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Quem viajava, na Idade Média? Foi para responder a essa
questão que a historiadora italiana Elena Percivaldi escreveu o capítulo Viajando, de seu ensaio A Vida Secreta da Idade Média, editada
em 2013 e publicada no ano passado aqui no Brasil, leitura que recomendo muito
àqueles que, como eu, têm paixão pelo medievo.
O trabalho de Elena Percivaldi foi o de mostrar que, mesmo
tendo vivido muitos séculos antes de nós, em um mundo em que nada se compara ao
nosso, esses homens e mulheres da Idade Média guardam muitas semelhanças conosco.
De maneira didática, os capítulos vão tratar de temas
comuns ao nosso próprio cotidiano, o que faz com que nos sintamos mais próximos
àqueles antepassados: o papel da mulher, da criança e do ancião; o quarto de dormir;
na cozinha e à mesa; os artistas e intelectuais; medos, terrores e tabus; a
medicina; a morte; festas e folclores; a Igreja; os excluídos.
E, claro, há um capítulo dedicado à experiência da viagem
na Idade Média. Por se tratar de um capítulo longo, irei postar aqui no Odepórica o texto completo em quatro
partes. Leitura que vale a pena.
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Viajando
Para nós, hoje, é inconcebível começar uma viagem sem ter
em mãos, no mínimo, um mapa detalhado dos lugares que queremos visitar e sem
saber com bastante precisão qual a distância que percorreremos e o que nos
espera – que conforto teremos e quais serviços existem no local.
Os mais tecnológicos terão consigo um navegador via
satélite de última geração, e os mais tradicionais um guia de viagem, mas
ninguém mais se move no escuro. Na Idade Média não era bem assim.
Não havia o Guia 4 Rodas à disposição, nem indicação
alguma sobre as distâncias, nem sequer uma bússola (foi introduzida, e
lentamente, apenas a partir do séc. XII) para orientar-se em um espaço muitas
vezes hostil e desconhecido. A medida de um itinerário, mais do que pela
distância (em milhas, ou em mil passos duplos: um dado nem um pouco objetivo!)
se dava pelos dias de caminhada necessários para percorrê-lo. E as estradas?
Eram um percurso com obstáculos.
A Terra ao centro
Fiéis ao pensamento dos antigos, os sábios medievais
tinham por certo que a Terra estava no centro do universo e que o Sol, a Lua e
os vários planetas (eram conhecidos apenas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e
Saturno: a épocas dos telescópios ainda não havia chegado) girassem em torno
dela.
Essa concepção, fixada na Grécia por Aristóteles e por
Ptolomeu, foi reelaborada em chave cristã no século XIII por Tomás de Aquino,
que atribuiu a esse esquema um valor teológico fundamental. Segundo o frade
dominicano, a Terra esférica se encontra no centro de um sistema de dez
círculos (chamados também de céus) em perene movimento.
Cada céu é sede de um planeta, menos o mais externo, o Primum Mobile, que gira mais velozmente
na medida em que está em contato próximo com Deus e transmite assim o movimento
a todos os outros por meio de fileiras de anjos dispostos em ordem de
hierárquica em cada céu individualmente.
Terra e Empireu são imóveis, mas por motivos opostos: a
primeira, de fato, é imperfeita e dominada pelo mal, enquanto o segundo, puro e
perfeito, é a sede de Deus. Dante se serviu desse complexo sistema de
pensamento para elaborar sua Divina
Commedia, o além e seu “paraíso”, a que acrescentou, em harmonia com a
tradição, um inferno posto sob a terra e um purgatório disposto em oposição a
Jerusalém: imaginando-o como uma ilha em forma de montanha, o poeta florentino
foi dos primeiros a dar um vulto físico a um lugar que, na realidade, tinha
sido introduzido havia pouco tempo na elaboração doutrinal da Igreja.
Um universo finito, portanto, tão distante do nosso a
ponto de não parecer nem mesmo se tratar do mesmo. E tão granítico que passaram
séculos – até as teorias heliocêntricas de Nicolau Copérnico (1473-1543) e as
lentes de Galileu – antes que fosse questionado.
E a Terra, contrariamente ao que se pensa, era imaginada
redonda segundo uma tradição intelectual científica que remontava aos antigos
gregos. Eratóstenes (conservado graças às citações contidas na Naturalis Historia de Plínio o Velho),
Estrabão e Ptolomeu (conhecidos graças a Sêneca) tinham calculado a curvatura
do meridiano terrestre e suas teorias tinham sido retomadas pelos Padres da
Igreja e, na primeira Idade Média, por dois grandes eruditos provenientes da
Europa insular: o inglês Beda o Venerável, e o irlandês Virgílio, bispo de Salzburg.
