Sou leitor assíduo da Revista Bravo,
a melhor publicação sobre cultura que temos no Brasil. A edição 188
(Abril/2013) traz na capa uma foto de Sebastião Salgado, representante maior da
fotografia brasileira e um dos nomes mais respeitados do mundo nessa arte. Não vou me estender além desse breve parágrafo
introdutório, portanto acomode-se em frente ao computador e delicie-se com essa
matéria, muito bem escrita pela jornalista Kênya Zanatta. Dizem que uma imagem
vale mais do que mil palavras, mas a Kênya conseguiu com seu texto enriquecer
ainda mais a experiência do olhar. Boa viagem!
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Viagem às
Origens do Mundo
Em Genesis, seu novo
ensaio, o fotógrafo Sebastião Salgado retrata paisagens e
comunidades ainda não impactadas pelo que chamamos de progresso. Para preparar
o trabalho, ele percorreu mais de 30 países durante oito anos
por Kênya Zanatta
No princípio, o menino de olhos azuis vivia feliz entre árvores
e animais. Então, ele cresceu e decidiu partir. Correu o mundo registrando
dramas e terrores da humanidade. Um dia, não suportando o peso das misérias
testemunhadas, o menino, agora homem, decidiu voltar ao paraíso da infância. Lá
chegando, encontrou uma terra estéril. À imagem de Deus, decidiu recriar seu
jardim.
Essa história
com ares de parábola poderia resumir a origem de Genesis,
novo projeto do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. O resultado de oito anos
de trabalho em mais de 30 países, distribuídos por África, Ásia, Américas,
Oceania e Antártica, foi condensado em um livro que acaba de ser lançado pela
editora Taschen e numa exposição, que será inaugurada este mês no Natural
History Museum, em Londres, e deve vir ao Rio de Janeiro em maio.
*Xamãs da tribo camaiurá da baciado Alto Xingu, no Mato Grosso
(2005). Apenas a eles é permitido fumar, ato considerado sagrado (no centro, de
chapeu de pele de jaguar, Takumã, o mais importante pajé do Xingu)
Em certo ponto
da entrevista concedida na sede da Amazonas Images, sua agência fotográfica, à
beira do canal Saint-Martin, em Paris, Salgado diz que não crê em Deus, mas não
pôde resistir à simbologia contida na palavra “gênesis”.
*Mulheres das aldeias de Mursi e Surma, no Parque Nacional de
Mago, na Etiópia (2007). O uso de alargadores em formato de prato nos lábios é
restrito às castas superiores
Da militância
política, que o levou a deixar o Brasil no período da ditadura, às preocupações
ambientalistas de hoje, o fotógrafo aponta que sua produção sempre espelhou
suas convicções. Assim, seu primeiro grande projeto documental, Trabalhadores, realizado
entre 1986 e 1992, enfocava um mundo do trabalho em plena mutação, tema central
em sua breve carreira de economista – profissão que abandonou em 1973 para se
dedicar à fotografia.“Com esse projeto, percebi uma reorganização da família
humana”, diz ele, que fez dos movimentos populacionais o tema de seu ensaio
posterior, Êxodos(1994-1999).
*Povo da tribo dinkae seus animais, no sul do Sudão (2006). A
fumaça de uma carcaça de gado queimada serve para afastar insetos e parasitas
Em Ruanda,
país africano que conhecia desde a época em que trabalhava como economista na
Organização Internacional do Café, Salgado testemunhou a ferocidade do
genocídio e o desespero da fuga. O homem por trás da câmera sucumbiu aos dramas
que se desenrolaram diante de sua objetiva. Doente, decidiu voltar para sua
cidade natal, Aimorés, em Minas Gerais, e tomar conta da fazenda da família.
“Eu tinha perdido a fé na nossa espécie. Achava que a humanidade ia acabar.
Estava no limite de uma depressão”, conta.
*Homem vestido para o festival de Sing-Sing, em Mount Hagen, Papua
Nova Guiné (2008). Anualmente, em agosto, a festa reúne tribos de todo o país
No Vale do Rio
Doce, amargou outra decepção: “Achava que ia voltar para o paraíso, mas
encontrei uma terra morta, exaurida”. Foi a mulher do fotógrafo, Lélia Wanick
Salgado, que sugeriu promover o replantio da floresta. A partir disso, juntos,
fundaram o Instituto Terra. A iniciativa em Aimorés foi tão bem-sucedida que o
casal prepara um programa em parceria com o governo federal e a iniciativa
privada para recuperar todas as nascentes do rio Doce.
