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Minhas
caçadas literárias odepóricas têm rendido bons frutos. Um deles, grata
surpresa: Brasileza- suítes brasileiras,
deliciosa leitura que retrata de maneira muito simpática e honesta nosso povo
brasileiro. O autor se chama Patrick Corneau, um professor universitário
francês que andou perambulando pelas bandas de cá, imagino eu, na década
passada, já que ele não informa a data, mas cita em notas de rodapé eventos
desse período. Também não importa, o que interessa é que o Patrick conseguiu
publicar um livro que traça um perfil surpreendentemente real daquilo que
podemos chamar de ethos brasileiro – o conjunto de costumes e hábitos de um
povo que acabam por conferir a ele uma identidade própria, que o diferencia de
outras culturas.
E
qual a melhor maneira de conhecer o caráter de um povo senão viajando e
convivendo com os locais? Foi seguindo esse princípio que o professor e
escritor francês Patrick Corneau, botou o mochilão às costas e se jogou pelos
quatro cantos desse imenso país.
Seu
livro apresenta três capítulos e confesso que não entendi bem a conexão com o
termo “Suíte”- talvez tenha a ver com o significado do termo em francês (série,
conexão) e que nós logo associamos ao jargão musical. Não entendi, mas achei
bonito. Na Suíte Brasileira I (Aqui e
Agora) é onde acontece a narrativa de viagem propriamente dita, onde conhecemos
os deslocamentos do viajante francês.
O
relato se costura entre cidades conhecidas, grandes capitais e depois o matão
amazônico. Assim, a aventura começa por São Paulo, e passa nessa ordem pelas
seguintes localidades: Rio, Parati, Salvador, Brasília, Iguaçu (com esticadinha
ao Paraguai), Belo Horizonte, Ouro Preto, Fordlândia, Manaus, Belém e,
finalmente, São Luiz do Maranhão.
Surpreende
a qualidade das observações do Patrick sobre a cultura e os fatos históricos
dos locais que ele visita; não há futilidade nem nas coisas fúteis como provar
uma tigela de açaí, por exemplo; nenhum comentário surge sem que dele se
aprenda alguma coisa interessante, sem que se agregue algo que nos ajude a
construir pouco a pouco a imagem do povo dos trópicos formado de culturas tão
diferentes e por isso mesmo tão complexo em sua própria compreensão. É
possível, por conta disso, que ao estrangeiro seja mais fácil construir essa
identidade brasileira, porque o olhar do outro vê coisas que nós, de tão
habituados, já não mais conseguimos enxergar e, pior que isso, saibamos valorizar.
A
empatia é imediata: o autor ama o Brasil e os brasileiros, e nós adoramos
aqueles que nos amam e admiram, porque brasileiro de verdade tem o ego inflado
que só. Mas nem vamos entrar nesse assunto, que é muito instigante mas que foge
do nosso tema. Voltemos ao livro e às viagens. O Patrick deve ser muito
organizado, além de inteligente e culto. Faz links interessantíssimos entre
aquilo que vê e aquilo que leu e pesquisou. Leu bem, aliás; cita bons mestres
que ainda hoje são referência nos estudos sobre o povo brasileiro, como
Gilberto Freyre, Claude Lévi-Strauss e Sérgio Buarque de Holanda. E cita
Clarice, duas vezes, porque tem bom gosto ou porque foi bem assessorado, disso
não sei.
Como
disse, sua viagem começa por São Paulo, cidade caótica, de trânsito indomável e
à mercê da violência. A poluição e a falta de horizonte são fatores que obrigam
o paulistano a buscar alternativas para sobreviver à falta de beleza e de
espaço, numa cidade onde tudo acontece em direção ao céu, onde “tudo se
apresenta sobre um único plano vertical como uma espécie de muro contínuo e
cinzento de concreto”, observa muito bem o autor.
Diz
o viajante que o que choca o olhar europeu, ao visitar São Paulo, não é a
novidade, mas a precocidade das devastações do tempo. “O Novo Mundo é sempre
novo, tanto que vestígios sucedem vestígios sem que o tempo traga uma
valorização. Assim que um bairro é edificado às pressas – portanto mal na
maioria das vezes -, o ciclo da degradação começa: as fachadas se descascam, a
chuva e a poluição deixam manchas e sulcos, o estilo cai de moda, a ordem
primitiva desaparece sob um novo frenesi de demolições.”
