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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Um lugar na janela: relatos de viagem, by Martha Medeiros


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Numa senda em que são poucas as mulheres que se aventuram, causa surpresa encontrar uma dama publicando narrativas de viagem. Seu nome merece destaque: Martha Medeiros, gaúcha de escrita saborosa, autora de vários livros de crônicas e poesias que você que gosta de ler já deve ter visto naqueles totens da editora L&PM. Se não viu, procure ver, há sempre muita coisa boa nos pockets dessa simpática editora.

Da Martha eu nunca havia lido nada; para dizer a verdade, eu achava que ela era uma escritora portuguesa, sei lá o motivo, e que escrevia livros voltados exclusivamente ao público feminino, o que não é o caso, uma vez que sua maneira de observar o mundo não se limita ao temido (pelos homens, claro) universo feminino, se é que isso realmente existe.

Mas eis que uma amiga me deu uma caixa cheia de livros usados e entre eles havia dois títulos da Martha: Topless e Trem-bala, ambos coletâneas de crônicas que a autora publica nos jornais O Globo e Zero Hora. Como gosto muito do gênero, separei-os para ler no metrô, que pede uma leitura mais descompromissada, uma vez que viajo poucas estações diariamente na ida ao trabalho.



Vou lhe contar: adorei os textos da Martha, mulher inteligente e com ótimo senso de humor – coisa melhor não há. Gostei tanto que nem pensei duas vezes antes de comprar seu mais recente trabalho, Um lugar na janela – relatos de viagem, deliciosa reunião de narrativas das viagens que a autora fez em diferentes fases da vida.

Estão lá as clássicas mochilagens pela Europa, de uma viajante nos seus vinte e poucos anos; passagens pelo Chile, cidade em que chegou a viver alguns meses; depois nessa ordem ela conta suas aventuras pela Grécia, Istambul, Marrocos, Rio, Japão e Peru, entre outros lugares bacanas. Nem dá para escolher, todos os relatos são pura diversão.

Desconfio que a Martha já ensaiasse há algum tempo essa aventura pela literatura odepórica e digo o motivo da minha desconfiança: na sua obra de 1997, Trem-bala, aparece um texto intitulado Viajar para dentro, em que ela escreve com muito sentimento sobre o ato de viajar, bem ao estilo dos textos que você encontra aqui no blog e que diz o seguinte:



“(...) Viajar é transportar-se sem muita bagagem para melhor receber o que as andanças têm a oferecer. Viajar é despir-se de si mesmo, dos hábitos cotidianos, das reações previsíveis, da rotina imutável, e renascer virgem e curioso, aberto ao que lhe vai ser ensinado. Viajar é tornar-se um desconhecido e aproveitar as vantagens do anonimato. Viajar é olhar para dentro e desmascarar-se.”

O próprio título do livro, que por sua vez é o título da última crônica dessa coletânea, Trem-bala, remete aos deslocamentos. Nesse texto a Martha traça um interessante paralelo entre a vida que a gente leva e um trem que viaja num ritmo alucinante; começa lembrando o leitor daquela antiga novela da TV Manchete, Pantanal, que quebrou paradigmas televisivos com suas longas e repetitivas tomadas de paisagens e banhos de rios - e bela trilha sonora, diga-se de passagem.  Diz a autora, e havemos de concordar com ela, que o povo “acostumado com a estética do videoclipe, aquele frenesi de imagens picotadas, finalmente descansava em frente à televisão”.  Prossegue:



“A vida lenta é como uma novela que passou anos atrás e que só pode ser resgatada pela memória: não existe mais. Não há mais tempo para closes. Não há paciência para uma paisagem, para um deslumbramento, para um silêncio. Ao menos não aqui, nos trilhos urbanos, onde todos assistem à vida passar como se estivessem na janela de um TGV.”

A própria faz questão de informar, na introdução de sua nova obra, que viajar está impresso em seu DNA e que o livro nasceu, de certa maneira, quando começou a publicar posts em um finado blog em que suas narrativas de viagem davam o maior ibope. Não duvido, o estilo de escrita da Martha é come-páginas, não dá vontade de parar de ler.

Dessa vez não vou transcrever nenhum dos relatos de viagem porque quero que você vá à sua livraria predileta e compre o livro, que muito vale a pena. De lambuja copiarei para você, leitor/a, trechos de duas pequenas crônicas da Marthilda: uma sobre o ato de caminhar (Trem-bala) e outra sobre o ato de viajar, (Um lugar na janela); ambas dão uma boa noção do estilo bacana da escrita dessa gaúcha trotamundos. Namastê!


O sedentarismo tem suas delícias, porém elas acomodam-se bem na região do abdômen e dali não saem, dali ninguém as tira. É? Você está se lixando. Aos sábados de manhã, espia pela janela aquele bando caminhando pra cima e pra baixo com um headphone no ouvido e não entende como eles têm disposição para marchar em direção ao nada. Você ao menos tem um rumo: vai até a geladeira, até o banheiro, até a garagem: ida-e-volta. Mas caminhar sem ter pra onde ir?

Erro de avaliação. Todas as pessoas que caminham sabem onde querem chegar. Alguns caminham para atingir o peso ideal, outros para desobstruir as artérias. Alguns levam o cachorro pra passear, outros levam o cérebro para tomar a fresca. Pensar ao ar livre é diferente de pensar na frente da tevê, faça o teste.

Alguns caminham para enrijecer os músculos das pernas, alguns caminham para estrear os tênis novos, ou a namorada zero km. Caminhamos para respirar melhor, para suar, para empapar a camiseta. É o inverso da vaidade: quanto mais demolidos, maior a auto-estima.



Caminhamos para encontrar as árvores, reparar nas varandas dos vizinhos, olhar para o céu, lamentar os prédios pichados, descobrir uma confeitaria até então despercebida, olhar as capas das revistas expostas na banca, admirar um muro coberto com hera, pensar na vida.

Caminhar não cansa, caminhar não custa, caminhar ventila por dentro. Alivia, emagrece, surpreende e ainda nos concede a honra de ouvir música ao mesmo tempo. Caminhar sozinho ou acompanhado, com trajeto definido ou labiríntico, com ou sem relógio, por esporte, recomendação médica ou peregrinação. Caminhar é meio que uma religião.


Muitas pessoas decidem viajar em momentos de transição pessoal, quando sofreram alguma perda ou estão vivendo um dilema – necessitam passar por um divisor de águas para seguir adiante. É uma estratégia que se deve respeitar, até porque ajuda mesmo, mas é bom não esquecer que uma viagem não realiza milagres. A felicidade não será servida em bandeja de prata só pelo fato de a pessoa estar em um local distante de onde costuma sofrer seus revezes.

Decolagens nos dão a impressão de estarmos passando por cima dos problemas que ficaram em solo, mas haverá uma aterrisagem, cedo ou tarde. Claro que se ausentar é um recurso legítimo para afastar-se do que lhe incomoda, a fim de raciocinar com mais clareza e se distrair com outras coisas, mas acreditar em soluções de pronta-entrega é ilusão, não compatibiliza com o que uma viagem pode realmente lhe trazer de benéfico.



Um desses benefícios é enxergar o mundo com um olhar novo e inspirado. Um boteco, um açougue, uma igreja, um bonde, uma tabacaria, um poste, uma janela, uma placa de rua: na sua cidade natal, você quase não observa mais o mobiliário urbano e os detalhes que compõem o todo que nos cerca – já em Lisboa, em Tiradentes, em Bariloche, cada um desses lugares ganha poesia. É quando nos permitimos ficar rendidos pela beleza e pelo valor estético daquilo que, no nosso cotidiano, depreciamos como se fosse uma futilidade.