Para esse último, a questão a ser debatida era,
sobretudo, aquela que se relaciona com os “antípodas”, ou seja, os habitantes
do outro hemisfério: Eles existem? Quem são? Provêm do nosso hemisfério e se
transferiram para lá em uma época antiquíssima ou nasceram diretamente naquele
lugar?
No primeiro caso, como podem ter passado através do
equador sobrevivendo aos incandescentes raios solares? No segundo: Qual o
destino deles se não conheceram a Revelação e, portanto, a salvação? São questões
teológicas, certo. E levantam também mais de que uma suspeita de heresia. Mas
que, em todo caso, sobre um ponto não deixam margem a dúvidas: habitado na
região dos antípodas ou não, o mundo é esférico.
E os mapae mundi planos que aparecem nos códigos dos
comentários de Macróbio e das obras de Isidoro de Sevilha? São, como hoje,
simplesmente tentativas de “planisférios” que mostram em duas dimensões aquilo
que, na verdade, possui três.
O centro do mundo terreno, na percepção comum, era
Jerusalém, a “cidade santa” por excelência. Uma miniatura do século XIII
conservada na biblioteca universitária de Upsala a representa como um círculo
perfeito dividido em duas por uma cruz, cujos braços indicam as estradas
principais. Uma representação fortemente simbólica, portanto, e de forte valor
escatológico. Todo o mundo conhecido, de resto, era representado de maneira
simbólica.
Começando pelo número dos continentes: três, número
perfeito, correspondente à Europa, Ásia e África. No mapa eram desenhados ou
como três círculos concêntricos divididos por uma nesga de água ou como uma
língua de terra repartida em três por um T (novamente a cruz). E os confins?
Eram bastante lábeis.
Ao Ocidente, o mapa-mundi terminava com as “Colunas de
Hércules” que, situadas pouco além do Estreito de Gibraltar, delimitavam as
terras e os mares conhecidos, e com elas as ambições cognoscitivas humanas. Ao
Sul, o mundo terminava com os imensos desertos da África Setentrional, ao passo
que ao Norte alguns relatos muito difundidos (como a Navigatio Sancti Brendani) deixavam entrever, além da névoa dos
mares setentrionais, misteriosa terras onde o sol nunca se punha e, no meio do mare concretum (a calota polar?), a
mítica Ilha de Thule. Mas o que causava mais fascinação mesmo era, sem dúvida,
o Oriente.
A estrada e seus perigos
Antes de seguir as pegadas de algum viajante medieval,
convém considerar brevemente as condições das estradas. Caídas em desuso as
velhas artérias romanas e destruídas as pontes e outras infraestruturas
construídas em época medieval, restavam, muitas vezes, apenas alguns caminhos
malconservados e sem pavimentação que, com a chuva ou na primeira nevasca,
transformavam-se em rios de lama, quando não em verdadeiros pântanos. Embora
não fosse assim em toda parte.
Mas se é verdade que depois da queda do Império Romano no
Ocidente, as guerras e as invasões barbáricas, as condições das estradas
sofreram uma rápida decadência, é igualmente verdade que o tráfego não se
interrompia absolutamente.
A partir do ano mil, com o aumento do povoamento
decorrente da expansão demográfica, ao lado dos antigos traçados (ou pouco
distante deles) foram construídas outras vias para conectar entre si os
diversos vilarejos e permitir um transporte mais ágil das mercadorias e dos
alimentos rumo aos mercados centrais.
Ao longo da estrada os perigos eram muitos. Além do risco
decorrente das más condições dos percursos, não era raro encontrar brigantes e
ser assaltado, ou até mesmo assassinado. Por isso se tentava, quando possível,
manter-se nas estradas conhecidas e mais frequentadas, e evitar os caminhos
marginais e principalmente os bosques, passíveis de encontros indesejáveis com
animais ferozes.
Forçoso era, assim que o sol se pusesse, encontrar um
refúgio: a casa de um camponês, uma pousada, na hospedaria de um mosteiro, ou,
no pior dos casos, embaixo de uma árvore. O importante era não passar a noite
ao relento. As condições higiênicas e climáticas, certamente, não eram as melhores.
E o risco de contrair doenças estava sempre à espreita.
O tempo demandado pelo deslocamento, além disso, era
realmente longo. Pôr-se em viagem significava, muitas vezes, deixar sua própria
terra para nunca mais voltar: razão por que, antes de partir, era comum fazer
um testamento. De fato, foi exatamente o temor pelos pericula in eundo et redeundo (perigos no ir e regressar) que
impeliu, por exemplo, o trevisano Bartolomeu de Pizolo da Montebelluna a ditar,
em 28 de fevereiro de 1350, o testamento antes de iniciar sua viagem a Roma:
entre suas últimas vontades, predispunha uma soma para acolhimento dos
mendigos, órfãos e viúvas.
