Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens

domingo, 24 de fevereiro de 2019

As viagens na Idade Média, parte II


.


Na pegada dos peregrinos

Entre os viajantes mais assíduos, certamente, os peregrinos que, vestidos de túnicas rudes e mantos e “armados” com bastões (um simples bastão nodoso), se dirigiam de toda parte da Cristandade rumo às tumbas dos santos e dos mártires, mas também aos chamados “lugares santos”.
Os destinos preferidos, naturalmente, eram a Terra Santa – onde se visitavam as basílicas do Santo Sepulcro e do Calvário, de Belém e do Monte das Oliveiras – e Roma – onde eram veneradas as tumbas dos apóstolos Pedro e Paulo. Com o tempo, porém, surgiram em toda parte, do Mediterrâneo ao coração do continente, igrejas e catedrais que atraíam multidões de devotos.


Entre os santuários mais visitados estavam Santiago de Compostela na Espanha, São Martinho de Tours e a Catedral de Colônia, sede, desde a segunda metade do século XII, dos espólios dos Reis Magos, retirados da Basílica de Santo Eustórgio, em Milão, por ordem do Imperador Frederico Barbarossa, após terminar vitoriosamente o assédio de Milão.
Para ligar entre si todas essas localidades tão distantes havia estradas nem sempre de fácil utilização, longuíssimas, pouco frequentadas e cheias de perigos. A mais célebre, sem dúvida, é a Via Francígena que, partindo da França, chegava até Roma atravessando as árduas cordilheiras apenínicas.


A estrada era trafegadíssima e muito servida: foi calculado que, apenas na parte toscana, a média era de uma hospedaria a cada cinco quilômetros. Muitas vezes eram os próprios romeiros (romei, de Roma) que construíam estradas e pontes e, com seus deslocamentos, faziam a interação entre culturas e povos diversos.
Além do Caminho de Santiago e da Via Francígena, havia outros itinerários que ligavam igrejas e lugares de culto diferentes por características particulares. Uma “ramificação” da Francígena – a assim chamada “Via dos Abades” até agora pouco documentada historicamente – unia Pavia a Roma passando pelo Mosteiro de Bobbio, fundado em Val Trebbia em 614 pelo abade irlandês Columbano em um terreno recebido do casal real lombardo Agilulfo e Teodolinda.


Exatamente Bobbio e o Piacentino em geral se tornaram destinos obrigatórios para monges e peregrinos provenientes da Irlanda: contando com a hospedaria vizinha à Igreja de Santa Brígida em Placência – construída já em torno do ano de 861 – iam à abadia para rezar sobre o túmulo de São Columbano e depois prosseguiam passando por Pontremoli, a caminho da Cidade Eterna.

Muito popular era também o itinerário que ligava os principais santuários dedicados a São Miguel Arcanjo, cujo culto havia se difundido muito na Alta Idade Média, graças sobretudo às populações de origem germânica como os godos e os lombardos: partindo de Mont Saint-Michel na Baixa Normandia (onde no começo do séc. VIII foi construído um famosíssimo santuário ainda hoje destino de turistas de todas as partes do mundo), o percurso transpunha os Alpes, alcançava a Abadia de Saint-Michel no Val de Susa e depois, passando por muitos lugares ermos, cavernas e igrejas rupestres, chegava até o grande santuário em Gargano.


Considerada lugar de encontro e de passagem para embarcar para a Terra Santa, Veneza muitas vezes é ignorada como destino de peregrinação. Mas a cidade, tanto dentro quanto um pouco fora (Marghera, Mestre, Caorle, Chioggia...), contava com muitas hospedarias para acolhimento não só daqueles que se preparavam para partir rumo ao Oriente, como também de quem queria ver as inúmeras relíquias guardadas em suas igrejas.
Um testemunho precioso a esse propósito é o de certo Leonardo Frescobaldi, que no seu relato de viagem escrito em 1394 conta:


Encontramos em Veneza muitos peregrinos franceses e venezianos e nos fizeram muitas homenagens [...]. Fomos visitar a Igreja da Virgem Santa Luzia, onde está exposto seu santíssimo corpo. No Mosteiro de São Zacarias, pai de São João Batista, em um altar belíssimo, estão expostas muitas relíquias, e ainda o corpo do dito São Zacarias, o de São Jorge e o de São Teodoro mártir. Na Igreja de São Jorge fora de Veneza vimos seu braço e o corpo de São Paulo, e a cabeça de Santa Felicidade. Na Igreja de São Cristóvão vimos o santíssimo corpo e também um joelho, que é um milagre ver. Na Igreja de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino fora de Veneza, vimos seu corpo inteiro e vimos ali um grande pedaço do lenho da Santa Cruz e um dedo de Constantino. Na Igreja de São Donato em Murano fora de Veneza, vimos na igreja uma arca enorme de pedra contendo cento e noventa e oito crianças, isto é, inocentes inteiros, ou seja, aqueles que Herodes mandou matar por Cristo e se via neles todos os golpes dos ferimentos, dizem que costumavam ser duzentas, mas, quando o rei da Hungria fez a paz com os venezianos, foram-lhe dadas duas dessas crianças.


O Vêneto inteiro estava no centro dos deslocamentos de peregrinos que chegavam através da Via Alemanha e da Via Ongaresca, respectivamente da área alemã e da eslava. E quem provinha daquelas nações, às vezes parava para ajudar a sistematizar as coisas para os próprios conterrâneos. Assim, por exemplo, em Treviso, havia oito hospedarias geridas por alemães. 

Fugindo do (próprio) mundo


Para fazer uma peregrinação eram necessários meses ou mesmo anos de caminhadas a pé ou no lombo de uma mula, em condições de segurança precária e contando com a hospitalidade de mosteiros ou de algum proprietário provado sensível.
Por sorte, podiam-se contar com alguma ajuda, como o Guia do peregrino compilado no século XII, que fornecia preciosas sugestões a quem decidia empreender tal viagem e sobretudo defendia a sacralidade do hóspede.


“Pobre ou rico, deve ser por todos recebido com caridade e cercado de veneração. Pois quem quer que o receba e procure diligentemente dar-lhe hospedagem, terá como hóspede não apenas São Tiago, mas o Senhor em pessoa, Ele que disse no Evangelho: ‘Quem acolhe um de vós, a mim acolhe’”.
Quem eram os peregrinos? Homens, com certeza, mas também mulheres, velhos e crianças, sãos e doentes que se encaminhavam para fazer um voto, para pedir perdão, para expiar algum pecado, para obter uma cura, procurar relíquias de santos, mas também (coisa bem menos edificante!) para... escapar dos próprios deveres. Havia até quem fizesse a viagem em nome de alguém impossibilitado de fazê-lo: ser peregrino, nesses casos, equivalia a um verdadeiro “trabalho”, muito bem remunerado.


Um extraordinário e precoce perfil das dificuldades e aventuras que faziam parte de uma peregrinação consta no célebre Itinerarium Egeriae (ou Peregrinatio Aetheriae, em uma variação do nome), relato de viagem aos lugares santos realizada, no final do século IV, por uma mulher chamada Egéria.

Da obra, descoberta em Arezzo no ano de 1884 em um códice manuscrito, resta, infelizmente, apenas a parte central: o resto perdeu-se. A excepcionalidade do achado, mais do que pela narrativa em si, reside na sua datação e no fato de ter sido escrito por uma mulher, muito provavelmente originária da costa atlântica da Espanha ou da Gália, dotada de discreta cultura e de conspícuos meios econômicos.

A viagem, de fato, dura quatro anos (a datação geralmente aceita é o período entre 381 e 384), durante o qual a autora, embebida de autêntico espírito cristão, faz anotações – a que dará forma definitiva apenas depois de retornar a seu país – que se revelam uma fonte preciosa para conhecer edificações, instituições e aspectos da liturgia daquela época.


Outro relato interessante, dentro da infinita literatura sobre o tema, é o Libro d’Oltramare do franciscano Nicolau de Poggibonsi, que viveu no século XIV. O texto narra a aventurosa peregrinação realizada nos anos 1345-1350 de Veneza à Terra Santa e é riquíssimo de preciosas anotações, entre as quais a informação de que a casa de Maria, em Nazaré– ainda existente no ano 1289 -, tinha sido destruída e reduzida a pouco mais do que uma gruta.

