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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Silêncio, by Erling Kagge

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Se há alguém que pode escrever um ensaio sobre o silêncio, esse alguém é Erling Kagge, explorador, escritor e editor de livros norueguês que, no limitado círculo dos grandes viajantes e exploradores é conhecido como o primeiro homem a atingir os “três polos a pé”. Sim, três polos: com um amigo em 1990, explorou o ponto mais ao norte do planeta, no Ártico; dois anos depois caminhou 1.310 quilômetros pelo Polo Sul e depois de desbravar a Antártida, sozinho, foi se aventurar no ponto mais alto da Terra, o Monte Everest.

Em seu livro Silêncio: Na era do ruído, primeiro trabalho seu publicado no Brasil, Erling Kagge faz um pequeno ensaio sobre o silêncio depois de ter vivido essas aventuras e também, como gosta de lembrar, depois de ter se tornado pai de três meninas, hoje adolescentes.



O que dá um brilho especial ao texto do Erling é o equilíbrio entre suas narrativas de viagem física e suas viagens interiores, quando começa a explorar de fato a importância do silêncio não só em seus deslocamentos pelo mundo, mas também a necessidade de trazer essa experiência para a vida cotidiana. É a busca da resposta à questão: Que caminhos levam ao silêncio?



Diz o autor, lá no finalzinho do livro, que o silêncio é uma ferramenta para escapar do lugar onde você se encontra.  E é essa a sacada da obra: não é somente possível, mas senão necessário viajar para dentro de si sempre que puder, nem que seja por breves instantes, todos os dias, ou por períodos maiores, quando a vida permitir, cabendo a cada um a busca desse momento de silêncio que revela, que alimenta, que transforma... não por acaso, grandes mestres e pensadores buscaram a solidão e o silêncio em momentos cruciais da existência.



Embora esse livro não se enquadre na literatura odepórica, há muitas passagens e reflexões sobre a arte de viajar. Para quem acredita que as viagens podem ser oportunidades de aprender a enxergar a vida com novos olhos, essa obra trará muito proveito. Leitura recomendadíssima.


Quando não posso caminhar, escalar ou navegar pelo mundo, aprendi a trancá-lo do lado de fora. Foi um longo aprendizado. Somente quando percebi que tenho uma grande necessidade de silêncio eu pude começar a buscá-lo – e lá, enterrado sob a cacofonia de barulhos de trânsito e pensamentos, música e ruído de máquinas, iPhones e removedores de neve, ele estava à minha espera. O silêncio.


Acredito que todos podem encontrar o silêncio dentro de si. Ele está lá o tempo inteiro, mesmo quando existem vários sons ao redor de nós. Nas profundezas do mar, sob as oscilações e as ondas, tudo parece estar em silêncio. Postar-se debaixo do chuveiro e deixar a água escorrer pela cabeça, sentar-se em frente a uma fogueira crepitante, nadar em um lago no meio da floresta ou fazer uma caminhada por uma planície são experiências que podem ser percebidas como silêncio absoluto. Eu adoro essas coisas.



Trancar o mundo do lado de fora não significa dar as costas ao lugar em que você está, mas justamente o contrário: ver o mundo de uma forma um pouco mais nítida, manter-se na superfície e sentir amor pela vida.

O silêncio é reconfortante em si mesmo. É uma qualidade, uma exclusividade e um luxo. Uma chave capaz de abrir novas formas de pensar. Não vejo o silêncio como uma renúncia ou algo espiritual, mas como uma ferramenta prática para uma vida mais rica. Ou, de maneira um pouco mais atrevida: como uma forma de viver mais profunda do que, mais uma vez, ligar a TV para ver as notícias.



Por mais de um milênio, pessoas viveram sozinhas, muito próximas de si mesmas, como monges nas montanhas, eremitas, exploradores marítimos, pastores de ovelhas e descobridores que voltavam para casa, foram todas convencidas de que as respostas para os mistérios da vida podem ser encontradas no silêncio. A questão é essa. Você atravessa o oceano e, ao retornar, talvez encontre o que procurava dentro de você mesmo.

Quando se atribui valor a algo por todo esse tempo, deve haver boas razões para levá-lo a sério. Jesus e Buda recorreram ao silêncio para entender como deveriam conduzir a própria vida. Jesus no deserto e Buda na montanha à beira do rio. Jesus se apresentou perante Deus em silêncio. O rio ensinou Buda a escutar, a ouvir com o coração em silêncio. Com a mente aberta e receptiva.



Que caminhos levam ao silêncio? Eu acredito em viagens em meio à natureza. Deixar os aparelhos eletrônicos em casa, seguir por um rumo onde tudo é deserto ao seu redor. Passar três dias sozinho. Não falar com ninguém. Aos poucos você começa a redescobrir coisas a respeito de você mesmo. O importante, claro, não é o que eu acredito, mas que todos sigam pelo seu próprio caminho. Todos nós temos uma trilha a encontrar.


Leia: Silêncio: Na era do ruído. Erling Kagge. 1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Viagens, by Luiz Carlos Lisboa

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Luiz Carlos Lisboa é um dos meus escritores mais estimados. Suas palavras chegam sempre no momento em que precisamos de um norte, de alguém que nos guie na jornada quando a trilha se apresenta um pouco mais estreita. Vejo Lisboa como um mestre-artesão, que com seu ofício de escritor lapida palavras e as transforma em pensamentos inspirados, ideias que parecem surgir em momentos de profunda meditação.

Sua escrita fragmentária resulta em textos simples e bem elaborados, como em sua obra Nova Era, já resenhada aqui no blog, O Aprendiz da Madrugada e O Som do Silêncio, às vezes classificados como livros de poemas, embora eu os considere mais próximos dos aforismos, porque Lisboa é daqueles escritores que possuem a capacidade de condensar conceitos amplos e profundos em poucas palavras.

