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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Phil Cousineau: A arte de encontrar significado na estrada (curso online)

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Costumo seguir nas redes sociais alguns escritores que fazem a minha cabeça e um deles é o Phil Cousineau, autor de uma de minhas obras preferidas sobre viagem, a inspiradora A Arte da Peregrinação, já resenhada aqui no blog; também escreveu um texto intitulado A jornada do Herói, abordando a vida e a obra de Joseph Campbell, de quem foi amigo e discípulo.

O Phil escreve sobre temas que, de maneira geral, abordam o lado espiritual da vida, apoiado em áreas do saber como a arte, história, filosofia, mitologia e literatura; suas buscas, entretanto, não se restringem apenas à pesquisa acadêmica, de modo que vira e mexe ele cai na estrada, muitas vezes levando grupos de estudo a locais como Grécia, Irlanda e Turquia e se você for dar uma olhada na programação dessas e de outras viagens no site do autor, acabará como eu, sonhando em um dia fazer parte de um desses grupos.

Mas para tudo há uma alternativa: acabei de me inscrever em um curso online que será conduzido pelo Phil Cousineau com início na próxima semana, dia 02 de junho. Pareceu-me muito interessante e achei que valeria a pena divulgá-lo aqui no blog, uma vez que o conteúdo pode servir de inspiração aos leitores que curtem a temática da viagem X processo de transformação interior.

O curso, que será ministrado pelo Phil e por Mary Ann Brussat, co-diretora do site Spirituality&Practice, intitula-se “Transformative Travel: The Art of Finding Meaning on the Road with Phil Cousineau”. (Viagem Transformadora: a Arte de Encontrar Significado na Estrada). O que você lerá a seguir foi retirado do site que hospeda os cursos online. (links no final do post).

"Eu cheguei à grata conclusão de que não existe algo como um destino chato e que não há desculpas para viagens sem sentido", diz Cousineau sobre sua filosofia. "Tudo o que precisamos fazer é abrir nossos corações e mentes, seguir algumas práticas distintas de estrada, tentar alguns truques de perspectiva e ser curioso e respeitoso onde quer que vamos. Desse modo, podemos descobrir o que os antigos chamavam de ‘a alma do mundo'. Se tivermos sorte o suficiente para experimentar isso, podemos sentir os nossos espíritos se elevarem, e sentir o tipo de transformação que grandes viajantes da história, de Ibn Battua a Freya Stark, Mark Twain a Pico Iyer, têm escrito - a capacidade de voltar para casa novamente e ver os nossos próprios quintais como solo sagrado ".

Este curso online é elaborado com muitas práticas, rituais, cerimônias, truques de atenção e intenção, com o intuito de incentivá-lo a criar a sua próxima viagem de forma a evocar mais compreensão, alegria e significado. Você receberá e-mails às segundas, quartas e sextas-feiras, no período de 2 a 27 de junho de 2014 com o seguinte conteúdo:

• ensaios de Phil sobre maneiras de encontrar sentido na estrada
• listas de leitura e filmes sugeridos
• galerias de fotografias de viagens de Phil para contemplação
• links para músicas, pinturas, e grupos de viagem
• participação em uma teleconferência de uma hora, durante o qual vai responder a perguntas e compartilhar novas ideias sobre como fazer de sua viagem um momento sagrado
• acesso a um grupo de Prática on-line onde você pode compartilhar suas epifanias de viagem com outras pessoas de todo o mundo

Cadastre-se e amplie as suas noções sobre tudo o que o curso pode oferecer - se você está planejando uma viagem ao exterior, visitando um parque ou uma nova cidade, ou se aventurar a uma parte diferente da sua própria comunidade. Afinal, se a vida é uma viagem e o mundo uma pousada, como um homem sábio disse certa vez, então cabe a você decidir se você vai embarcar como turista, viajante, ou peregrino, o que em troca determinará se você será um estranho ou um amigo desconhecido àqueles que você encontrar na estrada longa e sinuosa. É chegada a hora de se abrir à sua própria jornada.
Links de interesse:

Palestra no Phil Cousineau no TEDx (em inglês)
Curso online do site Spirituality&Practice. Clique aqui.
Site do autor: philcousineau.net


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Viagem, símbolo da iniciação, by Luis Pellegrini.

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Arrumando meus arquivos outro dia, encontrei uma pasta com dezenas de artigos de revistas que guardo como fonte de pesquisa, algo meio antiquado para os dias de hoje, quando se pode encontrar (quase) tudo navegando pela internet; o fato é que ainda costumo recortar matérias de jornais e revistas, arquivando tudo em pastas pretas, aquelas com plásticos, que facilitam a leitura e a busca de algum artigo quando necessário, cada pasta com seu tema específico.

Nessa arrumação puxei da estante uma destas pastas cuja etiqueta, escrita à mão, indica que o material ali guardado trata da temática das “viagens iniciáticas”; nem me lembrava que um dia havia colecionado artigos a esse respeito – e muito menos que o tema tivesse assim tanta repercussão, pelo que me surpreendi ao começar a ler o material colecionado ao longo de mais de duas décadas, em sua maioria artigos de revistas de temática esotérica, como a Revista Planeta, a Sexto Sentido, as extintas Ano Zero e Via Luz, as espanholas Año Cero e Más Allá,  entre outras de menor repercussão.

Dos textos que encontrei, o que mais me agradou, para variar, foi escrito pelo Luis Pellegrini, que já apareceu um par de vezes aqui no Odepórica (links para os posts no final) e que sempre que pousa a caneta no papel produz coisa boa, gostosa de ler. Veja só o seu estilo, de um pequenino texto retirado do seu blog em que ele fala sobre Viagens:

"Viagens são oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia. Até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: de que seja feito com a consciência desperta, com os sentidos ligados e o coração limpo como o coração das crianças. Quando nos acostumamos a viajar desse modo, a vida, mesmo em seus episódios mais banais, transforma-se numa permanente e excitante viagem. E cada um de nós, num peregrino da existência."

Bacana, não? Os textos do luis são sempre assim, instigam a leitura, fazem refletir, apontam caminhos... o que é bem a cara da Revista Planeta, que era a cara do Pellegrini quando ele andava por lá... Enfim, achei que o texto que você lerá a seguir não merecia ficar guardado numa pasta que logo irá acabar numa caçamba de lixo reciclado. Coisas boas sempre devem permanecer - ainda que seja apenas num ambiente virtual. Namastê!
A Viagem, símbolo da iniciação


A profusão de viagens aos lugares estranhos e remotos do planeta foi um dos aspectos da vida de Helena Blavatsky que mais chamaram minha atenção quando pesquisava os escritos de seus diversos biógrafos para produzir o ensaio biográfico Madame Blavatsky, que publiquei em 1986. A partir de 1849, e por mais de duas décadas, a existência da fundadora do movimento teosófico mundial – e uma das mais importantes figuras da renascença ocultista que marcou a segunda metade do século 19 – foi um verdadeiro carrossel de viagens, uma contínua peregrinação ao redor do mundo. Visitou os principais sítios arqueológicos dos vários continentes, inúmeras comunidades de povos primitivos, com os quais estudou técnicas de magia natural e de medicina, museus, escolas, mosteiros e templos das mais diferentes religiões.

