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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Silêncio e solidão na Grande Cartuxa, by A.J.Cronin

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Dizem que o silêncio é um prelúdio de abertura à revelação. Gosto de pensar que quando estou só e em silêncio, alguma coisa dentro de mim se transforma, como uma semente que aguarda o momento certo de se revelar para fora da terra, em direção ao sol.

Quando penso nas viagens que fiz percebo que nem sempre os momentos mais marcantes e inesquecíveis foram os mais alegres e divertidos, pelo contrário; pergunte a um bom viajante para falar de suas aventuras vividas na estrada e certamente você ouvirá muitas histórias em que a solidão e o silêncio foram parte fundamental da experiência.

Entretanto, imagino que a maioria das pessoas não se sente confortável em ficar a sós e em silêncio, e muito menos em viajar buscando esse tipo de situação. Daí o interesse que despertam as narrativas de viagem em que o protagonista narra suas desventuras; sua solidão, o “estar perdido no mundo” é algo que assusta ao mesmo tempo em que fascina, talvez uma lembrança arcaica de quando perambulávamos sós pelo mundo. Talvez, no fundo, ainda tenhamos uma necessidade orgânica de ficarmos sozinhos por um período de tempo.



Muitas ordens religiosas, de distintas tradições, pregam a solidão e o silêncio como princípios básicos de evolução espiritual ou transformação interior; o buscador, em todos os casos, é um ser solitário. A mente sábia é uma mente quieta.

Gosto de ler os relatos de viajantes laicos que se aventuram em estadias monásticas, geralmente em mosteiros cristãos e monastérios budistas; é interessante ler sobre a visão de quem está do lado de fora, observando e vivenciando uma rotina completamente distante de sua realidade cotidiana. Coloco-me no lugar do outro, me questiono se agiria ou pensaria da mesma forma que o narrador e depois da leitura sonho em percorrer as mesmas distâncias, viver as mesmas experiências... Por que não?

Transcrevo aqui no Odepórica um relato que retrata exatamente essa experiência da solidão e do silêncio. O autor, o escritor escocês Archibald Joseph Cronin (1896-1981) teve esse texto publicado em 1960 na Reader’s Digest (Seleções) em uma edição de capa dura, volume 35, intitulado Janelas para o Mundo.  É notável como, passados mais de cinquenta anos de sua publicação as questões do autor continuam atuais, como você mesmo poderá conferir na leitura que se segue.
O que aprendi na Grande Cartuxa



Ao brilho intenso do sol dos Alpes da Saboia francesa, depois de uma subida extenuante. Normalizei a respiração e puxei a corda da campainha. Aberto o postigo da pesada porta, após um momento de exame, um irmão leigo de capuz pardo introduziu-me, silenciosamente, num pátio murado, onde, entre canteiros de flores e zumbir de abelhas, uma fonte cantava.

Adiante, de cada lado da vetusta igreja, corriam dois compridos claustros arqueados, dos quais saíam fileiras de curiosas moradas de íngremes telhados vermelhos. Percebi logo que se tratava dos eremitérios individuais, onde habitam, na solidão e no silêncio, os monges da ordem.

Sabendo que quase nenhum estranho tinha entrado naquele remoto santuário, experimentei profunda palpitação de expectativa. Depois de uma velocíssima viagem de 6500 quilômetros, e sentindo ainda nos ouvidos o burburinho de Nova York, eu me achava no pátio do famoso mosteiro da Grande Cartuxa.



Mas eis que se aproxima de mim, com passos rápidos e com um sorriso tímido, mas amistoso, um vulto franzino de hábito branco. Era o prior, homem de seus 50 anos, de face corada e olhos de um azul muito profundo. Deu-me as boas-vindas com simplicidade e dignidade, e ouviu, cortesmente, a explicação dos motivos da minha visita. Depois levou-me a um eremitério desocupado e disse que o arquivista iria acompanhar-me numa visita geral. E retirou-se.

O eremitério era de pedra e tinha no andar térreo uma pequena oficina com ferramentas, um banco de carpinteiro e um depósito de madeira; no andar superior ficavam o oratório singelo e a cela. Nesta, o que vi foi uma mesa simples de carvalho, uma pequena estufa de ferro, uma estante de livros, um modesto genuflexório e a cama – um tosco enxergão de palha sobre um jirau.


