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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Silêncio, by Erling Kagge

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Se há alguém que pode escrever um ensaio sobre o silêncio, esse alguém é Erling Kagge, explorador, escritor e editor de livros norueguês que, no limitado círculo dos grandes viajantes e exploradores é conhecido como o primeiro homem a atingir os “três polos a pé”. Sim, três polos: com um amigo em 1990, explorou o ponto mais ao norte do planeta, no Ártico; dois anos depois caminhou 1.310 quilômetros pelo Polo Sul e depois de desbravar a Antártida, sozinho, foi se aventurar no ponto mais alto da Terra, o Monte Everest.

Em seu livro Silêncio: Na era do ruído, primeiro trabalho seu publicado no Brasil, Erling Kagge faz um pequeno ensaio sobre o silêncio depois de ter vivido essas aventuras e também, como gosta de lembrar, depois de ter se tornado pai de três meninas, hoje adolescentes.



O que dá um brilho especial ao texto do Erling é o equilíbrio entre suas narrativas de viagem física e suas viagens interiores, quando começa a explorar de fato a importância do silêncio não só em seus deslocamentos pelo mundo, mas também a necessidade de trazer essa experiência para a vida cotidiana. É a busca da resposta à questão: Que caminhos levam ao silêncio?



Diz o autor, lá no finalzinho do livro, que o silêncio é uma ferramenta para escapar do lugar onde você se encontra.  E é essa a sacada da obra: não é somente possível, mas senão necessário viajar para dentro de si sempre que puder, nem que seja por breves instantes, todos os dias, ou por períodos maiores, quando a vida permitir, cabendo a cada um a busca desse momento de silêncio que revela, que alimenta, que transforma... não por acaso, grandes mestres e pensadores buscaram a solidão e o silêncio em momentos cruciais da existência.



Embora esse livro não se enquadre na literatura odepórica, há muitas passagens e reflexões sobre a arte de viajar. Para quem acredita que as viagens podem ser oportunidades de aprender a enxergar a vida com novos olhos, essa obra trará muito proveito. Leitura recomendadíssima.


Quando não posso caminhar, escalar ou navegar pelo mundo, aprendi a trancá-lo do lado de fora. Foi um longo aprendizado. Somente quando percebi que tenho uma grande necessidade de silêncio eu pude começar a buscá-lo – e lá, enterrado sob a cacofonia de barulhos de trânsito e pensamentos, música e ruído de máquinas, iPhones e removedores de neve, ele estava à minha espera. O silêncio.


Acredito que todos podem encontrar o silêncio dentro de si. Ele está lá o tempo inteiro, mesmo quando existem vários sons ao redor de nós. Nas profundezas do mar, sob as oscilações e as ondas, tudo parece estar em silêncio. Postar-se debaixo do chuveiro e deixar a água escorrer pela cabeça, sentar-se em frente a uma fogueira crepitante, nadar em um lago no meio da floresta ou fazer uma caminhada por uma planície são experiências que podem ser percebidas como silêncio absoluto. Eu adoro essas coisas.



Trancar o mundo do lado de fora não significa dar as costas ao lugar em que você está, mas justamente o contrário: ver o mundo de uma forma um pouco mais nítida, manter-se na superfície e sentir amor pela vida.

O silêncio é reconfortante em si mesmo. É uma qualidade, uma exclusividade e um luxo. Uma chave capaz de abrir novas formas de pensar. Não vejo o silêncio como uma renúncia ou algo espiritual, mas como uma ferramenta prática para uma vida mais rica. Ou, de maneira um pouco mais atrevida: como uma forma de viver mais profunda do que, mais uma vez, ligar a TV para ver as notícias.



Por mais de um milênio, pessoas viveram sozinhas, muito próximas de si mesmas, como monges nas montanhas, eremitas, exploradores marítimos, pastores de ovelhas e descobridores que voltavam para casa, foram todas convencidas de que as respostas para os mistérios da vida podem ser encontradas no silêncio. A questão é essa. Você atravessa o oceano e, ao retornar, talvez encontre o que procurava dentro de você mesmo.

