quarta-feira, 19 de março de 2014
O cavaleiro preso na armadura, by Robert Fisher
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
A Viagem, símbolo da iniciação, by Luis Pellegrini.
Bacana, não? Os textos do luis são sempre assim, instigam a leitura, fazem refletir, apontam caminhos... o que é bem a cara da Revista Planeta, que era a cara do Pellegrini quando ele andava por lá... Enfim, achei que o texto que você lerá a seguir não merecia ficar guardado numa pasta que logo irá acabar numa caçamba de lixo reciclado. Coisas boas sempre devem permanecer - ainda que seja apenas num ambiente virtual. Namastê!
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Caminhos sagrados: aventuras de um peregrino, by Nicholas Shrady
São poucas as obras publicadas no Brasil que entram de cabeça na temática das viagens sagradas. Quando muito, você encontra nas estantes uma meia dúzia de livros voltados à temática do turismo religioso, que não tem muito a ver com o lance.
Bons estudos sobre turismo religioso há, entre eles cito assim sem compromisso os trabalhos de Pierre Sanchis e Carlos Alberto Steil, pesquisadores que navegam bem nessas águas. Um dia falo deles, mas daí a pegada tem que ser mais acadêmica, um lance mais de pesquisa, de reflexões e isso foge um pouquinho do escopo do Odepórica.
Muito bem, então vamos falar agora desse lance de viagens sagradas. Sem muitas firulas, eu definiria uma viagem sagrada como um deslocamento em direção a um lugar considerado sagrado por alguém. E por sagrado entenda o oposto de profano. Simples assim, e isso não sou eu quem afirma, é o Mircea Eliade, que é uma referência no mundo bagunçado e instigante das ciências da religião.
Uma viagem sagrada, em muitos aspectos, tem ligação direta com rotas de peregrinação e visitas a lugares santos, que podem ser igrejas, templos da antiguidade, bosques, fontes de água, uma árvore, uma rocha, um túmulo, ruínas e por aí vai.
O autor norte-americano Nicholas Shrady, que costuma escrever sobre narrativas de viagem, resolveu um dia visitar seis locais de diferentes tradições religiosas que parte da humanidade considera sagrado: Medjugorje (Bósnia), Rishikeshi e Varanasi (Índia), Santiago de Compostela (Espanha), Terra Santa (Jerusalém) e Konya (Turquia), onde se encontra o túmulo do poeta sufi Rumi. Seis locais, cinco das principais tradições religiosas do mundo: Budismo, Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. Bem interessante.
O livro Caminhos Sagrados: aventuras de um peregrino é de leitura fácil e agradável, embora um tanto superficial. O autor, em alguns momentos, soa meio pretensioso e às vezes lhe falta um pouco de humildade. Um livro nota sete, para um leitor pouco exigente. Mas em meio a tantas publicações esdrúxulas, como aquela obra que virou aquele filme com a Julia Roberts (e se você não sabe do que estou falando nem perca tempo tentando descobrir), sete é uma nota muito boa. Em outras palavras: vale a leitura, principalmente se você curte viajar para esses tipos de lugares com apelo mais espiritual.
Nesse post não vou transcrever passagens de capítulo algum. Optei por copiar na íntegra a introdução feita pelo próprio autor, que de alguma forma me pareceu mais interessante do que os próprios relatos de viagem que compõem a obra. Boa viagem.
♣
O impulso de fazer uma peregrinação é tão antigo quanto universal. Os egípcios viajavam para o santuário de Sekket em Bubastis; os gregos procuravam os conselhos de Apolo em delfos e as curas de Asclépio em Epidauro. Quetzal, Cuzco e Titicaca eram locais sagrados na América pré-colombiana. A tradição cristã atrai os fiéis, em primeiro lugar, para a Terra Santa, Roma, Santiago de Compostela, Fátima, Lourdes e, mais recentemente, Medjugorje, na Bósnia, onde se diz que a Virgem Maria aparece diariamente a um grupo de videntes da aldeia.
No mundo muçulmano, a hajj, a viagem obrigatória do peregrino para Meca, é um dos Cinco Pilares da Fé.
