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Dizem que o silêncio é um prelúdio de abertura à
revelação. Gosto de pensar que quando estou só e em silêncio, alguma coisa
dentro de mim se transforma, como uma semente que aguarda o momento certo de se
revelar para fora da terra, em direção ao sol.
Quando penso nas viagens que fiz percebo que nem sempre
os momentos mais marcantes e inesquecíveis foram os mais alegres e divertidos,
pelo contrário; pergunte a um bom viajante para falar de suas aventuras vividas
na estrada e certamente você ouvirá muitas histórias em que a solidão e o silêncio
foram parte fundamental da experiência.
Entretanto, imagino que a maioria das pessoas não se
sente confortável em ficar a sós e em silêncio, e muito menos em viajar
buscando esse tipo de situação. Daí o interesse que despertam as narrativas de
viagem em que o protagonista narra suas desventuras; sua solidão, o “estar
perdido no mundo” é algo que assusta ao mesmo tempo em que fascina, talvez uma
lembrança arcaica de quando perambulávamos sós pelo mundo. Talvez, no fundo,
ainda tenhamos uma necessidade orgânica de ficarmos sozinhos por um período de
tempo.
Muitas ordens religiosas, de distintas tradições, pregam
a solidão e o silêncio como princípios básicos de evolução espiritual ou
transformação interior; o buscador, em todos os casos, é um ser solitário. A
mente sábia é uma mente quieta.
Gosto de ler os relatos de viajantes laicos que se
aventuram em estadias monásticas, geralmente em mosteiros cristãos e
monastérios budistas; é interessante ler sobre a visão de quem está do lado de
fora, observando e vivenciando uma rotina completamente distante de sua
realidade cotidiana. Coloco-me no lugar do outro, me questiono se agiria ou
pensaria da mesma forma que o narrador e depois da leitura sonho em percorrer
as mesmas distâncias, viver as mesmas experiências... Por que não?
Transcrevo aqui no Odepórica
um relato que retrata exatamente essa experiência da solidão e do silêncio. O
autor, o escritor escocês Archibald Joseph Cronin (1896-1981) teve esse texto
publicado em 1960 na Reader’s Digest
(Seleções) em uma edição de capa
dura, volume 35, intitulado Janelas para
o Mundo. É notável como, passados
mais de cinquenta anos de sua publicação as questões do autor continuam atuais,
como você mesmo poderá conferir na leitura que se segue.
♣
O que aprendi na Grande Cartuxa
Ao brilho intenso do sol dos Alpes da Saboia francesa,
depois de uma subida extenuante. Normalizei a respiração e puxei a corda da
campainha. Aberto o postigo da pesada porta, após um momento de exame, um irmão
leigo de capuz pardo introduziu-me, silenciosamente, num pátio murado, onde,
entre canteiros de flores e zumbir de abelhas, uma fonte cantava.
Adiante, de cada lado da vetusta igreja, corriam dois
compridos claustros arqueados, dos quais saíam fileiras de curiosas moradas de
íngremes telhados vermelhos. Percebi logo que se tratava dos eremitérios
individuais, onde habitam, na solidão e no silêncio, os monges da ordem.
Sabendo que quase nenhum estranho tinha entrado naquele
remoto santuário, experimentei profunda palpitação de expectativa. Depois de
uma velocíssima viagem de 6500 quilômetros, e sentindo ainda nos ouvidos o
burburinho de Nova York, eu me achava no pátio do famoso mosteiro da Grande
Cartuxa.
Mas eis que se aproxima de mim, com passos rápidos e com
um sorriso tímido, mas amistoso, um vulto franzino de hábito branco. Era o
prior, homem de seus 50 anos, de face corada e olhos de um azul muito profundo.
Deu-me as boas-vindas com simplicidade e dignidade, e ouviu, cortesmente, a
explicação dos motivos da minha visita. Depois levou-me a um eremitério
desocupado e disse que o arquivista iria acompanhar-me numa visita geral. E
retirou-se.
O eremitério era de pedra e tinha no andar térreo uma
pequena oficina com ferramentas, um banco de carpinteiro e um depósito de
madeira; no andar superior ficavam o oratório singelo e a cela. Nesta, o que vi
foi uma mesa simples de carvalho, uma pequena estufa de ferro, uma estante de
livros, um modesto genuflexório e a cama – um tosco enxergão de palha sobre um
jirau.
Um sino tocou suavemente, ecoando entre os cumes banhados
de sol. Lá no alto, o céu era de um azul ofuscante. Envolvido pelo sentimento
de solidão que me cercava, sentei-me. Era ali, naquela prisão voluntária, que
um homem tinha decidido passar toda a sua vida. Era ali que ele trabalhava e
orava, estudava, cultivava o seu pequeno jardim e se entregava àquela intensa
contemplação que é o fim e o propósito do monge cartusiano.
Nesse ponto ouvi uma leve pancada na porta. Era Dom
Arthaud, o arquivista, homem idoso, mas de porte viril, rosto largo e
simpático, olhos castanhos inteligentes piscando brejeiramente atrás dos
óculos, para surpresa minha.