Um sino tocou suavemente, ecoando entre os cumes banhados de sol. Lá no alto, o céu era de um azul ofuscante. Envolvido pelo sentimento de solidão que me cercava, sentei-me. Era ali, naquela prisão voluntária, que um homem tinha decidido passar toda a sua vida. Era ali que ele trabalhava e orava, estudava, cultivava o seu pequeno jardim e se entregava àquela intensa contemplação que é o fim e o propósito do monge cartusiano.

Nesse ponto ouvi uma leve pancada na porta. Era Dom Arthaud, o arquivista, homem idoso, mas de porte viril, rosto largo e simpático, olhos castanhos inteligentes piscando brejeiramente atrás dos óculos, para surpresa minha.

- Às suas ordens, senhor. Que deseja saber? – perguntou-me ele depois de cumprimentar-me.
- Tudo. Diga-me antes de mais nada: guarda-se aqui silêncio absoluto?
- Exatamente. Exceto, é claro – acrescentou, fazendo uma delicada mesura – quando temos a honra de receber alguém como o senhor.
- Quando começa o dia para os frades?
- Às 5 e 45 levantamos com o sino e nos ocupamos com orações, até às 7 e 15.
- E em seguida fazem a primeira refeição?


- Não, a primeira e única refeição completa é feita ao meio-dia.
- Somente ao meio-dia? – exclamei. – Em que consiste?
- Em geral, consta de verduras da nossa horta.
- Comem carne de vez em quando?
- Nunca. (O meu espanto pareceu diverti-lo.) E uma vez por semana, bem como em muitos dias especiais, o nosso único sustento é pão seco e água.
Meus olhos caíram duro no jirau.

- Deitam-se cedo? – perguntei?
- Sim. Às seis da tarde.
- Pelo menos, têm um bom descanso à noite.
- Só até às 10 horas – disse o monge com um sorriso manso. – Então o sino toca, nós nos erguemos para o ofício noturno, e depois, acendendo nossas lanternas, vamos para as devoções em comum na igreja.
- Mas então quando é que se deitam?
- Cerca das três da manhã.
- E tornam a levantar-se às 5 e 45?
- Por certo... E garanto-lhe que é descanso mais que suficiente. O frade apertou-me o braço, como para abafar em mim qualquer expressão de dó.
- Venha comigo. Vamos dar a nossa volta pelo mosteiro.


Enquanto me conduzia pela belíssima igreja, com os magníficos assentos de couro lavrados, o arquivista informou-me que sua fundação se devia a um tal Bruno, com seis companheiros, em 1084. Mas o que me interessava era mais o lado humano do que o histórico. Enquanto caminhávamos por um corredor de lajes, onde, mesmo naquele dia de verão, se sentia a umidade e um calafrio de Antiguidade, perguntei:

- Vocês não sentem frio aqui no inverno?
- Oh, não.
Ele bateu familiarmente a pedra nua, como quem tocasse o ombro de um velho amigo:
- As paredes são espessas. E nós temos os nossos pequenos aquecedores.
- Mas parece que não aquecem grande coisa...
- Talvez não - e o piscar de seus olhos acentuou-se. – Mas rachar lenha nos aquece.


Pensei nos longos meses de neve, nas procissões noturnas através da escuridão gelada, no serviço religioso à meia-noite naquela igreja imponente e tenebrosa, e não pude reprimir um arrepio. Ao dobrar uma esquina vimos um jovem leigo empurrando uma carrocinha cheia de fatias de pão, parando para deixar uma fatia na janelinha da cada eremitério.

Dom Arthaud explicou que aquele brave garçon voltara há pouco do serviço militar, tendo-se distinguido na campanha da Indochina.
- Cada qual toma sua refeição sozinho?
- Sim... Sempre na solidão.
- E é essa a sua ração de hoje?
O arquivista fez que sim com a cabeça. Com adorável simplicidade, dobrou o possante bíceps e disse:
- O pão é bom. Eu deixo um pedaço sobre o meu banco de carpinteiro quando trabalho... como e trabalho ... trabalho e como ... Ninguém pensa em comida quando está deveras ocupado.
- Ocupado?
- Fique certo, meu amigo, que o tempo não dá para o que desejamos fazer. Os assentos esculpidos à mão que o senhor tanto admirou na igreja são todos trabalho dos nossos monges. O mesmo se dá com estes painéis – e mostrou magníficos trabalhos de entalhe ao longo do vestíbulo interno, representando volutas em forma de capulhos de linho.
- Também os móveis do nosso mosteiro, os armários do vestiário e inúmeras outras coisas... Como vê, até mesmo no sentido material não somos totalmente ociosos.


