Não
há como não gostar de um filósofo que afirma o seguinte: “a liberdade é um
bocado de pão, um gole de água fresca, uma paisagem aberta”. Chama-se Frédéric
Gros, o autor da sentença, um professor de filosofia na Universidade Paris-XII
que escreveu uma excepcional obra intitulada Caminhar, uma filosofia.
E eu
com o livro aqui em mãos nem sei por onde começar essa postagem, por conta da
grande quantidade de trechos que fui sublinhando ao longo da leitura, que fiz
como se deve fazer quando se trata de um texto de qualidade: devagar,
refletindo, voltando parágrafos na intenção de querer guardar na memória aquela
passagem que pareceu mais especial e que às vezes a gente sublinha para depois
copiar em algum lugar, papel solto que provavelmente ficará esquecido dentro de
uma gaveta ou de um livro qualquer.
Nesse
livro sobre o ato de caminhar (diferente do passeio, como vimos no post sobre A arte de passear, obra de outro
filósofo, Karl Schelle), Frédéric Gros apresenta a ideia de que a caminhada é
também um ato filosófico e uma experiência espiritual. Para isso o bom
professor se vale de suas próprias experiências enquanto caminhante/viajante e
de suas leituras e estudos sobre alguns dos grandes nomes da filosofia e da
sabedoria espiritual.
Aparecerão
nessa ordem os seguintes autores escolhidos a dedo pelo Frédéric: Nietzsche,
Rimbaud, Rousseau, Thoreau, Kant e o querido Gandhi; entre um nome e outro,
revezam-se capítulos que tratam de questões simpáticas às mentes filosóficas:
liberdade, tempo, solidão, silêncio, eternidade, peregrinação, regeneração e
presença... muita coisa boa, como você já deve ter percebido. E o melhor de
tudo é que a leitura flui suave, porque o Frédéric escreve para o leitor comum,
ou seja, seu texto não é um tratado filosófico sobre a caminhada, mas sim uma
obra que pretende mostrar, muitas vezes de maneira poética, que grandes sacadas
filosóficas nasceram durante longas caminhadas e perambulações.
Acredito
que muitos ficarão surpresos ao descobrir que o bigodudo Nietzsche era um
exímio caminhante; a caminhada ao ar livre, escreve Gros, foi o elemento da obra de Nietzsche, o
acompanhamento permanente de sua escrita. O aforismo que abre o capítulo em
homenagem ao filósofo alemão reforça essa imagem:
“Ficar
sentado o menos possível: não pôr fé em pensamento algum que não tenha sido
concebido ao ar livre, no livre movimento do corpo- em ideia alguma em que os
músculos não tenham também participado. Todo preconceito provém das entranhas.
Ficar ‘chumbado na cadeira’, repito-o, é o verdadeiro pecado contra o
espírito.” (in Ecce Homo)
Gostei
imensamente desse capítulo sobre o Nietzsche, porque nele o autor se desdobrou
para pincelar passagens de várias obras do filósofo que mostram a real
importância das caminhadas. Fiquei muito tempo pensando sobre isso, sobre como
as pessoas emburrecem quando simplesmente deixam de sair para ver o mundo,
quando se entregam à comodidade de um sofá em frente à tv, ao tempo gasto
diante da tela de um computador... será que não é possível encontrar um
equilíbrio nessa dinâmica de vida?
E
tem aquele lance de que falam sobre a liberação das endorfinas, que acontece na
cadência de longas caminhadas e isso me veio à mente ao ler a passagem de uma
carta de Nietzsche, quem sabe talvez meio endorfinado por conta de suas jornadas,
que escreveu de maneira tão bonita o que se lerá a seguir:
“A intensidade
de meus sentimentos me faz rir e me arrepia ao mesmo tempo- várias vezes não
pude sair do quarto pelo motivo ridículo de que estava com os olhos vermelhos –
e de quê? É que na véspera eu havia, durante minhas longas caminhadas, chorado
demais, e não com essas lágrimas sentimentais, mas com lágrimas de felicidade,
cantando e cambaleando, com um olhar novo que é a marca de meu privilégio sobre
os homens de hoje.”
Do
Nietzsche há tantas sacadas interessantes que só mesmo tendo a obra em mãos
para aproveitar como se deve. A mesma coisa acontece com o capítulo dedicado ao
jovem poeta Rimbaud, que se intitulava “um pedestre, nada mais”. E olha que o guri
andou muito, muito mesmo, e não estava nem aí se a grana não pintava; ia com a
cara e a coragem, como se dizia, e não estamos falando de uma jornada de parcos
quilômetros não, o lance era maluquíssimo, atravessava países e mais tarde, um deserto.
“A pé. Sempre a pé e medindo com suas ‘pernas que não têm iguais’ a amplidão da
terra”.
