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quinta-feira, 15 de junho de 2017

A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum, by Pico Iyer

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Já escolhi a melhor leitura que fiz nesse semestre: A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum, do Pico Iyer. Para quem não o conhece, já escrevemos sobre esse autor aqui no Odepórica, num post duplo intitulado Por que viajamos, um texto que merece a leitura.

Dessa vez, a viagem é outra, mas também tem tudo a ver com nossas aventuras, deambulações, perambulações, passeios e perdições; como diz o Pico, a aventura a lugar nenhum.

Vão dizer que está na moda esse lance de meditar, aquietar a mente, sentar em silêncio, observar a respiração... inspira, expira, relaxa e viaja. Sim, uma moda com mais de cinco mil anos, dirão os entendidos, mas o que importa? Sempre é hora de aprender uma coisa nova, mesmo que essa coisa nova seja muito antiga.



Foi o que o Pico Iyer fez e é o que ele nos conta nesse breve relato de viagem que na verdade é um aprofundamento de uma palestra que ele proferiu na plataforma do TED, uma entidade sem fins lucrativos que se destina a divulgar ideias e que dispõe online centenas de palestras sobre tudo o que se possa imaginar.

Voltemos ao livro. São noventa páginas, capa dura, 6 capítulos curtos, gostosos de ler, o que nos dá tempo para refletir sobre cada passagem ou frase que toca fundo em algum lugar dentro de nós. Coisas que já sabíamos, na maior parte do tempo, mas que nos reconfortam porque percebemos que, sim, há outras pessoas que pensam e sentem como nós, há algo mais além daquilo que temíamos ser apenas uma bobagem, uma visão tola e romântica da vida...



No final de cada capítulo, uma surpresa: uma fotografia de natureza que toma duas páginas e que tem o poder de nos transportar para aquele cenário por alguns segundos, um feitiço imagético-literário. As imagens são de autoria de uma fotógrafa islando-canadense, Eydís Einarsdóttir, sobre quem escreverei no próximo post.

O texto começa em grande estilo. Pico dirige por montanhas da Califórnia rumo aos desertos do oeste; chega a um conjunto de chalés espalhados ao longo de uma encosta e um homem de pequeno porte, curvado e de cabeça raspada o espera em um estacionamento improvisado. Esse homem era Leonard Cohen. 



Foi Cohen, nome monástico Jirkan (uma referência ao silêncio entre dois pensamentos), quem parece ter aberto os olhos de Pico para a beleza e a felicidade que se pode encontrar quando se viaja a lugar nenhum.

“Sentar em silêncio era uma forma de se apaixonar pelo mundo e por tudo o que há nele. Eu nunca havia pensado nisso. Ir a lugar nenhum era uma maneira de atravessar o ruído e encontrar tempo e energia renovados para compartilhar com os outros. Algumas vezes eu me aproximara dessa ideia, mas nunca a compreendera tão claramente como no exemplo daquele homem que, embora parecesse ter uma vida completa, desistiu de tudo e foi procurar a felicidade e a liberdade. (...) Viajar para lugar nenhum, como Cohen havia me mostrado, não tinha a ver apenas com austeridade; era uma forma de se aproximar dos sentidos.” 



Depois dessa introdução, Pico começa a rememorar sua juventude e volta ao ano de 1986 quando, já tendo a vida feita, carreira, casa, esposa e prestes a completar 30 anos, abandona a rotina e vai viver um ano numa ruela de Quioto, a antiga capital japonesa.

“Ir a lugar nenhum, como Leonard Cohen enfatizaria mais tarde, não era virar as costas para o mundo, mas sim sair de fininho de vez em quando para poder enxergá-lo de forma mais clara e amá-lo mais profundamente”. 



Todo o resto da obra é uma reflexão mais aprofundada sobre esse pensamento acima. É importante notar que o autor, notório viajante, não quis passar a mensagem de que viajar, no sentido comum da palavra, seja algo obsoleto, ultrapassado; na verdade, só depois de muita estrada percorrida é que seremos capazes de entender a importância fundamental da quietude e dos momentos solitários.

Separei algumas passagens que me tocaram e deixei muitas outras, tão boas quanto, de fora dessa pequena seleção, na esperança de que você depois de ler essa breve resenha, compre o livro e se inspire o tanto quanto eu me inspirei ao lê-lo. 

Toda vez que faço uma viagem, a experiência só adquire significado para mim depois que volto para casa e, sentado em silêncio, transformo as paisagens que vi em revelações permanentes.




(...) é bom lembrar que o espírito pode nos levar tão longe quanto o movimento físico. Henry David Thoreau, um dos grandes exploradores do século XIX, relata em seu diário de viagens: “O mais importante não é a distância para onde você viaja – em geral quanto mais longe, pior -, mas sim quão vivo está”.



Em minhas viagens pelo mundo, uma das maiores surpresas que tive foi ver que as pessoas mais interessadas em por limites no avanço das novas tecnologias são justamente as que ajudaram a criá-las, derrubando muitos dos limites antigos. As pessoas que trabalharam para acelerar o mundo são as que estão hoje mais empenhadas em desacelerá-lo.



Programara viagens longas e emocionantes pelo Vietnã e pela Islândia e me sentia feliz com a escolha, que me permitiria reforçar meu engajamento com o mundo em poucas semanas. No entanto, a certa altura, todas essas viagens horizontais mundo afora não conseguiam mais suprir minha necessidade de ir além, rumo a um lugar desafiador e surpreendente. O movimento adquire um sentido mais rico quando baseado na quietude.



Leonard Cohen tornou-se o poeta predileto dos viajantes, recusando-se a criar raízes em qualquer lugar, um “garoto cigano” que não admitia que tivessem nenhum tipo de expectativa em relação a ele. Entretanto, como muitos viajantes sem destino, ele parecia saber que é somente quando paramos que podemos despertar em nível muito mais sutil e profundo. (...) Quando ele falava sobre si mesmo, reconhecia que suas viagens mais impressionantes foram as interiores.



