quinta-feira, 15 de junho de 2017
A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum, by Pico Iyer
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
Os monges e eu, by Mary Paterson
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Credo de um guerreiro. Samurai anônimo, Séc. XIV
domingo, 22 de abril de 2012
Zen e a arte de viajar, by Eric Chaline

Essa passagem, recolhida do livro Zen and the art of travel, aparece no final da obra de Eric Chaline e de certa forma ilustra a relação do Zen com a arte de viajar. Porque o Zen, mais do que uma doutrina, é uma experiência, um caminho que você pode percorrer em direção ao Satori, termo que o mestre D.T. Suzuki define como “a aquisição de um novo ponto de vista para olhar a essência das coisas”.
Gostei imenso da proposta desse livro, a aproximação da temática Zen budista com a arte de viajar. O Zen, aqui, navega na superfície, mas ainda assim consegue agregar valores e em alguns momentos convidar à reflexão, o que nos dias de hoje já é alguma coisa.
O Eric, cidadão britânico, viaja muito, de verdade. E também gosta de estudar, caso contrário não teria gasto sete anos de sua vida no Oriente estudando filosofia e religião. Parece que se apaixonou pela doutrina zen budista da escola Soto, no Japão. E daí foi ser feliz viajando pelo mundo, meditando e escrevendo coisas interessantes da estrada.
O autor se apropria, sem informar o leitor leigo, de um ensinamento budista conhecido como Nobre Caminho Óctuplo, na formatação dos oito capítulos desse seu livro sobre o Zen e a arte de viajar. Poderia ter feito um comentário, o que enriqueceria o texto e possivelmente levaria o leitor a buscar mais informações sobre o tema, que é verdadeiramente interessante, mas também pode ser que tenha agido assim simplesmente para não parecer muito didático ou, no pior dos casos, doutrinário.
Um dos pioneiros do Zen no Japão (Dogen, 1200-1253) fundou a escola Soto Zen, que entre outras coisas apregoa que o despertar espiritual não só pode como deve acontecer no meio das atividades diárias; não há, nesse contexto, discriminação entre o corpo e a mente, de modo que há o tempo para meditar e há o tempo para labutar, e no final a gente já sabe: o que vale é o caminho do meio.
Partindo desse princípio, podemos aplicar essa ideia, que é muito simples (como o Zen), em nossas viagens também. Porque viajar atento, mantendo a mente alerta e o coração aberto e receptivo, resulta numa experiência muito mais transformadora do que apenas deixar-se levar pelas circunstâncias do deslocamento.
Agora você já tem uma ideia daquilo que o Eric Chaline pretendeu transmitir nessa obra, infelizmente não editada aqui no Brasil; uma pena, porque certamente essa publicação abriria um diálogo interessante entre a literatura odepórica e a religião. Mas não faz mal, caro leitor e leitora, a gente vai se arrumando por aqui mesmo.
Vamos ao que interessa então. Você lerá excertos apanhados de cada um dos oito capítulos do livro, os tais que remetem, como já disse, ao Nobre Caminho Óctuplo. Antes de começar efetivamente com a leitura do texto do Eric, gostaria que você lesse um pequeno conto Zen, a título de introdução:
Um erudito muito conhecido decidiu um dia aprender um pouco mais sobre o Zen. O professor serviu-lhe chá. Ele encheu a xícara com a bebida, e continuou despejando o líquido até que este começou a transbordar do recipiente. Surpreso, o erudito exclamou: “Basta! A xícara está cheia, não cabe mais nada nela!” “Tal como essa xícara”, disse o professor, “você está cheio com suas próprias opiniões; como poderei ensinar-lhe algo sobre o Zen antes que você esvazie sua xícara?”.
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Pensamento correto: A preparação (a comunhão com os lugares)
Há centenas de anos nossos ancestrais eram nômades perambulando sobre a face da terra, seguindo os grandes rebanhos migratórios de animais que lhes serviam de caça. Os seres humanos foram destinados para caminhar e não para ficarem sentados atrás de suas mesas de escritório. Para entrar em contato direto com o meio ambiente, não há nada mais próximo e interessante do que caminhar.