Como ensaísta, também se mostra um sábio: veja que belo seu texto intitulado Viagens, que retiro de seu livro de ensaios A Arte de Desaprender, talvez um dos escritos mais profundos que já tenha lido sobre a experiência da viagem.

Viagens

“Quanto mais longe viajamos, menos conhecemos”, dizia Lao-Tsé. A ideia muito divulgada de que é preciso ir longe para alcançar a essência das coisas, ou o transcendental, nasceu do conceito segundo o qual somente através do esforço conseguimos qualquer coisa. Tudo tem seu valor, tudo tem seu preço. Imagina o homem que passa a vida inteira lutando para sobreviver.

A conquista da fortuna pode ser assim – embora nem sempre seja-, mas a conquista do conhecimento e da sabedoria, segundo Santo Agostinho, Nicolau de Cusa, Eckhart. Willian Law, Fénelon, Ansari de Herat, Pascal, Benet de Canfield e o Bhagavad Gita, a conquista da sabedoria não passa absolutamente pelo esforço, pela rigidez, pelo empreendimento duradouro ou pela busca incansável.

Esse é dos capítulos fascinantes da história das religiões, e parte importante do estudo sobre o comportamento humano. Ekhart repetia com método e tranquilidade: “Afirmo e sempre afirmarei que já possuo tudo que me foi concedido na eternidade, pois Deus, na plenitude de sua divindade, mora eternamente em sua imagem, a alma”.


Esse tipo de mensagem afirma, através dos séculos, que o homem não precisa sair de onde está para realizar-se integralmente. Isso não sugere a morte em vida, obviamente, nem qualquer forma do imobilismo tão odiado pelos hiperativos que controlam – ou julgam controlar - a sociedade humana, suas maravilhas e seus horrores. No “não ir à parte alguma” está contido, apenas, o “ficar para não fugir todo tempo”.

A razão pela qual “quanto mais longe viajamos, menos conhecemos” está embutida no fato de empreendermos viagens inúteis simplesmente para não ficar onde estamos. Isso não se refere às viagens reais, mas ao ir e vir de cada dia, dentro de casa ou no serviço, a pretexto de mil puerilidades que executamos com imensa gravidade.

Por que ir lá aprender alguma coisa, se recusamos todo aprendizado aqui e agora, na modéstia deste minuto e desta circunstância? Empreender uma caminhada equivale a adiar o que deve ser feito imediatamente – melhor dizendo, o que só pode ser feito imediatamente, não depois, pouco adiante ou mais tarde.



Caminhar, viajar, proporcionam prazer e são em si inofensivos. O problema está naquilo que fazemos com esse pretexto, ou naquilo que deixamos de fazer porque estamos mudando simplesmente de lugar.

É ainda Mestre Eckhart quem aconselha: "Levante-se, alma nobre. Calce seus leves sapatos, que são a intuição e o amor, e salte por cima da idolatria de si mesmo, salte sobre todos os seus esforços, diretamente no coração de Deus, naquele coração onde estará oculta de todos".

A tradição renana usa constantemente esse simbolismo do movimento para indicar precisamente aquilo que se obtém com "um movimento do coração”. Essas referências hoje são mais difíceis de compreender que nunca, porque é o século de ação e de movimento – em círculos. Tudo o que sugere ficar, aborrece e entedia. Talvez fosse mais exato dizer: desperta um indefinido temor toda forma de permanência.



A palavra de ordem não é inovar? A onda cultural e sua força inconcebível arrasta toda dúvida e sepulta qualquer meditação mais demorada. A época é de certezas, de decisões rápidas, de conceitos formados, de ideias prontas. O que já não vem embalado e rotulado levanta suspeitas, semeia antipatias.

Viajar para aprender é um antigo mito. O prazer inofensivo de percorrer terras não mereceria comentários se não se tornasse um biombo, em alguns casos, atrás do qual nos escondemos. "Descansamos" do que somos, sem conhecer o que somos.

Deixamos tudo para trás, compromissos, conceitos, coerência. Não há lugar para culpa, em tudo isso. É bastante ver o que fazemos, quando fazemos e como fazemos. Esse é um aprendizado insubstituível, que não pode ser encontrado nos livros, nos museus ou nas conferências.



Não aprendemos em algum outro lugar, aprendemos neste lugar aqui, onde estamos no instante em que nos surpreendemos pensando nisso. Há uma frase de Caussade que resume tudo: "Faça o que está fazendo agora, sofra o que está sofrendo agora. Faça tudo com simplicidade, nada precisa ser mudado, a não ser seu coração".

Acrescentar qualquer outra coisa a isso equivale a mudar o que não precisa ser mudado, deixando de conhecer (mudar) precisamente o coração. Para não mudar interiormente, mudamos de lugar no espaço. A inquietação do habitante do século XX é proverbial.

As mãos, os olhos, os pés, viajam todo o tempo, e a atenção está permanentemente dividida. Mudar interiormente não exigiria movimento, a não ser o da percepção, um fluir muito peculiar.



Permanecer, como diz Caussade, para compreender. O que parece complexo é extremamente simples, embora não seja comum. O que parece obscuro é absurdamente claro, embora não seja familiar. O que parece fácil de ser rotulado não pode receber uma designação satisfatória.

A imobilidade atenta (não confundir com imobilismo) é um estado de alerta do qual não está excluída a tranquilidade. O espírito é ágil e não conhece nenhuma forma de esforço ou cansaço. Não há evasão, não há impulsos subterrâneos agindo ocultamente. Apenas a permanência naquilo que fazemos, única forma de conhecer aquele que pretende ser o conhecedor do mundo.

E nisso tudo não há nada de milagroso, de espetacular, de místico ou de sobrenatural. Para citar pela última vez, uma frase de Ansari de Herat: "Andar sobre a água? Uma palha faz melhor. Voar até as nuvens? Um pássaro faz melhor. Conquiste seu coração, e você fará alguma coisa que somente você faz bem".