Na pressa de sair para trabalhar, de não chegar atrasado, de vencer os obstáculos de uma segunda-feira qualquer, permanecemos cegos diante do que há de encantador em cada esquina, em cada avenida que nos são costumeiras.

Viajar não cura sofrimentos, mas nos faz perceber que podemos ser bem mais do que turistas esporádicos – podemos, isso sim, ser viajantes durante os 365 dias do ano, em qualquer lugar em que se estiver, incluindo onde se mora. Comprometer-se com o encantamento contínuo pela vida não impede desconfortos do coração, dívidas com o banco ou conflitos familiares, mas dá uma trégua pra alma.
Leia: Um lugar na janela: relatos de viagem. Martha Medeiros. Ed. L&PM, 2012.

domingo, 17 de junho de 2012

O Livro dos Caminhos, by Phil Cousineau

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Li recentemente uma coletânea de textos de uma obra do Phil Cousineau, um autor de quem gosto muito, intitulada The Book of Roads. Trata-se de uma reunião de breves narrativas de viagem que o Phil, bom vagamundo, escreveu entre os anos 80 e 90 e que, acredito eu, não havia publicado até então em outro veículo.

A noção é a de que o moço recolheu suas cadernetas de viagem e foi assim, sem muito esforço, escolhendo aquilo que entrava ou não na coletânea. Hum, esse vai, esse não, aquele ali talvez... esse jamais... Será que poderia ser assim? Porque vou ser sincero, já li coisa bem melhor do Phil, viu seu Phil Cousineau? Mas nem tudo está perdido, porque aqui e ali, now and then, surge alguma coisa interessante. Como o texto que salvei para postar aqui no Odepórica, que fala de um devaneio do Phil em Atenas, esse sim cheio de poesia e encanto, como toda boa narrativa de viagem deve ser. Namastê!





Não há luar sobre a Acrópole esta noite. A luz débil e prateada de um holofote ilumina o Parthenon. Encontro-me no telhado de um hotel, depois de passar todo o dia explorando sítios arqueológicos. Uma chuva forte cai sobre mim, mas não irei me mover. Preciso olhar uma vez mais o emaranhado de andaimes e guindastes que se destacam na rotina diária de erguer e derrubar rochas fragmentadas.

Adoro esses lugares antigos quando eles estão desertos. Agora, na chuva cortante de outubro, o templo parece estar guardando um segredo majestoso. Tremendo por conta do vento invernal, mantenho meu foco nas engenhosas colunas em forma de cone. Minha mente não vagueia pelas estátuas de ouro e marfim de Phidias, os magníficos discursos de Péricles, ou as epifanias de Eurípides, mas por uma noite durante a Guerra da Independência de 1821.

A Acrópole foi tomada pelo exército otomano, mas eles estavam sitiados pela força grega. Com a munição chegando ao fim, os turcos começaram a demolir as colunas de mármores de mais de dois mil anos de idade no intento de extrair o chumbo que havia em seu interior. O céu da noite estava iluminado pelo fogo que alimentava as fornalhas de cal. Apavorados, os cidadãos de Atenas que viviam nas vielas labirínticas logo abaixo, despacharam um mensageiro. Eles sabiam que a vida seria insuportável sem aquelas colunas conectando o céu e a terra.

O mensageiro correu até a antiga estrada sinuosa rumo à Acrópole, e quando lá chegou, caiu prostrado em frente aos oficiais de comando. “Não toquem nas colunas”, implorou o homem, “Nós lhe daremos balas de canhão”.

Os fornos foram apagados.

A chuva cai sobre as colunas estriadas, salvas pelo amor insondável às velhas pedras e pelas histórias antigas nelas encerradas. Dou uma olhada nos telhados dos hotéis mais próximos e das casas ao redor. Eu não estou sozinho. Assim como eu, centenas de pessoas estão contemplando o efeito hipnótico da chuva e da luz sobre o templo de Atenas. Não consigo deixar de pensar: quais monumentos eu teria tanto pavor de perder ao ponto de entregar balas de canhão a um inimigo?

Não vejo sentido em pensar que há apenas pedras sem vida naquela colina – eu sei que não é isso. O pó daquele mármore estava em meus pulmões antes mesmo de eu nascer. Não preciso saber como.

É a beleza que molda nossos corações.





The Book of Roads. Phil Cousineau. Sisyphus Press, 2000.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Andanças e visões de Miguel de Unamuno

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Miguel de Unamuno, um dos grandes autores da literatura espanhola, nasceu em 1864 num pequeno povoado de Bilbao. Escreveu poesias, romances, artigos, ensaios e dois relatos de viagem: Por tierras de Portugal y de España (1911) e Andanzas y visiones españolas (1920). É deste último que vamos tratar daqui a pouco.

Unamuno formou-se em filosofia em Madrid e sua carreira acadêmica o levou a lecionar língua e literatura grega na Universidade de Salamanca. Deve ter sido um homem muito inteligente, pois em 1901 já havia se tornado reitor da mais prestigiada Universidade espanhola.



Mas Miguel de Unamuno não era apenas um intelectual, era também um homem muito cheio de atitude. Não deixava nada barato e fazia questão de afirmar suas posições políticas, o que lhe causou alguns desgostos durante a vida, entre eles o de ser afastado diversas ocasiões de seu cargo de reitor, e também da vida pública, tendo sido deportado para as ilhas Canárias em 1924. Dois anos depois exilou-se na França, onde permaneceu até o ano de 1930. Seus últimos anos de vida foram passados em prisão domiciliar na cidade que tanto amou, Salamanca, onde veio a falecer, em 31 de dezembro de 1936.

Essa sucinta biografia serve apenas para contextualizar o que você irá ler nos próximos parágrafos. Unamuno gostava imensamente de viajar e desconfio que suas escapadas – ele as chama de excursões – eram a melhor maneira de fugir da insatisfação política que pesava sobre a Espanha naquele período histórico tão conturbado, às vésperas da ditadura de Francisco Franco. Viajar também é fugir e as fugas muitas vezes são estratégias necessárias para poder ganhar força para continuar as batalhas que surgem ao longo da vida.


Andanzas y visiones españolas não foi publicado no Brasil e o volume que estou usando data de 1941, editado em Buenos Aires. A obra é composta de 40 relatos relativamente curtos, de viagens empreendidas pelo autor num período que vai de 1911 a 1921. Em alguns momentos, poucos, sente-se o peso da I Guerra na narrativa do viajante, mas de um modo geral ele preferiu adotar uma postura mais poética, reflexiva e filosófica em seus relatos.

Miguel de Unamuno passa a imagem de um homem nostálgico, desencantado com o ritmo da vida da época em que viveu, o que se percebe ao vê-lo falar do passado. Fico imaginando o que o autor pensaria da Espanha atual, passados já cem anos de suas primeiras excursões pelo interior do país. Mas acho que esse desencanto faz parte um pouco da personalidade das mentes filosóficas, o que não deixa de ser charmoso às vezes - para quem tem estilo, é claro, e Miguel o tem de sobra. Darei um exemplo, de uma passagem em que o autor se encontra no alto de uma montanha, próximo ao santuário de Nossa Senhora de la Peña, na França:



“Ali em cima, envolto pelo silêncio, sonhava com todos os que, havendo podido ser, não fui para poder ser o que hoje sou”.

Bonito isso, não? Coisa de filósofo viajante, que adorava perambular, principalmente para o campo e para as regiões montanhosas, de onde pudesse, desde o alto, contemplar o mundo silencioso logo abaixo; Unamuno, ele mesmo afirma, diz que se nutria dessas paisagens e eu achei essa imagem genial, porque de fato é possível imaginar a força dessa metáfora, nutrir-se de uma paisagem, como quem absorve um alimento para a alma.