Desde minha primeira viagem a pé, eu caminhei por quatro continentes, em todos os tipos de terrenos, e em cada tipo de variação climática. Nem é preciso dizer que minha habilidade com a bagagem e com a qualidade dos equipamentos que carrego melhorou consideravelmente com a idade e a experiência (e com o aumento da renda).
O prazer que tenho quando caminho é o mesmo todas as vezes: o sentimento de comunhão com o cenário – seja este uma cidade ou um campo – está muito mais presente quando viajo a pé do que quando passo por ele de carro ou de trem. Sinto-me como se pertencesse ao lugar, e não como se fosse apenas um turista.
O Zen é em si uma jornada que nos leva a caminhos desconhecidos, a encontros com estranhos, por destinos insólitos. Na viagem de autodescoberta nada é garantido... no próprio ato de querer chegar, nós podemos tropeçar ou perder nosso caminho, ou podemos perder o ânimo e abandonar a estrada em desespero.
Os viajantes no plano físico têm mais sorte: equipados com passaportes, dinheiro e passagens, eles praticamente têm a certeza de que chegarão aos seus destinos. Mas a questão é: como esses viajantes devem se equipar em suas jornadas? O que devem levar com eles e, ainda mais importante, o que deverão deixar para trás?

Ação correta: jornadas
Santa Helena, uma imperatriz romana (250-330 AC), aguardava uma manifestação física da grande fé que a havia levado, como tantos outros peregrinos, à Terra Santa, em tão perigosa jornada. Miraculosamente, uma orientação divina levou a santa imperatriz à descoberta da Verdadeira Cruz, numa cisterna próxima à tumba onde Jesus Cristo havia sido sepultado. Para guardar a preciosa relíquia, Santa Helena ordenou a construção da igreja no local onde havia sido descoberta a tumba, hoje a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, que se tornou foco para futuras peregrinações.
Exatamente da mesma maneira, embora para fins menos exaltados, quando nós viajamos, criamos nossos próprios altares e relíquias pessoais. Aquilo que esperamos em nossos destinos não são as visões sagradas ou divinas, mas algo ainda mais miraculoso – a oportunidade de nos sentirmos diferentes da maneira como nos sentimos em casa, como se o ato de viajar para certo lugar do mundo nos conferisse o direito a sentirmo-nos mais felizes e mais vivos...

Esforço correto: destinos
(...) A expectativa é o pior guia para os momentos de autoconhecimento que são a verdadeira dádiva de uma viagem. O viajante moderno é uma presa fácil para o desapontamento quando os destinos nos quais ele investiu tanto dinheiro suado para visitar estão abarrotados de gente e de pacotes turísticos – “experiências” de férias. Mas será que podemos negar a nós mesmos aquela nossa viagem tão sonhada – visitar o Louvre ou os templos de Angkor Wat – simplesmente pelo receio de que nossas expectativas nos desapontem?
Meio de vida correto: alimentação e abrigo
Você já parou para pensar no significado das palavras de Santo Ambrósio, “Si fueris Romae, Romano vivito more; si fueris alibi, vivito sicut ibi” (“Se estiveres em Roma, vive como romano; se alhures, vive como lá se vive”)? Se a viagem nos oferece a oportunidade de fazer descarrilar os nossos pensamentos de padrões estabelecidos, removendo-nos do ambiente do dia-a-dia e levando-nos a descobertas de novos lugares e de novas amizades, então, em um nível muito básico, ela também permite uma mudança nas rotinas diárias: alimentação, descanso, higiene, exercícios e vestuário.
Quando viajamos, todos os nossos hábitos podem ser temporariamente suspensos ou mudados. No entanto, a maioria dos viajantes continua a ignorar as mudanças que são forjadas em seus corpos físicos ou o impacto que essas transformações no corpo têm no espírito. Dependendo de como você encara, experimentar o modo de vida de outras culturas pode ser um desafio, uma provação ou um prazer.
