Mostrando postagens com marcador viagens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador viagens. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de fevereiro de 2019

As viagens na Idade Média, parte I


.

Quem viajava, na Idade Média? Foi para responder a essa questão que a historiadora italiana Elena Percivaldi escreveu o capítulo Viajando, de seu ensaio A Vida Secreta da Idade Média, editada em 2013 e publicada no ano passado aqui no Brasil, leitura que recomendo muito àqueles que, como eu, têm paixão pelo medievo.
  
O trabalho de Elena Percivaldi foi o de mostrar que, mesmo tendo vivido muitos séculos antes de nós, em um mundo em que nada se compara ao nosso, esses homens e mulheres da Idade Média guardam muitas semelhanças conosco.

De maneira didática, os capítulos vão tratar de temas comuns ao nosso próprio cotidiano, o que faz com que nos sintamos mais próximos àqueles antepassados: o papel da mulher, da criança e do ancião; o quarto de dormir; na cozinha e à mesa; os artistas e intelectuais; medos, terrores e tabus; a medicina; a morte; festas e folclores; a Igreja; os excluídos.

E, claro, há um capítulo dedicado à experiência da viagem na Idade Média. Por se tratar de um capítulo longo, irei postar aqui no Odepórica o texto completo em quatro partes. Leitura que vale a pena.
Viajando



Para nós, hoje, é inconcebível começar uma viagem sem ter em mãos, no mínimo, um mapa detalhado dos lugares que queremos visitar e sem saber com bastante precisão qual a distância que percorreremos e o que nos espera – que conforto teremos e quais serviços existem no local.

Os mais tecnológicos terão consigo um navegador via satélite de última geração, e os mais tradicionais um guia de viagem, mas ninguém mais se move no escuro. Na Idade Média não era bem assim.


Não havia o Guia 4 Rodas à disposição, nem indicação alguma sobre as distâncias, nem sequer uma bússola (foi introduzida, e lentamente, apenas a partir do séc. XII) para orientar-se em um espaço muitas vezes hostil e desconhecido. A medida de um itinerário, mais do que pela distância (em milhas, ou em mil passos duplos: um dado nem um pouco objetivo!) se dava pelos dias de caminhada necessários para percorrê-lo. E as estradas? Eram um percurso com obstáculos.

A Terra ao centro



Fiéis ao pensamento dos antigos, os sábios medievais tinham por certo que a Terra estava no centro do universo e que o Sol, a Lua e os vários planetas (eram conhecidos apenas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno: a épocas dos telescópios ainda não havia chegado) girassem em torno dela.

Essa concepção, fixada na Grécia por Aristóteles e por Ptolomeu, foi reelaborada em chave cristã no século XIII por Tomás de Aquino, que atribuiu a esse esquema um valor teológico fundamental. Segundo o frade dominicano, a Terra esférica se encontra no centro de um sistema de dez círculos (chamados também de céus) em perene movimento.



Cada céu é sede de um planeta, menos o mais externo, o Primum Mobile, que gira mais velozmente na medida em que está em contato próximo com Deus e transmite assim o movimento a todos os outros por meio de fileiras de anjos dispostos em ordem de hierárquica em cada céu individualmente.

Terra e Empireu são imóveis, mas por motivos opostos: a primeira, de fato, é imperfeita e dominada pelo mal, enquanto o segundo, puro e perfeito, é a sede de Deus. Dante se serviu desse complexo sistema de pensamento para elaborar sua Divina Commedia, o além e seu “paraíso”, a que acrescentou, em harmonia com a tradição, um inferno posto sob a terra e um purgatório disposto em oposição a Jerusalém: imaginando-o como uma ilha em forma de montanha, o poeta florentino foi dos primeiros a dar um vulto físico a um lugar que, na realidade, tinha sido introduzido havia pouco tempo na elaboração doutrinal da Igreja.



