.
Todos estamos
acostumados a ler na poesia, na filosofia, nos relatos de viagem e nos textos
sagrados de todas as religiões, que a viagem é a metáfora por excelência da
passagem do ser humano pela Terra. Sem embargo, por mais clichê que isso tenha
se tornado, há quem consiga fazer magia com as palavras e os sentimentos.
Foi navegando por
um blog muito especial, A Casa de Vidro,
(seguindo um link de outro excelente blog sobre o autoconhecimento, o
inspirador Dharmalog), que me deparei
com dois pensamentos do filósofo Friedrich Nietzsche que trata com maestria
dessa metáfora que não canso de explorar aqui no Odepórica. São tão bonitos e tão especiais que decidi economizar e
publicar em duas postagens separadamente, de modo que o leitor terá tempo para
ler e refletir sobre as palavras de um dos maiores pensadores que caminharam
por este planeta um dia. Boa viagem.
♣
Quem alcançou em
alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho
sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não
existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente
sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada
em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança
e na passagem.
Sem dúvida esse
homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão
da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como
no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também
perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga.
Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e
o seu coração se cansará de andar.
Quando surgir
então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para
ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais
deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia
será quase pior do que a noite. Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas
depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros
dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas
passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma
matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe
cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que
estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua
maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos.
Nascidos dos
mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo
e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão
luminoso, tão sereno-transfigurado: – eles buscam a filosofia da manhã.
Friedrich
Nietzsche
(em “Humano Demasiado Humano” #638)
(em “Humano Demasiado Humano” #638)
♣
Imagens deste post: telas de Donna Walker.