Fala correta: encontros
Quando planejamos uma viagem, nós nos entretemos com um “slide-show” de imagens, tiradas da televisão, de filmes, livros e panfletos. Essas imagens incluem tanto os pontos turísticos naturais quanto aqueles criados pelo homem: as ruas das cidades, os museus, as lojas e os restaurantes onde apreciamos a cozinha local. O que temos visto nesse catálogo de objetos tantalizantes? Mesmo que optemos por viajar sozinhos, em algum momento estaremos acompanhados por outros viajantes e por aqueles que levam a vida nos locais que planejamos visitar. Como viajante, eu sempre me considero uma visita. E acima de tudo, o dever de um hóspede é o de adotar uma atitude de gratidão pela hospitalidade que ele recebe.
Concentração correta: memórias
A última vez em que vi minha mãe viva foi em um hospital de Houston, lutando contra um câncer devastador. Poucos meses depois eu estava viajando para a região do Loire, na França, com meus parentes, levando a urna com suas cinzas, mais tarde jogadas de uma ponte sobre um rio, num domingo de verão.
Em Varanasi, as piras queimam por horas até que os corpos estejam completamente consumados, e depois as cinzas são jogadas no rio. Dei as costas para o local de cremação e fiquei observando as águas do Ganges, cheio por conta das chuvas distantes das monções. Havia peregrinos dentro da água, fazendo suas abluções sagradas enquanto oravam em direção ao sol. Vi o corpo inchado de uma vaca morta passar flutuando, girando lentamente na correnteza. Eu não havia levado parte das cinzas de minha mãe comigo, mas consagrei sua memória às águas sagradas, desejando que ela tivesse, finalmente, encontrado o seu repouso.
Atenção correta: precauções
Embora viajar nos dias de hoje seja muito mais seguro e confortável do que no passado, a experiência é, por sua própria natureza, uma empreitada de risco. Quanto mais você viaja mais você está sujeito a vivenciar atrasos, acidentes, roubos e doenças. Ainda que esses impactos possam ser minimizados ao tomar algumas precauções práticas apropriadas, esses inconvenientes nunca poderão ser evitados todos ao mesmo tempo.
Para isso o Budismo tem duas respostas. Num nível superficial, ele ensina que o apego material aos objetos é uma das chaves do sofrimento. Carregue poucas posses, assim suas perdas não te arrastarão para baixo. Num nível mais profundo, isso lhe ensinará que o que lhe traz infelicidade não é o inconveniente da perda em si, mas a sua expectativa de que tudo deveria ter acontecido sem dificuldades.
Compreensão correta: regressos
Entre as tribos nativo americanas do sudoeste dos Estados Unidos, um viajante que volta de uma longa jornada é tratado como um estranho, mesmo pelos seus amigos e parentes mais próximos, até que ele ou ela se refamiliarizem com o lugar. Nós, por outro lado, somos levados a crer em um “Eu” imutável – uma personalidade fixa que existe através do tempo e do espaço – e caímos na armadilha de acreditar que quando regressamos à origem geográfica de nossa jornada, voltamos inalterados para um lugar também inalterado chamado de “lar”. Mas o fim de uma jornada é tão somente o começo de outra: a redescoberta tanto do lar como de nós mesmos, quando surgem nossas percepções sobre o que foi sutil ou dramaticamente transformado em nossa ausência.
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Não importa a estrada pela qual viajo, porque sempre estou indo para casa”. Shinso
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Leia: Zen and the art of travel. Eric Chaline. Sourcebooks, Inc. 2000.
sábado, 8 de janeiro de 2011
Clássicos da Literatura Odepórica: Sendas de Oku, Matsuo Basho
Estou apaixonado pela obra deste maravilhoso escritor e auspicioso andarilho japonês que passou por aqui há muitos e muitos anos. Ele se foi, mas deixou tanta inspiração e luz que quatro séculos não foram capazes de apagar seu rastro. Coisa que só gente bacana é capaz de conseguir. E põe bacana nisso.
