quarta-feira, 11 de junho de 2014
El Caminante (Caminhada), by Hermann Hesse
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Vagamundagem psicodélica: a filosofia de estrada de Ed Buryn
Fui atrás de literatura e consegui garimpar na Amazon um exemplar das viagens que o Ed Buryn fez pela Europa e pelo Norte da África (Vagabonding in Europe and North África); os livros do Ed estão fora de catálogo, de modo que não é uma tarefa muito fácil conseguir exemplares há muito esgotados. Com a sorte ao meu lado, comprei aqui mesmo num sebo virtual outra obra do Ed, Vagabonding in the USA, e agora posso dizer com muito orgulho que possuo suas duas principais publicações.
O Ed Buryn é famoso nesse meio underground de viajantes vagamundos outrora jovens nas décadas de 60 e 70. Foi quase um guru da moçada hippie daqueles anos psicodélicos - que achava que viver era cair na estrada - porque publicou guias que não eram apenas apanhados de dicas para viajantes mochileiros. Seus escritos traziam poucas informações sobre destinos específicos, sendo antes de tudo um guia de estilo de viagem; também fizeram a cabeça num sentido mais elevado: tinham um conteúdo espiritual cuja mensagem central era a de mostrar que a viagem, quando bem programada, podia servir como um meio de transformação interior. Fazem parte do vocabulário alternativo desses livros os termos que marcaram aquela geração power-flower: expansão da consciência, Energia Cósmica, busca espiritual, iluminação, vibração e outras delícias semânticas.
O estilo de viagem apregoado pelo Ed Buryn ainda me parece muito cativante e plausível, mesmo com todas as mudanças tecnológicas que tornaram os deslocamentos mais práticos e, convenhamos, menos aventureiros em relação ao passado (nem tão distante assim). Para o velho hippie, o bom vagamundo é aquele que viaja de maneira independente, priorizando o encontro com a gente local, economizando o mais que puder e planejando o mínimo possível seus deslocamentos, deixando que o acaso o guie como uma folha levada pelo vento.
Viajar com baixo orçamento é especialmente importante; o dinheiro compra luxo e conforto, distorcendo assim a realidade e isolando os viajantes dos agentes de transformação presentes nos deslocamentos: desafios inesperados, riscos, surpresas e desconfortos. Uma viagem significativa também requer o encontro, o contato entre as pessoas; Buryn encorajava seus leitores a relacionarem-se com estranhos, mas sem esquecer de visitar seus parentes, ex-namorados/as, e outras pessoas que pudessem ensinar algo mais sobre eles próprios. Quanto menos planejados esses encontros, tanto melhor. Liberdade era o lema; flexibilidade, essencial.
Nada disso me parece utopia, sinceramente. Lembrei-me de um caso insólito que aconteceu comigo há quase dez anos. Eu fazia um trabalho voluntário que era basicamente servir de hospitaleiro a peregrinos e viajantes que chegavam da França após a travessia dos Pirineus, fronteira natural com a Espanha. Todos os dias, para afastar o tédio da solidão, eu saía de Arrés, o povoado aragonês onde ficava o meu refúgio de montanha, e descia até um pueblo distante uns três ou quatro quilômetros, chamado Puente la Reina de Jaca.
A paisagem era linda e no outro pueblo havia um bar onde eu me sentava e bebia uma taça de vinho, às vezes duas. Depois saía para fumar um cigarrinho no ponto de ônibus da rua principal, que por acaso era a estrada que ligava um país a outro. Essa era minha diversão diária e eu era muito feliz a meu modo. Melancolicamente feliz.
Naquele dia, ouvindo pela milésima vez uma fita do Neil Young no meu walkman, sentado naquele banco de parada de ônibus em frente à ponte sobre o rio Aragon, avisto um peregrino pomposo, tiozinho de uns sessenta anos, descendo a trilha na direção oposta à minha. Roupa e botas de boa qualidade, cajado high-tech (que eu detestarei até a morte) e ósculos escuros. Devia ser francês, espanhol jamais. Magro, cabelos grisalhos com volume, tinha numa das mãos uma coisa esquisita que eu nunca havia visto. Achei que fosse um rádio, tipo walkie-talkie.