No mundo de hoje, onde impera a velocidade, nada é mais revigorante do que ir devagar.
Numa época de distração, nada é mais enriquecedor do que prestar atenção.
E numa época de movimento constante, nada é mais urgente do que permanecer parado, sentado em silêncio.

Leia: A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum. Pico Iyer. Editora Alaúde. São Paulo, 2016 (Ted Books)
Assista: Pico Iyer no TED:  The Art of Stillness (com legenda para o português)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Os monges e eu, by Mary Paterson

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Mary Paterson é uma bonita canadense de olhos grandes que por muitos anos foi instrutora de yoga em Toronto. Mulher viajada pelas bandas do Oriente, publicou um livro muito interessante: Os monges e eu: como 40 dias no mosteiro francês de Thich Nhat Hanh transformaram minha vida.

Para quem não conhece, Thich Nhat Hanh é um monge budista vietnamita que por suas boas ações já foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz; prolífico escritor, poeta e pacifista, fundou um movimento denominado “budismo engajado”, que nada mais é do que a aplicação dos princípios budistas no dia-a-dia, seja para os que vivem a vida monástica ou para os leigos simpáticos à filosofia budista.


O bom homem continua ativo aos 90 anos, vivendo na comunidade que fundou em 1982 no interior da França, chamada de Plum Village – Vila das Ameixeiras. Foi para esse local que Mary Paterson, em busca de uma mudança em sua vida, se dirigiu para viver um retiro monástico de 40 dias, e seu livro é um testemunho dessa jornada física e espiritual.

Entre a entrada e a saída de Mary do monastério, temos 40 capítulos relativamente curtos, que correspondem a cada um dos dias de sua permanência nas Ameixeiras. Em cada capítulo, um ensinamento budista que a autora, na medida do possível, se esforça por colocar em prática, seguindo sempre que pode os preceitos do budismo engajado.

Desse modo, iremos aprender com Miss Paterson um pouco sobre como funciona um retiro espiritual no sul da França, que não difere muito da dinâmica dos retiros que temos aqui mesmo pertinho de nós. O foco do livro é mostrar como os ensinamentos do mestre Thich Nhat, em sua essência simples, podem mudar a vida de uma pessoa quando colocados em prática. É o que Mary se propõe a fazer em sua peregrinação.


Em cada capítulo/ dia de jornada aparece um ensinamento budista que a autora se esforça por encaixar em sua rotina diária, nem sempre com sucesso: mente concentrada, ética, silêncio, fé, gentileza, impermanência, transcendência, gratidão... tudo o que, de uma maneira ou de outra, guia as nossas vidas, tenhamos ou não um comprometimento religioso.

A leitura é agradável e equilibradamente didática; aprende-se um pouco sobre os ensinamentos do monge vietnamita, sobre a vida monástica, e também sobre o comportamento humano, com direito a vergonha alheia quando a autora descreve a conduta questionável de uma peregrina brasileira, Rita, “irascível, que gera um certo incômodo à sua volta”.

Recolhi do texto da Mary algumas passagens que me encantaram durante a leitura e que agora divido com você. Os títulos não fazem parte do texto original, servem apenas para apontar um pensamento que se encontra dentro de um contexto maior.
A ação no Caminho


Há muito tempo, havia um velho monge que, com prática diligente, atingira certo grau de sabedoria espiritual. Esse monge tinha um jovem noviço de 8 anos de idade. Um dia, olhando para o rosto do garoto, o monge viu que este morreria em poucos meses. Entristecido, o monge lhe disse que tirasse umas longas férias e fosse visitar os pais. “Não se apresse”, disse o monge. “Não precisa ter pressa para voltar”. Ele acreditava que o garoto deveria estar com a família quando morresse. Três meses depois, para seu espanto, o monge viu o garoto voltar, subindo a montanha. Quando este chegou, o monge olhou atentamente para seu rosto e viu que ele agora viveria longos anos. “Conte-me tudo que aconteceu quando você estava fora”, disse o monge.

O garoto falou-lhe da viagem descendo a montanha, das vilas por que passara, dos rios que atravessara e das montanhas que havia escalado. Então o garoto contou ao monge que um dia chegou a um riacho que transbordara. Enquanto tentava atravessá-lo, percebeu que uma colônia de formigas tinha ficado presa em uma ilhota formada na enchente.

Por compaixão das pobres criaturas, o garoto pegou um galho de árvore e o deitou sobre uma parte do riacho até que chegasse à ilhota. As formigas começaram a atravessar, e ele segurou o galho até que todas tivessem escapado para a terra.

“Então”, pensou o velho monge, “é por isso que os deuses prolongaram-lhe os dias”.

No livro The Art of Power, Thich Nhat Hanh frisa que “a qualidade de sua ação depende da qualidade de seu ser”. Se você não estiver feliz, por exemplo, não conseguirá oferecer a verdadeira felicidade a nenhum outro ser. “Portanto, há um vínculo entre fazer e ser. Se não conseguir ser, você não conseguirá fazer”.

Um mestre no Caminho



Hoje mais cedo, durante a palestra de Dharma, Thây comentou detalhadamente como havia lavado o rosto esta manhã. O semblante sereno do monge estava cheio de autêntica gratidão ao descrever minuciosamente a maravilhosa sensação da água no rosto e a grande alegria ao reconhecer a fonte profunda do milagre que é a água:

Meus dedos tocaram essa água que veio de tão longe, de montanhas distantes ou das profundezas da terra, e milagrosamente, estava ali em minhas mãos, em meu rosto, com o simples abrir de uma torneira. Enquanto espalhava devagar essa dádiva no rosto, pensei em toda a vida terrestre que existe graças à água. Ela estava tão fria e fresca. E eu fiquei feliz. Minha atenção me fez feliz.

