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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Silêncio, by Erling Kagge

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Se há alguém que pode escrever um ensaio sobre o silêncio, esse alguém é Erling Kagge, explorador, escritor e editor de livros norueguês que, no limitado círculo dos grandes viajantes e exploradores é conhecido como o primeiro homem a atingir os “três polos a pé”. Sim, três polos: com um amigo em 1990, explorou o ponto mais ao norte do planeta, no Ártico; dois anos depois caminhou 1.310 quilômetros pelo Polo Sul e depois de desbravar a Antártida, sozinho, foi se aventurar no ponto mais alto da Terra, o Monte Everest.

Em seu livro Silêncio: Na era do ruído, primeiro trabalho seu publicado no Brasil, Erling Kagge faz um pequeno ensaio sobre o silêncio depois de ter vivido essas aventuras e também, como gosta de lembrar, depois de ter se tornado pai de três meninas, hoje adolescentes.



O que dá um brilho especial ao texto do Erling é o equilíbrio entre suas narrativas de viagem física e suas viagens interiores, quando começa a explorar de fato a importância do silêncio não só em seus deslocamentos pelo mundo, mas também a necessidade de trazer essa experiência para a vida cotidiana. É a busca da resposta à questão: Que caminhos levam ao silêncio?



Diz o autor, lá no finalzinho do livro, que o silêncio é uma ferramenta para escapar do lugar onde você se encontra.  E é essa a sacada da obra: não é somente possível, mas senão necessário viajar para dentro de si sempre que puder, nem que seja por breves instantes, todos os dias, ou por períodos maiores, quando a vida permitir, cabendo a cada um a busca desse momento de silêncio que revela, que alimenta, que transforma... não por acaso, grandes mestres e pensadores buscaram a solidão e o silêncio em momentos cruciais da existência.



Embora esse livro não se enquadre na literatura odepórica, há muitas passagens e reflexões sobre a arte de viajar. Para quem acredita que as viagens podem ser oportunidades de aprender a enxergar a vida com novos olhos, essa obra trará muito proveito. Leitura recomendadíssima.


Quando não posso caminhar, escalar ou navegar pelo mundo, aprendi a trancá-lo do lado de fora. Foi um longo aprendizado. Somente quando percebi que tenho uma grande necessidade de silêncio eu pude começar a buscá-lo – e lá, enterrado sob a cacofonia de barulhos de trânsito e pensamentos, música e ruído de máquinas, iPhones e removedores de neve, ele estava à minha espera. O silêncio.


Acredito que todos podem encontrar o silêncio dentro de si. Ele está lá o tempo inteiro, mesmo quando existem vários sons ao redor de nós. Nas profundezas do mar, sob as oscilações e as ondas, tudo parece estar em silêncio. Postar-se debaixo do chuveiro e deixar a água escorrer pela cabeça, sentar-se em frente a uma fogueira crepitante, nadar em um lago no meio da floresta ou fazer uma caminhada por uma planície são experiências que podem ser percebidas como silêncio absoluto. Eu adoro essas coisas.



Trancar o mundo do lado de fora não significa dar as costas ao lugar em que você está, mas justamente o contrário: ver o mundo de uma forma um pouco mais nítida, manter-se na superfície e sentir amor pela vida.

O silêncio é reconfortante em si mesmo. É uma qualidade, uma exclusividade e um luxo. Uma chave capaz de abrir novas formas de pensar. Não vejo o silêncio como uma renúncia ou algo espiritual, mas como uma ferramenta prática para uma vida mais rica. Ou, de maneira um pouco mais atrevida: como uma forma de viver mais profunda do que, mais uma vez, ligar a TV para ver as notícias.



Por mais de um milênio, pessoas viveram sozinhas, muito próximas de si mesmas, como monges nas montanhas, eremitas, exploradores marítimos, pastores de ovelhas e descobridores que voltavam para casa, foram todas convencidas de que as respostas para os mistérios da vida podem ser encontradas no silêncio. A questão é essa. Você atravessa o oceano e, ao retornar, talvez encontre o que procurava dentro de você mesmo.

Quando se atribui valor a algo por todo esse tempo, deve haver boas razões para levá-lo a sério. Jesus e Buda recorreram ao silêncio para entender como deveriam conduzir a própria vida. Jesus no deserto e Buda na montanha à beira do rio. Jesus se apresentou perante Deus em silêncio. O rio ensinou Buda a escutar, a ouvir com o coração em silêncio. Com a mente aberta e receptiva.



Que caminhos levam ao silêncio? Eu acredito em viagens em meio à natureza. Deixar os aparelhos eletrônicos em casa, seguir por um rumo onde tudo é deserto ao seu redor. Passar três dias sozinho. Não falar com ninguém. Aos poucos você começa a redescobrir coisas a respeito de você mesmo. O importante, claro, não é o que eu acredito, mas que todos sigam pelo seu próprio caminho. Todos nós temos uma trilha a encontrar.