Atravessei a carretera e fui ter com o tiozinho, que parecia estar perdido. Só falava francês (bingo!) e você sabe, francês só fala a própria língua, mas consegui entender alguma coisa, e essa coisa era que ele estava indo para Arrés, onde pretendia pernoitar naquela noite.
Bom, eu estava em Arrés, como já disse, de modo que lhe expliquei que o acompanharia até lá. Mas que nada. O velhote, pomposo e esnobe, me disse que preferia seguir as indicações do seu aparelho, um tal de GPS (juro que eu nunca havia visto um). Fiz aquela cara de quem não está entendo nada e vendo que o fulano ia tomando a direção errada, me desesperei e tentei epileticamente mostrar que a direção para o pueblo era a que eu havia indicado.
Nem adiantou, e lá se foi o tiozinho pateteando estrada afora sabe-se lá para onde com seu aparelhinho burro. Apertei o play do meu walkman e o som da gaita do Neil me embalou na volta a casa, seguindo dessa vez a trilha pela montanha; cheguei ao refúgio uma hora depois, fiz meu almoço, sentei para escrever, fiquei olhando o sol se por no vale e quando começava a escurecer, bate na porta um francês, nada pomposo, suado e com cara de pastel que, sabe-se lá o motivo, deixou-se levar pela conversa de um tal de GPS... Fazer o quê?
Isso me marcou tanto que desde aquele episódio vejo com certo preconceito o uso da tecnologia em minhas andanças, a ponto de não conceber a ideia de um dia carregar um telefone celular comigo em uma viagem, por mais prático e útil que isso seja – e eu sei que é. Mas se não uso celular nem no meu dia a dia, quanto mais viajando.
Na primavera passada fiz um percurso de sete dias pela Galícia com minha irmã. No primeiro dia nos desencontramos (vacilo dela) e o acaso fez com que nos encontrássemos onde não havíamos combinado, já tarde da noite em um albergue. Nem preciso comentar a quantas estava meu humor.
Para ela, aparentemente estava tudo bem. Havia enviado um email do seu “aifone” dizendo para que não me preocupasse. Demorei para entender, como é que isso me ajudaria se eu estava no meio do nada e sem telefone ou acesso a internet, mas para ela, acredito, o que valeu foi a intenção. Coisas da modernidade.
Por isso eu entendo a postura do Ed Buryn e aprecio muito suas ideias, porque sem conhecê-lo já as botava em prática. Talvez tenhamos uma visão romântica sobre a experiência da viagem, mas sei que há muitos que ainda prezam essa maneira simples e mais desapegada de viajar.
Outra coisa interessante a respeito do Ed Buryn é que, apesar de viver numa época em que o uso das drogas era quase que uma experiência obrigatória entre malucos e malucas, ele não fazia apologia a elas (embora não fosse contra, muito pelo contrário); sua “viagem” se dava através de outras alternativas, no caso as deambulações. (Interessante aqui é notar a associação que existe entre o uso de uma droga alucinógena com o ato de viajar, mostrando, ou insinuando, que em ambos os casos existe um contato mais profundo com o Eu).
O Ed dizia que os seres humanos são capazes de filtrar os fluxos de energia e de informação disponibilizadas pelo universo, através de hábitos, rotinas e padrões sociais de percepção, mas que a sociedade moderna acabou por inibir o acesso a essa energia, algo como ter “os canais bloqueados”, numa linguagem puramente new age.
