segunda-feira, 4 de abril de 2011

Caminhos sagrados: aventuras de um peregrino, by Nicholas Shrady

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São poucas as obras publicadas no Brasil que entram de cabeça na temática das viagens sagradas. Quando muito, você encontra nas estantes uma meia dúzia de livros voltados à temática do turismo religioso, que não tem muito a ver com o lance.


Bons estudos sobre turismo religioso há, entre eles cito assim sem compromisso os trabalhos de Pierre Sanchis e Carlos Alberto Steil, pesquisadores que navegam bem nessas águas. Um dia falo deles, mas daí a pegada tem que ser mais acadêmica, um lance mais de pesquisa, de reflexões e isso foge um pouquinho do escopo do Odepórica.


Muito bem, então vamos falar agora desse lance de viagens sagradas. Sem muitas firulas, eu definiria uma viagem sagrada como um deslocamento em direção a um lugar considerado sagrado por alguém. E por sagrado entenda o oposto de profano. Simples assim, e isso não sou eu quem afirma, é o Mircea Eliade, que é uma referência no mundo bagunçado e instigante das ciências da religião.

Uma viagem sagrada, em muitos aspectos, tem ligação direta com rotas de peregrinação e visitas a lugares santos, que podem ser igrejas, templos da antiguidade, bosques, fontes de água, uma árvore, uma rocha, um túmulo, ruínas e por aí vai.


O autor norte-americano Nicholas Shrady, que costuma escrever sobre narrativas de viagem, resolveu um dia visitar seis locais de diferentes tradições religiosas que parte da humanidade considera sagrado: Medjugorje (Bósnia), Rishikeshi e Varanasi (Índia), Santiago de Compostela (Espanha), Terra Santa (Jerusalém) e Konya (Turquia), onde se encontra o túmulo do poeta sufi Rumi. Seis locais, cinco das principais tradições religiosas do mundo: Budismo, Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. Bem interessante.


O livro Caminhos Sagrados: aventuras de um peregrino é de leitura fácil e agradável, embora um tanto superficial. O autor, em alguns momentos, soa meio pretensioso e às vezes lhe falta um pouco de humildade. Um livro nota sete, para um leitor pouco exigente. Mas em meio a tantas publicações esdrúxulas, como aquela obra que virou aquele filme com a Julia Roberts (e se você não sabe do que estou falando nem perca tempo tentando descobrir), sete é uma nota muito boa. Em outras palavras: vale a leitura, principalmente se você curte viajar para esses tipos de lugares com apelo mais espiritual.


Nesse post não vou transcrever passagens de capítulo algum. Optei por copiar na íntegra a introdução feita pelo próprio autor, que de alguma forma me pareceu mais interessante do que os próprios relatos de viagem que compõem a obra. Boa viagem.




O impulso de fazer uma peregrinação é tão antigo quanto universal. Os egípcios viajavam para o santuário de Sekket em Bubastis; os gregos procuravam os conselhos de Apolo em delfos e as curas de Asclépio em Epidauro. Quetzal, Cuzco e Titicaca eram locais sagrados na América pré-colombiana. A tradição cristã atrai os fiéis, em primeiro lugar, para a Terra Santa, Roma, Santiago de Compostela, Fátima, Lourdes e, mais recentemente, Medjugorje, na Bósnia, onde se diz que a Virgem Maria aparece diariamente a um grupo de videntes da aldeia.


No mundo muçulmano, a hajj, a viagem obrigatória do peregrino para Meca, é um dos Cinco Pilares da Fé.



Os budistas aventuram-se até o Bodh Gaya, onde o Buda atingiu a Iluminação; os judeus curvam-se em oração diante da Muralha Ocidental do templo; e os hindus banhavam-se nas águas cheias de cinzas do sagrado Rio Ganges. Cada religião tem seus ritos e rituais prescritos, mas a peregrinação, em particular, parece falar a um movimento instintivo do coração humano. A frase latina ambulare pro Deo, “caminhar por Deus”, é tão válida para o peregrino cristão que parte rumo a Santiago de Compostela quanto para um muçulmano atraído ao santuário de Ka´ba em Meca ou um budista andando em volta de um stupa.