Depois de descrever a experiência transcendental da lavagem do rosto, Thây contou-nos uma história de sua infância no Vietnã. Numa excursão escolar, centenas de crianças, em pequenos grupos, aventuraram-se a subir uma montanha para apreciar do alto a paisagem.

O jovem Thây ficou animado com a aventura porque ouvira dizer que um eremita, um budista misterioso, vivia e meditava em solidão naquelas montanhas. Na animação, Thây e as demais crianças de seu grupo subiram a montanha depressa e, a meio caminho, já haviam bebido toda a água que levavam. E depois, para decepção de Thây, esse fugidio eremita, um ser quase semelhante ao Buda, não se encontrava em lugar nenhum.


Quando as crianças se sentaram para comer seus lanches, Thây resolveu explorar um pouco mais e entrou sozinho no bosque. Não demorou muito e o escolar ouviu o som de água correndo. Seguiu-o e encontrou uma nascente de água.  Por estar com muita sede, o futuro mestre zen ficou encantado ao ver a nascente.

Ao levar à água as mãos em concha, Thây caiu em sono profundo ao lado da nascente e, ao acordar, não sabia onde estava. Porém uma coisa o futuro mestre zen sabia; havia bebido a água mais deliciosa do mundo.

O jovem Thây nunca contou aos colegas a sua descoberta da nascente, por achar que isso poderia diluir a poderosa experiência espiritual que ela representara para ele. Mas, após muitos anos e muito estudo, o monge acabou contando a história do eremita e da nascente por desejar ardentemente que todos encontrassem seu próprio eremita em sua própria vida.

Como disse Thich Nhat Hanh: “Você já pode ter visto seu eremita sem o reconhecer. Talvez seu eremita não seja uma nascente. Ele pode ser uma rocha, uma árvore, uma criança ou uma montanha. Mas quando tiver encontrado seu eremita, você saberá aonde ir. E encontrará paz”.
Sobre viajantes e malas: uma reflexão


Para minha viagem à França, levei duas malas grandes com todas as coisas de que eu precisaria nos quatro meses de minha estadia. Nelas estavam minhas roupas favoritas para todos os tipos de ocasião, livros, os produtos orgânicos para o corpo de que mais gosto e várias outras coisas. E o que aconteceu foi isto: ambas as malas ficaram pesadas demais, obrigando-me a pagar as altas taxas por excesso de bagagem no aeroporto.

Depois, arrastar essas malas pelas escadas do metrô de Paris revelou-se uma coisa praticamente impossível. Dizer que eu fiquei sobrecarregada é um eufemismo. Por sorte, um mês depois de minha chegada, surgiu uma luz: uma amiga canadense veio visitar-me em Paris e concordou em levar consigo para Toronto uma de minhas malas. Minha salvadora!

Mas a mala que ficou estava cheia a ponto de arrebentar, e eu logo percebi que meus pertences haviam se tornado mais que uma carga meramente física. Quando afinal fui para a Vila das Ameixeiras, aquela mala inchada já tinha me deixado mentalmente perturbada.

“Abrir mão de posses materiais é uma boa prática para abrir mão de ideias”. Quem me dera ter ouvido esse sábio conselho enquanto estava fazendo aquelas malas. O Buda disse: “Apego a opiniões, apego a ideias, apego a percepções é o maior obstáculo à verdade”. No livro The Art of Power, Thich Nhat Hanh explica:

É como subir uma escada. Quando chega ao quarto degrau, você pode pensar que está no degrau mais alto, que não pode subir mais, e se prende a esse degrau. Mas na verdade há um quinto degrau; se quiser chegar a ele, você precisa se dispor a abandonar o quarto. Ideias e percepções são coisas que devemos abandonar o tempo todo, para dar lugar a ideias melhores e percepções mais verdadeiras. É por isso que precisamos sempre nos perguntar: “Estou certo disso?”.

Leia: Os monges e eu: como 40 dias no mosteiro francês de Thich
Nhat Hanh transformaram minha vida. Mary Paterson. Editora Pensamento, 2013. 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Credo de um guerreiro. Samurai anônimo, Séc. XIV

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Encontrei num albergue de peregrinos um pedaço de papel pregado em um quadro de avisos um texto muito bonito de autoria de um samurai anônimo do século XIV. Embora tenha sido escrito visando, imagino eu, a educação moral de um guerreiro samurai, nesse texto estão condensadas afirmações que servem como inspiração a todos os tipos de guerreiros, numa compreensão arquetípica do termo. Em viagens onde a dor, o medo e a solidão se fazem presentes, onde a busca espiritual, com todas as suas dificuldades e provações é uma possibilidade, não soa exagerado chamar o viajante de guerreiro. Acredito que a pessoa que pregou essa mensagem no quadro daquele albergue também deva pensar assim. Ultreya y Sueseya!

CREDO DE UM GUERREIRO



Não tenho país: Fiz do céu e da terra o meu país.
Não tenho lar: Fiz da percepção o meu lar.
Não tenho vida ou morte: Fiz do fluir e refluir da respiração a minha vida e a minha morte.
Não tenho poder divino: Fiz da honestidade o meu poder divino.
Não tenho recursos: Fiz da compreensão os meus recursos.
Não tenho segredos mágicos: Fiz do caráter o meu segredo mágico.
Não tenho corpo: Fiz da resistência o meu corpo.
Não tenho olhos: Fiz do relâmpago os meus olhos.
Não tenho ouvidos: Fiz da sensibilidade os meus ouvidos.
Não tenho membros: Fiz da diligência os meus membros.
Não tenho estratégia: Fiz da mente aberta a minha estratégia.
Não tenho perspectivas: Fiz de “agarrar a oportunidade por um fio” as minhas perspectivas.
Não tenho milagres: Fiz da ação correta os meus milagres.
Não tenho princípios: Fiz da adaptabilidade a todas as circunstâncias os meus princípios.
Não tenho táticas: Fiz do pouco e do muito as minhas táticas.
Não tenho talentos: Fiz da agilidade mental os meus talentos.
Não tenho amigos: Fiz da minha mente o meu amigo.
Não tenho inimigos: Fiz do descuido o meu inimigo.
Não tenho armadura: Fiz da benevolência e da imparcialidade a minha armadura.
Não tenho castelo: Fiz da mente imutável o meu castelo.
Não tenho espada: Fiz da ausência do ego a minha espada.