Quando se atribui valor a algo por todo esse tempo, deve haver boas razões para levá-lo a sério. Jesus e Buda recorreram ao silêncio para entender como deveriam conduzir a própria vida. Jesus no deserto e Buda na montanha à beira do rio. Jesus se apresentou perante Deus em silêncio. O rio ensinou Buda a escutar, a ouvir com o coração em silêncio. Com a mente aberta e receptiva.



Que caminhos levam ao silêncio? Eu acredito em viagens em meio à natureza. Deixar os aparelhos eletrônicos em casa, seguir por um rumo onde tudo é deserto ao seu redor. Passar três dias sozinho. Não falar com ninguém. Aos poucos você começa a redescobrir coisas a respeito de você mesmo. O importante, claro, não é o que eu acredito, mas que todos sigam pelo seu próprio caminho. Todos nós temos uma trilha a encontrar.


Leia: Silêncio: Na era do ruído. Erling Kagge. 1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Silêncio e solidão na Grande Cartuxa, by A.J.Cronin

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Dizem que o silêncio é um prelúdio de abertura à revelação. Gosto de pensar que quando estou só e em silêncio, alguma coisa dentro de mim se transforma, como uma semente que aguarda o momento certo de se revelar para fora da terra, em direção ao sol.

Quando penso nas viagens que fiz percebo que nem sempre os momentos mais marcantes e inesquecíveis foram os mais alegres e divertidos, pelo contrário; pergunte a um bom viajante para falar de suas aventuras vividas na estrada e certamente você ouvirá muitas histórias em que a solidão e o silêncio foram parte fundamental da experiência.

Entretanto, imagino que a maioria das pessoas não se sente confortável em ficar a sós e em silêncio, e muito menos em viajar buscando esse tipo de situação. Daí o interesse que despertam as narrativas de viagem em que o protagonista narra suas desventuras; sua solidão, o “estar perdido no mundo” é algo que assusta ao mesmo tempo em que fascina, talvez uma lembrança arcaica de quando perambulávamos sós pelo mundo. Talvez, no fundo, ainda tenhamos uma necessidade orgânica de ficarmos sozinhos por um período de tempo.



Muitas ordens religiosas, de distintas tradições, pregam a solidão e o silêncio como princípios básicos de evolução espiritual ou transformação interior; o buscador, em todos os casos, é um ser solitário. A mente sábia é uma mente quieta.

Gosto de ler os relatos de viajantes laicos que se aventuram em estadias monásticas, geralmente em mosteiros cristãos e monastérios budistas; é interessante ler sobre a visão de quem está do lado de fora, observando e vivenciando uma rotina completamente distante de sua realidade cotidiana. Coloco-me no lugar do outro, me questiono se agiria ou pensaria da mesma forma que o narrador e depois da leitura sonho em percorrer as mesmas distâncias, viver as mesmas experiências... Por que não?

Transcrevo aqui no Odepórica um relato que retrata exatamente essa experiência da solidão e do silêncio. O autor, o escritor escocês Archibald Joseph Cronin (1896-1981) teve esse texto publicado em 1960 na Reader’s Digest (Seleções) em uma edição de capa dura, volume 35, intitulado Janelas para o Mundo.  É notável como, passados mais de cinquenta anos de sua publicação as questões do autor continuam atuais, como você mesmo poderá conferir na leitura que se segue.
O que aprendi na Grande Cartuxa



Ao brilho intenso do sol dos Alpes da Saboia francesa, depois de uma subida extenuante. Normalizei a respiração e puxei a corda da campainha. Aberto o postigo da pesada porta, após um momento de exame, um irmão leigo de capuz pardo introduziu-me, silenciosamente, num pátio murado, onde, entre canteiros de flores e zumbir de abelhas, uma fonte cantava.

Adiante, de cada lado da vetusta igreja, corriam dois compridos claustros arqueados, dos quais saíam fileiras de curiosas moradas de íngremes telhados vermelhos. Percebi logo que se tratava dos eremitérios individuais, onde habitam, na solidão e no silêncio, os monges da ordem.

Sabendo que quase nenhum estranho tinha entrado naquele remoto santuário, experimentei profunda palpitação de expectativa. Depois de uma velocíssima viagem de 6500 quilômetros, e sentindo ainda nos ouvidos o burburinho de Nova York, eu me achava no pátio do famoso mosteiro da Grande Cartuxa.



