem pressa, atrás, quem sabe, de
inspiração para um próximo poema ou romance.
Pelo
que lemos sobre o período romântico europeu, em particular em países como
Alemanha, França e Inglaterra, a ênfase do movimento estava na liberdade
individual de expressão: sinceridade, espontaneidade e originalidade
tornaram-se novos padrões nas artes, substituindo as imitações dos modelos
clássicos; os românticos voltaram-se para o caminho da experiência pessoal, da
imaginação sem limites e da aspiração individual, valorizando os aspectos mais particulares
da vida afetiva.
O
próprio autor formula a questão que se segue: Por que a caminhada é uma imagem
tipicamente Romântica? Para Jeffrey, a caminhada é de ordem fundamentalmente
espiritual e trata essencialmente da conquista da felicidade. Não que isso
tenha surgido com o romantismo, mas parece que nesse período houve uma busca
nesse sentido, a caminhada como facilitadora desse processo de bem estar, ou,
indo ainda mais longe, de transcendência espiritual. A caminhada, opina
Jeffrey, “ressalta o drama do confronto entre o mundo interior e o mundo
exterior, mundos que coexistem em diferentes graus de compatibilidade”.
Como
não poderia deixar de ser, o autor vai calçar as questões básicas de seu texto
- a imagem romântica e a caminhada deambulatória - em pensadores, escritores e
filósofos que notoriamente curtiam uma boa caminhada; aqui nem importa o ritmo,
o local e a distância, de modo que leremos ao longo do ensaio as palavras de um
iluminado Bashô, o sábio peregrino japonês, passando por Laurence Sterne,
Baudelaire e Rousseau.
Vem
desse último, Rousseau, uma das passagens das quais mais apreciei desse ensaio
e o capítulo cujo trecho você lerá a seguir intitula-se “O caminhar e a
solidão”:
Eu
nunca refleti tanto, existi tão vividamente e experienciei tanto, nunca fui tão
eu mesmo – se é que posso usar essa expressão – quanto nas jornadas que fiz
sozinho e a pé. Há algo sobre a caminhada que estimula e anima meus
pensamentos. Quando eu permaneço em um lugar eu mal consigo pensar, meu corpo
tem que estar em movimento para que minha mente siga funcionando.
A
visão dos campos, a sucessão de vistas agradáveis, o ar puro, o apuro sonoro e
a boa saúde que ganho ao caminhar, a atmosfera simples de uma pousada, a
ausência de qualquer coisa que me faça sentir dependente de algo, de tudo o que
me recorde de minha situação – tudo isso serve para livrar meu espírito, para
deixar meus pensamentos mais arrojados, para me jogar, por assim dizer, na
vastidão das coisas, de modo que eu possa combiná-las, selecioná-las e
torná-las minhas conforme meu desejo, sem medo ou limitação. Disponho de toda a
Natureza como mestre.
Pulando
páginas, dois capítulos à frente, chegamos no “Caminhante urbano” cujo
parágrafo inicial trata de um tema bastante simpático: um homem e seu cachorro.
Sua leitura me fez lembrar dos solitários sem-teto, vagamundos que povoam as
ruas das cidades grandes, e acredito que São Paulo, cidade de onde escrevo,
deva ser uma das que mais alberga esses tipos de cidadãos, quer por opção, por
conta de um vício, um problema psiquiátrico ou por total falta de oportunidade.
Trouxe essa imagem à mente porque sempre me comovo quando observo os cachorros
que acompanham essas pessoas que vivem à margem da sociedade: a fidelidade e o
amor incondicional, tão próprio desse animal, em sua máxima expressão. Dizem
que os cães são por eles adotados como proteção, mas também acredito que a
companhia tem o mesmo peso nessa equação, senão maior.