As
observações e os comentários do Patrick ensinam a enxergar além das aparências,
algo que se deve tentar praticar nos deslocamentos. Por exemplo, dizer que São
Paulo é uma cidade feia é algo óbvio, ainda mais se no contexto houver uma
comparação com outra cidade, como o Rio de Janeiro, cartão postal do país. Diz
o autor que os que declaram que São Paulo é feia são vítimas de uma ilusão, uma
vez que sua beleza selvagem não nasce de sua natureza urbana, e que somente a
estética do caos pode nos ajudar a apreender esse monstro.
“Não,
São Paulo nunca me pareceu feia, mas indomável, delirante e profética como o
cenário de um filme-catástrofe e ébria de movimento, atarefada, ofegante...
Finalmente, o que fascina nessa cidade, tão irritante para nossos hábitos de
temperança, é essa surpreendente capacidade de fazer misturas, mestiçagens
entre o primitivismo e a modernidade, ligando o que nós separamos.”
“Nessa
turbulência, essa efervescência cuja razão não distinguimos claramente – uma
espécie de condição natural -, mistura complexa de doçura e violência, de vida
pública e de vida privada, de razão e afetividade, de individualismo e de clãs
há uma ordem sutil que nos conduz necessariamente – se quisermos compreendê-la
– a afinar nossa sensibilidade e nossa inteligência.”
Próxima
parada: Rio de Janeiro. Mais uma vez, o óbvio, mas não há como não falar do Rio
e dos cariocas sem falar da praia, a praia brasileira que “é um espetáculo
terrestre luminoso, ensolarado, atmosférico, natal, (...) onde nosso corpo se
esparrama, se dilata".
“Diz-se
que Ipanema destronou Copacabana nos desfiles de tecidos minúsculos. Mas nada
de seios de fora. Mal visto, esse gesto caracterizava outrora as escravas.
(...) No ano passado, numa praia de Fortaleza, fui surpreendido pelo gesto de uma
bela Lolita que, saindo da água, jogara com pudor sobre si uma saída de banho
ligeiramente transparente como para esconder o esplendor de suas formas no
espelho parabólico da concupiscência. Jean Baudrillard, fino observador, disse
tudo: Os brasileiros (as) têm uma maneira
de estar mais nus do que nós, pois eles estão nus por dentro. Nós apenas
tiramos a roupa”.
Passagens
interessantes sobre o Rio de Janeiro, numa delas me veio à memória velha canção
dos Paralamas, aquela que diz – referindo-se à capital fluminense - “cidade que
tem braços abertos num cartão postal, com os punhos fechados na vida real”, e o
Rio me parece ser bem isso, realidade que se projeta país afora, com certeza,
pois mudam as paisagens, os sotaques, mas o povo continua sendo o mesmo,
compartilhando desde sempre as desigualdades sociais terceiromundistas.
É
possível, tanto no Rio quanto em São Paulo enxergar a beleza implícita no
contraste dessas desigualdades, e o jogo na verdade desse relato de viagem é
esse, talvez a mensagem que o autor quis passar, a de que o Brasil continua a
ser uma terra de contrastes, como sempre foi. Toque de poesia do autor:
“Rio,
noite lá fora, jantar num clube chique na Urca. Beleza das favelas que se
transformam em constelações de luzes multicolores, e escorrem dos morros para o
mar como um diadema colocado sobre a cidade. Unidade sideral que se procuraria
em vão durante o dia, emblema de inversões com as quais não se cessa de brincar
aqui: é a miséria diurna que produz a maior beleza noturna, como se a injustiça
social pudesse ser compensada, mesmo ‘esteticamente’.”
Em
Parati o viajante encontra as portas das igrejas escancaradas...vem daí a deixa
para falar de algo que me interessa particularmente, a religiosidade popular
brasileira. Pela narrativa, imagino que o autor entrou naquela igreja de Parati
no momento em que acontecia uma missa carismática, do tipo em que o povo se
solta mais, cantando e até dançando, dependendo da maior ou menor exaltação do
pároco. Se aqui já começamos a nos acostumar com a “performance” carismática,
lá fora o lance ainda parece bem peculiar:
“Assistimos
a uma pregação interativa: o padre interpela os fiéis, cita os Evangelhos,
questiona, manda levantar a mão. Ele entoa em seguida um cântico, uma pequena
orquestra o acompanha, a assembleia bate palmas e entra no embalo. O padre
parece feliz com o ambiente, ele se volta para o fundo do coro e lança (em
francês): ‘Então padre, você canta conosco?’. Sentado ao lado das crianças do
coro, um velho padre francês balança timidamente a cabeça grisalha, com ar
incomodado, embaraçado, sem dúvida por esse fervor bastante (demais) tropical.