Leia: Silêncio: Na era do ruído. Erling Kagge. 1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Silêncio e solidão na Grande Cartuxa, by A.J.Cronin

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Dizem que o silêncio é um prelúdio de abertura à revelação. Gosto de pensar que quando estou só e em silêncio, alguma coisa dentro de mim se transforma, como uma semente que aguarda o momento certo de se revelar para fora da terra, em direção ao sol.

Quando penso nas viagens que fiz percebo que nem sempre os momentos mais marcantes e inesquecíveis foram os mais alegres e divertidos, pelo contrário; pergunte a um bom viajante para falar de suas aventuras vividas na estrada e certamente você ouvirá muitas histórias em que a solidão e o silêncio foram parte fundamental da experiência.

Entretanto, imagino que a maioria das pessoas não se sente confortável em ficar a sós e em silêncio, e muito menos em viajar buscando esse tipo de situação. Daí o interesse que despertam as narrativas de viagem em que o protagonista narra suas desventuras; sua solidão, o “estar perdido no mundo” é algo que assusta ao mesmo tempo em que fascina, talvez uma lembrança arcaica de quando perambulávamos sós pelo mundo. Talvez, no fundo, ainda tenhamos uma necessidade orgânica de ficarmos sozinhos por um período de tempo.



Muitas ordens religiosas, de distintas tradições, pregam a solidão e o silêncio como princípios básicos de evolução espiritual ou transformação interior; o buscador, em todos os casos, é um ser solitário. A mente sábia é uma mente quieta.

Gosto de ler os relatos de viajantes laicos que se aventuram em estadias monásticas, geralmente em mosteiros cristãos e monastérios budistas; é interessante ler sobre a visão de quem está do lado de fora, observando e vivenciando uma rotina completamente distante de sua realidade cotidiana. Coloco-me no lugar do outro, me questiono se agiria ou pensaria da mesma forma que o narrador e depois da leitura sonho em percorrer as mesmas distâncias, viver as mesmas experiências... Por que não?

Transcrevo aqui no Odepórica um relato que retrata exatamente essa experiência da solidão e do silêncio. O autor, o escritor escocês Archibald Joseph Cronin (1896-1981) teve esse texto publicado em 1960 na Reader’s Digest (Seleções) em uma edição de capa dura, volume 35, intitulado Janelas para o Mundo.  É notável como, passados mais de cinquenta anos de sua publicação as questões do autor continuam atuais, como você mesmo poderá conferir na leitura que se segue.
O que aprendi na Grande Cartuxa



Ao brilho intenso do sol dos Alpes da Saboia francesa, depois de uma subida extenuante. Normalizei a respiração e puxei a corda da campainha. Aberto o postigo da pesada porta, após um momento de exame, um irmão leigo de capuz pardo introduziu-me, silenciosamente, num pátio murado, onde, entre canteiros de flores e zumbir de abelhas, uma fonte cantava.

Adiante, de cada lado da vetusta igreja, corriam dois compridos claustros arqueados, dos quais saíam fileiras de curiosas moradas de íngremes telhados vermelhos. Percebi logo que se tratava dos eremitérios individuais, onde habitam, na solidão e no silêncio, os monges da ordem.

Sabendo que quase nenhum estranho tinha entrado naquele remoto santuário, experimentei profunda palpitação de expectativa. Depois de uma velocíssima viagem de 6500 quilômetros, e sentindo ainda nos ouvidos o burburinho de Nova York, eu me achava no pátio do famoso mosteiro da Grande Cartuxa.



Mas eis que se aproxima de mim, com passos rápidos e com um sorriso tímido, mas amistoso, um vulto franzino de hábito branco. Era o prior, homem de seus 50 anos, de face corada e olhos de um azul muito profundo. Deu-me as boas-vindas com simplicidade e dignidade, e ouviu, cortesmente, a explicação dos motivos da minha visita. Depois levou-me a um eremitério desocupado e disse que o arquivista iria acompanhar-me numa visita geral. E retirou-se.

O eremitério era de pedra e tinha no andar térreo uma pequena oficina com ferramentas, um banco de carpinteiro e um depósito de madeira; no andar superior ficavam o oratório singelo e a cela. Nesta, o que vi foi uma mesa simples de carvalho, uma pequena estufa de ferro, uma estante de livros, um modesto genuflexório e a cama – um tosco enxergão de palha sobre um jirau.


Um sino tocou suavemente, ecoando entre os cumes banhados de sol. Lá no alto, o céu era de um azul ofuscante. Envolvido pelo sentimento de solidão que me cercava, sentei-me. Era ali, naquela prisão voluntária, que um homem tinha decidido passar toda a sua vida. Era ali que ele trabalhava e orava, estudava, cultivava o seu pequeno jardim e se entregava àquela intensa contemplação que é o fim e o propósito do monge cartusiano.

Nesse ponto ouvi uma leve pancada na porta. Era Dom Arthaud, o arquivista, homem idoso, mas de porte viril, rosto largo e simpático, olhos castanhos inteligentes piscando brejeiramente atrás dos óculos, para surpresa minha.