A viagem, que durou cerca de cinco anos, levou-o a visitar a Palestina, Damasco, o Egito, a Península do Sinai, Chipre. Dali tentou retornar à sua pátria, mas a navegação, cheia de dificuldades, durou mais de quatro meses, durante os quais chegou a ser sequestrado por piratas. Tendo conseguido fugir, chegou em Veneza no fim de 1349, e, após uma estadia de alguns meses em Ferrara, pôde rever sua casa.


Mais tardio, mas não menos rico em detalhes- sobretudo no que diz respeito ais aspectos gastronômicos: descreve, de fato, as iguarias que lhe foram servidas durante a viagem -, o diário do milanês Pedro Casola (1427-1507) conta a viagem realizada em 1494 também à Terra Santa, a Jerusalém.

De caráter mais místico, porém, o relato da viagem a Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela do inglês Margery Kempe (1373 c.- post 1438), em que a narrativa é intercalada pelas orações e pelas “conversas” que teve com Cristo por mais de quarenta anos.


Mas a peregrinação não era uma prerrogativa apenas cristã: prevista como forma de devoção por quase todas as religiões, era um dever preciso de todo muçulmano, que devia ir, ao menos uma vez na vida, a Meca, a cidade santa do Islã.
Fonte: capítulo 4 da obra A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes. Petrópolis, 2018.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Peregrinação no Japão, parte II. By J.M.Kitagawa

.



3-Peregrinação baseada na Fé em pessoas carismáticas

Ao lado das peregrinações às montanhas sagradas e aos santuários de várias divindades, também se desenvolveu no Japão a peregrinação inspirada pela fé em certos homens santos carismáticos.

É necessário lembrar que mesmo antes da introdução do budismo no país os japoneses veneravam vários tipos de pessoas carismáticas tidas como portadoras de poderes super-humanos.



Após a introdução do budismo, alguns dos notáveis budistas, como o Príncipe Regente Shotoku, quem no final do século 6 e começo do século 7 promoveu o budismo como sendo de facto a religião estatal, e Gyogi, um líder popular do budismo no século 8, quem, por conta de suas atividade filantrópicas e caráter santo foi chamado de Bodhisattva vivo, se tornaram ambos objetos de adoração por boa parte dos budistas piedosos. O mesmo aconteceu com muitos dos fundadores das escolas budistas, como Shinran (séc. XII) e Nicheren (séc XII).



É interessante notar que, diferentemente dos budistas chineses, cujos fundadores costumavam seguir os passos do Buda na Índia, pisando os locais sagrados onde este viveu e predicou, os japoneses tomaram por hábito peregrinar aos mausoléus dos líderes budistas, muitos dos quais  eram conhecidos pelas suas qualidades carismáticas.



O exemplo mais notável a esse respeito é o culto que se desenvolveu ao redor da memória de Kukai ou Kobo Daishi (774-835), sistematizador da escola budista esotérica chamada Shingon-shu.



Não é preciso falar muito sobre Kukai, cuja vida real foi enterrada sob camadas de lendas piedosas. O que é significante é o fato de que ele é lembrado pelos seus seguidores como o itinerante homem santo que visitou muitas áreas remotas do Japão, cavando poços, curando os doentes e produzindo vários milagres para ajudar os pobres e os oprimidos.



Além disso, é amplamente aceito que Kukai não morreu e que ainda hoje ele está caminhando por lá, disfarçado de peregrino e ajudando aqueles que necessitam sua assistência.

Os devotos de Kukai devem ter visitado seu local de nascimento na ilha de Shikoku logo no começo do século 9,  sendo plausível que algum tipo de peregrinação formal nas “quatro províncias” (Shikoku) pode ter surgido nos séculos 12 ou 13. Entretanto, a prática atual de visitar os 88 santuários em Shikoku não foi firmemente estabelecida até meados do século 17.



