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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Peregrinação, by Guilherme de Almeida


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Eis que me pego novamente apaixonado pelo haikai, aquela poesia curtinha de três versos que nasceu no Japão e tornou-se joia nas mãos do mestre Matsuo Bashô, louvado seja, esse santo andarilho que continua inspirando almas poéticas mundo afora.

Aqui no Brasil, foi Afrânio Peixoto (1875-1947) quem nos apresentou o haikai, em 1919, no prefácio de seu livro “Trovas Populares Brasileiras”:

"Os japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções, imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de encanto intraduzível".

São dele os seguintes versos: 

 ♣
Uma pétala caída
Que torna a seu ramo:
Ah! é uma borboleta!
 ♣
Na poça de lama
como no divino céu,
Também passa a lua

 
Ao lado de Peixoto, temos Guilherme de Almeida (1890-1969), um dos organizadores da Semana de Arte Moderna, conhecido como o quarto “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Entre seus muitos méritos literários, consta o de ser um dos primeiros poetas brasileiros a escrever haikais. Eis alguns:
NOTURNO

Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.
TRISTEZA

Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?
 PESCARIA

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.
DE NOITE

Uma árvore nua
aponta o céu. Numa ponta
brota um fruto. A lua?

Garimpei num sebo a obra Poesia Vária, do Guilherme de Almeida. Uma segunda edição bonita, encadernada, editada em 1963. Nela encontrei não só alguns de seus belíssimos haikais, mas também um texto maravilhoso intitulado Peregrinação, parte I do livro, de onde tirei alguns dos versos que você lerá a seguir.

No portal

Descalço em teu portal de hera e granito
minhas sandálias sujas de infinito.

Na peregrinação do meu destino,
fui um deus disfarçado em peregrino.

Sob passos de orgulho e de aventura,
calquei toda pureza e toda altura.

Indo de norte a sul, de leste a oeste,
pisei o céu com tudo o que é celeste.

Pisei, consciente, com meus pés de Acaso,
o sol, a lua, a estrela, a aurora, o ocaso.

a névoa, o raio, o arco-iris, a ave, o inseto,
a árvore, a sombra, a luz. O fumo, o teto...

Tudo o que era alto, tudo o que era puro
pisei, calquei sob o meu passo duro.

por entre flores ou por entre espinhos,
refletido na lama dos caminhos.

Descalço em teu portal de hera e granito
minhas sandálias sujas de infinito.


Segunda canção do peregrino


Vencido, exausto, quase morto,
cortei um galho do teu horto
e dele fiz o meu bordão.

Foi minha vista e foi meu tacto:
constantemente foi o pacto
que fez comigo a escuridão.

Pois nem fantasmas, nem torrentes,
nem salteadores, nem serpentes
prevaleceram no meu chão.

Somente os homens, que me viam
passar sozinho, riam, riam,
riam, não sei por que razão.

Mas, certa vez, parei um pouco,
e ouvi gritar: - “Aí vem o louco
que leva uma árvore na mão!”

E, erguendo o olhar, vi folhas, flores,
pássaros, frutos, luzes, cores...
- Tinha florido o meu bordão.  

O manto cor do tempo



Eis que venho de longe e sou tão pobre!
não acreditas que eu apenas tenha
o manto cor do tempo, que me cobre.

É um trapo. Mas nas dobras da estamenha,
que andou de sol a sol, de lua a lua,
é bem possível que comigo venha,

preso aos ásperos fiapos de lã crua,
um pouco do que é o mundo e do que é a vida:
- laivos de céu azul; poeira da rua;

Restos de aro-íris. Pétala caída;
penugem que escapou à fuga alada
e alta das estações; fímbria perdida.

Do véu de noiva de uma estrela aluada;
farrapos de neblina e de folhagem;
migalhas de sol-posto e de alvorada;

Sobras levianas da libertinagem
do luar... – Venho de longe e sou tão pobre!
mas trago a eternidade na miragem

Do manto cor do tempo, que me cobre.

Última canção do peregrino


Eu fui o só
no caminho sem fim:
deixei apenas pó
atrás de mim.

