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Octavio Paz
(1914-1998), prêmio Nobel de Literatura em 1998, é considerado um dos maiores
escritores e pensadores do século XX. Sua obra abarca diversos gêneros, do
ensaio à prosa, mas é na poesia que seu nome brilha com mais intensidade. Nascido
e falecido na Cidade do México, passou a infância nos Estados Unidos, voltou ao
México para iniciar os estudos superiores – em direito, inconcluso – mas acabou
se encantando mesmo com a poesia.
Rodou o mundo
o poeta mexicano; em 1945 ingressa no serviço diplomático, o que o leva a viver
em Paris, até o ano de 1951, quando então é transferido para a Índia. Nessa
missão permaneceu pouquinho tempo, pois logo o chamaram para assumir um cargo
no Japão. Do país do sol nascente foi parar em Genebra e em 1954 já estava de
volta a casa. Podemos dizer que Octavio Paz foi um bom viajante.
Em 1962 é
nomeado embaixador do México e foi novamente cumprir sua missão na Índia, dessa
vez numa longa permanência de seis anos. O livro que tenho em mãos trata
exatamente desse período da vida de Dom Octavio Paz, e foi o último que
publicou em vida: Vislumbres de la India.
Comprei meu
exemplar no ano passado na Librería
Encontros, em Santiago de Compostela, após a indicação de um vendedor que
mui gentilmente me indicou a obra. Eu buscava títulos de literatura odepórica
mas não queria nada relacionado ao tema das peregrinações jacobeas. Daí que o
bom librero me põe nas mãos o pequeno
exemplar do poeta, e eu que já tenho uma simpatia natural pela Índia nem
hesitei e saí empolgado com minha aquisição. Comecei a ler o livro logo depois,
sentado num café, sob os arcos da Rua do Villar. Chovia em Santiago.
Mas sabe
quando você compra um livro achando que é uma coisa e depois não é nada daquilo
que você imaginava? No meu caso, o que eu buscava estava ali, mas somente entre
as páginas 07 e 24; entre essas folhas você conhece um pouco do Octávio Paz
viajante, deslumbrado com as paisagens e encantado com os orgiásticos excessos
de informação visual que a Índia tem a oferecer.
A partir da página
25, o que parecia ser um relato de viagem transforma-se em um grande ensaio
sobre a arte, a espiritualidade, a filosofia e a política daquele país. Já li
muitas narrativas de viagem sobre a Índia, de indianos e de gente que nem sabia
do que estava falando, e garanto que a escrita de Dom Octavio é das mais
inteligentes que já li sobre o país. O poeta não deixa escapar nada, até da
culinária chega algo que se aproveita de maneira mais instigante. Quer ver um
trecho? Vamos lá:
“A comida,
mais do que as especulações místicas, é uma maneira segura de se aproximar de
um povo e de sua cultura. Já sinalei que muitos dos sabores da cozinha indiana
são também os da mexicana. Contudo, há uma diferença essencial, não nos sabores
senão na apresentação: a cozinha mexicana consiste em uma sucessão de pequenos pratos.
Trata-se, provavelmente, de uma influência espanhola. Na cozinha europeia esta
sucessão de pratos obedece a uma ordem muito precisa. É uma cozinha diacrônica,
como disse Lévi-Strauss, na qual os guisados seguem um após o outro, numa espécie
de marcha interrompida por breves pausas. É uma sucessão que evoca tanto o
desfile militar como a procissão religiosa. O mesmo acontece com a teoria, no
sentido filosófico da palavra. A cozinha europeia é uma demonstração. A cozinha mexicana obedece à mesma lógica, embora não
com o mesmo rigor: é uma cozinha mestiça. Nela intervém outra estética: o
contraste, por exemplo, entre o picante e o doce. É uma ordem violada ou
pontuada por certo exotismo. Diferença radical: na Índia as diferentes iguarias
juntam-se num único grande prato. Não há sucessão nem desfile, mas sim
aglutinação e sobreposição de substâncias e de sabores: comida sincrônica.
Fusão dos sabores, fusão dos tempos.”
Só mesmo uma
pessoa muito culta e observadora é capaz de captar a essência de uma cultura,
seu ethos, através de algo tão
coloquial (em termos) quanto a cozinha de um povo. É um tema fascinante que
merece abordagens muito mais profundas, mas não agora.
A comida - ou
o ato de comer - tem uma relação muito íntima com o sexo: ambos tratam da gula,
do prazer, dos excessos, tanto que o verbo comer
se conjuga tanto na mesa quanto na alcova. Um dos aspectos marcantes da cultura
indiana é justamente a união do sagrado com o profano e na literatura temos o Kama Sutra como exemplo mais lembrado,
assim como os templos medievais de Khajuraho, das coisas mais impressionantes
que um viajante não deveria deixar de conhecer antes de aposentar suas botas.
Vou me
alongar um pouquinho nessa temática. Dom Octavio Paz também se estendeu no
assunto, que me fez lembrar de antigas leituras sobre os cenobitas, João
Cassiano e Santo Antão e seus padres do deserto, coisa fina que só mas que
ninguém mais nos dias de hoje quer saber, além de mim e de dois ou três esquisitos
que devem existir por aí. Retomando o foco, quando estudamos sobre a vida
desses monges e monjas do passado distante (e olha lá, porque hoje virou tudo
um carnaval), o que parece chamar nossa atenção não é o retiro e a vida isolada
em comunidade, mas talvez a questão da vida celibatária.