Até onde podemos averiguar, a “Peregrinação em Shikoku” é um fenômeno complexo. Em muitos sentidos, ela tem notáveis similaridades com a peregrinação aos 33 Santuários de Kannon (Saigoku sanju-san-sho). Em ambos os casos os peregrinos vestem as mesmas indumentárias e seus cantos são semelhantes em forma e som.



Examinando mais de perto, contudo, fica evidente que o motivo central da “Peregrinação em Shikoku” não é a devoção aos 88 locais sagrados, que sem dúvida tronou-se uma característica própria, mas em vez disso, sua ênfase principal é o ato de “caminhar com Santo Kukai”. Dito isso, a “Peregrinação em Shikoku” é baseada na fé e na memória do homem santo carismático, Kukai, cujo bastão de caminhada é seu símbolo vivo.



Portanto, mesmo quando uma pessoa sozinha empreende a peregrinação, esta é chamada de peregrinação de dois (dogyoni-nin), querendo dizer, Santo Kukai e ela.

De acordo com a tradição, a peregrinação a Khikoku começa no Monte Koya, local do centro monástico estabelecido por Kukai. Espera-se que os peregrinos prestem homenagem ao mausoléu de Kukai, onde se crê que ele esteja dormindo até o momento de retornar ao mundo como o futuro Buda, Maitreya.



Do monte Koya, os peregrinos saem de um dos portos e cruzam o estreito para Shikoku de barco. Os 88 lugares sagrados estão espalhados pelas 4 províncias que constituem Shikoku. Historicamente, na província de Awa, que conta com 23 locais sagrados, é chamada de “arena de exercício para o despertar espiritual” (Hosshin no dojo); a província de Tosa, com 16 locais sagrados, é chamada de “arena de exercício para a disciplina ascética” (Shugyono dojo); a província de Iyo, com 26 locais sagrados é conhecida como “arena de exercício para a iluminação” (Bodai no dojo), e a província de Sanuki, com 23 locais sagrados é chamada de “arena de exercício para o estado de Nirvana” (Nehan no dojo).



Os locais sagrados são numerados de 1 a 88. Destes locais, os de números 19, 27, 60 e 66 são considerados “obstáculos” (seki-sho), e dizem que aqueles que cometeram alguma má ação recebem nesses pontos algum sinal ou presságio, tal como a aparição de um determinado pássaro.



Tal presságio indica que eles desagradaram Santo Kukai e por isso devem terminar ali sua peregrinação e começar tudo novamente. A princípio, o curso normal da peregrinação é iniciar pelo número 1 e terminar no templo 88, mas após completar o curso regular, pode-se empreender uma peregrinação adicional, desta vez seguindo a rota reversa.



É tomado como certo que a peregrinação completa é mais louvável. Entretanto, mesmo que feita parcialmente, como “os 10 locais sagrados” (jukka-sho mairi), “os 7 locais sagrados”  (nanaka-sho mairi) e os locais sagrados em “uma das quatro províncias” somente (ikkoku mairi) são tidos como muito benéficos.



Assim como no caso da Peregrinação aos 33 Santuários de Kannon, a Peregrinação em Shikoku é tanto feita individualmente ou por pequenos grupos familiares. Porém, há também muitos tipos de grupos formais e informais, os quais patrocinam grupos de peregrinação, tal como a Confraternidade devocional a Kobo Daishi (Daishi-ko) e a Confraternidade dos devotos de Shingon (Kongo-ko).



Igualmente notável é o desenvolvimento de confraternidades dedicadas à tarefa de oferecer hospitalidade e assistência aos peregrinos (set-tai-ko). Membros dessas confraternidades acreditam que oferecer hospitalidade aos peregrinos é o mesmo que servir a Santo Kukai.



Alguns desses grupos hospitaleiros vêm de lugares distantes, fretando barcos para o transporte de alimentos e outros itens, e levantando centros de hospitalidade em vários pontos ao longo da rota principal de peregrinação.



A popularidade da Peregrinação a Shikoku foi tamanha que desde o século 18 vários “88 mini-santuários de Shikoku” foram construídos em diversas partes do país, como Edo (Tokyo), Chita (perto de Nagoya), Soma (na atual prefeitura de Chiba) e a ilha de Shozu no Mar Interior de Seto.