Isso
tudo teve um preço, e as andanças intermináveis do audacioso poeta, sua quase
loucura em se recusar a ficar parado seja onde fosse, detonaram um dos joelhos,
muita dor, muito sofrimento, e finalmente uma perna amputada. Impossível imaginar
desgraça maior. Diz o Frédéric Gros que todas as viagens de Rimbaud eram fugas,
“fugas raivosas”.
“Vejo
em Rimbaud o sentido de caminhar como sendo fugir. Essa alegria profunda,
sempre, que se experimenta caminhando, de deixar para trás. Está fora de
cogitação voltar quando se caminha. Pronto, partiu-se. E essa alegria imensa,
que complementa a outra, a do cansaço, da extenuação, do autoesquecimento e da
indiferença pelo mundo. Todos os nossos relatos antigos, e esses fatigantes
murmúrios, abafados pelo martelar das passadas sobre a estrada. O esgotamento
que afoga tudo. Sabe-se sempre porque se está caminhando. Para avançar, partir,
atingir, tornar a partir.”
Que
beleza. O próximo na lista é o Rousseau, mas esse grande personagem já apareceu
aqui no Odepórica, assim como o bem
aventurado mestre Thoreau. Deles não falo, embora o capítulo sobre o Thoreau
seja irresistível, de modo que não consigo deixar de transcrever um insight
maravilhoso do Frédéric.
Nessa
passagem ele discorre sobre um ponto fundamental na leitura de Walden, coisa de filósofo atento, por
isso vale a pena aprender com ele. Diz o Fréd que Thoreau era um caminhante
incrível (três a cinco horas diárias nos arredores do lago Concord), mas que
estava longe de ser um grande viajante. Surge a questão: Foi Thoreau um
aventureiro de pernas curtas?
“Thoreau
nos alerta contra o grande perigo que é a procura pelo exótico. Vê-se tanta
gente que caminha para ir longe e contar tudo o que viu por aquelas bandas:
achados necessariamente fabulosos, acontecimentos forçosamente épicos,
paisagens sempre sublimes, alimentos evidentemente sem cabimento. Grandes
feitos, então: no relato, na aventura, nos extremos. E, contudo, o Walden de Thoreau terá fascinado muito
mais que todos os relatos de viagens. Sente-se nele, de fato, uma radicalidade
na conversão que deixa sem graça as epopeias pomposas de nossos aventureiros
dos limites extremos. Nunca será demais repetir: não é necessário ir muito
longe para caminhar. O verdadeiro significado da caminhada não está em rumar
para a alteridade (outros mundos, outros semblantes, outras culturas, outras
civilizações), está em ficar à margem dos mundos civilizados, quaisquer que
sejam. Caminhar é pôr-se fora do caminho: ocupar uma posição marginal com
relação aos que trabalham, marginal às autoestradas de alta velocidade,
marginal aos produtores de lucro e de
miséria, aos exploradores, aos trabalhadores esforçados, posição marginal com
relação aos indivíduos sérios que sempre têm coisa melhor para fazer do que dar
boa acolhida à pálida suavidade de um sol de inverno ou ao frescor de uma brisa
primaveril.”
E
isso é só um aperitivo, o que vem depois só faz o texto melhorar. O próximo da
lista é Kant, seguido do andarilho fiador pacifista Mahatma Gandhi. Não
renderam nesse livro bons textos em comparação com os anteriores, mas isso é
uma impressão particular, evidentemente.
É de
fato uma pena não poder compartilhar com o leitor/a cada uma das anotações que
fiz ao longo dessa leitura sublime sobre o caminhar; há muita coisa preciosa em
cada um dos capítulos, quando ele fala sobre a “Filocalia do coração”, que não
direi do que se trata, mas é algo verdadeiramente mágico e transformador;
quando divaga sobre as liberdades, assim mesmo no plural (“é no instante em que
se abre mão de tudo que tudo nos é oferecido, no instante em que não se pede
mais nada que tudo é entregue, em abundância”); as duas páginas sobre a
peregrinação a Santiago, duas encantadoras páginas que sintetizam muito sobre a
experiência jacobea (“não deveríamos dizer que atravessamos as montanhas, as
planícies, e que paramos nas pousadas. É praticamente o contrário: durante
vários dias, moro numa paisagem, vou tomando posse dela devagar, torno-a meu
espaço”.); a história sobre o sábio peregrino, encaixada na página sessenta e
dois, que até pensei em transcrever, mas depois mudei de ideia.... enfim, você
já entendeu o recado: nessa leitura, tudo vale a pena, não há desperdício de
palavras, nem de ideias, nem de poesia. Namastê!
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Disse
um sábio taoísta: Os pés sobre o chão ocupam pouquíssimo espaço; é por todo o
espaço que eles não ocupam que se pode caminhar”.
♣
Dedico esse post ao casal de peregrinos, Leo y Clarisa, bons caminhantes à espera de um futuro niño/ña peregrino/a. ¡Ultreya y Suseya!
♣
Leia:
Caminhar, uma filosofia. Frédéric Gros. Ed. É Realizações, 2010.








