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quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dois jeitos de viajar, by Contardo Calligaris

.Adolfo Fava: Gondola nel canale. Venezia

Li hoje na Folha de São Paulo, no caderno Ilustrada, um texto do genial Contardo Calligaris que trata das distintas maneiras de se viver a experiência da viagem. É sempre um prazer abrir o jornal e dar de cara com textos bem escritos como esse, o do Contardo.

E se você gosta de Veneza, ou se sonha em um dia visitar a cidade, então a leitura lhe deixará ainda mais ansioso para realizar o desejo. Ou, se for o caso, de querer voltar. Certos lugares pedem um bis, certo? O legal dessa matéria é a relação de Contardo com os livros e a presença do lugar visitado. Toda viagem, seja lá longe ou aqui pertinho, ganha mais brilho quando se tem um foco definido, um objetivo especial a ser cumprido; explorar um lugar comparando as suas sensações com o olhar de um outro viajante, lendo in loco as experiências já quase esquecidas publicadas num passado distante (esquecidas para os outros, mas não para você) tem um sabor muito especial, algo como uma espécie de arqueologia sentimental.

Lembrei-me de um fato que há muito não me ocorria. Em minha primeira viagem a Ouro Preto, quando ainda curtia os dezessete anos, tive a sorte de fazer amizade com um grupo de estudantes de biblioteconomia da USP que havia decidido percorrer a cidade visitando todos os pontos turísticos presentes no pequeno e delicioso livro de Manuel Bandeira, “Guia de Ouro Preto”. Parávamos em frente a uma das inúmeras igrejinhas e fontes daquelas que encantam nosso olhar na bela cidade mineira e um do grupo lia a passagem no livro correspondente ao local. Pura nostalgia, uma lição e tanto para um adolescente se iniciando na arte de viajar.

Enfim, tudo isso só me faz refletir, uma vez mais, sobre as maravilhosas lições que podemos aprender quando nossos pés decidem trilhar as estradas desse mundão afora. Tem coisa melhor? Boa leitura e Namastê!


Renoir. Piazza San Marco

NO FIM da adolescência, eu não queria mais viajar com meu pai, pois gostávamos de viajar de jeitos diferentes. Eu entendia essa diferença pensando nos estilos opostos de George Byron e John Ruskin, dois grandes amantes de Veneza.Byron dedicou a Veneza o quarto canto de "Childe Harold's Pilgrimage" (a peregrinação do cadete Harold), cujos primeiros versos, "Parei em Veneza, sobre a Ponte dos Suspiros etc.", ainda são declamados por hordas de jovens românticos, quando olham para a dita ponte.

O curioso é que, em "Childe Harold", Veneza é apresentada como uma ruína solene e grandiosa. De fato, Byron não tinha interesse algum pela arquitetura e pelas artes. Ele gostava de acumular experiências e tolerava os monumentos apenas se eles fossem animados por uma boa história.

Lord Byron

Byron ficou em Veneza de 1816 a 1819, primeiro nas Frezzerie, no apartamento de um alfaiate de cuja mulher ele era o amante, logo, a partir de 1818, num palácio, onde acumulou bichos exóticos, carnavais e gonorreias. Mais próximo de sua real experiência veneziana, Byron escreveu "Beppo" (Nova Fronteira), que é um extraordinário e divertido poema narrativo.

Ruskin, 30 anos mais tarde, encontrou uma Veneza totalmente desertada pelos restos da festa do século 18. De qualquer forma, já por índole, Ruskin amava as pedras e as lia como livros, Byron amava a aventura e preferia ler os corpos.
John Ruskin
Todos nós, quando viajamos, somos um pouco Ruskin e um pouco Byron. Mas meu pai era mais Ruskin, e eu, mais Byron.Ora, acabo de voltar de Veneza e, no último dia, tive um encontro do qual Byron teria gostado (Ruskin também, só que menos).

Sou um leitor das aventuras de Corto Maltês, os quadrinhos de Hugo Pratt (em português, pela Pixel). No fim de "Favola di Venezia", Pratt, perdido num emaranhado de personagens e situações, declara que existem, em Veneza, "três lugares mágicos e escondidos: um está na calle do Amor dos Amigos; outro, perto da Ponte das Maravilhas; o terceiro, na calle dos Marranos, perto de San Geremia no Gueto".

Corto Maltese,Venezia

Quando os venezianos estão em apuros, eles procuram esses lugares secretos e, "abrindo as portas que estão no fundo dos pátios, vão-se embora para lugares lindíssimos e para outras histórias". Corto Maltês bate numa porta e diz: "Sou Corto Maltês, deixo esta história e peço para entrar numa outra, num outro lugar". Pronto, ele começa uma nova aventura.

Um propósito de minha estadia veneziana era de encontrar os três lugares. Deixando de lado a calle dos Marranos (que não consigo identificar), entrei em todos os pátios nos arredores da Ponte das Maravilhas e do Ramo do Amor dos Amigos. Mas como saber quais eram as portas mágicas?

O livro "La Guida di Corto Maltese alla Venezia Nascosta" (o guia de C. M. à Veneza escondida), de G. Fuga e L. Vianello (Rizzoli, existe também em inglês), é perfeito para passear por Veneza num estilo mais Byron que Ruskin. Mas a leitura não me ajudou a encontrar as portas.

