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Encontrei em meus arquivos um texto que li há
alguns anos e que gostaria de compartilhar aqui no blog com os leitores que,
assim como eu, curtem esse lance de viagem como processo de transformação
interior. Tem uma leve pegada acadêmica, mas a Vera Lucia soube transmitir suas
ideias de uma maneira muito clara e gostosa de ler, mesmo para quem não está
acostumado com as teorias de Jung ou Campbell, autores que brilham nessa área
fascinante do conhecimento interior. Para quem não está familiarizado com o
tema, sugiro ler no final do post a definição de arquétipo antes de começar a
leitura. Boa viagem.
♣
O Arquétipo do Caminho
“Ao
meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado
em selva tenebrosa.” (Dante Alighieri, A Divina Comédia)
O
Arquétipo do Caminho, da Jornada, da Peregrinação fala da eterna busca da alma
pelo seu centro. Ele se torna consciente quando percebemos que nossas vidas
traçam um longo percurso cujo sentido e significado vai se revelando à medida
que avançamos na nossa caminhada. Geralmente é por volta da metade da vida que
entramos em contato com esse arquétipo. Isso porque já percorremos um bom
pedaço da estrada e podemos olhar para trás e avaliar nosso percurso, bem como
podemos olhar para frente e ajustar nossos passos rumo a objetivos mais
abrangentes e diferenciados.
É o momento ideal para se fazer um “balanço”, uma
avaliação de nossa proposta de vida e permitir mudanças revitalizadoras, novos trajetos
e pontos de vista.
Aqui
vamos falar um pouco sobre quatro aspectos que se relacionam com a vivência
desse arquétipo e dos símbolos correlatos.
O
Jardim das Delícias. A Expulsão do Paraíso.
Esse
é o princípio de tudo: o jardim do Éden, como aparece na tradição
judaico-cristã, mas também de inúmeras outras formas análogas em várias
culturas. Há sempre um início paradisíaco, uma condição original de abundância,
plenitude, felicidade, inocência, onde todos os seres convivem em harmonia e
não há escassez, doença e morte. A ideia de um paraíso perdido, uma Idade de
Ouro que remonta à origem dos tempos, é um arquétipo universal que revela a
nostalgia por uma condição de harmonia que foi perdida e para a qual desejamos
retornar.
Efetivamente
todos nós já experienciamos uma condição de plenitude no início de nossas
vidas, dentro do útero materno: lá onde a temperatura, o alimento, a proteção
estavam sempre presentes sem que precisássemos fazer qualquer esforço; lá onde
não havia separação, dualidade, angústia ou perdas e estávamos imersos e
fundidos na totalidade. No entanto, se quisermos crescer e nos desenvolver
chega o momento em que temos que abandonar esse paraíso e como no Gênesis,
somos expulsos da nossa inocência ou inconsciência original para que possamos
aprender, a desenvolver a consciência e iniciar a jornada.
Esse
período inicial é muito importante porque permanece como referência de um
estado de harmonia e plenitude que já foi vivido realmente e que portanto pode
ser recuperado. Nos momentos mais difíceis e dolorosos essa vivência inicial
pode servir como a chamada “luz no fim do túnel” e ser nossa guia rumo à saída
para o sol. Porém, se nos recusamos a sair desse paraíso ele rapidamente se
transforma e pode nos devorar, impedindo nosso crescimento e desenvolvimento. A
“Mãe Amorosa” se revela então como a “Deusa Destruidora”, os animais amigos se
transmutam em dragões e monstros ameaçadores. Assim, querendo ou não, somos
lançados na outra etapa do caminho.
O
Início da Jornada. O Labirinto.
Toda
vez que abandonamos uma situação conhecida e cômoda, que, no entanto, já estava
esgotada em suas possibilidades de crescimento, é como se saíssemos do regaço
materno, da segurança do paraíso para nos perder no caos de um mundo sem
referências, a selva tenebrosa de Dante. Esse início de jornada pode ser
voluntário ou forçado por uma circunstância adversa que a vida nos proporciona,
mas em ambos os casos é sempre um período muito difícil. Não há sinais de
orientação, não há estradas retas e bem demarcadas, não sabemos para onde ir,
como ir e o que procurar. Temos que ir andando às apalpadelas, tateando, caindo
e levantando. É um período perambulação, mas também de grandes possibilidades
de evolução. Nos tornamos peregrinos, buscadores e experimentadores e é exatamente
esta incerteza que abre espaço para o “novo” surgir.
Caminhar
dentro do caos com paciência, persistência e abertura para acertos e erros, faz
surgir uma nova luz, uma nova percepção e o labirinto se revela como um caminho
espiralado que pode nos levar ao centro, ao tesouro perdido, à harmonia e paz
do paraíso. Mas, durante a caminhada no labirinto não sabemos se estamos
próximos ou não do centro. O caminho de volta também não é evidente e assim
temos que aprender a enfrentar nossos medos e não fugir dos desafios. Isso nos
leva à próxima característica simbólica da nossa jornada.