- Às suas ordens, senhor. Que deseja saber? – perguntou-me ele depois de cumprimentar-me.
- Tudo. Diga-me antes de mais nada: guarda-se aqui silêncio absoluto?
- Exatamente. Exceto, é claro – acrescentou, fazendo uma delicada mesura – quando temos a honra de receber alguém como o senhor.
- Quando começa o dia para os frades?
- Às 5 e 45 levantamos com o sino e nos ocupamos com orações, até às 7 e 15.
- E em seguida fazem a primeira refeição?


- Não, a primeira e única refeição completa é feita ao meio-dia.
- Somente ao meio-dia? – exclamei. – Em que consiste?
- Em geral, consta de verduras da nossa horta.
- Comem carne de vez em quando?
- Nunca. (O meu espanto pareceu diverti-lo.) E uma vez por semana, bem como em muitos dias especiais, o nosso único sustento é pão seco e água.
Meus olhos caíram duro no jirau.

- Deitam-se cedo? – perguntei?
- Sim. Às seis da tarde.
- Pelo menos, têm um bom descanso à noite.
- Só até às 10 horas – disse o monge com um sorriso manso. – Então o sino toca, nós nos erguemos para o ofício noturno, e depois, acendendo nossas lanternas, vamos para as devoções em comum na igreja.
- Mas então quando é que se deitam?
- Cerca das três da manhã.
- E tornam a levantar-se às 5 e 45?
- Por certo... E garanto-lhe que é descanso mais que suficiente. O frade apertou-me o braço, como para abafar em mim qualquer expressão de dó.
- Venha comigo. Vamos dar a nossa volta pelo mosteiro.


Enquanto me conduzia pela belíssima igreja, com os magníficos assentos de couro lavrados, o arquivista informou-me que sua fundação se devia a um tal Bruno, com seis companheiros, em 1084. Mas o que me interessava era mais o lado humano do que o histórico. Enquanto caminhávamos por um corredor de lajes, onde, mesmo naquele dia de verão, se sentia a umidade e um calafrio de Antiguidade, perguntei:

- Vocês não sentem frio aqui no inverno?
- Oh, não.
Ele bateu familiarmente a pedra nua, como quem tocasse o ombro de um velho amigo:
- As paredes são espessas. E nós temos os nossos pequenos aquecedores.
- Mas parece que não aquecem grande coisa...
- Talvez não - e o piscar de seus olhos acentuou-se. – Mas rachar lenha nos aquece.


Pensei nos longos meses de neve, nas procissões noturnas através da escuridão gelada, no serviço religioso à meia-noite naquela igreja imponente e tenebrosa, e não pude reprimir um arrepio. Ao dobrar uma esquina vimos um jovem leigo empurrando uma carrocinha cheia de fatias de pão, parando para deixar uma fatia na janelinha da cada eremitério.

Dom Arthaud explicou que aquele brave garçon voltara há pouco do serviço militar, tendo-se distinguido na campanha da Indochina.
- Cada qual toma sua refeição sozinho?
- Sim... Sempre na solidão.
- E é essa a sua ração de hoje?
O arquivista fez que sim com a cabeça. Com adorável simplicidade, dobrou o possante bíceps e disse:
- O pão é bom. Eu deixo um pedaço sobre o meu banco de carpinteiro quando trabalho... como e trabalho ... trabalho e como ... Ninguém pensa em comida quando está deveras ocupado.
- Ocupado?
- Fique certo, meu amigo, que o tempo não dá para o que desejamos fazer. Os assentos esculpidos à mão que o senhor tanto admirou na igreja são todos trabalho dos nossos monges. O mesmo se dá com estes painéis – e mostrou magníficos trabalhos de entalhe ao longo do vestíbulo interno, representando volutas em forma de capulhos de linho.
- Também os móveis do nosso mosteiro, os armários do vestiário e inúmeras outras coisas... Como vê, até mesmo no sentido material não somos totalmente ociosos.


Prosseguimos pelo claustro. O arquivista mostrou um eremitério próximo e explicou:
- Ali mora um americano... Temos aqui dois americanos. E um padre mexicano. Outro da Áustria. Até um do Japão temos aqui.
- Então vem gente de toda a parte?
- Sim, meu amigo. Mas temos todos um destino comum.

Com um gesto expressivo ele me conduziu por uma arcada gótica a um pátio relvado banhado de sol e flores silvestres. Ali, em filas bem ordenadas, via-se uma série de singelas cruzes de madeira preta, sem nomes nem inscrição. Fiquei calado por algum tempo.

- São muito juntas umas das outras... aquelas cruzes – disse eu por fim.
- Nós não ocupamos muito espaço. Isso porque não precisamos de caixões. Como em vida, basta-nos uma tábua para deitar em cima.


De volta ao eremitério e novamente só, tratei de por em ordem os meus pensamentos. O modo de vida naquela prisão voluntária era muito mais severo do que eu havia imaginado. E no entanto, em vez da tristeza peculiar à penitência, em vez da melancolia do ascetismo que eu esperava, o que parecia impregnado na própria substância daquelas antigas pedras cinzentas era uma alegria despreocupada.