Esse catolicismo convivial explica-se em grande parte pelo caráter intimista
que pode revestir no Brasil a devoção. Mais religiosidade do que religião, é um
culto amável, quase fraterno, que não cabe bem no cerimonial e suprime as
distâncias. Diz-se que mesmo a ponta do Vaticano, se se instalasse no Brasil,
não resistiria à irreverência local e que em alguns dias o papa teria um
apelido de camarada.”
Em
Salvador o viajante se pega olhando para o céu noturno em busca do Cruzeiro do
Sul e a Bahia tem as noites mais lindas que alguém pode ver na vida.... isso
quem diz sou eu, mas não são as estrelas do céu de Salvador que impressionam o
viajante francês, senão os tambores do Olodum, os de lá do Pelourinho, “num
ambiente superaquecido, apimentado pelo cheiro de suor, os rostos hesitando
entre furor dionisíaco e terror místico, os dançarinos, em frente à orquestra,
avançavam por ondas sucessivas, como imantados pela energia radiante das
percussões”. Diz o Patrick que não é o rumor do trânsito que ritma Salvador,
mas o bater incessante dos tambores que, de quando em quando e onde quer que se
esteja, marca as horas. Impossível discordar dele.
Brasília,
BSB, “asfalto e concreto demais, cidade
matemática onde se sente que um samba não pode nascer”, escreve ele. Fiquei
surpreso ao ler o que vem a seguir, uma passagem que tem muita afinidade com
uma das canções mais marcantes e idolatradas da Legião Urbana, Faroeste
Caboclo: “Uma cidade de faroeste, humana e suja, miserável e cheia de vida,
com suas reverberações, seus ônibus, suas mães de família, trombadinhas...
enfim, um repouso benfeitor para os aventureiros e para o olhar do visitante,
uma cidade perfeita!”
Falar
de Brasília é também falar de Niemeyer, evidentemente. Pois não há neste país
cidade onde a arquitetura seja mais discutida do que na capital. Ame ou odeie (seu
trabalho), Oscar Niemeyer é um gênio, mas nem por isso temos que gostar do seu
estilo, de sua marca. Embora suas obras nem sempre agradem (como aquela
pavorosa mão sangrenta no Memorial da América Latina, em Sampa), jamais alguém
fica indiferente à presença de algum de seus inúmeros e representativos
trabalhos. Tudo bem, nem Gaudí consegue agradar todo mundo sempre, então não
tem problema.
E a
questão é que a arquitetura brasiliense vai muito além das aparências, cheia de
simbolismos que só. Curiosamente, o autor não se prende à arquitetura da
capital, mas à imensidão mágica do céu do planalto central:
“Na Praça
do Três Poderes, desesperado por não ter nada que se pudesse fotografar,
entendo que ali estou pelo ‘amor ao céu’. Para o céu imenso de Brasília, ‘The
Big Sky’ – diriam os americanos-, céu cuja doçura caída sabe-se lá de onde
parece quase nos fazer esquecer a terra. Era então essa a finalidade da viagem?
Seu oriente? A imensidão, simplesmente. Imantada pela visão nostálgica dessas
nuvens de altitude ao mesmo tempo tão longe e tão perto, suspensas na vastidão
de um céu original que parece ter sido pintado por Dalí ou Tanguy, entrevistas
outrora em algum documentário e que me acenavam. O que havíamos esquecido não
nos esquece. Sonhar, viajar, têm por base um sous-venir que não cessa, que persiste em sobrevir ao seio de tudo.
Já que no mundo falta espaço, a dimensão é a atração dos turistas que nos
tornamos. Só a Sibéria, a Antártida e o Saara podem rivalizar com a imensidão
brasileira, mas o clima naqueles lugares é desastroso. É por isso que o governo
brasileiro, em sua sabedoria, construiu Brasília e cravou suas florestas
virgens de estradas...”
Por
mais que tenha vontade de compartilhar cada passagem dessas suítes brasileiras,
sinto que já escrevi mais do que deveria; já li muitos artigos e algumas obras
de visitantes estrangeiros escrevendo sobre o Brasil, mas nenhum escritor me
pareceu captar tão bem o ethos brasileiro quanto o Patrick Corneau.
Gostei
demais de sua obra, que segue o estilo da escrita fragmentária, tipo de
literatura onde “o narrador viajante desloca-se, com frequência sem transição,
da nota histórica, lendária ou própria do guia do viajante para o devaneio
poético, da descrição da monumentalidade ou da paisagem humana para uma
micro-narrativa de enredo sentimental ou aventuroso, sempre fiel a uma
estratégia da alternância, potenciando o caráter dinâmico de uma escrita
fragmentária e de algum modo adotando a técnica do patchwork” (Maria de Fátima
Outeirinho, “Fragmento e Narrativa de Viagem” em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6712.pdf).