Dom Octavio
Paz nota que as divindades indianas possuem, como as gregas e as romanas, uma
forte sexualidade. Entre seus poderes está um imenso poder genésico que os leva
a copular com todos os gêneros de seres vivos e a produzir, sem cessar, novos
indivíduos e espécies. Isso você já sabe, toda mitologia em algum momento tem
lá seu tempero picante.
Em um dos
livros sagrados da Índia, chamado Atharva
Veda, que é donde Dom Octavio tirou
as informações que você vai ler a seguir, existe uma explicação fascinante
sobre o tema da castidade, que merece ser lida porque lança um olhar muito diferente
daquele que se observa nas tradições religiosas ocidentais. Para ler com a
mente aberta, por favor:
“O prazer
sexual é, por si só, valioso. Para os hindus é uma das quatro finalidades do
homem; para além de ser uma força cósmica, um dos agentes do movimento
universal, o desejo (Kama) é também
um deus, semelhante a Eros, dos gregos. Kama
é um deus porque o desejo, em sua forma mais pura e ativa, é energia sagrada:
movimenta a natureza inteira e os homens.
Nesta visão
da sexualidade como energia cósmica e do corpo como reserva de energia criadora
reside uma das causas, provavelmente a mais antiga, da abstinência sexual. O corpo,
como a natureza inteira, é vida que produz vida: a semente fecunda a terra e o sêmen
o ventre da mulher. O corpo humano não só entesoura a vida: transforma sua
energia em pensamento e o pensamento em poder.
A castidade
começou por ser uma prática dirigida a entesourar vida e energia vital. Foi uma
receita de longevidade e, para alguns, de imortalidade. Esta ideia é um dos fundamentos
da filosofia do Yoga e do tantrismo. É também parte central do taoísmo chinês. A
vida é energia, poder físico e psíquico: o sexo é poder e poder fecundante que
se multiplica; o corpo é uma fonte de sexualidade e, portanto, de energia; reter
o sêmen (bidu, em sânscrito), guardá-lo
e transformá-lo em energia psíquica, é apropriar-se de grandes poderes naturais
e sobrenaturais (siddhi).
O mesmo acontece
com o fluxo sexual feminino (rajas). Um
texto tântrico diz: ‘o bidu é Shiva e
as rajas são Shakti (a consorte
feminina do deus), o sêmen é a lua e as rajas
o sol...’. Por isso, ainda que o prazer (Kama)
seja uma das finalidades do ser humano, o sábio o descarta e escolhe a via da abstinência
e da meditação solitária. O prazer é desejável, mas finito; não nos salva da
morte nem nos liberta das sucessivas reencarnações. A castidade nos dá poder
para a grande batalha: romper a cadeia das transmigrações.”
Isso tudo só
para mostrar como uma leitura puxa outra, como nos leva a fazer pontes, como
nos faz viajar. Mas também quis com isso mostrar as possibilidades infinitas que
se escondem nos relatos de viagem, tanto para quem escreve quanto para quem lê.
Os vislumbres da Índia de Dom Octavio Paz fizeram-no desbravar territórios
pouco explorados por quem visita a Índia, exceção feita aos que lá se dirigem
para estudar suas tradições espirituais e religiosas.
É tudo muito
bonito nessa obra de Dom Octavio, que fala pouco das viagens, em termos de
deslocamento, mas que brilha como um cristal multifacetado quando discorre
sobre a vida em suas múltiplas manifestações. É preciso reconhecer, e isso só
com muita leitura, que grandes narrativas de viagem não têm necessariamente que
tratar dos caminhos todo o tempo; a bem dizer, os textos que se prendem mais à
estrada do que às pessoas - ou às relações interpessoais - são os que menos
agregam conhecimento e no final da leitura o que sobra não ajuda muito a
enriquecer o leitor, à parte a diversão e o prazer por ela proporcionados.
Para não
terminar sem ao menos copiar um trechinho de uma cena de deambulação desse
querido autor sábio-vagamundo, transcrevo uma bonita passagem que aparece no
início da obra, um vislumbre da Índia, como escreveu o próprio autor:
“(...) a noite
me atraía e decidi dar outro passeio pela grande avenida que margeia o cais, uma
zona tranquila. No céu ardiam silenciosamente as estrelas. Sentei-me aos pés de
uma grande árvore, estátua da noite, e tentei fazer um resumo do que havia
visto, ouvido, cheirado e sentido: enjoo, horror, estupor, assombro, alegria,
entusiasmo, náuseas, invencível atração. O que me atraía? Era difícil
responder: Human kind cannot bear much
reality. Sim, o excesso de realidade se transforma em irrealidade, mas essa
irrealidade se havia convertido, para mim, em um súbito terraço desde o qual me
projetava. Em direção a quê? Ao que se encontra além e que ainda não possui um
nome...”
♣
Vislumbres de la India. Octavio Paz. Ed. Austral.
Barcelona, España, abril de 2012.