Matsuo Kinsaku “Basho” (pronuncia-se Bashô,) nasceu em Ueno, Japão, em 1644 em uma família de samurais. O período histórico em que viveu coincide com o momento em que o Japão se manteve fechado para o resto do mundo; foi durante esse período de aproximadamente 250 anos que o verdadeiro caráter e cultura japoneses emergiram da sombra da influência chinesa.
Aos nove anos Basho é iniciado na arte poética japonesa, na caligrafia e no verso clássico chinês; seus estudos o levam a se aprofundar na arte do haikai. Sabe o que é um haikai (ou haiku)? O Alberto Marsicano é quem explica:
O haikai deriva do clássico tanka, poema japonês de 31 sílabas. Esta divisão gerou o costume de os poetas reunirem-se para elaborar coletivamente os poemas: um criava a primeira parte e outro a segunda. Assim, ludicamente se engendravam longas séries de versos que foram denominados renka. Com o tempo, a primeira parte do tanka, de5, 7 e 5 sílabas, adquiriu autonomia dispensando a segunda. Estes poemas curtos e satíricos, repletos de jogos de palavras, ficaram famosos em todo o Japão sob o nome de renka haikai, ou simplesmente haikai.
Um exemplo para ilustrar, da autoria do próprio mestre Basho:
acenda a luz de leve
eu lhe mostro uma beleza
a bola de neve
E outro, de Shiki, discípulo de Basho, com tradução de Paulo Leminski:
nem vem que não tem
eu penso crisântemo
crisântemo em mim também
Delícia pura, isso é o haikai. Mas deixemos a poesia para depois, de sobremesa. Voltemos ao prato principal. Quando completa 28 anos, tendo já vivido metade de sua vida, Basho parte para Edo, a Tókio de hoje, onde compila uma antologia de haikai, dedicando-a à divindade protetora das letras. Diz o Marsicano que Basho se afasta aos poucos da escola mais tradicionalista, chamada Teitoku, por esta insistir em conter o humor e a liberdade originais do haikai. Além do mais, como escreve Octavio Paz (veja o link no final do post), para Basho o haikai não era apenas poesia em sua forma mais pura, era acima de tudo um exercício espiritual. E na senda espiritual não pode haver limites impostos pela razão humana.
Parece que o mestre Basho se encheu desse lance de ficar buscando escolas com as quais pudesse sentir-se pleno e o caminho, também seguido por outros poetas, foi o de mudar radicalmente de vida.
Em 1682, embora cercado por inúmeros discípulos e admiradores, muda-se para uma pequena choupana às margens do rio Sumida, na periferia de Edo. O retiro despoja nosso poeta das obrigações mundanas e também de boa parte de seus alunos. Esse novo estilo lhe obrigara a viver como eremita ao lado de apenas poucos estudantes. Um deles planta no jardim uma bananeira (Basho - no japonês) que primeiro passa a denominar o local e posteriormente o próprio poeta. É importante frisar que naquela época essa planta era exótica e muito celebrada pelos clássicos chineses devido a sua fragilidade diante dos rigores do clima temperado.
E a roda gira. Em 1681 Basho conhece o mestre zen Bucchô e inicia a prática da meditação sentada, o “zazen”. Por essas e outras o zen budismo irá influenciar bastante a sua obra. Alberto Marsicano explica que Basho foi capaz de “infundir na concisa forma do haikai a amplidão do pensamento zen”. E continua:
O haikai é o olho do furacão, o profundo toque de um gongo de bronze, o iridescente relâmpago que inesperadamente reluz na escuridão da noite. O haikai é o satori, o despertar zen que repentinamente surge no caminho.
No final de 1682 acontece o grande turning point na vida de Basho: um incêndio de grandes proporções destrói sua choupana. É a partir daí que o mestre poeta passará em contínua viagem todo o resto de sua vida nesse mundo de ilusões. Nesse momento já era um nome conhecido em todos os cantos, entre os grandes haikaístas do país, e por isso era bem recebido por todos. Basho foi de fato um tipo de monge poeta errante. Ou, simplesmente, um poeta andarilho.