O sino soou mais uma vez. O sol escondera-se atrás dos píncaros da montanha. E com a passagem silenciosa das horas aquela estranha existência que, vista de fora, parecia falsa e contrária ao bom senso, assumiu um tranquilo ar de sanidade, enquanto o mundo hostil e absurdo lá embaixo se apresentava perdido no caos e na confusão.

Lá, em todos os continentes, os homens lutavam desvairadamente para triunfar, e em momentos de lazer só se preocupavam com divertimentos que lhes deleitassem os sentidos. A televisão lampejava, o rádio papagueava, aviões roncavam fendendo as nuvens com maior rapidez que o som, grandes navios atravessavam velozes os sete mares transportando cargas humanas para aqui e para ali, em busca de riqueza ou de prazer.


Ao mesmo tempo, porém, atormentada e perplexa, vítima de profundo desassossego, a humanidade não conhecia o verdadeiro contentamento. Em todas as nações, crescendo cada vez mais, ganhando malignidade cada dia, acumulavam-se os apetrechos feitos pelo homem para a destruição do seu semelhante.

A ciência era agora a senhora, a pobre humanidade a escrava, e o homem, esquecido da simplicidade dos seus antepassados, atolado num tremedal de interesses individuais e de ideais falsos, extenuava-se e suava para fazer girar a roda-viva sem fim da sua própria desagregação. Essa, debaixo do seu fraco verniz de civilização, era a triste epopeia da Terra, um mundo de trágicos desatinos girando pelo espaço, tendo apenas alguns poucos a erguerem o espírito, o coração e a voz para o Criador.

Não seriam, pois, mais sábios aqueles que tinham resolvido passar seus dias nesse retiro monástico, longe do som e da fúria terrestre, perto da abóbada celeste, de maneira que pudessem fixar permanentemente a vista nas verdades eternas e oferecer, talvez, com suas humildes preces, uma reparação pela culpa dos outros?


Poucos, sem dúvida, são capazes de um tal retraimento. A convicção deste fato se arraigou em mim à medida que os dias passavam e eu conheci privações insólitas, o tormento de noites insones e da alimentação espartana, a angústia da solidão nova.

Mas da experiência foi brotando pouco a pouco uma verdade fulgurante. No supremo isolamento da Grande Cartuxa, embora inatingível para a maioria de nós, encontra-se uma salutar advertência – a necessidade imprescindível que todo homem tem de se apartar dos outros de quando em quando e de fazer uma romaria ao próprio coração. 

Colhidos no vórtice da vida moderna, enredados em suas complicações, adquirimos o medo de ficar sozinhos e preferimos procurar qualquer distração a permanecer na embaraçosa companhia dos nossos próprios pensamentos.


A minha estada ali tinha, forçosamente, de chegar a um termo. Quando me despedi dos bons monges e desci à planície embaixo, senti uma estranha tristeza no coração. Mas percebi, claramente, que a minha subida ao convento não tinha sido vã e aprendi a lição da Grande Cartuxa.

A sua mensagem era, manifestamente, esta: que de vez em quando devemos tomar um pouco de tempo às múltiplas preocupações do nosso trabalho e de nossas distrações para reajustar o nosso senso de valores, para colocar em seus devidos lugares os nossos desejos materiais.

Banindo da nossa boca a inevitável desculpa, “Eu bem quisera, se pudesse, mas não disponho de um só momento para mim”, devemos arranjar tempo – cinco, dez, vinte minutos ao fim do dia, uma hora em cada tarde de domingo consagrado a um passeio de meditação, um fim de semana vez por outra passado a completo recolhimento.

Então veremos como são de pouca monta as coisas que perseguimos com tamanho afã; então, talvez, pudéssemos descobrir não só a consciência de nós mesmos, mas – o que é muito mais importante – a existência da nossa própria consciência.
Texto retirado da obra 35 Janelas para o Mundo, Seleções do Reader’sDigest. 1ª Edição, 1960. Editora Ypiranga. (“O que Aprendi na Grande Cartuxa”, A.J. Cronin, pp.286-292).

Se você gostaria de se aprofundar um pouco mais sobre a Ordem dos Cartuxos e sobre o Mosteiro onde o autor do texto acima viveu sua experiência, indico o filme Le Grand Silence (em português, O Grande Silêncio). O documentário de quase três horas é um mergulho interior na rotina da vida monástica cartusiana, sem diálogos e sem nenhum tipo de intervenção tecnológica. Guarde um tempo para viver essa experiência. Ao terminar de assistir você terá tido a impressão de que foi transportado de corpo e alma para a Grande Chartreuse. Não é para qualquer um, mas pode ser para você. Disponível na íntegra no Youtube. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Os monges e eu, by Mary Paterson

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Mary Paterson é uma bonita canadense de olhos grandes que por muitos anos foi instrutora de yoga em Toronto. Mulher viajada pelas bandas do Oriente, publicou um livro muito interessante: Os monges e eu: como 40 dias no mosteiro francês de Thich Nhat Hanh transformaram minha vida.