Viajar
é responder a um chamado, escreve o Patrick Corneau, já finalizando seu texto
na estimulante Suíte Brasileira III (Travelogue). O trecho que transcreverei
abaixo é das coisas mais bonitas e mais profundas que já li sobre a arte de
viajar, algo que eu adoraria ter escrito algum dia. Brasileza é uma obra para ser lida e relida com imenso prazer. Merci, Patrick!
♣
Que
proveito tirar da viagem senão o de assumir totalmente a condição de
estrangeiro? A estranheza dos estrangeiros, mas também nossa própria
estranheza? Um idioma que não compreendemos, uma sociedade e um cotidiano que
parecem nos rejeitar, céus que não nos viram nascer. Nada para nos confortar. A
viagem quebra em nós uma espécie de cenário interior. Não é mais possível
dissimular: eis-nos desnudos. A cortina dos hábitos, a tessitura confortável
dos gestos e das palavras em que o espírito se apazigua se ergue lentamente e
desvela a face pálida da inquietude.
Ficamos
reduzidos ao osso das coisas, e cada coisa nos remete a nossa angústia, a qual
lhe dá sorrateiramente seu preço. O homem está face a face consigo mesmo. E é,
no entanto, por aí que a viagem o ilumina.
Um grande desacordo acontece entre ele e as coisas. Entre ele e essa parte de
si mesmo à qual era acostumado e que não reconhece mais. Nessa falha, a música
do mundo entra mais facilmente. Nesse despojamento de si, a menor árvore e o
sorriso mais leve se tornam a mais terna e a mais frágil das imagens. De novo
se aprofunda em nós, com que uma fome da alma, um fervor reencontrado: não
estamos prestes a acolher os rostos dos homens enraizados em sua terra, os
monumentos nos quais séculos se resumem. Por último, essa fração de nós mesmos
desprendida da vida trivial onde rastejamos.
Para
dar a cada ser e a cada objeto seu valor de milagre, foi-nos preciso pagar o
imposto de um curto abandono. É um de
meus exercícios favoritos quando viajo: mudar de pele, pegar um destino-minuto,
entrar na vida de um outro e trocar sua opacidade pela minha. As oportunidades
são múltiplas para quem não se resigna em ser si mesmo e que, como o Zelig de
Woody Allen, entra no molde ou no papel que lhe propõem. Os restaurantes,
principalmente quando o serviço demora, são perfeitos observatórios da diversidade
humana e favorecem esse exercício de compaixão.
Assim
era aquela pizzaria no centro de Manaus, onde parecia ter encalhado uma
clientela de viajantes que não queriam se afastar de seus hotéis. As pessoas
sozinhas são sempre mais interessantes: não solicitadas por uma conversação ou
a presença de outrem, parecem menos protegidas. Um olhar que vagueia pelo salão
diz mais do que uma conversa educada. Um gesto ligeiramente inesperado revela
de repente uma existência com seu peso de fatalidade, suas dificuldades, suas
falhas secretas. (...)
“A
finalidade da viagem é a de sentir-se próximo dos Longínquos e consanguíneo dos
Diferentes. Sentir-se em casa na concha dos outros. Como um bernardo-eremita.
Mas um bernardo-eremita planetário. (citando Jacques Lacarriere, escritor
viajante)”.
♣
Saudades do Brasil...
No
vôo noturno São Paulo/Paris, dois franceses se jogam pesadamente nos bancos à
esquerda e à direita do meu. Com roupas de “mochileiros em férias”, eles
começam tirando os sapatos, enrolando-se nas cobertas e botando os pés
descalços na divisória entre nossos assentos. Um deles inclinou a poltrona
antes da decolagem e passou os braços para trás do encosto, o que parecia
incomodar o passageiro de trás. Apoderando-se de minhas duas braçadeiras (“é
‘meu’ lugar”), eles vão passar uma parte do vôo falando por cima de minha
cabeça, passando revistas sem emitir o mínimo “com licença”.
Volta
à França. Acabaram-se gentileza, sorrisos e boas maneiras. Bem-vindo ao mundo
moderno da indelicadeza e da pangrosseria. Desgraça. Saudades do Brasil.
♣
Leia:
Brasileza: Suítes Brasileiras. Patrick Corneau. (trad. Mônica Cristina Corrêa).
São Paulo: Perspectiva, 2007

