Os budistas aventuram-se até o Bodh Gaya, onde o Buda atingiu a Iluminação; os judeus curvam-se em oração diante da Muralha Ocidental do templo; e os hindus banhavam-se nas águas cheias de cinzas do sagrado Rio Ganges. Cada religião tem seus ritos e rituais prescritos, mas a peregrinação, em particular, parece falar a um movimento instintivo do coração humano. A frase latina ambulare pro Deo, “caminhar por Deus”, é tão válida para o peregrino cristão que parte rumo a Santiago de Compostela quanto para um muçulmano atraído ao santuário de Ka´ba em Meca ou um budista andando em volta de um stupa.
Exploradores e viajantes, sem mencionar turistas, podem viajar por uma rota de peregrinação, mas seus motivos para a viagem, aquilo que eles procuram, assim como a importância do seu destino final, jamais são os de um peregrino. O progresso do peregrino é ao mesmo tempo uma viagem interior, um exercício espiritual e uma viagem física em direção a um local real, mas investido de um caráter divino. A condição do peregrino, aliás, aproxima-se notavelmente da do herói.
Ao abandonarem o ambiente familiar, mundano, ao submeterem-se a agruras físicas e às vezes a considerável perigo, e ao prestarem reverência ou fazerem penitência num lugar sagrado, os peregrinos, como os heróis, sabem que retornarão de sua odisséia renovados de alguma forma, ou pelo menos interiormente mudados.
“O visitante passa através de um lugar, e o lugar passa através do peregrino”, escreveu Cynthia Ozick. Ao descrever a experiência mística, Meister Eckhart usou a peregrinação como uma metáfora: “O Caminho sem Caminho, onde os Filhos de Deus se perdem e, ao mesmo tempo, se encontram.” Esta é, numa frase, a meta de todo peregrino.
Há dez anos atravessei a pé o norte da Espanha pelo Caminho de Santiago de Compostela, onde se diz descansarem os ossos do apóstolo São Tiago na cripta da catedral. Aos poucos venho compreendendo que a viagem de um mês através de 800 quilômetros foi um acontecimento fértil na minha vida.Ao longo da trilha de peregrinação desdobravam-se episódios coma clareza de parábolas.
Invariavelmente, eu era acolhido por pastores, ciganos, padres de aldeia e freira com votos de silêncio. Fui rechaçado por um súdito do arcebispo. Atravessei paisagens intocadas, de imensa beleza, e os bairros medievais, escuros e labirínticos, de Pamplona, Burgos e Leon. Encontrei santos e misantropos. Colhi maçãs e azeitonas, participei de uma festa de casamento e cuidei de um vagabundo durante um ataque de delirium tremens particularmente forte. Porém, mais do que qualquer outra coisa, tive a oportunidade de refletir e meditar. O Caminho de Santiago foi não apenas uma viagem fisicamente desgastante, mas um exercício espiritual.
Embora eu seja católico de nascença e de criação, minha fé era – e permanece – repleta de profundas dúvidas, mas a peregrinação ajudou realmente a saciar uma sensação sempre crescente, embora mal definida, de anseio espiritual. Como cristãos, aprendemos que Deus é onipresente. Na realidade, não existe uma base teológica sólida na peregrinação a qualquer lugar sagrado.
O cristianismo antigo era uma religião sem templos, padres, santuários, rituais e certamente peregrinações. Deus não deve ser adorado em Jerusalém nem em Gerizim, segundo o Evangelho de João, mas em espírito e verdade. No entanto, permanece o fato de que nunca me senti tão perto do Absoluto como quando estava comprometido com um caminho sagrado, não numa igreja, num confessionário ou momento de oração solitária.
Enquanto avançava em direção a Santiago, vim a considerar o mundo convencional, do qual eu estava afastado pelo menos temporariamente, caótico e sem objetivo; e o mundo da peregrinação, ao contrário, era marcado pela pureza do objetivo, apesar das condições frequentemente precárias.
Achei o Caminho pontilhado de epifanias sutis que – eu percebia – eram milagrosas. Se me sentia de alguma forma abençoado, era porque a peregrinação me aproximou da primeira condição da humanidade. Procurei outras rotas de peregrinação, não apenas no mundo cristão, mas também nas tradições budistas, hindus, judaicas e muçulmanas.