Um universo finito, portanto, tão distante do nosso a ponto de não parecer nem mesmo se tratar do mesmo. E tão granítico que passaram séculos – até as teorias heliocêntricas de Nicolau Copérnico (1473-1543) e as lentes de Galileu – antes que fosse questionado.
E a Terra, contrariamente ao que se pensa, era imaginada redonda segundo uma tradição intelectual científica que remontava aos antigos gregos. Eratóstenes (conservado graças às citações contidas na Naturalis Historia de Plínio o Velho), Estrabão e Ptolomeu (conhecidos graças a Sêneca) tinham calculado a curvatura do meridiano terrestre e suas teorias tinham sido retomadas pelos Padres da Igreja e, na primeira Idade Média, por dois grandes eruditos provenientes da Europa insular: o inglês Beda o Venerável, e o irlandês Virgílio, bispo de Salzburg.



Para esse último, a questão a ser debatida era, sobretudo, aquela que se relaciona com os “antípodas”, ou seja, os habitantes do outro hemisfério: Eles existem? Quem são? Provêm do nosso hemisfério e se transferiram para lá em uma época antiquíssima ou nasceram diretamente naquele lugar?

No primeiro caso, como podem ter passado através do equador sobrevivendo aos incandescentes raios solares? No segundo: Qual o destino deles se não conheceram a Revelação e, portanto, a salvação? São questões teológicas, certo. E levantam também mais de que uma suspeita de heresia. Mas que, em todo caso, sobre um ponto não deixam margem a dúvidas: habitado na região dos antípodas ou não, o mundo é esférico.



E os mapae mundi planos que aparecem nos códigos dos comentários de Macróbio e das obras de Isidoro de Sevilha? São, como hoje, simplesmente tentativas de “planisférios” que mostram em duas dimensões aquilo que, na verdade, possui três.

O centro do mundo terreno, na percepção comum, era Jerusalém, a “cidade santa” por excelência. Uma miniatura do século XIII conservada na biblioteca universitária de Upsala a representa como um círculo perfeito dividido em duas por uma cruz, cujos braços indicam as estradas principais. Uma representação fortemente simbólica, portanto, e de forte valor escatológico. Todo o mundo conhecido, de resto, era representado de maneira simbólica.



Começando pelo número dos continentes: três, número perfeito, correspondente à Europa, Ásia e África. No mapa eram desenhados ou como três círculos concêntricos divididos por uma nesga de água ou como uma língua de terra repartida em três por um T (novamente a cruz). E os confins? Eram bastante lábeis.

Ao Ocidente, o mapa-mundi terminava com as “Colunas de Hércules” que, situadas pouco além do Estreito de Gibraltar, delimitavam as terras e os mares conhecidos, e com elas as ambições cognoscitivas humanas. Ao Sul, o mundo terminava com os imensos desertos da África Setentrional, ao passo que ao Norte alguns relatos muito difundidos (como a Navigatio Sancti Brendani) deixavam entrever, além da névoa dos mares setentrionais, misteriosa terras onde o sol nunca se punha e, no meio do mare concretum (a calota polar?), a mítica Ilha de Thule. Mas o que causava mais fascinação mesmo era, sem dúvida, o Oriente.

A estrada e seus perigos



Antes de seguir as pegadas de algum viajante medieval, convém considerar brevemente as condições das estradas. Caídas em desuso as velhas artérias romanas e destruídas as pontes e outras infraestruturas construídas em época medieval, restavam, muitas vezes, apenas alguns caminhos malconservados e sem pavimentação que, com a chuva ou na primeira nevasca, transformavam-se em rios de lama, quando não em verdadeiros pântanos. Embora não fosse assim em toda parte.

Mas se é verdade que depois da queda do Império Romano no Ocidente, as guerras e as invasões barbáricas, as condições das estradas sofreram uma rápida decadência, é igualmente verdade que o tráfego não se interrompia absolutamente.



A partir do ano mil, com o aumento do povoamento decorrente da expansão demográfica, ao lado dos antigos traçados (ou pouco distante deles) foram construídas outras vias para conectar entre si os diversos vilarejos e permitir um transporte mais ágil das mercadorias e dos alimentos rumo aos mercados centrais.

