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Arrumando meus arquivos outro dia, encontrei
uma pasta com dezenas de artigos de revistas que guardo como fonte de pesquisa,
algo meio antiquado para os dias de hoje, quando se pode encontrar (quase) tudo
navegando pela internet; o fato é que ainda costumo recortar matérias de
jornais e revistas, arquivando tudo em pastas pretas, aquelas com plásticos,
que facilitam a leitura e a busca de algum artigo quando necessário, cada pasta
com seu tema específico.
Nessa arrumação puxei da estante uma destas pastas
cuja etiqueta, escrita à mão, indica que o material ali guardado trata da
temática das “viagens iniciáticas”; nem me lembrava que um dia havia
colecionado artigos a esse respeito – e muito menos que o tema tivesse assim
tanta repercussão, pelo que me surpreendi ao começar a ler o material
colecionado ao longo de mais de duas décadas, em sua maioria artigos de
revistas de temática esotérica, como a Revista
Planeta, a Sexto Sentido, as
extintas Ano Zero e Via Luz, as espanholas Año Cero e Más Allá, entre outras de
menor repercussão.
Dos textos que encontrei, o que mais me
agradou, para variar, foi escrito pelo Luis Pellegrini, que já apareceu um par
de vezes aqui no Odepórica (links
para os posts no final) e que sempre que pousa a caneta no papel produz coisa
boa, gostosa de ler. Veja só o seu estilo, de um pequenino texto retirado do
seu blog em que ele fala sobre Viagens:
"Viagens são oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia. Até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: de que seja feito com a consciência desperta, com os sentidos ligados e o coração limpo como o coração das crianças. Quando nos acostumamos a viajar desse modo, a vida, mesmo em seus episódios mais banais, transforma-se numa permanente e excitante viagem. E cada um de nós, num peregrino da existência."
Bacana, não? Os textos do luis são sempre assim, instigam a leitura, fazem refletir, apontam caminhos... o que é bem a cara da Revista Planeta, que era a cara do Pellegrini quando ele andava por lá... Enfim, achei que o texto que você lerá a seguir não merecia ficar guardado numa pasta que logo irá acabar numa caçamba de lixo reciclado. Coisas boas sempre devem permanecer - ainda que seja apenas num ambiente virtual. Namastê!
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A Viagem, símbolo da iniciação
A profusão de viagens aos lugares estranhos e
remotos do planeta foi um dos aspectos da vida de Helena Blavatsky que mais
chamaram minha atenção quando pesquisava os escritos de seus diversos biógrafos
para produzir o ensaio biográfico Madame Blavatsky, que publiquei em 1986. A
partir de 1849, e por mais de duas décadas, a existência da fundadora do
movimento teosófico mundial – e uma das mais importantes figuras da renascença
ocultista que marcou a segunda metade do século 19 – foi um verdadeiro
carrossel de viagens, uma contínua peregrinação ao redor do mundo. Visitou os
principais sítios arqueológicos dos vários continentes, inúmeras comunidades de
povos primitivos, com os quais estudou técnicas de magia natural e de medicina,
museus, escolas, mosteiros e templos das mais diferentes religiões.
A vida de Blavatsky, nesse sentido, é análoga
à de muitos místicos e ocultistas célebres. É uma constante em quase todos eles
essa gana de viagens e de frequentes mudanças de um lugar para outro. Qual
seria o motivo que leva tais seres a dedicar grande parte das próprias vidas a
essas exaustivas peregrinações? Essa característica, por um lado, está
certamente relacionada a uma particular inquietude de alma que distingue tais
pessoas dos seres comuns. Por outro lado, é axioma bem conhecidos no ocultismo
que um conhecimento puramente teórico da vida e das leis e fenômenos ocultos
seja insuficiente. O conhecimento absorvido exclusivamente a partir da leitura
de livros, por exemplo, é considerado não apenas insuficiente mas inclusive
nefasto.