domingo, 22 de abril de 2012

Zen e a arte de viajar, by Eric Chaline

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“Quando viajamos”, escreve Eric Chaline, “nossos sentidos estão sempre em alerta, permitindo-nos perceber os novos cenários, aromas e sons ao nosso redor. Mas quando voltamos à nossa rotina diária – deslocando-nos para o trabalho ou para a escola, ou mesmo indo às compras – seguimos rotas que se tornaram tão familiares a nós que acabamos por percorrê-las como se estivéssemos adormecidos. As alegrias da descoberta não devem ficar limitadas às poucas semanas de férias a que temos direito durante o ano. Na próxima vez em que você for caminhar por um lugar no qual já esteja muito acostumado, comprometa-se a buscar algo novo na jornada, nem que seja o detalhe arquitetônico de um edifício que você nunca havia notado, uma árvore, um arbusto pipocando de flores, ou mesmo um aroma ou um som diferente..”

Essa passagem, recolhida do livro Zen and the art of travel, aparece no final da obra de Eric Chaline e de certa forma ilustra a relação do Zen com a arte de viajar. Porque o Zen, mais do que uma doutrina, é uma experiência, um caminho que você pode percorrer em direção ao Satori, termo que o mestre D.T. Suzuki define como “a aquisição de um novo ponto de vista para olhar a essência das coisas”.

Gostei imenso da proposta desse livro, a aproximação da temática Zen budista com a arte de viajar. O Zen, aqui, navega na superfície, mas ainda assim consegue agregar valores e em alguns momentos convidar à reflexão, o que nos dias de hoje já é alguma coisa.

O Eric, cidadão britânico, viaja muito, de verdade. E também gosta de estudar, caso contrário não teria gasto sete anos de sua vida no Oriente estudando filosofia e religião. Parece que se apaixonou pela doutrina zen budista da escola Soto, no Japão. E daí foi ser feliz viajando pelo mundo, meditando e escrevendo coisas interessantes da estrada.

O autor se apropria, sem informar o leitor leigo, de um ensinamento budista conhecido como
Nobre Caminho Óctuplo, na formatação dos oito capítulos desse seu livro sobre o Zen e a arte de viajar. Poderia ter feito um comentário, o que enriqueceria o texto e possivelmente levaria o leitor a buscar mais informações sobre o tema, que é verdadeiramente interessante, mas também pode ser que tenha agido assim simplesmente para não parecer muito didático ou, no pior dos casos, doutrinário.

Um dos pioneiros do Zen no Japão (Dogen, 1200-1253) fundou a escola Soto Zen, que entre outras coisas apregoa que o despertar espiritual não só pode como deve acontecer no meio das atividades diárias; não há, nesse contexto, discriminação entre o corpo e a mente, de modo que há o tempo para meditar e há o tempo para labutar, e no final a gente já sabe: o que vale é o caminho do meio.

Partindo desse princípio, podemos aplicar essa ideia, que é muito simples (como o Zen), em nossas viagens também. Porque viajar atento, mantendo a mente alerta e o coração aberto e receptivo, resulta numa experiência muito mais transformadora do que apenas deixar-se levar pelas circunstâncias do deslocamento.

Agora você já tem uma ideia daquilo que o Eric Chaline pretendeu transmitir nessa obra, infelizmente não editada aqui no Brasil; uma pena, porque certamente essa publicação abriria um diálogo interessante entre a literatura odepórica e a religião. Mas não faz mal, caro leitor e leitora, a gente vai se arrumando por aqui mesmo.

Vamos ao que interessa então. Você lerá excertos apanhados de cada um dos oito capítulos do livro, os tais que remetem, como já disse, ao Nobre Caminho Óctuplo. Antes de começar efetivamente com a leitura do texto do Eric, gostaria que você lesse um pequeno conto Zen, a título de introdução:

Um erudito muito conhecido decidiu um dia aprender um pouco mais sobre o Zen. O professor serviu-lhe chá. Ele encheu a xícara com a bebida, e continuou despejando o líquido até que este começou a transbordar do recipiente. Surpreso, o erudito exclamou: “Basta! A xícara está cheia, não cabe mais nada nela!” “Tal como essa xícara”, disse o professor, “você está cheio com suas próprias opiniões; como poderei ensinar-lhe algo sobre o Zen antes que você esvazie sua xícara?”.


Pensamento correto: A preparação (a comunhão com os lugares)

Há centenas de anos nossos ancestrais eram nômades perambulando sobre a face da terra, seguindo os grandes rebanhos migratórios de animais que lhes serviam de caça. Os seres humanos foram destinados para caminhar e não para ficarem sentados atrás de suas mesas de escritório. Para entrar em contato direto com o meio ambiente, não há nada mais próximo e interessante do que caminhar.

Desde minha primeira viagem a pé, eu caminhei por quatro continentes, em todos os tipos de terrenos, e em cada tipo de variação climática. Nem é preciso dizer que minha habilidade com a bagagem e com a qualidade dos equipamentos que carrego melhorou consideravelmente com a idade e a experiência (e com o aumento da renda).