Soprou do céu
da poeira que deixei
hão de fazer um véu,  
de ouro de lei.

Raios do luar
na poeira que depus
no meu rastro hão de achar
ninhos de luz.

Folha que cai
sobre a poeira que ergui
há de dormir onde – ai! –
eu não dormi.

Passos de alguém,
pisando a poeira, irão
acordá-la, e também
meu coração.

E há de ser bom,
útil, belo e feliz
o que for feito com
o pó que eu fiz.

Apenas eu
não mais, não mais terei
aquilo que foi meu:
porque passei.

Leia: Poesia Vária. Guilherme de Almeida. 2ª edição. Martins Editora, 1963.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Credo de um guerreiro. Samurai anônimo, Séc. XIV

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Encontrei num albergue de peregrinos um pedaço de papel pregado em um quadro de avisos um texto muito bonito de autoria de um samurai anônimo do século XIV. Embora tenha sido escrito visando, imagino eu, a educação moral de um guerreiro samurai, nesse texto estão condensadas afirmações que servem como inspiração a todos os tipos de guerreiros, numa compreensão arquetípica do termo. Em viagens onde a dor, o medo e a solidão se fazem presentes, onde a busca espiritual, com todas as suas dificuldades e provações é uma possibilidade, não soa exagerado chamar o viajante de guerreiro. Acredito que a pessoa que pregou essa mensagem no quadro daquele albergue também deva pensar assim. Ultreya y Sueseya!

CREDO DE UM GUERREIRO



Não tenho país: Fiz do céu e da terra o meu país.
Não tenho lar: Fiz da percepção o meu lar.
Não tenho vida ou morte: Fiz do fluir e refluir da respiração a minha vida e a minha morte.
Não tenho poder divino: Fiz da honestidade o meu poder divino.
Não tenho recursos: Fiz da compreensão os meus recursos.
Não tenho segredos mágicos: Fiz do caráter o meu segredo mágico.
Não tenho corpo: Fiz da resistência o meu corpo.
Não tenho olhos: Fiz do relâmpago os meus olhos.
Não tenho ouvidos: Fiz da sensibilidade os meus ouvidos.
Não tenho membros: Fiz da diligência os meus membros.
Não tenho estratégia: Fiz da mente aberta a minha estratégia.
Não tenho perspectivas: Fiz de “agarrar a oportunidade por um fio” as minhas perspectivas.
Não tenho milagres: Fiz da ação correta os meus milagres.
Não tenho princípios: Fiz da adaptabilidade a todas as circunstâncias os meus princípios.
Não tenho táticas: Fiz do pouco e do muito as minhas táticas.
Não tenho talentos: Fiz da agilidade mental os meus talentos.
Não tenho amigos: Fiz da minha mente o meu amigo.
Não tenho inimigos: Fiz do descuido o meu inimigo.
Não tenho armadura: Fiz da benevolência e da imparcialidade a minha armadura.
Não tenho castelo: Fiz da mente imutável o meu castelo.
Não tenho espada: Fiz da ausência do ego a minha espada.



sábado, 15 de novembro de 2014

Sobre o silêncio e a solidão e um poema: El cielo dentro de mí, por Atahualpa Yupanqui y Pablo del Cerro

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Tenho verdadeiro fascínio por textos que tratam dos temas que envolvem o silêncio e a solidão e já disse aqui uma vez que sou apaixonado pela história e lições dos padres do deserto, cenobitas embriagados de Deus que buscaram no silêncio e na solidão o caminho para a comunhão divina.

 Diz Ramakrishna (na obra Liberte-se do passado, Ed Cultrix) que

“Ter silêncio e espaço interiores é muito importante, porque implica liberdade para existir, mover-se, atuar, voar. Afinal de contas, a bondade só pode florescer onde há espaço, assim como a virtude só pode medrar quando há liberdade. Podemos ter liberdade política, mas, interiormente, não somos livres e, por conseguinte, não há espaço. Nenhuma virtude, nenhuma qualidade valiosa, pode funcionar ou medrar sem esse vasto espaço interior. E o espaço e o silêncio são necessários, pois apenas a mente que está só, livre de influências, de disciplinas, do controle de uma infinita variedade de experiências, é capaz de encontrar-se com algo totalmente novo.”