Mas eis que se aproxima de mim, com passos rápidos e com um sorriso tímido, mas amistoso, um vulto franzino de hábito branco. Era o prior, homem de seus 50 anos, de face corada e olhos de um azul muito profundo. Deu-me as boas-vindas com simplicidade e dignidade, e ouviu, cortesmente, a explicação dos motivos da minha visita. Depois levou-me a um eremitério desocupado e disse que o arquivista iria acompanhar-me numa visita geral. E retirou-se.

O eremitério era de pedra e tinha no andar térreo uma pequena oficina com ferramentas, um banco de carpinteiro e um depósito de madeira; no andar superior ficavam o oratório singelo e a cela. Nesta, o que vi foi uma mesa simples de carvalho, uma pequena estufa de ferro, uma estante de livros, um modesto genuflexório e a cama – um tosco enxergão de palha sobre um jirau.


Um sino tocou suavemente, ecoando entre os cumes banhados de sol. Lá no alto, o céu era de um azul ofuscante. Envolvido pelo sentimento de solidão que me cercava, sentei-me. Era ali, naquela prisão voluntária, que um homem tinha decidido passar toda a sua vida. Era ali que ele trabalhava e orava, estudava, cultivava o seu pequeno jardim e se entregava àquela intensa contemplação que é o fim e o propósito do monge cartusiano.

Nesse ponto ouvi uma leve pancada na porta. Era Dom Arthaud, o arquivista, homem idoso, mas de porte viril, rosto largo e simpático, olhos castanhos inteligentes piscando brejeiramente atrás dos óculos, para surpresa minha.

- Às suas ordens, senhor. Que deseja saber? – perguntou-me ele depois de cumprimentar-me.
- Tudo. Diga-me antes de mais nada: guarda-se aqui silêncio absoluto?
- Exatamente. Exceto, é claro – acrescentou, fazendo uma delicada mesura – quando temos a honra de receber alguém como o senhor.
- Quando começa o dia para os frades?
- Às 5 e 45 levantamos com o sino e nos ocupamos com orações, até às 7 e 15.
- E em seguida fazem a primeira refeição?


- Não, a primeira e única refeição completa é feita ao meio-dia.
- Somente ao meio-dia? – exclamei. – Em que consiste?
- Em geral, consta de verduras da nossa horta.
- Comem carne de vez em quando?
- Nunca. (O meu espanto pareceu diverti-lo.) E uma vez por semana, bem como em muitos dias especiais, o nosso único sustento é pão seco e água.
Meus olhos caíram duro no jirau.

- Deitam-se cedo? – perguntei?
- Sim. Às seis da tarde.
- Pelo menos, têm um bom descanso à noite.
- Só até às 10 horas – disse o monge com um sorriso manso. – Então o sino toca, nós nos erguemos para o ofício noturno, e depois, acendendo nossas lanternas, vamos para as devoções em comum na igreja.
- Mas então quando é que se deitam?
- Cerca das três da manhã.
- E tornam a levantar-se às 5 e 45?
- Por certo... E garanto-lhe que é descanso mais que suficiente. O frade apertou-me o braço, como para abafar em mim qualquer expressão de dó.
- Venha comigo. Vamos dar a nossa volta pelo mosteiro.


Enquanto me conduzia pela belíssima igreja, com os magníficos assentos de couro lavrados, o arquivista informou-me que sua fundação se devia a um tal Bruno, com seis companheiros, em 1084. Mas o que me interessava era mais o lado humano do que o histórico. Enquanto caminhávamos por um corredor de lajes, onde, mesmo naquele dia de verão, se sentia a umidade e um calafrio de Antiguidade, perguntei:

- Vocês não sentem frio aqui no inverno?
- Oh, não.
Ele bateu familiarmente a pedra nua, como quem tocasse o ombro de um velho amigo:
- As paredes são espessas. E nós temos os nossos pequenos aquecedores.
- Mas parece que não aquecem grande coisa...
- Talvez não - e o piscar de seus olhos acentuou-se. – Mas rachar lenha nos aquece.


Pensei nos longos meses de neve, nas procissões noturnas através da escuridão gelada, no serviço religioso à meia-noite naquela igreja imponente e tenebrosa, e não pude reprimir um arrepio. Ao dobrar uma esquina vimos um jovem leigo empurrando uma carrocinha cheia de fatias de pão, parando para deixar uma fatia na janelinha da cada eremitério.