Descobri que a ideia de que durante a viagem pode-se alcançar Deus, ou o Absoluto, é quase universal. É significativo, por exemplo, que Iavé signifique “Deus do Caminho” e que o árabe Il-Rah, originalmente usada para significar uma rota de migração, mais tarde foi recolhida pelos místicos sufis para descrever “o Caminho para Deus”. Cristo e seus apóstolos caminharam pelos montes e vales da Palestina.
A busca do zen também é chamada de angya, ou “viajar a pé”. Os antigos budistas eram “esmoleiros ambulantes”, e as últimas palavras do mestre para seus seguidores foram, apropriadamente, “Continuem caminhando!”. O peregrino em potencial dificilmente encontrará conselho melhor do que estas duas palavras.
Leia: Caminhos Sagrados: aventuras de um peregrino. Nicholas Shrady. Ed. Objetiva, 1999.
sábado, 8 de janeiro de 2011
Clássicos da Literatura Odepórica: Sendas de Oku, Matsuo Basho
Estou apaixonado pela obra deste maravilhoso escritor e auspicioso andarilho japonês que passou por aqui há muitos e muitos anos. Ele se foi, mas deixou tanta inspiração e luz que quatro séculos não foram capazes de apagar seu rastro. Coisa que só gente bacana é capaz de conseguir. E põe bacana nisso.
Matsuo Kinsaku “Basho” (pronuncia-se Bashô,) nasceu em Ueno, Japão, em 1644 em uma família de samurais. O período histórico em que viveu coincide com o momento em que o Japão se manteve fechado para o resto do mundo; foi durante esse período de aproximadamente 250 anos que o verdadeiro caráter e cultura japoneses emergiram da sombra da influência chinesa.
Aos nove anos Basho é iniciado na arte poética japonesa, na caligrafia e no verso clássico chinês; seus estudos o levam a se aprofundar na arte do haikai. Sabe o que é um haikai (ou haiku)? O Alberto Marsicano é quem explica:
O haikai deriva do clássico tanka, poema japonês de 31 sílabas. Esta divisão gerou o costume de os poetas reunirem-se para elaborar coletivamente os poemas: um criava a primeira parte e outro a segunda. Assim, ludicamente se engendravam longas séries de versos que foram denominados renka. Com o tempo, a primeira parte do tanka, de5, 7 e 5 sílabas, adquiriu autonomia dispensando a segunda. Estes poemas curtos e satíricos, repletos de jogos de palavras, ficaram famosos em todo o Japão sob o nome de renka haikai, ou simplesmente haikai.
Um exemplo para ilustrar, da autoria do próprio mestre Basho:
acenda a luz de leve
eu lhe mostro uma beleza
a bola de neve
E outro, de Shiki, discípulo de Basho, com tradução de Paulo Leminski:
nem vem que não tem
eu penso crisântemo
crisântemo em mim também
Delícia pura, isso é o haikai. Mas deixemos a poesia para depois, de sobremesa. Voltemos ao prato principal. Quando completa 28 anos, tendo já vivido metade de sua vida, Basho parte para Edo, a Tókio de hoje, onde compila uma antologia de haikai, dedicando-a à divindade protetora das letras. Diz o Marsicano que Basho se afasta aos poucos da escola mais tradicionalista, chamada Teitoku, por esta insistir em conter o humor e a liberdade originais do haikai. Além do mais, como escreve Octavio Paz (veja o link no final do post), para Basho o haikai não era apenas poesia em sua forma mais pura, era acima de tudo um exercício espiritual. E na senda espiritual não pode haver limites impostos pela razão humana.
Parece que o mestre Basho se encheu desse lance de ficar buscando escolas com as quais pudesse sentir-se pleno e o caminho, também seguido por outros poetas, foi o de mudar radicalmente de vida.
Em 1682, embora cercado por inúmeros discípulos e admiradores, muda-se para uma pequena choupana às margens do rio Sumida, na periferia de Edo. O retiro despoja nosso poeta das obrigações mundanas e também de boa parte de seus alunos. Esse novo estilo lhe obrigara a viver como eremita ao lado de apenas poucos estudantes. Um deles planta no jardim uma bananeira (Basho - no japonês) que primeiro passa a denominar o local e posteriormente o próprio poeta. É importante frisar que naquela época essa planta era exótica e muito celebrada pelos clássicos chineses devido a sua fragilidade diante dos rigores do clima temperado.