A vida de Blavatsky, nesse sentido, é análoga à de muitos místicos e ocultistas célebres. É uma constante em quase todos eles essa gana de viagens e de frequentes mudanças de um lugar para outro. Qual seria o motivo que leva tais seres a dedicar grande parte das próprias vidas a essas exaustivas peregrinações? Essa característica, por um lado, está certamente relacionada a uma particular inquietude de alma que distingue tais pessoas dos seres comuns. Por outro lado, é axioma bem conhecidos no ocultismo que um conhecimento puramente teórico da vida e das leis e fenômenos ocultos seja insuficiente. O conhecimento absorvido exclusivamente a partir da leitura de livros, por exemplo, é considerado não apenas insuficiente mas inclusive nefasto.


Mais que qualquer outro estudante, quem se dispõe a trilhar os caminhos do ocultismo deve estar disposto a vivenciar na prática tudo aquilo que aprende através do intelecto. Assim, é fácil entender que viajar a lugares desconhecidos, pelo fato de tirar o indivíduo do seu cotidiano habitual, obrigando-o a estar mais desperto e atento, representa por si só a chance de pôr em prática sua capacidade de adaptar-se a situações novas.

Adaptação, em qualquer escola iniciática que se preze, é sinônimo de inteligência. Sem o desenvolvimento da capacidade de adaptação em todos os sentidos não se vai longe no caminho do crescimento pessoal e do autoconhecimento, que são, afinal, a proposta essencial de todas as escolas, sejam orientais ou ocidentais.


Mas à parte esse seu aspecto prático de permitir que o estudioso viva no plano concreto aquilo que aprendeu na teoria, terá a viagem, em si mesma, um sentido iniciático e transcendental? Será a viagem um ato sagrado? Na época atual do turismo de massa, em que se desenvolve inclusive uma nova área científica chamada sociologia do turismo, será ainda possível individuar o valor simbólico e sagrado que leva a pessoa a viajar, a mover-se irresistivelmente em direção a uma meta?

O simbolismo da viagem, num enfoque tanto esotérico quanto psicológico, representa a procura e a descoberta de um centro espiritual. A viagem exprime um desejo profundo de mudança interior projetado no desejo da viagem exterior. Representa a necessidade de experiências novas, mais que um simples deslocamento físico. Por isso, o psicólogo suíço Carl Jung, ao referir-se ao simbolismo da viagem, disse que ela “indica uma insatisfação que leva à busca e à descoberta de novos horizontes”.


Chevalier e Gheerbrant, em seu Dicionário de Símbolos, explicam que em todas as literaturas a viagem simboliza uma aventura e uma procura, quer se trate de um tesouro ou de um simples conhecimento, concreto ou espiritual. “Mas essa procura”, frisam os autores, “no fundo não passa de uma busca e, na maioria dos casos, fuga de si mesmo”, citando como exemplo célebres viagens literárias como a de Ulisses na Odisséia, Enéas na Eneida, a Divina Comédia de Dante, Pantagruel de Rabelais, Gulliver de Swift, ou os contemporâneos On the Road de Jack Kerouac e vários textos de Ernest Hemingway.

Cirlot, autor de outro importante Dicionário de Símbolos, diz que “do ponto de vista espiritual, a viagem nunca é a mera translação no espaço, mas sim a tensão da busca e da mudança determinada pelo movimento e pela experiência que deriva do mesmo”. Em consequência, estudar, pesquisar, procurar intensamente o novo e profundo são modalidades de viajar, ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.


Viagem, portanto, é transformação pelo movimento. E todo movimento busca, consciente ou inconscientemente, o centro. Giuseppe Tucci, um dos maiores orientalistas e exploradores da Ásia deste século, já no fim da vida revelou a um grupo de alpinistas alguma coisa de importante e exemplar sobre o verdadeiro sentido das viagens dos grandes exploradores. Tucci falava com conhecimento de causa, pois, além de ser um grande aventureiro das viagens, conhecera praticamente todos os exploradores importantes deste século. Todos, segundo ele, cultivaram secretamente, e durante muito tempo, a esperança de descobrir, um dia, para além de qualquer passo esquecido, um vale desconhecido e risonho, habitado por gente que permanecera por séculos isolada do resto da humanidade. O mito do reino perdido de Shangri-lá – um dos mais poderosos e duradouros símbolos do reino interno ou espiritual – teve, portanto, cultores ilustres e insuspeitáveis. Mas daquilo que um pensador convencionalmente racionalista poderia considerar uma simples fraqueza, Tucci não ria: “Só quem caminhou semanas entre montanhas desertas pode entender. O desejo de conhecer o que se esconde por trás da última montanha torna-se obsessivo... Uma espécie de miragem que seduz ao mesmo tempo a razão e a fantasia”.


Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas para quem tem na alma a inquietude do viajante, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada no espaço e no tempo, em direção ao centro.

“Os verdadeiros viajante são aqueles que partem por partir”, disse o poeta Baudelaire, definindo de modo exemplar a figura do peregrino. Os peregrinos de todos os tempos e lugares constituem um tipo especial de romeiros que aparentemente viajam para atingir lugares que se encontram do outro lado – os santuários, templos, cidades e montanhas sagradas. Na verdade, o que atrai o peregrino é a qualidade especial das experiências que em tais ambientes excepcionais é possível viver.


A viagem como experiência sagrada e iniciática, portanto, acontece em todo o seu percurso, e não apenas no seu ponto de chegada. O maravilhoso, o totalmente diverso que distingue aquilo que é sagrado, manifesta-se no tempo liberado do trabalho e dos empenhos cotidianos. Não porque o trabalho e as tarefas cotidianas não possam ser também sagrados e iniciático; mas porque – infelizmente – tendemos a desempenhá-los num estado de automatismo e de semiconsciência, e a iniciação verdadeira só ocorre à luz da consciência bem desperta.

Na viagem do peregrino, o nome, a língua, os hábitos mudam. As amizades ficam interrompidas; o viajante fica “só no mundo”. Começa assim aquele processo simbólico de regeneração psicológica e espiritual concedido aos viajantes mais felizes – aqueles movidos pelo fogo fantástico e espiritual da peregrinação. Todo peregrino com conhecimento de causa sabe que a ânsia de chegar a algum lugar compromete a viagem de valor iniciático. As verdadeiras experiências que enriquecem e ampliam os níveis da consciência individual costumam ocorrer durante e ao longo do percurso.