Leia: A Arte de Desaprender. Luiz Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1981.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O Arquétipo do Caminho, by Vera Lucia Paes de Almeida

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Encontrei em meus arquivos um texto que li há alguns anos e que gostaria de compartilhar aqui no blog com os leitores que, assim como eu, curtem esse lance de viagem como processo de transformação interior. Tem uma leve pegada acadêmica, mas a Vera Lucia soube transmitir suas ideias de uma maneira muito clara e gostosa de ler, mesmo para quem não está acostumado com as teorias de Jung ou Campbell, autores que brilham nessa área fascinante do conhecimento interior. Para quem não está familiarizado com o tema, sugiro ler no final do post a definição de arquétipo antes de começar a leitura. Boa viagem.

O Arquétipo do Caminho


“Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa.” (Dante Alighieri, A Divina Comédia)


O Arquétipo do Caminho, da Jornada, da Peregrinação fala da eterna busca da alma pelo seu centro. Ele se torna consciente quando percebemos que nossas vidas traçam um longo percurso cujo sentido e significado vai se revelando à medida que avançamos na nossa caminhada. Geralmente é por volta da metade da vida que entramos em contato com esse arquétipo. Isso porque já percorremos um bom pedaço da estrada e podemos olhar para trás e avaliar nosso percurso, bem como podemos olhar para frente e ajustar nossos passos rumo a objetivos mais abrangentes e diferenciados.

É o momento ideal para se fazer um “balanço”, uma avaliação de nossa proposta de vida e permitir mudanças revitalizadoras, novos trajetos e pontos de vista.
Aqui vamos falar um pouco sobre quatro aspectos que se relacionam com a vivência desse arquétipo e dos símbolos correlatos.

O Jardim das Delícias. A Expulsão do Paraíso.



Esse é o princípio de tudo: o jardim do Éden, como aparece na tradição judaico-cristã, mas também de inúmeras outras formas análogas em várias culturas. Há sempre um início paradisíaco, uma condição original de abundância, plenitude, felicidade, inocência, onde todos os seres convivem em harmonia e não há escassez, doença e morte. A ideia de um paraíso perdido, uma Idade de Ouro que remonta à origem dos tempos, é um arquétipo universal que revela a nostalgia por uma condição de harmonia que foi perdida e para a qual desejamos retornar.

Efetivamente todos nós já experienciamos uma condição de plenitude no início de nossas vidas, dentro do útero materno: lá onde a temperatura, o alimento, a proteção estavam sempre presentes sem que precisássemos fazer qualquer esforço; lá onde não havia separação, dualidade, angústia ou perdas e estávamos imersos e fundidos na totalidade. No entanto, se quisermos crescer e nos desenvolver chega o momento em que temos que abandonar esse paraíso e como no Gênesis, somos expulsos da nossa inocência ou inconsciência original para que possamos aprender, a desenvolver a consciência e iniciar a jornada.

Esse período inicial é muito importante porque permanece como referência de um estado de harmonia e plenitude que já foi vivido realmente e que portanto pode ser recuperado. Nos momentos mais difíceis e dolorosos essa vivência inicial pode servir como a chamada “luz no fim do túnel” e ser nossa guia rumo à saída para o sol. Porém, se nos recusamos a sair desse paraíso ele rapidamente se transforma e pode nos devorar, impedindo nosso crescimento e desenvolvimento. A “Mãe Amorosa” se revela então como a “Deusa Destruidora”, os animais amigos se transmutam em dragões e monstros ameaçadores. Assim, querendo ou não, somos lançados na outra etapa do caminho.

O Início da Jornada. O Labirinto.



Toda vez que abandonamos uma situação conhecida e cômoda, que, no entanto, já estava esgotada em suas possibilidades de crescimento, é como se saíssemos do regaço materno, da segurança do paraíso para nos perder no caos de um mundo sem referências, a selva tenebrosa de Dante. Esse início de jornada pode ser voluntário ou forçado por uma circunstância adversa que a vida nos proporciona, mas em ambos os casos é sempre um período muito difícil. Não há sinais de orientação, não há estradas retas e bem demarcadas, não sabemos para onde ir, como ir e o que procurar. Temos que ir andando às apalpadelas, tateando, caindo e levantando. É um período perambulação, mas também de grandes possibilidades de evolução. Nos tornamos peregrinos, buscadores e experimentadores e é exatamente esta incerteza que abre espaço para o “novo” surgir.

Caminhar dentro do caos com paciência, persistência e abertura para acertos e erros, faz surgir uma nova luz, uma nova percepção e o labirinto se revela como um caminho espiralado que pode nos levar ao centro, ao tesouro perdido, à harmonia e paz do paraíso. Mas, durante a caminhada no labirinto não sabemos se estamos próximos ou não do centro. O caminho de volta também não é evidente e assim temos que aprender a enfrentar nossos medos e não fugir dos desafios. Isso nos leva à próxima característica simbólica da nossa jornada.

As Tarefas do Percurso. O Herói.


Ao aceitarmos a caminhada e os desafios que ela nos propõe, começamos a vivenciar outro arquétipo que nos ajuda a cumprir nossas tarefas: o arquétipo do herói. Este arquétipo é a vivência do desenvolvimento da nossa força, das nossas habilidades, do nosso saber, das potencialidades ignoradas que vão se aprimorando à medida que enfrentamos nossos monstros interiores.

É preciso muita coragem para entrar no labirinto e se perder antes de poder se encontrar. No entanto, esta não é a prova mais difícil. Depois de termos vencido nossos medos, fragilidades e limitações e termos cumprido com as tarefas que a vida nos propõe, começa outra etapa que é o aprendizado da humildade. Temos que reconhecer que mesmo sendo heroico, o ego está subordinado a um princípio maior, e que só a conexão com este princípio pode proporcionar sentido e significado a todas as conquistas obtidas. O herói não pode ficar preso na armadilha da sua própria habilidade e força em vencer os dragões, ele deve vencer também a sua vaidade e prosseguir a caminhada rumo ao centro. Para isso ele tem que reconhecer que sua força provém exatamente desse centro. Esse reconhecimento permite que o arquétipo do herói se transmute no arquétipo do Sábio e é essa vivência de sabedoria que finalmente nos leva de volta à casa, ao paraíso perdido.