Partindo desse princípio, tão bem colocado por Ramakrishna, busco sempre ler e reler as obras de autores que sabem valorizar a importância desses momentos de silêncio e solidão; de Paul Brunton a Kerouac, de Fernando Pessoa a Paul Bowles, de Hermann Hesse a Hemingway todos eles em maior ou menor grau souberam da importância de se estar só, talvez pelo simples motivo de que tanto a solidão quanto o silêncio fazem parte da aventura do escrever.

Mas acompanhando de perto esses mestres, sei que não era só isso. Todos eles adoravam longas caminhadas, viagens sem pressa de voltar, e o reconfortante contato com a natureza para repor as energias. As viagens, assim como as longas caminhadas, se mostram muito úteis nesse processo transformador e revelador que nos faz enxergar a vida sob novas e diferentes perspectivas e possibilidades.

Hoje eu compartilho com você uma poesia, que tem tudo a ver com o que acabei de escrever e que me chegou pelas mãos de um poeta lá do Sul, o Ulisses Borges, que além de escrever muito bem tem um ótimo sexto sentido para as coisas boas que pintam por aí. Valeu, Ulisses! Buen camino!     

El cielo dentro de mí


en lo alto de la sierra
me detuve a descansar
pero sentí que me iba
sin moverme del lugar

los ojos se me perdieron
en aquella inmensidad
y me olvidé de mi mismo
tanto mirar y mirar

de pronto me ha preguntado
la voz de la soledad
si andaba buscando el cielo
y yo respondí quizás

el cielo está dentro de uno
y está el infierno también
el alma escribe sus libros
pero ninguno los lee

a veces uno camina
entre la sombra y la luz
en la cara la sonrisa
y en el corazón la cruz

búscalo al cielo en ti mismo
que allí lo vas a encontrar
pero no es fácil hallarlo
pues hay mucho que luchar

por caminos solitarios
yo me puse a caminar
por fuera nada buscaba
pero por dentro quizás

(Atahualpa Yupanqui/ Pablo del Cerro)

Leia e ouça o poema no blogue do Ulisses:
http://ulisses-borges.blogspot.com.br/2014/11/el-cielo-esta-dentro-de-mi.html

domingo, 29 de abril de 2012

Andares, by Hermann Hesse

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Diz o Paul Pitchford, renomado estudioso e autor de um magnífico tratado sobre cura e alimentação (Healing with whole foods) que o outono, de acordo com os princípios da medicina tradicional chinesa, é a estação da colheita, uma época para agrupar, recolher e juntar nossas partes em todos os níveis focando nosso interior; um período para coletar e armazenar combustível, alimentos e roupas adequados ao frio, uma época de estudo e planejamento para a quietude que se aproxima com a chegada do inverno.

Não é só na saúde que sentimos o efeito das estações do ano sobre nosso corpo; com a chegada do frio, dos dias mais curtos, sentimos necessidade de recolhimento, como escreve Paul Pitchford acima, e isso se reflete em todos os níveis: físico, mental e emocional.

Se o outono é a época do recolhimento, do olhar voltado para o interior, nada mais natural do que sentir-se atraído por leituras que auxiliem nesse processo. No meu caso, por exemplo, costumo reler algumas obras de conteúdo espiritualista, biografias de pessoas que admiro e poesia. Não me lembro de alguma vez ter em mãos minha preciosa pequena coleção de poemas do Fernando Pessoa num dia ensolarado de verão; para mim, a poesia pessoana pede a sobriedade e melancolia dos dias cinzentos e frios, leitura solitária e meditativa cujo prazer só conhece quem a ele se entrega.


Entretanto, devo confessar que sou um leitor muito limitado de poesia; tenho nessa arte dois ídolos, o português Fernando Pessoa e o brasileiro Paulo Leminski. Às vezes leio outros poetas, mas nenhum consegue fazer tanto a minha cabeça quanto esses dois malucos beleza acima citados.