A chegada ao lugar de destino pode ser só um coroamento, e nem sempre é a coisa mais importante na viagem de peregrinação. Mas se partirmos depositando toda nossa expectativa nas gratificações que nos esperam ao atingirmos o alvo final, estaremos desatentos e perderemos a miríade de pequenas e grandes vivências que nos aguardam perfiladas à beira da estrada.

A importância objetiva e subjetiva das viagens nos assim chamados processos iniciático foi sempre amplamente reconhecida pelas escolas de sabedoria do passado e do presente, tanto do Oriente quanto do Ocidente. Algumas escolas, como a seita sufi dos Kalenderi, da Turquia, impõem a seus membros que viajem continuamente. Como de modo geral para as demais correntes do sufismo, considera-se que a fixação do iniciante em hábitos repetitivos e cotidianos constitui um nocivo fator de “adormecimento” que atrapalha e até impede o processo do “despertar”.


Viagens súbitas, inesperadas, e às vezes temerárias, nas quais o iniciante vê-se subitamente atirado, costumam fazer parte de uma série de provas preparatórias para as etapas mais avançadas e de iniciação preconizadas por escolas que vão dos mistérios gregos às sociedades secretas sufis e chinesas, chegando até as modernas maçonaria e teosofia.

Na verdade, a viagem iniciática só se realiza no interior do próprio ser. Estimula-se a viagem exterior pelo simples fato de que, pelo menos nas etapas iniciais dos processos de iniciação, é muito mais fácil ver, experimentar e compreender no mundo objetivo de fora aquilo que na realidade está ocorrendo no mundo ainda subjetivo de dentro. Nesse sentido, as escolas tradicionais de sabedoria aproximam-se notavelmente da moderna psicologia, em especial a de linha junguiana, que defende a ideia de que, para a psique, tanto faz se a experiência acontece no plano da realidade concreta (objetivamente) ou no da fantasia e da imaginação (subjetivamente). Nos dois casos, o resultado final como vivência do fato psicológico é o mesmo.


René Guénon, por exemplo, diz que as provas iniciática tomam com frequência a forma de “viagens simbólicas”, representando uma busca que vai das trevas do mundo profano (ou do inconsciente, da “mãe”) à luz (a consciência desperta). As provas e as etapas da viagem constituem ritos de purificação.

A viagem simbólica é, outras vezes, e com frequência, feita após a morte, como no caso dos Livros dos Mortos egípcio e tibetano. Ambos tratam de uma progressão da alma em estados que prolongam os da manifestação humana, o objetivo supra-humano (a fusão com o centro) ainda não tendo sido alcançado. Jung estudou a fundo a simbologia psicológica contida no multissecular Livro dos Mortos tibetano e chegou a conclusões surpreendentes: as experiências que a alma humana vive no mundo além da morte, e que são descritas na obra, correspondem simbolicamente às diferentes etapas de maturação psicológica pelas quais o indivíduo tem de passar no seu processo de individuação.


E os turistas que partem em férias, os viajantes de fim de semana cujo objetivo declarado resume-se à vontade de respirar ar puro ou tomar um simples banho de mar, estarão também cumprindo, sem o saber, algum secreto rito de transformação e de crescimento interior pelo movimento? Sem dúvida. O desejo do movimento está sempre associado à dinâmica da vida, assim como a inação se associa à rigidez da morte.


Todo movimento, em última análise, é uma viagem. E, nesse sentido, até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: que ele seja feito com a consciência desperta. Com os cinco sentidos inteiramente ligados, e acoplados àquela capacidade intrínseca da consciência que é a observação. Quando alguém se acostuma a “viajar” desse modo, a própria vida se transforma numa permanente e excitante viagem, e cada um de nós em peregrinos da existência.
Fonte: Revista Planeta, edição de Fevereiro de 1992.

Acesse o blog do Luis Pellegrini aqui!
Link para os posts do Pellegrini aqui no Odepórica? Clique aqui

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Nos caminhos da Glória, by Eleonor Munro

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A peregrinação é uma atividade universal antiqüíssima que tem uma atração psicológica muito profunda. Leva multidões de pessoas para margens de rios, picos de montanhas e santuários solitários do deserto.

Na peregrinação o tempo é medido pelo nascer do Sol e da Lua, pelo aparecimento das estrelas, pelo equinócio e solstício e pela chegada dos planetas nas respectivas posições. Numa definição mais ampla, até seria possível argumentar que sair em peregrinação é uma das poucas práticas humanas compartilhadas pelo mundo todo e começou junto com o anseio de evoluir que provocou a percepção autoconsciente da humanidade em relação ao mundo.

São com estas palavras que Eleonor Munro abre seu estudo sobre peregrinações, numa obra intitulada Nos Caminhos da Glória. Dividido em seis capítulos, o livro aborda algumas das principais rotas peregrinatórias do Ocidente e do Oriente, contemplando as seguintes localidades nessa ordem: Índia, Indonésia, Jerusalém, Grécia, Roma e Santiago de Compostela.

Formada em História da Arte, Eleonor buscou nesse estudo oferecer uma descrição da peregrinação nas principais religiões universais, exceção feita ao islamismo, por conta da dificuldade que alegou possuir em se dirigir à sagrada cidade muçulmana de Meca. Diz ela que “o livro é também uma visão especulativa; sugiro que existe um mito básico que proporciona uma montagem visual e as estruturas internas da peregrinação pelo mundo inteiro.”


Nada de novo nessa visão de Eleonor, no que diz respeito ao mito básico que permeia as mais variadas tradições religiosas mundo afora. Muitos estudiosos das religiões já escreveram sobre isso, entre eles Mircea Eliade, uma referência nesse campo, Victor Turner (em seu excelente e fundamental texto A imagem e a peregrinação na sociedade cristã) e Joseph Campbell, o grande mitólogo norte-americano que dispensa comentários. A autora valeu-se desses e de outros grandes estudiosos para criar o alicerce de sua obra e nesse sentido foi muito feliz, porque o resultado em termos mais acadêmicos foi bastante sólido.

Porém, algo ficou faltando no meio do caminho e já lhe digo o que é. Mrs. Munro começa bem a sua jornada; de forma literal, a escritora põe os pés na estrada, de modo que logo imaginamos que o livro vai ter aquela aprazível mistura de texto acadêmico com narrativa de viagem que combina feito pão e vinho. Mas isso só acontece primordialmente na primeira viagem da velha dama, quando ela se dirige à Índia.




Naquele país temos um relato vigoroso, cheio de observações e notas de viagem saborosas, onde a autora se mistura com os locais, interroga (via intérprete) os homens santos - sem vergonha e quase de maneira descarada - com perguntas sonsas do tipo: “Em que está pensando?”. Sorte a dela que o sâdhu era um homem educado, assim como o indiano que ela encontrou um dia em Nova Iorque, quando arriscou uma pergunta um pouco mais elaborada:
- Qual a melhor coisa a procurar na Índia?
Procure Shiva – respondeu o hindu.
- Onde?
- Em Benares.
- Em que parte de Benares?
- Onde procurar, vai achá-lo.





