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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Viagem, símbolo da iniciação, by Luis Pellegrini.

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Arrumando meus arquivos outro dia, encontrei uma pasta com dezenas de artigos de revistas que guardo como fonte de pesquisa, algo meio antiquado para os dias de hoje, quando se pode encontrar (quase) tudo navegando pela internet; o fato é que ainda costumo recortar matérias de jornais e revistas, arquivando tudo em pastas pretas, aquelas com plásticos, que facilitam a leitura e a busca de algum artigo quando necessário, cada pasta com seu tema específico.

Nessa arrumação puxei da estante uma destas pastas cuja etiqueta, escrita à mão, indica que o material ali guardado trata da temática das “viagens iniciáticas”; nem me lembrava que um dia havia colecionado artigos a esse respeito – e muito menos que o tema tivesse assim tanta repercussão, pelo que me surpreendi ao começar a ler o material colecionado ao longo de mais de duas décadas, em sua maioria artigos de revistas de temática esotérica, como a Revista Planeta, a Sexto Sentido, as extintas Ano Zero e Via Luz, as espanholas Año Cero e Más Allá,  entre outras de menor repercussão.

Dos textos que encontrei, o que mais me agradou, para variar, foi escrito pelo Luis Pellegrini, que já apareceu um par de vezes aqui no Odepórica (links para os posts no final) e que sempre que pousa a caneta no papel produz coisa boa, gostosa de ler. Veja só o seu estilo, de um pequenino texto retirado do seu blog em que ele fala sobre Viagens:

"Viagens são oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia. Até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: de que seja feito com a consciência desperta, com os sentidos ligados e o coração limpo como o coração das crianças. Quando nos acostumamos a viajar desse modo, a vida, mesmo em seus episódios mais banais, transforma-se numa permanente e excitante viagem. E cada um de nós, num peregrino da existência."

Bacana, não? Os textos do luis são sempre assim, instigam a leitura, fazem refletir, apontam caminhos... o que é bem a cara da Revista Planeta, que era a cara do Pellegrini quando ele andava por lá... Enfim, achei que o texto que você lerá a seguir não merecia ficar guardado numa pasta que logo irá acabar numa caçamba de lixo reciclado. Coisas boas sempre devem permanecer - ainda que seja apenas num ambiente virtual. Namastê!
A Viagem, símbolo da iniciação


A profusão de viagens aos lugares estranhos e remotos do planeta foi um dos aspectos da vida de Helena Blavatsky que mais chamaram minha atenção quando pesquisava os escritos de seus diversos biógrafos para produzir o ensaio biográfico Madame Blavatsky, que publiquei em 1986. A partir de 1849, e por mais de duas décadas, a existência da fundadora do movimento teosófico mundial – e uma das mais importantes figuras da renascença ocultista que marcou a segunda metade do século 19 – foi um verdadeiro carrossel de viagens, uma contínua peregrinação ao redor do mundo. Visitou os principais sítios arqueológicos dos vários continentes, inúmeras comunidades de povos primitivos, com os quais estudou técnicas de magia natural e de medicina, museus, escolas, mosteiros e templos das mais diferentes religiões.

A vida de Blavatsky, nesse sentido, é análoga à de muitos místicos e ocultistas célebres. É uma constante em quase todos eles essa gana de viagens e de frequentes mudanças de um lugar para outro. Qual seria o motivo que leva tais seres a dedicar grande parte das próprias vidas a essas exaustivas peregrinações? Essa característica, por um lado, está certamente relacionada a uma particular inquietude de alma que distingue tais pessoas dos seres comuns. Por outro lado, é axioma bem conhecidos no ocultismo que um conhecimento puramente teórico da vida e das leis e fenômenos ocultos seja insuficiente. O conhecimento absorvido exclusivamente a partir da leitura de livros, por exemplo, é considerado não apenas insuficiente mas inclusive nefasto.


Mais que qualquer outro estudante, quem se dispõe a trilhar os caminhos do ocultismo deve estar disposto a vivenciar na prática tudo aquilo que aprende através do intelecto. Assim, é fácil entender que viajar a lugares desconhecidos, pelo fato de tirar o indivíduo do seu cotidiano habitual, obrigando-o a estar mais desperto e atento, representa por si só a chance de pôr em prática sua capacidade de adaptar-se a situações novas.

Adaptação, em qualquer escola iniciática que se preze, é sinônimo de inteligência. Sem o desenvolvimento da capacidade de adaptação em todos os sentidos não se vai longe no caminho do crescimento pessoal e do autoconhecimento, que são, afinal, a proposta essencial de todas as escolas, sejam orientais ou ocidentais.


Mas à parte esse seu aspecto prático de permitir que o estudioso viva no plano concreto aquilo que aprendeu na teoria, terá a viagem, em si mesma, um sentido iniciático e transcendental? Será a viagem um ato sagrado? Na época atual do turismo de massa, em que se desenvolve inclusive uma nova área científica chamada sociologia do turismo, será ainda possível individuar o valor simbólico e sagrado que leva a pessoa a viajar, a mover-se irresistivelmente em direção a uma meta?

O simbolismo da viagem, num enfoque tanto esotérico quanto psicológico, representa a procura e a descoberta de um centro espiritual. A viagem exprime um desejo profundo de mudança interior projetado no desejo da viagem exterior. Representa a necessidade de experiências novas, mais que um simples deslocamento físico. Por isso, o psicólogo suíço Carl Jung, ao referir-se ao simbolismo da viagem, disse que ela “indica uma insatisfação que leva à busca e à descoberta de novos horizontes”.


Chevalier e Gheerbrant, em seu Dicionário de Símbolos, explicam que em todas as literaturas a viagem simboliza uma aventura e uma procura, quer se trate de um tesouro ou de um simples conhecimento, concreto ou espiritual. “Mas essa procura”, frisam os autores, “no fundo não passa de uma busca e, na maioria dos casos, fuga de si mesmo”, citando como exemplo célebres viagens literárias como a de Ulisses na Odisséia, Enéas na Eneida, a Divina Comédia de Dante, Pantagruel de Rabelais, Gulliver de Swift, ou os contemporâneos On the Road de Jack Kerouac e vários textos de Ernest Hemingway.

Cirlot, autor de outro importante Dicionário de Símbolos, diz que “do ponto de vista espiritual, a viagem nunca é a mera translação no espaço, mas sim a tensão da busca e da mudança determinada pelo movimento e pela experiência que deriva do mesmo”. Em consequência, estudar, pesquisar, procurar intensamente o novo e profundo são modalidades de viajar, ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.


Viagem, portanto, é transformação pelo movimento. E todo movimento busca, consciente ou inconscientemente, o centro. Giuseppe Tucci, um dos maiores orientalistas e exploradores da Ásia deste século, já no fim da vida revelou a um grupo de alpinistas alguma coisa de importante e exemplar sobre o verdadeiro sentido das viagens dos grandes exploradores. Tucci falava com conhecimento de causa, pois, além de ser um grande aventureiro das viagens, conhecera praticamente todos os exploradores importantes deste século. Todos, segundo ele, cultivaram secretamente, e durante muito tempo, a esperança de descobrir, um dia, para além de qualquer passo esquecido, um vale desconhecido e risonho, habitado por gente que permanecera por séculos isolada do resto da humanidade. O mito do reino perdido de Shangri-lá – um dos mais poderosos e duradouros símbolos do reino interno ou espiritual – teve, portanto, cultores ilustres e insuspeitáveis. Mas daquilo que um pensador convencionalmente racionalista poderia considerar uma simples fraqueza, Tucci não ria: “Só quem caminhou semanas entre montanhas desertas pode entender. O desejo de conhecer o que se esconde por trás da última montanha torna-se obsessivo... Uma espécie de miragem que seduz ao mesmo tempo a razão e a fantasia”.


Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas para quem tem na alma a inquietude do viajante, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada no espaço e no tempo, em direção ao centro.

“Os verdadeiros viajante são aqueles que partem por partir”, disse o poeta Baudelaire, definindo de modo exemplar a figura do peregrino. Os peregrinos de todos os tempos e lugares constituem um tipo especial de romeiros que aparentemente viajam para atingir lugares que se encontram do outro lado – os santuários, templos, cidades e montanhas sagradas. Na verdade, o que atrai o peregrino é a qualidade especial das experiências que em tais ambientes excepcionais é possível viver.


A viagem como experiência sagrada e iniciática, portanto, acontece em todo o seu percurso, e não apenas no seu ponto de chegada. O maravilhoso, o totalmente diverso que distingue aquilo que é sagrado, manifesta-se no tempo liberado do trabalho e dos empenhos cotidianos. Não porque o trabalho e as tarefas cotidianas não possam ser também sagrados e iniciático; mas porque – infelizmente – tendemos a desempenhá-los num estado de automatismo e de semiconsciência, e a iniciação verdadeira só ocorre à luz da consciência bem desperta.

Na viagem do peregrino, o nome, a língua, os hábitos mudam. As amizades ficam interrompidas; o viajante fica “só no mundo”. Começa assim aquele processo simbólico de regeneração psicológica e espiritual concedido aos viajantes mais felizes – aqueles movidos pelo fogo fantástico e espiritual da peregrinação. Todo peregrino com conhecimento de causa sabe que a ânsia de chegar a algum lugar compromete a viagem de valor iniciático. As verdadeiras experiências que enriquecem e ampliam os níveis da consciência individual costumam ocorrer durante e ao longo do percurso.


A chegada ao lugar de destino pode ser só um coroamento, e nem sempre é a coisa mais importante na viagem de peregrinação. Mas se partirmos depositando toda nossa expectativa nas gratificações que nos esperam ao atingirmos o alvo final, estaremos desatentos e perderemos a miríade de pequenas e grandes vivências que nos aguardam perfiladas à beira da estrada.

A importância objetiva e subjetiva das viagens nos assim chamados processos iniciático foi sempre amplamente reconhecida pelas escolas de sabedoria do passado e do presente, tanto do Oriente quanto do Ocidente. Algumas escolas, como a seita sufi dos Kalenderi, da Turquia, impõem a seus membros que viajem continuamente. Como de modo geral para as demais correntes do sufismo, considera-se que a fixação do iniciante em hábitos repetitivos e cotidianos constitui um nocivo fator de “adormecimento” que atrapalha e até impede o processo do “despertar”.


Viagens súbitas, inesperadas, e às vezes temerárias, nas quais o iniciante vê-se subitamente atirado, costumam fazer parte de uma série de provas preparatórias para as etapas mais avançadas e de iniciação preconizadas por escolas que vão dos mistérios gregos às sociedades secretas sufis e chinesas, chegando até as modernas maçonaria e teosofia.

Na verdade, a viagem iniciática só se realiza no interior do próprio ser. Estimula-se a viagem exterior pelo simples fato de que, pelo menos nas etapas iniciais dos processos de iniciação, é muito mais fácil ver, experimentar e compreender no mundo objetivo de fora aquilo que na realidade está ocorrendo no mundo ainda subjetivo de dentro. Nesse sentido, as escolas tradicionais de sabedoria aproximam-se notavelmente da moderna psicologia, em especial a de linha junguiana, que defende a ideia de que, para a psique, tanto faz se a experiência acontece no plano da realidade concreta (objetivamente) ou no da fantasia e da imaginação (subjetivamente). Nos dois casos, o resultado final como vivência do fato psicológico é o mesmo.


René Guénon, por exemplo, diz que as provas iniciática tomam com frequência a forma de “viagens simbólicas”, representando uma busca que vai das trevas do mundo profano (ou do inconsciente, da “mãe”) à luz (a consciência desperta). As provas e as etapas da viagem constituem ritos de purificação.

A viagem simbólica é, outras vezes, e com frequência, feita após a morte, como no caso dos Livros dos Mortos egípcio e tibetano. Ambos tratam de uma progressão da alma em estados que prolongam os da manifestação humana, o objetivo supra-humano (a fusão com o centro) ainda não tendo sido alcançado. Jung estudou a fundo a simbologia psicológica contida no multissecular Livro dos Mortos tibetano e chegou a conclusões surpreendentes: as experiências que a alma humana vive no mundo além da morte, e que são descritas na obra, correspondem simbolicamente às diferentes etapas de maturação psicológica pelas quais o indivíduo tem de passar no seu processo de individuação.


E os turistas que partem em férias, os viajantes de fim de semana cujo objetivo declarado resume-se à vontade de respirar ar puro ou tomar um simples banho de mar, estarão também cumprindo, sem o saber, algum secreto rito de transformação e de crescimento interior pelo movimento? Sem dúvida. O desejo do movimento está sempre associado à dinâmica da vida, assim como a inação se associa à rigidez da morte.


Todo movimento, em última análise, é uma viagem. E, nesse sentido, até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: que ele seja feito com a consciência desperta. Com os cinco sentidos inteiramente ligados, e acoplados àquela capacidade intrínseca da consciência que é a observação. Quando alguém se acostuma a “viajar” desse modo, a própria vida se transforma numa permanente e excitante viagem, e cada um de nós em peregrinos da existência.
Fonte: Revista Planeta, edição de Fevereiro de 1992.

Acesse o blog do Luis Pellegrini aqui!
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domingo, 23 de dezembro de 2012

Motivos para viajar (ou não), by Michel Laub


O jornal Folha de São Paulo da última sexta-feira, dia 21 de Dezembro, publicou no caderno Ilustrada um artigo do colunista Michel Laub sobre os motivos para viajar (ou não) que li com enorme prazer. Escreve muito bem o gaúcho Michel Laub, cujo blog vale uma visita demorada. Divido com os leitores do Odepórica o artigo acima citado, deixando para refletir a pergunta que o autor do texto marcou em negrito em sua coluna: Existe autenticidade possível em 30 dias de aventuras programadas? Namastê!

Motivos para viajar (ou não). Michel Laub



Millôr Fernandes dizia que um homem pode admitir qualquer fraqueza, inclusive as de cunho sexual, mas jamais se declara um mau motorista. Algo semelhante acontece nesta época do ano, em meio à praga confessional de esperança e tristeza relativa à passagem do tempo: quantas pessoas falam publicamente que não gostam de viajar?

É uma espécie de interdição, que ganhou força de algumas décadas para cá. Algo das premências bélicas e econômicas que motivaram a expansão dos impérios desde sempre, e se intensificaram a partir das navegações do século 15, desaguou na ideia da viagem como descoberta não apenas científica e social, mas também como o que modernamente se chama de autoconhecimento.

Junte-se a isso a noção romântica --e consumista-- de que se deve viver com intensidade, de que a experiência prática e sensorial é mais emocionante que a cultura livresca, e tem-se um modelo de conduta. A exemplo da felicidade, da saúde e da energia para o trabalho, sair de casa nas férias e fins de semana --e fazer o devido relato-- passou a ser quase obrigatório.

Só que há vários tipos de viagem, e nem todas gozam do mesmo prestígio. A vida nômade de um Ryan Bingham, executivo vivido por George Clooney em "Amor sem Escalas", não chega a ser um modelo simpático. Seus prazeres mesquinhos com cartões de milhagem, bagagem compacta e sushi de aeroporto, o que jamais veríamos num livro de Conrad, T.E. Lawrence ou Bruce Chatwin, não são coisas a compartilhar por aí. Menos ainda sua incapacidade, outro tabu de nossa era, de ter as também modernamente chamadas relações afetivas verdadeiras.

Bingham está várias posições abaixo dos exilados, aventureiros e "flaneurs", mas várias acima do turista. Todo mundo parece estar acima do turista. O que é um paradoxo: enquanto o consenso público destaca seu valor no desenvolvimento (nem tão) sustentável, que distribui riqueza sem prejudicar (tanto) o meio ambiente como o agrobusiness e a indústria, ninguém esclarecido quer ser associado a essa figura --cujo modo de vida, definiu David Foster Wallace, é "se impor sobre lugares que, em todas as formas não econômicas, seriam melhores sem a sua presença".

Num mundo uniformizado, em que quase todas as experiências são acessíveis por cartão de crédito, resta saber se estamos tão distantes desse clichê. Existe autenticidade possível em 30 dias de aventuras pré-programadas? Para viver a fantasia de pairar acima da manada, basta apenas não usar boné e meias até o joelho, trocando as fotos da Disneylândia pela praia sem eletricidade, o show de ingressos esgotados, o "restaurantezinho"?

Clichês podem ser cristalizações de sabedoria, e nada tenho a priori contra eles. Como quase todas as pessoas, gosto de conhecer outras cidades e culturas, e sou tão turista quanto se pode ser. Apenas noto uma segunda contradição: quando tudo o que se busca é a sensação de raridade, de que nesses 30 dias viveremos longe dos padrões do resto do ano, o que talvez seja o grande prazer de viajar, reproduzimos o comportamento mais competitivo e previsível das esferas social e profissional.

Ou seja: a cada vez que postamos fotos de paisagens, pratos, drinks e sorrisos, sugerindo que nossos dias de pausa espiritual vêm sendo tão surpreendentes e radiantes, trocamos a fruição direta da experiência, com seu risco de tédio e fracasso, por uma demonstração burocrática de status. Não há autoconhecimento sem uma dose de introspecção, angústia, decepção e acaso, e a tarefa de fazer e exibir o oposto é mais familiar ao trabalho e à autoajuda.

Nesse sentido, e se o critério for mesmo o de originalidade, há alternativas melhores para as férias. Em seu clássico "Viagem à Roda do Meu Quarto", Xavier de Maistre mostra que "dilatar a existência" é possível tanto em terras distantes quanto sobre a própria cama --o "móvel prazeroso" onde "esquecemos durante metade da vida as tristezas da outra metade". A questão, saindo ou não de casa, com ou sem companhia, é o quanto se está disposto a isso.
O texto acima foi retirado do site da Folha. Acesso em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/michellaub/1204357-motivos-para-viajar-ou-nao.shtml

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Andanças e visões de Miguel de Unamuno

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Miguel de Unamuno, um dos grandes autores da literatura espanhola, nasceu em 1864 num pequeno povoado de Bilbao. Escreveu poesias, romances, artigos, ensaios e dois relatos de viagem: Por tierras de Portugal y de España (1911) e Andanzas y visiones españolas (1920). É deste último que vamos tratar daqui a pouco.

Unamuno formou-se em filosofia em Madrid e sua carreira acadêmica o levou a lecionar língua e literatura grega na Universidade de Salamanca. Deve ter sido um homem muito inteligente, pois em 1901 já havia se tornado reitor da mais prestigiada Universidade espanhola.



Mas Miguel de Unamuno não era apenas um intelectual, era também um homem muito cheio de atitude. Não deixava nada barato e fazia questão de afirmar suas posições políticas, o que lhe causou alguns desgostos durante a vida, entre eles o de ser afastado diversas ocasiões de seu cargo de reitor, e também da vida pública, tendo sido deportado para as ilhas Canárias em 1924. Dois anos depois exilou-se na França, onde permaneceu até o ano de 1930. Seus últimos anos de vida foram passados em prisão domiciliar na cidade que tanto amou, Salamanca, onde veio a falecer, em 31 de dezembro de 1936.

Essa sucinta biografia serve apenas para contextualizar o que você irá ler nos próximos parágrafos. Unamuno gostava imensamente de viajar e desconfio que suas escapadas – ele as chama de excursões – eram a melhor maneira de fugir da insatisfação política que pesava sobre a Espanha naquele período histórico tão conturbado, às vésperas da ditadura de Francisco Franco. Viajar também é fugir e as fugas muitas vezes são estratégias necessárias para poder ganhar força para continuar as batalhas que surgem ao longo da vida.


Andanzas y visiones españolas não foi publicado no Brasil e o volume que estou usando data de 1941, editado em Buenos Aires. A obra é composta de 40 relatos relativamente curtos, de viagens empreendidas pelo autor num período que vai de 1911 a 1921. Em alguns momentos, poucos, sente-se o peso da I Guerra na narrativa do viajante, mas de um modo geral ele preferiu adotar uma postura mais poética, reflexiva e filosófica em seus relatos.

Miguel de Unamuno passa a imagem de um homem nostálgico, desencantado com o ritmo da vida da época em que viveu, o que se percebe ao vê-lo falar do passado. Fico imaginando o que o autor pensaria da Espanha atual, passados já cem anos de suas primeiras excursões pelo interior do país. Mas acho que esse desencanto faz parte um pouco da personalidade das mentes filosóficas, o que não deixa de ser charmoso às vezes - para quem tem estilo, é claro, e Miguel o tem de sobra. Darei um exemplo, de uma passagem em que o autor se encontra no alto de uma montanha, próximo ao santuário de Nossa Senhora de la Peña, na França:



“Ali em cima, envolto pelo silêncio, sonhava com todos os que, havendo podido ser, não fui para poder ser o que hoje sou”.

Bonito isso, não? Coisa de filósofo viajante, que adorava perambular, principalmente para o campo e para as regiões montanhosas, de onde pudesse, desde o alto, contemplar o mundo silencioso logo abaixo; Unamuno, ele mesmo afirma, diz que se nutria dessas paisagens e eu achei essa imagem genial, porque de fato é possível imaginar a força dessa metáfora, nutrir-se de uma paisagem, como quem absorve um alimento para a alma.


“Aquelas paisagens que foram o primeiro leite de nossa alma, aquelas montanhas, vales ou planícies em que se amamentou nosso espírito quando este ainda não falava, tudo isso nos acompanha até a morte e forma como o cerne, o tutano dos ossos da própria alma. Porque a alma possui seu esqueleto, exceto naqueles desgraçados que a têm mucilaginosa, invertebrada, como o polvo ou a esponja marinha. Mas para quem tem alma vertebrada, com ossos que a mantém em pé e mirando o horizonte, esses ossos se nutrem de um tutano que foi feito com as nobres e serenas visões da infância distante.”

Viajar era algo levado a sério por Unamuno, talvez até demais, como se pode notar na posição por ele adotada na passagem abaixo:

Viajar, sim, viajar, mas não somente para poder contar sobre a viagem no sossego de casa aos filhos, aos amigos: “Eu também estive ali!”, pois isso na maioria das vezes não passa de vaidade, como a dos novos-ricos norte-americanos, mas também, sobretudo, para recordar e saborear a sós e para acalentar com a recordação dessas viagens às terras distantes o prazer do apego ao local de nascimento ou de onde se ergue o próprio ninho.


Mas, para que viajam a maioria dos que viajam? Há algo mais atrapalhado, mais molesto, mais prosaico do que o turista? O inimigo de quem viaja por paixão, por alegria ou por tristeza, para recordar ou para esquecer, é o que viaja por vaidade ou por modismo, é esse horrível e insuportável turista que se prende ao asfaltado das ruas, nas maiores ou menores comodidades do hotel e na comida deste.



Porque há quem viaja, me horroriza ter que dizê-lo, para provar das distintas cozinhas. E outros para visitar teatros, cafés, cassinos, salas de espetáculos, que são em todas as partes a mesma coisa e em todas igualmente infectas e horrendas. E há quem viaja, já o disse em outra ocasião, por topofobia, para fugir de cada lugar, não em busca de onde se vai, senão em fuga de onde se parte.

Bom, não vamos julgar o homem, pois não podemos nos esquecer que num relato de viagem tem muito peso o contexto da época em que foi escrito. E não eram tempos fáceis aqueles, como já vimos, lembrando que o turismo, tão desprezado pelo autor na passagem acima, ainda era coisa para pouquíssimos privilegiados no começo do século passado.


Mas os turistas não são as únicas vítimas de Unamuno, que também desce a lenha nos conterrâneos espanhóis, a quem chama muito pejorativamente de “pordioseros”, vocábulo proveniente da típica expressão espanhola “Por Dios”. Nada muito diferente do que ocorre por aqui, veja só:

A pobre gente falava de suas vidas mansas, humilde, resignadamente. Fiquei na dúvida se as queixas eram rituais, eco daquilo que ouviram por toda a vida, ou mais uma forma de nossa característica choramingação espanhola, desta detestável mania de pordioseros de estarem sempre se lamentando de sua sorte e de sua pátria. Fiquei na dúvida de que se tudo isso não era senão a volúpia da queixa.


Fácil perceber que Unamuno tem um olhar crítico sobre tudo, ou quase tudo aquilo que observa em suas andanças: pessoas, lugares, a literatura, a arte, a política, mas isso nem de longe faz dele um ser amargurado, pelo contrário; sua erudição e sua escrita poética tornam sua leitura um prazer. Poucos são os que conseguem narrar a natureza como Miguel, que gosta das alturas e do silêncio.


Ali, no topo, ali sim se parece a vida um sonho e um sopro. (...) Ali em cima, no cume da Peña de Francia (montanha que se localiza a 1723m, ao sul da província de Salamanca), sentia cair as horas, fio a fio, gota a gota, na eternidade, como a chuva sobre o mar. Melhor do que gota eu diria floco a floco, pois caíam silenciosas, como cai a neve, e brancas. É sobretudo do silêncio o que ali se goza.

(...) Me ponho de cara à cidade, que está ali, por sobre aquele pequeno pico escuro. À minha direita, ao nascente, o maciço da serra de Béjar, o Calvitero, com a forma de um gigantesco monte de feno. Brilham algumas casas em Béjar. Cumprimento a montanha irmã, mais alta do que esta na qual me encontro, e onde uma vez, antes de raiar o dia, deitado sobre a terra e sem mais teto que não o céu, vi-me envolto em uma nuvem de tormenta. E foi então quando compreendi ao Deus do Sinai.

(...) Partimos ao amanhecer de Las Erías, subindo em direção a Horcajo. Que panorama estupendo! Lembrei-me da frase de Obermann, de que o sentimento da montanha jamais poderá ser expresso em uma língua criada pelos homens das planícies.

Bacana, não? E é assim que o Miguel vai excursionando pelas terras de Espanha, às vezes até atravessando a fronteira com Portugal, onde guarda boas lembranças e amigos. Não se espera daquelas paisagens nada mais do que a simplicidade e o silêncio, a beleza natural e a ternura dos campesinos, porque isso, somente isso, e um pedaço de pão e de queijo, e um gole de vinho, e talvez um bom livro, são suficientes para alegrar a existência de qualquer pessoa.


Essa Espanha de Unamuno, com certo esforço, ainda pode ser encontrada em algumas paragens mais remotas, nos pequenos pueblos mais afastados das estradas de alto tráfego e de grandes núcleos urbanos. É difícil dizer, sem parecer saudosista ou simplista demais, o que esses lugares têm de especial. Provavelmente, para muitos, para a grande maioria, não haja nada de interessante a ser observado nesses locais. Ruínas seculares? Restos de civilização? Gente velha e abandonada esperando a morte chegar? Isso tudo faz parte do pacote, é verdade.

Mas a poesia está mais no olhar do que no objeto. Daí a beleza de textos como os de Unamuno, pois foram escritos por alguém que sabia exercitar o olhar do viajante. Percebi isso muito claramente quando li o último relato de Andanzas, “Junto à velha igreja”. É curtinho, e vou postá-lo na íntegra, quem sabe você também consiga captar a sutileza – em parte perdida por conta da tradução – da linguagem poética, com um toque de Augusto dos Anjos, desse grande escritor e viajante espanhol. Namastê!



Junto a la vieja Colegiata


Um morcego rondava a cúpula daquele templo românico onde já não mais ressoavam preces nem ardiam os círios. Solitário em seu nicho escuro, um Cristo lívido, sem as almas que outrora sob seus pés lhe suplicavam perdão; do céu fechado do templo – as bóvedas – pareciam gotejar pelas tardes, remotas lendas, filhas da negra angústia apocalíptica dos mais bárbaros séculos, quando a alma tremia, com as asas quebradas, no cárcere da carne, aguardando a morte numa tortura mística, para ver-se assim livre do mundo de odiosas histórias; e na paz do sepulcro do tétrico recinto - de uma fé morta no túmulo - um silêncio de pedra envolvia as velhas memórias.

Do lado de fora do templo, sob o sol vivífico, a abside arredondada coberta por um manto de hera, que ampara os ninhos onde a cada ano ágeis andorinhas nidificam suas crias e, partindo, as levam a alguma mesquita nos limites do Saara. Na torre em ruína uma cegonha hierática, com os olhos sonâmbulos, cochila em pé, e ao cair da tarde, em posição de sentinela, com seu vôo eurrítmico vai da poça às margens do rio buscar a caça que no ninho sua cria devora.

E o Cristo solitário, preso naquele lúgubre interior, entedia-se, e ouve lá de fora o alegre pio das andorinhas e o bater dos dentes das cegonhas, feito prece litúrgica, contando os dias que faltam para o êxodo, aves peregrinas!

ANDANZAS Y VISIONES ESPAÑOLAS. MIGUEL DE UNAMUNO, 1920

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Teoria da viagem: poética da geografia, by Michel Onfray

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Quer ler um livro excepcional sobre a arte de viajar? Pois então não perca tempo e corra atrás desse pequenino ensaio que é uma jóia: Teoria da viagem: poética da geografia. O autor é um jovem filósofo francês cinqüentenário, Michel Onfray, que escreve como ninguém sobre as sutilezas da experiência mágica da viagem.

O Michel tem tanta coisa boa escrita nesse livro de cento e onze páginas que nem sei por onde começar. Mais uma vez me sinto frustrado por ter que deixar muitas passagens geniais de uma obra de lado, mas a concisão é uma necessidade, de modo que tentarei selecionar aquilo que imagino irá inspirar os leitores e as leitoras do Odepórica a comprar o livrinho do filósofo francês (como sempre, não estou lucrando nada com isso, palavra).

Os sete tópicos desse estudo são diretos e instigantes; leitura agradável, consegue a proeza de equilibrar o discurso acadêmico com o popular, sem nunca parecer pedante ou superficial. Vamos ler a seguir algumas passagens, na verdade insights cheios de sabedoria e atitude. Veja o que pensa Onfray sobre:

A escolha de uma destinação:

“Cada corpo busca reencontrar o elemento no qual se sente mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e de prazeres confusos, mas memoráveis. Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la.”

“Uma palavra, um lugar legíveis no mapa retêm, então, a atenção. Nome de um país, de um curso de água, de uma montanha, de um vulcão, de um continente, de uma ilha ou de uma cidade. O indistinto, o visceral, se reconhecem de súbito numa emoção desencadeada por um nome guardado na memória: ir ao tibete, ver o rio Amur, escalar o monte Fuji ou o Etna, caminhar nas colinas de N´Gong, nadar no oceano Pacífico (...) cada um dispõe de uma mitologia antiga fabricada com leituras de infância, filmes, fotos, imagens escolares memorizadas a partir de um mapa-múndi, numdia melancólico ao fundo da classe.”

Os livros:

“A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de razões antes escondidas no corpo. No começo do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domicílio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formulação, a realização, a concretização de uma escolha do destino.”

“Toda documentação alimenta a iconografia mental de cada um. A riqueza de uma viagem requer, a montante, a densidade de uma preparação – assim como as experiências espirituais convidam a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade capaz de infundir. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. (...) Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se é portador. O vazio do viajante gera a vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excelência dela.”

O começo da viagem:

“Em que momento começa realmente a viagem? A vontade, o desejo, a leitura, certamente tudo isso define o projeto; mas a viagem mesma, quando se pode dizer que começou? É quando decidimos partir para um lugar e não um outro? Quando fechamos a mala, afivelamos a mochila? Não. Pois há um momento singular, identificável, uma data de nascimento evidente, um gesto signatário do começo: é quando giramos a chave na fechadura da porta de casa, quando fechamos e deixamos para trás nosso domicílio, nosso porto de matrícula. Nesse instante preciso começa a viagem propriamente dita.”

A amizade:

“Nem a sós, nem com vários: circular com o amigo permite evitar a angústia multiplicada do trajeto solitário, da barreira das línguas estrangeiras, dos incômodos burocráticos nas fronteiras com funcionários e policiais de todo o mundo. O estrangeiro que circula livremente num país inquieta as autoridades, sobretudo onde não reina a democracia, isto é, na maioria dos lugares do planeta. A amizade serve de tônico necessário para a conjuração do estado de fragilidade consubstancial ao afastamento do domicílio, longe das referências habitualmente tranqüilizadoras do animal em nós. No exercício da amizade, o outro é o estranho menos estranho possível. (...) No detalhe da viagem, a amizade permite a descoberta de si e do outro.”

A memória da viagem:

“Pouco importa o suporte, desde que a memória produza lembranças, extraia quintessências, elabore referências com as quais organizar mais tarde o conjunto da viagem. No amontoado e na balbúrdia da experiência vivida, o vestígio cartografa e permite o levantamento de uma geografia sentimental. Mais tarde, quando o tempo do acontecimento estiver longe de nós, restam instantes congelados em formas capazes de reativação imediata.”

“(...) um poema bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiência vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou sei, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação.”

A diferença entre viajantes e turistas:

“Viajar supõe menos o espírito missionário, nacionalista, eurocêntrico e estreito, do que a vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta. O turista compara, o viajante separa. O primeiro permanece à porta de uma civilização, toca de leve uma cultura e se contenta em perceber sua espuma, em apreender seus epifenômenos, de longe, como espectador engajado, militante de seu próprio enraizamento; o segundo procura entrar num mundo desconhecido, sem intenções prévias, como espectador desengajado, buscando nem rir nem chorar, nem julgar nem condenar, nem absolver nem lançar anátemas, mas pegar pelo interior, que é compreender, segundo a etimologia. O comparatista designa sempre o turista, o anatomista indica o viajante.”

A busca:

“Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser.”

O nomadismo:

“Não há viagem sem reencontro com Ítaca, que dá sentido ao deslocamento. Um exercício perpétuo de nomadismo sairia dos limites da viagem para entrar na errância permanente, na vagabundagem. Os próprios nômades praticam um tipo de sedentarismo, pois percorrem trajetos habituais, se instalam na rotina de um deslocamento, sempre o mesmo, servem-se das mesmas referências, ramagens secas, montes de pedras, linhas e rastros feitos por animais, leem sempre do mesmo modo o mapa das estrelas ou dos movimentos do sol, mas também porque vão a lugares onde têm seus hábitos, suas práticas tribais e rituais na arte de ocupar os solos.”

“Assim como o sedentarismo contínuo não me agradaria, o nomadismo permanente não me seduz: as raízes, o local, a vida há muito tempo num lugar idêntico não podem ser consideradas sem um recurso regular a deslocamentos ao redor do planeta (...) entendo a viagem como um momento num movimento mais geral – não como um movimento por si só. Tanto mais porque o reencontro com o domicílio dá um sentido, o seu sentido, ao nomadismo – e vice-versa.”

Leia: Teoria da viagem: poética da geografia. Michel Onfray. Trad. De Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Peregrinos de inverno

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Há quinze anos eu completava pela primeira vez a peregrinação a Santiago de Compostela. Foi um inverno razoável o de 1995, alguns poucos dias chuvosos e neve em apenas duas ou três ocasiões. O frio incomodava muito à noite, nas regiões montanhosas, e quase sempre no momento de abandonar o saco de dormir. Hábitos corriqueiros como escovar os dentes e lavar o rosto pela manhã pediam uma certa dose de coragem e, em algumas ocasiões, que não foram poucas, amarrar as botas era tarefa difícil, por causa do tremor das mãos, que não obedeciam o comando da cabeça. Parte dessas e de outras dificuldades foram ocasionadas pela absoluta falta de preparo e material adequado à empreitada.

Hoje é fácil, mas em 1995 poucos brasileiros haviam feito o Caminho de Santiago. Meu único referencial eram os artigos de jornais e revistas que fui colecionando ao longo dos anos, lidos e relidos até quase decorá-los. Embora já existisse para o resto do planeta, a internet ainda não era uma realidade na minha vida; para se ter uma ideia, eu era estudante de jornalismo, e a sala de redação da Cásper ainda era na base da datilografia e no currículo ainda tínhamos que aprender taquigrafia. Na marra.

Bons tempos. Alguns meses antes da viagem consegui ler quatro livros sobre o CS, relatos de viagem de Anna Sharp, Máqui, Lizia Azevedo e Baby do Brasil, todos eles influenciados fortemente pela peregrinação do Paulo Coelho. Esses primeiros viajantes-escritores iriam mais tarde influenciar toda uma geração de peregrinos, sendo chamados jocosamente pelos espanhóis de peregrinos coelhistas. Eu também, admito, fui um deles.

Volto à questão do meu despreparo. Parti do Brasil com uma mochila pesando dezessete quilos, algo totalmente insano se você for levar em consideração que, para uma viagem desse porte, a mochila não deve ultrapassar dez por cento do seu peso corporal. Posso garantir que eu não pesava cento e setenta quilos, a foto está aí em cima para comprovar. Dentro da mochila um absurdo de elementos logo abandonados numa estrada, no segundo dia de caminhada: doze pares de meias, seis cuecas (sete, com a do corpo), seis camisas de manga comprida, um sleeping de dois quilos e meio, um par de tênis, uma nécessaire pesada com artigos de higiene e outra igual com artigos de farmácia, pedras (!) para regalar pessoas, blusa de lã, cachecol e luvas e outras coisas das quais nem me lembro mais.

As botas. Não poderia ter escolhido nada pior para calçar. Botas de couro, tipo coturno do exército, sabe como é? Sem amaciar. Tem idéia do estrago? Bolhas. Muitas bolhas do primeiro ao último quilômetro. E dor nas costas, nos joelhos e as temidas e assustadoras tendinites. O estrago em mim foi grande, ao ponto de, no último terço da viagem, eu só conseguir caminhar com a coluna paralela ao solo, numa média de quatro quilômetros por hora - em terreno plano. Houve um dia em que, ao ver o meu estado ao entrar num pueblo, uma velhinha chegou a chorar, e me levou de mãos dadas até a porta do refúgio.

Naquela época os refúgios no inverno quase nunca tinham água caliente. Ficar sem banho, portanto, era frequente, e meu recorde foi de seis dias. As roupas não secavam, por isso não eram lavadas. Usei a mesma calça (de moletom, vale registrar) trinta dias seguidos. Só trocava as cuecas e as meias, pelo menos a cada dois dias. Hoje penso que minha figura naqueles dias devia ser algo bem patética. Um cara usando um conjunto de moletom vermelho (a ideia era a de chamar a atenção caso eu me perdesse em alguma trilha) e botas pretas, barbudo e magrelo, era uma espécie de papai-noel mendigo e esfomeado, algo assim. Não foi à toa o choro da velhinha.

Mas tudo isso são detalhes, apenas detalhes de uma grande aventura. Fiz o caminho com um amigo e, apesar das brigas (acho que sempre são inevitáveis quando o convívio é longo), a amizade permanece até os dias de hoje. Fizemos a rota completa, desde Roncesvalles até Santiago, em 28 dias. Um grande feito, em que pese a minha condição deteriorada ao extremo.

Iniciávamos a caminhada tarde para os padrões dos peregrinos jacobeos, sempre por volta das nove horas da manhã, porque em muitas regiões, antes desse horário, ainda estava escuro. Em compensação, dificilmente chegávamos ao destino do dia antes das sete horas da noite, algumas vezes bem mais tarde do que isso. Essa rotina nos obrigava, portanto, a carregar um peso extra com alimentos, porque o comércio dos pueblos nunca estava aberto quando chegávamos. Lembro de uma vez em que nosso jantar foi pão seco com fatias de alho cortadas, como aperitivo. Mas o vinho nunca faltava, e era meu combustível até no desjejum. Nunca passei mal por isso e também não fiquei viciado, garanto.

Companhia nos refúgios só em três ou quatro ocasiões; um bêbado, desses que fazem o Caminho ad infinitum, em busca de abrigo e, quem sabe, algo de comer, nos acompanhou duas vezes, depois demos um jeito de despistá-lo. Era poeta, lembro bem disso, e quando lia seus poemas, com sua boca banguela, eu não entendia nada. Aliás, eu sequer arranhava um portunhol e isso irritava o velho, que achava, no devaneio de sua bebedeira, que eu fingia não entende-lo só para me livrar dele. Não era isso, mas devo admitir que usei algumas vezes desse recurso (ainda hoje o faço) para me livrar de pessoas inconvenientes em minhas viagens. Nesse ponto falar português é uma grande vantagem.

Depois do poeta beberrão encontramos dois outros peregrinos. Eram dois judeus estadunidenses estudantes de filosofia em Madrid. Descobriram o CS por acaso e não tinham nenhuma ideia do que estavam fazendo ali. Foram pela aventura e pela economia da viagem, que lhes garantiria abrigo gratuito, embora jamais se permitissem pernoitar nas pocilgas que nós com muito orgulho encarávamos (com inveja, claro, do conforto gozado pelos americanos). No começo não íamos para um lugar melhor para dormir por querer economizar ao máximo, mas depois resolvemos que privação material também fazia parte de nossa aventura.

Agora cheguei onde queria: privação material. Sabe o que é isso? Eu só fui descobrir o real sentido quando senti na pele o desafio. É preciso dizer que existem muitos tipos de peregrinos, assim como também de viajantes. Há os mais aventureiros que encaram qualquer parada, e há os que buscam sempre o conforto e a segurança. E há, também, os que se enquadram entre esses dois extremos, nem muito doidos, nem folgados demais. Acho que nos caso dos peregrinos compostelanos esses são a maioria. Mas naquela viagem de 95, eu e meu amigo nos enquadrávamos no primeiro grupo.


Como disse, no começo a preocupação era com a grana, que tinha que ser esticada ao máximo já que esse tipo de viagem é sujeita a muitos imprevistos. Mas algo em nós foi mudando conforme avançávamos, como se em um momento mágico um arquétipo desse passagem a outro: saía de cena o viajante aventureiro e em seu lugar assumia o peregrino. Mais humilde, mais calado e muito mais contemplativo.

Hoje sei que o fato de caminhar sozinho, sem a presença de outros peregrinos para compartilhar a experiência deambulatória foi decisivo para a profunda e involuntária imersão interior. O clima, por sua vez, também teve um papel fundamental nessa história. Há uma gigantesca diferença entre peregrinar no verão ou na primavera e peregrinar no inverno. Sei disso porque já fiz essa peregrinação nas quatro estações e nenhuma das outras três é tão marcante quanto a do inverno. O verde e o colorido das flores dão lugar a uma vegetação seca, as mesetas se transformam em paisagens desérticas, a relva cede lugar à lama, os pueblos parecem abandonados e o frio pode se transformar em inimigo mortal.

Por outro lado, isso tudo agrega ao Caminho uma dimensão mais mágica, e concordo com o que li certa vez em algum lugar: o peregrino do inverno é o que mais se aproxima do peregrino medieval; nas igrejas, quase sempre vazias nas missas vespertinas, o ritual parece dirigir-se a você, e é impossível não se emocionar quando um pároco lhe chama ao altar e lhe apresenta aos outros como “um verdadeiro peregrino”. E quando perguntam de onde você vem, então, a reação de espanto te enche de orgulho e satisfação: Brasil????? Sim, meu senhor, minha senhora, mas a pé apenas desde os Pirineus, claro...

Quanto às dificuldades, muitos peregrinos discordam do que vou afirmar: a dor física da caminhada potencializa muito o processo de transformação interior. Mas calma lá: não se trata de masoquismo e sim de aceitação, porque de certa maneira a dor nos faz crescer. Há quem fuja da dor e do sofrimento (no Caminho e na vida), de modo que tudo é desculpa para pular uma etapa ou outra (por outros meios que não seja caminhar com os próprios pés) para “poupar” o corpo, afinal peregrinação não é expiação e como sempre a sabedoria está em usar o bom censo.

O lado positivo do sofrimento é que ele, como tudo na vida, um dia passa; isso faz parte desse tipo de jornada, sobretudo se você acredita que a peregrinação é um rito de passagem, e por isso aquele que parte, é sabido, nunca é o mesmo que regressa. Pode procurar: você nunca irá encontrar, em qualquer cultura que seja, um rito de passagem onde não haja uma mínima dose que seja de dor, de sofrimento ou de privação, seja no aspecto físico, emocional ou espiritual. Pois é dessa experiência que o ser humano adquire o poder necessário para superar todos os futuros obstáculos de sua existência nesse plano.

Por isso, quando me perguntam qual a melhor época para se fazer o Caminho de Santiago, fico sempre tentado a responder: depende de quanto você está disposto a pagar; se optar pelo inverno o preço será alto, mas em compensação a recompensa virá em dobro.