Mas eis que surge um terceiro: Hermann Hesse, autor que já passeou por aqui mais de uma vez e que eu admiro muito. Não me lembrava: Hesse também foi poeta e descobri isso por mero acaso, quando dia desses entrei em um sebo e dei de cara com um livro dele intitulado Andares – Antologia poética. Uma baita alegria, fiquei tão absorto com a leitura, ali mesmo em pé dentro do sebo, que até me esqueci o que havia ido procurar.


Hermann Hesse foi um romancista muito voltado para as questões místicas, tendo levado para seus romances provavelmente muito daquilo que ele próprio buscava em vida. Não vejo mais ninguém usando - e isso deve ser influência de minhas leituras teosóficas – mas o termo “buscador” me parece muito apropriado para qualificar o tipo de homem que foi Hermann Hesse. Em um de seus poemas, intitulado Caminho interior, fica evidente a ligação de Hesse com a questão espiritual, presente em grande parte dos poemas que compõem essa coletânea:






Quem descobre o caminho interior,


quem na mais fervorosa introspecção


vislumbra o cerne da sabedoria,


passa a sentir Deus e o mundo


à sua imagem e semelhança:


para ele, cada ação ou pensamento


será um diálogo com a própria alma,


que a Deus e ao mundo em si mesma contém.




Os poemas de Herman Hesse levam-nos a refletir sobre a vida, a natureza e a morte, e sobretudo sobre a solidão; parecem querer mostrar, a cada instante, a finitude e brevidade da vida, conclamando o leitor a despertar para a única e verdadeira missão do ser humano, que é o encontro com sua natureza divina, aquilo que no Oriente é conhecido como auto-realização e que Jung denominou de (processo de) individuação.


Como entusiasta de tudo aquilo que se refere ao processo de transformação em deslocamentos, cujo arquétipo maior se encontra na figura do peregrino, recolhi três poemas desses Andares de Hermann Hesse para você, leitor/a do Odepórica, ler e se encantar. Palavra bonita essa: encantar, que por acaso aparece em um dos poemas que você irá ler a seguir e que diz assim: “dentro de cada começar mora um encanto”. Boa viagem.





A caminho do Oriente




A esmo por este mundo, desgarrado das Cruzadas,


muito irmão há de vagar pelos áridos desertos


dos números e das horas, a inquietar-se afastado


da alta meta pela qual combatera e padecera;
contudo, enquanto o chamusca a desértica solina,


tem sempre em vista as palmeiras da usa terra de sonho.




Dele assim perdido zombam sem piedade nenhuma


as crianças que se ajuntam nas urbes e nos mercados;


como a Menão, entretanto, a esse colosso em letargo


cada raio de arrebol faz novamente vibrar


- e ele, Dom Quixote, ri para o castelo encantado


na distância e para as fadas que embelezam o lugar.




E sempre, por toda parte, entre os gracejos da plebe


e o sangue dos mártires, algum rapaz aparece:


ergue para Dom Quixote o maravilhado olhar,


prosterna-se, presta a Deus o sagrado juramento


e, rumo ao Santo sepulcro, acompanha o peregrino.





O peregrino




Estive sempre em viagem,


peregrino sempre.


Pouco tratei de mim:


sorte e azar vão e vêm.




Desconhecidos o sentido e o objetivo


do meu peregrinar,


das mil vezes que caí


tornei a me levantar.




Ah, havia a estrela do amor,


de que eu andava atrás:


lá nas alturas posta,


santa e longe demais.




Antes de conhecer o objetivo,


andei à toa:


tive sublimes prazeres


e alguma coisa boa.




Agora, que mal entrevi a estrela,


é tão tarde, afinal:


ela se escondeu, já,


desaba o aguaceiro matinal.




Despede-se o variegado mundo


a que eu tão bem queria:


mesmo tendo perdido o objetivo,


a viagem valeu pela ousadia.





Andares


Como emurchece toda flor, e toda idade


juvenil cede à senil – cada andar da vida


floresce, qual a sabedoria e a virtude,


a seu tempo, e não há de durar para sempre.




A cada chamado da vida o coração


deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias, aberto sempre para novos compromissos.


Dentro de cada começar mora um encanto


que nos dá forças e nos ajuda a viver.