Para quem não conhece, Thich Nhat Hanh é um monge budista vietnamita que por suas boas ações já foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz; prolífico escritor, poeta e pacifista, fundou um movimento denominado “budismo engajado”, que nada mais é do que a aplicação dos princípios budistas no dia-a-dia, seja para os que vivem a vida monástica ou para os leigos simpáticos à filosofia budista.


O bom homem continua ativo aos 90 anos, vivendo na comunidade que fundou em 1982 no interior da França, chamada de Plum Village – Vila das Ameixeiras. Foi para esse local que Mary Paterson, em busca de uma mudança em sua vida, se dirigiu para viver um retiro monástico de 40 dias, e seu livro é um testemunho dessa jornada física e espiritual.

Entre a entrada e a saída de Mary do monastério, temos 40 capítulos relativamente curtos, que correspondem a cada um dos dias de sua permanência nas Ameixeiras. Em cada capítulo, um ensinamento budista que a autora, na medida do possível, se esforça por colocar em prática, seguindo sempre que pode os preceitos do budismo engajado.

Desse modo, iremos aprender com Miss Paterson um pouco sobre como funciona um retiro espiritual no sul da França, que não difere muito da dinâmica dos retiros que temos aqui mesmo pertinho de nós. O foco do livro é mostrar como os ensinamentos do mestre Thich Nhat, em sua essência simples, podem mudar a vida de uma pessoa quando colocados em prática. É o que Mary se propõe a fazer em sua peregrinação.


Em cada capítulo/ dia de jornada aparece um ensinamento budista que a autora se esforça por encaixar em sua rotina diária, nem sempre com sucesso: mente concentrada, ética, silêncio, fé, gentileza, impermanência, transcendência, gratidão... tudo o que, de uma maneira ou de outra, guia as nossas vidas, tenhamos ou não um comprometimento religioso.

A leitura é agradável e equilibradamente didática; aprende-se um pouco sobre os ensinamentos do monge vietnamita, sobre a vida monástica, e também sobre o comportamento humano, com direito a vergonha alheia quando a autora descreve a conduta questionável de uma peregrina brasileira, Rita, “irascível, que gera um certo incômodo à sua volta”.

Recolhi do texto da Mary algumas passagens que me encantaram durante a leitura e que agora divido com você. Os títulos não fazem parte do texto original, servem apenas para apontar um pensamento que se encontra dentro de um contexto maior.
A ação no Caminho


Há muito tempo, havia um velho monge que, com prática diligente, atingira certo grau de sabedoria espiritual. Esse monge tinha um jovem noviço de 8 anos de idade. Um dia, olhando para o rosto do garoto, o monge viu que este morreria em poucos meses. Entristecido, o monge lhe disse que tirasse umas longas férias e fosse visitar os pais. “Não se apresse”, disse o monge. “Não precisa ter pressa para voltar”. Ele acreditava que o garoto deveria estar com a família quando morresse. Três meses depois, para seu espanto, o monge viu o garoto voltar, subindo a montanha. Quando este chegou, o monge olhou atentamente para seu rosto e viu que ele agora viveria longos anos. “Conte-me tudo que aconteceu quando você estava fora”, disse o monge.

O garoto falou-lhe da viagem descendo a montanha, das vilas por que passara, dos rios que atravessara e das montanhas que havia escalado. Então o garoto contou ao monge que um dia chegou a um riacho que transbordara. Enquanto tentava atravessá-lo, percebeu que uma colônia de formigas tinha ficado presa em uma ilhota formada na enchente.

Por compaixão das pobres criaturas, o garoto pegou um galho de árvore e o deitou sobre uma parte do riacho até que chegasse à ilhota. As formigas começaram a atravessar, e ele segurou o galho até que todas tivessem escapado para a terra.

“Então”, pensou o velho monge, “é por isso que os deuses prolongaram-lhe os dias”.

No livro The Art of Power, Thich Nhat Hanh frisa que “a qualidade de sua ação depende da qualidade de seu ser”. Se você não estiver feliz, por exemplo, não conseguirá oferecer a verdadeira felicidade a nenhum outro ser. “Portanto, há um vínculo entre fazer e ser. Se não conseguir ser, você não conseguirá fazer”.

Um mestre no Caminho



Hoje mais cedo, durante a palestra de Dharma, Thây comentou detalhadamente como havia lavado o rosto esta manhã. O semblante sereno do monge estava cheio de autêntica gratidão ao descrever minuciosamente a maravilhosa sensação da água no rosto e a grande alegria ao reconhecer a fonte profunda do milagre que é a água:

Meus dedos tocaram essa água que veio de tão longe, de montanhas distantes ou das profundezas da terra, e milagrosamente, estava ali em minhas mãos, em meu rosto, com o simples abrir de uma torneira. Enquanto espalhava devagar essa dádiva no rosto, pensei em toda a vida terrestre que existe graças à água. Ela estava tão fria e fresca. E eu fiquei feliz. Minha atenção me fez feliz.

Depois de descrever a experiência transcendental da lavagem do rosto, Thây contou-nos uma história de sua infância no Vietnã. Numa excursão escolar, centenas de crianças, em pequenos grupos, aventuraram-se a subir uma montanha para apreciar do alto a paisagem.

