Uma câmera na mão e pé na estrada. Essas duas ações, somadas a uma boa ideia podem muitas vezes resultar em grandes películas, aventuras cinematográficas que quando bem produzidas fazem com que tenhamos vontade de sair do cinema e vagamundear planeta afora sem data de retorno.
Na
literatura isso aconteceu comigo diversas vezes, a primeira delas quando li Pé na Estrada – tradução do Bivar da
obra de Kerouac, On the Road; tinha dezesseis
anos e desde então passei a adolescência desejando um dia fazer a rota 66,
alugando um carro conversível, enchendo a cara e apertando um baseado sem
compromisso algum com o destino, ouvindo um blues bem alto no rádio e de quando
em quando parando a caranga para apreciar o por do sol da estrada e botar em
dia a leitura do Castañeda, porque também estava nos meus planos provar um
peiote básico e ter aquelas experiências místicas que só os viajantes
descolados conseguem ter. Quando cansasse, viajaria ao México numa longa
jornada de ônibus, até chegar numa cidadezinha de praia, onde alugaria um
quarto simples com vista para o mar e escreveria o relato de minha aventura
castaño-kerouaquiana. Simples assim.
Tempos
depois, em 1988, li uma obra fantástica de um autor estadunidense chamado David
Hatcher Childress que tem uma coleção imperdível de textos de uma série
intitulada “Lost Cities”, e a primeira que li (um dia escreverei sobre ela
aqui) foi Cidades Perdidas e Antigos
Mistérios da América do Sul, obra fundamental, imperdível, altamente
recomendável para os amantes de viagens com uma pegada mais arqueo-antropológica.
O David não é acadêmico, ele simplesmente é um autodidata que ama história,
mistérios e arqueologia e vai por conta viajar para os lugares mais bacanas do
planeta. Bom, eu adoro esse cara e foi por causa dele que um dia pensei em
estudar antropologia e fazer a rota inca, trem da morte, Cochabamba, coisa e
tal. Bye bye States!; Hola, South America! , mas não fiz nem uma coisa, nem
outra. Ainda.
Esses
foram dois exemplos que me fizeram ter vontade de pegar a estrada depois de uma
leitura. Outro marcante, e esse sim resultou em grandes aventuras, foi a
leitura de o Diário de um mago, do
Paulo Coelho. Acho que li a obra em um dia e meio e assim que fechei o livro
fui buscar o Atlas Geográfico da Melhoramentos (saudosa era pré-internet) que
tinha em casa para ver onde é que ficava o tal do Caminho de Santiago... um dia
iria percorrê-lo. Oito anos depois chegava lá, para nunca mais deixar de ir.
Mas
o lance desse post é cinema, então falemos de cinema. Não
me lembro do primeiro road movie a que assisti, mas me lembro de um que mexeu
muito comigo: Thelma e Louise (Ridley
Scott, 1991). Lembro-me que fui ao cinema com um amigo, hoje meu compadre, e
que saímos de lá tão entusiasmados que começamos a fazer planos e mais planos
de viagens que nunca aconteceram, mas que já valeram pelas conversas de boteco,
aventuras esquecidas entre rodadas de cerveja. E até nisso as viagens são boas:
divertem a gente mesmo quando não acontecem efetivamente (sempre achei o
planejamento de uma viagem tão excitante quanto a própria aventura).
Bem
antes de Thelma e Louise, agora me
recordo, vi um filme que me deixou muito comovido: Paris, Texas (Wim Wenders, 1984). Há três coisas nessa película
pelas quais sou apaixonado: o deserto, a Natassja Kinski e a guitarra de Ry
Cooder. Aliás, esse fantástico músico californiano flerta muito com o cinema,
sendo também dele a trilha de outro clássico road movie dos 80, Crossroads, (A Encruzilhada, 1986).
Boa
parte da trama de Crossroads se passa
entre caminhos poeirentos do sul dos Estados Unidos, onde o personagem
principal (um virtuoso da blues guitar,
vivido pelo Ralph Macchio) busca a encruzilhada onde, segundo a lenda, Robert
Johnson, mestre do blues, teria feito
um pacto com o diabo. Tudo nesse filme é demais e a sequência final é um
pega-prá-capá sensacional, nada menos do que um duelo de guitarras entre o
mocinho e o demo, vivido pelo, há há há, Steve Vai, só isso. Não viu? Corra e
assista.