Os relatos de viagem de Matsuo Basho
Na segunda metade de sua vida Basho viajou muito. Deixou alguns relatos de viagem, sendo três os principais:
Visita ao Santuário de Kashima, de 1687. Consiste num conciso relato repleto de haikais. Basho lança-se a pé pelas estradas (apenas os nobres samurais podiam usar cavalos) e atravessa o país com o simples intuito de contemplar a lua cheia nascendo sobre o sagrado templo; ao mesmo tempo aproveita a jornada para recolher inúmeros haikais de poetas que encontra pelo caminho.
Visita a Sarashima, 1688. Neste relato, que descreve a subida de uma íngreme montanha, podemos vislumbrar todo o processo iniciático do zen budismo, com suas duras provas e dificuldades na trajetória onde o neófito em meio a ferrenha luta consigo mesmo percorre a escarpada senda rumo ao despertar – representado aqui pelo clarão da lua cheia.
O terceiro relato é o mais famoso: Trilha Estreita ao Confim. Trata de uma longa jornada de quatro anos, iniciada em 1689, quando Basho, não resistindo ao chamado dos deuses da estrada, é impelido às remotas províncias do norte, passando por paragens ainda hoje consideradas como longínquas e misteriosas. Certos autores têm a firme convicção de que o poeta percorria estes caminhos tomado por poderes mágicos e uma força espiritual muito intensa que o possuía por completo.
Em 1694 deixa Ueno e caminha até Osaka, onde adoece gravemente. Seus discípulos desconfiados do desenlace próximo pedem-lhe que faça seu poema de morte. Basho lhes responde que nos últimos vinte anos todos os seus haikais tinham sido escritos como o “poema de morte”. Na mesma noite tem um sonho e ao acordar escreve seu derradeiro poema:
finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado
Levado a casa de um florista, morre cercado de amigos e alunos. Está enterrado às margens do lago Biwa no jardim do tempo Yoshinaka à sombra de uma bananeira.
Oku no Hosomichi: Sendas de Oku
Agora deixo um pouco de lado o texto do Alberto Marsicano, a quem logo retornarei, e trago a você o prestigiado trabalho de Octavio Paz, pioneiro na tradução (1956) em língua ocidental da obra de Matsuo Basho. Apenas uma introdução, mas bastante enriquecedora como você poderá conferir a seguir:
As versões para o inglês dão uma ideia mais realista da viagem de Basho e de seu ponto de destino: norte remoto, povoados distantes, províncias; a tradução francesa, embora mais literal, inclina-se em direção ao simbólico: fim do mundo. Nós preferimos a via intermediária e pensamos que a palavra Oku, por ser estranha ao leitor de nossa língua, poderia talvez refletir um pouco a indeterminação do original.
Oku quer dizer fundo ou interior; neste caso designa a distante região do norte, nos confins do Japão, chamada Oou e escrita com dois caracteres, o primeiro dos quais se lê Oku.
O título evoca não somente a excursão aos confins do país, por caminhos difíceis e pouco freqüentados, senão também uma peregrinação espiritual. Desde as primeiras linhas Basho se apresenta como um poeta anacoreta e meio monge; tanto ele como seu companheiro de viagem, Sora, percorrem os caminhos vestidos com os hábitos dos peregrinos budistas; sua viagem é quase uma iniciação e Sora, antes de cair na estrada, raspa a cabeça à maneira dos bonzos (monges budistas).
Peregrinação religiosa e viagem aos lugares célebres – paisagens, templos, castelos, ruínas, curiosidades históricas e naturais – a expedição de Basho e de Sora é também um exercício poético: cada um deles escreve um diário semeado de poemas e, em muitos dos lugares que visitam, os poetas locais os recebem e compõem com eles esses poemas coletivos chamados haikai no renga.