O prazer que tenho quando caminho é o mesmo todas as vezes: o sentimento de comunhão com o cenário – seja este uma cidade ou um campo – está muito mais presente quando viajo a pé do que quando passo por ele de carro ou de trem. Sinto-me como se pertencesse ao lugar, e não como se fosse apenas um turista.

O Zen é em si uma jornada que nos leva a caminhos desconhecidos, a encontros com estranhos, por destinos insólitos. Na viagem de autodescoberta nada é garantido... no próprio ato de querer chegar, nós podemos tropeçar ou perder nosso caminho, ou podemos perder o ânimo e abandonar a estrada em desespero.

Os viajantes no plano físico têm mais sorte: equipados com passaportes, dinheiro e passagens, eles praticamente têm a certeza de que chegarão aos seus destinos. Mas a questão é: como esses viajantes devem se equipar em suas jornadas? O que devem levar com eles e, ainda mais importante, o que deverão deixar para trás?


Ação correta: jornadas

Santa Helena, uma imperatriz romana (250-330 AC), aguardava uma manifestação física da grande fé que a havia levado, como tantos outros peregrinos, à Terra Santa, em tão perigosa jornada. Miraculosamente, uma orientação divina levou a santa imperatriz à descoberta da Verdadeira Cruz, numa cisterna próxima à tumba onde Jesus Cristo havia sido sepultado. Para guardar a preciosa relíquia, Santa Helena ordenou a construção da igreja no local onde havia sido descoberta a tumba, hoje a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, que se tornou foco para futuras peregrinações.

Exatamente da mesma maneira, embora para fins menos exaltados, quando nós viajamos, criamos nossos próprios altares e relíquias pessoais. Aquilo que esperamos em nossos destinos não são as visões sagradas ou divinas, mas algo ainda mais miraculoso – a oportunidade de nos sentirmos diferentes da maneira como nos sentimos em casa, como se o ato de viajar para certo lugar do mundo nos conferisse o direito a sentirmo-nos mais felizes e mais vivos...




Esforço correto: destinos

(...) A expectativa é o pior guia para os momentos de autoconhecimento que são a verdadeira dádiva de uma viagem. O viajante moderno é uma presa fácil para o desapontamento quando os destinos nos quais ele investiu tanto dinheiro suado para visitar estão abarrotados de gente e de pacotes turísticos – “experiências” de férias. Mas será que podemos negar a nós mesmos aquela nossa viagem tão sonhada – visitar o Louvre ou os templos de Angkor Wat – simplesmente pelo receio de que nossas expectativas nos desapontem?


Meio de vida correto: alimentação e abrigo

Você já parou para pensar no significado das palavras de Santo Ambrósio, “Si fueris Romae, Romano vivito more; si fueris alibi, vivito sicut ibi” (“Se estiveres em Roma, vive como romano; se alhures, vive como lá se vive”)? Se a viagem nos oferece a oportunidade de fazer descarrilar os nossos pensamentos de padrões estabelecidos, removendo-nos do ambiente do dia-a-dia e levando-nos a descobertas de novos lugares e de novas amizades, então, em um nível muito básico, ela também permite uma mudança nas rotinas diárias: alimentação, descanso, higiene, exercícios e vestuário.

Quando viajamos, todos os nossos hábitos podem ser temporariamente suspensos ou mudados. No entanto, a maioria dos viajantes continua a ignorar as mudanças que são forjadas em seus corpos físicos ou o impacto que essas transformações no corpo têm no espírito. Dependendo de como você encara, experimentar o modo de vida de outras culturas pode ser um desafio, uma provação ou um prazer.


Fala correta: encontros

Quando planejamos uma viagem, nós nos entretemos com um “slide-show” de imagens, tiradas da televisão, de filmes, livros e panfletos. Essas imagens incluem tanto os pontos turísticos naturais quanto aqueles criados pelo homem: as ruas das cidades, os museus, as lojas e os restaurantes onde apreciamos a cozinha local. O que temos visto nesse catálogo de objetos tantalizantes? Mesmo que optemos por viajar sozinhos, em algum momento estaremos acompanhados por outros viajantes e por aqueles que levam a vida nos locais que planejamos visitar. Como viajante, eu sempre me considero uma visita. E acima de tudo, o dever de um hóspede é o de adotar uma atitude de gratidão pela hospitalidade que ele recebe.


Concentração correta: memórias

A última vez em que vi minha mãe viva foi em um hospital de Houston, lutando contra um câncer devastador. Poucos meses depois eu estava viajando para a região do Loire, na França, com meus parentes, levando a urna com suas cinzas, mais tarde jogadas de uma ponte sobre um rio, num domingo de verão.

Em Varanasi, as piras queimam por horas até que os corpos estejam completamente consumados, e depois as cinzas são jogadas no rio. Dei as costas para o local de cremação e fiquei observando as águas do Ganges, cheio por conta das chuvas distantes das monções. Havia peregrinos dentro da água, fazendo suas abluções sagradas enquanto oravam em direção ao sol. Vi o corpo inchado de uma vaca morta passar flutuando, girando lentamente na correnteza. Eu não havia levado parte das cinzas de minha mãe comigo, mas consagrei sua memória às águas sagradas, desejando que ela tivesse, finalmente, encontrado o seu repouso.


Atenção correta: precauções

Embora viajar nos dias de hoje seja muito mais seguro e confortável do que no passado, a experiência é, por sua própria natureza, uma empreitada de risco. Quanto mais você viaja mais você está sujeito a vivenciar atrasos, acidentes, roubos e doenças. Ainda que esses impactos possam ser minimizados ao tomar algumas precauções práticas apropriadas, esses inconvenientes nunca poderão ser evitados todos ao mesmo tempo.