O Retorno ao Centro.



Estar no centro é a vivência de recuperação da harmonia, da paz e do equilíbrio perdido. É a volta a casa, à experiência de plenitude original só que agora não mais vivida inconscientemente como no início. Agora a experiência é produto de uma busca consciente e voluntária.

A caminhada no labirinto se transforma em “circum-ambulação”, ou seja, caminhamos agora em torno do centro, de onde emana nossa força e alento. Estamos novamente próximos da fonte original de inesgotável abundância, felicidade, amor, beleza e sabedoria. Quando o ego e o Self se encontram há uma intersecção do mundo visível com o invisível, um casamento do Céu com a Terra, do sagrado com o profano e abre-se a porta para transformações profundas que vão além da compreensão intelectual. A personalidade se amplia para receber a vivência do numinoso e finalmente exercer sua totalidade.



Depois de conseguirmos chegar ao centro e sermos abençoados com essa vivência temos que retornar à vida cotidiana e compartilhar o que recebemos, compartilhar o tesouro encontrado. Só assim se completa o círculo da jornada que temos que percorrer infinitas vezes durante a vida. O arquétipo do caminho se revela enfim como uma pulsação em torno do centro, em um ir e voltar, um achar e perder o rumo, em idas e vindas constantes que vão tecendo um desenho com mil cores e formas, que se desmancham e voltam a se formar, como as belas mandalas de areia tibetanas.

E assim como as mandalas nos ensinam, também o nosso caminhar nos revela que o essencial está sempre presente e está além de todos os caminhos. Ele engloba tudo: o paraíso inicial, o labirinto das ilusões, as lutas do herói, a chegada ao centro e se faz presente em todos os grandes e pequenos momentos, a cada gesto e curva do caminho.

“A senda é a companheira que desposei.
Ela me fala debaixo de meus pés o dia todo,
e a noite inteira canta para os meus sonhos.
O meu encontro com ela não teve início.
Ele começa infinitamente ao raiar de cada dia,
renovando o seu verão em novas flores e canções,
e cada novo beijo dela é o seu primeiro beijo para mim.
A senda e eu somos amantes.
A cada noite eu troco de veste por sua causa,
e a cada amanhecer eu deixo nas pousadas do caminho
o estorvo dos velhos farrapos.”
(R. Tagore, Presente de Amante e Travessia)
Nota: Arquétipo é descrito pelo psicólogo Carl Gustav Jung como um conjunto de imagens psíquicas presentes no inconsciente coletivo que seria a parte mais profunda do inconsciente humano. Os arquétipos são herdados geneticamente dos ancestrais de um grupo de civilização, etnia ou povo. Os arquétipos não são memórias coesas e "palpáveis" no contexto ou definição clássica de memória, mas são o conjunto de informações inconscientes que motivam o ser humano a acreditar ou dar crédito a determinados tipos de comportamento. Os arquétipos correspondem ao conjunto de crenças e valores comportamentais básicos do ser humano e podem se manifestar nas crenças religiosas, mitológicas ou no comportamento inconsciente do indivíduo.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Phil Cousineau: A arte de encontrar significado na estrada (curso online)

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Costumo seguir nas redes sociais alguns escritores que fazem a minha cabeça e um deles é o Phil Cousineau, autor de uma de minhas obras preferidas sobre viagem, a inspiradora A Arte da Peregrinação, já resenhada aqui no blog; também escreveu um texto intitulado A jornada do Herói, abordando a vida e a obra de Joseph Campbell, de quem foi amigo e discípulo.

O Phil escreve sobre temas que, de maneira geral, abordam o lado espiritual da vida, apoiado em áreas do saber como a arte, história, filosofia, mitologia e literatura; suas buscas, entretanto, não se restringem apenas à pesquisa acadêmica, de modo que vira e mexe ele cai na estrada, muitas vezes levando grupos de estudo a locais como Grécia, Irlanda e Turquia e se você for dar uma olhada na programação dessas e de outras viagens no site do autor, acabará como eu, sonhando em um dia fazer parte de um desses grupos.

Mas para tudo há uma alternativa: acabei de me inscrever em um curso online que será conduzido pelo Phil Cousineau com início na próxima semana, dia 02 de junho. Pareceu-me muito interessante e achei que valeria a pena divulgá-lo aqui no blog, uma vez que o conteúdo pode servir de inspiração aos leitores que curtem a temática da viagem X processo de transformação interior.

O curso, que será ministrado pelo Phil e por Mary Ann Brussat, co-diretora do site Spirituality&Practice, intitula-se “Transformative Travel: The Art of Finding Meaning on the Road with Phil Cousineau”. (Viagem Transformadora: a Arte de Encontrar Significado na Estrada). O que você lerá a seguir foi retirado do site que hospeda os cursos online. (links no final do post).

"Eu cheguei à grata conclusão de que não existe algo como um destino chato e que não há desculpas para viagens sem sentido", diz Cousineau sobre sua filosofia. "Tudo o que precisamos fazer é abrir nossos corações e mentes, seguir algumas práticas distintas de estrada, tentar alguns truques de perspectiva e ser curioso e respeitoso onde quer que vamos. Desse modo, podemos descobrir o que os antigos chamavam de ‘a alma do mundo'. Se tivermos sorte o suficiente para experimentar isso, podemos sentir os nossos espíritos se elevarem, e sentir o tipo de transformação que grandes viajantes da história, de Ibn Battua a Freya Stark, Mark Twain a Pico Iyer, têm escrito - a capacidade de voltar para casa novamente e ver os nossos próprios quintais como solo sagrado ".