“Aquelas paisagens que foram o primeiro leite de nossa alma, aquelas montanhas, vales ou planícies em que se amamentou nosso espírito quando este ainda não falava, tudo isso nos acompanha até a morte e forma como o cerne, o tutano dos ossos da própria alma. Porque a alma possui seu esqueleto, exceto naqueles desgraçados que a têm mucilaginosa, invertebrada, como o polvo ou a esponja marinha. Mas para quem tem alma vertebrada, com ossos que a mantém em pé e mirando o horizonte, esses ossos se nutrem de um tutano que foi feito com as nobres e serenas visões da infância distante.”

Viajar era algo levado a sério por Unamuno, talvez até demais, como se pode notar na posição por ele adotada na passagem abaixo:

Viajar, sim, viajar, mas não somente para poder contar sobre a viagem no sossego de casa aos filhos, aos amigos: “Eu também estive ali!”, pois isso na maioria das vezes não passa de vaidade, como a dos novos-ricos norte-americanos, mas também, sobretudo, para recordar e saborear a sós e para acalentar com a recordação dessas viagens às terras distantes o prazer do apego ao local de nascimento ou de onde se ergue o próprio ninho.


Mas, para que viajam a maioria dos que viajam? Há algo mais atrapalhado, mais molesto, mais prosaico do que o turista? O inimigo de quem viaja por paixão, por alegria ou por tristeza, para recordar ou para esquecer, é o que viaja por vaidade ou por modismo, é esse horrível e insuportável turista que se prende ao asfaltado das ruas, nas maiores ou menores comodidades do hotel e na comida deste.



Porque há quem viaja, me horroriza ter que dizê-lo, para provar das distintas cozinhas. E outros para visitar teatros, cafés, cassinos, salas de espetáculos, que são em todas as partes a mesma coisa e em todas igualmente infectas e horrendas. E há quem viaja, já o disse em outra ocasião, por topofobia, para fugir de cada lugar, não em busca de onde se vai, senão em fuga de onde se parte.

Bom, não vamos julgar o homem, pois não podemos nos esquecer que num relato de viagem tem muito peso o contexto da época em que foi escrito. E não eram tempos fáceis aqueles, como já vimos, lembrando que o turismo, tão desprezado pelo autor na passagem acima, ainda era coisa para pouquíssimos privilegiados no começo do século passado.


Mas os turistas não são as únicas vítimas de Unamuno, que também desce a lenha nos conterrâneos espanhóis, a quem chama muito pejorativamente de “pordioseros”, vocábulo proveniente da típica expressão espanhola “Por Dios”. Nada muito diferente do que ocorre por aqui, veja só:

A pobre gente falava de suas vidas mansas, humilde, resignadamente. Fiquei na dúvida se as queixas eram rituais, eco daquilo que ouviram por toda a vida, ou mais uma forma de nossa característica choramingação espanhola, desta detestável mania de pordioseros de estarem sempre se lamentando de sua sorte e de sua pátria. Fiquei na dúvida de que se tudo isso não era senão a volúpia da queixa.


Fácil perceber que Unamuno tem um olhar crítico sobre tudo, ou quase tudo aquilo que observa em suas andanças: pessoas, lugares, a literatura, a arte, a política, mas isso nem de longe faz dele um ser amargurado, pelo contrário; sua erudição e sua escrita poética tornam sua leitura um prazer. Poucos são os que conseguem narrar a natureza como Miguel, que gosta das alturas e do silêncio.


Ali, no topo, ali sim se parece a vida um sonho e um sopro. (...) Ali em cima, no cume da Peña de Francia (montanha que se localiza a 1723m, ao sul da província de Salamanca), sentia cair as horas, fio a fio, gota a gota, na eternidade, como a chuva sobre o mar. Melhor do que gota eu diria floco a floco, pois caíam silenciosas, como cai a neve, e brancas. É sobretudo do silêncio o que ali se goza.

(...) Me ponho de cara à cidade, que está ali, por sobre aquele pequeno pico escuro. À minha direita, ao nascente, o maciço da serra de Béjar, o Calvitero, com a forma de um gigantesco monte de feno. Brilham algumas casas em Béjar. Cumprimento a montanha irmã, mais alta do que esta na qual me encontro, e onde uma vez, antes de raiar o dia, deitado sobre a terra e sem mais teto que não o céu, vi-me envolto em uma nuvem de tormenta. E foi então quando compreendi ao Deus do Sinai.

(...) Partimos ao amanhecer de Las Erías, subindo em direção a Horcajo. Que panorama estupendo! Lembrei-me da frase de Obermann, de que o sentimento da montanha jamais poderá ser expresso em uma língua criada pelos homens das planícies.

Bacana, não? E é assim que o Miguel vai excursionando pelas terras de Espanha, às vezes até atravessando a fronteira com Portugal, onde guarda boas lembranças e amigos. Não se espera daquelas paisagens nada mais do que a simplicidade e o silêncio, a beleza natural e a ternura dos campesinos, porque isso, somente isso, e um pedaço de pão e de queijo, e um gole de vinho, e talvez um bom livro, são suficientes para alegrar a existência de qualquer pessoa.


Essa Espanha de Unamuno, com certo esforço, ainda pode ser encontrada em algumas paragens mais remotas, nos pequenos pueblos mais afastados das estradas de alto tráfego e de grandes núcleos urbanos. É difícil dizer, sem parecer saudosista ou simplista demais, o que esses lugares têm de especial. Provavelmente, para muitos, para a grande maioria, não haja nada de interessante a ser observado nesses locais. Ruínas seculares? Restos de civilização? Gente velha e abandonada esperando a morte chegar? Isso tudo faz parte do pacote, é verdade.

Mas a poesia está mais no olhar do que no objeto. Daí a beleza de textos como os de Unamuno, pois foram escritos por alguém que sabia exercitar o olhar do viajante. Percebi isso muito claramente quando li o último relato de Andanzas, “Junto à velha igreja”. É curtinho, e vou postá-lo na íntegra, quem sabe você também consiga captar a sutileza – em parte perdida por conta da tradução – da linguagem poética, com um toque de Augusto dos Anjos, desse grande escritor e viajante espanhol. Namastê!



Junto a la vieja Colegiata


Um morcego rondava a cúpula daquele templo românico onde já não mais ressoavam preces nem ardiam os círios. Solitário em seu nicho escuro, um Cristo lívido, sem as almas que outrora sob seus pés lhe suplicavam perdão; do céu fechado do templo – as bóvedas – pareciam gotejar pelas tardes, remotas lendas, filhas da negra angústia apocalíptica dos mais bárbaros séculos, quando a alma tremia, com as asas quebradas, no cárcere da carne, aguardando a morte numa tortura mística, para ver-se assim livre do mundo de odiosas histórias; e na paz do sepulcro do tétrico recinto - de uma fé morta no túmulo - um silêncio de pedra envolvia as velhas memórias.

Do lado de fora do templo, sob o sol vivífico, a abside arredondada coberta por um manto de hera, que ampara os ninhos onde a cada ano ágeis andorinhas nidificam suas crias e, partindo, as levam a alguma mesquita nos limites do Saara. Na torre em ruína uma cegonha hierática, com os olhos sonâmbulos, cochila em pé, e ao cair da tarde, em posição de sentinela, com seu vôo eurrítmico vai da poça às margens do rio buscar a caça que no ninho sua cria devora.

E o Cristo solitário, preso naquele lúgubre interior, entedia-se, e ouve lá de fora o alegre pio das andorinhas e o bater dos dentes das cegonhas, feito prece litúrgica, contando os dias que faltam para o êxodo, aves peregrinas!