Devemos ir contente, de um lugar a outro,


sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:


não nos quer atados, o espírito do mundo


- quer que cresçamos, subindo andar por andar.




Mal a um tipo de vida nos acomodamos


e habituamos, cerca-nos o abatimento.


Só quem de dispõe a partir e a ir em frente


pode escapar à rotina paralisante.


É bem possível que a hora da morte ainda


de novos planos ponha-nos na direção:


para nós, não tem fim o chamado da vida...


Saúda, pois, e despede-te, coração!





Leia: Andares: antologia poética. Hermann Hesse. Editora Nova Fronteira. Tradução de Geir Campos.



sábado, 31 de março de 2012

Desiderata, by Max Ehrmann

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Todas as viagens são boas, e algumas mais especiais do que outras. Nem sempre sabemos explicar o motivo pelo qual somos mais tocados pelas lembranças de uma viagem enquanto outras simplesmente se apagam da memória sem nenhuma razão aparente. Não fossem as fotografias que tiramos, ou certos objetos que trazemos na volta a casa, uma pedra, uma conchinha roubada da praia, um seixo de rio, qualquer coisa simples e cheia de simbolismo que só você é capaz de compreender, provavelmente nenhuma lembrança restaria do evento. Mistérios da mente, vai saber.

No entanto, em se tratando de lembranças, há aquelas que carregaremos para sempre conosco, como que atreladas ao nosso DNA, grudadinhas nas células que formam nossa embalagem de carne e de ossos a que damos o nome de corpo.

Há alguns anos, depois de trabalhar por mais de uma década na mesma empresa, desliguei-me do quadro de funcionários e dei um tempo em tudo, uma espécie de ano sabático; no primeiro ano dediquei-me aos estudos de pós-graduação e no começo do ano seguinte, viajei para a Espanha na condição de vagamundo hospitaleiro.

Foram quase seis meses de trabalho voluntário, acolhendo peregrinos na rota francesa do Caminho de Santiago, a mais conhecida e percorrida desde sempre. Foi a experiência mais fascinante pela qual passei na vida, cheia de aprendizados e vários deslocamentos, muitas vezes sendo guiado pelo acaso até chegar a algum lugar onde pudesse passar a noite ou algumas semanas, dependendo das circunstâncias. Um dos lugares mais marcantes para mim foi a estadia no albergue de peregrinos de Grañón, um pequenino povoado distante poucos quilômetros de Santo Domingo de la Calzada, delimitando a províncias de Burgos e de La Rioja, terra dos bons vinhos.





Mas não pretendo escrever sobre Grañón, nem sobre a minha viagem daquele ano, que foi sem dúvida a que mais me transformou e é a que guardo com mais carinho e saudades. Apenas trouxe esse fato à lembrança para justificar o motivo que me leva a postar o poema que você lerá logo abaixo. Pois bem, estive mexendo com alguns papéis hoje e abri uma pasta onde guardo toda a papelada que carreguei comigo daquela viagem de seis meses pela Espanha. Há exatos nove anos eu me encontrava em Grañón, onde passei a Páscoa mais cristã de toda a minha vida, um acontecimento que um dia, quem sabe, irei escrever aqui no Odepórica.

Havia naquele albergue um quadro de avisos, daqueles com moldura de madeira e corpo de cortiça, que você já deve ter visto pendurado em algum lugar; nele, os peregrinos deixavam recados, escreviam passagens de textos bíblicos, anexavam desenhos, fotos, letras de canções (coisa que caminhante brasileiro adora fazer), receitas, piadas e, claro, poesias, como não?


O que eu achava muito especial, eu roubava na cara dura, sem remorso. Tenho esse defeito, mas só às vezes, de tomar para mim aquilo que (acredito piamente) mais ninguém saberá dar valor. Já sei que é errado, nem precisa me dizer o quanto, mas ninguém é mesmo perfeito. Bom, daí que, num desses afanos, trouxe um poema, xerocado, que achei lindo demais no momento em que o li e hoje, ao relê-lo, continuei achando-o belo e profundo. Por isso me deu vontade de transcrevê-lo aqui no blog, porque para mim sua leitura me traz conforto, paz e alegria, sentimentos bons de cultivar em época de Tempo Pascal. OM IACOBUS OM.




Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.


Tanto quanto possível sem humilhar-se, mantenha-se em harmonia com todos que o cercam.


Fale a sua verdade, clara e mansamente.


Escute a verdade dos outros, pois eles também têm a sua própria história.


Evite as pessoas agitadas e agressivas: elas afligem o nosso espírito.


Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você: isso o tornaria superficial e amargo.


Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar.


Mantenha o interesse no seu trabalho, por mais humilde que seja,ele é um verdadeiro tesouro na continua mudança dos tempos.


Seja prudente em tudo o que fizer, porque o mundo está cheio de armadilhas. Mas não fique cego para o bem que sempre existe.


Em toda parte, a vida está cheia de heroísmo. Seja você mesmo.


Sobretudo, não simule afeição e não transforme o amor numa brincadeira, pois, no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva.


Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.


Cultive a força do espírito e você estará preparado para enfrentar as surpresas da sorte adversa.


Não se desespere com perigos imaginários: muitos temores têm sua origem no cansaço e na solidão.


Ao lado de uma sadia disciplina conserve, para consigo mesmo, uma imensa bondade.


Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber, a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.


Procure, pois, estar em paz com Deus, seja qual for o nome que você lhe der.


No meio do seu trabalho e nas aspirações, na fatigante jornada pela vida, conserve, no mais profundo do seu ser, a harmonia e a paz.


Acima de toda mesquinhez, falsidade e desengano, o mundo ainda é bonito.Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz e partilhe com os outros a sua felicidade".

DESIDERATA - Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração.
Este texto foi encontrado na velha Igreja de Saint Paul, Baltimore. Foi citado no livro "Mensagens do Sanctum Celestial", do Fr. Raymond Bernard. O texto é de Max Ehrmannn e foi registrado pela primeira vez em 1927.


Versão do texto em inglês, em quadrinhos.





sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Viagens sonoras e poema de Mirna Grzich: Seja qual for o seu caminho

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Ultimamente tenho gasto algum tempo em casa separando meus cds e passando o material que acho mais interessante para o computador, transformando tudo em mp3 e depois gravando em pen-drives, por gênero. Ainda estou na coletânea new age/world music e você nem tem ideia de como tenho coisa boa guardada ali: desde a coleção completa do Dead Can Dance, meu xodó, até álbuns singulares de bandas e músicos extraordinários que me acompanham desde a época do vinil e das fitas K7.




Então pego o disco do HISHAM, Somewhere in a dream, e não consigo deixar nenhuma canção de fora, como poderia? É tudo tão bom naquele álbum, deserto transformado em música... a mesma coisa se passa com aquele clássico da space music, Aeterna, de CONSTANCE DEMBY. Já ouviu? Pois ouça, é o mais perto do que você conseguirá chegar de uma viagem astral, e sem ajuda de qualquer substância ilícita, pode acreditar.




Nessa linha meio espacial tem o
KITARO, claro. Bastam três acordes e você já sabe que é a música do japa que está tocando. Eu gosto dele, fiz muita meditação ouvindo seus trabalhos, mas no fundo o acho meio repetitivo, creio que falta um pouco o elemento surpresa, então o resultado acaba sendo meio previsível. Ainda assim, um clássico e obrigatório na coleção dos viajantes sonoros, pelo menos esses quatro álbuns: Silk Road, Mandala, Tenku e Dream.

E como o Japão me remete ao Zen, quando quero viajar nessa onda peço auxílio prá quem domina a arte com excelência: YÔICHI OKADA. O som desse flautista é arrebatador. Gravou uma trilogia intitulada Flauta Zen, com peças autênticas de música zen compostas e transmitidas por monges japoneses em diversos templos e mosteiros budistas.




A prática da meditação tocando e ouvindo o shakuhachi, uma flauta de origem chinesa feita de bambu, começou por volta do século XII e era chamada de Sui Zen, o “zen do sopro”. Seu objetivo era conseguir a experiência da iluminação através da flauta, ou “tornar-se Buda em um som”. Tocar o shakuhachi era uma forma de meditação nos templos Fuke (período Edo, 1614), de modo que a flauta não era considerada simplesmente um instrumento musical, mas uma ferramenta religiosa. Tudo isso quem pesquisou foi o Francisco Casaverde, e copiei tudo lá do encarte do vol III da coleção.