Exploradores e viajantes, sem mencionar turistas, podem viajar por uma rota de peregrinação, mas seus motivos para a viagem, aquilo que eles procuram, assim como a importância do seu destino final, jamais são os de um peregrino. O progresso do peregrino é ao mesmo tempo uma viagem interior, um exercício espiritual e uma viagem física em direção a um local real, mas investido de um caráter divino. A condição do peregrino, aliás, aproxima-se notavelmente da do herói.


Ao abandonarem o ambiente familiar, mundano, ao submeterem-se a agruras físicas e às vezes a considerável perigo, e ao prestarem reverência ou fazerem penitência num lugar sagrado, os peregrinos, como os heróis, sabem que retornarão de sua odisséia renovados de alguma forma, ou pelo menos interiormente mudados.



“O visitante passa através de um lugar, e o lugar passa através do peregrino”, escreveu Cynthia Ozick. Ao descrever a experiência mística, Meister Eckhart usou a peregrinação como uma metáfora: “O Caminho sem Caminho, onde os Filhos de Deus se perdem e, ao mesmo tempo, se encontram.” Esta é, numa frase, a meta de todo peregrino.


Há dez anos atravessei a pé o norte da Espanha pelo Caminho de Santiago de Compostela, onde se diz descansarem os ossos do apóstolo São Tiago na cripta da catedral. Aos poucos venho compreendendo que a viagem de um mês através de 800 quilômetros foi um acontecimento fértil na minha vida.Ao longo da trilha de peregrinação desdobravam-se episódios coma clareza de parábolas.



Invariavelmente, eu era acolhido por pastores, ciganos, padres de aldeia e freira com votos de silêncio. Fui rechaçado por um súdito do arcebispo. Atravessei paisagens intocadas, de imensa beleza, e os bairros medievais, escuros e labirínticos, de Pamplona, Burgos e Leon. Encontrei santos e misantropos. Colhi maçãs e azeitonas, participei de uma festa de casamento e cuidei de um vagabundo durante um ataque de delirium tremens particularmente forte. Porém, mais do que qualquer outra coisa, tive a oportunidade de refletir e meditar. O Caminho de Santiago foi não apenas uma viagem fisicamente desgastante, mas um exercício espiritual.



Embora eu seja católico de nascença e de criação, minha fé era – e permanece – repleta de profundas dúvidas, mas a peregrinação ajudou realmente a saciar uma sensação sempre crescente, embora mal definida, de anseio espiritual. Como cristãos, aprendemos que Deus é onipresente. Na realidade, não existe uma base teológica sólida na peregrinação a qualquer lugar sagrado.


O cristianismo antigo era uma religião sem templos, padres, santuários, rituais e certamente peregrinações. Deus não deve ser adorado em Jerusalém nem em Gerizim, segundo o Evangelho de João, mas em espírito e verdade. No entanto, permanece o fato de que nunca me senti tão perto do Absoluto como quando estava comprometido com um caminho sagrado, não numa igreja, num confessionário ou momento de oração solitária.


Enquanto avançava em direção a Santiago, vim a considerar o mundo convencional, do qual eu estava afastado pelo menos temporariamente, caótico e sem objetivo; e o mundo da peregrinação, ao contrário, era marcado pela pureza do objetivo, apesar das condições frequentemente precárias.



Achei o Caminho pontilhado de epifanias sutis que – eu percebia – eram milagrosas. Se me sentia de alguma forma abençoado, era porque a peregrinação me aproximou da primeira condição da humanidade. Procurei outras rotas de peregrinação, não apenas no mundo cristão, mas também nas tradições budistas, hindus, judaicas e muçulmanas.


Descobri que a ideia de que durante a viagem pode-se alcançar Deus, ou o Absoluto, é quase universal. É significativo, por exemplo, que Iavé signifique “Deus do Caminho” e que o árabe Il-Rah, originalmente usada para significar uma rota de migração, mais tarde foi recolhida pelos místicos sufis para descrever “o Caminho para Deus”. Cristo e seus apóstolos caminharam pelos montes e vales da Palestina.



A busca do zen também é chamada de angya, ou “viajar a pé”. Os antigos budistas eram “esmoleiros ambulantes”, e as últimas palavras do mestre para seus seguidores foram, apropriadamente, “Continuem caminhando!”. O peregrino em potencial dificilmente encontrará conselho melhor do que estas duas palavras.


Leia: Caminhos Sagrados: aventuras de um peregrino. Nicholas Shrady. Ed. Objetiva, 1999.