O
Jeffrey diz que muitos viajantes asseguram que a jornada tem que ser solitária:
você, um par de botas e o horizonte à frente, nada mais. Mas nessa empreitada,
quiçá, o cão pode ser o acordo perfeito entre a severidade da solidão e uma
companhia tumultuada, agregando de maneira positiva a liberdade almejada e a
companhia de alguém que não perturba. “Sem restringir os pensamentos de quem
viaja, o cão conforta o caminhante em sua solidão, refletindo suas atividades,
e como a imagem de um espelho, o cão exige do ser caminhante seus próprios
movimentos contínuos na jornada; a pessoa e o cachorro compõem uma caminhada
idílica.”
Depois
disso cita Thomas Mann, autor de “A Montanha Mágica” (explicando que o alemão
muitas vezes agregava um cão em seus romances) que publicou um romance
famosíssimo intitulado “Um homem e seu cão” (A Man and His Dog) - até onde pesquisei não publicado por aqui, mas
tem lá no site da Amazona (used) e o
preço não é nada camarada. Ficamos na vontade mesmo.
Nesse
mesmo capítulo – o do caminhante urbano - surge um lance bem interessante,
quando o autor começa a divagar sobre obras de arte fotográficas que retratam
caminhantes pelas cidades, clicadas por André Kertesz, onde vemos impressas
duas delas: “Washington Square, Winter, 1954”
e “Pont Neuf, Paris, 1931”
Interessante
porque ele faz uma leitura comparativa entre o olhar do fotógrafo, que parece
gostar de clicar pessoas solitárias andando pelas ruas, e aquilo que outros
escritores publicaram sobre os homens, a solidão e as cidades. Diz que, “de um
ponto de vista Romântico, a cidade moderna é o lugar do isolamento e da
alienação”. Semelhante às telas encantadoras de Edward Hopper, quem melhor no
mundo retratou o ser solitário das cidades, com a diferença de que em suas
pinturas as pessoas se encontram sempre numa melancólica inércia contemplativa,
raramente em movimento e quase sempre sentadas.
Coincidentemente,
quando chego ao próximo capítulo, vejo que a arte pictórica é cara ao autor,
que escreve sobre uma “jornada através de uma exibição de Degas” no
Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. Um capítulo que mereceria fazer
parte do currículo de um bom curso de escrita criativa, uma aula de como
observar uma obra de arte para além de sua aparência. E o interessante é que
tudo o que ele escreve, cada nota que transcreve de seu bloquinho de anotações,
tudo faz parte de um jogo onde o que importa é o proveito que se tira do
passeio, a troca entre o sujeito e o objeto por ele observado – e por objeto se
entende não só as pinturas de Degas como as pessoas que transitam pelas salas,
as molduras penduradas nas paredes e tudo o mais que o cerca dentro daquele
espaço-tempo liminar. São suas as palavras a seguir:
Viajando
pelo museu eu pude imaginar todos estes Degases acorrentados às paredes, num
estado de submissão, enfileirados em corredores em vez de estarem dignamente
pendurados nas paredes dos verdadeiros apaixonados, numa sala cheia de
personalidade e até mesmo devoção. E mesmo estando todas juntas, elas assumem o
poder de uma comunidade ideal, se rivalizam, conversam umas com as outras. De
fato, talvez o burburinho geral dos caminhantes pelas galerias é somente um eco
dos sussurros entre as próprias pinturas. Pinturas dentro de pinturas;
caminhadas dentro de caminhadas; sussurros dentro de sussurros. Essas
repetições são de um tom muito mais sutil.
E
antes que o livro termine, o Jeffrey divaga sobre o papel das pontes, um tema
fascinante dentro dos estudos simbólicos que ele explora quase que
superficialmente, fechando o ensaio com uma breve menção à carta do Louco no Tarô,
que alguns estudiosos colocam como sendo a carta zero dos 22 arcanos maiores, e
outros como sendo a última, a que fecha o ciclo da jornada. Uma escolha mais do
que sugestiva para terminar um ensaio sobre a caminhada. Namastê!
♣
Fonte: The Walk:
notes on a romantic image. Jeffrey C.
Robinson. Dalkey Archive Press, 1989. London. 144pp.