ANDANZAS Y VISIONES ESPAÑOLAS. MIGUEL DE UNAMUNO, 1920

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Passado selado, by J.R.Duran

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Vou postar um artigo que li na Audi Magazine número 79. Nem é o tipo de publicação que me interessa, já que não ligo para automóveis, mas essa edição me chamou a atenção. Na capa, a foto de um tabuleiro de jogo retratando países, do tipo do War, joguinho chato e interminável das tardes chuvosas de infância. O título desse número aparece assim: Movimento - De Moscou a Tóquio, via Vladivostok, por terra e mar.


Hum... já achei interessante. Sem culpa na consciência afanei a revista (não posso dizer de onde senão meu dentista me mata) e li todos os artigos na volta à casa; um deles, em particular, achei a cara do Odepórica e resolvi transcrevê-lo. Bom para vocês, leitores/as, bom para mim também, pois assim alivio um pouco o bad karma ao dividir o fruto do meu afano com outras pessoas. Não podemos ser egoístas, certo?


Pois bem. Quem assina a matéria é o fotógrafo catalão J.R. Duran, famoso por fotografar as peladonas da Playboy. Deve fotografar outras coisas, claro, mas agora só me lembro dele associado à Playboy mesmo. E já não está bom?


O texto é leve, leve, você mal começa e já acaba, o que é uma pena, porque o assunto é muito interessante. Fala das cartas, do ato de escrever durante as viagens, agora cambiado pelo ato de digitar. Não quero parecer tiozinho, mas nunca será a mesma coisa teclar numa LAN house e escrever em qualquer lugar... mas não dá para juntar as duas coisas? Claro que dá, por que não? O bom é deixar para escrever num momento mais contemplativo, entende? Quase como se fosse uma prática de meditação, a postura, a caligrafia, o ritmo, o tempo, as pausas, um trago de cigarro pra quem fuma, um gole de vinho ou café pra quem bebe... e aí é deixar rolar o que vier, cabeça e coração em sintonia. E o punho pra funcionar.


O Duran, fotógrafo, diz que faz isso. O barato dele é escrever cartas em papéis timbrados dos hotéis em que se hospeda, que não devem ser poucos. Segue um ritual - que você lerá no texto dele; sai à caça de selos pelas cidades, pois qualquer selo não serve, tem que ser o mais especial em circulação. E no final, selos lambidos e cartas fechadas, envia tudo para sua casa, em nome de si mesmo, veja só que interessante isso.


Não abre nunca as cartas, as tais que chegam de todas as partes do planeta. Um dia, quem sabe, as lerá. Mas não agora, quando a vida ainda lhe parece infinita. Estão todas lá, como diz, a prender o passado entre folhas de papel.


Gostei disso. E você, não? Namastê.


Passado selado



O filósofo e utópico renascentista Francis Bacon fez uma lista das que seriam, desde seu ponto de vista, as três descobertas mecânicas que tinham “changed the whole face and state of things troughout the world” (“Novum Organum”,1620). Seriam elas: a bússola magnética, a pólvora e o papel. De acordo com ele nenhuma estrela, nação ou seita conseguiu – conseguiria – exercer influência igual na vida das pessoas.
Dificilmente uso uma bússola, apesar de que, confesso, levo sempre uma no fundo da minha mochila, acho que algum dia ainda vai me tirar de alguma enrascada. A segunda descoberta – a pólvora – não me é de grande utilidade direta, penso que serve mais aos exércitos. Já com a terceira descoberta é diferente. Essa é fundamental para mim também. Porque não saio de casa sem um papel e uma caneta. Tenho a memória dispersa, e tanto ideias quanto lembranças de coisas para fazer, me aparecem nas horas mais estranhas. Uma anotação rápida – contanto que legível – resolve o problema.
Bacon não o mencionou em seu tratado, mas os três inventos que ele achou fundamentais são chineses. E é com paciência oriental que venho guardando durante os últimos tempos – na verdade anos – uma série de cartas especiais. São cartas que escrevo para mim mesmo nos hotéis em que tenho me hospedando, seja a trabalho ou de férias.


O conhecimento das reentrâncias e saliências da fotografia me servem para várias coisas profissionalmente, mas, pessoalmente, as utilizo como artimanha para congelar o tempo que, às vezes, parece passar rápido demais. Uma maneira de fixar na memória os detalhes que semanas, anos depois, vão se tornar imperceptíveis.

Pode ser a imagem de um lugar confortável, de um objeto que nunca terei, um sorriso, o prato de um almoço, a sombra que uma árvore projeta na parede. Cenas cotidianas que se repetem, aparentemente iguais – e não se engane, não o são – e que serão, sempre, as primeiras a desaparecer, enterradas na quantidade de informações arquivadas no labirinto da memória.


Alguém me disse que escrevia para não morrer. Ao escrever as cartas não chego a tanto. A razão pela qual escrevo é menos dramática, mais prática e simples. Escrevo, assim como fotografo, para guardar o tempo. Conto nelas como está meu estado de espírito naquele instante e isto se torna o registro de um momento impresso em um papel que, anos depois, funcionará como uma janela aberta capaz de iluminar um pedaço do passado.

Para isso sigo algumas regras que com o tempo fui estabelecendo. Um procedimento mais ou menos comum. Uma delas é a de que as cartas só podem ser escritas em papel timbrado. Ou seja, se o hotel não tiver um logotipo e endereço impresso em papel e envelope, nada feito. Outra é a de que elas têm de ser escritas com caneta na cor preta. Confesso que durante algum tempo as escrevi em tinta verde, como Pablo Neruda. Mas, como o conteúdo das cartas sempre foi mais existencial do que poético, decidi voltar ao preto sobre o branco.


Outra regra é a de, sempre que o tempo permitir, ir até o posto do correio mais próximo, pegar a fila, e pedir para escolher um selo. Grande e bonito. Em alguns lugares é fácil. Em Hong Kong, por exemplo, um dos postos fica a poucos metros do Hotel Intercontinental. Em outros, é mais complicado, mas isso faz parte do ritual.


Em Los Angeles, tive que pedir ao motorista do táxi, a caminho do aeroporto, que parasse um instante na frente de um posto de correios que surgiu no meio da corrida. Felizmente a carta estava à mão. De qualquer maneira, é uma experiência curiosa. Os funcionários dos correios estão acostumados a ter clientes que se preocupam apenas com a urgência das encomendas e ficam radiantes e iluminados ao descobrir que alguém pede para eles o selo mais interessante que estiver em circulação no dia.


As reações são sempre divertidas. Em Asmará, a capital da Eritreia, a mulher saiu de trás do guichê e me convidou para um café enquanto me contava das dificuldades do país. Em Macau, o atendente deixou uma fila esperando atrás de mim e me levou a uma salinha para me mostrar por que os correios da ilha são famosos por produzir selos belos e elaborados.

Às vezes peço a um concierge do hotel em quem confio para colocar as cartas no correio (Durante estes anos todos apenas três cartas não chegaram. Foram as escritas na Índia e entregues nas mãos de três concierges de hotéis luxuosos – da mesma cadeia – ostentando belos turbantes. Não adiantou muito.). Em alguns lugares isso é comum. Em outros, nem tanto. Em Iquique, no Chile, a moça ficou surpresa. Ninguém antes tinha feito uma solicitação como aquela.
Uma outra regra é colocar alguma coisa junto com a carta dentro do envelope. O recibo de um restaurante, o ticket de um filme que assisti ou o ingresso de algum museu que dificilmente voltarei a visitar. Durante alguns anos, antes da fotografia se tornar totalmente digital, polaroids (alguém lembra o que era isso?) serviam como uma espécie de reforço visual para estas cápsulas de memória.