Finalmente, na tarde de sábado passado, na livraria AcquaAlta, na Longa Santa Maria Formosa, conversei com um senhor de barba branca, que estava folheando uma aventura de Corto Maltês. Imaginei que ele pudesse ter sido um amigo de Pratt, dos anos 1970, companheiro das noites no restaurante Graspo de Uva.

O fato é que ele se lembrava da história dos três lugares de Veneza e, quando lhe perguntei se ele saberia indicar as famosas portas, ele me respondeu: "A mim me parece" (é assim que fala um veneziano) "que, se você as procura, é que você já as encontrou". E logo ele se foi.

Como interpretar essa frase a la Pascal? Entendi assim: se eu acreditava numa ficção a ponto de procurar os lugares que ela inventa, eu não precisava de mais nada para passar de uma história a outra. Pois o segredo é inventar.

Pensei que Ruskin teria gostado da ideia de procurar os lugares mencionados por Pratt, mas só Byron teria aberto as portas. Ele, aliás, não parava de abrir portas e fugir para novas histórias. Vai ver que, em Missolonghi, quando sumiu, aos 36 anos, combatendo pela independência da Grécia, ele não morreu, apenas abriu mais uma porta. E foi para outra.




O texto do Contardo Calligaris (fotografado bem à vontade no sofá da imagem aí acima) foi integralmente transcrito do blog do autor, sem tirar uma única vírgula. Sugiro aos leitores e às leitoras do Odepórica a darem uma navegada por ali. Há tanta coisa boa para se ler que você nem imagina. Para chegar lá rapidinho, clique aqui.

Encontrei um blog espetacular para quem ama Veneza. Em inglês, ótimos textos, belas imagens e longe do lugar-comum dos blogs de viagem. Interessa? Então clique bem aqui.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Que cheiro é esse? by Paul Lynch

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Num outro post eu escrevi sobre o papel da música na experiência da viagem, de como nossas andanças muitas vezes estão marcadas por uma ou várias trilhas sonoras.

Tão marcante quando o sentido da audição, o olfato também nos traz lembranças imediatas de um lugar, de uma pessoa, até mesmo de um período extenso de nossa vida; o perfume de uma dama da noite, plantada no jardim da casa onde você viveu seus primeiros anos de vida, sempre lhe trará a lembrança de sua infância, ou não? Apenas um exemplo de como somos afetados emocionalmente pelo olfato.

A seguir você lerá um artigo que traduzi de um site que sempre me lembro de acompanhar, já linkado aqui no Odepórica, o World Hum. Um texto leve, curto e simpático que irá lhe agradar.

Que cheiro é esse?


Uma jornada de mil milhas começa com uma simples fungada.
Não é exatamente a famosa citação de Lao Tzu, mas chega bem perto. Dito assim, será que as cidades e os países possuem um odor único?

Uma viagem deve expandir a mente, mas com mais freqüência ela dilata as narinas, dependendo do destino. Você não tem que ter um nariz tão proeminente como o de Cyrano de Bergerac para capturar no ar o cheiro vindo da fábrica de cervejas Guinness em Dublin e também não necessita de um GPS para lhe indicar a direção de Faridabad, a vasta cidade industrial ao norte de Nova Delhi. O fedor vai lhe dizer quando você chegar lá.

De qualquer modo, num teste de olhos vendados, você seria capaz de farejar a diferença entre Marrakesh e Hong Kong? Se você já visitou essas cidades, há grandes chances de que você consiga se lembrar instantaneamente dos aromas. Marrakesh com sua fumaça de lenha, especiarias e resinas aromáticas misturados com o cheiro dos curtidores da Medina – uma mistura pungente que te acompanha muito tempo após a sua partida – e a fragrância saturada de peixe seco dos pratos de macarrão cozido das ruas de Hong Kong.

A cidade do Cairo reivindica o indesejado título de cidade com os mais altos níveis de aroma de hidrocarbono - um termo cientificamente poético de dizer que o ar fede e é poluído, mas você sabe onde você está.

Os odores provêm das moléculas dos objetos; tudo, desde o cheiro forte de um tipo de queijo até o fedor de um gambá morto numa estrada no calor de quarenta graus de uma cidade do interior. Todos esses cheiros colaboram na criação do aroma específico de uma região.

Algumas cidades têm orgulho de sua reputação pungente. Rotorua, na Nova Zelândia, por exemplo, se auto-proclama como a cidade mais insalubre do planeta – os vapores de origem vulcânica sulfúrica são capazes de sufocar um cavalo a cem metros do local. Não há como se enganar que você se encontra ali: basta dar uma olhada na figura do cavalo ofegante no balcão da Air New Zealand.

Felizmente, nem todos os aromas te levam a buscar uma máscara de gás. A suave brisa de verão no final da tarde carrega o cheiro das prímulas do jardim das Tulherias em Paris, ou num passeio à noitinha nos jardins de Tivoli, em Copenhaguem.

Todos nós temos fotografias e vídeos que nos lembram dos lugares visitados, mas o que dizer de um souvenir aromático? Talvez algum dia um sistema de remoção de cheiros irá permitir que os viajantes tenham a chance de provar previamente uma amostra do cheiro da cidade a ser visitada. Algumas virão com uma advertência: “Tenha cuidado ao abrir o lacre da cidade de Vientiane, no Laos, o lar de origem do Cha-om, o vegetal mais fedorento do mundo”.

Seja lá o que aconteça, lembre-se de respirar profundamente quando você for viajar, e deixe as moléculas dizerem onde você se encontra.


by Paul Lynch