Dom Arthaud explicou que aquele brave garçon voltara há pouco do serviço militar, tendo-se distinguido na campanha da Indochina.
- Cada qual toma sua refeição sozinho?
- Sim... Sempre na solidão.
- E é essa a sua ração de hoje?
O arquivista fez que sim com a cabeça. Com adorável simplicidade, dobrou o possante bíceps e disse:
- O pão é bom. Eu deixo um pedaço sobre o meu banco de carpinteiro quando trabalho... como e trabalho ... trabalho e como ... Ninguém pensa em comida quando está deveras ocupado.
- Ocupado?
- Fique certo, meu amigo, que o tempo não dá para o que desejamos fazer. Os assentos esculpidos à mão que o senhor tanto admirou na igreja são todos trabalho dos nossos monges. O mesmo se dá com estes painéis – e mostrou magníficos trabalhos de entalhe ao longo do vestíbulo interno, representando volutas em forma de capulhos de linho.
- Também os móveis do nosso mosteiro, os armários do vestiário e inúmeras outras coisas... Como vê, até mesmo no sentido material não somos totalmente ociosos.


Prosseguimos pelo claustro. O arquivista mostrou um eremitério próximo e explicou:
- Ali mora um americano... Temos aqui dois americanos. E um padre mexicano. Outro da Áustria. Até um do Japão temos aqui.
- Então vem gente de toda a parte?
- Sim, meu amigo. Mas temos todos um destino comum.

Com um gesto expressivo ele me conduziu por uma arcada gótica a um pátio relvado banhado de sol e flores silvestres. Ali, em filas bem ordenadas, via-se uma série de singelas cruzes de madeira preta, sem nomes nem inscrição. Fiquei calado por algum tempo.

- São muito juntas umas das outras... aquelas cruzes – disse eu por fim.
- Nós não ocupamos muito espaço. Isso porque não precisamos de caixões. Como em vida, basta-nos uma tábua para deitar em cima.


De volta ao eremitério e novamente só, tratei de por em ordem os meus pensamentos. O modo de vida naquela prisão voluntária era muito mais severo do que eu havia imaginado. E no entanto, em vez da tristeza peculiar à penitência, em vez da melancolia do ascetismo que eu esperava, o que parecia impregnado na própria substância daquelas antigas pedras cinzentas era uma alegria despreocupada.

O sino soou mais uma vez. O sol escondera-se atrás dos píncaros da montanha. E com a passagem silenciosa das horas aquela estranha existência que, vista de fora, parecia falsa e contrária ao bom senso, assumiu um tranquilo ar de sanidade, enquanto o mundo hostil e absurdo lá embaixo se apresentava perdido no caos e na confusão.

Lá, em todos os continentes, os homens lutavam desvairadamente para triunfar, e em momentos de lazer só se preocupavam com divertimentos que lhes deleitassem os sentidos. A televisão lampejava, o rádio papagueava, aviões roncavam fendendo as nuvens com maior rapidez que o som, grandes navios atravessavam velozes os sete mares transportando cargas humanas para aqui e para ali, em busca de riqueza ou de prazer.


Ao mesmo tempo, porém, atormentada e perplexa, vítima de profundo desassossego, a humanidade não conhecia o verdadeiro contentamento. Em todas as nações, crescendo cada vez mais, ganhando malignidade cada dia, acumulavam-se os apetrechos feitos pelo homem para a destruição do seu semelhante.

A ciência era agora a senhora, a pobre humanidade a escrava, e o homem, esquecido da simplicidade dos seus antepassados, atolado num tremedal de interesses individuais e de ideais falsos, extenuava-se e suava para fazer girar a roda-viva sem fim da sua própria desagregação. Essa, debaixo do seu fraco verniz de civilização, era a triste epopeia da Terra, um mundo de trágicos desatinos girando pelo espaço, tendo apenas alguns poucos a erguerem o espírito, o coração e a voz para o Criador.

Não seriam, pois, mais sábios aqueles que tinham resolvido passar seus dias nesse retiro monástico, longe do som e da fúria terrestre, perto da abóbada celeste, de maneira que pudessem fixar permanentemente a vista nas verdades eternas e oferecer, talvez, com suas humildes preces, uma reparação pela culpa dos outros?