Para isso o Budismo tem duas respostas. Num nível superficial, ele ensina que o apego material aos objetos é uma das chaves do sofrimento. Carregue poucas posses, assim suas perdas não te arrastarão para baixo. Num nível mais profundo, isso lhe ensinará que o que lhe traz infelicidade não é o inconveniente da perda em si, mas a sua expectativa de que tudo deveria ter acontecido sem dificuldades.


Compreensão correta: regressos

Entre as tribos nativo americanas do sudoeste dos Estados Unidos, um viajante que volta de uma longa jornada é tratado como um estranho, mesmo pelos seus amigos e parentes mais próximos, até que ele ou ela se refamiliarizem com o lugar. Nós, por outro lado, somos levados a crer em um “Eu” imutável – uma personalidade fixa que existe através do tempo e do espaço – e caímos na armadilha de acreditar que quando regressamos à origem geográfica de nossa jornada, voltamos inalterados para um lugar também inalterado chamado de “lar”. Mas o fim de uma jornada é tão somente o começo de outra: a redescoberta tanto do lar como de nós mesmos, quando surgem nossas percepções sobre o que foi sutil ou dramaticamente transformado em nossa ausência.

Não importa a estrada pela qual viajo, porque sempre estou indo para casa”. Shinso

Leia: Zen and the art of travel. Eric Chaline. Sourcebooks, Inc. 2000.



sábado, 8 de janeiro de 2011

Clássicos da Literatura Odepórica: Sendas de Oku, Matsuo Basho

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Olá! Conhece Basho?
Estou apaixonado pela obra deste maravilhoso escritor e auspicioso andarilho japonês que passou por aqui há muitos e muitos anos. Ele se foi, mas deixou tanta inspiração e luz que quatro séculos não foram capazes de apagar seu rastro. Coisa que só gente bacana é capaz de conseguir. E põe bacana nisso.

Matsuo Kinsaku “Basho” (pronuncia-se Bashô,) nasceu em Ueno, Japão, em 1644 em uma família de samurais. O período histórico em que viveu coincide com o momento em que o Japão se manteve fechado para o resto do mundo; foi durante esse período de aproximadamente 250 anos que o verdadeiro caráter e cultura japoneses emergiram da sombra da influência chinesa.

Aos nove anos Basho é iniciado na arte poética japonesa, na caligrafia e no verso clássico chinês; seus estudos o levam a se aprofundar na arte do haikai. Sabe o que é um haikai (ou haiku)? O Alberto Marsicano é quem explica:


O haikai deriva do clássico tanka, poema japonês de 31 sílabas. Esta divisão gerou o costume de os poetas reunirem-se para elaborar coletivamente os poemas: um criava a primeira parte e outro a segunda. Assim, ludicamente se engendravam longas séries de versos que foram denominados renka. Com o tempo, a primeira parte do tanka, de5, 7 e 5 sílabas, adquiriu autonomia dispensando a segunda. Estes poemas curtos e satíricos, repletos de jogos de palavras, ficaram famosos em todo o Japão sob o nome de renka haikai, ou simplesmente haikai.

Um exemplo para ilustrar, da autoria do próprio mestre Basho:

acenda a luz de leve
eu lhe mostro uma beleza
a bola de neve


E outro, de Shiki, discípulo de Basho, com tradução de Paulo Leminski:

nem vem que não tem
eu penso crisântemo
crisântemo em mim também



Delícia pura, isso é o haikai. Mas deixemos a poesia para depois, de sobremesa. Voltemos ao prato principal. Quando completa 28 anos, tendo já vivido metade de sua vida, Basho parte para Edo, a Tókio de hoje, onde compila uma antologia de haikai, dedicando-a à divindade protetora das letras. Diz o Marsicano que Basho se afasta aos poucos da escola mais tradicionalista, chamada Teitoku, por esta insistir em conter o humor e a liberdade originais do haikai. Além do mais, como escreve Octavio Paz (veja o link no final do post), para Basho o haikai não era apenas poesia em sua forma mais pura, era acima de tudo um exercício espiritual. E na senda espiritual não pode haver limites impostos pela razão humana.


Parece que o mestre Basho se encheu desse lance de ficar buscando escolas com as quais pudesse sentir-se pleno e o caminho, também seguido por outros poetas, foi o de mudar radicalmente de vida.

Em 1682, embora cercado por inúmeros discípulos e admiradores, muda-se para uma pequena choupana às margens do rio Sumida, na periferia de Edo. O retiro despoja nosso poeta das obrigações mundanas e também de boa parte de seus alunos. Esse novo estilo lhe obrigara a viver como eremita ao lado de apenas poucos estudantes. Um deles planta no jardim uma bananeira (Basho - no japonês) que primeiro passa a denominar o local e posteriormente o próprio poeta. É importante frisar que naquela época essa planta era exótica e muito celebrada pelos clássicos chineses devido a sua fragilidade diante dos rigores do clima temperado.



E a roda gira. Em 1681 Basho conhece o mestre zen Bucchô e inicia a prática da meditação sentada, o “zazen”. Por essas e outras o zen budismo irá influenciar bastante a sua obra. Alberto Marsicano explica que Basho foi capaz de “infundir na concisa forma do haikai a amplidão do pensamento zen”. E continua:

O haikai é o olho do furacão, o profundo toque de um gongo de bronze, o iridescente relâmpago que inesperadamente reluz na escuridão da noite. O haikai é o satori, o despertar zen que repentinamente surge no caminho.

No final de 1682 acontece o grande turning point na vida de Basho: um incêndio de grandes proporções destrói sua choupana. É a partir daí que o mestre poeta passará em contínua viagem todo o resto de sua vida nesse mundo de ilusões. Nesse momento já era um nome conhecido em todos os cantos, entre os grandes haikaístas do país, e por isso era bem recebido por todos. Basho foi de fato um tipo de monge poeta errante. Ou, simplesmente, um poeta andarilho.