Prosseguimos pelo claustro. O arquivista mostrou um eremitério próximo e explicou:
- Ali mora um americano... Temos aqui dois americanos. E um padre mexicano. Outro da Áustria. Até um do Japão temos aqui.
- Então vem gente de toda a parte?
- Sim, meu amigo. Mas temos todos um destino comum.

Com um gesto expressivo ele me conduziu por uma arcada gótica a um pátio relvado banhado de sol e flores silvestres. Ali, em filas bem ordenadas, via-se uma série de singelas cruzes de madeira preta, sem nomes nem inscrição. Fiquei calado por algum tempo.

- São muito juntas umas das outras... aquelas cruzes – disse eu por fim.
- Nós não ocupamos muito espaço. Isso porque não precisamos de caixões. Como em vida, basta-nos uma tábua para deitar em cima.


De volta ao eremitério e novamente só, tratei de por em ordem os meus pensamentos. O modo de vida naquela prisão voluntária era muito mais severo do que eu havia imaginado. E no entanto, em vez da tristeza peculiar à penitência, em vez da melancolia do ascetismo que eu esperava, o que parecia impregnado na própria substância daquelas antigas pedras cinzentas era uma alegria despreocupada.

O sino soou mais uma vez. O sol escondera-se atrás dos píncaros da montanha. E com a passagem silenciosa das horas aquela estranha existência que, vista de fora, parecia falsa e contrária ao bom senso, assumiu um tranquilo ar de sanidade, enquanto o mundo hostil e absurdo lá embaixo se apresentava perdido no caos e na confusão.

Lá, em todos os continentes, os homens lutavam desvairadamente para triunfar, e em momentos de lazer só se preocupavam com divertimentos que lhes deleitassem os sentidos. A televisão lampejava, o rádio papagueava, aviões roncavam fendendo as nuvens com maior rapidez que o som, grandes navios atravessavam velozes os sete mares transportando cargas humanas para aqui e para ali, em busca de riqueza ou de prazer.


Ao mesmo tempo, porém, atormentada e perplexa, vítima de profundo desassossego, a humanidade não conhecia o verdadeiro contentamento. Em todas as nações, crescendo cada vez mais, ganhando malignidade cada dia, acumulavam-se os apetrechos feitos pelo homem para a destruição do seu semelhante.

A ciência era agora a senhora, a pobre humanidade a escrava, e o homem, esquecido da simplicidade dos seus antepassados, atolado num tremedal de interesses individuais e de ideais falsos, extenuava-se e suava para fazer girar a roda-viva sem fim da sua própria desagregação. Essa, debaixo do seu fraco verniz de civilização, era a triste epopeia da Terra, um mundo de trágicos desatinos girando pelo espaço, tendo apenas alguns poucos a erguerem o espírito, o coração e a voz para o Criador.

Não seriam, pois, mais sábios aqueles que tinham resolvido passar seus dias nesse retiro monástico, longe do som e da fúria terrestre, perto da abóbada celeste, de maneira que pudessem fixar permanentemente a vista nas verdades eternas e oferecer, talvez, com suas humildes preces, uma reparação pela culpa dos outros?


Poucos, sem dúvida, são capazes de um tal retraimento. A convicção deste fato se arraigou em mim à medida que os dias passavam e eu conheci privações insólitas, o tormento de noites insones e da alimentação espartana, a angústia da solidão nova.

Mas da experiência foi brotando pouco a pouco uma verdade fulgurante. No supremo isolamento da Grande Cartuxa, embora inatingível para a maioria de nós, encontra-se uma salutar advertência – a necessidade imprescindível que todo homem tem de se apartar dos outros de quando em quando e de fazer uma romaria ao próprio coração. 

Colhidos no vórtice da vida moderna, enredados em suas complicações, adquirimos o medo de ficar sozinhos e preferimos procurar qualquer distração a permanecer na embaraçosa companhia dos nossos próprios pensamentos.