Daí que o jeitinho hippie de retomar esse acesso ao fluxo de energia cósmico, de provocar uma limpeza nas “portas da percepção” foi o de apelar para as drogas, naturais, sintéticas e outras tais. Só que o Ed Buryn tentou mostrar, empiricamente, que havia outros caminhos, entre eles a vagamundagem. Para ele, vagamundear tinha o mesmo efeito das drogas alucinógenas: ao expor o viajante às dificuldades, ao desconhecido, ao inesperado, ela rompia os padrões petrificados da percepção. Isso forçava as pessoas a se livrarem das raízes dos hábitos, libertando a Energia neles estagnada. Vagamundagem é uma forma de psicodelia natural, por ser capaz de expandir a consciência das pessoas e deixá-las chapadas. Beleza.
Não sejamos preconceituosos: tirando esse discurso hippie datado – e limpando algumas arestas – a filosofia do Ed Buryn traz conceitos simples e eficazes que colaboram para olhar as viagens sob uma ótica diferente, mesmo que aparentemente antiquada.
Você lerá abaixo pequenos trechos pinçados quase todos eles do livrão (é grande mesmo) Vagabonding in America. Uma pena que minha cópia, de 1973, esteja toda carcomida por traças ordinárias e cafonas que deixaram seu rastro sem piedade pelas páginas amareladas e soltas desse meu exemplar. As fotos dessa postagem foram todas tiradas do livro que tenho em mãos e por sorte foram poupadas do banquete traçal. Boa viagem e Namastê!
♣
Viajar não é apenas deslocar-se de um canto a outro do planeta valendo-se de algum tipo de transporte. Não tem a ver com o local para onde você se dirige ou como faz para chegar até lá. Nem mesmo como fazer para cair fora de um lugar. De fato, é justamente o oposto disso... é um meio de chegar até ele. Viajar é uma metáfora da vida, um caminho para experienciá-la mais intensamente e de maneira mais consciente. Viajar não é tanto uma ação, senão um estado de iluminação da consciência, abrindo-o a novas experiências, a novos olhares para o mundo a para sua participação nele.
♣
Rotinas e hábitos são o Conhecido, protegendo-nos do Desconhecido. Hábitos também são chamados de lar. Os hábitos domesticam a pureza selvagem da existência com os confortos civilizados da vida diária. Infelizmente, como sabemos, os hábitos domesticam gradualmente toda a impetuosidade e energia da vida. Muita energia se perde com a rotina e com os hábitos padronizados, mantendo-os vivos, enquanto sua vida se esvai. Desta forma, se você quiser descobrir novamente o lado selvagem da vida, você tem que deixar o “lar”; você tem que quebrar ou dissolver seus hábitos com o objetivo de libertar a energia bloqueada presa a eles.
♣
O viajante luxuoso e seu primo pobre, o turista comum, estão constantemente atados à grana e a outros produtos de valor. São vítimas de uma alimentação inflacionada e pobre de nutrientes; são apresentados a entretenimentos caros e vulgares; zombam de si próprios; são conduzidos como um rebanho para atrações que os aborrecem. Isso não é viajar; isso é uma carnificina da alma. Isso é como o dinheiro, uma forma artificial de energia, distorce a realidade para seus próprios fins. Viajar de forma econômica, seja de que maneira for, enfraquece o poder do dinheiro, que ao fim e ao cabo só beneficia a Indústria do Turismo.
♣
Aprenda a aceitar as mudanças e dê as boas vindas ao acaso.
♣
As pessoas não querem mudar a não ser que sejam forçadas a isto. Temos sido condicionados a estruturar e controlar nossas vidas com o intuito de resistir às mudanças, até mesmo a bloqueá-las se possível, para segurança, criar regras, fazer planos, organizar, fazer cumprir, e por aí vai. O problema com isso tudo é isso já não funciona mais. Nós estamos desenergizados e confusos, com medo do mundo, incertos quanto a nós mesmos. Por que? Porque nosso senso de controle é uma completa ilusão; ele não se enquadra no mundo da forma como ele é, por ser uma versão barata e obsoleta que nós criamos para poder “controlá-lo”.