Antes
ainda destes filmes já existia um clássico, talvez o maior representante do
gênero filme de estrada de todos os tempos: Easy Rider (Sem Destino, 1969). Esse você já conhece, mesmo que não tenha
assistido ao filme por completo, porque a cena de abertura em que Peter Fonda e
Dennis Hopper aparecem montados nas Harleys ao som de Born to be wild do Steppenwolf
faz parte do inconsciente coletivo de todo o mundo. Esse filme, claro, é
super datado, como praticamente todos os filmes produzidos no auge da
contracultura, mas a mensagem continua atual (você sabe, a tal crítica à
sociedade, e aos valores e essas coisas todas). É clássico, por isso tem que
ter em casa e pronto.
E
agora começo a reparar numa coisa: filme de estrada bom tem que ter uma boa
trilha sonora, senão a coisa não decola bem. Vejamos: Conta comigo (Stand by me,
Rob Reiner, 1986), filmão e trilha sessentista nota dez; O Céu que nos protege (The
Sheltering Sky, Bertolucci, 1990), música de Ryuichi Sakamoto, genial; Priscilla, a rainha do deserto, filme
australiano de 1994 que agrada amantes da era disco e da cultura GLBT e afins; Viagem a Darjeeling, de 2007, filme que
revi várias vezes tanto por conta da história quanto pela trilha sonora e a
imperdível sequência final embalada pela belíssima Play with fire dos Stones, minha banda de cabeceira, sempre.
Eu
poderia enumerar muitos outros seguindo esse princípio música/cinema, mas daí a
coisa ficaria meio enfadonha para o leitor, então deixa prá lá. E listas, cada
um tem a sua, de modo que nem me atrevo a criar um post do tipo “top ten”.(Ok,
já que você insiste, então vou listar alguns filmes que têm no enredo a viagem
como condutora da trama). Além dos já citados, eu indicaria as seguintes obras
cinematográficas:
Coração Selvagem (Wild at Heart, David Lynch, 1990)
Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, Jonathan
Dayton, 2006)
Uma história real (The Straight Story,David Lynch,
1999)
Na Estrada (On the road, Walter Salles, 2012)
Via
Láctea (La Voie Lactée, Luis Buñuel, 1969)
Sideways,
entre umas e outras (Sideways, Alexander Payne, 2004)
Zabriskie
Point (Michelangelo Antoniani, 1970)
A
grande viagem (Le Grand Voyage, Ismael Ferroukhi, 2004)
Transamerica
(Duncan Tucker, 2005)
Deu
a louca no mundo (It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World, Stanley Kramer, 1963)
A morte pede carona (The Hitcher, Dave Meyers, 1986)
Shirley Valentine (Lewis Gilbert, 1989)
Na natureza selvagem (Into the Wild, Sean Penn, 2007)
Uma vida iluminada (Everything is Illuminated, Live
Schreiber, 2005)
Meu
irmão, cade você? (O Brother, where art Thou?, Joel e Ethan Coel, 2000)
Rain Man (Barry Levinson, 1988)
A
Estrada da Vida (La Strada, Federico Fellini, 1954)
Para
Wong Foo, obrigado por tudo, Julie Newmar (To Wong Foo..., Beeban Kidron, 1995)
Um
parto de viagem (Due Date, Todd Phillips, 2010)
Bonnie
and Clyde, uma rajada de balas (Bonnie and Clyde, Arthur Penn, 1967)
E
sua mãe também (Y tu mamá también, Alfonso Cuarón, 2001)
O
Caminho (The way, Emilio Estevez, 2010)
Diários
de motocicleta (Motorcycle Diaries, Walter Salles, 2004)
Há
também bons filmes de estrada filmados aqui no Brasil: Central do Brasil (1998) dirigido por Walter Salles não fica atrás
de nenhum filme estrangeiro e é um road movie por excelência, primoroso; Cinema, aspirinas e urubus (2005) é
outro bom representante de filme de estrada brasileiro, assim como O Caminho das nuvens, filmado em 2003, o
clássico mambembe Bye bye Brasil (1979),
Viajo porque preciso, volto porque te amo
(2009), Árido Movie (2005) e Estrada para Ythaca (2010), só para
citar alguns.
Achei
na internet um site fundamental, completíssimo sobre road movies, da
Universidade de Berkeley, que traz uma listagem em ordem alfabética de dezenas
de filmes e documentários sobre o gênero. Anote aí:













