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domingo, 3 de março de 2019

As viagens na Idade Média, parte III


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Sistematizações precárias

A Idade Média, sem dúvida, foi uma época de viagens. Mesmo, como vimos, em meio às dificuldades. Um dos maiores problemas enfrentados por quem quer que se pusesse em viagem, fosse mercador ou clérigo, rico ou pobre, consistia em encontrar alojamento.

Um problema que soberanos, reis e imperadores não tinham – sorte deles – uma vez que, da era carolíngia até a Baixa Idade Média, tinham decretado por lei que os mosteiros, as abadias e os grandes feudatários, tinham obrigação de hospedá-los (sempre que não existissem propriedades pertencentes ao governante) com toda a sua corte durante os inúmeros deslocamentos de uma ponta a outra de seus domínios.


Essa obrigação, conhecida como “direito de hospedagem”, com o tempo foi substituída por uma taxa anual ou recompensada em forma de isenções e privilégios.

Quanto ao resto, nos primeiros séculos da Idade Média quando, no fim das contas, a mobilidade era mais contida, era muito comum a hospitalidade gratuita. Com base no princípio, regulamentado pelas leis dos reinos romanos e bárbaros, de que o hóspede era sagrado e gozava da proteção do soberano, quem batia à porta de qualquer casa podia esperar receber, além de um teto sob o qual dormir, também alimento e água para si e seu cavalo ou sua mula.


Naturalmente, não infinitamente: dois, três dias no máximo (daqui vem, provavelmente, o famoso ditado segundo o qual o hóspede, depois de três dias, começa a feder). Depois disso, ou retomava sua viagem, ou procurava um trabalho para se manter. Oferecer hospedagem a um viajante também podia se revelar, de fato, dispendioso: principalmente nas áreas mais isoladas e escassamente mantidas, porém hospedar um forasteiro sempre constituía uma agradável novidade e era uma boa ocasião para saber o que acontecia em outras partes do mundo, ou ao menos uma cidade não muito distante.

Que a hospitalidade fosse considerada um dever não é uma novidade. Desde os tempos mais antigos, em quase todas as civilizações, havia formas gratuitas de hospedagem com base na convicção, por exemplo, no mundo greco-romano, e no mundo germânico, de que os deuses vagassem sobre a terra, assumindo veste de viajantes, recompensando ou punindo quem se mostrasse generoso ou avaro.


Já no século I, o historiador latino Tácito, em sua Germania – obra que descreve em detalhes os usos e costumes das tribos da Europa Centro-setentrional até então pouco conhecidos – destaca a acolhida como uma das qualidades maiores e mais genuínas dos germanos:

Nenhum outro povo possui mais destacado o senso de convivência e o da hospitalidade. Para eles é inadmissível não aceitar alguém em sua casa. Todos acolhem o hóspede em sua mesa, servida de acordo com os meios de que dispõem. Faltando alimento disponível, quem tinha oferecido a hospitalidade lhe indica uma outra casa e o acompanha até ela; mesmo sem convite, entram na casa vizinha e não há diferença: são acolhidos com a mesma deferência.

No que diz respeito à hospitalidade ninguém faz distinção entre pessoas conhecidas e desconhecidas. Quando o hóspede parte, é costume dar-lhe o que pedir, e a franqueza no pedir é equivalente. Os dons são para eles uma alegria, nem quem dá se sente em crédito, nem quem recebe, em dívida.


No início da Idade Média, as leis bárbaras (séc.VII) coletadas confirmam o dever da hospitalidade, que durava de dois a três dias e incluía alojamento, lugar para o fogo, água, lenha para queimar e capim para os cavalos. A comida, por sua vez, não estava incluída, e o hóspede devia providenciar por si, adquirindo-a em outro lugar, ou, se era afortunado, no mercado local. 

No direito dos francos era proibido acolher algumas categorias de pessoas que tinham se envolvido em delitos ou ações consideradas inaceitáveis: profanadores de tumbas, mulheres livres que haviam dormido com escravos e ladrões.


No direito lombardo, por sua vez, quem hospedasse um fugitivo – sobretudo se se tratasse exatamente de um escravo in fraida, “em fuga” – era punido com uma multa igual ao valor do próprio escravo. 

Essas disposições permanecem em vigor, com algumas variantes, por quase toda a Alta Idade Média, até o início do ano mil, embora, nas regiões mais periféricas daquele que, no meio-tempo, havia se tornado o Sacro Império Romano, se tendia a oferecer hospitalidade aos estrangeiros apenas em caso de mau tempo ou no inverno: em todo caso, o forasteiro era gentilmente convidado a acampar em área aberta a arranjar-se o que comer.


Além das casas privadas, a hospitalidade gratuita também era ofertada pela Igreja. Nos primeiros séculos da era cristã, de início no Oriente e depois no Ocidente, a obrigação de acolher os viajantes era exercida nos denominados xenodochia (ou seja, hospedarias), próximas aos mosteiros, mas separados deles para evitar perigosas distrações: como, porém, a obrigação da acolhida caridosa por parte dos mosteiros e das igrejas se estendia aos peregrinos e aos pobres, logo essas hospedarias já não eram mais suficientes.

Os xenodochia, com o tempo, se tornaram cada vez menos disponíveis para forasteiros e mais voltados à assistência dos pobres, dos órfãos e dos anciãos. Foi preciso esperar até o século XI para vê-los povoar-se novamente de peregrinos e viandantes de todo tipo.


A renovada mobilidade europeia a partir do ano mil marcou o nascimento- ou renascimento – de locandas e albergues. Com o aumento da população e das transações comerciais, de fato, também os pedidos de alojamento aumentaram desmedidamente, e a hospitalidade gratuita não era mais suficiente para satisfazer a demanda.

Também porque há tempos havia sido introduzido o costume de impor aos hóspedes o pagamento, pelo menos, das refeições. Mesmo assim nem sempre se encontrava lugar. Por ocasião das feiras populares e dos mercados, as cidades eram de tal modo tomadas que os viajantes tinham de pernoitar em alojamentos emergenciais ou a céu aberto.


Nesses casos, um bom alojamento era garantido apenas se se dispunha de um valor em dinheiros ou de bens para empenhar. Pela leitura de um sermão – estamos em 925 – do bispo Aton de Vercelli, que admoestava os fiéis contra a prática de hospedar apenas a quem se apresentava com bens preciosos, intui-se que havia quem se aproveitasse chegando a explorar a situação de necessidade para enriquecer.

Albergues militares


A partir do século XI, com a abertura do capítulo das “cruzadas”, um novo fenômeno invade a Europa: o das ordens cavalheirescas. Os pressupostos para seu nascimento foram lançados durante a reforma gregoriana, quando elaborou-se o conceito de militia christi, um exército de Cristo, preparado para defender até mesmo com as armas os princípios da Cristandade.

Fundada na sequência da conquista de Jerusalém (1099), as primeiras ordens eram, na verdade, compostas por leigos que viviam em comum, respeitando os votos de pobreza, castidade e obediência, mas jurando simultaneamente proteger os peregrinos e combater os infiéis. Não se tratava, portanto, de monges em sentido estrito: a Igreja, aliás, se recusou por muito tempo a reconhecer esses grupos como “ordens religiosas”, porque era contrária à ideia de que um monge pudesse pegar em armas.


Desses, tampouco faziam parte apenas cavaleiros, já que a maior parte dos membros se constituía de não nobres (os assim chamados servientes, de onde originou-se  o nossos termos “sargento”). 
A primeira a ser fundada foi a Ordem dos Cavaleiros de São João (cujo nome foi tomado da hospedaria homônima de Jerusalém); nascida leiga no ano de 1099, tornou-se religiosa apenas em 1154.

Nascida para fins de assistência, participou ativamente de todas as batalhas contra os muçulmanos. A mais importante foi a dos templários, que tinha o quartel-general na área do antigo Templo de Salomão (surgida em 1118, oficializada em 1163), ao passo que a última foi as dos teutônicos, nascida durante a terceira cruzada (1143) em São João de Acre e tornada oficial em 1199, outras ordens militares surgiram na Espanha durante a Reconquista.


O surgimento e o desenvolvimento das ordens religiosas militares foi também resposta aos inúmeros perigos que ameaçavam peregrinos durante as viagens. Elas os defendiam contra os assaltos dos ladrões e contra os infiéis, mas também lhes davam assistência em caso de epidemias, principalmente a peste.

As cruzadas determinaram deslocamentos em massa: centenas e centenas de pessoas que se moviam sobre as estradas, chegavam aos portos, pululavam nas cidades. A presença das ordens cavalheirescas na Terra Santa, portanto, foi essencial para garantir condições de hospitalidade satisfatórias: até aquele momento, de fato, quem se encaminhava ao Oriente Próximo podia contar com abrigos decadentes, com dezenas de pessoas amontoadas e imundos almofadões de feno.

Graças à criação de postos de assistência (mansiones) ao longo das estradas, nos portos e nas cidades, quem ia combater ou rezar nos lugares santos podia ao menos contar com uma acolhida melhor, mais espaço e condições higiênicas decisivamente melhores.

Fonte: capítulo 4 da obra A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes. Petrópolis, 2018.


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A viagem ao Brasil de Marianne North


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Para quem gosta de ler, namorar vitrines de livrarias costuma ser um agradável passatempo. Numa de minhas últimas visitas à Martins Fontes da Avenida Paulista, uma obra me fisgou a atenção de imediato, não só por sua beleza gráfica mas também pelo título: A viagem ao Brasil de Marianne North, primorosa apresentação e organização de Julio Bandeira editado pela Sextante.

Tenho grande estima por obras que retratam o olhar de viajantes estrangeiros sobre o Brasil. Não sei bem o motivo, mas acredito que se deve ao fato de que, ao ler um relato de alguém de fora do meu país eu consiga enxergar diferentes perspectivas de minha própria cultura - cenas, costumes e hábitos que fazem tanto parte de nós que de tão habituados já nem conseguimos mais enxergar.


Para além da curiosidade que temos sobre o que pensam de nós, pesa mais o acervo histórico documentado nessas obras, não raro fontes únicas que testemunham um passado muitas vezes perdido com o avanço do tempo, ainda mais em um país como o Brasil, que tanto maltratou, e ainda maltrata, sua história e sua herança cultural.


Mas tratemos das coisas belas, como o legado artístico de Marianne North, pintora e viajante inglesa do século XIX que retratou o Brasil em sua majestosa natureza no período em que aqui viveu, entre os anos de 1872 e 1873.


Mulher viajada, Marianne chama a atenção num ambiente predominantemente masculino, o dos artistas viajantes e naturalistas que aqui aportaram a partir do século XIX: von Martius, Rugendas, Debret, Langsdorff, Saint-Hilaire, para citar os nomes mais aclamados. À parte sua reconhecida habilidade artística, Marianne North é também respeitada pela coragem em ser diferente numa época em que as mulheres não saíam perambulando pelo mundo.

E Marianne perambulou muito: lá prá cima pisou na Jamaica, Estados Unidos e no Canadá; prás bandas do Oriente visitou o Japão, a Índia e o Ceilão e mais prá baixo, a Austrália, a Nova Zelândia e a Tasmânia. Isso só para citar alguns, porque a lista é grande. Uma autêntica globe-trotter, como dizem lá na terra dela.


O livro organizado pelo Julio Bandeira, autor cheio de títulos acadêmicos que estuda e publica obras sobre os grandes artistas viajantes que visitaram o Brasil, é um encanto para os olhos, além de ser uma leitura agradável e repleta de informações interessantes sobre a arte não só da Marianne North mas também de seus pares viajantes.

Vale mencionar que o autor não se esqueceu de dedicar um capítulo a outras duas personagens femininas que também produziram trabalhos geniais na arte botânica, Maria Sybilla Merian (1647-1717) e Margaret Mee (1909-1988):


“Essas três mulheres parecem formar uma linhagem pela maneira corajosa como associaram a arte à natureza. Merian com guache, o meio empregado na quase totalidade das obras de Mee, cuja solidez das cores está mais próxima do óleo, a tinta preferida de North. Na opção das três na busca pela maior densidade de cores, está presente um dos elementos de associação possível entre artistas de tempos tão diferentes: para elas, a transparência da aquarela parecia ser insuficiente.”



Não é preciso dizer que a vida de Marianne North foi uma aventura, e o que nos interessa particularmente em sua narrativa é o período em que viveu no Brasil. Diz o Julio Bandeira que em 1872, no Rio de Janeiro, a artista


“vai quase todas as manhãs do Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo, para o Jardim Botânico no bonde de tração animal. Carl Glasl, o diretor austríaco, ajuda Marianne North a configurar seu cavalete e a deixa usar a sua casa. Ela conhece Paquetá e o Corcovado. Reúne-se com Mr. Gordon, o gerente-geral das Minas de Morro Velho, em Minas Gerais, e a filha dele. É convidada a viajar com eles por Minas Gerais. Viaja a Petrópolis, Juiz de Fora, Ouro Preto, Teresópolis. É apresentada a D. Pedro I. Uma epidemia de febre amarela em 1873 faz com que ela desista de viajar para a Amazônia e decida voltar para a Inglaterra.”


Os diários de Marianne North foram publicados postumamente por sua irmã, Catherine Symonds, em 1892, na obra Recollections of a Happy Life- Recordações de uma Vida Feliz, e na obra que temos em mãos, o autor reproduz na íntegra os capítulos V e VI de suas memórias, que contemplam os meses em que a artista aqui viveu. Tirando as viagens pela Europa, a vinda ao Brasil foi sua segunda viagem para fora do continente europeu, após haver visitado a América do Norte e a Jamaica no ano anterior.


E o que dizer desses diários? Em primeiro lugar, temos em mãos um precioso testemunho odepórico que narra o olhar estrangeiro sobre um ainda exótico país tropical, uma chance de conhecermos a geografia e os costumes da gente daquele período, sem contar a botânica, o principal objetivo da viagem; em segundo lugar, temos a narrativa eurocêntrica de uma viajante da era vitoriana que não esconde suas opiniões de cunho fortemente preconceituoso, como podemos ver ao longo de todo o texto.


Para os padrões atuais do politicamente correto, há passagens que hoje soam absurdamente racistas, mas até nisso o texto tem sua importância histórica, e de uma maneira ou de outra, sejamos honestos, pouca coisa mudou efetivamente nesse campo, uma vez que o discurso não acompanha as atitudes de uma sociedade cada vez mais desequilibrada como a nossa.


Vale notar que podemos fazer vários recortes dentro desse relato, que não se limita apenas à observação da flora local, tema mais presente nessas páginas; nelas também é possível fazer uma leitura da sociedade e do papel dos negros escravizados, frequentemente chamados pela autora de “pretos preguiçosos”; a hospitalidade do povo brasileiro, que a autora reconhece e estima mas quase sempre com uma certa arrogância, deixando claro a superioridade inglesa seja no trato, seja na qualidade dos produtos aqui comercializados.


A culinária, tema hoje tão prestigiado, também aparece com frequência, com detalhes sobre o que era servido nas refeições, nem sempre ao gosto do freguês, embora pareça haver agradado mais do que desagradado:


“Dentro da casa, recebemos boa comida. Como tínhamos quase sempre o mesmo tipo de alimento em todos os lugares, vou relatar aqui em geral como era nosso sustento. Para o jantar, sopa, frango assado ou cozido e carne de porco, um arroz um tanto gorduroso e feijão, o alimento básico do país – alguns ingleses o consideram ‘muito pesado, sendo próprio apenas para cavalos’, mas eu sempre gostei; lembra o feijão francês, só que a fava é preta em vez de branca; no Brasil é sempre comido polvilhado com farinha, uma farinha moída grossa de milho ou de mandioca. Então, nos serviram o excelente queijo do país, que me lembrou o ‘fromage carré’ da Normandia, o qual era sempre comido com alguma compota conhecida pelo nome genérico de ‘doce’ e seguido pelo melhor dos cafés.”


Em tempo: Marianne teve o privilégio de ser recebida por D.Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina no palácio de Petrópolis, numa das passagens que mais me cativaram de suas recordações do Brasil. Não faltaram elogios ao imperador:


“(...) um homem que vale algum esforço para se conhecer, mesmo que fosse o mais pobre dos cavalheiros plebeus; ele é antes de tudo um gentleman, cheio de informações, possuindo um conhecimento abrangente que cobre todos os tópicos. Sua vida está mais para a de um estudioso que para aquela a que os príncipes estão, em geral, condenados a ter.”  

Separei algumas passagens dos diários para que você possa conhecer um pouquinho mais sobre a Marianne North, e quem sabe animá-lo/a a ler essa preciosidade da literatura odepórica produzida por uma das grandes mulheres viajantes do passado. Boa leitura!

PERNAMBUCO

Em 28 de agosto de 1872, lançamos âncora, ainda de dia, ao largo de Pernambuco, de onde vi o longo arrecife com o seu farol e o quebra-mar se estendendo entre nós e o continente, e me perguntei como um número tão grande de navios, com seus mastros enormes, conseguia entrar naquele porto.


Visto através de minha luneta, os edifícios da cidade se pareciam muito com os de qualquer outro centro urbano, mas para além deles havia bosques intermináveis de coqueiros, demonstrando claramente em que parte do mundo estávamos.


(...) É, muitas vezes, completamente impossível desembarcar durante dias seguidos em Pernambuco, mesmo assim, a gente vê nesse mar tempestuoso, cheio de tubarões, os pescadores nativos flutuando sobre um tipo tosco de jangada, parecido com um engradado, com as pernas dentro d’água.

(..) Como era domingo, as lojas estavam fechadas com tanto rigor como se fosse em Glascow. Vi pouca coisa para comprar, apenas papagaios, laranjas e bananas; não havendo senhoras na rua, estavam todas na igreja, e como meu amigo Quaker disse que não tiraria por nada o chapéu nesses templos de idolatria, não tentamos entrar naqueles prédios de certo mau gosto.

BAHIA


Desembarcamos também na Bahia e, depois de subir pelo íngreme zigue-zague que leva até o topo do penhasco, fizemos um novo passeio pelo país, que é selvagem, montanhoso e coberto por florestas exuberantes. O mercado era muito divertido e cheio de figuras estranhas. Negras robustas usando blusas bordadas decotadas (soltas), saias espalhafatosas e mais nada, exceto por um lenço vistoso ou algumas flores na cabeça. Elas vendiam papagaios, araras e saguis barulhentos, além de passarinhos maravilhosos, macacos e outros animais exóticos...


(...) Os preguiçosos eram carregados pelas ruas íngremes sentados em cadeiras, um tipo esquisito de palanquim, que ficava pendurado por um vão vergado e era levado nos ombros de dois homens; se o passageiro não se mexesse, poderia chegar ao topo do morro ileso. Nós não experimentamos, mas ficamos exaustos de caminhar a pé à inglesa e não lamentamos subir novamente a bordo do Neva. 

RIO DE JANEIRO


Bastaram mais dois dias para que o vapor nos levasse a salvo para a bela baía do Rio de Janeiro, que é certamente a mais bonita paisagem marítima do mundo: até Nápoles e Palermo devem se contentar com um segundo lugar em termos de beleza natural. Não conheço nada mais difícil para uma pessoa tímida que desembarcar pela primeira vez entre um povo e uma língua estranhos, sempre tive horror a isso; de forma que pedi ao bondoso comerciante belga que me ajudasse; e ele entregou-me aos cuidados de um de seus irmãos, este não só me desembarcou em seu escaler, como me colocou numa carruagem que me levou para o Hotel des Étrangers em Botafogo, nos arrabaldes da cidade.


Logo me senti em casa no Rio, bastando poucos dias para que tivesse um aposento grande e arejado no alto do hotel, com quarto de vestir e janelas cuja vista, a cada mudança do tempo, era um verdadeiro prazer para o estudo; tanto o Pão de Açúcar como o Corcovado, além da parte da baía, também faziam parte da paisagem.

O prédio era imaculadamente limpo e confortável, considerando as pessoas que o mantinham assim: uma mestiça norte-americana servia de camareira e tudo fazia com diligência; já um preto (escravo) era ainda mais rápido, e dava a impressão de que “gostava” do trabalho.


A cidade do Rio de Janeiro tem uma ótima aparência no seu parentesco com Espanha ou a Sicília, as casas tão cheias de cor e os balcões tão variados, assim como os telhados que se projetam com suas calhas e beirais muito coloridos e cobertos de ornamentos. Os habitantes têm o mesmo prazer que naqueles países em mostrar tapeçarias vistosas e flores brilhantes nos seus balcões e janela, a isso se somam papagaios e macacos que gritam e pulam quando a gente passa na rua, felizmente bem fora de seu alcance.


(...) É claro que (de novo), como faziam todos os outros visitantes do Rio, caminhei até o cimo do Corcovado e olhei para as nuvens, vendo ocasionalmente as nesgas do mas azul e das montanhas por entre elas, além das esplêndidas amarílis amarelas e brancas agarradas aos recantos inacessíveis da rocha; o caminho todo foi um sem- fim de maravilhas e belezas.


Foi nessa expedição que me encontrei, pela primeira vez, com Mr. Gordon e sua filha, que me convidariam para ir visitá-los em Minas Gerais, para onde voltariam dali a aproximadamente três semanas. Eu gostei tanto da aparência deles, do modo como me convidaram, que me pareceu uma grande oportunidade ver um pouco do interior do país, de maneira que disse que passaria lá duas semanas, o que os fez rir, e com razão, pois fiquei oito meses!

MINAS GERAIS


Ouro Preto, a capital da província, está cheia de conventos e me disseram que um deles tinha sido construído com a lavagem das cabeças dos negros, uma vez que, quando paravam de trabalhar no fim do dia nas minas, suas cabeleiras encarapinhadas estavam polvilhadas de ouro em pó, depois se lhes mandavam mergulhá-las nas pias batismais das igrejas – uma maneira original de se pagar o dízimo!

(...) Fizemos uma viagem curta até a “Cidade” de Santa Lucia (Luzia), um vilarejo muito pitoresco situado no topo de uma colina, acompanhado por um longo trecho pelo enrolamento do rio das Velhas, que por sua vez lembrou-me do rio Tweed e, salvo por algumas palmeiras, não parecia nem um pouco tropical. As igrejas, com suas torres de metal em forma de pimenteira, e os telhados das casas de um andar, lembravam, por sua vez, a Hungria.


(...) O colégio do Caraça lembrou-me um pouco o Hospício do Grande S. Bernardo, sem a neve. Fomos encontrar o Padre Superior Julio nos esperando e, depois de apearmos no pátio, acompanhou-me até um prédio mais abaixo e apresentou-me a uma senhora idosa e robusta com um lenço de seda amarrado na cabeça, que mais tarde descobri ser a chefe das lavadeiras.

(...) Ao longe, com a Serra dos Órgãos nos espiando acima dos limites verdejantes dos vales, pensei mais uma vez que nada no mundo poderia ser mais encantador que essa estrada maravilhosa...

Leia: A viagem ao Brasil de Marianne North (1872-1873). Julio Bandeira. Ed. Sextante. Rio de Janeiro, 2012.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Brazil 9000

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Começo o ano indicando aos leitores/as do Odepórica um site muito legal: brazil900.com. Descobri sua existência ao ler um artigo sobre dois aventureiros norte-americanos, na revista Go Outside  de dezembro/2012.

Os dois malucos, Gareth Jones e Aaron Chervenak pretendem percorrer os 9000 km que separam o ponto mais ao norte do país, Monte Caburaí (não, não é mais o Oiapoque) na divisa com a Guiana, e o Chuí, ponto mais ao sul do Brasil. Nada de carro, nem moto, nem nada motorizado; o lance é queimar muita sola de sapato, pedalar bastante e remar canoa quando der. Uma aventura incrível, que começou no mês de setembro e terminará quando El de Arriba permitir.


A aventura é dividida em 3 grandes, enormes trajetos: o primeiro do Monte Caburaí a Belém (de canoa), 2.500km; o segundo vai de Belém ao Rio de Janeiro – a pé; e o terceiro trajeto vai do Rio ao Chuí, na fronteira com o Uruguai, 2000km pedalados em bicicleta. 


Nem vou escrever mais nada, está tudo lá no blog dos rapazes, fotos, vídeos e o diário atualizado dos perrengues da dupla, que não são poucos, como é possível prever nesse tipo de aventura. Boa viagem e Namastê!

Para ir direto ao site, clique no link abaixo.

brazil9000.com




segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Brasil no olhar dos viajantes - documentário TV Senado

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Repasso aqui o release de um programa que tem tudo a ver com a temática do Odepórica.




O BRASIL VISTO POR ELES

No dia 22 de dezembro, a TV Senado estreia o primeiro episódio da série Brasil no olhar dos viajantes, um documentário sobre os relatos das primeiras viagens feitas ao país e a influência que eles tiveram na construção da nossa imagem perante o mundo e entre os próprios brasileiros. No momento em que vários países voltam o olhar para o Brasil, seja por sua atuação no cenário econômico, seja pela preparação dos eventos grandiosos que estão por vir, Brasil no olhar dos viajantes retoma a questão da identidade nacional a partir dos relatos daqueles que primeiro tentaram decifrar este país.

O primeiro documentário percorre o período compreendido entre os séculos XVI e XVIII. Apesar da restrição imposta por Portugal para a vinda de outros navegantes europeus após o descobrimento, franceses e holandeses, em suas tentativas de colonização no território brasileiro, bem como os ingleses e alguns aventureiros, entre eles o alemão Hans Staden, deixaram registros de sua passagem por estas terras.

Pelos relatos de viagem, é possível entender a atmosfera criada pela descoberta do Novo Mundo. Navegadores, aventureiros, comerciantes e religiosos enfrentaram todo tipo de percalço e cruzaram o Atlântico em busca do “paraíso terrestre”. Lançaram-se mar adentro meses e meses rumo às terras ainda desconhecidas e se depararam com um mundo completamente diferente de tudo o que se sabia. Um cenário composto por uma paisagem exuberante e ameaçadora, “cheia de todo gênero de feras”, e por homens que viviam “como animais irracionais”, sem nenhum traço de civilidade, como eles próprios descreviam.

Brasil no olhar dos viajantes resgata esse contexto histórico e mostra como as narrativas de viagem produzidas lá fora influenciaram de modo significativo a formação da nossa identidade. O olhar estrangeiro sobre a forma de exploração desse imenso território e de suas riquezas naturais; o entendimento da relação entre exploradores e nativos; o olhar crítico sobre os costumes dos índios, dos colonos e sobre o comportamento lascivo das mulheres dos trópicos podem ser lidos em vários textos desses viajantes. Textos que circulavam pela Europa da época e acabaram tornando-se referências para nossos intelectuais séculos depois na construção da nacionalidade brasileira.

Com a participação de historiadores, sociólogos e pesquisadores, o documentário Brasil no Olhar dos Viajantes mostra os testemunhos de homens que viram um país ainda desconhecido, primitivo e exótico tecer as bases de sua sociedade e de sua história.


Brasil no olhar dos viajantes, 2012
Estreia: dia 22 de dezembro, às 21h30
Direção: João Carlos Fontoura
Duração (episódio): 60min
Reprises: sábado, 22 – 21h30 / domingo, 23 – 12h30 / segunda, 24 – 19h00
terça, 25 – 17h00 / sábado, 29 – 14h30/ domingo, 30 – 20h30/ segunda, 31 – 23h00


Sinopse: Documentário investiga os relatos dos estrangeiros que estiveram no Brasil entre os séculos XVI e XIX e mostra como eles contribuíram para consolidar a imagem do Brasil no exterior e entre os próprios brasileiros.

Assista às chamadas no Youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=MdmH0j9_sgU

https://www.youtube.com/watch?v=972Zw12pFRI

https://www.youtube.com/watch?v=abDPQIKrbic&list=UULgti7NuK0RuW9wty-fxPjQ&index=1




COMO SINTONIZAR A TV SENADO:

Canais: 07 NET, 118 SKY, 183 TVA, 903 Oi e 121 Via Embratel.
Em operação: Brasília Canal 51 UHF (Geradora da Rede) e 50.1 digital UHF; Gama (DF) Canal 36 UHF; São Paulo (SP) Canal 61.3 digital UHF; Salvador (BA) Canal 53 UHF; João Pessoa (PB) Canal 40 UHF; Recife (PE) Canal 55 UHF; Manaus (AM) Canal 57 UHF; Natal (RN) Canal 52 UHF; Macau (RN) TV Litorânea - canal 22- emissora de TV afiliada a TV Senado; Cuiabá (MT) Canal 55 UHF; Fortaleza (CE) Canal 43 UHF; Rio Branco (AC) Canal16 UHF; Rio de Janeiro (RJ) Canal 49 UHF (Zona Oeste).
Entrevistados da série

Jean Marcel Carvalho França
Professor de História do Brasil Colonial - Unesp

Sheila Moura Hue
Professora Visitante de Literatura da UERJ

Carmen Lícia Palazzo
Pesquisadora e Doutora em História pela UnB

Ronaldo Vainfas
Professor Titular de História Moderna da UFF

Evaldo Cabral de Melo
Historiador

Pedro Alvim
História da Arte

Paulo Knauss
Professor de História da UFF e Diretor-geral do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro

Carlos Martins
Museólogo e pesquisador da Pinacoteca - SP

Victor Leonardi
Escritor e historiador

Dirceu Franco
Historiador do Instituto Hercule Florence

Karen Macknow Lisboa
Professora de História do Brasil da USP

Lacê Medeiros
Professor e pesquisador de Biologia da UnB.

Maria Angélica Madeira
Professora do Instituto Rio Branco e pesquisadora da UnB.

Mariza Veloso
Socióloga e professora do Instituto Rio Branco e da UnB.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Vagamundagem psicodélica: a filosofia de estrada de Ed Buryn

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Duvido que você conheça essa figura: Ed Buryn. Eu o descobri por acaso, ao ler uma citação sua no blog do Rolf Pots. Clicando aqui e ali fui encontrando outras citações e não demorou muito já havia me tornado um admirador desse veterano vagamundo, hoje um senhor pacato de 70 e poucos anos que vive em Nevada City (Califórnia) e faz um trocado vendendo livros usados online e deitando cartas de tarô, de um baralho criado por ele mesmo, inspirado na obra de William Blake.

Fui atrás de literatura e consegui garimpar na Amazon um exemplar das viagens que o Ed Buryn fez pela Europa e pelo Norte da África (Vagabonding in Europe and North África); os livros do Ed estão fora de catálogo, de modo que não é uma tarefa muito fácil conseguir exemplares há muito esgotados. Com a sorte ao meu lado, comprei aqui mesmo num sebo virtual outra obra do Ed, Vagabonding in the USA, e agora posso dizer com muito orgulho que possuo suas duas principais publicações.

O Ed Buryn é famoso nesse meio underground de viajantes vagamundos outrora jovens nas décadas de 60 e 70. Foi quase um guru da moçada hippie daqueles anos psicodélicos - que achava que viver era cair na estrada - porque publicou guias que não eram apenas apanhados de dicas para viajantes mochileiros. Seus escritos traziam poucas informações sobre destinos específicos, sendo antes de tudo um guia de estilo de viagem; também fizeram a cabeça num sentido mais elevado: tinham um conteúdo espiritual cuja mensagem central era a de mostrar que a viagem, quando bem programada, podia servir como um meio de transformação interior. Fazem parte do vocabulário alternativo desses livros os termos que marcaram aquela geração power-flower: expansão da consciência, Energia Cósmica, busca espiritual, iluminação, vibração e outras delícias semânticas.



O estilo de viagem apregoado pelo Ed Buryn ainda me parece muito cativante e plausível, mesmo com todas as mudanças tecnológicas que tornaram os deslocamentos mais práticos e, convenhamos, menos aventureiros em relação ao passado (nem tão distante assim). Para o velho hippie, o bom vagamundo é aquele que viaja de maneira independente, priorizando o encontro com a gente local, economizando o mais que puder e planejando o mínimo possível seus deslocamentos, deixando que o acaso o guie como uma folha levada pelo vento.

Viajar com baixo orçamento é especialmente importante; o dinheiro compra luxo e conforto, distorcendo assim a realidade e isolando os viajantes dos agentes de transformação presentes nos deslocamentos: desafios inesperados, riscos, surpresas e desconfortos. Uma viagem significativa também requer o encontro, o contato entre as pessoas; Buryn encorajava seus leitores a relacionarem-se com estranhos, mas sem esquecer de visitar seus parentes, ex-namorados/as, e outras pessoas que pudessem ensinar algo mais sobre eles próprios. Quanto menos planejados esses encontros, tanto melhor. Liberdade era o lema; flexibilidade, essencial.



Nada disso me parece utopia, sinceramente. Lembrei-me de um caso insólito que aconteceu comigo há quase dez anos. Eu fazia um trabalho voluntário que era basicamente servir de hospitaleiro a peregrinos e viajantes que chegavam da França após a travessia dos Pirineus, fronteira natural com a Espanha. Todos os dias, para afastar o tédio da solidão, eu saía de Arrés, o povoado aragonês onde ficava o meu refúgio de montanha, e descia até um pueblo distante uns três ou quatro quilômetros, chamado Puente la Reina de Jaca.

A paisagem era linda e no outro pueblo havia um bar onde eu me sentava e bebia uma taça de vinho, às vezes duas. Depois saía para fumar um cigarrinho no ponto de ônibus da rua principal, que por acaso era a estrada que ligava um país a outro. Essa era minha diversão diária e eu era muito feliz a meu modo. Melancolicamente feliz.

Naquele dia, ouvindo pela milésima vez uma fita do Neil Young no meu walkman, sentado naquele banco de parada de ônibus em frente à ponte sobre o rio Aragon, avisto um peregrino pomposo, tiozinho de uns sessenta anos, descendo a trilha na direção oposta à minha. Roupa e botas de boa qualidade, cajado high-tech (que eu detestarei até a morte) e ósculos escuros. Devia ser francês, espanhol jamais. Magro, cabelos grisalhos com volume, tinha numa das mãos uma coisa esquisita que eu nunca havia visto. Achei que fosse um rádio, tipo walkie-talkie.

Atravessei a carretera e fui ter com o tiozinho, que parecia estar perdido. Só falava francês (bingo!) e você sabe, francês só fala a própria língua, mas consegui entender alguma coisa, e essa coisa era que ele estava indo para Arrés, onde pretendia pernoitar naquela noite.

Bom, eu estava em Arrés, como já disse, de modo que lhe expliquei que o acompanharia até lá. Mas que nada. O velhote, pomposo e esnobe, me disse que preferia seguir as indicações do seu aparelho, um tal de GPS (juro que eu nunca havia visto um). Fiz aquela cara de quem não está entendo nada e vendo que o fulano ia tomando a direção errada, me desesperei e tentei epileticamente mostrar que a direção para o pueblo era a que eu havia indicado.

Nem adiantou, e lá se foi o tiozinho pateteando estrada afora sabe-se lá para onde com seu aparelhinho burro. Apertei o play do meu walkman e o som da gaita do Neil me embalou na volta a casa, seguindo dessa vez a trilha pela montanha; cheguei ao refúgio uma hora depois, fiz meu almoço, sentei para escrever, fiquei olhando o sol se por no vale e quando começava a escurecer, bate na porta um francês, nada pomposo, suado e com cara de pastel que, sabe-se lá o motivo, deixou-se levar pela conversa de um tal de GPS... Fazer o quê?

Isso me marcou tanto que desde aquele episódio vejo com certo preconceito o uso da tecnologia em minhas andanças, a ponto de não conceber a ideia de um dia carregar um telefone celular comigo em uma viagem, por mais prático e útil que isso seja – e eu sei que é. Mas se não uso celular nem no meu dia a dia, quanto mais viajando.



Na primavera passada fiz um percurso de sete dias pela Galícia com minha irmã. No primeiro dia nos desencontramos (vacilo dela) e o acaso fez com que nos encontrássemos onde não havíamos combinado, já tarde da noite em um albergue. Nem preciso comentar a quantas estava meu humor.

Para ela, aparentemente estava tudo bem. Havia enviado um email do seu “aifone” dizendo para que não me preocupasse. Demorei para entender, como é que isso me ajudaria se eu estava no meio do nada e sem telefone ou acesso a internet, mas para ela, acredito, o que valeu foi a intenção. Coisas da modernidade.

Por isso eu entendo a postura do Ed Buryn e aprecio muito suas ideias, porque sem conhecê-lo já as botava em prática. Talvez tenhamos uma visão romântica sobre a experiência da viagem, mas sei que há muitos que ainda prezam essa maneira simples e mais desapegada de viajar.

Outra coisa interessante a respeito do Ed Buryn é que, apesar de viver numa época em que o uso das drogas era quase que uma experiência obrigatória entre malucos e malucas, ele não fazia apologia a elas (embora não fosse contra, muito pelo contrário); sua “viagem” se dava através de outras alternativas, no caso as deambulações. (Interessante aqui é notar a associação que existe entre o uso de uma droga alucinógena com o ato de viajar, mostrando, ou insinuando, que em ambos os casos existe um contato mais profundo com o Eu).


O Ed dizia que os seres humanos são capazes de filtrar os fluxos de energia e de informação disponibilizadas pelo universo, através de hábitos, rotinas e padrões sociais de percepção, mas que a sociedade moderna acabou por inibir o acesso a essa energia, algo como ter “os canais bloqueados”, numa linguagem puramente new age.

Daí que o jeitinho hippie de retomar esse acesso ao fluxo de energia cósmico, de provocar uma limpeza nas “portas da percepção” foi o de apelar para as drogas, naturais, sintéticas e outras tais. Só que o Ed Buryn tentou mostrar, empiricamente, que havia outros caminhos, entre eles a vagamundagem. Para ele, vagamundear tinha o mesmo efeito das drogas alucinógenas: ao expor o viajante às dificuldades, ao desconhecido, ao inesperado, ela rompia os padrões petrificados da percepção. Isso forçava as pessoas a se livrarem das raízes dos hábitos, libertando a Energia neles estagnada. Vagamundagem é uma forma de psicodelia natural, por ser capaz de expandir a consciência das pessoas e deixá-las chapadas. Beleza.




Não sejamos preconceituosos: tirando esse discurso hippie datado – e limpando algumas arestas – a filosofia do Ed Buryn traz conceitos simples e eficazes que colaboram para olhar as viagens sob uma ótica diferente, mesmo que aparentemente antiquada.

Você lerá abaixo pequenos trechos pinçados quase todos eles do livrão (é grande mesmo) Vagabonding in America. Uma pena que minha cópia, de 1973, esteja toda carcomida por traças ordinárias e cafonas que deixaram seu rastro sem piedade pelas páginas amareladas e soltas desse meu exemplar. As fotos dessa postagem foram todas tiradas do livro que tenho em mãos e por sorte foram poupadas do banquete traçal. Boa viagem e Namastê!


Viajar não é apenas deslocar-se de um canto a outro do planeta valendo-se de algum tipo de transporte. Não tem a ver com o local para onde você se dirige ou como faz para chegar até lá. Nem mesmo como fazer para cair fora de um lugar. De fato, é justamente o oposto disso... é um meio de chegar até ele. Viajar é uma metáfora da vida, um caminho para experienciá-la mais intensamente e de maneira mais consciente. Viajar não é tanto uma ação, senão um estado de iluminação da consciência, abrindo-o a novas experiências, a novos olhares para o mundo a para sua participação nele.

Rotinas e hábitos são o Conhecido, protegendo-nos do Desconhecido. Hábitos também são chamados de lar. Os hábitos domesticam a pureza selvagem da existência com os confortos civilizados da vida diária. Infelizmente, como sabemos, os hábitos domesticam gradualmente toda a impetuosidade e energia da vida. Muita energia se perde com a rotina e com os hábitos padronizados, mantendo-os vivos, enquanto sua vida se esvai. Desta forma, se você quiser descobrir novamente o lado selvagem da vida, você tem que deixar o “lar”; você tem que quebrar ou dissolver seus hábitos com o objetivo de libertar a energia bloqueada presa a eles.


O viajante luxuoso e seu primo pobre, o turista comum, estão constantemente atados à grana e a outros produtos de valor. São vítimas de uma alimentação inflacionada e pobre de nutrientes; são apresentados a entretenimentos caros e vulgares; zombam de si próprios; são conduzidos como um rebanho para atrações que os aborrecem. Isso não é viajar; isso é uma carnificina da alma. Isso é como o dinheiro, uma forma artificial de energia, distorce a realidade para seus próprios fins. Viajar de forma econômica, seja de que maneira for, enfraquece o poder do dinheiro, que ao fim e ao cabo só beneficia a Indústria do Turismo.

Aprenda a aceitar as mudanças e dê as boas vindas ao acaso.

As pessoas não querem mudar a não ser que sejam forçadas a isto. Temos sido condicionados a estruturar e controlar nossas vidas com o intuito de resistir às mudanças, até mesmo a bloqueá-las se possível, para segurança, criar regras, fazer planos, organizar, fazer cumprir, e por aí vai. O problema com isso tudo é isso já não funciona mais. Nós estamos desenergizados e confusos, com medo do mundo, incertos quanto a nós mesmos. Por que? Porque nosso senso de controle é uma completa ilusão; ele não se enquadra no mundo da forma como ele é, por ser uma versão barata e obsoleta que nós criamos para poder “controlá-lo”.