Os relatos de viagem de Matsuo Basho


Na segunda metade de sua vida Basho viajou muito. Deixou alguns relatos de viagem, sendo três os principais:

Visita ao Santuário de Kashima, de 1687. Consiste num conciso relato repleto de haikais. Basho lança-se a pé pelas estradas (apenas os nobres samurais podiam usar cavalos) e atravessa o país com o simples intuito de contemplar a lua cheia nascendo sobre o sagrado templo; ao mesmo tempo aproveita a jornada para recolher inúmeros haikais de poetas que encontra pelo caminho.


Visita a Sarashima
, 1688. Neste relato, que descreve a subida de uma íngreme montanha, podemos vislumbrar todo o processo iniciático do zen budismo, com suas duras provas e dificuldades na trajetória onde o neófito em meio a ferrenha luta consigo mesmo percorre a escarpada senda rumo ao despertar – representado aqui pelo clarão da lua cheia.


O terceiro relato é o mais famoso: Trilha Estreita ao Confim. Trata de uma longa jornada de quatro anos, iniciada em 1689, quando Basho, não resistindo ao chamado dos deuses da estrada, é impelido às remotas províncias do norte, passando por paragens ainda hoje consideradas como longínquas e misteriosas. Certos autores têm a firme convicção de que o poeta percorria estes caminhos tomado por poderes mágicos e uma força espiritual muito intensa que o possuía por completo.

Em 1694 deixa Ueno e caminha até Osaka, onde adoece gravemente. Seus discípulos desconfiados do desenlace próximo pedem-lhe que faça seu poema de morte. Basho lhes responde que nos últimos vinte anos todos os seus haikais tinham sido escritos como o “poema de morte”. Na mesma noite tem um sonho e ao acordar escreve seu derradeiro poema:

finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado

Levado a casa de um florista, morre cercado de amigos e alunos. Está enterrado às margens do lago Biwa no jardim do tempo Yoshinaka à sombra de uma bananeira.


Oku no Hosomichi: Sendas de Oku



Agora deixo um pouco de lado o texto do Alberto Marsicano, a quem logo retornarei, e trago a você o prestigiado trabalho de Octavio Paz, pioneiro na tradução (1956) em língua ocidental da obra de Matsuo Basho. Apenas uma introdução, mas bastante enriquecedora como você poderá conferir a seguir:

As versões para o inglês dão uma ideia mais realista da viagem de Basho e de seu ponto de destino: norte remoto, povoados distantes, províncias; a tradução francesa, embora mais literal, inclina-se em direção ao simbólico: fim do mundo. Nós preferimos a via intermediária e pensamos que a palavra Oku, por ser estranha ao leitor de nossa língua, poderia talvez refletir um pouco a indeterminação do original.

Oku quer dizer fundo ou interior; neste caso designa a distante região do norte, nos confins do Japão, chamada Oou e escrita com dois caracteres, o primeiro dos quais se lê Oku.

O título evoca não somente a excursão aos confins do país, por caminhos difíceis e pouco freqüentados, senão também uma peregrinação espiritual. Desde as primeiras linhas Basho se apresenta como um poeta anacoreta e meio monge; tanto ele como seu companheiro de viagem, Sora, percorrem os caminhos vestidos com os hábitos dos peregrinos budistas; sua viagem é quase uma iniciação e Sora, antes de cair na estrada, raspa a cabeça à maneira dos bonzos (monges budistas).


Peregrinação religiosa e viagem aos lugares célebres – paisagens, templos, castelos, ruínas, curiosidades históricas e naturais – a expedição de Basho e de Sora é também um exercício poético: cada um deles escreve um diário semeado de poemas e, em muitos dos lugares que visitam, os poetas locais os recebem e compõem com eles esses poemas coletivos chamados haikai no renga.

E o resto nós já vimos no que vai dar. Pé na estrada e bastante inspiração zen pelos caminhos nos confins do Japão. Agora já sabemos que Trilha Estreita ao Confim e Sendas de Oku são a mesma obra. Particularmente gosto mais de Sendas de Oku, por isso preferi esse título ao outro, escolhido pelo Alberto Marsicano e Kimi Takenaka na obra a que tanto me refiro nesse post. Mas isso é só um detalhe sem importância.


Vou transcrever alguns trechos de Sendas de Oku tirados da obra de Marsicano e Takenaka. É essa a primeira tradução de Oku no Hosomichi para o português diretamente de sua língua original, algo a ser celebrado sem dúvida. Entretanto, a primeira passagem – justamente os primeiros parágrafos do relato de Basho – é resultado do trabalho de Paulo Leminski para sua pequena e deliciosa biografia de Matsuo Basho para a coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense. Mais leve no trato com as palavras, Leminski parece ter traduzido Basho como quem escreve sobre um amigo íntimo, enquanto Marsicano e Takenaka optaram por manter o máximo possível a literalidade do texto original, numa atitude mais reverencial em relação ao mestre poeta.

SENDAS DE OKU (Trilha estreita ao confim)


Luas e sóis (meses e dias) são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e se vão são viajantes também. Os que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre de viagem, e seu lar se encontra ali onde suas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos, morreram pelos caminhos, e a mim também, durante os últimos anos, a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento me inspirou contínuas idéias de meter o pé na estrada.

O ano passado dediquei a vagar pela costa. No outono, voltei à minha cabana, às margens do rio, e a limpei das teias de aranha. Aí, me surpreendeu o fim do ano. Quando veio a primavera e houve neblina no ar, pensei em ir a Oku, atravessando a barreira de Shirakawa. Tudo o que via me convidava a viajar, e estava tão possuído pelos deuses que não podia dominar meus pensamentos.