E a roda gira. Em 1681 Basho conhece o mestre zen Bucchô e inicia a prática da meditação sentada, o “zazen”. Por essas e outras o zen budismo irá influenciar bastante a sua obra. Alberto Marsicano explica que Basho foi capaz de “infundir na concisa forma do haikai a amplidão do pensamento zen”. E continua:
O haikai é o olho do furacão, o profundo toque de um gongo de bronze, o iridescente relâmpago que inesperadamente reluz na escuridão da noite. O haikai é o satori, o despertar zen que repentinamente surge no caminho.
No final de 1682 acontece o grande turning point na vida de Basho: um incêndio de grandes proporções destrói sua choupana. É a partir daí que o mestre poeta passará em contínua viagem todo o resto de sua vida nesse mundo de ilusões. Nesse momento já era um nome conhecido em todos os cantos, entre os grandes haikaístas do país, e por isso era bem recebido por todos. Basho foi de fato um tipo de monge poeta errante. Ou, simplesmente, um poeta andarilho.
Os relatos de viagem de Matsuo Basho
Na segunda metade de sua vida Basho viajou muito. Deixou alguns relatos de viagem, sendo três os principais:
Visita ao Santuário de Kashima, de 1687. Consiste num conciso relato repleto de haikais. Basho lança-se a pé pelas estradas (apenas os nobres samurais podiam usar cavalos) e atravessa o país com o simples intuito de contemplar a lua cheia nascendo sobre o sagrado templo; ao mesmo tempo aproveita a jornada para recolher inúmeros haikais de poetas que encontra pelo caminho.
Visita a Sarashima, 1688. Neste relato, que descreve a subida de uma íngreme montanha, podemos vislumbrar todo o processo iniciático do zen budismo, com suas duras provas e dificuldades na trajetória onde o neófito em meio a ferrenha luta consigo mesmo percorre a escarpada senda rumo ao despertar – representado aqui pelo clarão da lua cheia.
O terceiro relato é o mais famoso: Trilha Estreita ao Confim. Trata de uma longa jornada de quatro anos, iniciada em 1689, quando Basho, não resistindo ao chamado dos deuses da estrada, é impelido às remotas províncias do norte, passando por paragens ainda hoje consideradas como longínquas e misteriosas. Certos autores têm a firme convicção de que o poeta percorria estes caminhos tomado por poderes mágicos e uma força espiritual muito intensa que o possuía por completo.
Em 1694 deixa Ueno e caminha até Osaka, onde adoece gravemente. Seus discípulos desconfiados do desenlace próximo pedem-lhe que faça seu poema de morte. Basho lhes responde que nos últimos vinte anos todos os seus haikais tinham sido escritos como o “poema de morte”. Na mesma noite tem um sonho e ao acordar escreve seu derradeiro poema:
finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado
Levado a casa de um florista, morre cercado de amigos e alunos. Está enterrado às margens do lago Biwa no jardim do tempo Yoshinaka à sombra de uma bananeira.
Oku no Hosomichi: Sendas de Oku
Agora deixo um pouco de lado o texto do Alberto Marsicano, a quem logo retornarei, e trago a você o prestigiado trabalho de Octavio Paz, pioneiro na tradução (1956) em língua ocidental da obra de Matsuo Basho. Apenas uma introdução, mas bastante enriquecedora como você poderá conferir a seguir:
As versões para o inglês dão uma ideia mais realista da viagem de Basho e de seu ponto de destino: norte remoto, povoados distantes, províncias; a tradução francesa, embora mais literal, inclina-se em direção ao simbólico: fim do mundo. Nós preferimos a via intermediária e pensamos que a palavra Oku, por ser estranha ao leitor de nossa língua, poderia talvez refletir um pouco a indeterminação do original.
Oku quer dizer fundo ou interior; neste caso designa a distante região do norte, nos confins do Japão, chamada Oou e escrita com dois caracteres, o primeiro dos quais se lê Oku.
O título evoca não somente a excursão aos confins do país, por caminhos difíceis e pouco freqüentados, senão também uma peregrinação espiritual. Desde as primeiras linhas Basho se apresenta como um poeta anacoreta e meio monge; tanto ele como seu companheiro de viagem, Sora, percorrem os caminhos vestidos com os hábitos dos peregrinos budistas; sua viagem é quase uma iniciação e Sora, antes de cair na estrada, raspa a cabeça à maneira dos bonzos (monges budistas).