Se não é tão boa com as perguntas, pelo menos não faz feio quando se põe a refletir sobre aquilo que acontece ao seu redor; Eleonor sabe tirar proveito de suas leituras e sem dúvida é uma mulher inteligente e bastante curiosa em aprender coisas novas. Nesse aspecto, o leitor ganha muito com a leitura.

Na releitura que fiz da obra logo me veio à mente o que havia me desagradado na primeira vez: o distanciamento da Eleonor viajante, que cedeu lugar à Eleonor pesquisadora; depois da viagem para o subcontinente indiano, a participação da autora com o objeto de sua pesquisa torna-se muito distanciada, e o que prometia ser um relato apaixonante de uma pesquisa de campo acaba se transformando em um texto acadêmico sem emoção. O capítulo dedicado ao Caminho de Santiago, que me motivou a comprar o livro na época, é um desânimo só. Um desperdício, porque Eleonor tem muito jeito com as palavras.



Enfim, o que se pode fazer? Eu havia desistido de escrever sobre essa obra aqui no Odepórica porque achei que não conseguiria tirar algum material condizente com a temática das viagens, por conta do que acabei de escrever no parágrafo anterior.

Mas achei um gancho, que servirá, pelo menos, como um momento de reflexão àqueles que, como eu, se sentem atraídos pelas experiências deambulatórias alheias (e fará com que minha releitura, afinal, tenha valido a pena). Refiro-me a uma passagem onde a autora se encontra na Índia, terra abençoada por um milhão de deuses. E nessa imensidão de divindades, uma sempre haverá de causar impacto: a deusa Kali.



Kali, a deusa negra, deusa dançarina dos crematórios, é uma das divindades mais assustadoras do panteão hindu – e possivelmente a mais mal interpretada de todas elas (tal como acontece com Exu, poderoso orixá do Candomblé, injustamente demonizado pelas religiões cristãs).



Iconograficamente, Kali é representada como uma deusa negra (Maha-Kali, a Grande Negra), com uma protuberante língua vermelha saindo de uma boca arregaçada sedenta de sangue, com uma guirlanda de crânios adornando o pescoço e um cinto feito de mãos decepadas.





Na verdade, Kali é a personificação da Deusa Mãe e todas as outras deusas são manifestações dela: Devi, Durga, Parvati, Uma, Sati, Padma, etc. Algo semelhante acontece no catolicismo, com suas inumeráveis Santas Marias, todas elas representações de uma única Virgem ou Nossa Senhora. E puxando um gancho, a Mirella Faur, autora do interessante Anuário da Grande Mãe, diz em seu estudo sobre as deusas que Kali (Kalika, para ela) é cultuada atualmente como Sara Kali ou a Madona Negra. Prossegue: “Transformada pela Igreja em Santa Sara, ela continua sendo para os ciganos a Mãe de seu povo. Devido a sua cor escura, Sara Kali é considerada a precursora das Virgens Negras europeias.” Interessante, não?



Enquanto Krishna ou Ganesha, (o deus menino com cabeça de elefante) causam simpatia e alguma comoção entre os viajantes e turistas mal informados que viajam à Índia, Kali é aquela cuja presença causa arrepios nos desavisados; obviamente, não foi o que aconteceu com a Eleonor Munro, uma pesquisadora séria e muito culta. A pergunta, que muitos não hindus se fazem, é: qual o significado dessa representação que, à primeira vista – e isso não se pode negar – causa tanta estranheza aos que são de fora?



Essa resposta pode ser difícil até mesmo para um indiano, já tão acostumado com a presença da grande deusa em seus altares. É em parte, através da observação dos rituais, das oferendas e das manifestações de amor e de carinho dirigidas a Kali que o viajante ou turista poderá compreender que aquela imagem tem que ser compreendida amplamente dentro de um sistema simbólico religioso, sem o qual ela jamais poderá ser decifrada, lembrando que o padrão simbólico tem o propósito de orientar o iniciado em seu processo de busca interior, a famosa jornada - em termos psicológicos - rumo ao Self.





Acredito que qualquer pessoa, com um pouco de sensibilidade e um tanto de leitura prévia sobre os costumes e a cultura local de um povo, seja capaz de ultrapassar a barreira das aparências e entender, ainda que parcialmente, que existe algo que vai além da primeira impressão.

Lembro-me que em minha viagem à Índia, em 1997, visitei com um amigo uma igreja católica em uma cidade cujo nome não me recordo, e que num salão anexo ao templo havia um museu, um tanto decadente, com vários bonecos em tamanho natural representando cenas importantes da bíblia, cada passagem como que montada em pequenas celas no estilo vulgar dos parques de diversões comuns em cidades litorâneas e do interior, com suas capengas e divertidas casas assombradas.



Marcou-me muito o fato das crianças de um grupo escolar que nos acompanhou ao passeio rirem (sem faltar com o respeito) daquela encenação toda, afinal para elas tudo aquilo não fazia o menor sentido e quisera eu poder entender sua língua para saber o que diziam as gravações que explicavam aquelas cenas. Nunca saberei. Íamos caminhando e parávamos em frente a cada cela que se iluminava enquanto a anterior se apagava, e foi assim até a última parada, quando então apareceu-nos encenado o Cristo crucificado, quase tão coberto de sangue quanto a deusa Kali.



Sempre desejei saber o que se passou na cabeça daquelas crianças naquele exato momento, quando já não mais viam graça alguma na representação. Novamente, nunca saberei, mas algo me diz que a dramaticidade daquela cena passou longe do sentimento de amor e compaixão ao qual os cristãos associam a Cristo Jesus.





Guardando as devidas proporções, não estamos diante de dois fatos semelhantes? Pois para um hindu, cuja religião não se conecta com o cristianismo, um Jesus na cruz é tão aterrador quanto a face negra de Kali com sua grinalda de caveiras o é para um ocidental. Daí a importância de nunca julgarmos aquilo que não conhecemos ou não compreendemos bem, um preceito tão óbvio e ao mesmo tempo tão facilmente ignorado.

Para quem acha esse tema interessante e quiser se aprofundar mais, indico as obras de Heinrich Zimmer (1890-1943), famoso indólogo que publicou textos extraordinários sobre a arte e as tradições religiosas da Índia. Embora o tema me interesse em particular, continuar escrevendo sobre Kali e os aspectos simbólicos dentro da religiosidade hindu foge muito da temática deste blog, por isso, para fechar as nossas divagações, vamos ler a seguir a passagem que me levou a escrever isso tudo que você acabou de ler aqui. OM Sri Kalikaya Namaha!


Na qualidade de peregrina, cheguei em Kali-Durga no lugar que passo a descrever. No chão de um santuário escuro como breu, no meio de uma porção de lixo e estrume, vi uma pedra preta com olhos de prata colados; uma língua vermelha de tanto lamber sangue saía da pedra.

Alguém havia colocado flores e arroz diante da pedra.
- E isto? Que acha disto? – perguntei ao meu guia, que era muito cordial.
- Acho cheio de paz. Tranqüilo. Como uma cemitério. A gente descansa. Qualquer um pode ficar aqui como se estivesse morto.
Pensei comigo: enquanto eu não entendesse Kali como “paz”, não seria capaz de entender a Índia. Algum tempo depois fui ao templo de Calcutá onde o crânio de Sati caiu do céu.



Passamos por vários becos sem sol. Em algum lugar um cachorro uivou. De várias cabanas de bambu escurecidas pelo tempo surgiram várias pessoas de rosto escuro que foram olhar da porta. Em cima de um muro de pedra vimos uma indigente empoleirada nuns joelhos magros, jogando dados com um menino vestido de trapos vermelhos.

Dobramos a esquina e chegamos numa praça. Numa plataforma alta ficava o templo, apinhado de peregrinos. Havia muitos gongos soando. Subimos e ficamos com a multidão que se empurrava para o altar. Bandeiras vermelhas tremulavam. De repente, vi-me levada para a frente.




Tropecei na beira de uma pedra e olhei para baixo. Vi a chama de muitas lamparinas a óleo entre flores vermelhas. “Salve, Mãe do Mundo das Ilusões!” choravam os peregrinos que estavam atrás de mim e ao meu lado. Ali, no meio do fogo e das flores, estava Kali de novo, transformada outra vez em pedra preta, dessa vez com três olhos, a língua vermelha de fora e as mãos erguidas em súplica, mãos vermelhas como o toco do braço de uma criança cuja mãe tomou talidomida.

Estaria eu esperando ver ali a Virgem Maria, de faces rosadas, dentro de uma nuvem? Confusa, olhei de novo para o meu guia e amigo. Ele olhou para mim com olhos muito brandos e repetiu: “Paz”.


Leia: Nos Caminhos da Glória. Eleonor Munro. Editora Siciliano, 1992.


Fontes:

Filosofias da Índia e Mitos e símbolos na arte e na civilização da Índia, de Heirich Zimmer, publicado por aqui pela bem aventurada Editora Palas Athena.

O Anuário da Grande Mãe: guia prático de rituais para celebrar a Deusa. Mirella Faur. Editora Gaia, 2001 (2ª ed.)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Caminhos sagrados: aventuras de um peregrino, by Nicholas Shrady

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São poucas as obras publicadas no Brasil que entram de cabeça na temática das viagens sagradas. Quando muito, você encontra nas estantes uma meia dúzia de livros voltados à temática do turismo religioso, que não tem muito a ver com o lance.


Bons estudos sobre turismo religioso há, entre eles cito assim sem compromisso os trabalhos de Pierre Sanchis e Carlos Alberto Steil, pesquisadores que navegam bem nessas águas. Um dia falo deles, mas daí a pegada tem que ser mais acadêmica, um lance mais de pesquisa, de reflexões e isso foge um pouquinho do escopo do Odepórica.


Muito bem, então vamos falar agora desse lance de viagens sagradas. Sem muitas firulas, eu definiria uma viagem sagrada como um deslocamento em direção a um lugar considerado sagrado por alguém. E por sagrado entenda o oposto de profano. Simples assim, e isso não sou eu quem afirma, é o Mircea Eliade, que é uma referência no mundo bagunçado e instigante das ciências da religião.

Uma viagem sagrada, em muitos aspectos, tem ligação direta com rotas de peregrinação e visitas a lugares santos, que podem ser igrejas, templos da antiguidade, bosques, fontes de água, uma árvore, uma rocha, um túmulo, ruínas e por aí vai.


O autor norte-americano Nicholas Shrady, que costuma escrever sobre narrativas de viagem, resolveu um dia visitar seis locais de diferentes tradições religiosas que parte da humanidade considera sagrado: Medjugorje (Bósnia), Rishikeshi e Varanasi (Índia), Santiago de Compostela (Espanha), Terra Santa (Jerusalém) e Konya (Turquia), onde se encontra o túmulo do poeta sufi Rumi. Seis locais, cinco das principais tradições religiosas do mundo: Budismo, Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. Bem interessante.


O livro Caminhos Sagrados: aventuras de um peregrino é de leitura fácil e agradável, embora um tanto superficial. O autor, em alguns momentos, soa meio pretensioso e às vezes lhe falta um pouco de humildade. Um livro nota sete, para um leitor pouco exigente. Mas em meio a tantas publicações esdrúxulas, como aquela obra que virou aquele filme com a Julia Roberts (e se você não sabe do que estou falando nem perca tempo tentando descobrir), sete é uma nota muito boa. Em outras palavras: vale a leitura, principalmente se você curte viajar para esses tipos de lugares com apelo mais espiritual.


Nesse post não vou transcrever passagens de capítulo algum. Optei por copiar na íntegra a introdução feita pelo próprio autor, que de alguma forma me pareceu mais interessante do que os próprios relatos de viagem que compõem a obra. Boa viagem.




O impulso de fazer uma peregrinação é tão antigo quanto universal. Os egípcios viajavam para o santuário de Sekket em Bubastis; os gregos procuravam os conselhos de Apolo em delfos e as curas de Asclépio em Epidauro. Quetzal, Cuzco e Titicaca eram locais sagrados na América pré-colombiana. A tradição cristã atrai os fiéis, em primeiro lugar, para a Terra Santa, Roma, Santiago de Compostela, Fátima, Lourdes e, mais recentemente, Medjugorje, na Bósnia, onde se diz que a Virgem Maria aparece diariamente a um grupo de videntes da aldeia.


No mundo muçulmano, a hajj, a viagem obrigatória do peregrino para Meca, é um dos Cinco Pilares da Fé.



Os budistas aventuram-se até o Bodh Gaya, onde o Buda atingiu a Iluminação; os judeus curvam-se em oração diante da Muralha Ocidental do templo; e os hindus banhavam-se nas águas cheias de cinzas do sagrado Rio Ganges. Cada religião tem seus ritos e rituais prescritos, mas a peregrinação, em particular, parece falar a um movimento instintivo do coração humano. A frase latina ambulare pro Deo, “caminhar por Deus”, é tão válida para o peregrino cristão que parte rumo a Santiago de Compostela quanto para um muçulmano atraído ao santuário de Ka´ba em Meca ou um budista andando em volta de um stupa.



Exploradores e viajantes, sem mencionar turistas, podem viajar por uma rota de peregrinação, mas seus motivos para a viagem, aquilo que eles procuram, assim como a importância do seu destino final, jamais são os de um peregrino. O progresso do peregrino é ao mesmo tempo uma viagem interior, um exercício espiritual e uma viagem física em direção a um local real, mas investido de um caráter divino. A condição do peregrino, aliás, aproxima-se notavelmente da do herói.


Ao abandonarem o ambiente familiar, mundano, ao submeterem-se a agruras físicas e às vezes a considerável perigo, e ao prestarem reverência ou fazerem penitência num lugar sagrado, os peregrinos, como os heróis, sabem que retornarão de sua odisséia renovados de alguma forma, ou pelo menos interiormente mudados.



“O visitante passa através de um lugar, e o lugar passa através do peregrino”, escreveu Cynthia Ozick. Ao descrever a experiência mística, Meister Eckhart usou a peregrinação como uma metáfora: “O Caminho sem Caminho, onde os Filhos de Deus se perdem e, ao mesmo tempo, se encontram.” Esta é, numa frase, a meta de todo peregrino.


Há dez anos atravessei a pé o norte da Espanha pelo Caminho de Santiago de Compostela, onde se diz descansarem os ossos do apóstolo São Tiago na cripta da catedral. Aos poucos venho compreendendo que a viagem de um mês através de 800 quilômetros foi um acontecimento fértil na minha vida.Ao longo da trilha de peregrinação desdobravam-se episódios coma clareza de parábolas.



Invariavelmente, eu era acolhido por pastores, ciganos, padres de aldeia e freira com votos de silêncio. Fui rechaçado por um súdito do arcebispo. Atravessei paisagens intocadas, de imensa beleza, e os bairros medievais, escuros e labirínticos, de Pamplona, Burgos e Leon. Encontrei santos e misantropos. Colhi maçãs e azeitonas, participei de uma festa de casamento e cuidei de um vagabundo durante um ataque de delirium tremens particularmente forte. Porém, mais do que qualquer outra coisa, tive a oportunidade de refletir e meditar. O Caminho de Santiago foi não apenas uma viagem fisicamente desgastante, mas um exercício espiritual.



Embora eu seja católico de nascença e de criação, minha fé era – e permanece – repleta de profundas dúvidas, mas a peregrinação ajudou realmente a saciar uma sensação sempre crescente, embora mal definida, de anseio espiritual. Como cristãos, aprendemos que Deus é onipresente. Na realidade, não existe uma base teológica sólida na peregrinação a qualquer lugar sagrado.


O cristianismo antigo era uma religião sem templos, padres, santuários, rituais e certamente peregrinações. Deus não deve ser adorado em Jerusalém nem em Gerizim, segundo o Evangelho de João, mas em espírito e verdade. No entanto, permanece o fato de que nunca me senti tão perto do Absoluto como quando estava comprometido com um caminho sagrado, não numa igreja, num confessionário ou momento de oração solitária.


Enquanto avançava em direção a Santiago, vim a considerar o mundo convencional, do qual eu estava afastado pelo menos temporariamente, caótico e sem objetivo; e o mundo da peregrinação, ao contrário, era marcado pela pureza do objetivo, apesar das condições frequentemente precárias.



Achei o Caminho pontilhado de epifanias sutis que – eu percebia – eram milagrosas. Se me sentia de alguma forma abençoado, era porque a peregrinação me aproximou da primeira condição da humanidade. Procurei outras rotas de peregrinação, não apenas no mundo cristão, mas também nas tradições budistas, hindus, judaicas e muçulmanas.


Descobri que a ideia de que durante a viagem pode-se alcançar Deus, ou o Absoluto, é quase universal. É significativo, por exemplo, que Iavé signifique “Deus do Caminho” e que o árabe Il-Rah, originalmente usada para significar uma rota de migração, mais tarde foi recolhida pelos místicos sufis para descrever “o Caminho para Deus”. Cristo e seus apóstolos caminharam pelos montes e vales da Palestina.



A busca do zen também é chamada de angya, ou “viajar a pé”. Os antigos budistas eram “esmoleiros ambulantes”, e as últimas palavras do mestre para seus seguidores foram, apropriadamente, “Continuem caminhando!”. O peregrino em potencial dificilmente encontrará conselho melhor do que estas duas palavras.


Leia: Caminhos Sagrados: aventuras de um peregrino. Nicholas Shrady. Ed. Objetiva, 1999.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Clássicos da Literatura Odepórica: Sendas de Oku, Matsuo Basho

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Olá! Conhece Basho?
Estou apaixonado pela obra deste maravilhoso escritor e auspicioso andarilho japonês que passou por aqui há muitos e muitos anos. Ele se foi, mas deixou tanta inspiração e luz que quatro séculos não foram capazes de apagar seu rastro. Coisa que só gente bacana é capaz de conseguir. E põe bacana nisso.

Matsuo Kinsaku “Basho” (pronuncia-se Bashô,) nasceu em Ueno, Japão, em 1644 em uma família de samurais. O período histórico em que viveu coincide com o momento em que o Japão se manteve fechado para o resto do mundo; foi durante esse período de aproximadamente 250 anos que o verdadeiro caráter e cultura japoneses emergiram da sombra da influência chinesa.

Aos nove anos Basho é iniciado na arte poética japonesa, na caligrafia e no verso clássico chinês; seus estudos o levam a se aprofundar na arte do haikai. Sabe o que é um haikai (ou haiku)? O Alberto Marsicano é quem explica:


O haikai deriva do clássico tanka, poema japonês de 31 sílabas. Esta divisão gerou o costume de os poetas reunirem-se para elaborar coletivamente os poemas: um criava a primeira parte e outro a segunda. Assim, ludicamente se engendravam longas séries de versos que foram denominados renka. Com o tempo, a primeira parte do tanka, de5, 7 e 5 sílabas, adquiriu autonomia dispensando a segunda. Estes poemas curtos e satíricos, repletos de jogos de palavras, ficaram famosos em todo o Japão sob o nome de renka haikai, ou simplesmente haikai.

Um exemplo para ilustrar, da autoria do próprio mestre Basho:

acenda a luz de leve
eu lhe mostro uma beleza
a bola de neve


E outro, de Shiki, discípulo de Basho, com tradução de Paulo Leminski:

nem vem que não tem
eu penso crisântemo
crisântemo em mim também



Delícia pura, isso é o haikai. Mas deixemos a poesia para depois, de sobremesa. Voltemos ao prato principal. Quando completa 28 anos, tendo já vivido metade de sua vida, Basho parte para Edo, a Tókio de hoje, onde compila uma antologia de haikai, dedicando-a à divindade protetora das letras. Diz o Marsicano que Basho se afasta aos poucos da escola mais tradicionalista, chamada Teitoku, por esta insistir em conter o humor e a liberdade originais do haikai. Além do mais, como escreve Octavio Paz (veja o link no final do post), para Basho o haikai não era apenas poesia em sua forma mais pura, era acima de tudo um exercício espiritual. E na senda espiritual não pode haver limites impostos pela razão humana.


Parece que o mestre Basho se encheu desse lance de ficar buscando escolas com as quais pudesse sentir-se pleno e o caminho, também seguido por outros poetas, foi o de mudar radicalmente de vida.

Em 1682, embora cercado por inúmeros discípulos e admiradores, muda-se para uma pequena choupana às margens do rio Sumida, na periferia de Edo. O retiro despoja nosso poeta das obrigações mundanas e também de boa parte de seus alunos. Esse novo estilo lhe obrigara a viver como eremita ao lado de apenas poucos estudantes. Um deles planta no jardim uma bananeira (Basho - no japonês) que primeiro passa a denominar o local e posteriormente o próprio poeta. É importante frisar que naquela época essa planta era exótica e muito celebrada pelos clássicos chineses devido a sua fragilidade diante dos rigores do clima temperado.



E a roda gira. Em 1681 Basho conhece o mestre zen Bucchô e inicia a prática da meditação sentada, o “zazen”. Por essas e outras o zen budismo irá influenciar bastante a sua obra. Alberto Marsicano explica que Basho foi capaz de “infundir na concisa forma do haikai a amplidão do pensamento zen”. E continua:

O haikai é o olho do furacão, o profundo toque de um gongo de bronze, o iridescente relâmpago que inesperadamente reluz na escuridão da noite. O haikai é o satori, o despertar zen que repentinamente surge no caminho.

No final de 1682 acontece o grande turning point na vida de Basho: um incêndio de grandes proporções destrói sua choupana. É a partir daí que o mestre poeta passará em contínua viagem todo o resto de sua vida nesse mundo de ilusões. Nesse momento já era um nome conhecido em todos os cantos, entre os grandes haikaístas do país, e por isso era bem recebido por todos. Basho foi de fato um tipo de monge poeta errante. Ou, simplesmente, um poeta andarilho.

Os relatos de viagem de Matsuo Basho


Na segunda metade de sua vida Basho viajou muito. Deixou alguns relatos de viagem, sendo três os principais:

Visita ao Santuário de Kashima, de 1687. Consiste num conciso relato repleto de haikais. Basho lança-se a pé pelas estradas (apenas os nobres samurais podiam usar cavalos) e atravessa o país com o simples intuito de contemplar a lua cheia nascendo sobre o sagrado templo; ao mesmo tempo aproveita a jornada para recolher inúmeros haikais de poetas que encontra pelo caminho.


Visita a Sarashima
, 1688. Neste relato, que descreve a subida de uma íngreme montanha, podemos vislumbrar todo o processo iniciático do zen budismo, com suas duras provas e dificuldades na trajetória onde o neófito em meio a ferrenha luta consigo mesmo percorre a escarpada senda rumo ao despertar – representado aqui pelo clarão da lua cheia.


O terceiro relato é o mais famoso: Trilha Estreita ao Confim. Trata de uma longa jornada de quatro anos, iniciada em 1689, quando Basho, não resistindo ao chamado dos deuses da estrada, é impelido às remotas províncias do norte, passando por paragens ainda hoje consideradas como longínquas e misteriosas. Certos autores têm a firme convicção de que o poeta percorria estes caminhos tomado por poderes mágicos e uma força espiritual muito intensa que o possuía por completo.

Em 1694 deixa Ueno e caminha até Osaka, onde adoece gravemente. Seus discípulos desconfiados do desenlace próximo pedem-lhe que faça seu poema de morte. Basho lhes responde que nos últimos vinte anos todos os seus haikais tinham sido escritos como o “poema de morte”. Na mesma noite tem um sonho e ao acordar escreve seu derradeiro poema:

finda viagem
meus sonhos rodopiam
pelo seco descampado

Levado a casa de um florista, morre cercado de amigos e alunos. Está enterrado às margens do lago Biwa no jardim do tempo Yoshinaka à sombra de uma bananeira.


Oku no Hosomichi: Sendas de Oku



Agora deixo um pouco de lado o texto do Alberto Marsicano, a quem logo retornarei, e trago a você o prestigiado trabalho de Octavio Paz, pioneiro na tradução (1956) em língua ocidental da obra de Matsuo Basho. Apenas uma introdução, mas bastante enriquecedora como você poderá conferir a seguir:

As versões para o inglês dão uma ideia mais realista da viagem de Basho e de seu ponto de destino: norte remoto, povoados distantes, províncias; a tradução francesa, embora mais literal, inclina-se em direção ao simbólico: fim do mundo. Nós preferimos a via intermediária e pensamos que a palavra Oku, por ser estranha ao leitor de nossa língua, poderia talvez refletir um pouco a indeterminação do original.

Oku quer dizer fundo ou interior; neste caso designa a distante região do norte, nos confins do Japão, chamada Oou e escrita com dois caracteres, o primeiro dos quais se lê Oku.

O título evoca não somente a excursão aos confins do país, por caminhos difíceis e pouco freqüentados, senão também uma peregrinação espiritual. Desde as primeiras linhas Basho se apresenta como um poeta anacoreta e meio monge; tanto ele como seu companheiro de viagem, Sora, percorrem os caminhos vestidos com os hábitos dos peregrinos budistas; sua viagem é quase uma iniciação e Sora, antes de cair na estrada, raspa a cabeça à maneira dos bonzos (monges budistas).


Peregrinação religiosa e viagem aos lugares célebres – paisagens, templos, castelos, ruínas, curiosidades históricas e naturais – a expedição de Basho e de Sora é também um exercício poético: cada um deles escreve um diário semeado de poemas e, em muitos dos lugares que visitam, os poetas locais os recebem e compõem com eles esses poemas coletivos chamados haikai no renga.

E o resto nós já vimos no que vai dar. Pé na estrada e bastante inspiração zen pelos caminhos nos confins do Japão. Agora já sabemos que Trilha Estreita ao Confim e Sendas de Oku são a mesma obra. Particularmente gosto mais de Sendas de Oku, por isso preferi esse título ao outro, escolhido pelo Alberto Marsicano e Kimi Takenaka na obra a que tanto me refiro nesse post. Mas isso é só um detalhe sem importância.


Vou transcrever alguns trechos de Sendas de Oku tirados da obra de Marsicano e Takenaka. É essa a primeira tradução de Oku no Hosomichi para o português diretamente de sua língua original, algo a ser celebrado sem dúvida. Entretanto, a primeira passagem – justamente os primeiros parágrafos do relato de Basho – é resultado do trabalho de Paulo Leminski para sua pequena e deliciosa biografia de Matsuo Basho para a coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense. Mais leve no trato com as palavras, Leminski parece ter traduzido Basho como quem escreve sobre um amigo íntimo, enquanto Marsicano e Takenaka optaram por manter o máximo possível a literalidade do texto original, numa atitude mais reverencial em relação ao mestre poeta.

SENDAS DE OKU (Trilha estreita ao confim)


Luas e sóis (meses e dias) são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e se vão são viajantes também. Os que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre de viagem, e seu lar se encontra ali onde suas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos, morreram pelos caminhos, e a mim também, durante os últimos anos, a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento me inspirou contínuas idéias de meter o pé na estrada.

O ano passado dediquei a vagar pela costa. No outono, voltei à minha cabana, às margens do rio, e a limpei das teias de aranha. Aí, me surpreendeu o fim do ano. Quando veio a primavera e houve neblina no ar, pensei em ir a Oku, atravessando a barreira de Shirakawa. Tudo o que via me convidava a viajar, e estava tão possuído pelos deuses que não podia dominar meus pensamentos.

Os espíritos do caminho me faziam sinais, e descobri que não podia continuar trabalhando. Remendei minhas calças rasgadas e troquei as tiras do meu chapéu de palha. A fim de me fortalecer as pernas para a viagem, me untei de “moka” (terapia de moxabustão) queimada. Logo a idéia da lua na ilha de Matsushima começou a apoderar-se de meus pensamentos. Quando vendi minha cabana e me mudei para o sítio de Sampu para esperar ali o dia da partida, pendurei este poema numa viga da minha choça:

a cabana de ervas secas
(o mundo tudo muda)
vira casa de bonecas



Quando, em 27 de março, me pus a caminho, havia neblina no céu da madrugada. A pálida lua matutina tinha perdido o brilho, mas ainda se podia vislumbrar debilmente o monte Fuji. Em Ueno e Yanaka, os ramos das cerejeiras em flor me despertaram pensamentos tristes ao perguntar-me se algum dia os voltaria a ver.

Meus amigos mais queridos tinham todos vindo à noite na casa de Sampu, para poder me acompanhar durante o curto trecho de viagem que eu faria em barco. Quando desembarcamos num lugar chamado Senju, a idéia de começar uma viagem tão longa me encheu de tristeza. De pé sobre o caminho que talvez ia nos separar para sempre nesta vida que é como um sonho, chorei lágrimas de despedida:

primavera
não nos deixe
pássaros choram
lágrimas
no olho do peixe
(PL)

Com este poema comemorei meu errar. E caminhei adiante em minha jornada. Meus amigos acenaram-me adeus, até que desaparecessem de minha vista. Caminhei o dia todo somente desejando voltar, após haver conhecido as misteriosas paisagens do norte distante, porém sem acreditar realmente na possibilidade de realizar tal jornada, pois sabia que uma caminhada como esta, longa viagem através do segundo ano de Genroku, apenas acumularia cabelos brancos sobre a minha cabeça, quanto mais me aproximasse das nevadas regiões.

Quando alcancei a aldeia de Soka ao anoitecer, meus ombros estavam machucados pelo peso da bagagem, que consistia num cobertor para noite, num traje de algodão, numa capa de chuva, material para escrever e presentes ganhos na despedida. Gostaria muito de viajar mais leve, porém existem coisas das quais não nos podemos desvencilhar, por razões práticas ou sentimentais.

(...)

Um grande amigo residia em Nassu-no-Kurobane, na província de Nassu. Porém, para chegar a esta cidade, era necessário atravessar um imenso pântano. Segui por uma estreita trilha, que por milhas e milhas cruzava, como uma reta, o imenso alagado. Já avistava ao longe a pequena cidade quando uma forte chuva começou a cair, e a escuridão da noite encobriu com rápidas pinceladas de nanquim a paisagem.

Passei a noite na casa de um solitário fazendeiro, e me levantei cedo, ao raiar do sol. Ao longe avistei um cavalo pastando e um camponês cortando o mato. Pedi-lhe o grande favor de emprestar-me seu cavalo. Ele hesitou por um momento, porém, finalmente, com um toque de simpatia na face, me disse: “Existem centenas de encruzilhadas por estes caminhos e um andarilho como você poderia facilmente se perder neste emaranhado e labiríntico meandro. Porém, o cavalo conhece bem o caminho. Leve-o e mande-o de volta quando dele não mais precisar”.


Montei, e parti rumo à cidade. No caminho, duas crianças, filhos deste camponês, seguiam-nos acenando. Sora perguntou à menina qual era o seu nome, e ela respondeu: “Kasane, que significa multiplicidade, variedade”. Para o nome de uma criança do campo, este era um nome diferente e Sora escreveu os seguintes versos:

menina Kasane
rósea flor
múltiplas pétalas


Enviei o cavalo de volta a seu dono, não esquecendo antes de colocar uma pequena quantia em dinheiro, amarrada junto à cela. Ao chegar à cidade de Kurobane, fui logo visitar meu amigo Joboji.

Ele ficou muito emocionado ao me ver tão inesperadamente, e conversamos durante vários dias e noites. Seu irmão Tosui aproveitava todas as oportunidades para conversar comigo, levando-me à sua casa para conhecer seus familiares e amigos. Um dia percorremos a periferia da cidade. Vimos as ruínas de um antigo campo de tiro, e, caminhando até o pântano, visitamos o túmulo da Senhora Tamamo, e depois o de Hachiman, sobre o qual o samurai Yoichi tornara-se famoso por alvejar, com uma flecha, um leque suspenso sobre a proa de um barco. Ao escurecer voltamos à casa de Tossui.


Fui convidado a visitar o templo Komyoji, onde encontra-se a estátua do fundador da seita Shugen. Conta-se que ele percorreu todo o país com seus tamancos de madeira, pregando a doutrina búdica.

verão nas montanhas
peço a estes tamancos proteção
em minha longa jornada


Sobremesa do post: haikais do Paulo Leminski

tarde de vento
até as árvores
querem vir pra dentro

a palmeira
estremece
palmas pra ela
que ela merece

ameixas:
ame-as
ou deixe-as

prá que cara feia?
na vida
ninguém paga meia

nuvens brancas
passam
em brancas nuvens

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando


Para ler, reler e rereler:

Trilha estreita ao confim. Matsuo Basho; tradução de Kimi Takenaka e Alberto Marsicano. São Paulo: Iluminuras, 2008.
Imperdível também é a pequenina edição intitulada Matsuó Bashô: a lágrima do peixe, do Paulo Leminski - coleção Encanto Radical da Editora Brasiliense, 1983. Infelizmente, super fora de catálogo.



Se você ficou curioso/a com os haikais e quer se envolver um pouquinho mais com o tema, sugiro um site bacana que merece o passeio:
Revista Brasileira de Haicai, com links para outras páginas de igual interesse.

A tradução de Sendas de Oku, do Octavio Paz (de onde tirei os excertos para esse post) está disponível na íntegra no seguinte site:
http://www.poeticas.com.ar/Biblioteca/Sendas_de_Oku/frame.html. En español, por supuesto.