Mas uma coisa as cartas têm, rigorosamente, em comum. Nunca, até agora, elas foram abertas. Enquanto o passado escorre entre os dedos e os neurônios do cérebro, uma parte dele está presa, para sempre, entre duas folhas de papel.









sábado, 2 de outubro de 2010

Cartas do yage, by William Burroughs & Allen Ginsberg

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Estou todo contente, só porque acabei de ler uma recente publicação sobre a literatura beat. Trata-se de uma pequena e deliciosa coletânea de entrevistas com os mais conhecidos nomes da cena beat, editada pela Azougue Editorial na coleção Encontros (a arte da entrevista). O título, óbvio e básico: Geração Beat, organização de Sergio Cohn. O conteúdo da pequena coletânea de entrevistas não deixa nenhum fã da literatura beat desapontado, bastando dar uma olhada nos entrevistados para saber que o lance é bom: Allen Ginsberg, Gary Snyder, Jack Kerouac, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Neal Cassady, Will Burroughs, Michael McClure e até Bukowski, que nem era beat mas que sempre aparece no meio dos malucos todos da época.

Cada uma das entrevistas é uma pequena jóia, um documento valioso para quem curte os beats e quer saber um pouco mais de seus escritores favoritos. Para mim, que sou suspeito, Kerouac sempre brilha mais, e a entrevista intitulada “Santo Jack” (1959) é uma curtição só, você se sente ali ao lado dele e do entrevistado, e de sua mãe Gabrielle, que vira e mexe aparece para dar uns pitacos, enquanto Jack entorna uma lata de cerveja atrás da outra (mas sem nunca perder a pose e a lucidez). Vou dizer uma coisa: nas mãos de um autor competente, só essa entrevista renderia uma boa montagem teatral.
Gary Snyder é outro que me surpreendeu; sua entrevista, publicada originalmente em 1977 na revista East West tem o sugestivo título de “Meditar e varrer o jardim”. Para quem não conhece a turma, Snyder (que completou 80 esse ano) é o beat zen da galera, um poeta prestigiado que passou anos no Japão, com formação em antropologia e cultura oriental. Meditou pacas, influenciou Kerouac de montão em sua fase budista e nunca deixou a peteca cair. Embora nem se considere um beat – e de certa forma estava mesmo distante daquela parada toda – foi sempre tratado como tal. Eu diria que a seu modo Snyder foi uma alternativa zen em meio a tantas doideiras praticadas pelos outros, sobretudo no que diz respeito ao uso de drogas, hábito comum a todos, mas incompatível com a proposta espiritual dele. Por essas e outras, Snyder é um homem que brilhou - que ainda brilha, por ter vivido de acordo com suas crenças de forma honesta, sem nenhum tipo de hipocrisia. A entrevista dele faz com que você perceba isso com muita facilidade.
Outro poeta e nome chave da cena beat, Allen Ginsberg, é mais um que merece destaque na coletânea. Assim como Snyder, Ginsberg também foi um homem que viveu de maneira honesta aquilo que acreditava, mas seu barato era outro, e só quem já leu seus escritos e poemas sabe a dimensão porralouquice de sua obra. No bom sentido, sempre. Allen Ginsberg foi genial, de uma cultura e inteligência acima da média e não se pode negar o papel de destaque que as drogas sempre tiveram em sua vida. E também na de William Burroughs, seu grande amigo e outro nome fundamental na história do movimento beat.
E é desses dois camaradas de quem vou agora tratar, só que deixando de lado o Geração Beat (leia, leia, leia!) e tomando nas mãos o pequenino livro intitulado Cartas do yage, que tem a ver com viagem, afinal, e cujo resumo copio descaradamente da capa posterior:

“Em 1953, logo após a controversa morte acidental de sua mulher, William Burroughs (1914-1997) se lançou em uma viagem à América do Sul. Mais especificamente ao Peru e à Colômbia, na busca pelo yage, ou ayahuasca, droga usada pelos índios da nascente do rio Amazonas à qual se atribuem poderes sensoriais e anestésicos. (...) um pouco diário de viagem, um pouco relato ficcionalizado, contém as cartas escritas ao amigo, amante e poeta Allen Ginsberg (1926-1997) sobre a experiência. Traz também as cartas que este enviou a Burroughs sete anos mais tarde, ao fazer uma jornada similar.”

Simples assim. A obra (lançada originalmente pela mítica City Lights, em 1963) como consta no resumo acima, trata da troca de correspondência entre Allen e Will Burroughs contando suas experiências com o yage no Peru e na Colômbia amazônica. Primeiro foi um, WB em 1953; sete anos depois, é Allen quem vai e daí você que nem leu já pode imaginar o que os dois devem ter aprontado no meio do mato pra poder garantir um barato alucinógeno. Diz o Will (em sua obra Junkie):
"Andei lendo sobre uma droga chamada yage, usada pelos índios da nascente do Amazonas. Dizem que ela aumenta a sensibilidade telepática. Portanto, resolvi me mandar pra Colômbia em busca do puro barato que expande a mente, ao contrário da heroína, que a estreita. Talvez eu descubra no yage o que andava procurando na heroína, na maconha, na coca. Yage talvez me dê o barato definitivo.”

O yage, do título, é a conhecida ayahuasca, o cipó de onde se produz a mesma bebida que ingerem os membros do Santo Daime, de quem já falamos aqui no Odepórica outras vezes. A diferença entre a experiência destes (Will e Allen) com a dos praticantes dos grupos religiosos é a conduta espiritualmente pouco ortodoxa dos dois escritores; ainda que possa parecer haver algo de espiritual na busca de ambos, por conta do desejo em experimentar uma expansão da mente, fica a noção de que o que buscavam de fato era a pura fruição alucinógena (em particular no caso de Burroughs), sem qualquer preocupação com a sacralidade. A bem da verdade, Burroughs sempre foi um junkie inveterado, tendo feito de seu próprio corpo um templo para todos os tipos de experiências com drogas (ainda assim, apesar de todos os excessos nessa área, o homem teve a proeza de viver 83 anos, um verdadeiro antecessor de Ozzy Ousborne). Allen Ginsberg, diferente de Will, sempre viveu uma profunda - e aparentemente legítima- busca espiritual, o que se nota com clareza ao se comparar os relatos de ambos ao descreverem suas experiências com o yage numa comunidade peruana.
Enfim, não resta muito a ser dito. O livro é curto, as cartas idem. Escolho apenas duas amostras, a título de curiosidade. A primeira missiva escrita por William Burroughs, a outra pelo Ginsberg. Apenas um recorte, bastante superficial, de duas viagens empreendidas por homens que nunca tiveram medo de viver seus sonhos e loucuras - loucuras estas muitas vezes praticadas até o limite no qual a maioria das pessoas jamais ousaria se aproximar.



Lima, 10 de julho de 1953

Querido Allen:

Ontem à noite, tomei o resto da mistura de yage que trouxe de Puccalpa. Não adianta levá-la para os Estados Unidos. Não se conserva por mais do que alguns dias. Esta manhã, ainda viajando. Foi isso que aconteceu comigo. Yage é uma viagem espaço-tempo. O quarto parece sacudir e vibrar com movimento. O sangue e a essência de muitas raças: negros, polinésios, mongóis da montanha, nômades do deserto, poligotes do Oriente Próximo, índios, novas raças ainda não determinadas e por nascer e combinações ainda não descobertas passam através do meu corpo. Migrações, incríveis viagens através de desertos, florestas e montanhas (marasmo e morte em estreitos vales montanhosos onde plantas brotam da pedra e enormes crustáceos eclodem e quebram a concha do corpo), através do Pacífico num catamarã para a Ilha da Páscoa. A Cidade Composta onde todos os potenciais humanos estão espalhados num vasto e silencioso mercado.