Este curso online é elaborado com muitas práticas, rituais, cerimônias, truques de atenção e intenção, com o intuito de incentivá-lo a criar a sua próxima viagem de forma a evocar mais compreensão, alegria e significado. Você receberá e-mails às segundas, quartas e sextas-feiras, no período de 2 a 27 de junho de 2014 com o seguinte conteúdo:

• ensaios de Phil sobre maneiras de encontrar sentido na estrada
• listas de leitura e filmes sugeridos
• galerias de fotografias de viagens de Phil para contemplação
• links para músicas, pinturas, e grupos de viagem
• participação em uma teleconferência de uma hora, durante o qual vai responder a perguntas e compartilhar novas ideias sobre como fazer de sua viagem um momento sagrado
• acesso a um grupo de Prática on-line onde você pode compartilhar suas epifanias de viagem com outras pessoas de todo o mundo

Cadastre-se e amplie as suas noções sobre tudo o que o curso pode oferecer - se você está planejando uma viagem ao exterior, visitando um parque ou uma nova cidade, ou se aventurar a uma parte diferente da sua própria comunidade. Afinal, se a vida é uma viagem e o mundo uma pousada, como um homem sábio disse certa vez, então cabe a você decidir se você vai embarcar como turista, viajante, ou peregrino, o que em troca determinará se você será um estranho ou um amigo desconhecido àqueles que você encontrar na estrada longa e sinuosa. É chegada a hora de se abrir à sua própria jornada.
Links de interesse:

Palestra no Phil Cousineau no TEDx (em inglês)
Curso online do site Spirituality&Practice. Clique aqui.
Site do autor: philcousineau.net


quarta-feira, 19 de março de 2014

O cavaleiro preso na armadura, by Robert Fisher

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Terminei de ler uma obra estimulante - uma biografia – da Karen Armstrong, famosa escritora britânica especialista na temática da religião. Eu conhecia os textos da Karen apenas sob o ponto de vista acadêmico, quando li na faculdade uma obra dela que versava sobre o islamismo, O Islã, merecedora de muitos elogios e sem dúvida uma excelente porta de entrada para o universo dessa religião ainda muito mal compreendida.

Em A escada espiral, seu livro de memórias, Karen Armstrong escreve sobre a sua vida desde o momento em que decide, ainda muito jovem, entrar para um convento com a firme convicção de encontrar Deus e viver a sua fé nele de maneira integral, junto a seus pares, por los siglos de los siglos, amém.  Mas nada disso acontece e, além de não encontrar Deus na clausura, a moça deixa a ordem menos crente do que quando havia ingressado. Daí em diante você terá que ir atrás por conta própria, porque a vida da Karen realmente merece um livro. Ou vários.


Não é propriamente sobre a Karen Armstrong que vou escrever, mas foi uma passagem de suas memórias espiraladas que me fez querer escrever sobre outra obra que li também recentemente e que fala sobre uma viagem, mas uma viagem no sentido mais simbólico do termo. Trata-se de um pequeno livro intitulado O cavaleiro preso na armadura, que ganhei de um grande amigo peregrino e que li de uma tirada só, comendo páginas feito traça de papel.

A história, escrita por Robert Fisher, é uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade (subtítulo da obra). Como todas as fábulas, você tem a impressão de estar diante de uma leitura voltada para o público infanto-juvenil. Mas, assim como o herói dessa história, é preciso enxergar o mundo para além das aparências- o que parece ser apenas um discurso bonito, mas na verdade nada mais é do que um grande ensinamento que implica, sobretudo, no confronto desconfortável com o próprio ego, uma dura batalha em se tratando de uma sociedade narcisista e ególatra como a atual.


Em poucas linhas, a narrativa gira em torno de um cavaleiro desses de conto de fadas que percorre caminhos em busca de aventuras: matar dragões, lutar contra inimigos, resgatar donzelas em apuros, tudo o que faz parte de nosso imaginário medieval. Para além de suas destrezas, o cavaleiro era conhecido mesmo por conta de sua armadura, tão linda e brilhante que, quando partia para a batalha, “os aldeões podiam jurar que tinham visto o sol nascer no norte ou se pôr no leste”.


O cavaleiro tinha uma esposa, um filho e um castelo bacana, mas andava sempre tão ocupado em estar pronto para lutar em alguma batalha que mal conseguia dar atenção à sua família; sua fixação em estar sempre pronto para partir o levou a viver constantemente vestido com sua armadura até que chegou um dia em que não mais conseguia tirá-la. Como sua esposa já não mais aceitava conviver com essa situação, acreditando que o marido não tirava a armadura porque não queria - e não porque não conseguia -, o cavaleiro resolveu partir e só voltaria ao castelo depois que conseguisse se livrar da prisão de sua própria armadura.

O chamado da busca, portanto, fica claro no conto: é preciso partir para encontrar uma solução, uma vez que a “cura” só é alcançada no exílio; é o afastamento que promove a transformação, que facilita a busca de uma solução que só chega quando nos encontramos distanciados daquilo que nos faz sofrer ou que nos impede de enxergar, que é bem o caso do cavaleiro dessa fábula.


É aqui que entra a Karen Armstrong, fazendo a ponte que une o conto do cavaleiro com o mito do herói, bem ao estilo do Joseph Campbell. Diz a Karen que os grandes mitos mostram que quem segue rumo alheio acaba se perdendo. E prossegue:

“O herói tem de partir sozinho, abandonando o velho mundo e os velhos hábitos. Tem de aventurar-se na escuridão do desconhecido, onde não existe mapa nem caminho visível. Tem de combater seus próprios monstros – não os monstros de outrem -, explorar seu próprio labirinto, sofrer sua própria provação para poder encontrar o que lhe falta. Assim transfigurado, pode levar algo de valor para o mundo que ficara para trás.”