Vagamundear é uma técnica efetiva para acabar com essa ilusão e você sabe que isso funciona porque faz com que você se sinta bem. Você pode novamente tornar sua vida alegre e você consegue isso prestando atenção à mudança e ao acaso, que se manifestam em qualquer momento, com todas as pessoas e em todos os lugares. O vagamundo aceita mudanças e dá as boas vindas ao acaso, porque essas atitudes são os sinais de que a energia flui, são o centro da vida. Estar aberto à mudança e ao acaso – o espírito da vagamundagem – te eleva automática e infalivelmente e expande seus potenciais de modo que você possa topar com suas demandas encantadoras.
♣
Muitos viajantes comuns tentam controlar tudo, com a intenção de proteger suas ilusões dos desagradáveis choques da realidade. O que eles conseguem com isso é perturbação e paranóia. Ao pré-planejar cada aspecto de suas viagens, seja nas férias ou na viagem de suas vidas, eles acham que conseguem lograr o inimaginável fluir do processo natural (também conhecido como Destino ou vontade de Deus). O que eles manipulam são imitações insignificantes da realidade, um mero fragmento de energia. Vagamundos têm um melhor conhecimento e reservam os detalhes de suas viagens com um agente chamado Acaso. Abrir mão do controle de sua vida te liberta da ilusão de querer controlá-la, e em troca essa liberdade te conecta com uma energia impressionante, com um potencial ilimitado.
♣
Ao não saber para onde se vai, você presta mais atenção onde se encontra, seja lá onde for.
♣
Seu tempo livre é o que mede a qualidade de sua vida. Ter como objetivo a busca de mais liberdade pessoal é tão válido quanto – e ultimamente mais prático ainda – atingir uma meta de riqueza financeira e de abundância material. Hoje, nossa sociedade fornece mais oportunidades do que nunca para sobreviver com estilo, para viver bem sem ter que se transformar num robô cultural. Viver à margem da sociedade é mais fácil e muito mais recompensador do que viver num meio pressurizado estatisticamente, onde se encontram todas as regras.
Mas tenha cuidado, pois um gostinho de liberdade quase que inevitavelmente leva a desejá-la ardentemente; ela te engancha, o que é maravilhoso. Muitas pessoas não entendem isso porque já se esqueceram de como era sentirem-se livres. Elas acham que isso é impossível, quando na verdade a liberdade está bem diante delas, bastando apenas desejá-la para se obtê-la. As pessoas temem a luta pela liberdade, mas nunca dão o crédito à sua recompensa.
♣
Não há nenhuma experiência que valha, a não ser a sua própria. Abandone as muletas que o mantém atrelado à experiência alheia, deixe de ser guiado e conduzido por outro alguém. Você é seu próprio perito. As únicas viagens as quais sou perito são as minhas próprias, que podem ter pouco a ver com as suas. Eu não posso ser o seu perito, apenas o seu assessor, e eu te aconselho: transforme-se em seu próprio perito.
♣
O dinheiro é a riqueza do materialista e opera milagres no domínio físico. O tempo é a riqueza do peregrino, e opera milagres em todos os domínios.
♣
O desejo de viajar reflete uma atitude positiva. Você quer ver, quer crescer com a experiência, e presumivelmente deseja tornar-se mais completo como ser humano. Vagamundear leva isso a um passo além: promove a chance de sustentar e fortalecer essa atitude positiva. Enquanto vagamundo você começa a encarar seus medos de vez em quando, ao invés de evitá-los continuamente em nome da conveniência. Você constrói uma atitude que faz com que a vida seja mais recompensadora, o que em troca torna mais fácil o seu empenho. É um parecer positivo e que funciona. Vagamundagem é um modo de encarar esses medos e de começar esse processo de regeneração.