Minaretes, palmeiras, montanhas, florestas. Um lento rio onde pulam peixes defeituosos, enormes parques tomados pelo mato onde os meninos deitam na grama ou jogam. Nenhuma porta trancada na cidade. Qualquer um entra no seu quarto a qualquer hora. O chefe de polícia é chinês, palita os dentes e escuta as denúncias de um louco. Hipsters com os rostos macilentos e flácidos recostam-se nas portas, revirando cabeças encolhidas nas correntes de ouro, rostos inexpressivos com uma calma insetívora jamais vista.

Atrás deles, através da porta aberta, mesas e reservados, bares e quartos, cozinhas e banheiros, casais copulando em fila nas camas de latão, ziguezague de milhares de redes, junkies se picando, fumantes de ópio, fumantes de haxixe, pessoas comendo, falando, tomando banho, cagando numa névoa de fumaça e vapor.

Mesas de jogo onde são feitos jogos com apostas incríveis. De vez em quando, um jogador pula dando um grito inumano e desesperado por ter perdido a juventude para um velho ou por tornar-se latah para seu adversário. Mas há apostas mais altas que a juventude ou o latah. Jogos em que apenas dois jogadores no mundo sabem qual é a aposta.

Todas as casas da cidade são geminadas. Casas de barro com mongóis da montanha piscando nas portas enfumaçadas, casas de bambu e de teça, casas de adobe, pedra e tijolo aparente, casas do Pacífico Sul e de Maori, casas em árvores e casas em barcos, casas de trezentos metros de comprimento que abrigam tribos inteiras, casas de caixas velhas e ferro enferrujado onde os velhos vestidos de farrapos podres sentam falando sozinhos e cozinhando calor enlatado, grandes e enferrujadas bastes erguendo-se trinta metros no ar, saindo dos pântanos e do lixo com perigosas repartições construídas sobre plataformas de vários níveis e redes balançando no vazio.

Expedições partem para lugares desconhecidos, com propósitos desconhecidos. Estranhos chegam em balsas de caixotes velhos amarrados com corda podre. Cambaleiam para fora da floresta, os olhos inchados das picadas de insetos. Descem pela trilha da montanha com os pés quebrados e sangrando através dos poeirentos e ventosos arredores da cidade, onde as pessoas cagam em fila ao longo das paredes de adobe e urubus brigam por cabeças de peixe; caem nos parques com pára-quedas remendados. São escoltados por um policial bêbado para se registrarem num enorme banheiro público. Os dados tomados são pendurados por um prendedor e usados como papel higiênico.

Os cheiros da cozinha de todos os países pairam sobre a cidade, uma névoa de ópio, haxixe, a fumaça sinuosa e vermelha do cheiro de comida da floresta, sal, o rio podre, excremento seco, suor e genitais. Floresta de altas montanhas, jazz, bebop, instrumentos mongóis de uma corda, xilofones ciganos e gaitas árabes.

A cidade é visitada por epidemias de violência, e os mortos abandonados são comidos por urubus nas ruas. Não são permitidos funerais nem cemitérios.

Albinos piscam ao sol, garotos sentam-se nas árvores masturbando-se languidamente, pessoas atacadas por doenças desconhecidas cospem nos passantes, mordem-nos, jogam pus, cascas e vários tipos de vetores (insetos suspeitos de transmitir doenças), esperando infectar alguém.

Quando você fica completamente bêbado, acorda com um desses cidadãos doentes na sua cama, que passou a noite exaurindo sua ingenuidade tentando se infectar. Mas ninguém sabe como as doenças são transmitidas ou se são realmente contagiosas. Esses mendigos doentes vivem num labirinto de tocas sob a cidade e surgem de lugar nenhum, quase sempre se arrastando pelo chão de um bar lotado.

Seguidores de ocupações inimagináveis e obsoletas rabiscam em etrusco, viciados em drogas ainda não sintetizadas, traficantes de harmina ensopada, junk reduzida ao simples vício de oferecer uma serenidade vegetal precária, líquidos para induzir o latah, antibióticos cortados, soro da longevidade titoniano, negociantes do mercado negro da Terceira Guerra Mundial, vendedores de remédios para a doença da radiação nuclear, investidores de infrações denunciadas por calmos e panorâmicos jogadores de xadrez, executores de ordens fragmentárias determinando inomináveis mutilações de espírito anotadas – em taquigrafia hebefrênica, burocratas de espectrais repartições, oficiais de estados policiais não-constituídos, uma anã lésbica que foi recém-operada, a ereção pulmonar que estrangula um inimigo adormecido; vendedores de cilindros de orgônio (*energia vital perceptível sobretudo durante o orgasmo sexual) e máquinas de relaxamento, corretores de sonhos fantásticos e memórias testadas em células sensibilizadas pela fissura e permutados pelos materiais crus da vontade; médicos treinados no tratamento de doenças dormentes na poeira negra das cidades em ruínas, acumulando virulência no sangue branco dos vermes sem olhos, sentindo vagarosamente a superfície e os hospedeiros humanos, enfermidades do fundo do oceano e da estratosfera, enfermidades de laboratório e da guerra atômica, eliminadores da sensibilidade telepática, osteopatas do espírito.

Um lugar onde o passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som. Entidades larvais aguardando algo vivo.
William Lee

Trechos de uma carta escrita por Allen Ginsberg a William Burroughs, contando sua experiência com o yage. (Desenhos de Allen)

Pucallpa, 10 de junho de 1960

(...) A primeira vez foi muito mais forte que a bebida que tomei em Lima; Ayahuasca pode ser engarrafada e transportada e mantém-se forte, se não fermentar – a garrafa precisa estar bem fechada. Tomei uma xícara: a mistura estava um pouco velha, tinha sido feita há muitos dias e um pouco fermentada também; deite-me e depois de uma hora (numa choça de bambu, fora de sua cabana, onde ele cozinha) comecei a ver ou sentir o que pensei ser o Grande Ser, ou alguma de suas manifestações, aproximando-se de minha mente como uma grande e úmida vagina, onde fiquei por um tempo, a única imagem que posso recriar é de um grande buraco negro do Deus-Nariz, através do qual vi um mistério – e o buraco negro cercado por toda a criação, especialmente cobras coloridas – tudo real.
Me senti um pouco como o que esta imagem representa, a sensação é tão real.

O olho é uma imagem imaginária, que dá vida ao quadro. Também há uma sensação corporal de grande satisfação, nenhuma náusea. Durou, em fases distintas, umas duas horas – os efeitos desapareceram em três horas – a fantasia durou três quartos de hora depois de beber até mais ou menos duas horas depois.

(...) fui a uma sessão de grupo formal ontem à noite – dessa vez a mistura estava fresca e apresentada com todo o cerimonial, ele cantarolava (e assoprava fumaça de cigarro ou cachimbo) docemente sobre a xícara alguns minutos antes (xícara esmaltada, lembrei-me da tua xícara de plástico), então acendi um cigarro, dei uma baforada sobre a xícara e bebi.