A minha estada ali tinha, forçosamente, de chegar a um termo. Quando me despedi dos bons monges e desci à planície embaixo, senti uma estranha tristeza no coração. Mas percebi, claramente, que a minha subida ao convento não tinha sido vã e aprendi a lição da Grande Cartuxa.

A sua mensagem era, manifestamente, esta: que de vez em quando devemos tomar um pouco de tempo às múltiplas preocupações do nosso trabalho e de nossas distrações para reajustar o nosso senso de valores, para colocar em seus devidos lugares os nossos desejos materiais.

Banindo da nossa boca a inevitável desculpa, “Eu bem quisera, se pudesse, mas não disponho de um só momento para mim”, devemos arranjar tempo – cinco, dez, vinte minutos ao fim do dia, uma hora em cada tarde de domingo consagrado a um passeio de meditação, um fim de semana vez por outra passado a completo recolhimento.

Então veremos como são de pouca monta as coisas que perseguimos com tamanho afã; então, talvez, pudéssemos descobrir não só a consciência de nós mesmos, mas – o que é muito mais importante – a existência da nossa própria consciência.
Texto retirado da obra 35 Janelas para o Mundo, Seleções do Reader’sDigest. 1ª Edição, 1960. Editora Ypiranga. (“O que Aprendi na Grande Cartuxa”, A.J. Cronin, pp.286-292).

Se você gostaria de se aprofundar um pouco mais sobre a Ordem dos Cartuxos e sobre o Mosteiro onde o autor do texto acima viveu sua experiência, indico o filme Le Grand Silence (em português, O Grande Silêncio). O documentário de quase três horas é um mergulho interior na rotina da vida monástica cartusiana, sem diálogos e sem nenhum tipo de intervenção tecnológica. Guarde um tempo para viver essa experiência. Ao terminar de assistir você terá tido a impressão de que foi transportado de corpo e alma para a Grande Chartreuse. Não é para qualquer um, mas pode ser para você. Disponível na íntegra no Youtube. 

sábado, 15 de novembro de 2014

Sobre o silêncio e a solidão e um poema: El cielo dentro de mí, por Atahualpa Yupanqui y Pablo del Cerro

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Tenho verdadeiro fascínio por textos que tratam dos temas que envolvem o silêncio e a solidão e já disse aqui uma vez que sou apaixonado pela história e lições dos padres do deserto, cenobitas embriagados de Deus que buscaram no silêncio e na solidão o caminho para a comunhão divina.

 Diz Ramakrishna (na obra Liberte-se do passado, Ed Cultrix) que

“Ter silêncio e espaço interiores é muito importante, porque implica liberdade para existir, mover-se, atuar, voar. Afinal de contas, a bondade só pode florescer onde há espaço, assim como a virtude só pode medrar quando há liberdade. Podemos ter liberdade política, mas, interiormente, não somos livres e, por conseguinte, não há espaço. Nenhuma virtude, nenhuma qualidade valiosa, pode funcionar ou medrar sem esse vasto espaço interior. E o espaço e o silêncio são necessários, pois apenas a mente que está só, livre de influências, de disciplinas, do controle de uma infinita variedade de experiências, é capaz de encontrar-se com algo totalmente novo.”

Partindo desse princípio, tão bem colocado por Ramakrishna, busco sempre ler e reler as obras de autores que sabem valorizar a importância desses momentos de silêncio e solidão; de Paul Brunton a Kerouac, de Fernando Pessoa a Paul Bowles, de Hermann Hesse a Hemingway todos eles em maior ou menor grau souberam da importância de se estar só, talvez pelo simples motivo de que tanto a solidão quanto o silêncio fazem parte da aventura do escrever.

Mas acompanhando de perto esses mestres, sei que não era só isso. Todos eles adoravam longas caminhadas, viagens sem pressa de voltar, e o reconfortante contato com a natureza para repor as energias. As viagens, assim como as longas caminhadas, se mostram muito úteis nesse processo transformador e revelador que nos faz enxergar a vida sob novas e diferentes perspectivas e possibilidades.

Hoje eu compartilho com você uma poesia, que tem tudo a ver com o que acabei de escrever e que me chegou pelas mãos de um poeta lá do Sul, o Ulisses Borges, que além de escrever muito bem tem um ótimo sexto sentido para as coisas boas que pintam por aí. Valeu, Ulisses! Buen camino!     