♣
Tenha em mente que a vantagem especial de vagamundagem é a experiência de não saber o que acontecerá a seguir, o que você pode obter com tarifas baixas em todos os casos. Esse tipo de incerteza feliz mantém você no momento presente, a melhor postura para ver e aprender. Você não sabe quem irá encontrar, quais experiências terá se sair da rota, que coisas aprenderá que não se encontram nos guias turísticos... os desafios que você vai encarar não oferecem alternativa a não ser a de enfrentá-los. E ao fazer isso, sua vida estará sendo plenamente vivida.
♣
Esse livro é basicamente um guia prático de como se dar bem numa viagem mais longa, ou seja, não se dirige ao leitor turista mas ao vagamundo – daí o título. Algumas dicas hoje soam hilárias, por conta das grandes mudanças ocorridas nos últimos quarenta anos, e por isso mesmo valem como um testemunho histórico das viagens numa época marcada pelo movimento da contracultura.
Os capítulos aparecem nessa ordem: Introdução (definição de vagamundo); Pré-requisitos; Aonde ir; Quando ir; Como chegar; Com quem ir; Roupa e Bagagem; Sobre como descolar uma carona e suas técnicas; Caminhando e Pedalando; Trens e Ônibus; Rodando de carro ou motocicleta; Sobre Trailers; Encontrando um lugar para dormir; Vivendo um tempo no exterior (estudo, trabalho, comunidades alternativas..); Contato com as pessoas; Outros.
No final há um apêndice com a lista de cada um dos países visitados pelo Ed Buryn na Europa e no norte da África. Nada muito extenso e segue mais ou menos a linha do que se lê nos guias despojados da Lonely Planet. O que vale a pena nessa leitura, o que a torna diferente de tantas outras nessa linha, são os comentários do autor, seu humor (as fotos são um barato!) e sua visão particular do mundo.
Em Vagabonding in America, Ed Buryn caprichou muito mais na escrita, filosofou, contou contos e aumentou muitos pontos. É um documento de uma época, com farto repertório contracultural. Quase tudo o que você leu nessa postagem (com exceção de uma passagem) foi transcrito dessa obra, incluindo as fotos em sépia. Há tanta coisa boa nesse livro que daria para escrever mais umas três postagens no estilo desta. Mais para frente, quem sabe!
♣

O Ed Buryn tem um blog, mas não o atualiza há tempos. Mesmo assim, vale a pena dar uma bisbilhotada. Em outro link encontrei um artigo dele que fala sobre uma técnica de meditação sentada para a Cura. Se você curte essa onda, clic aqui.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Vagamundos, by Rolf Potts

Eu disse vagamundos? Sim, vagamundos, que é como ele denomina esses tipos de aventureiros e aventureiras descolados. Preferi usar o termo vagamundo a vagabundo (na tradução de vagabond) porque este último carrega um sentido muito pejorativo na nossa língua.
O Rolf diz que vagabond é um termo derivado do latim para wanderer, substantivo que em inglês se utiliza para se referir ao viajante que não tem residência fixa. Já o Aurélio é muito mais criativo em sua definição de vagabundo; além de explicar que o vagabundo é aquele (a) que leva uma vida errante, que vagueia, ele arruma uns sinônimos cheios de graça: vadio, inconstante, nômade, andejo, mundeiro, volúvel, leviano, velhaco, pilantra, canalha, biltre, reles, ordinário, desocupado, ocioso, vagamundo, troca-pernas, valdevino, caça-fecho, cafumango, calaveira, calça-fecho, calça-foice, lustra, lustroso, ximbo.
Dessas palavras todas considero vagamundagem a mais apropriada à tradução que fiz para Vagabonding, que é o título da obra do Rolf Potts. Agora chega de explicações e vamos ao que interessa. A obra possui duzentas páginas e o sumário divide-se assim: I) Vagamundagem; II) O começo; III) Pé na estrada; IV) A longa jornada e V) Voltando para casa.Claro que, num trabalho desse porte, há toneladas de conselhos e dicas de gente experiente. Alguns úteis, outros nem tanto, alguns que a gente lê e pensa com maldade que “é coisa de americano”, e por aí vai. Mas de um modo geral eu gostei do livro do Rolf e também de seu estilo despretensioso e bem-humorado.