Ao longo da estrada os perigos eram muitos. Além do risco decorrente das más condições dos percursos, não era raro encontrar brigantes e ser assaltado, ou até mesmo assassinado. Por isso se tentava, quando possível, manter-se nas estradas conhecidas e mais frequentadas, e evitar os caminhos marginais e principalmente os bosques, passíveis de encontros indesejáveis com animais ferozes.



Forçoso era, assim que o sol se pusesse, encontrar um refúgio: a casa de um camponês, uma pousada, na hospedaria de um mosteiro, ou, no pior dos casos, embaixo de uma árvore. O importante era não passar a noite ao relento. As condições higiênicas e climáticas, certamente, não eram as melhores. E o risco de contrair doenças estava sempre à espreita.

O tempo demandado pelo deslocamento, além disso, era realmente longo. Pôr-se em viagem significava, muitas vezes, deixar sua própria terra para nunca mais voltar: razão por que, antes de partir, era comum fazer um testamento. De fato, foi exatamente o temor pelos pericula in eundo et redeundo (perigos no ir e regressar) que impeliu, por exemplo, o trevisano Bartolomeu de Pizolo da Montebelluna a ditar, em 28 de fevereiro de 1350, o testamento antes de iniciar sua viagem a Roma: entre suas últimas vontades, predispunha uma soma para acolhimento dos mendigos, órfãos e viúvas.



Mais rápidos, mas não menos arriscados, eram os deslocamentos por via aquática, principalmente pelos rios. Relativamente fáceis para percorrer e velozes nos períodos de cheias, as vias fluviais eram utilizadas também durante a estação seca: as embarcações, então, eram tracionadas graças a um complexo sistema de cordas, por cavalos e bois que procediam lentamente pela margem.

E a canseira era tanta que às vezes os próprios marinheiros tinham de ajudar os animais. Apesar de tudo, barcos e barcaças cruzavam regularmente, por exemplo, as águas do Pó e de seus afluentes que, ligados a partir do século XI às outras vias hídricas da Planície Padana por um sistema de canais cada vez mais complexo, se impuseram na Idade Média como uma das principais e mais utilizadas vias de comunicação (juntamente com o Brennero), de todo o continente, unindo o Norte e o Centro da Europa com o Mediterrâneo.



Além disso, o mar. O Atlântico era sulcado em todos os sentidos pelos drakkar dos viquingues, que colonizavam as ilhas do extremo norte da Europa e chegavam até os umbrais do Novo Mundo, e antes ainda pelos currach (barcas de pele) dos monges irlandeses, que se deixavam levar pelas ondas e eram arrastados pelos ventos e pelas correntes aos lugares mais intransitáveis e inóspitos, onde fundavam novos mosteiros.

O Mediterrâneo, por outro lado, desde a Antiguidade utilizado para o tráfego comercial, voltou a ocupar uma posição central com o progressivo crescimento das repúblicas marítimas e durante as cruzadas.   A viagem de navio, de todo modo, não tinha nenhuma segurança, pois que ao risco (realmente alto) de naufragar somava-se a possibilidade (também essa não rara) de um encontro nada agradável com os piratas ou com os sarracenos.



Apesar dos perigos, em todo caso, para ir à Terra Santa convinha zarpar de Veneza: no verão, para chegar à meta bastavam cerca de vinte dias de navegação, pouco mais do que o dobro disso no inverno. Sempre era melhor do que atravessar as incertas estradas da Europa do Leste onde, além de ter de percorrer uma enorme distância, se corria o risco de encontrar os ferocíssimos salteadores eslavos.

Quem viajava, na Idade Média? Não apenas os mercadores. Antes de tudo príncipes, soberanos e imperadores, que passavam grande parte do tempo a deslocar-se entre as terras de seu domínio. Carlos Magno, por exemplo, embora tivesse escolhido Aachen como capital, não possuía uma corte permanente de uma região para outra de seu vastíssimo império, que media mais de um milhão de quilômetros quadrados.



Depois, pontífices e eclesiásticos que se deslocavam para participar de concílios e sínodos por toda a Europa. Para esses, naturalmente, a viagem era menos incômoda, graças ao uso de cavalos e carroças (na verdade, não era exatamente cômoda, e sujeita a contínuas sacudidas, avarias e tombamentos) e mais velozes para as repentinas trocas de cavalgadura.