El cielo dentro de mí


en lo alto de la sierra
me detuve a descansar
pero sentí que me iba
sin moverme del lugar

los ojos se me perdieron
en aquella inmensidad
y me olvidé de mi mismo
tanto mirar y mirar

de pronto me ha preguntado
la voz de la soledad
si andaba buscando el cielo
y yo respondí quizás

el cielo está dentro de uno
y está el infierno también
el alma escribe sus libros
pero ninguno los lee

a veces uno camina
entre la sombra y la luz
en la cara la sonrisa
y en el corazón la cruz

búscalo al cielo en ti mismo
que allí lo vas a encontrar
pero no es fácil hallarlo
pues hay mucho que luchar

por caminos solitarios
yo me puse a caminar
por fuera nada buscaba
pero por dentro quizás

(Atahualpa Yupanqui/ Pablo del Cerro)

Leia e ouça o poema no blogue do Ulisses:
http://ulisses-borges.blogspot.com.br/2014/11/el-cielo-esta-dentro-de-mi.html

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

No teu deserto, by Miguel Sousa Tavares


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Há coisa de seis anos ganhei um livro intitulado Sul: viagens, escrito pelo jornalista português Miguel Sousa Tavares, autor que já foi citado anteriormente aqui no Odepórica, num post sobre desertos.

O livro é uma coletânea de textos e fotos de diversas viagens do Miguel, que se intitula um contador de histórias a quem pagam para percorrer o mundo e contar o que viu. Sorte a dele. Nesse livro de bonita edição, o português relata o que viveu em suas perambulações pelo sul do planeta, que em sua definição engloba países da África, Ásia, América do Sul, Europa e Caribe. Um sul abrangente, como se vê.

Gostei do livro, das fotos e do jeito que o Miguel escreve, embora nunca me sentirei confortável de verdade com a gramática e o vocabulário lusitano, tanto que raramente compro edições de autores publicadas na ortografia de Portugal. Acho que eles devem sentir o mesmo em relação à nossa escrita, e nisso nada há de mal.


Mas há uma coisa que não me encanta muito ao ler os relatos do viajante português: sua escrita está mais para o jornalismo do que para a literatura; percebe-se o cuidado dele ao narrar aquilo que viu com detalhes mais ou menos precisos, como se ele escrevesse já pensando no leitor (o que se espera de um bom jornalista, de fato), e não como se estivesse viajando com o leitor. Percebi em seus textos uma narrativa muito linear, quando esperava encontrar um relato de viagem com as surpresas que surgem durante o trajeto, os desvios e as divagações que tiram o leitor da monotonia das viagens por estradas retas e bem asfaltadas, quando a paisagem passa rapidamente pelo lado de fora do automóvel. A máxima que diz que “viajar é perder-se” também vale, parcimoniosamente, para a viagem narrativa. Uma questão de gosto, pode ser.

Por uma dessas coincidências bobas do destino, enquanto terminava a leitura de Sul: viagens, vi numa banca de jornal outro título do Miguel, desses livros de capa dura que saem em coleções temáticas; a coleção em questão, editada pela Folha de São Paulo chama-se “Literatura Ibero-Americana” e coube ao Miguel Tavares o volume de número 17, intitulado No teu deserto (2009).



É dessas obras ligeiras de cem páginas, de capítulos curtos que se lê com prazer numa tarde de folga. Mais uma vez o Miguel se volta para o deserto, cenário que parece inspirá-lo mais do que qualquer outro. Diz ele que já visitou o Saara mais de dez vezes e isso já demonstra algum tipo de obsessão, não fosse o mundo tão grande e à espera de inúmeros lugares a serem explorados. Não estou julgando o moço, de forma alguma, porque também sou do tipo que gosta de repetir viagens e cenários, então estamos em casa.

Agora vou ser didático. O livro tem doze capítulos; até o capítulo V, quem narra a história é o Miguel. Do capitulo VI ao XII a coisa muda de figura, e então começa o jogo de troca narrativa: uma vez o Miguel, a outra a Cláudia - sua companheira de aventura, depois o Miguelito, depois ela novamente e assim vai. Parece uma troca de cartas, e a coisa quando bem feita fica até interessante e divertida. A história? Pois. É simples, vamos lá: um jornalista, que é o Miguel, viaja com uma caravana para o Saara para fazer uma reportagem para um programa de televisão português.