- Às suas ordens, senhor. Que deseja saber? –
perguntou-me ele depois de cumprimentar-me.
- Tudo. Diga-me antes de mais nada: guarda-se aqui
silêncio absoluto?
- Exatamente. Exceto, é claro – acrescentou, fazendo uma
delicada mesura – quando temos a honra de receber alguém como o senhor.
- Quando começa o dia para os frades?
- Às 5 e 45 levantamos com o sino e nos ocupamos com
orações, até às 7 e 15.
- E em seguida fazem a primeira refeição?
- Não, a primeira e única refeição completa é feita ao
meio-dia.
- Somente ao meio-dia? – exclamei. – Em que consiste?
- Em geral, consta de verduras da nossa horta.
- Comem carne de vez em quando?
- Nunca. (O meu espanto pareceu diverti-lo.) E uma vez
por semana, bem como em muitos dias especiais, o nosso único sustento é pão
seco e água.
Meus olhos caíram duro no jirau.
- Deitam-se cedo? – perguntei?
- Sim. Às seis da tarde.
- Pelo menos, têm um bom descanso à noite.
- Só até às 10 horas – disse o monge com um sorriso
manso. – Então o sino toca, nós nos erguemos para o ofício noturno, e depois,
acendendo nossas lanternas, vamos para as devoções em comum na igreja.
- Mas então quando
é que se deitam?
- Cerca das três da manhã.
- E tornam a levantar-se às 5 e 45?
- Por certo... E garanto-lhe que é descanso mais que
suficiente. O frade apertou-me o braço, como para abafar em mim qualquer
expressão de dó.
- Venha comigo. Vamos dar a nossa volta pelo mosteiro.
Enquanto me conduzia pela belíssima igreja, com os magníficos
assentos de couro lavrados, o arquivista informou-me que sua fundação se devia
a um tal Bruno, com seis companheiros, em 1084. Mas o que me interessava era
mais o lado humano do que o histórico. Enquanto caminhávamos por um corredor de
lajes, onde, mesmo naquele dia de verão, se sentia a umidade e um calafrio de
Antiguidade, perguntei:
- Vocês não sentem frio aqui no inverno?
- Oh, não.
Ele bateu familiarmente a pedra nua, como quem tocasse o
ombro de um velho amigo:
- As paredes são espessas. E nós temos os nossos pequenos
aquecedores.
- Mas parece que não aquecem grande coisa...
- Talvez não - e o piscar de seus olhos acentuou-se. –
Mas rachar lenha nos aquece.
Pensei nos longos meses de neve, nas procissões noturnas
através da escuridão gelada, no serviço religioso à meia-noite naquela igreja imponente
e tenebrosa, e não pude reprimir um arrepio. Ao dobrar uma esquina vimos um
jovem leigo empurrando uma carrocinha cheia de fatias de pão, parando para
deixar uma fatia na janelinha da cada eremitério.
Dom Arthaud explicou que aquele brave garçon voltara há pouco do serviço militar, tendo-se
distinguido na campanha da Indochina.
- Cada qual toma sua refeição sozinho?
- Sim... Sempre na solidão.
- E é essa a sua ração de hoje?
O arquivista fez que sim com a cabeça. Com adorável
simplicidade, dobrou o possante bíceps e disse:
- O pão é bom. Eu deixo um pedaço sobre o meu banco de
carpinteiro quando trabalho... como e trabalho ... trabalho e como ... Ninguém
pensa em comida quando está deveras ocupado.
- Ocupado?
- Fique certo, meu amigo, que o tempo não dá para o que
desejamos fazer. Os assentos esculpidos à mão que o senhor tanto admirou na
igreja são todos trabalho dos nossos monges. O mesmo se dá com estes painéis –
e mostrou magníficos trabalhos de entalhe ao longo do vestíbulo interno,
representando volutas em forma de capulhos de linho.
- Também os móveis do nosso mosteiro, os armários do
vestiário e inúmeras outras coisas... Como vê, até mesmo no sentido material
não somos totalmente ociosos.
Prosseguimos pelo claustro. O arquivista mostrou um
eremitério próximo e explicou:
- Ali mora um americano... Temos aqui dois americanos. E
um padre mexicano. Outro da Áustria. Até um do Japão temos aqui.
- Então vem gente de toda a parte?
- Sim, meu amigo. Mas temos todos um destino comum.
Com um gesto expressivo ele me conduziu por uma arcada
gótica a um pátio relvado banhado de sol e flores silvestres. Ali, em filas bem
ordenadas, via-se uma série de singelas cruzes de madeira preta, sem nomes nem
inscrição. Fiquei calado por algum tempo.
- São muito juntas umas das outras... aquelas cruzes –
disse eu por fim.
- Nós não ocupamos muito espaço. Isso porque não
precisamos de caixões. Como em vida, basta-nos uma tábua para deitar em cima.