“Todavia, se o cavaleiro percorre uma rota já estabelecida, está apenas seguindo pegadas alheias e não viverá uma aventura. Se quer triunfar, tem de entrar na floresta, diz o texto, em francês arcaico, de A busca do Santo Graal, ‘num ponto em que ele mesmo escolheu, onde a escuridão era maior e não havia caminho’. Na terra árida da lenda do Graal, as pessoas levam vidas inautênticas, cumprindo cegamente as normas da sociedade e fazendo só o que os outros esperam delas.”

Voltando ao conto, o cavaleiro decide procurar o rei antes de entrar na floresta, mas este se encontrava ausente, participando de uma nova cruzada; quem lhe informa isso é um bobo da corte, que estava sentado junto à ponte levadiça do castelo. No breve diálogo que se segue entre os dois, o cavaleiro descobre que a única pessoa que pode lhe ajudar é o Mago Merlin, que o bobo garante estar vivo, morando “nas florestas além”. E tudo isso acontece no primeiro dos sete capítulos do livro.


Só vou adiantar, para não estragar a surpresa, de que o cavaleiro de fato encontra Merlin na floresta, depois de muito tempo buscando seu rastro; é o mago quem lhe oferecerá a chave que o libertará de sua armadura, mas toda liberdade tem um preço. A incumbência que Merlin dá ao cavaleiro é a seguinte: ele terá que trilhar, a pé, o Caminho da Verdade, tendo como companhia um esquilo e um pássaro; nesse caminho terá de atravessar três castelos que bloqueiam seu passo: o primeiro castelo chama-se Silêncio, o segundo Conhecimento e o terceiro, Vontade e Ousadia.

O conto se desenrola à maneira das fábulas de antigamente, que dizem muito além daquilo que se percebe na aparência superficial dos lugares comuns e finais felizes; estão lá os velhos chavões, os mesmos vícios de linguagem dos contos infantis, as mesmas morais revestidas de autoajuda, mas nada disso importa. A mensagem é mais forte do que qualquer uma dessas convenções e quem não liga para isso se diverte muito mais.


A fábula de Robert Fisher tem força suficiente para comover o leitor que busca uma leitura singela, sem grandes pretensões literárias – mesmo porque a intenção do autor seguramente foi a de fazer com que sua história tocasse o leitor num nível mais profundo, fazendo-o pensar em sua própria condição de “cavaleiro preso em uma armadura”, metáfora apropriada que cabe, em algum momento, na experiência de vida de todos nós.

De fato, cada pessoa fará sua própria interpretação do texto, uma vez que a linguagem metafórica possui essa liberdade interpretativa. O que representa uma armadura para você? O que você entende por liberdade? Qual a importância do amor em sua vida? Qual a sua busca? São questões como estas que o autor se propõe a responder nessa fábula, na verdade um apanhado sucinto dos ensinamentos do grande estudioso Joseph Campbell, que dedicou toda sua vida à compreensão da busca humana tendo como chave de interpretação os mitos das mais diversificadas culturas e religiões do planeta.


A Karen Armstrong, ao se recordar de seus estudos religiosos, disse que estes lhe mostraram que a busca (religiosa) não tem a ver com descobrir “a verdade” ou “o sentido da vida”, e sim com viver, de maneira mais intensa possível, no aqui e agora; não se trata de cultivar uma personalidade sobre-humana ou ir para o céu, mas de descobrir como ser inteiramente humano. Essa ideia casa-se perfeitamente com o cavaleiro preso na armadura, daí a minha surpresa ao pegar-me lendo ao mesmo tempo duas obras tão distintas e encontrar em uma delas passagens que afirmam e amplificam a linguagem simbólica da outra. Uma coincidência muito bem-vinda.

Finalizo com a Karen, que em poucas palavras dá uma aula de como uma obra como a do cavaleiro de Robert Fisher pode nos ajudar a reinterpretar a vida e, quem sabe, colocar em prática as tarefas necessárias para uma mudança integral que nos leve em direção ao equilíbrio e à paz interior.


“Os mitos e as leis da religião são verdadeiros não porque se coadunam com uma realidade metafísica, científica ou histórica, e sim porque enaltecem a vida. Contam como a natureza humana funciona, mas, para descobrir sua verdade, é preciso aplicá-los à própria existência e colocá-los em prática. Os mitos do herói, por exemplo, não surgiram para nos fornecer informações históricas sobre Prometeu ou Aquiles – nem sobre Jesus ou Buda. Seu objetivo é compelir-nos a agir de tal modo que revelemos nosso próprio potencial heróico.”
Leia:

O cavaleiro preso na armadura: uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade. Robert Fisher. Ed Record, 2012.


A escada espiral: memórias. Karen Armstrong. Companhia das Letras, 2005.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Viagem, símbolo da iniciação, by Luis Pellegrini.

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Arrumando meus arquivos outro dia, encontrei uma pasta com dezenas de artigos de revistas que guardo como fonte de pesquisa, algo meio antiquado para os dias de hoje, quando se pode encontrar (quase) tudo navegando pela internet; o fato é que ainda costumo recortar matérias de jornais e revistas, arquivando tudo em pastas pretas, aquelas com plásticos, que facilitam a leitura e a busca de algum artigo quando necessário, cada pasta com seu tema específico.

Nessa arrumação puxei da estante uma destas pastas cuja etiqueta, escrita à mão, indica que o material ali guardado trata da temática das “viagens iniciáticas”; nem me lembrava que um dia havia colecionado artigos a esse respeito – e muito menos que o tema tivesse assim tanta repercussão, pelo que me surpreendi ao começar a ler o material colecionado ao longo de mais de duas décadas, em sua maioria artigos de revistas de temática esotérica, como a Revista Planeta, a Sexto Sentido, as extintas Ano Zero e Via Luz, as espanholas Año Cero e Más Allá,  entre outras de menor repercussão.