A maior parte dos demais viajantes, fossem mercadores ou simples peregrinos, precedia a pé ou no máximo no dorso de uma mula e muito mais raramente a cavalo, até porque a utilização de animais obrigava a prover também o sustento deles e aumentava imensamente o já alto custo da viagem.



Entre os incômodos mais sentidos, enfim, estavam os inúmeros controles a que os viajantes eram continuamente submetidos nos “postos de parada” ao longo das estradas, nos estreitos e na entrada das cidades: e se não era nada agradável, nas aduanas, ter as bagagens revistadas pelos guardas, igualmente odioso era ter de pagar os pedágios cada vez que se cruzava uma ponte ou se entrava pelas portas de uma cidade.




Deviam ser muitos também que viam uma taverna isolada como um refúgio quente e confortante: foi o sentimento que teve, em 1483, o dominicano alemão Felix Faber quando, vencidos os Alpes para dirigir-se à Terra Santa, depois de ter atravessado florestas, corrido o risco de cair em profundas grotas nas montanhas e tropeçado nas raízes dos caminhos, deu de cara com uma pequena e solitária hospedagem entre Cortina e Dobbiaco: Finalmente a salvo bem no meio de uma vale arenoso e estéril onde, como ele nos informa, “muitos morriam de noite pelo frio e pela fome”.
Fonte: A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes, 2018.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Viagens, by Luiz Carlos Lisboa

.

Luiz Carlos Lisboa é um dos meus escritores mais estimados. Suas palavras chegam sempre no momento em que precisamos de um norte, de alguém que nos guie na jornada quando a trilha se apresenta um pouco mais estreita. Vejo Lisboa como um mestre-artesão, que com seu ofício de escritor lapida palavras e as transforma em pensamentos inspirados, ideias que parecem surgir em momentos de profunda meditação.

Sua escrita fragmentária resulta em textos simples e bem elaborados, como em sua obra Nova Era, já resenhada aqui no blog, O Aprendiz da Madrugada e O Som do Silêncio, às vezes classificados como livros de poemas, embora eu os considere mais próximos dos aforismos, porque Lisboa é daqueles escritores que possuem a capacidade de condensar conceitos amplos e profundos em poucas palavras.

Como ensaísta, também se mostra um sábio: veja que belo seu texto intitulado Viagens, que retiro de seu livro de ensaios A Arte de Desaprender, talvez um dos escritos mais profundos que já tenha lido sobre a experiência da viagem.

Viagens

“Quanto mais longe viajamos, menos conhecemos”, dizia Lao-Tsé. A ideia muito divulgada de que é preciso ir longe para alcançar a essência das coisas, ou o transcendental, nasceu do conceito segundo o qual somente através do esforço conseguimos qualquer coisa. Tudo tem seu valor, tudo tem seu preço. Imagina o homem que passa a vida inteira lutando para sobreviver.

A conquista da fortuna pode ser assim – embora nem sempre seja-, mas a conquista do conhecimento e da sabedoria, segundo Santo Agostinho, Nicolau de Cusa, Eckhart. Willian Law, Fénelon, Ansari de Herat, Pascal, Benet de Canfield e o Bhagavad Gita, a conquista da sabedoria não passa absolutamente pelo esforço, pela rigidez, pelo empreendimento duradouro ou pela busca incansável.

Esse é dos capítulos fascinantes da história das religiões, e parte importante do estudo sobre o comportamento humano. Ekhart repetia com método e tranquilidade: “Afirmo e sempre afirmarei que já possuo tudo que me foi concedido na eternidade, pois Deus, na plenitude de sua divindade, mora eternamente em sua imagem, a alma”.


Esse tipo de mensagem afirma, através dos séculos, que o homem não precisa sair de onde está para realizar-se integralmente. Isso não sugere a morte em vida, obviamente, nem qualquer forma do imobilismo tão odiado pelos hiperativos que controlam – ou julgam controlar - a sociedade humana, suas maravilhas e seus horrores. No “não ir à parte alguma” está contido, apenas, o “ficar para não fugir todo tempo”.