Vi uma estrela cadente – aerólito -, antes de entrar, e a lua cheia, e me serviu primeiro. Então deitei-me esperando sabe Deus que outra visão agradável, então começou a bater e então toda essa porra de cosmos desprendeu-se à minha volta, acho que foi a coisa mais forte e pior que já me aconteceu ... No início, comecei a me dar conta que a minha preocupação com os mosquitos e o vômito era idiota, já que era uma questão de vida ou Morte – Senti-me encarado pela Morte, minha caveira na minha barba num catre num pórtico, rolando para frente e para trás e finalmente parando, como que reproduzindo o último movimento que faço antes de estabelecer a morte real – senti náusea, corri para fora e comecei a vomitar, todo coberto de cobras, como um Serafim-Cobra, serpentes coloridas numa auréola ao redor do meu corpo, senti-me como uma cobra vomitando o universo, ou um jívaro de cocar com dentes de cobra vomitando ao empreender o Assassinato do Universo – minha morte por vir – a morte de todos por vir – ninguém está preparado – eu não estou preparado – ao meu redor, nas árvores, o barulho desses animais espectrais, os outros bebedores vomitando (parte normal das sessões de Cura) na noite de sua horrível solidão no universo – vomitando sua vontade de viver, de ser preservado neste corpo, quase – Voltei e me deitei – Ramon veio suavemente como uma enfermeira (ele não tinha bebido, é uma espécie de ajudante para auxiliar os sofredores) e perguntou-me se estava bem e “bien mareado” (bem bêbado) – eu disse “bastante” e voltei para ouvir o espectro que se aproximava da minha mente.
(...) lembro-me que você disse para tomar cuidado com a visão de quem se tem – mas Deus sabe eu não sei a quem me voltar quando finalmente a Sorte tiver baixado espiritualmente e eu tiver que depender da minha própria memória de Ser-Serpente das Alegres Visões de Blake – ou depender de nada e entrar de vez – mas entrar no quê? – Morte? – e naquele momento – vomitando, sentindo-me ainda como um Grande e perdido Anjo-serpente vomitando na consciência da Transfiguração por vir – com o senso radiotelepático de um Ser cuja presença ainda não senti completamente – tão terrível para mim, ainda aceitar o fato da comunicação total com, digamos, qualquer serafim eterno, macho e fêmea ao mesmo tempo – e eu, uma pobre alma perdida buscando ajuda – bem, vagarosamente a intensidade começou a diminuir, fiquei incapaz de me mover em qualquer direção, espiritualmente – sem saber quem procurar – sem confiança para perguntar ao Maestro – apesar de que, na visão da cena, dentre todos era ele o guia espiritual local lógico a quem recorrer – levantei e sentei a seu lado (como Ramon sugeriu suavemente) para ser “assoprado” – isto é, ele cantarola para curar a tua alma e assopra fumaça – uma presença bastante confortadora, apesar de que agora o medo mais profundo tenha passado – ao passar de todo, levantei-me, peguei um mosquiteiro que tinha trazido e fui para casa ao luar, com o gordo Ramon – que disse que quanto mais se satura de ayahuasca, mais fundo se vai – visitar a lua, ver os mortos, ver Deus – ver os espíritos das árvores etc.
Allen Ginsberg

Leia:
Geração Beat. Azougue Editorial, 2010.

Cartas do Yage. William Burroughs & Allen Ginsberg. L&PM, 2a edição, 2008.


domingo, 29 de agosto de 2010

La Paz existe? By Osman Lins y Julieta de Godoy Ladeira

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Sabe aquela viagem, aquela em que nada dá certo, ou quase tudo sai errado, em que desgraça pouca é bobagem? Já passou por isso? Pois quem viaja muito certamente deve colecionar alguns episódios, senão uma viagem inteira em que nada do que havia sido previsto saiu da forma tal como imaginada ou sonhada.

O interessante é que quase sempre aqueles “programas de índio” acabam se tornando seus melhores relatos de viagem, aqueles que os amigos sempre pedem para você repetir numa roda de papo descontraído entre um chope e outro. A bem da verdade, ninguém está interessado naquela sua viagem interessantíssima a Manaus ou a qualquer capital de estado, muito menos nas suas impressões sobre determinado museu, estádio de futebol, ruína arqueológica de nome impronunciável, nem mesmo de seus mergulhos fantásticos nas águas claras das Antilhas ou de Fernando de Noronha. Todos fingimos interesse, essa é a verdade.

Em contrapartida, todo mundo quer saber daquele fora que você deu na casa de um parente que mora no exterior, do medo que sentiu ao se meter numa favela mexicana, das bizarrices que testemunhou no submundo de um inferninho qualquer de um país do leste europeu, da roubada em que se meteu quando achou que era tudo de bom passar um mês entre os habitantes de uma tribo no Pará, e por aí vai. Estou mentindo? Claro que não, exagerando um pouco, talvez.

Já li muitos relatos de viagem em que a narrativa ganha fôlego quando o viajante consegue descrever com emoção uma das etapas duras do caminho; quanto mais o fulano ou a fulana sofrem no percurso, mais a gente tem vontade de saber como se dará o desfecho, via de regra torcendo para que tudo termine bem. Essa atração que temos em ler ou ouvir a respeito dos perigos e percalços de uma viagem alheia não é masoquismo nem sadismo, mas um sentimento de empatia que tem origem em camadas profundas do nosso inconsciente.

Rites of passage. By Pauline Murray

De um modo geral, toda viagem possui uma dinâmica básica que obedece às estruturas de um rito de passagem: a partida, o período limiar e a chegada. Na partida percebe-se o momento da separação, quando aquele que viaja abandona temporariamente seu lar, sua família e tudo o que faz parte de sua vida cotidiana; o período limiar, ou a liminaridade, é aquele em que a viagem de fato acontece, a fase intermediária entre a partida e a volta ao lar; finalmente, temos a chegada, o período de agregação, quando aquele que partiu volta transformado após a experiência vivida na liminaridade. A viagem, portanto, é uma facilitadora desse processo de transformação.

É claro que nem toda viagem se enquadra nesse esquema, proposto de maneira singular por Victor Turner, um antropólogo muito bacana que publicou um estudo fantástico sobre o tema, O processo ritual, infelizmente fora de catálogo e difícil de achar em sebos. Se antropologia é sua praia, essa obra é um must.

Quando falamos de ritos de passagem, ou ritos de transformação, podemos relacionar o processo à ideia da jornada do herói, tema magistralmente abordado pelo mitólogo norte-americano mais extraordinário de todos os tempos, o Joseph Campbell, autor que deveria ser lido e estudado em todas as escolas desde os primeiros anos da adolescência.

O herói, (sempre alguém que viaja!), parte em busca de um tesouro e tem como objetivo principal o de estabelecer a ordem (simbolicamente, a ordem interior – seus conflitos, e a exterior, que ocorre geralmente como conseqüência); durante a jornada, muitas dificuldades irão aparecer, dragões simbólicos que devem ser enfrentados para que o ciclo se complete. Vencendo os dragões, o herói volta ao lar fortalecido e transformado, daí a ideia de que aquele que parte nunca é o mesmo que retorna.
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Isso tudo explica, ou tenta explicar, o porquê de nossa atração pelas narrativas de viagem cheias de situações de risco e de obstáculos a serem superados; inconscientemente, colocamo-nos no lugar do herói ou da heroína e torcemos para que consigam enfrentar e vencer os dragões que vez ou outra surgem pelos caminhos vida afora. Uma delícia poder sacar essas metáforas...

Em La Paz existe?, pequeno e divertido relato de viagem escrito a quatro mãos por Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira temos um exemplo clássico de uma viagem que saiu totalmente do controle, apesar de toda a programação antecipada do casal junto a um agente de turismo.

O título do livro, um trocadilho genial, entrega o destino: La Paz, Bolívia. A história, um arraso, literal e metaforicamente falando: um casal de escritores decide visitar a capital da Bolívia, La Paz, depois de uma rápida excursão cheia de contratempos ao Peru. Corria o ano de 1977, de modo que você já pode ir imaginando o que deveria ser uma viagem, de ônibus, há mais de trinta anos, pelas estradas montanhosas de países pobres como o Peru e a Bolívia.

Excursão paga, saem da cidade de Cuzco em direção a La Paz:


“Tínhamos pago, em Cuzco, uma excursão através do lago Titicaca, coordenada com transporte terrestre e assistência até La Paz, incluindo condução para o hotel. Mas para que tudo desse certo era preciso estar no embarcadouro, em Juli, antes das nove e meia, quando saía o hydrofoil.”

Tudo teria corrido bem se (sempre há um “se”) de fato o casal conseguisse chegar a tempo de embarcar no hydrofoil (sabe-se lá o que é isso!), a embarcação que faria a travessia do sagrado Lago Titicaca.