Dos textos que encontrei, o que mais me agradou, para variar, foi escrito pelo Luis Pellegrini, que já apareceu um par de vezes aqui no Odepórica (links para os posts no final) e que sempre que pousa a caneta no papel produz coisa boa, gostosa de ler. Veja só o seu estilo, de um pequenino texto retirado do seu blog em que ele fala sobre Viagens:

"Viagens são oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia. Até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: de que seja feito com a consciência desperta, com os sentidos ligados e o coração limpo como o coração das crianças. Quando nos acostumamos a viajar desse modo, a vida, mesmo em seus episódios mais banais, transforma-se numa permanente e excitante viagem. E cada um de nós, num peregrino da existência."

Bacana, não? Os textos do luis são sempre assim, instigam a leitura, fazem refletir, apontam caminhos... o que é bem a cara da Revista Planeta, que era a cara do Pellegrini quando ele andava por lá... Enfim, achei que o texto que você lerá a seguir não merecia ficar guardado numa pasta que logo irá acabar numa caçamba de lixo reciclado. Coisas boas sempre devem permanecer - ainda que seja apenas num ambiente virtual. Namastê!
A Viagem, símbolo da iniciação


A profusão de viagens aos lugares estranhos e remotos do planeta foi um dos aspectos da vida de Helena Blavatsky que mais chamaram minha atenção quando pesquisava os escritos de seus diversos biógrafos para produzir o ensaio biográfico Madame Blavatsky, que publiquei em 1986. A partir de 1849, e por mais de duas décadas, a existência da fundadora do movimento teosófico mundial – e uma das mais importantes figuras da renascença ocultista que marcou a segunda metade do século 19 – foi um verdadeiro carrossel de viagens, uma contínua peregrinação ao redor do mundo. Visitou os principais sítios arqueológicos dos vários continentes, inúmeras comunidades de povos primitivos, com os quais estudou técnicas de magia natural e de medicina, museus, escolas, mosteiros e templos das mais diferentes religiões.

A vida de Blavatsky, nesse sentido, é análoga à de muitos místicos e ocultistas célebres. É uma constante em quase todos eles essa gana de viagens e de frequentes mudanças de um lugar para outro. Qual seria o motivo que leva tais seres a dedicar grande parte das próprias vidas a essas exaustivas peregrinações? Essa característica, por um lado, está certamente relacionada a uma particular inquietude de alma que distingue tais pessoas dos seres comuns. Por outro lado, é axioma bem conhecidos no ocultismo que um conhecimento puramente teórico da vida e das leis e fenômenos ocultos seja insuficiente. O conhecimento absorvido exclusivamente a partir da leitura de livros, por exemplo, é considerado não apenas insuficiente mas inclusive nefasto.


Mais que qualquer outro estudante, quem se dispõe a trilhar os caminhos do ocultismo deve estar disposto a vivenciar na prática tudo aquilo que aprende através do intelecto. Assim, é fácil entender que viajar a lugares desconhecidos, pelo fato de tirar o indivíduo do seu cotidiano habitual, obrigando-o a estar mais desperto e atento, representa por si só a chance de pôr em prática sua capacidade de adaptar-se a situações novas.

Adaptação, em qualquer escola iniciática que se preze, é sinônimo de inteligência. Sem o desenvolvimento da capacidade de adaptação em todos os sentidos não se vai longe no caminho do crescimento pessoal e do autoconhecimento, que são, afinal, a proposta essencial de todas as escolas, sejam orientais ou ocidentais.


Mas à parte esse seu aspecto prático de permitir que o estudioso viva no plano concreto aquilo que aprendeu na teoria, terá a viagem, em si mesma, um sentido iniciático e transcendental? Será a viagem um ato sagrado? Na época atual do turismo de massa, em que se desenvolve inclusive uma nova área científica chamada sociologia do turismo, será ainda possível individuar o valor simbólico e sagrado que leva a pessoa a viajar, a mover-se irresistivelmente em direção a uma meta?

O simbolismo da viagem, num enfoque tanto esotérico quanto psicológico, representa a procura e a descoberta de um centro espiritual. A viagem exprime um desejo profundo de mudança interior projetado no desejo da viagem exterior. Representa a necessidade de experiências novas, mais que um simples deslocamento físico. Por isso, o psicólogo suíço Carl Jung, ao referir-se ao simbolismo da viagem, disse que ela “indica uma insatisfação que leva à busca e à descoberta de novos horizontes”.


Chevalier e Gheerbrant, em seu Dicionário de Símbolos, explicam que em todas as literaturas a viagem simboliza uma aventura e uma procura, quer se trate de um tesouro ou de um simples conhecimento, concreto ou espiritual. “Mas essa procura”, frisam os autores, “no fundo não passa de uma busca e, na maioria dos casos, fuga de si mesmo”, citando como exemplo célebres viagens literárias como a de Ulisses na Odisséia, Enéas na Eneida, a Divina Comédia de Dante, Pantagruel de Rabelais, Gulliver de Swift, ou os contemporâneos On the Road de Jack Kerouac e vários textos de Ernest Hemingway.

Cirlot, autor de outro importante Dicionário de Símbolos, diz que “do ponto de vista espiritual, a viagem nunca é a mera translação no espaço, mas sim a tensão da busca e da mudança determinada pelo movimento e pela experiência que deriva do mesmo”. Em consequência, estudar, pesquisar, procurar intensamente o novo e profundo são modalidades de viajar, ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.


Viagem, portanto, é transformação pelo movimento. E todo movimento busca, consciente ou inconscientemente, o centro. Giuseppe Tucci, um dos maiores orientalistas e exploradores da Ásia deste século, já no fim da vida revelou a um grupo de alpinistas alguma coisa de importante e exemplar sobre o verdadeiro sentido das viagens dos grandes exploradores. Tucci falava com conhecimento de causa, pois, além de ser um grande aventureiro das viagens, conhecera praticamente todos os exploradores importantes deste século. Todos, segundo ele, cultivaram secretamente, e durante muito tempo, a esperança de descobrir, um dia, para além de qualquer passo esquecido, um vale desconhecido e risonho, habitado por gente que permanecera por séculos isolada do resto da humanidade. O mito do reino perdido de Shangri-lá – um dos mais poderosos e duradouros símbolos do reino interno ou espiritual – teve, portanto, cultores ilustres e insuspeitáveis. Mas daquilo que um pensador convencionalmente racionalista poderia considerar uma simples fraqueza, Tucci não ria: “Só quem caminhou semanas entre montanhas desertas pode entender. O desejo de conhecer o que se esconde por trás da última montanha torna-se obsessivo... Uma espécie de miragem que seduz ao mesmo tempo a razão e a fantasia”.


Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas para quem tem na alma a inquietude do viajante, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada no espaço e no tempo, em direção ao centro.

“Os verdadeiros viajante são aqueles que partem por partir”, disse o poeta Baudelaire, definindo de modo exemplar a figura do peregrino. Os peregrinos de todos os tempos e lugares constituem um tipo especial de romeiros que aparentemente viajam para atingir lugares que se encontram do outro lado – os santuários, templos, cidades e montanhas sagradas. Na verdade, o que atrai o peregrino é a qualidade especial das experiências que em tais ambientes excepcionais é possível viver.


A viagem como experiência sagrada e iniciática, portanto, acontece em todo o seu percurso, e não apenas no seu ponto de chegada. O maravilhoso, o totalmente diverso que distingue aquilo que é sagrado, manifesta-se no tempo liberado do trabalho e dos empenhos cotidianos. Não porque o trabalho e as tarefas cotidianas não possam ser também sagrados e iniciático; mas porque – infelizmente – tendemos a desempenhá-los num estado de automatismo e de semiconsciência, e a iniciação verdadeira só ocorre à luz da consciência bem desperta.

Na viagem do peregrino, o nome, a língua, os hábitos mudam. As amizades ficam interrompidas; o viajante fica “só no mundo”. Começa assim aquele processo simbólico de regeneração psicológica e espiritual concedido aos viajantes mais felizes – aqueles movidos pelo fogo fantástico e espiritual da peregrinação. Todo peregrino com conhecimento de causa sabe que a ânsia de chegar a algum lugar compromete a viagem de valor iniciático. As verdadeiras experiências que enriquecem e ampliam os níveis da consciência individual costumam ocorrer durante e ao longo do percurso.


A chegada ao lugar de destino pode ser só um coroamento, e nem sempre é a coisa mais importante na viagem de peregrinação. Mas se partirmos depositando toda nossa expectativa nas gratificações que nos esperam ao atingirmos o alvo final, estaremos desatentos e perderemos a miríade de pequenas e grandes vivências que nos aguardam perfiladas à beira da estrada.

A importância objetiva e subjetiva das viagens nos assim chamados processos iniciático foi sempre amplamente reconhecida pelas escolas de sabedoria do passado e do presente, tanto do Oriente quanto do Ocidente. Algumas escolas, como a seita sufi dos Kalenderi, da Turquia, impõem a seus membros que viajem continuamente. Como de modo geral para as demais correntes do sufismo, considera-se que a fixação do iniciante em hábitos repetitivos e cotidianos constitui um nocivo fator de “adormecimento” que atrapalha e até impede o processo do “despertar”.


Viagens súbitas, inesperadas, e às vezes temerárias, nas quais o iniciante vê-se subitamente atirado, costumam fazer parte de uma série de provas preparatórias para as etapas mais avançadas e de iniciação preconizadas por escolas que vão dos mistérios gregos às sociedades secretas sufis e chinesas, chegando até as modernas maçonaria e teosofia.

Na verdade, a viagem iniciática só se realiza no interior do próprio ser. Estimula-se a viagem exterior pelo simples fato de que, pelo menos nas etapas iniciais dos processos de iniciação, é muito mais fácil ver, experimentar e compreender no mundo objetivo de fora aquilo que na realidade está ocorrendo no mundo ainda subjetivo de dentro. Nesse sentido, as escolas tradicionais de sabedoria aproximam-se notavelmente da moderna psicologia, em especial a de linha junguiana, que defende a ideia de que, para a psique, tanto faz se a experiência acontece no plano da realidade concreta (objetivamente) ou no da fantasia e da imaginação (subjetivamente). Nos dois casos, o resultado final como vivência do fato psicológico é o mesmo.


René Guénon, por exemplo, diz que as provas iniciática tomam com frequência a forma de “viagens simbólicas”, representando uma busca que vai das trevas do mundo profano (ou do inconsciente, da “mãe”) à luz (a consciência desperta). As provas e as etapas da viagem constituem ritos de purificação.

A viagem simbólica é, outras vezes, e com frequência, feita após a morte, como no caso dos Livros dos Mortos egípcio e tibetano. Ambos tratam de uma progressão da alma em estados que prolongam os da manifestação humana, o objetivo supra-humano (a fusão com o centro) ainda não tendo sido alcançado. Jung estudou a fundo a simbologia psicológica contida no multissecular Livro dos Mortos tibetano e chegou a conclusões surpreendentes: as experiências que a alma humana vive no mundo além da morte, e que são descritas na obra, correspondem simbolicamente às diferentes etapas de maturação psicológica pelas quais o indivíduo tem de passar no seu processo de individuação.


E os turistas que partem em férias, os viajantes de fim de semana cujo objetivo declarado resume-se à vontade de respirar ar puro ou tomar um simples banho de mar, estarão também cumprindo, sem o saber, algum secreto rito de transformação e de crescimento interior pelo movimento? Sem dúvida. O desejo do movimento está sempre associado à dinâmica da vida, assim como a inação se associa à rigidez da morte.


Todo movimento, em última análise, é uma viagem. E, nesse sentido, até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: que ele seja feito com a consciência desperta. Com os cinco sentidos inteiramente ligados, e acoplados àquela capacidade intrínseca da consciência que é a observação. Quando alguém se acostuma a “viajar” desse modo, a própria vida se transforma numa permanente e excitante viagem, e cada um de nós em peregrinos da existência.
Fonte: Revista Planeta, edição de Fevereiro de 1992.

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