Poucos, sem dúvida, são capazes de um tal retraimento. A convicção deste fato se arraigou em mim à medida que os dias passavam e eu conheci privações insólitas, o tormento de noites insones e da alimentação espartana, a angústia da solidão nova.

Mas da experiência foi brotando pouco a pouco uma verdade fulgurante. No supremo isolamento da Grande Cartuxa, embora inatingível para a maioria de nós, encontra-se uma salutar advertência – a necessidade imprescindível que todo homem tem de se apartar dos outros de quando em quando e de fazer uma romaria ao próprio coração. 

Colhidos no vórtice da vida moderna, enredados em suas complicações, adquirimos o medo de ficar sozinhos e preferimos procurar qualquer distração a permanecer na embaraçosa companhia dos nossos próprios pensamentos.


A minha estada ali tinha, forçosamente, de chegar a um termo. Quando me despedi dos bons monges e desci à planície embaixo, senti uma estranha tristeza no coração. Mas percebi, claramente, que a minha subida ao convento não tinha sido vã e aprendi a lição da Grande Cartuxa.

A sua mensagem era, manifestamente, esta: que de vez em quando devemos tomar um pouco de tempo às múltiplas preocupações do nosso trabalho e de nossas distrações para reajustar o nosso senso de valores, para colocar em seus devidos lugares os nossos desejos materiais.

Banindo da nossa boca a inevitável desculpa, “Eu bem quisera, se pudesse, mas não disponho de um só momento para mim”, devemos arranjar tempo – cinco, dez, vinte minutos ao fim do dia, uma hora em cada tarde de domingo consagrado a um passeio de meditação, um fim de semana vez por outra passado a completo recolhimento.

Então veremos como são de pouca monta as coisas que perseguimos com tamanho afã; então, talvez, pudéssemos descobrir não só a consciência de nós mesmos, mas – o que é muito mais importante – a existência da nossa própria consciência.
Texto retirado da obra 35 Janelas para o Mundo, Seleções do Reader’sDigest. 1ª Edição, 1960. Editora Ypiranga. (“O que Aprendi na Grande Cartuxa”, A.J. Cronin, pp.286-292).

Se você gostaria de se aprofundar um pouco mais sobre a Ordem dos Cartuxos e sobre o Mosteiro onde o autor do texto acima viveu sua experiência, indico o filme Le Grand Silence (em português, O Grande Silêncio). O documentário de quase três horas é um mergulho interior na rotina da vida monástica cartusiana, sem diálogos e sem nenhum tipo de intervenção tecnológica. Guarde um tempo para viver essa experiência. Ao terminar de assistir você terá tido a impressão de que foi transportado de corpo e alma para a Grande Chartreuse. Não é para qualquer um, mas pode ser para você. Disponível na íntegra no Youtube. 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum, by Pico Iyer

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Já escolhi a melhor leitura que fiz nesse semestre: A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum, do Pico Iyer. Para quem não o conhece, já escrevemos sobre esse autor aqui no Odepórica, num post duplo intitulado Por que viajamos, um texto que merece a leitura.

Dessa vez, a viagem é outra, mas também tem tudo a ver com nossas aventuras, deambulações, perambulações, passeios e perdições; como diz o Pico, a aventura a lugar nenhum.

Vão dizer que está na moda esse lance de meditar, aquietar a mente, sentar em silêncio, observar a respiração... inspira, expira, relaxa e viaja. Sim, uma moda com mais de cinco mil anos, dirão os entendidos, mas o que importa? Sempre é hora de aprender uma coisa nova, mesmo que essa coisa nova seja muito antiga.



Foi o que o Pico Iyer fez e é o que ele nos conta nesse breve relato de viagem que na verdade é um aprofundamento de uma palestra que ele proferiu na plataforma do TED, uma entidade sem fins lucrativos que se destina a divulgar ideias e que dispõe online centenas de palestras sobre tudo o que se possa imaginar.