O jovem Thây ficou animado com a aventura porque ouvira dizer que um eremita, um budista misterioso, vivia e meditava em solidão naquelas montanhas. Na animação, Thây e as demais crianças de seu grupo subiram a montanha depressa e, a meio caminho, já haviam bebido toda a água que levavam. E depois, para decepção de Thây, esse fugidio eremita, um ser quase semelhante ao Buda, não se encontrava em lugar nenhum.


Quando as crianças se sentaram para comer seus lanches, Thây resolveu explorar um pouco mais e entrou sozinho no bosque. Não demorou muito e o escolar ouviu o som de água correndo. Seguiu-o e encontrou uma nascente de água.  Por estar com muita sede, o futuro mestre zen ficou encantado ao ver a nascente.

Ao levar à água as mãos em concha, Thây caiu em sono profundo ao lado da nascente e, ao acordar, não sabia onde estava. Porém uma coisa o futuro mestre zen sabia; havia bebido a água mais deliciosa do mundo.

O jovem Thây nunca contou aos colegas a sua descoberta da nascente, por achar que isso poderia diluir a poderosa experiência espiritual que ela representara para ele. Mas, após muitos anos e muito estudo, o monge acabou contando a história do eremita e da nascente por desejar ardentemente que todos encontrassem seu próprio eremita em sua própria vida.

Como disse Thich Nhat Hanh: “Você já pode ter visto seu eremita sem o reconhecer. Talvez seu eremita não seja uma nascente. Ele pode ser uma rocha, uma árvore, uma criança ou uma montanha. Mas quando tiver encontrado seu eremita, você saberá aonde ir. E encontrará paz”.
Sobre viajantes e malas: uma reflexão


Para minha viagem à França, levei duas malas grandes com todas as coisas de que eu precisaria nos quatro meses de minha estadia. Nelas estavam minhas roupas favoritas para todos os tipos de ocasião, livros, os produtos orgânicos para o corpo de que mais gosto e várias outras coisas. E o que aconteceu foi isto: ambas as malas ficaram pesadas demais, obrigando-me a pagar as altas taxas por excesso de bagagem no aeroporto.

Depois, arrastar essas malas pelas escadas do metrô de Paris revelou-se uma coisa praticamente impossível. Dizer que eu fiquei sobrecarregada é um eufemismo. Por sorte, um mês depois de minha chegada, surgiu uma luz: uma amiga canadense veio visitar-me em Paris e concordou em levar consigo para Toronto uma de minhas malas. Minha salvadora!

Mas a mala que ficou estava cheia a ponto de arrebentar, e eu logo percebi que meus pertences haviam se tornado mais que uma carga meramente física. Quando afinal fui para a Vila das Ameixeiras, aquela mala inchada já tinha me deixado mentalmente perturbada.

“Abrir mão de posses materiais é uma boa prática para abrir mão de ideias”. Quem me dera ter ouvido esse sábio conselho enquanto estava fazendo aquelas malas. O Buda disse: “Apego a opiniões, apego a ideias, apego a percepções é o maior obstáculo à verdade”. No livro The Art of Power, Thich Nhat Hanh explica:

É como subir uma escada. Quando chega ao quarto degrau, você pode pensar que está no degrau mais alto, que não pode subir mais, e se prende a esse degrau. Mas na verdade há um quinto degrau; se quiser chegar a ele, você precisa se dispor a abandonar o quarto. Ideias e percepções são coisas que devemos abandonar o tempo todo, para dar lugar a ideias melhores e percepções mais verdadeiras. É por isso que precisamos sempre nos perguntar: “Estou certo disso?”.

Leia: Os monges e eu: como 40 dias no mosteiro francês de Thich
Nhat Hanh transformaram minha vida. Mary Paterson. Editora Pensamento, 2013. 

domingo, 27 de novembro de 2011

Viagens interiores: Walden, by H. D. Thoreau

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Há pouco tempo acabei de reler Walden, de Thoreau e não tinha intenção de escrever sobre essa leitura por um motivo muito simples: não acredito que haja mais nada a dizer sobre Walden que já não tenha sido escrito em outro lugar, e de forma muito mais competente do que eu seria capaz de fazer.

Mas uma ideia me passou pela cabeça e resolvi colocá-la em ação. Foi assim: estava lendo uma obra no meu Kindle e percebi que há um dispositivo no brinquedo que indica as passagens que foram sublinhadas por outros leitores da mesma obra. E vem lá escrito, “essa passagem foi marcada por x número de pessoas”. Bem, é mais ou menos assim, mas na prática é isso.

Quando pego um livro emprestado ou compro algum usado, a primeira coisa que faço é dar uma folheada rápida prá ver se alguém fez alguma anotação, deixou uma nota, sublinhou uma frase, coisas dessa natureza. E depois fico pensando, por que será que a pessoa marcou essa passagem, que não tem nada de mais, e deixou passar outras tantas muito mais interessantes? A resposta é simples: a leitura é sempre algo muito, muito pessoal.