Mais que qualquer outro estudante, quem se
dispõe a trilhar os caminhos do ocultismo deve estar disposto a vivenciar na
prática tudo aquilo que aprende através do intelecto. Assim, é fácil entender
que viajar a lugares desconhecidos, pelo fato de tirar o indivíduo do seu
cotidiano habitual, obrigando-o a estar mais desperto e atento, representa por
si só a chance de pôr em prática sua capacidade de adaptar-se a situações
novas.
Adaptação, em qualquer escola iniciática que
se preze, é sinônimo de inteligência. Sem o desenvolvimento da capacidade de
adaptação em todos os sentidos não se vai longe no caminho do crescimento
pessoal e do autoconhecimento, que são, afinal, a proposta essencial de todas
as escolas, sejam orientais ou ocidentais.
Mas à parte esse seu aspecto prático de
permitir que o estudioso viva no plano concreto aquilo que aprendeu na teoria,
terá a viagem, em si mesma, um sentido iniciático e transcendental? Será a
viagem um ato sagrado? Na época atual do turismo de massa, em que se desenvolve
inclusive uma nova área científica chamada sociologia do turismo, será ainda
possível individuar o valor simbólico e sagrado que leva a pessoa a viajar, a
mover-se irresistivelmente em direção a uma meta?
O simbolismo da viagem, num enfoque tanto
esotérico quanto psicológico, representa a procura e a descoberta de um centro
espiritual. A viagem exprime um desejo profundo de mudança interior projetado
no desejo da viagem exterior. Representa a necessidade de experiências novas,
mais que um simples deslocamento físico. Por isso, o psicólogo suíço Carl Jung,
ao referir-se ao simbolismo da viagem, disse que ela “indica uma insatisfação
que leva à busca e à descoberta de novos horizontes”.

Chevalier e Gheerbrant, em seu Dicionário de Símbolos, explicam que em
todas as literaturas a viagem simboliza uma aventura e uma procura, quer se
trate de um tesouro ou de um simples conhecimento, concreto ou espiritual. “Mas
essa procura”, frisam os autores, “no fundo não passa de uma busca e, na
maioria dos casos, fuga de si mesmo”, citando como exemplo célebres viagens
literárias como a de Ulisses na Odisséia,
Enéas na Eneida, a Divina Comédia de Dante, Pantagruel
de Rabelais, Gulliver de Swift, ou os
contemporâneos On the Road de Jack
Kerouac e vários textos de Ernest Hemingway.
Cirlot, autor de outro importante Dicionário
de Símbolos, diz que “do ponto de vista espiritual, a viagem nunca é a mera
translação no espaço, mas sim a tensão da busca e da mudança determinada pelo
movimento e pela experiência que deriva do mesmo”. Em consequência, estudar,
pesquisar, procurar intensamente o novo e profundo são modalidades de viajar,
ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.

Viagem, portanto, é transformação pelo
movimento. E todo movimento busca, consciente ou inconscientemente, o centro.
Giuseppe Tucci, um dos maiores orientalistas e exploradores da Ásia deste
século, já no fim da vida revelou a um grupo de alpinistas alguma coisa de
importante e exemplar sobre o verdadeiro sentido das viagens dos grandes
exploradores. Tucci falava com conhecimento de causa, pois, além de ser um
grande aventureiro das viagens, conhecera praticamente todos os exploradores
importantes deste século. Todos, segundo ele, cultivaram secretamente, e
durante muito tempo, a esperança de descobrir, um dia, para além de qualquer
passo esquecido, um vale desconhecido e risonho, habitado por gente que
permanecera por séculos isolada do resto da humanidade. O mito do reino perdido
de Shangri-lá – um dos mais poderosos e duradouros símbolos do reino interno ou
espiritual – teve, portanto, cultores ilustres e insuspeitáveis. Mas daquilo
que um pensador convencionalmente racionalista poderia considerar uma simples
fraqueza, Tucci não ria: “Só quem caminhou semanas entre montanhas desertas
pode entender. O desejo de conhecer o que se esconde por trás da última
montanha torna-se obsessivo... Uma espécie de miragem que seduz ao mesmo tempo
a razão e a fantasia”.

Partir para o desconhecido pode ser
assustador. Mas para quem tem na alma a inquietude do viajante, o desejo da
descoberta supera o medo e instiga a caminhada no espaço e no tempo, em direção
ao centro.
“Os verdadeiros viajante são aqueles que
partem por partir”, disse o poeta Baudelaire, definindo de modo exemplar a
figura do peregrino. Os peregrinos de todos os tempos e lugares constituem um
tipo especial de romeiros que aparentemente
viajam para atingir lugares que se encontram do outro lado – os santuários,
templos, cidades e montanhas sagradas. Na verdade, o que atrai o peregrino é a qualidade especial das experiências que
em tais ambientes excepcionais é possível viver.