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Quer ler outra opinião sobre a experiência de peregrinar no inverno? Então clique
aqui. (em inglês)




segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O céu que nos protege, by Paul Bowles (1910-1999)

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Paul Bowles foi um escritor incrível. Em 1949, há exatamente 60 anos, publicava seu primeiro romance, O céu que nos protege (The sheltering sky), levado para o cinema por Bernardo Bertolucci com muita dignidade, em 1990. Para muitos, não é apenas o primeiro romance de um grande escritor, mas o primeiro e melhor romance por ele escrito, o que não desqualifica qualquer obra publicada posterior a ela, já que Bowles sempre manejou muito bem a escrita.

Descobri Bowles através do filme de Bertolucci; gostei tanto da filmagem que saí do cinema e comprei o livro e o álbum com a trilha sonora original de Ryuichi Sakamoto (quem também compôs as trilhas para o Pequeno Buda e o Último Imperador) que é uma viagem à parte, altamente recomendada.

O céu que nos protege tem muito da vida de Paul Bowles e sua mulher, Jane. Nascido em 1910, em Nova Iorque, Bowles começou sua carreira literária escrevendo poemas, mas numa viagem a Paris, hospedado na casa de Gertrude Stein (1874-1946) e de sua companheira Alice Toklas, foi totalmente desestimulado pela escritora a continuar com seus poemas, simplesmente porque, para ela, o que ele escrevia não era poesia. Foi Stein quem incitou Bowles a trocar uma viagem pelo litoral francês por uma estadia em Tânger, no Marrocos, cidade que ficaria para sempre associada à obra e à vida do escritor.


Bowles sempre viajou muito, numa época em que viajar era um acontecimento de grandes proporções na vida de quem o fazia, com muitos dias gastos em navios, trens e outros meios de transporte mais precários ou menos glamourosos. Evidentemente, as estadias eram longas e além de ter que contar com um saldo bancário considerável, muitos eram os que se valiam dos laços de amizade para serem bem recebidos ao mesmo tempo em que eram apresentados à sociedade local.

Toda essa dinâmica de relações pessoais construídas ao longo de inúmeras viagens parece ter dado a Bowles a faculdade de desenvolver personagens que o leitor sente terem sido inspiradas em pessoas com as quais o autor realmente conheceu ou conviveu por algum período. Tudo parece muito real, talvez plausível seja o termo adequado, e como nem sempre a realidade é algo agradável, a leitura de Bowles às vezes incomoda, pela crueza com que o escritor mostra a conduta humana em certas ocasiões, o que não deixa de ser uma experiência interessantíssima.

Voltando às viagens, numa passagem de sua autobiografia, Bowles escreve sobre a primeira vez em que viajou ao Marrocos, depois da estadia em casa de Gertrude Stein:

“Quando embarcamos no Iméréthie II, disseram-nos que haveria alteração no itinerário. O navio não atracaria em Tânger, e sim em Ceuta, no Marrocos espanhol. Na madrugada do segundo dia subi ao convés e vi à minha frente a silhueta denteada das montanhas da Argélia. Senti de imediato uma grande empolgação; fiquei muito empolgado; era como se ver a terra próxima tivesse acionado algum mecanismo dentro de mim. Sem nunca formular o conceito, eu havia baseado minha sensação de estar no mundo parcialmente numa convicção absurda de que determinadas regiões da superfície terrestre possuíam mais magia que outras. Se alguém me perguntasse o que queria dizer com magia, provavelmente eu definiria o termo como uma relação secreta entre o mundo da natureza e a consciência do homem, uma passagem oculta porém direta que ignora a mente. (Aqui a palavra-chave é “direta”, porque neste caso equivale a “visceral”.) Como qualquer romântico, sempre tive uma vaga certeza de que em algum momento da minha vida entraria num lugar mágico que, revelando-me seus segredos, me daria a sabedoria e o êxtase – talvez até a morte. E agora, parado no vento, olhando para as montanhas à minha frente, sentia o movimento do motor dentro de mim, e era como se me aproximasse da solução de um problema que ainda não fora colocado. Eu estava incrivelmente feliz, olhando a muralha de montanhas que pouco a pouco ganhavam corpo, mas deixei a felicidade me invadir e não fiz mais perguntas.”

Paul Bowles foi tão enfeitiçado pela magia daquele lugar que viveu em Tânger por mais de cinquenta anos até o último dia de sua vida. Sobre o fato de ter se estabelecido nessa cidade, lemos o seguinte em sua autobiografia:

“Não escolhi morar em Tânger para sempre; aconteceu. Pretendia fazer-lhe apenas uma breve visita e depois partir e continuar viajando indefinidamente. Fiquei com preguiça e adiei a partida. E um dia constatei, chocado, que não só o mundo tinha mais gente que pouco tempo antes, como também os hotéis eram menos bons, as viagens menos confortáveis e os lugares em geral muito menos bonitos. Depois disso, quando ia a algum canto, logo ansiava para voltar a Tânger. Assim, se estou aqui, é só porque ainda estava aqui quando percebi até que ponto o mundo piorara e me dei conta de que não queria mais viajar.”

Além de escrever, Paul Bowles compunha, chegando a ser um compositor com certo prestígio dentro da música erudita, tanto que uma de suas peças, “The wind remains the same” foi dirigida por Leonard Bernstein e outras entraram em peças de teatro e cinema, associadas a nomes de peso como Orson Welles, Elia Kazan e Tennessee Williams.

Bowles em algum momento de sua autobiografia afirma que sua felicidade era proporcional à distância que o separava dos Estados Unidos; seu lar e sua paixão foram para sempre o Marrocos e, por extensão, o deserto, pois “lá não há nada além do vazio e é isso a beleza, o vazio”, palavras suas que encontram ecos num romance de Cees Nooteboom sobre suas andanças pela Espanha, quando afirma que se sentiu atraído pelas mesetas espanholas (grandes planícies desertas) porque seu interior, de alguma forma, se parecia com elas.


O deserto, sempre o deserto. Poucas metáforas são tão poderosas como esta na literatura mundial. Além do mais, em diversos sistemas religiosos o deserto serve de cenário para momentos cruciais de algum acontecimento revelador; são muitas as vezes que para lá se dirigem aqueles que anseiam desesperadamente por uma resposta, um sinal ou uma revelação – dentro de um contexto mais místico.

O deserto, dentro de suas inumeráveis interpretações simbólicas, também significa o lugar onde o ser humano se afasta de Deus; basta lembrarmos das tentações e dos demônios habitantes do deserto, imagem forte na tradição judaico-cristã, para entendermos com mais clareza essa questão da ausência divina. Entretanto, não nos apressemos: pois aquele que conseguir passar pelas tentações e ataques de ordem inferior, terá conquistado a sua salvação, única e exclusivamente através da graça divina, um paradoxo simples de entender: não podendo contar com nada e com ninguém, só Deus é capaz de salvar o homem. E é claro que, novamente, isso também deve ser entendido de forma metafórica: o deserto simboliza o homem interiorizado, estado que se pode atingir de várias maneiras, seja vivendo em comunidade (religiosa ou não), isolado numa floresta, ou mesmo praticando algum tipo de meditação, o suficiente para permitir alguns momentos de isolamento das coisas mundanas.