Com o Thoreau é assim, cada leitor tem a sua passagem favorita de Walden. Às vezes, numa segunda ou terceira leitura outras passagens vão se somando às primeiras e daí o livro vira um punhado de rabiscos prá lá e prá cá, e depois a gente já nem sabe porque aquela passagem da página 27 foi tão marcante a ponto de ser grifada com canetas coloridas e estrelinhas de cinco pontas nas laterais dos parágrafos. Por que será mesmo?

Eu gostei tanto dessa obra que depois comprei pela Amazon uma edição capa dura cheia de fotos encantadoras do lago e seus arredores, os bosques, as plantas e flores, as folhas secas, as pedras, a poesia em forma de natureza. O Thoreau é que era esperto, escolheu a dedo um paraíso para erguer a sua cabaninha. E algo me diz que parte do sucesso dessa obra se deve ao fato de que todos temos, lá no fundo, um desejo imenso de viver algum tempo numa cabaninha à beira de um lago.


Um resuminho da obra prá quem não conhece? Vamos lá, vou transcrever algumas passagens da introdução feita pelo Edward O. Wilson para a edição ilustrada do 150º aniversário da obra, publicada no ano de 2004:


Walden não é um lago que se sobressaia dos demais lagos e bosques do interior da Nova Inglaterra. Ainda que belo e interessante por direito, não possui o impacto das White Mountains ou da vida selvagem do Maine, nem as plantas e animais encontrados por lá, mas uma fatia modesta do grandioso bioma de Massachusetts. Não importa: a grandeza desse lugar não depende de nenhuma singularidade física, ela surge a partir de mente de um homem.

Não há muito a ser dito sobre Henry David Thoreau. Basicamente, sabemos que ele construiu uma cabana pequenina num bosque próximo a uma lagoa chamada Walden (Walden Pond, em inglês), distante 30 minutos de uma caminhada a pé desde a casa de sua mãe, em Concord.


Viveu ali uma vida monacal por dois anos, de 4 de julho de 1845 a 6 de setembro de 1847, e deixou a cabana logo após completar seu aniversário de 30 anos. Seu propósito era o de pensar e escrever com um mínimo de distração, valendo-se de sua educação clássica em Harvard e de uma enorme coleção de anotações.

Em seus longos intervalos de silêncio em Walden, ele estudou minuciosamente a natureza ao seu redor durante as mudanças das estações. Em certo sentido, ele buscou uma epifania, mas apesar de estar mergulhado numa filosofia transcendentalista de forte componente espiritual, ele não teve nenhuma experiência mística.


Thoreau possuía um temperamento reflexivo e analítico; ele chegaria às suas conclusões através de argumentos fundamentados que pudessem ser expressos numa página impressa. Ele era muitas coisas, mas acima de tudo, era um escritor.


Do lado de fora de seu refúgio, seus amigos e vizinhos continuavam com suas vidas comuns em busca de sobrevivência, status e honra. Thoreau escolheu afastar-se e observar de perto o significado de sua própria vida e a dos outros; limitou sua existência física a um nível mínimo de sustento com a intenção de sentir, pela experiência, se isso o levaria a descobrir o sentido da vida e, assim sendo, publicar o resultado dessa descoberta no futuro.

Thoreau não foi um homem que se dissolveu na natureza; ele pretendeu, desde o início, viver uma experiência minimalista com o intuito de relatá-la. Ele se embrenhou na vida selvagem dando pequenos passos; não era biocêntrico, para usar um termo moderno, mas antropocêntrico. Sua paixão era a humanidade, e ele procurou o que pudesse encontrar na natureza com intenção de levar para a humanidade.



Como qualquer pessoa que viveu sozinha num meio selvagem sabe, a mente, nessas circunstâncias se abre para a natureza. Thoreau, ao afastar-se do contato intenso com os residentes de Concord e Lincoln, e livre da maior parte das tarefas cotidianas que consumiam seu tempo, tornou-se um naturalista ainda melhor do que era. Prova disso é que nos anos pós-Walden Thoreau continuou escrevendo sobre história natural, sendo que algumas de suas observações prenunciaram conceitos modernos de ecologia. Se não tivesse morrido tão cedo, aos 44 anos, Thoreau provavelmente teria se tornado um cientista bastante influente.


Na edição da obra em português, relançada há um ano pela L&PM, temos uma introdução bacaníssima escrita pelo Eduardo Bueno, que considera Walden um guia para uma viagem interior. Concordo com ele e indico veementemente a todos leitores que busquem ler essa edição (um pocket a bom preço) com a introdução de Bueno porque ele captou de maneira exemplar o espírito dessa obra, que pede um ritmo de leitura diferente, mais lento e contemplativo, para que se possa entrar no clima e ganhar tempo com o que Thoreau irá escrever nas páginas seguintes; um tempo que, no contexto de Walden, exerce papel fundamental nas conclusões e insights que Thoreau teve durante e após sua permanência no lago.

Deixo com você as passagens que mais me marcaram em minha leitura viageira pelas páginas de Walden. Pode ser que depois dessa leitura você também se anime a dar uma passadinha por lá. Boa viagem.