Voltemos ao livro. São noventa páginas, capa dura, 6 capítulos curtos, gostosos de ler, o que nos dá tempo para refletir sobre cada passagem ou frase que toca fundo em algum lugar dentro de nós. Coisas que já sabíamos, na maior parte do tempo, mas que nos reconfortam porque percebemos que, sim, há outras pessoas que pensam e sentem como nós, há algo mais além daquilo que temíamos ser apenas uma bobagem, uma visão tola e romântica da vida...



No final de cada capítulo, uma surpresa: uma fotografia de natureza que toma duas páginas e que tem o poder de nos transportar para aquele cenário por alguns segundos, um feitiço imagético-literário. As imagens são de autoria de uma fotógrafa islando-canadense, Eydís Einarsdóttir, sobre quem escreverei no próximo post.

O texto começa em grande estilo. Pico dirige por montanhas da Califórnia rumo aos desertos do oeste; chega a um conjunto de chalés espalhados ao longo de uma encosta e um homem de pequeno porte, curvado e de cabeça raspada o espera em um estacionamento improvisado. Esse homem era Leonard Cohen. 



Foi Cohen, nome monástico Jirkan (uma referência ao silêncio entre dois pensamentos), quem parece ter aberto os olhos de Pico para a beleza e a felicidade que se pode encontrar quando se viaja a lugar nenhum.

“Sentar em silêncio era uma forma de se apaixonar pelo mundo e por tudo o que há nele. Eu nunca havia pensado nisso. Ir a lugar nenhum era uma maneira de atravessar o ruído e encontrar tempo e energia renovados para compartilhar com os outros. Algumas vezes eu me aproximara dessa ideia, mas nunca a compreendera tão claramente como no exemplo daquele homem que, embora parecesse ter uma vida completa, desistiu de tudo e foi procurar a felicidade e a liberdade. (...) Viajar para lugar nenhum, como Cohen havia me mostrado, não tinha a ver apenas com austeridade; era uma forma de se aproximar dos sentidos.” 



Depois dessa introdução, Pico começa a rememorar sua juventude e volta ao ano de 1986 quando, já tendo a vida feita, carreira, casa, esposa e prestes a completar 30 anos, abandona a rotina e vai viver um ano numa ruela de Quioto, a antiga capital japonesa.

“Ir a lugar nenhum, como Leonard Cohen enfatizaria mais tarde, não era virar as costas para o mundo, mas sim sair de fininho de vez em quando para poder enxergá-lo de forma mais clara e amá-lo mais profundamente”. 



Todo o resto da obra é uma reflexão mais aprofundada sobre esse pensamento acima. É importante notar que o autor, notório viajante, não quis passar a mensagem de que viajar, no sentido comum da palavra, seja algo obsoleto, ultrapassado; na verdade, só depois de muita estrada percorrida é que seremos capazes de entender a importância fundamental da quietude e dos momentos solitários.

Separei algumas passagens que me tocaram e deixei muitas outras, tão boas quanto, de fora dessa pequena seleção, na esperança de que você depois de ler essa breve resenha, compre o livro e se inspire o tanto quanto eu me inspirei ao lê-lo. 

Toda vez que faço uma viagem, a experiência só adquire significado para mim depois que volto para casa e, sentado em silêncio, transformo as paisagens que vi em revelações permanentes.




(...) é bom lembrar que o espírito pode nos levar tão longe quanto o movimento físico. Henry David Thoreau, um dos grandes exploradores do século XIX, relata em seu diário de viagens: “O mais importante não é a distância para onde você viaja – em geral quanto mais longe, pior -, mas sim quão vivo está”.



Em minhas viagens pelo mundo, uma das maiores surpresas que tive foi ver que as pessoas mais interessadas em por limites no avanço das novas tecnologias são justamente as que ajudaram a criá-las, derrubando muitos dos limites antigos. As pessoas que trabalharam para acelerar o mundo são as que estão hoje mais empenhadas em desacelerá-lo.



Programara viagens longas e emocionantes pelo Vietnã e pela Islândia e me sentia feliz com a escolha, que me permitiria reforçar meu engajamento com o mundo em poucas semanas. No entanto, a certa altura, todas essas viagens horizontais mundo afora não conseguiam mais suprir minha necessidade de ir além, rumo a um lugar desafiador e surpreendente. O movimento adquire um sentido mais rico quando baseado na quietude.