E o deserto será a chave de interpretação de toda a narrativa de O céu que nos protege. A história é a seguinte: um casal, Port e Kit (alter-egos de Bowles e sua esposa, Jane) partem dos EUA nos anos 40 do pós-guerra, em direção ao Norte da África numa travessia de navio, acompanhados do amigo Tunner. Não há data marcada para o retorno, um fato curioso e revelador: Port não se considera um turista, mas um viajante. A diferença entre ambos é explicada logo no início da narrativa:

“Mesmo durante os curtos períodos de imobilidade na sua vida em comum, realmente raros desde o casamento há doze anos, bastava-lhe ver um mapa, para começar a estudá-lo apaixonadamente. Com grande probabilidade de vir a planejar, em seguida, alguma viagem impossível que às vezes se tornava, de fato, real. Ele não se considerava um turista: era um viajante. A diferença devia-se, em parte, à utilização do tempo, explicaria ele. Enquanto o turista volta correndo para casa depois de algumas semanas ou meses, o viajante, que não pertence a lugar nenhum, viaja lentamente, durante anos e anos, de uma a outra parte da Terra. (...) Outra importante diferença entre o turista e o viajante é que o primeiro aceita sua cultura sem questioná-la, o que não é o caso do viajante, que a compara com as outras, rejeitando os elementos que não lhe agradam.”

Os três viajantes não possuem, aparentemente, um roteiro pré-definido, e a impressão que se tem é que a viagem pelo Saara será feita de acordo com as circunstâncias tanto dos viajantes quanto dos serviços demorados e incertos de uma sociedade ainda muito atrasada, e por isso mesmo muito encantadora, sobretudo aos olhos de Port; Kit parece deixar-se levar pelas decisões do marido, o que mais tarde terá conseqüências transformadoras em sua vida, e Tunner aparece como um viajante burguês que não esconde uma forte atração pela mulher do amigo, com quem chegará a ter uma noite de amor embalada por garrafas de champanhe, aproveitando uma breve ausência de Port.

Port e Kit demonstram viver uma relação bastante moderna para a época (anos 40) o que de fato aconteceu com Paul e Jane Bowles (e foi a ela quem o autor dedicou esse seu primeiro romance) que, é sabido, viviam juntos e mantinham seus casos extra-conjugais, incluindo parceiros do mesmo sexo. Em O Céu que nos protege a trama toda gira em torno da relação homem-mulher; Port e Kit levam um casamento de dez anos que já demonstra desgaste, embora ambos pareçam não querer assumir essa realidade, de modo que a viagem, a princípio, pode servir de pretexto para uma fuga dos problemas conjugais. Logo irão perceber que a presença de Tunner foi um erro, e quando surge uma oportunidade conseguem se separar do amigo, o que acabará tendo uma conseqüência nefasta: logo depois Port contrai a febre tifóide e cai gravemente doente num local inóspito no meio do deserto. Caberá a Kit cuidar do marido sob condições das mais precárias até a sua inevitável morte.

É a partir desse fato que a história toma outro rumo: a sobrevivência de Kit. Mas não se trata apenas da sobrevivência física: a morte do companheiro leva junto a própria noção de individualidade de Kit; o grande terror de Port, quando percebeu que não sobreviveria à doença, foi descobrir que o grande erro cometido por ele e por Kit foi que ela viveu toda a sua vida em função da dele. E quando Port finalmente se vai, Kit praticamente enlouquece, porque parte de sua essência estava associada a Port de tal modo que sequer conseguiria visualizar sua existência a partir daquele momento. Num sentido figurado, sem Port sua vida era tão vazia quanto o deserto que a cercava.

“Nem lhe ocorrera, agora, que certa vez imaginara que se Port morresse antes dela, não acreditaria que ele estivesse realmente morto, mas sim que houvesse retornado de algum modo para dentro de si mesmo para ali permanecer e que ele nunca mais teria consciência dela; de modo que, na realidade, teria sido ela a deixar de existir, pelo menos em grande parte. Seria ela a entrar um pouco no reino da morte, enquanto ele prosseguiria, uma angústia dentro dela, uma porta fechada, uma oportunidade irreparavelmente perdida.”

O título da obra tem um sentido bastante profundo dentro da narrativa, e parte de sua compreensão aparece num breve diálogo (e numa linda cena do filme), num momento em que o casal saiu para um passeio de bicicleta a fim de contemplar um maravilhoso pôr do sol no Saara:

“- Sabe – disse Port, e sua voz soava irreal, como acontece com as vozes após um longo silêncio em lugares totalmente isolados -, o céu aqui é muito estranho. Quando olho para ele tenho a sensação de que é sólido lá em cima, protegendo-nos do que está atrás.
Kit estremeceu um pouco ao dizer:
- Do que está atrás?
- Sim.
- Mas o que está atrás? – Sua voz estava muito fraca.
- Nada, acho eu. Só a escuridão. A noite absoluta.”

O que ele quis dizer com a noite absoluta? A morte, provavelmente, porque em certos momentos da história, vemos Kit apavorada com essa ideia, como se pressentisse que algo ruim e triste estivesse para acontecer. Não cometerei o erro de comentar o final dessa história forte, densa, que convida-nos a refletir sobre o papel que desempenhamos em nossas vidas e em nossos relacionamentos íntimos. Mas acho que muitas mulheres irão se surpreender com o desenrolar da trama após a morte de Port, que terá Kit como a principal protagonista do romance.

É preciso dizer que Paul Bowles escreve incrivelmente bem, de modo que seu domínio da escrita dá um peso, um brilho maior à história por ele narrada. Durante a leitura de O céu que nos protege você se sentirá tão ambientado no deserto que em alguns momentos sentirse-á participando de toda a viagem, como se Bowles lhe induzisse, com a sua arte, a sentir não só as angústias dos personagens, mas as mesmas sensações físicas destas: o calor do Saara, o cheiro de suas paragens, a brisa fria da noite estrelada em companhia dos beduínos, o aroma de um chá de hortelã ou de um cigarro de haxixe, o sabor do pão seco numa boca sem saliva... em suma, uma leitura extremamente prazerosa.

Para terminar, escolhi a passagem que mais me tocou nessa obra fascinante; no livro, ela aparece no momento em que Kit se encontra ao lado do corpo sem vida do marido (no filme, foi escolhida para fechar a história). É linda e começa assim:

“A morte está sempre no caminho, porém o fato de nunca se saber quando ela chegará, parece amenizar o caráter finito da vida. É aquela precisão terrível que odiamos tanto. E como não sabemos, temos a tendência a encarar a vida como um poço inesgotável. Entretanto, tudo só acontece uma determinada quantidade de vezes e, na realidade, uma quantidade muito pequena. Quantas vezes mais lembrar-se-á de uma certa tarde em sua infância, alguma tarde que faz tão profundamente parte de seu ser que não conseguiria imaginar sua vida sem ela? Talvez quatro ou cinco vezes mais. Talvez nem isso. Quantas vezes mais assistirá ao nascimento da lua cheia? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece não ter limites.”

Leia: O céu que nos protege, de Paul Bowles. Lançado em 1990 pela Rocco com tradução de Roberto Grey, a obra foi reeditada em 2009 pela Editora Alfagura. Outros títulos do autor publicados no país: Tantos caminhos- autobiografia (Martins Fontes, 1994); Bem acima do mundo (Nova Fronteira, 1976); Chá nas montanhas (Rocco, 1994); Um amigo do mundo (Rocco, 1995); Que venha a tempestade (Rocco, 1997).

Assista: O céu que nos protege. (The Sheltering Sky) Direção de Bernardo Bertolucci, trilha sonora de Ryuichi Sakamoto. Não deixe de reparar: o próprio Paul Bowles aparece na cena final do filme (sua fisionomia é a mesma da foto postada neste blog)