Peregrinação religiosa e viagem aos lugares célebres – paisagens, templos, castelos, ruínas, curiosidades históricas e naturais – a expedição de Basho e de Sora é também um exercício poético: cada um deles escreve um diário semeado de poemas e, em muitos dos lugares que visitam, os poetas locais os recebem e compõem com eles esses poemas coletivos chamados haikai no renga.
E o resto nós já vimos no que vai dar. Pé na estrada e bastante inspiração zen pelos caminhos nos confins do Japão. Agora já sabemos que Trilha Estreita ao Confim e Sendas de Oku são a mesma obra. Particularmente gosto mais de Sendas de Oku, por isso preferi esse título ao outro, escolhido pelo Alberto Marsicano e Kimi Takenaka na obra a que tanto me refiro nesse post. Mas isso é só um detalhe sem importância.
Vou transcrever alguns trechos de Sendas de Oku tirados da obra de Marsicano e Takenaka. É essa a primeira tradução de Oku no Hosomichi para o português diretamente de sua língua original, algo a ser celebrado sem dúvida. Entretanto, a primeira passagem – justamente os primeiros parágrafos do relato de Basho – é resultado do trabalho de Paulo Leminski para sua pequena e deliciosa biografia de Matsuo Basho para a coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense. Mais leve no trato com as palavras, Leminski parece ter traduzido Basho como quem escreve sobre um amigo íntimo, enquanto Marsicano e Takenaka optaram por manter o máximo possível a literalidade do texto original, numa atitude mais reverencial em relação ao mestre poeta.
SENDAS DE OKU (Trilha estreita ao confim)
Luas e sóis (meses e dias) são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e se vão são viajantes também. Os que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre de viagem, e seu lar se encontra ali onde suas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos, morreram pelos caminhos, e a mim também, durante os últimos anos, a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento me inspirou contínuas idéias de meter o pé na estrada.
O ano passado dediquei a vagar pela costa. No outono, voltei à minha cabana, às margens do rio, e a limpei das teias de aranha. Aí, me surpreendeu o fim do ano. Quando veio a primavera e houve neblina no ar, pensei em ir a Oku, atravessando a barreira de Shirakawa. Tudo o que via me convidava a viajar, e estava tão possuído pelos deuses que não podia dominar meus pensamentos.
Os espíritos do caminho me faziam sinais, e descobri que não podia continuar trabalhando. Remendei minhas calças rasgadas e troquei as tiras do meu chapéu de palha. A fim de me fortalecer as pernas para a viagem, me untei de “moka” (terapia de moxabustão) queimada. Logo a idéia da lua na ilha de Matsushima começou a apoderar-se de meus pensamentos. Quando vendi minha cabana e me mudei para o sítio de Sampu para esperar ali o dia da partida, pendurei este poema numa viga da minha choça:
a cabana de ervas secas
(o mundo tudo muda)
vira casa de bonecas
Quando, em 27 de março, me pus a caminho, havia neblina no céu da madrugada. A pálida lua matutina tinha perdido o brilho, mas ainda se podia vislumbrar debilmente o monte Fuji. Em Ueno e Yanaka, os ramos das cerejeiras em flor me despertaram pensamentos tristes ao perguntar-me se algum dia os voltaria a ver.
Meus amigos mais queridos tinham todos vindo à noite na casa de Sampu, para poder me acompanhar durante o curto trecho de viagem que eu faria em barco. Quando desembarcamos num lugar chamado Senju, a idéia de começar uma viagem tão longa me encheu de tristeza. De pé sobre o caminho que talvez ia nos separar para sempre nesta vida que é como um sonho, chorei lágrimas de despedida:
primavera
não nos deixe
pássaros choram
lágrimas
no olho do peixe
(PL)
Com este poema comemorei meu errar. E caminhei adiante em minha jornada. Meus amigos acenaram-me adeus, até que desaparecessem de minha vista. Caminhei o dia todo somente desejando voltar, após haver conhecido as misteriosas paisagens do norte distante, porém sem acreditar realmente na possibilidade de realizar tal jornada, pois sabia que uma caminhada como esta, longa viagem através do segundo ano de Genroku, apenas acumularia cabelos brancos sobre a minha cabeça, quanto mais me aproximasse das nevadas regiões.