Leonard Cohen tornou-se o poeta predileto dos viajantes, recusando-se a criar raízes em qualquer lugar, um “garoto cigano” que não admitia que tivessem nenhum tipo de expectativa em relação a ele. Entretanto, como muitos viajantes sem destino, ele parecia saber que é somente quando paramos que podemos despertar em nível muito mais sutil e profundo. (...) Quando ele falava sobre si mesmo, reconhecia que suas viagens mais impressionantes foram as interiores.



No mundo de hoje, onde impera a velocidade, nada é mais revigorante do que ir devagar.
Numa época de distração, nada é mais enriquecedor do que prestar atenção.
E numa época de movimento constante, nada é mais urgente do que permanecer parado, sentado em silêncio.

Leia: A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum. Pico Iyer. Editora Alaúde. São Paulo, 2016 (Ted Books)
Assista: Pico Iyer no TED:  The Art of Stillness (com legenda para o português)

sábado, 15 de novembro de 2014

Sobre o silêncio e a solidão e um poema: El cielo dentro de mí, por Atahualpa Yupanqui y Pablo del Cerro

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Tenho verdadeiro fascínio por textos que tratam dos temas que envolvem o silêncio e a solidão e já disse aqui uma vez que sou apaixonado pela história e lições dos padres do deserto, cenobitas embriagados de Deus que buscaram no silêncio e na solidão o caminho para a comunhão divina.

 Diz Ramakrishna (na obra Liberte-se do passado, Ed Cultrix) que

“Ter silêncio e espaço interiores é muito importante, porque implica liberdade para existir, mover-se, atuar, voar. Afinal de contas, a bondade só pode florescer onde há espaço, assim como a virtude só pode medrar quando há liberdade. Podemos ter liberdade política, mas, interiormente, não somos livres e, por conseguinte, não há espaço. Nenhuma virtude, nenhuma qualidade valiosa, pode funcionar ou medrar sem esse vasto espaço interior. E o espaço e o silêncio são necessários, pois apenas a mente que está só, livre de influências, de disciplinas, do controle de uma infinita variedade de experiências, é capaz de encontrar-se com algo totalmente novo.”

Partindo desse princípio, tão bem colocado por Ramakrishna, busco sempre ler e reler as obras de autores que sabem valorizar a importância desses momentos de silêncio e solidão; de Paul Brunton a Kerouac, de Fernando Pessoa a Paul Bowles, de Hermann Hesse a Hemingway todos eles em maior ou menor grau souberam da importância de se estar só, talvez pelo simples motivo de que tanto a solidão quanto o silêncio fazem parte da aventura do escrever.

Mas acompanhando de perto esses mestres, sei que não era só isso. Todos eles adoravam longas caminhadas, viagens sem pressa de voltar, e o reconfortante contato com a natureza para repor as energias. As viagens, assim como as longas caminhadas, se mostram muito úteis nesse processo transformador e revelador que nos faz enxergar a vida sob novas e diferentes perspectivas e possibilidades.

Hoje eu compartilho com você uma poesia, que tem tudo a ver com o que acabei de escrever e que me chegou pelas mãos de um poeta lá do Sul, o Ulisses Borges, que além de escrever muito bem tem um ótimo sexto sentido para as coisas boas que pintam por aí. Valeu, Ulisses! Buen camino!     

El cielo dentro de mí


en lo alto de la sierra
me detuve a descansar
pero sentí que me iba
sin moverme del lugar

los ojos se me perdieron
en aquella inmensidad
y me olvidé de mi mismo
tanto mirar y mirar

de pronto me ha preguntado
la voz de la soledad
si andaba buscando el cielo
y yo respondí quizás

el cielo está dentro de uno
y está el infierno también
el alma escribe sus libros
pero ninguno los lee

a veces uno camina
entre la sombra y la luz
en la cara la sonrisa
y en el corazón la cruz

búscalo al cielo en ti mismo
que allí lo vas a encontrar
pero no es fácil hallarlo
pues hay mucho que luchar

por caminos solitarios
yo me puse a caminar
por fuera nada buscaba
pero por dentro quizás

(Atahualpa Yupanqui/ Pablo del Cerro)

Leia e ouça o poema no blogue do Ulisses:
http://ulisses-borges.blogspot.com.br/2014/11/el-cielo-esta-dentro-de-mi.html