A caravana de 15 jipes e 4 motos vai percorrer a rota saariana por mais de um mês, mas o Miguel só poderá encontrar seus companheiros de viagem alguns dias depois, em um local combinado previamente, por conta dos trâmites burocráticos para poder filmar na Argélia. A viagem aconteceu no final dos anos oitenta, tempo em que os viajantes e aventureiros ainda não contavam com as facilidades de hoje, como o GPS e a internet. Sim, isso deve ser levado em consideração quando o assunto é aventura e risco.

Começa escrevendo entre parênteses (literalmente) que, no final da história, sua companheira de viagem, a jovem Cláudia, morre. Pá-pum. Juro que não entendi qual foi a do Miguel, entregar assim aquilo que deveria ter sido deixado para o final do relato. Se um dia eu me encontrar com ele por aí, juro que lhe darei um peteleco na orelha.



O gatilho que fez com que resolvesse escrever sobre aquela viagem de 87 foi uma fotografia largada num fundo de gaveta, junto a tantos outros velhos retratos. A lembrança da jovem, a saudade de sua presença (nada mais lusitano do que a saudade) surgida ao olhar para uma foto de Cláudia, fez com que resolvesse escrever sobre a história deles dois, ambientada nas areias saarianas.

Bom, agora você deve estar achando, como ocorreu comigo, que teríamos pela frente uma narrativa de viagem com pitadas de romance, um tipo de viagem de aventura com direito a longos diálogos sobre relacionamento homem/mulher ao estilo Antes do amanhecer/Antes do pôr-do-sol, filmes memoráveis nesse quesito, que nem todo mundo gosta mas que eu curto de montão (aliás, quando li No teu deserto eu imaginei a personagem de Cláudia com a cara da Julie Delpy).



Nada disso, nenhum romance à vista; fica no ar se rolou alguma coisa entre Miguelito e Cláudia. Será? Ninguém sabe, mesmo quando ambos dormem juntos na barraca. Ou não aconteceu nada, biblicamente falando, ou o Miguel agiu mui cavalheirescamente, por respeito à memória da amiga. Não pude deixar de pensar assim: se o jornalista fosse um brasileiro narrando a aventura, duvido que deixaria de fora um affaire no meio do deserto, compartilhando noites geladas com uma gata dentro de uma barraca de camping. Você duvida?

Deixando essas bobagens de lado, vamos ao que interessa, que é a viagem em si. Um crítico da Folha escreveu que nessa obra reconhecem-se os rastros deixados por escritores como Hemingway, Camus e Paul Bowles, meus ídolos literários.  Se tais traços existem, então eles se encontram bem apagadinhos, bem mesmo. Mas não digo isso para desmerecer o texto do Miguel Tavares, só o faço porque decidi comprar o livro por conta desse comentário escrito na capa de trás da obra e não encontrei ligação entre esta e outras obras dos autores citados, a não ser as coincidências geográficas e o cenário do deserto (a Oran e as travessias de navio, de Camus, o deserto e o povo árabe, de Bowles...)  


Há bons e maus momentos na narrativa do Miguel Tavares. Vamos aos bons, àquilo que faz valer a pena a leitura: a fluidez narrativa, a descrição dos locais, os muitos perrengues pelos quais passaram os viajantes e que dão ao relato uma boa dose de adrenalina, os capítulos enxutos com ganchos que incitam a continuar com a leitura página após página, e o capítulo V, o qual gostei muito e que você poderá ler um trecho logo abaixo.

O que me causou estranheza e me fez torcer um pouco o nariz foi justamente a construção da personagem de Cláudia, que é real e que, falecida, jamais poderá contar a sua versão dos fatos. Entenda: se o relato não é uma ficção, até que ponto o autor tem o direito (ou pelo menos a capacidade) de expressar os sentimentos de um terceiro? Meio delicado, embora o narrador não tenha absolutamente tratado a companheira com um mínimo de leviandade, muito pelo contrário, a impressão que se tem é que a jovem que o acompanhou era mais madura do que ele próprio, homem viajado e muito mais vivido.