Essas peregrinações de menor escala obviamente não são tão meritórias como a peregrinação original aos locais sagrados em Shikoku, mas são uma maneira de dar oportunidade àquelas pessoas que, de outra forma não seriam capazes de “caminhar com fé ao lado de Santo Kukai”.



Ainda que breve, esse retrato dos três tipos de peregrinação no Japão deixa claro que há tantas semelhanças quanto diferenças significativas entre elas.  O primeiro tipo, chamado de peregrinação às montanhas sagradas pode ser caracterizado por suas atividades corporativas sob a supervisão de um guia experiente.



A ênfase no ascetismo e nas disciplinas físicas implica em um caminho soteriológico (Soteriologia- parte da Teologia que estuda a salvação da humanidade) baseado no autopoder (jiriki – fé em si mesmo, no esforço próprio) ainda que traga em si um elemento de fé. E a noção de que as montanhas sagradas são os modelos do Paraíso dá um ímpeto enorme aos peregrinos que buscam um significado religioso de vida dentro da realidade da existência fenomenal.



O segundo tipo, a peregrinação baseada na fé em certas divindades tende a ser mais individualista e também carece da rigorosa ênfase ascética porque seu caminho soteriológico conta com o poder salvador das divindades.  (tariki – fé no poder externo, o Outro Poder). Mesmo que os peregrinos busquem uma experiência imediata de algum grau de salvação aqui na terra, eles aceitam a existência de uma realidade futura como a única arena de salvação.



Finalmente, o terceiro tipo, a peregrinação baseada na fé em homens santos carismáticos carrega algumas das características do primeiro e do segundo tipo mencionados antes. Mas sua característica única é demonstrada na noção de que o poder salvador já foi efetivado na vida de um homem santo carismático, que combina em si os papéis de divindade e de guia. Em outras palavras, o peregrino depende do Outro Poder (tariki), embora esse Outro Poder não esteja distante em uma realidade transcendental. O poder salvador, totalmente efetivado em uma pessoa, compartilha cada passo do peregrino terreno como um real “companheiro peregrino”.



É evidente que a tarefa do historiador da religião envolve muitas dificuldades especialmente quando se lida com um fenômeno complexo como a evolução da religião na Japão, país de diversas características homologadas de Budismo, Taoísmo, Shinto e crenças religiosas populares, símbolos, cultos e práticas.



Em tal situação, uma abordagem cabível poderia ser a de estudar uma forma significativa de culto religioso desenvolvido a partir da fusão de vários elementos. Neste ponto é nossa esperança que esse estudo primário dos três tipos de peregrinação possa ter jogado uma luz nas características devocionais da tradição religiosa japonesa.



sábado, 28 de julho de 2018

Peregrinações no Japão, parte I. By J.M.Kitagawa


.


Vez ou outra volto a reler alguns textos de fenomenologia da religião, uma área de estudo que me interessa em particular.   Tenho em mãos um excelente livro, Experience of the Sacred – readings in the Phenomenology of Religion, com textos de gente grande como Rudolph Otto, Max Scheller, Mircea Eliade e Paul Ricouer.

Apaixonado pelo Japão e sua cultura, fui de imediato atraído por um texto sobre peregrinações, escrito por J. M. Kitagawa que resolvo traduzir e publicar aqui no Odepórica, uma vez que o tema é pertinente com o perfil do blog.  

Kitagawa nasceu em 1915 em Osaka, no Japão, e aos 26 anos foi estudar teologia nos Estados Unidos, onde fez uma carreira brilhante na área dos estudos de religião, em particular em História da Religião, sendo um dos fundadores dessa área de estudo nos EUA. Faleceu em 1992, aos 77 anos de idade.             
 

Em toda tradição religiosa, a peregrinação reúne os mais variados atos religiosos e frequentemente características diversas e muitas vezes contraditórias, que são tanto espirituais quanto mundanas.