Uma ideia bacana do Rolf, que já vi funcionar igualmente bem em outras obras, foi a de colocar no final de cada tópico entre os capítulos de cada uma das cinco seções um pequeno e simpático Vagabonding Profile, ou seja, o perfil de algum vagamundo tomado como modelo ou inspiração (não se esquecendo das pioneiras mulheres vagamundas). E desses perfis surgem nomes de bom quilate: Walt Whitman, Thoreau, Bayard Taylor, John Muir, John Ledyard, Ed Buryn e Annie Dillard, entre outros.
Citações, opiniões de gente desconhecida que caiu na estrada, dicas de leitura e sites de interesse ajudam a enriquecer o trabalho do Rolf, que por sinal mantém um blog bacana criado evidentemente para vender seu peixe – certo está o moço.
Escolhi para o Odepórica o capítulo 5 intitulado “Não estabeleça limites” (Don’t set limits), da seção Pé na estrada. Tomei a liberdade de excluir alguns parágrafos, com o cuidado de não alterar a mensagem e o sentido do texto. Boa viagem e Namastê!
♦
Não estabeleça limitesOs budistas acreditam que nós levamos nossas vidas como se vivêssemos dentro de uma casca de ovo. Assim como uma galinha que ainda não saiu do ovo possui poucas pistas sobre o sentido da vida, a maioria de nós possui apenas uma vaga noção do enorme mundo que nos rodeia.
“Excitação e depressão, fortuna e desventura, prazer e dor,” escreveu Dhammapada Eknath Easwaran, “são tempestades em um pequenino e individual reino de casca de ovo – no qual tendemos a passar toda uma existência. Ainda assim, podemos quebrar essa casca e ingressar em um novo mundo.”
Vagamundagem não é o Nirvana, claro, mas a analogia com o ovo pode ser aplicada aqui. Ao deixar as rotinas e obrigações do lar para trás – tomando aquele resoluto primeiro passo em direção ao mundo – você se verá lançado a um paradigma muito maior e menos constritivo.Nos estágios de planejamento de suas viagens, esta ideia pode parecer assustadora. Mas uma vez que você entra de cabeça e cai na estrada, logo percebe como tudo rola fácil e de maneira eletrizante. Experiências comuns (como pedir uma comida ou tomar um ônibus) irão de repente parecer extraordinárias e cheias de possibilidades. Todos os detalhes da vida diária que você ignorava quando estava em casa – o sabor de um refresco, o som de um rádio, o cheiro do ambiente – vão repentinamente parecer ricos e exóticos.
Comida, moda e entretenimento irão parecer deliciosamente peculiares e absurdamente baratos. À parte todos os seus preparativos, você invariavelmente se pegará querendo saber mais sobre as histórias e as culturas que o cercam. O tênue murmúrio do desconhecido, assustador a princípio, logo se mostrará viciante: simples incursões ao mercado ou uma ida ao banheiro podem transformar-se em uma aventura; conversas banais podem criar agradáveis laços de amizade. A vida na estrada, você logo descobrirá, é muito menos complicada do que você poderia imaginar, embora intrigantemente mais complexa.
“Viajar, em geral, e vagamundear, em particular, resulta numa enorme experiência de vida”, escreveu Ed Buryn, “...uma provação de incidentes, impressões e detalhes de vida que são ao mesmo tempo estimulantes e exaustivos. Tantas coisas novas e diferentes acontecem com você de maneira tão freqüente, justamente quando você se encontra mais sensível a elas... Você pode ficar excitado, chateado, confuso, desesperado e surpreso, tudo isso num único e alegre dia.”Se há alguma coisa a ser lembrada e posta em prática em meio à excitação dos seus primeiros dias na estrada, é esta: vá devagar. Para os vagamundos de primeira viagem, essa pode ser a lição mais dura de compreender, já que sempre parecerá que há muito que se ver e experimentar. Entretanto, você tem que ter em mente que o ponto principal de uma viagem de longa duração é ter o tempo para mover-se deliberadamente pelo mundo.