De volta ao eremitério e novamente só, tratei de por em
ordem os meus pensamentos. O modo de vida naquela prisão voluntária era muito
mais severo do que eu havia imaginado. E no entanto, em vez da tristeza
peculiar à penitência, em vez da melancolia do ascetismo que eu esperava, o que
parecia impregnado na própria substância daquelas antigas pedras cinzentas era
uma alegria despreocupada.
O sino soou mais uma vez. O sol escondera-se atrás dos
píncaros da montanha. E com a passagem silenciosa das horas aquela estranha
existência que, vista de fora, parecia falsa e contrária ao bom senso, assumiu
um tranquilo ar de sanidade, enquanto o mundo hostil e absurdo lá embaixo se
apresentava perdido no caos e na confusão.
Lá, em todos os continentes, os homens lutavam
desvairadamente para triunfar, e em momentos de lazer só se preocupavam com
divertimentos que lhes deleitassem os sentidos. A televisão lampejava, o rádio
papagueava, aviões roncavam fendendo as nuvens com maior rapidez que o som,
grandes navios atravessavam velozes os sete mares transportando cargas humanas
para aqui e para ali, em busca de riqueza ou de prazer.
Ao mesmo tempo, porém, atormentada e perplexa, vítima de
profundo desassossego, a humanidade não conhecia o verdadeiro contentamento. Em
todas as nações, crescendo cada vez mais, ganhando malignidade cada dia,
acumulavam-se os apetrechos feitos pelo homem para a destruição do seu
semelhante.
A ciência era agora a senhora, a pobre humanidade a
escrava, e o homem, esquecido da simplicidade dos seus antepassados, atolado
num tremedal de interesses individuais e de ideais falsos, extenuava-se e suava
para fazer girar a roda-viva sem fim da sua própria desagregação. Essa, debaixo
do seu fraco verniz de civilização, era a triste epopeia da Terra, um mundo de
trágicos desatinos girando pelo espaço, tendo apenas alguns poucos a erguerem o
espírito, o coração e a voz para o Criador.
Não seriam, pois, mais sábios aqueles que tinham
resolvido passar seus dias nesse retiro monástico, longe do som e da fúria
terrestre, perto da abóbada celeste, de maneira que pudessem fixar
permanentemente a vista nas verdades eternas e oferecer, talvez, com suas
humildes preces, uma reparação pela culpa dos outros?
Poucos, sem dúvida, são capazes de um tal retraimento. A
convicção deste fato se arraigou em mim à medida que os dias passavam e eu
conheci privações insólitas, o tormento de noites insones e da alimentação
espartana, a angústia da solidão nova.
Mas da experiência foi brotando pouco a pouco uma verdade
fulgurante. No supremo isolamento da Grande Cartuxa, embora inatingível para a
maioria de nós, encontra-se uma salutar advertência – a necessidade
imprescindível que todo homem tem de se apartar dos outros de quando em quando
e de fazer uma romaria ao próprio coração.
Colhidos no vórtice da vida moderna,
enredados em suas complicações, adquirimos o medo de ficar sozinhos e
preferimos procurar qualquer distração a permanecer na embaraçosa companhia dos
nossos próprios pensamentos.
A minha estada ali tinha, forçosamente, de chegar a um
termo. Quando me despedi dos bons monges e desci à planície embaixo, senti uma
estranha tristeza no coração. Mas percebi, claramente, que a minha subida ao
convento não tinha sido vã e aprendi a lição da Grande Cartuxa.
A sua mensagem era, manifestamente, esta: que de vez em
quando devemos tomar um pouco de tempo às múltiplas preocupações do nosso
trabalho e de nossas distrações para reajustar o nosso senso de valores, para
colocar em seus devidos lugares os nossos desejos materiais.
Banindo da nossa boca a inevitável desculpa, “Eu bem
quisera, se pudesse, mas não disponho de um só momento para mim”, devemos
arranjar tempo – cinco, dez, vinte minutos ao fim do dia, uma hora em cada
tarde de domingo consagrado a um passeio de meditação, um fim de semana vez por
outra passado a completo recolhimento.
Então veremos como são de pouca monta as coisas que
perseguimos com tamanho afã; então, talvez, pudéssemos descobrir não só a
consciência de nós mesmos, mas – o que é muito mais importante – a existência
da nossa própria consciência.
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Texto retirado da obra 35 Janelas para o Mundo,
Seleções do Reader’sDigest. 1ª Edição, 1960. Editora Ypiranga. (“O que Aprendi
na Grande Cartuxa”, A.J. Cronin, pp.286-292).
♣
Se você gostaria de se aprofundar um pouco mais sobre a
Ordem dos Cartuxos e sobre o Mosteiro onde o autor do texto acima viveu sua
experiência, indico o filme Le Grand Silence
(em português, O Grande Silêncio). O documentário
de quase três horas é um mergulho interior na rotina da vida monástica
cartusiana, sem diálogos e sem nenhum tipo de intervenção tecnológica. Guarde um
tempo para viver essa experiência. Ao terminar de assistir você terá tido a
impressão de que foi transportado de corpo e alma para a Grande Chartreuse. Não
é para qualquer um, mas pode ser para você. Disponível na íntegra no Youtube.

















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