Viajar longas distâncias, visitando montanhas sagradas ou santuários, envolve dificuldade e resistência física, mas também aspectos prazerosos, tais como passeios e contato com novas amizades. De modo geral, os peregrinos são movidos por objetivos religiosos, tais como a veneração de divindades ou santos que estão consagrados em vários locais sagrados, obtendo mérito pela salvação de alguém, pagando penitência por um pecado, ou rezando pelo repouso dos espíritos dos falecidos, mas esses motivos religiosos são frequentemente misturados com o desejo de alcançar uma cura, boa sorte, o nascimento auspicioso de uma criança, prosperidade ou qualquer outro benefício mundano.

Mesmo as práticas ascéticas, que são geralmente impostas aos peregrinos, notavelmente a abstinência sexual e o jejum ou as restrições dietéticas são interpretadas como investimentos necessários para as almejadas recompensas, sem contar que a peregrinação proporciona um providencial alívio da enfadonha rotina diária das pessoas.



Além do mais, visto de uma perspectiva mais ampla, a peregrinação, que sedimenta a solidariedade de grupos religiosos, também estimula os negócios e o comércio, a disseminação de ideias e o intercâmbio intercultural. Não obstante essas características universais, que são compartilhadas pelas peregrinações de várias tradições, cada uma tende a mostrar um ethos próprio, que só pode ser compreendido dentro de seu contexto religioso e cultural.

No Japão, o desenvolvimento da peregrinação foi muito influenciado por fatores geográficos e topográficos tanto quanto os fatores religiosos e culturais. De acordo com o Shinto (Xintoísmo, religião nativa do Japão derivada do animismo e práticas xamânicas), o mundo inteiro é permeado pela natureza sagrada (kami), de modo que cada montanha, rio, árvore, rocha - assim como o ser humano - são potenciais objetos de veneração.

No que diz respeito à prática da peregrinação, ela teve pouca evidência no Shinto, uma vez que este era rigorosamente relacionado com a vida do clã (uji), que mais do que nunca estava estabelecido em uma localidade geográfica particular.



Para se ter uma ideia, em muitas comunidades rurais acreditava-se que o kami (espírito) das montanhas descia à terra e se transformava no kami do campo de arroz durante parte do ano e depois retornava às montanhas após a época da colheita. É concebível que, por esse motivo, algumas pessoas podem ter subido as montanhas com o intuito de vivenciar a morada mística do kami. Mas essas práticas eram espontâneas, não regularizadas como peregrinações nos primórdios do Shinto.

A introdução da civilização chinesa e do budismo durante o século VI a.C. trouxe à tona uma extensa mudança religiosa e cultural nos períodos subsequentes na história do Japão. Eventualmente, lá se desenvolveu três tipos de peregrinação principais após a fusão do Shinto nativo com as práticas e crenças populares do budismo e dos elementos do taoísmo chinês. São elas:

1-  Peregrinação à montanha sagrada
2-  Peregrinação aos templos e santuários, baseada na fé pelas divindades adoradas nesses locais;
3-  Peregrinação aos lugares sagrados baseada na fé em certos homens santos carismáticos, que por esse motivo consagraram os lugares com sua presença.



Veremos a seguir como esses tipos de peregrinação se desenvolveram no Japão e também vamos retratar as semelhanças e diferenças entre elas.

1.   Peregrinação à Montanha sagrada



Já pontuamos a importância das montanhas sagradas na vida religiosa do japonês primitivo. É significante notar nessa conexão que até mesmo após a introdução da civilização chinesa e do budismo as pessoas continuaram a venerar as montanhas assim como as moradas das divindades, e a prestar um respeito especial ao “homem austero” (gyo-ja), no qual se acreditava haver adquirido poderes super-humanos por conta do rigoroso treinamento ascético da montanha (sanrin-toso).

Entre os budistas, também se desenvolveu no século VIII um movimento chamado “Escola da Sabedoria Natural”, a qual buscou a Iluminação não através da meditação tradicional e das disciplinas monásticas, mas através de um contato junto à Natureza nas montanhas.



É sabido que alguns monges e leigos piedosos submetiam-se à prática da austeridade nas montanhas na intenção de adquirir poderes mágicos (siddhi). Enquanto isso, adivinhos xamânicos, curandeiros e ascetas, que antes não tinham qualquer conexão com o budismo, passaram a ter influência budista.