E como acontece com tantos escritores, há de se ter um domínio muito bom da escrita e uma percepção muito perspicaz da mente humana para poder caracterizar com autenticidade a identidade do gênero oposto ao daquele que escreve. Há nuances que diferenciam o pensamento e a maneira de agir de homens e mulheres que poucos (as) são capazes de captar. É uma vereda traiçoeira, e o risco é o de não conseguir convencer o leitor de que as palavras que saem da boca da personagem soem verossímeis.

No caso do Miguel Tavares, não consegui deixar abstrair que os pensamentos de Cláudia não eram dela, mas uma projeção do próprio autor (o que sempre será de fato, mas que não deveria ser tão facilmente percebido); em algumas passagens, por exemplo, temos a impressão de que o autor é um tanto egocêntrico, quando não arrogante - outro perigo de falar de si próprio através da boca de outro personagem.

Para completar, não gostei da maneira como o Miguel elaborou a questão da perda, da morte da amiga (que não se sabe se foi amante)... Teria Cláudia cometido suicídio? A história é boa, talvez algumas páginas a  mais tratariam de dar mais corpo à narrativa, talvez ele pudesse explorar mais a questão da solidão, de como uma travessia pelo deserto mexe com os sentimentos do viajante, com sua participação no mundo, como tão magistralmente escreveu Paul Bowles em O Céu que nos protege...

Enfim, de um modo geral, mesmo com alguns tropeços, é leitura que vale a pena essa a do Miguel Sousa Tavares. Fecho o post com um excerto do capítulo que mencionei acima, na única passagem onde pude sentir de verdade o Miguel entregue de corpo e alma à magia do deserto. Namastê!



Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos – e esse é assustador. Será assim a morte, também, Cláudia?

Quando um de nós ficava parado a contemplar o deserto, o outro não deveria dizer nada. Tudo o que se pudesse dizer, naquelas alturas, ali, em frente ao nada ou ao absoluto, seria tão inútil que só poderia vir de uma alma fútil. Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos. No deserto, não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio. Mas, naqueles dias, eu estava sempre com pressa. Alguém tinha de estar sempre com pressa e coubera-me a mim, por função. Só não tinha pressa à noite, depois de montado o acampamento, cozinhando o jantar, revisto e arrumado o jipe e de ter passado para um caderno as notas do trabalho do dia e quando, enfim, me sentava com os outros à lareira a olhar as estrelas do Sahara.

Um dia, porém, depois de mais uma paragem para colher imagens, ao regressar ao jipe vi que tinhas ficado ao lado da pista, a olhar em frente, como se tivesse desligado de tudo. Ia gritar-te, buzinar-te, quando qualquer coisa na maneira como tu estavas em pé a olhar o deserto, qualquer coisa na maneira como tinhas as mãos enfiadas nos bolsos, a cabeça ligeiramente inclinada de lado, o cabelo varrido pelo vento, me fez ficar quieto ao volante. E fiquei assim a observar-te até que tu virasses e visses que estava à tua espera. Aprendi que é preciso dar tempo aos outros para olharem. Se não fosse para isso, por que teríamos nós vindo ao deserto?

Muitos anos mais tarde, neste ano em que escrevo esta história, estava num fim do mundo, junto ao rio Guadiana, num sítio tão vazio quanto o deserto, lá em baixo, no Alentejo. Estava a recuperar o fôlego de uma longa caminhada e tinha-me sentado numa pedra a olhar o rio que corria no fundo do desfiladeiro. Creio que estaria como tu estavas naquele dia, o mesmo olhar perplexo perante a vastidão daquele cenário: há alturas em que a beleza é tão devastadora que magoa. Devia haver qualquer coisa na forma como eu olhava aquela paisagem, todo aquele despojamento humano, que fez com que o alentejano que estava comigo, e que antes tinha sido pastor naqueles vales, comentasse:
- A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem sabe olhar.

E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era todo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.


Leia: No teu deserto. Miguel Sousa Tavares. 1ª ed. – São Paulo, 2012. Coleção Folha Literatura Ibero-Americana. MEDIAfashion.

Sul: Viagens. Miguel Sousa Tavares. Publicado em Portugal pela Editora Oficina do Livro. O capítulo final, intitulado “A pista para Tamanrasset” trata da mesma viagem relatada pelo escritor em No teu deserto e acrescenta detalhes pormenorizados da rotina da caravana pelo Saara. Para amantes desse tipo de aventura, vale a pena a leitura.