Vagamundear não trata apenas de escolher um período mais ou menos longo de sua vida para viajar, mas sim de redescobrir inteiramente o conceito de tempo. Em sua vida rotineira, você é condicionado a executar seus afazeres, atingir seus objetivos e mostrar sua eficiência a cada momento do dia. Na estrada você aprende a improvisar seus dias, a dar uma segunda olhada em tudo aquilo que vê, e não fica obcecado com os seus horários.
O lance é facilitar sua vida no período da vagamundagem. Aclimate-se primeiro, relaxando em algum lugar mais centralizado. Não tente querer conhecer todos os pontos turísticos locais e nem formule uma lista de “coisas para fazer”. Olhe e escute atentamente o ambiente. Perceba o prazer contido nos pequenos detalhes e diferenças. Veja mais e analise menos; aceite as coisas como elas são. Pratique a sua flexibilidade e paciência – e não decida antecipadamente quanto tempo irá permanecer em um local ou em outro.Em muitos sentidos, essa transição no contexto da viagem pode ser comparada à infância: tudo aquilo que se vê é novo e mexe com o estado emocional; tarefas básicas como comer e dormir passam a ter um significado potencializado e o entretenimento pode ser encontrado nas mais simples curiosidades e novidades. “De repente você volta a ter cinco anos novamente”, diz Bill Brysson. “Você não consegue ler nada, e apenas possui o mais rudimentar senso de como as coisas funcionam; você nem mesmo pode atravessar uma rua com segurança sem o perigo de perder a vida. Toda a sua existência se transforma numa série de conjecturas interessantes.”
De certo modo, caminhar por lugares novos com os instintos de uma criança de cinco anos é libertador. Você não se encontra mais ligado ao seu passado. Ao viver tão afastado do seu lar, você logo se verá segurando um livro com páginas em branco. Não há melhor oportunidade para livrar-se de velhos hábitos, encarar medos latentes e testar as facetas reprimidas da sua personalidade.Socialmente, você verá que é fácil se entrosar com as pessoas e manter a mente aberta. Mentalmente, você se sentirá engajado e otimista, pronto pela primeira vez a ouvir e aprender. E, mais do que tudo, você vai encontrar-se alvoroçado com aquele sentimento peculiar de ter o poder de escolher seguir (literal e figurativamente) para qualquer direção no momento que você mesmo determinar.
No início, é claro, você irá cometer erros de viagem. Comerciantes duvidosos podem te burlar, o desconhecimento dos costumes locais pode fazer com que você ofenda as pessoas, e você sempre se encontrará vagando perdido pelas mais estranhas redondezas. Alguns viajantes fazem um esforço enorme para evitar essas mancadas próprias dos neófitos, mas na verdade elas são uma parte importante do processo de aprendizagem. Como diz o Corão Sagrado, “Você achou que poderia entrar no Jardim da Felicidade sem passar pelos mesmos caminhos trilhados por aqueles que caminharam antes de você?” De fato, todo mundo começa como um vagamundo novato, e não há razão para supor que será diferente contigo.
Gafes e decepções

Uma das minhas primeiras gafes como vagamundo aconteceu em Macau, quando encontrei uma pequena inclinação gramada durante uma caminhada debaixo da muralha do forte português daquela localidade. Por ter passado a maior parte da semana pelos confins de concreto de Hong Kong, aquela faixa de grama verde era muito tentadora para passar despercebida.
Joguei minha pequena mochila de lado e me esparramei na grama ainda úmida sob o sol da tarde. Eventualmente, percebi que uma multidão de gente local estava me olhando. Eu acenei, e eles riram. Num primeiro momento eu imaginei que eles estavam encantados com a minha alegre informalidade, até que um estudante que falava inglês se aproximou educadamente de mim.