Quando os homens começam a fazer com o auxílio dos animais uma obra não meramente desnecessária ou artística, mas luxuosa e fútil, é inevitável que alguns cumpram toda a outra parte do acordo com os bois, ou, em outras palavras, tornem-se os escravos dos mais fortes. Assim, o homem não trabalha apenas para o animal dentro de si, mas, como um símbolo disso, trabalha para o animal fora de si. Embora tenhamos muitos casarões de pedra ou tijolo, a prosperidade do agricultor ainda é medida pela sombra que o estábulo projeta sobre a casa.


Um rapaz conhecido meu, que herdou alguns acres, me disse que gostaria de viver como eu, se tivesse os meios. Eu não gostaria que ninguém adotasse meu modo de vida em hipótese alguma; pois além de poder encontrar algum outro antes que ele tivesse aprendido direito este de agora, desejo que possa existir o maior número possível de pessoas diferentes no mundo; mas gostaria que cada uma delas se dedicasse a encontrar e seguir seu próprio caminho, e não o do pai, da mãe e do vizinho. O jovem pode construir, plantar ou navegar, basta que não seja impedido de fazer o que ele me diz que gostaria de fazer. Se somos sábios é apenas graças a um ponto matemático, como o marinheiro ou o escravo fugido que se orienta pela estrela polar; mas é um guia suficiente para toda nossa vida. Podemos não chegar a nosso porto num período calculável, mas manteremos o curso certo.


Citando Damodara (Sri Krishna): “Os únicos seres felizes no mundo são os que gozam livremente de um vasto horizonte”.


Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido.


Simplicidade, simplicidade, simplicidade! E digo: tenham dois ou três afazeres, e não cem ou mil; em vez de um milhão, contem meia dúzia, e tenham contas tão diminutas que possam ser registradas na ponta do polegar.


Há, de fato, algo de verdadeiro e sublime na eternidade. Mas todos esses tempos, lugares e ocasiões existem aqui e agora. Deus culmina no momento presente, e não será mais divino no decorrer de todos os tempos. (...) O universo responde constantemente, obediente, às nossas concepções: quer andemos depressa ou devagar, o caminho nos está aberto. Passemos nossas vidas, então, concebendo.


De manhã, eu banho meu intelecto na estupenda e cosmogônica filosofia do
Bhagavad-Gita, decorridas muitas eras dos deuses desde que foi composta, e em comparação a ela nosso mundo moderno e sua literatura parecem insignificantes e triviais; e me pergunto se não é o caso de remontar aquela filosofia a um estágio anterior da existência, tão distante está ela, em sua sublimidade, de nossas concepções.


Pouso o livro e vou à minha fonte em busca de água, e eis que ali encontro o servo dos brâmanes, o sacerdote de Brama, Vishnu e Indra, que continua sentado em seu templo no Ganges lendo os Vedas, ou habita ao pé de uma árvore com sua côdea e bilha de água. Encontro seu servo que veio buscar água para seu mestre, e nossos baldes como que se roçam na mesma fonte. A água pura do Walden se mescla à água sagrada do Ganges.


Mesmo que você aprenda a falar todas as línguas e a seguir os costumes de todas as nações, que viaje mais longe do que todos os viajantes, adapte-se a todos os climas e faça a Esfinge dar com a cabeça contra uma pedra, obedeça sempre ao preceito do antigo filósofo, e Explora-te a ti mesmo.

Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tinha várias outras vidas a viver, e não podia dedicar mais tempo àquela. É notável a facilidade e a insensibilidade com que caímos numa determinada rotina, e construímos uma trilha batida para nós mesmos. Eu vivia lá não fazia uma semana, e meus pés já tinham calcado um caminho de minha porta até o lago.



(...) A superfície da terra é macia e se deixa imprimir pelos pés dos homens; o mesmo ocorre com os caminhos por onde viaja a mente. Como, então, devem ser gastas e empoeiradas as estradas do mundo, como são fundos os sulcos da tradição e da conformidade!




Aprendi com minha experiência pelo menos isto: se o homem segue confiante rumo a seus sonhos e se empenha em viver a vida que imaginou, ele terá um sucesso inesperado em momentos comuns. Deixará algumas coisas para trás, cruzará uma fronteira invisível; novas leis universais e mais liberais começarão a se estabelecer por si sós ao redor e dentro dele; ou as velhas leis se ampliarão e serão interpretadas em seu favor num sentido mais liberal, e ele viverá com a licença de uma ordem superior de seres.




À medida que ele simplifica sua vida, as leis do universo se mostrarão menos complexas, e a solidão não será solidão, nem a pobreza pobreza, nem a fraqueza fraqueza. Se você tiver construído castelos no ar, não será trabalho perdido; é ali mesmo que eles devem estar. Agora ponha-lhes os alicerces.


Leia: Walden, ou A vida nos bosques. Henry David Thoreau. L&PM Editora, 2010.

Walden: 150th Anniversary Illustrated Edition of the American Classic. In collaboration with The Walden Woods Project. Photographs by Scot Miller. Houghton Mifflin Company, Boston/New York, 2004.