Os espíritos do caminho me faziam sinais, e descobri que não podia continuar trabalhando. Remendei minhas calças rasgadas e troquei as tiras do meu chapéu de palha. A fim de me fortalecer as pernas para a viagem, me untei de “moka” (terapia de moxabustão) queimada. Logo a idéia da lua na ilha de Matsushima começou a apoderar-se de meus pensamentos. Quando vendi minha cabana e me mudei para o sítio de Sampu para esperar ali o dia da partida, pendurei este poema numa viga da minha choça:

a cabana de ervas secas
(o mundo tudo muda)
vira casa de bonecas



Quando, em 27 de março, me pus a caminho, havia neblina no céu da madrugada. A pálida lua matutina tinha perdido o brilho, mas ainda se podia vislumbrar debilmente o monte Fuji. Em Ueno e Yanaka, os ramos das cerejeiras em flor me despertaram pensamentos tristes ao perguntar-me se algum dia os voltaria a ver.

Meus amigos mais queridos tinham todos vindo à noite na casa de Sampu, para poder me acompanhar durante o curto trecho de viagem que eu faria em barco. Quando desembarcamos num lugar chamado Senju, a idéia de começar uma viagem tão longa me encheu de tristeza. De pé sobre o caminho que talvez ia nos separar para sempre nesta vida que é como um sonho, chorei lágrimas de despedida:

primavera
não nos deixe
pássaros choram
lágrimas
no olho do peixe
(PL)

Com este poema comemorei meu errar. E caminhei adiante em minha jornada. Meus amigos acenaram-me adeus, até que desaparecessem de minha vista. Caminhei o dia todo somente desejando voltar, após haver conhecido as misteriosas paisagens do norte distante, porém sem acreditar realmente na possibilidade de realizar tal jornada, pois sabia que uma caminhada como esta, longa viagem através do segundo ano de Genroku, apenas acumularia cabelos brancos sobre a minha cabeça, quanto mais me aproximasse das nevadas regiões.

Quando alcancei a aldeia de Soka ao anoitecer, meus ombros estavam machucados pelo peso da bagagem, que consistia num cobertor para noite, num traje de algodão, numa capa de chuva, material para escrever e presentes ganhos na despedida. Gostaria muito de viajar mais leve, porém existem coisas das quais não nos podemos desvencilhar, por razões práticas ou sentimentais.

(...)

Um grande amigo residia em Nassu-no-Kurobane, na província de Nassu. Porém, para chegar a esta cidade, era necessário atravessar um imenso pântano. Segui por uma estreita trilha, que por milhas e milhas cruzava, como uma reta, o imenso alagado. Já avistava ao longe a pequena cidade quando uma forte chuva começou a cair, e a escuridão da noite encobriu com rápidas pinceladas de nanquim a paisagem.

Passei a noite na casa de um solitário fazendeiro, e me levantei cedo, ao raiar do sol. Ao longe avistei um cavalo pastando e um camponês cortando o mato. Pedi-lhe o grande favor de emprestar-me seu cavalo. Ele hesitou por um momento, porém, finalmente, com um toque de simpatia na face, me disse: “Existem centenas de encruzilhadas por estes caminhos e um andarilho como você poderia facilmente se perder neste emaranhado e labiríntico meandro. Porém, o cavalo conhece bem o caminho. Leve-o e mande-o de volta quando dele não mais precisar”.


Montei, e parti rumo à cidade. No caminho, duas crianças, filhos deste camponês, seguiam-nos acenando. Sora perguntou à menina qual era o seu nome, e ela respondeu: “Kasane, que significa multiplicidade, variedade”. Para o nome de uma criança do campo, este era um nome diferente e Sora escreveu os seguintes versos:

menina Kasane
rósea flor
múltiplas pétalas


Enviei o cavalo de volta a seu dono, não esquecendo antes de colocar uma pequena quantia em dinheiro, amarrada junto à cela. Ao chegar à cidade de Kurobane, fui logo visitar meu amigo Joboji.

Ele ficou muito emocionado ao me ver tão inesperadamente, e conversamos durante vários dias e noites. Seu irmão Tosui aproveitava todas as oportunidades para conversar comigo, levando-me à sua casa para conhecer seus familiares e amigos. Um dia percorremos a periferia da cidade. Vimos as ruínas de um antigo campo de tiro, e, caminhando até o pântano, visitamos o túmulo da Senhora Tamamo, e depois o de Hachiman, sobre o qual o samurai Yoichi tornara-se famoso por alvejar, com uma flecha, um leque suspenso sobre a proa de um barco. Ao escurecer voltamos à casa de Tossui.


Fui convidado a visitar o templo Komyoji, onde encontra-se a estátua do fundador da seita Shugen. Conta-se que ele percorreu todo o país com seus tamancos de madeira, pregando a doutrina búdica.

verão nas montanhas
peço a estes tamancos proteção
em minha longa jornada


Sobremesa do post: haikais do Paulo Leminski

tarde de vento
até as árvores
querem vir pra dentro

a palmeira
estremece
palmas pra ela
que ela merece

ameixas:
ame-as
ou deixe-as

prá que cara feia?
na vida
ninguém paga meia

nuvens brancas
passam
em brancas nuvens

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando


Para ler, reler e rereler:

Trilha estreita ao confim. Matsuo Basho; tradução de Kimi Takenaka e Alberto Marsicano. São Paulo: Iluminuras, 2008.
Imperdível também é a pequenina edição intitulada Matsuó Bashô: a lágrima do peixe, do Paulo Leminski - coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense, 1983. Infelizmente, super fora de catálogo.



Se você ficou curioso/a com os haikais e quer se envolver um pouquinho mais com o tema, sugiro um site bacana que merece o passeio:
Revista Brasileira de Haicai, com links para outras páginas de igual interesse.

A tradução de Sendas de Oku, do Octavio Paz (de onde tirei os excertos para esse post) está disponível na íntegra no seguinte site:
http://www.poeticas.com.ar/Biblioteca/Sendas_de_Oku/frame.html. En español, por supuesto.