“Desculpe”, ele disse, “mas não é saudável sentar-se nessa grama”.
“Tudo bem”, respondi. “De onde eu venho nós fazemos isso o tempo todo. É para isso que são feitos os parques; alguns insetos e um pouco de pólen nunca machucou ninguém.”
“Sim”, disse o jovem, ruborizado com minha estupidez, “mas de onde eu venho, a grama serve apenas como banheiro de cachorro.”
Já não me lembro o que respondi depois de ouvir aquela revelação surpreendente, mas o ponto é que todo vagamundo acaba, numa hora ou outra, agindo como um turista idiota.
“Uma das habilidades essenciais para um viajante”, observou o jornalista John Flinn, “é encarar a si mesmo como um tolo extravagante”. Em assim sendo, permita-se rir e aprender com os seus infortúnios. Você não só aprenderá coisas novas sobre si e sobre quem o cerca nesse processo, mas também irá fazer um curso intensivo sobre como funciona a vida de um viajante (que inclui rituais mundanos tais como barganhar por legumes, perambular por lugares desconhecidos com um mapa de guia de viagem, e lavar as suas roupas na pia do hotel). Agindo de maneira apropriada, em poucos dias você estará sintonizado com a vida de vagamundagem.
De maneira geral, você sempre inicia suas viagens fazendo as coisas que sempre sonhou enquanto planejava sua visita. Mas, infelizmente, a vida no circuito das viagens não é uma sucessão interminável de momentos mágicos e de experiências fenomenais – e algumas atrações e atividades acabam tornando-se redundantes depois de um tempo. Além disso, as principais atrações de uma viagem (dos templos de Luxor às festas das praias caribenhas) podem estar tão abarrotadas de gente por conta de sua própria popularidade que fica até difícil poder curtir alguma coisa.
De fato, um dos maiores clichês da viagem moderna é o medo de se decepcionar em um lugar que você sempre sonhou em conhecer. Lembro-me de uma tira de jornal que mostrava um homem numa agência de turismo admirando os pôsteres dos destinos mais famosos do mundo. “Todos esse lugares me parecem demais”, ele diz, “Não vejo a hora de me desapontar!”
Em outras palavras, as atrações turísticas são definidas pela sua popularidade coletiva – a mesma popularidade que tende a desvalorizar a experiência individual dessas atrações.
Mas esse sentimento de desapontamento pouco afeta a estrada; a razão pela qual muitos viajantes se sentem frustrados enquanto visitam os destinos mais famosos do mundo se encontra no fato de que essas pessoas continuam jogando de acordo com as regras de casa, buscando recompensas que só chegam através da velha conduta rotineira e cheia de protocolos. Portanto, na estrada, você jamais deve se esquecer que só a você cabe o controle exclusivo de sua agenda.
Neste sentido, vagamundagem é como uma peregrinação sem um destino ou objetivo específico – não uma busca de respostas, mas uma celebração das questões, um abraço do ambíguo, e uma abertura a tudo o que aparece no seu caminho.
Se você cair na estrada com agendas e metas específicas a serem cumpridas, na melhor das hipóteses você irá descobrir o prazer de realizá-las.
Mas se você viajar com os olhos abertos com uma atitude simples e de curiosidade, você descobrirá um prazer muito mais gratificante – aquele sentimento simples de possibilidade que sussurra em cada direção enquanto você se move de um lugar a outro.
♦

Leia: Vagabonding – An uncommon guide to the art of long-term world travel. Rolf Potts. Villard: New York. 2003.
♦
Visite o site do Rolf Potts.
http://www.vagablogging.net/
Outros sites que recomendo com louvor:
Do vagamundo Wade Shepard: http://www.vagabondjourney.com/travelogue/
E o portal http://www.vagobond.com/ em especial o tópico Extraordinary Vagabonds , que merece demais uma leitura atenta.


