E o resto nós já vimos no que vai dar. Pé na estrada e bastante inspiração zen pelos caminhos nos confins do Japão. Agora já sabemos que Trilha Estreita ao Confim e Sendas de Oku são a mesma obra. Particularmente gosto mais de Sendas de Oku, por isso preferi esse título ao outro, escolhido pelo Alberto Marsicano e Kimi Takenaka na obra a que tanto me refiro nesse post. Mas isso é só um detalhe sem importância.
Vou transcrever alguns trechos de Sendas de Oku tirados da obra de Marsicano e Takenaka. É essa a primeira tradução de Oku no Hosomichi para o português diretamente de sua língua original, algo a ser celebrado sem dúvida. Entretanto, a primeira passagem – justamente os primeiros parágrafos do relato de Basho – é resultado do trabalho de Paulo Leminski para sua pequena e deliciosa biografia de Matsuo Basho para a coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense. Mais leve no trato com as palavras, Leminski parece ter traduzido Basho como quem escreve sobre um amigo íntimo, enquanto Marsicano e Takenaka optaram por manter o máximo possível a literalidade do texto original, numa atitude mais reverencial em relação ao mestre poeta.
SENDAS DE OKU (Trilha estreita ao confim)
Luas e sóis (meses e dias) são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e se vão são viajantes também. Os que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre de viagem, e seu lar se encontra ali onde suas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos, morreram pelos caminhos, e a mim também, durante os últimos anos, a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento me inspirou contínuas idéias de meter o pé na estrada.
O ano passado dediquei a vagar pela costa. No outono, voltei à minha cabana, às margens do rio, e a limpei das teias de aranha. Aí, me surpreendeu o fim do ano. Quando veio a primavera e houve neblina no ar, pensei em ir a Oku, atravessando a barreira de Shirakawa. Tudo o que via me convidava a viajar, e estava tão possuído pelos deuses que não podia dominar meus pensamentos.
Os espíritos do caminho me faziam sinais, e descobri que não podia continuar trabalhando. Remendei minhas calças rasgadas e troquei as tiras do meu chapéu de palha. A fim de me fortalecer as pernas para a viagem, me untei de “moka” (terapia de moxabustão) queimada. Logo a idéia da lua na ilha de Matsushima começou a apoderar-se de meus pensamentos. Quando vendi minha cabana e me mudei para o sítio de Sampu para esperar ali o dia da partida, pendurei este poema numa viga da minha choça:
a cabana de ervas secas
(o mundo tudo muda)
vira casa de bonecas
Quando, em 27 de março, me pus a caminho, havia neblina no céu da madrugada. A pálida lua matutina tinha perdido o brilho, mas ainda se podia vislumbrar debilmente o monte Fuji. Em Ueno e Yanaka, os ramos das cerejeiras em flor me despertaram pensamentos tristes ao perguntar-me se algum dia os voltaria a ver.
Meus amigos mais queridos tinham todos vindo à noite na casa de Sampu, para poder me acompanhar durante o curto trecho de viagem que eu faria em barco. Quando desembarcamos num lugar chamado Senju, a idéia de começar uma viagem tão longa me encheu de tristeza. De pé sobre o caminho que talvez ia nos separar para sempre nesta vida que é como um sonho, chorei lágrimas de despedida:
primavera
não nos deixe
pássaros choram
lágrimas
no olho do peixe
(PL)
Com este poema comemorei meu errar. E caminhei adiante em minha jornada. Meus amigos acenaram-me adeus, até que desaparecessem de minha vista. Caminhei o dia todo somente desejando voltar, após haver conhecido as misteriosas paisagens do norte distante, porém sem acreditar realmente na possibilidade de realizar tal jornada, pois sabia que uma caminhada como esta, longa viagem através do segundo ano de Genroku, apenas acumularia cabelos brancos sobre a minha cabeça, quanto mais me aproximasse das nevadas regiões.