Daí que surge a surpresa dessa narrativa, ora contada por Osman, ora por sua mulher, Jul, cujas reflexões vão pontuando oportunamente o texto, num ying/yang literário cheio de frescor. A viagem, enfim, acontece num outro plano de ação, onde o turismo empacotado dá lugar a uma aventura quase agoniante; o casal de escritores, como que querendo exorcizar a malfadada viagem, surpreende seus leitores com uma narrativa anti-viagem, retratando um episódio que de certa maneira não passaria de uma banalidade, o que só não acontece porque ambos dominam muito bem a arte da escrita. São de Jul as palavras transcritas abaixo, que bem servem como amostra:

Família de qarwas. By Roberto Mamani

“Volto o rosto. Não quero que se saiba até que ponto minha resistência cede. A resistência, como um balão, pode ir sendo mantida com sopros até certo ponto. Nunca se sabe qual. Recordo um filme onde o encontro desse ponto obsedava um homem até a loucura. A fraqueza tem escalas, oscilações. O ponto extremo flutua. O barco se aproxima do pontão.”

O primeiro entrave na viagem acontece quando chegam ao povoado de Puno e descobrem que deveriam haver obtido, em escala anterior, um visto para poderem atravessar o lago. Sem o visto, nada feito. O jeito era voltar todo o caminho outrora percorrido com muito desconforto. Jul não se conforma em recuar, e afinal de contas, qual viajante não se sente extremamente frustrado em ter que refazer, por conta de alguma adversidade, um trecho não prazeroso de uma etapa de viagem?

“O que vejo, à minha frente, são estradas de ir. Não sei se existirão, mas cada instante aqui parece-me perdido, temos que ir, o dia avança, devemos avançar com ele. Para mim, todo caminho de volta é como se tivesse deixado de existir.”

A solução aparece de maneira incerta numa viagem de táxi a Desaguadero, rumo à fronteira. O dinheiro, assim como o tempo de que dispõem para as formalidades burocráticas, é bastante curto. Ainda assim, sobram momentos para reflexões, e algumas cenas, percebidas da janela de um velho automóvel, ajudam a dar um pouco de cor à narrativa. São de Osman as palavras que se seguem:

“Mal saíramos, vimos um grupo de índios, mulheres e homens, que dançavam ao ar livre. Chegava à estrada o som dos instrumentos, flautas, pandeiros, tambores, um som campestre, fresco, antigo, os dançarinos erguiam pernas e braços, batiam com os pés, saltavam, meneavam o corpo, todos de roupas novas, o chão de barro e as paredes de adobe realçavam o colorido das vestes, todos agitavam borlas e bastões de cor, as saias enfunavam-se, fitas ondulavam no ar, era uma cena virgem e que evocava – nas cores, no movimento, na força – as que vemos em certos quadros de Bruegel, como a Dança de Camponeses ou a Dança Nupcial.”

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The wedding dance. By Pieter Bruegel

“O que agora recordo aconteceu a seguir? Antes? Mais tarde? Acreditei ver nuvens muito altas, sobrepostas, de formas singulares. Logo supus que me enganava e que as nuvens, de fato, eram uma alta montanha. Enganava-me ainda: eu via o Titicaca, que, de certo nível e por um efeito ótico, uma insólita incidência da luz, parecia, dada a sua extensão, erguer-se, voar sobre si mesmo. A visão do lago, aliás, naquela rota que em grande parte o contornava, mudava a cada instante, de modo que qualquer descrição, aqui, estaria sempre muito aquém da verdade. Posso dizer apenas que eram visões grandiosas, nas quais a superfície lacustre e cumes elevados trespassavam-se; e que, apesar da grandeza, essas visões confrangiam pela ausência de vida e movimento: o que se movia era a paisagem mesma.”

Lake Titicaca. By Martin Gray

O interessante nessa narrativa é que a viagem, tal como deveria ter acontecido, não se realiza; por conta dos contratempos, do tempo curto de que dispunham para visitar os locais agendados na excursão, da falta de dinheiro, nada mais importava a não ser chegar ao destino final da jornada, a capital La Paz.

Ainda assim, com a habilidade de quem sabe observar e narrar os acontecimentos que se sucedem, Osman consegue a proeza de transmitir com muita clareza e senso crítico a realidade de uma gente sofrida, que em muito se assemelha à nossa, visto na obra pelas comparações que faz entre o povo andino e o brasileiro. Numa dessas passagens, porém, o autor comenta que das inevitáveis diferenças existentes entre os dois, não chegou a presenciar, em nenhum momento, gente pedindo esmolas, como se por lá não existisse o triste e comum hábito da mendicância tão presente na cultura brasileira.

Tanto Osman quanto Jul percebem no povo andino uma dignidade ímpar, proporcional talvez à sofrida realidade de sua vida; as mulheres nunca pedem dinheiro ou qualquer tipo de ajuda nesse sentindo, embora oportunamente insistam para que os turistas lhes comprem seu artesanato típico, única maneira de arrumar algum capital para obter aquilo que não conseguem produzir.
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Bolivian woman. By Clarke Spin

“Desço o vidro do carro. Ar de chuva, cheiro de lama. E elas passando, centenas, com seu andar lento e certo. As índias: bonitas, em geral com boa pele, aspecto saudável. Nada do raquitismo, do corpo judiado, do rosto prematuramente gasto do brasileiro pobre. Nenhum defeito físico, nenhuma face cavada, nenhum olhar de fome. Imagino que todo o dinheiro ganho seja para a comida. Mas ainda assim. Como conseguirão? Não se deve pensar em termos de todo o dinheiro, mas do pouco dinheiro, entre nós sempre insuficiente para a manutenção, para a preservação de um mínimo de saúde. Tipo de alimentação mais forte? É possível.”

Woman of La Paz. By Clarke Spin

“Parecem distante e salvas (até quando?) da febre consumista. A moda não afeta nem altera suas roupas. Pouco se distingue do corpo de cada uma. As pernas, hastes frágeis, surgem de muitas saias como de um grande e crespo repolho. Essas pernas curtas e finas não combinam com o rosto nem com a imponência do corpo – mas dão caráter à figura, um traço de Goya quebrando todo o equilíbrio do que seria quase um Da Vinci. Os rostos ovalados. Todos.”
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Boliviana mucho lôca

E assim vai transcorrendo a viagem que parece nunca terminar. Nos dois últimos capítulos dessa breve narrativa, o casal passa apuros numa longa jornada de ônibus, que em determinado momento, após sucessivas travessias perigosas pelos Andes, resolve não mais prosseguir: acabara o combustível. A esperança de chegar a La Paz ainda naquela noite já estava quase perdida até que um outro carro aparece para salvá-los do pesadelo. Algumas horas depois, chegavam ao final da viagem. Depois do banho tomado e da fome saciada, Osman, já estirado na cama do hotel diz a Jul que assim que chegar a casa irá escrever um relato sobre a viagem dos dois.

“Eu pensei ainda que afinal havíamos chegado, que estávamos na cidade, uma cidade para nós desconhecida, cujo nome expressava o que o homem sempre busca e nunca, nunca chega a conquistar: La Paz.”

Salt Lake. Uyuni. Bolívia


Leia: La Paz existe?. Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira. 116 págs. Editora Summus, 1977. Está fora de catálogo, mas no site da Estante Virtual há vários exemplares disponíveis.

Mais de Osman Lins? Postei aqui no blog um outro relato de viagem desse maravilhoso autor pernambucano. Para ir direto ao outro post, clique bem aqui.

Mais sobre Bolívia? Vale visitar o blog http://brokeinbolivia.blogspot.com/ - é de lá a linda foto do Salt Lake aí de cima.