As
Tarefas do Percurso. O Herói.
Ao
aceitarmos a caminhada e os desafios que ela nos propõe, começamos a vivenciar
outro arquétipo que nos ajuda a cumprir nossas tarefas: o arquétipo do herói.
Este arquétipo é a vivência do desenvolvimento da nossa força, das nossas
habilidades, do nosso saber, das potencialidades ignoradas que vão se
aprimorando à medida que enfrentamos nossos monstros interiores.
É
preciso muita coragem para entrar no labirinto e se perder antes de poder se
encontrar. No entanto, esta não é a prova mais difícil. Depois de termos
vencido nossos medos, fragilidades e limitações e termos cumprido com as
tarefas que a vida nos propõe, começa outra etapa que é o aprendizado da
humildade. Temos que reconhecer que mesmo sendo heroico, o ego está subordinado
a um princípio maior, e que só a conexão com este princípio pode proporcionar
sentido e significado a todas as conquistas obtidas. O herói não pode ficar
preso na armadilha da sua própria habilidade e força em vencer os dragões, ele
deve vencer também a sua vaidade e prosseguir a caminhada rumo ao centro. Para
isso ele tem que reconhecer que sua força provém exatamente desse centro. Esse
reconhecimento permite que o arquétipo do herói se transmute no arquétipo do
Sábio e é essa vivência de sabedoria que finalmente nos leva de volta à casa,
ao paraíso perdido.
O
Retorno ao Centro.
Estar
no centro é a vivência de recuperação da harmonia, da paz e do equilíbrio
perdido. É a volta a casa, à experiência de plenitude original só que agora não
mais vivida inconscientemente como no início. Agora a experiência é produto de
uma busca consciente e voluntária.
A
caminhada no labirinto se transforma em “circum-ambulação”, ou seja, caminhamos
agora em torno do centro, de onde emana nossa força e alento. Estamos novamente
próximos da fonte original de inesgotável abundância, felicidade, amor, beleza
e sabedoria. Quando o ego e o Self se encontram há uma intersecção do mundo
visível com o invisível, um casamento do Céu com a Terra, do sagrado com o
profano e abre-se a porta para transformações profundas que vão além da
compreensão intelectual. A personalidade se amplia para receber a vivência do
numinoso e finalmente exercer sua totalidade.

Depois
de conseguirmos chegar ao centro e sermos abençoados com essa vivência temos
que retornar à vida cotidiana e compartilhar o que recebemos, compartilhar o
tesouro encontrado. Só assim se completa o círculo da jornada que temos que
percorrer infinitas vezes durante a vida. O arquétipo do caminho se revela
enfim como uma pulsação em torno do centro, em um ir e voltar, um achar e
perder o rumo, em idas e vindas constantes que vão tecendo um desenho com mil
cores e formas, que se desmancham e voltam a se formar, como as belas mandalas
de areia tibetanas.
E assim como as mandalas nos ensinam, também o nosso
caminhar nos revela que o essencial está sempre presente e está além de todos
os caminhos. Ele engloba tudo: o paraíso inicial, o labirinto das ilusões, as
lutas do herói, a chegada ao centro e se faz presente em todos os grandes e
pequenos momentos, a cada gesto e curva do caminho.
♣
“A
senda é a companheira que desposei.
Ela
me fala debaixo de meus pés o dia todo,
e a
noite inteira canta para os meus sonhos.
O
meu encontro com ela não teve início.
Ele
começa infinitamente ao raiar de cada dia,
renovando
o seu verão em novas flores e canções,
e
cada novo beijo dela é o seu primeiro beijo para mim.
A
senda e eu somos amantes.
A
cada noite eu troco de veste por sua causa,
e a
cada amanhecer eu deixo nas pousadas do caminho
o
estorvo dos velhos farrapos.”
(R.
Tagore, Presente de Amante e Travessia)
♣
Nota: Arquétipo
é descrito pelo psicólogo Carl Gustav Jung como um conjunto de imagens
psíquicas presentes no inconsciente coletivo que seria a parte mais profunda do
inconsciente humano. Os arquétipos são herdados geneticamente dos ancestrais de
um grupo de civilização, etnia ou povo. Os arquétipos não são memórias coesas e
"palpáveis" no contexto ou definição clássica de memória, mas são o
conjunto de informações inconscientes que motivam o ser humano a acreditar ou
dar crédito a determinados tipos de comportamento. Os arquétipos correspondem
ao conjunto de crenças e valores comportamentais básicos do ser humano e podem
se manifestar nas crenças religiosas, mitológicas ou no comportamento
inconsciente do indivíduo.