*Pinguins chinstrap, nas ilhas Sandwich (2009). O arquipélago é um
território britânico ultramarino, no extremo sul do planeta
Com verve de
evangelizador, Sebastião Salgado dispara números e argumentos, explicando por
que plantar árvores e preservar a mata nativa é essencial para o futuro do
planeta. Desse entusiasmo pela causa ecológica surgiu a vontade de fotografar
paisagens, animais e comunidades que ainda não sucumbiram ao fruto proibido do
progresso e da sociedade de consumo. “Temos quase 46% do planeta em estado
prístino. Genesis é uma amostra do que precisamos
preservar no mundo. E o trabalho do Instituto Terra é uma amostra do que
devemos fazer”, diz ele.
A primeira
viagem, em 2004, foi para as ilhas Galápagos – o lugar que inspirou a
revolucionária teoria da evolução de Charles Darwin. Embora Salgado insista que
seu trabalho nada teve de científico, as imagens deixam entrever uma
preocupação em inventariar os elementos de um mundo original, dos adereços
festivos das tribos de Papua Nova Guiné à infinita variedade de tons e texturas
das extensões geladas da Antártida.
O uso do preto
e branco, o domínio da técnica da contraluz e o rigor na composição, que em
projetos anteriores lhe valeram a acusação de fazer arte com a miséria alheia,
dão uma qualidade atemporal às fotografias de Genesis. Para Anne Biroleau, curadora de
fotografia da Biblioteca Nacional da França, algumas dessas imagens transmitem
“o sentimento de uma força cósmica que ultrapassa o humano e sobrevive a ele”.
Ela argumenta que o apuro estético das imagens é uma maneira de “chamar a
atenção para a verdadeira questão, ou seja, o posicionamento de Salgado sobre
os temas que aborda”. “Ninguém criticou Goya por ele ter produzido gravuras
belas e perfeitas sobre os desastres da guerra”, compara.
*Colônia de albatrozes no arquipélago Willis, no Atlântico Sul (2009). A ilha foi descoberta no século 18 pelo explorador inglês James Cook
Genesis, o projeto, custou 1 milhão de euros por ano e foi financiado
em parte por revistas e jornais que publicaram as reportagens de Salgado ao
longo do trabalho, como a semanal francesa Paris Matche o
diário inglês The Guardian. A
outra parte dos custos foi coberta por patrocinadores, a exemplo da mineradora
brasileira Vale do Rio Doce, além de duas fundações norte-americanas. Salgado frisa
que suas fotos são apenas “a ponta do iceberg”. Por trás delas, houve um imenso
esforço de preparação e edição dispendido por uma equipe de oito pessoas, que
trabalha há anos na Amazonas Images. Ele faz questão de enfatizar também o
papel crucial de sua mulher, responsável pelo design de seus livros e pela
curadoria de suas exposições. Foi ela que comprou a primeira câmera fotográfica
do casal, quando ainda era estudante de arquitetura.
De canoas a
balões, passando por mulas, aviões e veículos militares, a equipe de Salgado
teve que levar em conta situações extremas de clima e geografia para planejar
cada uma das expedições. Um dos trajetos mais marcantes foi percorrido a pé, em
2008. “Uma verdadeira viagem pelo Velho Testamento”, define o fotógrafo. A travessia
de 850 km nas montanhas do norte da Etiópia começou na cidade de Lalibela e
terminou no parque natural Simien. “Fisicamente, não foi fácil, mas talvez
tenha sido a viagem mais bonita que fiz na vida. É emocionante poder andar num
caminho que o homem percorre há 5 mil anos.” A caminhada durou 55 dias, em uma
região de desfiladeiros, passando por tribos cristãs e comunidades de judeus
falasha.
*O cacique Afukaka Kuikuro com sua filha caçula (2005). O povo
kuikuro tem a maior população do Alto Xingu, no Mato Grosso
Já acompanhar
a transumância de 6 mil renas em trenó ao lado dos nenets, comunidade nômade
siberiana nos confins do Círculo Polar Ártico, colocou outros desafios:
“Trabalhamos com uma temperatura de até 45º abaixo de zero. Passei 47 dias sem
tomar banho. Eu morava com os nenets em tendas de 5 m de altura, feitas com
varas compridas e peles de rena”.