Quando alcancei a aldeia de Soka ao anoitecer, meus ombros estavam machucados pelo peso da bagagem, que consistia num cobertor para noite, num traje de algodão, numa capa de chuva, material para escrever e presentes ganhos na despedida. Gostaria muito de viajar mais leve, porém existem coisas das quais não nos podemos desvencilhar, por razões práticas ou sentimentais.
(...)
Um grande amigo residia em Nassu-no-Kurobane, na província de Nassu. Porém, para chegar a esta cidade, era necessário atravessar um imenso pântano. Segui por uma estreita trilha, que por milhas e milhas cruzava, como uma reta, o imenso alagado. Já avistava ao longe a pequena cidade quando uma forte chuva começou a cair, e a escuridão da noite encobriu com rápidas pinceladas de nanquim a paisagem.
Passei a noite na casa de um solitário fazendeiro, e me levantei cedo, ao raiar do sol. Ao longe avistei um cavalo pastando e um camponês cortando o mato. Pedi-lhe o grande favor de emprestar-me seu cavalo. Ele hesitou por um momento, porém, finalmente, com um toque de simpatia na face, me disse: “Existem centenas de encruzilhadas por estes caminhos e um andarilho como você poderia facilmente se perder neste emaranhado e labiríntico meandro. Porém, o cavalo conhece bem o caminho. Leve-o e mande-o de volta quando dele não mais precisar”.
Montei, e parti rumo à cidade. No caminho, duas crianças, filhos deste camponês, seguiam-nos acenando. Sora perguntou à menina qual era o seu nome, e ela respondeu: “Kasane, que significa multiplicidade, variedade”. Para o nome de uma criança do campo, este era um nome diferente e Sora escreveu os seguintes versos:
menina Kasane
rósea flor
múltiplas pétalas
Enviei o cavalo de volta a seu dono, não esquecendo antes de colocar uma pequena quantia em dinheiro, amarrada junto à cela. Ao chegar à cidade de Kurobane, fui logo visitar meu amigo Joboji.
Ele ficou muito emocionado ao me ver tão inesperadamente, e conversamos durante vários dias e noites. Seu irmão Tosui aproveitava todas as oportunidades para conversar comigo, levando-me à sua casa para conhecer seus familiares e amigos. Um dia percorremos a periferia da cidade. Vimos as ruínas de um antigo campo de tiro, e, caminhando até o pântano, visitamos o túmulo da Senhora Tamamo, e depois o de Hachiman, sobre o qual o samurai Yoichi tornara-se famoso por alvejar, com uma flecha, um leque suspenso sobre a proa de um barco. Ao escurecer voltamos à casa de Tossui.
Fui convidado a visitar o templo Komyoji, onde encontra-se a estátua do fundador da seita Shugen. Conta-se que ele percorreu todo o país com seus tamancos de madeira, pregando a doutrina búdica.
verão nas montanhas
peço a estes tamancos proteção
em minha longa jornada
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Sobremesa do post: haikais do Paulo Leminski
tarde de vento
até as árvores
querem vir pra dentro
♥
a palmeira
estremece
palmas pra ela
que ela merece
♥
ameixas:
ame-as
ou deixe-as
♥
prá que cara feia?
na vida
ninguém paga meia
♥
nuvens brancas
passam
em brancas nuvens
♥
pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
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Para ler, reler e rereler:
Trilha estreita ao confim. Matsuo Basho; tradução de Kimi Takenaka e Alberto Marsicano. São Paulo: Iluminuras, 2008.
Imperdível também é a pequenina edição intitulada Matsuó Bashô: a lágrima do peixe, do Paulo Leminski - coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense, 1983. Infelizmente, super fora de catálogo.
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Se você ficou curioso/a com os haikais e quer se envolver um pouquinho mais com o tema, sugiro um site bacana que merece o passeio: Revista Brasileira de Haicai, com links para outras páginas de igual interesse.
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A tradução de Sendas de Oku, do Octavio Paz (de onde tirei os excertos para esse post) está disponível na íntegra no seguinte site: http://www.poeticas.com.ar/Biblioteca/Sendas_de_Oku/frame.html. En español, por supuesto.
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