Mais rápidos, mas não menos arriscados, eram os
deslocamentos por via aquática, principalmente pelos rios. Relativamente fáceis
para percorrer e velozes nos períodos de cheias, as vias fluviais eram
utilizadas também durante a estação seca: as embarcações, então, eram
tracionadas graças a um complexo sistema de cordas, por cavalos e bois que
procediam lentamente pela margem.
E a canseira era tanta que às vezes os próprios
marinheiros tinham de ajudar os animais. Apesar de tudo, barcos e barcaças
cruzavam regularmente, por exemplo, as águas do Pó e de seus afluentes que,
ligados a partir do século XI às outras vias hídricas da Planície Padana por um
sistema de canais cada vez mais complexo, se impuseram na Idade Média como uma
das principais e mais utilizadas vias de comunicação (juntamente com o
Brennero), de todo o continente, unindo o Norte e o Centro da Europa com o
Mediterrâneo.
Além disso, o mar. O Atlântico era sulcado em todos os
sentidos pelos drakkar dos
viquingues, que colonizavam as ilhas do extremo norte da Europa e chegavam até
os umbrais do Novo Mundo, e antes ainda pelos currach (barcas de pele) dos monges irlandeses, que se deixavam
levar pelas ondas e eram arrastados pelos ventos e pelas correntes aos lugares
mais intransitáveis e inóspitos, onde fundavam novos mosteiros.
O Mediterrâneo, por outro lado, desde a Antiguidade
utilizado para o tráfego comercial, voltou a ocupar uma posição central com o
progressivo crescimento das repúblicas marítimas e durante as cruzadas. A viagem de navio, de todo modo, não tinha
nenhuma segurança, pois que ao risco (realmente alto) de naufragar somava-se a
possibilidade (também essa não rara) de um encontro nada agradável com os piratas
ou com os sarracenos.
Apesar dos perigos, em todo caso, para ir à Terra Santa
convinha zarpar de Veneza: no verão, para chegar à meta bastavam cerca de vinte
dias de navegação, pouco mais do que o dobro disso no inverno. Sempre era
melhor do que atravessar as incertas estradas da Europa do Leste onde, além de
ter de percorrer uma enorme distância, se corria o risco de encontrar os
ferocíssimos salteadores eslavos.
Quem viajava, na Idade Média? Não apenas os mercadores. Antes
de tudo príncipes, soberanos e imperadores, que passavam grande parte do tempo
a deslocar-se entre as terras de seu domínio. Carlos Magno, por exemplo, embora
tivesse escolhido Aachen como capital, não possuía uma corte permanente de uma
região para outra de seu vastíssimo império, que media mais de um milhão de
quilômetros quadrados.
Depois, pontífices e eclesiásticos que se deslocavam para
participar de concílios e sínodos por toda a Europa. Para esses, naturalmente,
a viagem era menos incômoda, graças ao uso de cavalos e carroças (na verdade,
não era exatamente cômoda, e sujeita a contínuas sacudidas, avarias e
tombamentos) e mais velozes para as repentinas trocas de cavalgadura.
A maior parte dos demais viajantes, fossem mercadores ou
simples peregrinos, precedia a pé ou no máximo no dorso de uma mula e muito
mais raramente a cavalo, até porque a utilização de animais obrigava a prover
também o sustento deles e aumentava imensamente o já alto custo da viagem.
Entre os incômodos mais sentidos, enfim, estavam os
inúmeros controles a que os viajantes eram continuamente submetidos nos “postos
de parada” ao longo das estradas, nos estreitos e na entrada das cidades: e se
não era nada agradável, nas aduanas, ter as bagagens revistadas pelos guardas,
igualmente odioso era ter de pagar os pedágios cada vez que se cruzava uma ponte
ou se entrava pelas portas de uma cidade.
Deviam ser muitos também que viam uma taverna isolada
como um refúgio quente e confortante: foi o sentimento que teve, em 1483, o
dominicano alemão Felix Faber quando, vencidos os Alpes para dirigir-se à Terra
Santa, depois de ter atravessado florestas, corrido o risco de cair em
profundas grotas nas montanhas e tropeçado nas raízes dos caminhos, deu de cara
com uma pequena e solitária hospedagem entre Cortina e Dobbiaco: Finalmente a
salvo bem no meio de uma vale arenoso e estéril onde, como ele nos informa, “muitos
morriam de noite pelo frio e pela fome”.
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