Em algumas
ocasiões, o fotógrafo teve que viajar levando a própria comida e até painéis
solares para produzir energia elétrica, além de uma vasta seleção de
medicamentos – que no entanto não bastaram para todas as emergências. Picado
por um inseto e com um início de gangrena em uma das pernas, o assistente que
acompanhou Salgado em quase todas as viagens, Jacques Barthélemy, um ex-guia de
montanhismo de 65 anos, precisou ser resgatado de avião em meio a uma floresta
de Papua, província da Indonésia na parte ocidental da Nova Guiné. Apesar de
todas as precauções, o próprio Salgado quase sucumbiu à malária falciparum, a
forma mais perigosa da doença.
“Eles vivem
como nós víviamos há 50 mil anos. E as coisas essenciais para mim nessa minha
comunidade urbana, consumidora e moderna são as mesmas coisas essenciais para
eles”, afirma Salgado, sobre as comunidades isoladas que visitou. O fotógrafo
cita o exemplo das complexas noções de balística que os índios zo’è, da
Amazônia, colocam em prática na hora de caçar com arco e flecha, similares às
usadas pelos militares que ele pôde observar quando fazia reportagens de guerra
para as agências Gamma e Magnum.
*Distrito Autônomo de Yamalo-Nenet, no norte da Sibéria, Rússia
(2011). No fim do dia, os nômades nenets fazem um círculo em redor de seus
pertences para montar o acampamento, depois coberto com couro de rena
Para quem
enfrentou os rigores de longas expedições em territórios inóspitos, é irônico
que um de seus maiores traumas se relacione ao ambiente de assepsia dos
aeroportos. Celebrado pelas proezas que realizou em película durante quase 40
anos, Sebastião Salgado foi levado a adotar a fotografia digital devido
sobretudo ao aumento do nível de segurança nas viagens internacionais após os
atentados de 11 de setembro de 2001. A cada aeroporto era uma luta para evitar
que os filmes passassem pelas máquinas de raios x. “Uma vez, tudo bem. Mas
depois de três ou quatro há uma perda da estrutura do grão, da gama de cinzas.
Uma semana antes da volta, já ficava tenso porque corríamos o risco de perder
tudo o que tínhamos feito”, conta. Em uma viagem de Sumatra a Paris, por
exemplo, foram sete controles de segurança. O suficiente para convencer
Salgado, que declara com uma ponta de orgulho não saber nem ligar um
computador, a se equipar com quatro câmeras digitais Canon EOS 1D Mark III.
*No fim do inverno, os nenets acompanham centenas de renas por
mais de mil km até as pastagens de verão, localizadas no Círculo Polar Ártico
(2011). Segundo Salgado, o costume é tão enraizado que ninguém sabe quem guia
quem
Em algumas
expedições de Genesis, o
fotógrafo foi acompanhado por seu filho, Juliano, que agora prepara um
documentário, Shade and Light,
sobre a realização da obra, em colaboração com Wim Wenders. Amigo da família, o
cineasta alemão fez uma série de entrevistas com Salgado e filmagens no Brasil.
O longa deve estrear em setembro, quando Genesis chega a
São Paulo.
Na tarde em
que a reportagem de BRAVO! visitou a agência, a equipe se
concentrava nos preparativos finais para a série de exposições, em meio a
pacotes com livros e fotografias a serem expedidos. No subsolo, duas
colaboradoras avaliavam uma impressão destinada à mostra no Rio de Janeiro e
questionavam o fotógrafo sobre uma pequena imperfeição invisível aos olhos da
repórter. Em meio às questões técnicas, Salgado parou um momento para
contemplar a imagem grandiloquente de dois vulcões separados por uma nuvem e
repetir quanto prazer tivera em fazer essas fotos. Voltar às origens do planeta
parece ter sido seu último trabalho de grande alento: “Já tenho 69 anos e
dificilmente vou conseguir fazer outro projeto longo como esse porque a demanda
física é muito forte. Mas não vou parar de fotografar”.
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Fonte: Revista Bravo
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Fonte: Revista Bravo