Vagamundear é uma técnica efetiva para acabar com essa ilusão e você sabe que isso funciona porque faz com que você se sinta bem. Você pode novamente tornar sua vida alegre e você consegue isso prestando atenção à mudança e ao acaso, que se manifestam em qualquer momento, com todas as pessoas e em todos os lugares. O vagamundo aceita mudanças e dá as boas vindas ao acaso, porque essas atitudes são os sinais de que a energia flui, são o centro da vida. Estar aberto à mudança e ao acaso – o espírito da vagamundagem – te eleva automática e infalivelmente e expande seus potenciais de modo que você possa topar com suas demandas encantadoras.

Muitos viajantes comuns tentam controlar tudo, com a intenção de proteger suas ilusões dos desagradáveis choques da realidade. O que eles conseguem com isso é perturbação e paranóia. Ao pré-planejar cada aspecto de suas viagens, seja nas férias ou na viagem de suas vidas, eles acham que conseguem lograr o inimaginável fluir do processo natural (também conhecido como Destino ou vontade de Deus). O que eles manipulam são imitações insignificantes da realidade, um mero fragmento de energia. Vagamundos têm um melhor conhecimento e reservam os detalhes de suas viagens com um agente chamado Acaso. Abrir mão do controle de sua vida te liberta da ilusão de querer controlá-la, e em troca essa liberdade te conecta com uma energia impressionante, com um potencial ilimitado.

Ao não saber para onde se vai, você presta mais atenção onde se encontra, seja lá onde for.


Seu tempo livre é o que mede a qualidade de sua vida. Ter como objetivo a busca de mais liberdade pessoal é tão válido quanto – e ultimamente mais prático ainda – atingir uma meta de riqueza financeira e de abundância material. Hoje, nossa sociedade fornece mais oportunidades do que nunca para sobreviver com estilo, para viver bem sem ter que se transformar num robô cultural. Viver à margem da sociedade é mais fácil e muito mais recompensador do que viver num meio pressurizado estatisticamente, onde se encontram todas as regras.

Mas tenha cuidado, pois um gostinho de liberdade quase que inevitavelmente leva a desejá-la ardentemente; ela te engancha, o que é maravilhoso. Muitas pessoas não entendem isso porque já se esqueceram de como era sentirem-se livres. Elas acham que isso é impossível, quando na verdade a liberdade está bem diante delas, bastando apenas desejá-la para se obtê-la. As pessoas temem a luta pela liberdade, mas nunca dão o crédito à sua recompensa.

Não há nenhuma experiência que valha, a não ser a sua própria. Abandone as muletas que o mantém atrelado à experiência alheia, deixe de ser guiado e conduzido por outro alguém. Você é seu próprio perito. As únicas viagens as quais sou perito são as minhas próprias, que podem ter pouco a ver com as suas. Eu não posso ser o seu perito, apenas o seu assessor, e eu te aconselho: transforme-se em seu próprio perito.

O dinheiro é a riqueza do materialista e opera milagres no domínio físico. O tempo é a riqueza do peregrino, e opera milagres em todos os domínios.


O desejo de viajar reflete uma atitude positiva. Você quer ver, quer crescer com a experiência, e presumivelmente deseja tornar-se mais completo como ser humano. Vagamundear leva isso a um passo além: promove a chance de sustentar e fortalecer essa atitude positiva. Enquanto vagamundo você começa a encarar seus medos de vez em quando, ao invés de evitá-los continuamente em nome da conveniência. Você constrói uma atitude que faz com que a vida seja mais recompensadora, o que em troca torna mais fácil o seu empenho. É um parecer positivo e que funciona. Vagamundagem é um modo de encarar esses medos e de começar esse processo de regeneração.

Tenha em mente que a vantagem especial de vagamundagem é a experiência de não saber o que acontecerá a seguir, o que você pode obter com tarifas baixas em todos os casos. Esse tipo de incerteza feliz mantém você no momento presente, a melhor postura para ver e aprender. Você não sabe quem irá encontrar, quais experiências terá se sair da rota, que coisas aprenderá que não se encontram nos guias turísticos... os desafios que você vai encarar não oferecem alternativa a não ser a de enfrentá-los. E ao fazer isso, sua vida estará sendo plenamente vivida.



Vagabonding in Europe and North Africa. Ed Buryn. Random House, 1a ed. 1971.
Esse livro é basicamente um guia prático de como se dar bem numa viagem mais longa, ou seja, não se dirige ao leitor turista mas ao vagamundo – daí o título. Algumas dicas hoje soam hilárias, por conta das grandes mudanças ocorridas nos últimos quarenta anos, e por isso mesmo valem como um testemunho histórico das viagens numa época marcada pelo movimento da contracultura.

Os capítulos aparecem nessa ordem: Introdução (definição de vagamundo); Pré-requisitos; Aonde ir; Quando ir; Como chegar; Com quem ir; Roupa e Bagagem; Sobre como descolar uma carona e suas técnicas; Caminhando e Pedalando; Trens e Ônibus; Rodando de carro ou motocicleta; Sobre Trailers; Encontrando um lugar para dormir; Vivendo um tempo no exterior (estudo, trabalho, comunidades alternativas..); Contato com as pessoas; Outros.

No final há um apêndice com a lista de cada um dos países visitados pelo Ed Buryn na Europa e no norte da África. Nada muito extenso e segue mais ou menos a linha do que se lê nos guias despojados da Lonely Planet. O que vale a pena nessa leitura, o que a torna diferente de tantas outras nessa linha, são os comentários do autor, seu humor (as fotos são um barato!) e sua visão particular do mundo.

Em Vagabonding in America, Ed Buryn caprichou muito mais na escrita, filosofou, contou contos e aumentou muitos pontos. É um documento de uma época, com farto repertório contracultural. Quase tudo o que você leu nessa postagem (com exceção de uma passagem) foi transcrito dessa obra, incluindo as fotos em sépia. Há tanta coisa boa nesse livro que daria para escrever mais umas três postagens no estilo desta. Mais para frente, quem sabe!


O Ed Buryn tem um blog, mas não o atualiza há tempos. Mesmo assim, vale a pena dar uma bisbilhotada. Em outro link encontrei um artigo dele que fala sobre uma técnica de meditação sentada para a Cura. Se você curte essa onda, clic aqui.