A viagem como experiência sagrada e
iniciática, portanto, acontece em todo
o seu percurso, e não apenas no seu ponto de chegada. O maravilhoso, o
totalmente diverso que distingue aquilo que é sagrado, manifesta-se no tempo
liberado do trabalho e dos empenhos cotidianos. Não porque o trabalho e as
tarefas cotidianas não possam ser também sagrados e iniciático; mas porque –
infelizmente – tendemos a desempenhá-los num estado de automatismo e de
semiconsciência, e a iniciação verdadeira só ocorre à luz da consciência bem
desperta.
Na viagem do peregrino, o nome, a língua, os
hábitos mudam. As amizades ficam interrompidas; o viajante fica “só no mundo”.
Começa assim aquele processo simbólico de regeneração psicológica e espiritual
concedido aos viajantes mais felizes – aqueles movidos pelo fogo fantástico e
espiritual da peregrinação. Todo peregrino com conhecimento de causa sabe que a
ânsia de chegar a algum lugar compromete a viagem de valor iniciático. As
verdadeiras experiências que enriquecem e ampliam os níveis da consciência
individual costumam ocorrer durante e ao longo do percurso.
A chegada ao lugar de destino pode ser só um
coroamento, e nem sempre é a coisa mais importante na viagem de peregrinação.
Mas se partirmos depositando toda nossa expectativa nas gratificações que nos
esperam ao atingirmos o alvo final, estaremos desatentos e perderemos a miríade
de pequenas e grandes vivências que nos aguardam perfiladas à beira da estrada.
A importância objetiva e subjetiva das
viagens nos assim chamados processos iniciático foi sempre amplamente
reconhecida pelas escolas de sabedoria do passado e do presente, tanto do
Oriente quanto do Ocidente. Algumas escolas, como a seita sufi dos Kalenderi,
da Turquia, impõem a seus membros que viajem continuamente. Como de modo geral
para as demais correntes do sufismo, considera-se que a fixação do iniciante em
hábitos repetitivos e cotidianos constitui um nocivo fator de “adormecimento”
que atrapalha e até impede o processo do “despertar”.
Viagens súbitas, inesperadas, e às vezes
temerárias, nas quais o iniciante vê-se subitamente atirado, costumam fazer
parte de uma série de provas preparatórias para as etapas mais avançadas e de
iniciação preconizadas por escolas que vão dos mistérios gregos às sociedades
secretas sufis e chinesas, chegando até as modernas maçonaria e teosofia.
Na verdade, a viagem iniciática só se realiza
no interior do próprio ser. Estimula-se a viagem exterior pelo simples fato de
que, pelo menos nas etapas iniciais dos processos de iniciação, é muito mais
fácil ver, experimentar e compreender no mundo objetivo de fora aquilo que na
realidade está ocorrendo no mundo ainda subjetivo de dentro. Nesse sentido, as
escolas tradicionais de sabedoria aproximam-se notavelmente da moderna
psicologia, em especial a de linha junguiana, que defende a ideia de que, para
a psique, tanto faz se a experiência acontece no plano da realidade concreta
(objetivamente) ou no da fantasia e da imaginação (subjetivamente). Nos dois
casos, o resultado final como vivência do fato psicológico é o mesmo.

René Guénon, por exemplo, diz que as provas
iniciática tomam com frequência a forma de “viagens simbólicas”, representando
uma busca que vai das trevas do mundo profano (ou do inconsciente, da “mãe”) à
luz (a consciência desperta). As provas e as etapas da viagem constituem ritos
de purificação.
A viagem simbólica é, outras vezes, e com
frequência, feita após a morte, como no caso dos Livros dos Mortos egípcio e tibetano. Ambos tratam de uma
progressão da alma em estados que prolongam os da manifestação humana, o
objetivo supra-humano (a fusão com o centro) ainda não tendo sido alcançado.
Jung estudou a fundo a simbologia psicológica contida no multissecular Livro dos Mortos tibetano e chegou a
conclusões surpreendentes: as experiências que a alma humana vive no mundo além
da morte, e que são descritas na obra, correspondem simbolicamente às
diferentes etapas de maturação psicológica pelas quais o indivíduo tem de
passar no seu processo de individuação.

E os turistas que partem em férias, os
viajantes de fim de semana cujo objetivo declarado resume-se à vontade de
respirar ar puro ou tomar um simples banho de mar, estarão também cumprindo,
sem o saber, algum secreto rito de transformação e de crescimento interior pelo
movimento? Sem dúvida. O desejo do movimento está sempre associado à dinâmica
da vida, assim como a inação se associa à rigidez da morte.
Todo movimento, em última análise, é uma
viagem. E, nesse sentido, até um simples passeio ao redor do quarteirão pode
ser enriquecedor. Com uma condição: que ele seja feito com a consciência
desperta. Com os cinco sentidos inteiramente ligados, e acoplados àquela
capacidade intrínseca da consciência que é a observação. Quando alguém se
acostuma a “viajar” desse modo, a própria vida se transforma numa permanente e
excitante viagem, e cada um de nós em peregrinos da existência.
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Fonte: Revista Planeta, edição de Fevereiro
de 1992.
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