A razão pela qual “quanto mais longe viajamos, menos conhecemos” está embutida no fato de empreendermos viagens inúteis simplesmente para não ficar onde estamos. Isso não se refere às viagens reais, mas ao ir e vir de cada dia, dentro de casa ou no serviço, a pretexto de mil puerilidades que executamos com imensa gravidade.

Por que ir lá aprender alguma coisa, se recusamos todo aprendizado aqui e agora, na modéstia deste minuto e desta circunstância? Empreender uma caminhada equivale a adiar o que deve ser feito imediatamente – melhor dizendo, o que só pode ser feito imediatamente, não depois, pouco adiante ou mais tarde.



Caminhar, viajar, proporcionam prazer e são em si inofensivos. O problema está naquilo que fazemos com esse pretexto, ou naquilo que deixamos de fazer porque estamos mudando simplesmente de lugar.

É ainda Mestre Eckhart quem aconselha: "Levante-se, alma nobre. Calce seus leves sapatos, que são a intuição e o amor, e salte por cima da idolatria de si mesmo, salte sobre todos os seus esforços, diretamente no coração de Deus, naquele coração onde estará oculta de todos".

A tradição renana usa constantemente esse simbolismo do movimento para indicar precisamente aquilo que se obtém com "um movimento do coração”. Essas referências hoje são mais difíceis de compreender que nunca, porque é o século de ação e de movimento – em círculos. Tudo o que sugere ficar, aborrece e entedia. Talvez fosse mais exato dizer: desperta um indefinido temor toda forma de permanência.



A palavra de ordem não é inovar? A onda cultural e sua força inconcebível arrasta toda dúvida e sepulta qualquer meditação mais demorada. A época é de certezas, de decisões rápidas, de conceitos formados, de ideias prontas. O que já não vem embalado e rotulado levanta suspeitas, semeia antipatias.

Viajar para aprender é um antigo mito. O prazer inofensivo de percorrer terras não mereceria comentários se não se tornasse um biombo, em alguns casos, atrás do qual nos escondemos. "Descansamos" do que somos, sem conhecer o que somos.

Deixamos tudo para trás, compromissos, conceitos, coerência. Não há lugar para culpa, em tudo isso. É bastante ver o que fazemos, quando fazemos e como fazemos. Esse é um aprendizado insubstituível, que não pode ser encontrado nos livros, nos museus ou nas conferências.



Não aprendemos em algum outro lugar, aprendemos neste lugar aqui, onde estamos no instante em que nos surpreendemos pensando nisso. Há uma frase de Caussade que resume tudo: "Faça o que está fazendo agora, sofra o que está sofrendo agora. Faça tudo com simplicidade, nada precisa ser mudado, a não ser seu coração".

Acrescentar qualquer outra coisa a isso equivale a mudar o que não precisa ser mudado, deixando de conhecer (mudar) precisamente o coração. Para não mudar interiormente, mudamos de lugar no espaço. A inquietação do habitante do século XX é proverbial.

As mãos, os olhos, os pés, viajam todo o tempo, e a atenção está permanentemente dividida. Mudar interiormente não exigiria movimento, a não ser o da percepção, um fluir muito peculiar.



Permanecer, como diz Caussade, para compreender. O que parece complexo é extremamente simples, embora não seja comum. O que parece obscuro é absurdamente claro, embora não seja familiar. O que parece fácil de ser rotulado não pode receber uma designação satisfatória.

A imobilidade atenta (não confundir com imobilismo) é um estado de alerta do qual não está excluída a tranquilidade. O espírito é ágil e não conhece nenhuma forma de esforço ou cansaço. Não há evasão, não há impulsos subterrâneos agindo ocultamente. Apenas a permanência naquilo que fazemos, única forma de conhecer aquele que pretende ser o conhecedor do mundo.

E nisso tudo não há nada de milagroso, de espetacular, de místico ou de sobrenatural. Para citar pela última vez, uma frase de Ansari de Herat: "Andar sobre a água? Uma palha faz melhor. Voar até as nuvens? Um pássaro faz melhor. Conquiste seu coração, e você fará alguma coisa que somente você faz bem".