Quando alcancei a aldeia de Soka ao anoitecer, meus ombros estavam machucados pelo peso da bagagem, que consistia num cobertor para noite, num traje de algodão, numa capa de chuva, material para escrever e presentes ganhos na despedida. Gostaria muito de viajar mais leve, porém existem coisas das quais não nos podemos desvencilhar, por razões práticas ou sentimentais.
(...)
Um grande amigo residia em Nassu-no-Kurobane, na província de Nassu. Porém, para chegar a esta cidade, era necessário atravessar um imenso pântano. Segui por uma estreita trilha, que por milhas e milhas cruzava, como uma reta, o imenso alagado. Já avistava ao longe a pequena cidade quando uma forte chuva começou a cair, e a escuridão da noite encobriu com rápidas pinceladas de nanquim a paisagem.
Passei a noite na casa de um solitário fazendeiro, e me levantei cedo, ao raiar do sol. Ao longe avistei um cavalo pastando e um camponês cortando o mato. Pedi-lhe o grande favor de emprestar-me seu cavalo. Ele hesitou por um momento, porém, finalmente, com um toque de simpatia na face, me disse: “Existem centenas de encruzilhadas por estes caminhos e um andarilho como você poderia facilmente se perder neste emaranhado e labiríntico meandro. Porém, o cavalo conhece bem o caminho. Leve-o e mande-o de volta quando dele não mais precisar”.
Montei, e parti rumo à cidade. No caminho, duas crianças, filhos deste camponês, seguiam-nos acenando. Sora perguntou à menina qual era o seu nome, e ela respondeu: “Kasane, que significa multiplicidade, variedade”. Para o nome de uma criança do campo, este era um nome diferente e Sora escreveu os seguintes versos:
menina Kasane
rósea flor
múltiplas pétalas
Enviei o cavalo de volta a seu dono, não esquecendo antes de colocar uma pequena quantia em dinheiro, amarrada junto à cela. Ao chegar à cidade de Kurobane, fui logo visitar meu amigo Joboji.
Ele ficou muito emocionado ao me ver tão inesperadamente, e conversamos durante vários dias e noites. Seu irmão Tosui aproveitava todas as oportunidades para conversar comigo, levando-me à sua casa para conhecer seus familiares e amigos. Um dia percorremos a periferia da cidade. Vimos as ruínas de um antigo campo de tiro, e, caminhando até o pântano, visitamos o túmulo da Senhora Tamamo, e depois o de Hachiman, sobre o qual o samurai Yoichi tornara-se famoso por alvejar, com uma flecha, um leque suspenso sobre a proa de um barco. Ao escurecer voltamos à casa de Tossui.
Fui convidado a visitar o templo Komyoji, onde encontra-se a estátua do fundador da seita Shugen. Conta-se que ele percorreu todo o país com seus tamancos de madeira, pregando a doutrina búdica.
verão nas montanhas
peço a estes tamancos proteção
em minha longa jornada
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Sobremesa do post: haikais do Paulo Leminski
tarde de vento
até as árvores
querem vir pra dentro
♥
a palmeira
estremece
palmas pra ela
que ela merece
♥
ameixas:
ame-as
ou deixe-as
♥
prá que cara feia?
na vida
ninguém paga meia
♥
nuvens brancas
passam
em brancas nuvens
♥
pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
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Para ler, reler e rereler:
Trilha estreita ao confim. Matsuo Basho; tradução de Kimi Takenaka e Alberto Marsicano. São Paulo: Iluminuras, 2008.
Imperdível também é a pequenina edição intitulada Matsuó Bashô: a lágrima do peixe, do Paulo Leminski - coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense, 1983. Infelizmente, super fora de catálogo.
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Se você ficou curioso/a com os haikais e quer se envolver um pouquinho mais com o tema, sugiro um site bacana que merece o passeio: Revista Brasileira de Haicai, com links para outras páginas de igual interesse.
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A tradução de Sendas de Oku, do Octavio Paz (de onde tirei os excertos para esse post) está disponível na íntegra no seguinte site: http://www.poeticas.com.ar/Biblioteca/Sendas_de_Oku/frame.html. En español, por supuesto.
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