A relação deles com o budismo foi muito tênue, mas eles eram chamados de “praticantes budistas não ordenados” (ubasoku; upasaka)  e muitos alegaram possuir o poder de operar milagres por conta da práticas austeras na montanha.  O efeito combinado desses movimentos foi o aparecimento da então chamada Ordem dos Ascetas da Montanha (Shugendo- o caminho de poder espiritual pela ascese, escola do Mikkyo, o budismo esotérico japonês) que preservou muitos elementos do Shinto e das antigas tradições religiosas populares.



A popularidade dos ascetas das montanhas durantes os séculos XI e XII foi engrandecida pela crença prevalente entre os aristocratas de que a peregrinação às montanhas sagradas, especialmente aquelas de Kumano e Yoshino, poderiam habilitá-los a vivenciar aqui na terra uma amostra da Terra Pura (Jodo-Shu).  

Também era amplamente sustentado naquele tempo que os nativos Shinto kami (espíritos) daquelas montanhas eram na realidade manifestações das divindades budistas. Deste modo, acreditava-se que as peregrinações a essas montanhas, acompanhadas e guiadas pelos experientes ascetas locais, traziam proteção tanto das divindades xintoístas quanto das budistas simultaneamente.

Com o declínio da nobreza da corte na segunda metade do século XII, os ascetas das montanhas buscaram amparo entre guerreiros e outros plebeus através do estabelecimento das confraternidades devocionais (ko-sha) em várias partes do país.



A maioria dos membros dessas confraternidades pertencia aos grupos budistas e xintoístas, mas eles encontraram um ímpeto adicional em sua devoção nas deidades de certas montanhas sagradas que se encontravam quase sempre longe de seus lares. Um bom número dessas confraternidades continuou atuante até os nossos tempos.

A principal função desses grupos era a peregrinação às montanhas sagradas, sendo que a maioria deles não permitia a participação de mulheres, pelo que as confraternidades eram predominantemente masculinas. Eles consideravam a subida nas montanhas, conduzida por guias experientes, essencial para a disciplina física e espiritual, e assim a peregrinação era usualmente considerada uma cerimônia de iniciação para garotos que estavam entrando na vida adulta.

Eventualmente modelos miniatura de montanhas sagradas se estabeleceram em algumas partes do país para o benefício daqueles que não podiam fazer as verdadeiras peregrinações, e o culto às montanhas cresceu em popularidade atraindo idosos e também as mulheres.



Estima-se que na segunda metade do século dezenove havia 17.000 guias qualificados nas montanhas sagradas, o que significa que um número consideravelmente maior de ascetas estava atuando nesses lugares.

As três (assim chamadas) denominações da Seitas Shinto dos nossos dias – (1) Jikko-kyo (religião de “conduta prática”), (2) Fuso-kyo (religião de Fuso, que é o nome clássico do Monte Fuji), e (3) Ontake-kyo (religião do Monte Ontake) – são herdeiras diretas das tradições dos ascetas das montanhas, enquanto Fuji-kyo (confraternidade devocional do Monte Fuji), mais tarde renomeada como Maruyama-kyo, tornou-se uma sub-seita de outra denominação da Seita Shinto chamada Shinto Taikyo (o grande ensinamento do Shinto).

Assim, há muitos grupos de peregrinação às montanhas, formais e informais, indo desde aqueles que seguem as disciplinas mais estritas até os que beiram às atividades semi-recreacionais. 

2 – Peregrinações baseadas na crença em certas Divindades



Na história religiosa do Japão, a popularização da peregrinação não ficou confinada às montanhas sagradas. Muitos religiosos, mulheres e homens leigos, certamente estimulados pelas peregrinações nas montanhas, também apreciavam a visita menos aventureira aos lugares sagrados das planícies, especialmente os templos budistas ou os santuários xintoístas onde certas divindades são cultuadas.