Leia: A Arte de Desaprender. Luiz Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1981.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Conselhos a uma viajante dolorida

.

Li hoje no Caderno Viagem do jornal O Estado de São Paulo, um texto muito interessante na coluna do Mr. Miles, conhecido como o homem mais viajado do mundo. Gosto do estilo bem humorado do Mr. Miles, incluindo as cafonices das expressões em inglês que pontuam seus textos em todos os parágrafos, como você logo irá conferir.

O que me levou a querer postar essa matéria foi a maneira como o autor do texto abordou um fato muitas vezes corriqueiro entre os viajantes, que é a vontade que se tem, muitas vezes, de viajar para fugir ou esquecer de algo ou de alguém. Quem nunca teve o desejo, pelo menos uma vez na vida, de largar tudo e sumir do mapa?

A deixa para tratar desse tema foi uma carta que Mr Miles recebeu de uma leitora, aparentemente desiludida e disposta a reencontrar a felicidade perdida em um novo lugar. Ela pede sugestões de lugares ao homem mais viajado do mundo. A resposta você lerá a seguir. Namastê!



CONSELHOS A UMA VIAJANTE DOLORIDA





Querido mr. Miles: vou poupá-lo dos detalhes, mas tenho pouco mais de 30 anos, acabo de sair de uma relação longa, mas sem projetos, e estou disposta a começar a vida em algum outro lugar do mundo. Adoro viajar, mas não gosto de locais quentes e tenho medo ficar deprimida em invernos longos demais. O senhor tem alguma sugestão de lugar onde eu pudesse voltar a buscar a felicidade?
Jana Gomes Meirelles, por e-mail



"Well, my dear Jana: sou melhor como contador de histórias de viagem do que, I presume, como consultor sentimental. Mas sei, porque aprendi com o grande psicanalista e velejador Nelson Dienstag, que o caminho que você pretende trilhar raramente conduz a algum lugar específico ou a uma solução para suas angústias.


.
Você pode até esquecer as malas em casa e viajar apenas com a roupa do corpo, para evitar carregar consigo qualquer lembrança física da pessoa de cujas memórias quer (quer mesmo?) escapar. Você pode, of course, escolher mudar-se para o outro lado do mundo, onde sempre haverá uma cidade bonita na latitude que condiz com suas aspirações climáticas.

Mas há um item que embarcará na sua companhia, clandestino e indesejado. Ele estará, quiçá, em sua nécessaire, no bolso de seu jeans ou no forro de sua jaqueta, como um intruso indesejado. Você o verá nos lagos aos pés do Himalaia, nas muitas igrejas da Morávia, nos aromas da Provença ou nos girassóis da Andaluzia.




Trata-se da dor que a levou a viajar. I"m very sorry, my dear, mas ainda que sair mundo afora seja uma experiência enriquecedora, as grandes decepções sempre viajam conosco. Yes, darling, todas as coisas ganham a dimensão adequada quando estamos longe de nossas referências mais próximas. Eis por que os problemas comezinhos do dia a dia, pequenas cizânias de trabalho e frustrações do cotidiano desaparecem num passe de mágica quando saímos de férias para recuperar energias.




However, das dores da alma não se pode simplesmente escapar pelo finger de um aeroporto. Otherwise, a indústria química não ganharia rios de dinheiro criando pílulas que prometem a felicidade e, unfortunately, raramente a entregam.

Se eu fosse você, dear Jana, não carregaria a sua dor para, sobre ela, construir uma nova vida. Acho, até, que você pode levá-la para passear, para testar se a beleza de novas descobertas não a torna menos desagradável, ainda que seja assim apenas por alguns momentos.




Melhor ainda seria se você viajasse com uma pessoa amiga, para trocar impressões, fotos e sorrisos eventuais. O luto por alguém que deixou a sua vida (oh, my God, estou me tornando piegas!), tem o mesmo comportamento de um viajante. Deixa marcas, evoca lembranças. Mas é sempre passageiro.
Do you know what I mean?"










Imagens bonitas, não? Encontrei-as no portal do Photobucket.