Essas peregrinações são motivadas não pelo desejo de se submeter às práticas ascéticas, mas pela devoção a um determinado Buda, Bodhisattva (bodhi = iluminado; sattva = ser) ou kami, a quem os peregrinos prestam homenagem, dão graças ou pedem favores especiais. Os templos que consagravam as estátuas das divindades mais conhecidas atraíam muitos peregrinos.

A peregrinação mais organizada de todas é a conhecida como “Peregrinação aos 33 Santuários no Japão Ocidental” (na parte ocidental do país, região de Kansai), em japonês, Saigoku Kannon ou Saigoku Sanjusansho, que foi baseada na devoção a Kannon (Avalokiteshvara, o Buda da Compaixão).



De acordo com uma lenda piedosa, o Imperador Kazan (que reinou de 984-986), após a morte de sua consorte, abdicou do trono e, trajando hábito sacerdotal, visitou os 33 santuários dedicados a Kannon. Embora essa lenda não seja confiável, é quase certo que dois sacerdotes Tendai, (Escola do budismo maaina, descendente da Escola chinesa do Sutra do Lótus) Gyoson e Kakuchu, peregrinaram no século XII pelos 33 santuários de Kannon.

Evidentemente, a julgar pelos registros dos séculos XIII e XIV, houve variações na seleção dos santuários dessa rota, ainda que exista um acordo na quantidade (33), por ser este um número sagrado. A atual característica dos 33 templos provavelmente foi estabelecida no século XV, época em que a peregrinação já não era mais monopolizada pelos bem-nascidos e pela classe religiosa.

Devido em grande parte às atividades dos líderes dos novos movimentos budistas que surgiram no século XIII, entre elas a Escola Terra Pura e o Nichiren, tanto os pobres quanto os ricos vieram a aceitar a crença de que estavam vivendo em um período de “degeneração da Lei do Buda” (mappô – período final da Boa Lei), pelo que sentiam uma urgente necessidade da graça e da misericórdia das divindades para o seu renascimento na Terra Pura após a morte.



Sem dúvida esse é o motivo de o Monte Nachi, tido como modelo da Terra Pura do Kannon na terra, ter sido escolhido como o ponto de partida da peregrinação.

Gradualmente, o vestuário do peregrino – chapéu de palha largo, rosário pendurado no pescoço, cajado, concha, um baldinho de madeira e um sino – passou a ser comum.

Na estrada os peregrinos entoam um canto rítmico de 33 versos, referenciando o poder miraculoso e compassivo de Kannon em um de seus 33 santuários; não raro os peregrinos mendigavam alimento e esmolas, maneira de garantir seu sustento durante a jornada.



Com o tempo, muitas outras formas de peregrinação budistas foram aparecendo, como a peregrinação aos 25 templos da Escola da Terra Pura, a peregrinação aos 100 templos da Escola Nichiren, e a peregrinação aos 100 templos no distrito de Higashiyama, ao longo das encostas mais baixas de Kyoto, antiga capital do Japão Imperial.

Ao contrário das peregrinações às montanhas sagradas, feitas em grupos e guiadas por um asceta experiente, a peregrinação aos templos das divindades pode ser feita individualmente. Apesar disso, muitas confraternidades surgiram em conexão com essas peregrinações e seus membros formam pequenos grupos de peregrinos para dar suporte mútuo e encorajamento aos companheiros de viagem.



Na tradição do Shinto, que também desenvolveu a prática da peregrinação durante os últimos séculos, a mais proeminente é a peregrinação ao Grande Santuário de Ise, dedicado à deusa do sol, Amaterasu-o-mikami. Essa peregrinação foi fomentada pela Confraternidade de Ise (Ise-ko), que seleciona por sorteio certos membros que irão representar outros em sua peregrinação a Ise, geralmente na primavera ou no outono.

A partida e o retorno são celebrados através de cerimônias especiais e banquetes são oferecidos a todos os membros. Uma vez que suas despesas são pagas pela confraternidade, que é mantida pelas taxas dos associados, os peregrinos de Ise – ou de outras peregrinações xintoístas semelhantes - não pedem esmolas nem alimento na caminhada. Fora isso, o objetivo da peregrinação a Ise é semelhante às peregrinações budistas, exceto que o objeto de devoção é uma divindade Shinto.