Se achar em algum lugar (comprei os meus aqui mesmo, numa livraria), não hesite: leve, senão todos, pelo menos um dos três cds do Yôichi Okada. Palmas prá ele que ele merece, como diria o grande Leminski.



E um viva! - que vai para um brasileiro que parece até que nasceu no lugar errado: HELDER ARAÚJO. Tem nome de mórmon mas seu lance é com a Índia, dedilhando uma cítara mágica que faz os cabelinhos do braço arrepiar. E põe a gente prá viajar instantaneamente, seja em que ásana for. Um incensinho ajuda a criar o clima, é claro, e depois é só se deixar levar, ir embora, voltar... uma sensação única. Dele só conheço duas obras, ambas estupendas: Atmãnam e Samãdhi.



Nessa praia tem também o
ALBERTO MARSICANO, um outro brasileiro que domina a cítara e, em minha opinião, faz um trabalho muito mais bonito do que o do Ravi Shankar (de quem é discípulo), que já tocava com os alternativos lá nos perdidos anos 60, você sabe. Os discos mais legais do Marsicano: Benares e Impressionismos – neste último a magnífica faixa Gymnopédie nbr 1, de Erik Satie, que por acaso é a música que abria aqui em Sampa o programa Música da Nova Era, com a Mirna Grzich, de quem logo vamos falar, calminho aí.



Continuando com os brazucas: há dois discos que você iria ficar muito feliz de poder ouvir: Essencial (lançado também como Tai-Chi - Gestos de Equilíbrio) e O Taoísmo (foto acima), da
PRISCILLA ERMEL. Na capa do Essencial a bonita compositora e multinstrumentista aparece dedilhando uma cítara. Sei não, acho que brasileiro tem um lance com essa tal de cítara. E não é que a mistura combina? Dá prá juntar cítara com berimbau? Dá sim, e só ouvindo prá saber como fica bom, feito arroz e feijão. Aliás, arroz e lentilha, que é prá dar o crédito aos amigos da terra de Ganesha. Jaya!




Também curto muito a sonoridade meio fake da música celta irlandesa. Por mim, tudo bem, mas andei lendo que os puristas torcem o nariz para esse gênero, mas o que sabem eles, né? Acho a
LOREENA um arraso, já até escrevi sobre ela aqui no Odepórica. Depois daquele post, ela lançou o excelente The wind that shakes the barley, tão bom quanto seus trabalhos anteriores.

Da
ENYA não gosto, porque enjoei, mas na época valeu, abriu caminhos, trouxe novas sonoridades, mas pena, parou no tempo e se apegou demais ao som chatinho dos sintetizadores, que só devem estar ali, na música, como acompanhamento e não como prato principal, viu Enya?




E não é que dessa onda celta veio uma leva de cantoras irlandesas? Prá mim, todas bacanas e quando o preço não assusta, vou lá e compro. E tem as bandas, que são bem melhores que as mulheres de vozes angelicais;
CHIEFTAINS, eu adoro, e assim como a Lorenna, também já estiveram postados aqui; o CLANNAD (foto acima) é outra banda irlandesa que faz boa música celta, às vezes cai mais no pop, mas mesmo assim são bárbaros. E são todos parentes diretos da Enya, ou seja, a música está no sangue do clã mesmo.




Tem também a música celta galega, que dela não posso deixar de falar. Entre os que mais me comovem, dois grupos: MILLADOIRO e LUAR NA LUBRE, que até já andou dando canja por aqui há um par de anos. O
Milladoiro faz um som incrível, unindo o folclore galego com a rica sonoridade celta, cheia de traços escoceses; um álbum, pelo menos, deveria fazer parte da discoteca de todo e qualquer bom amante de música clássica: Iacobus Magnus.





Esse disco instrumental, gravado nos estúdios de Abbey Road de Londres em 1993 é verdadeiramente, e em essência, uma viagem musical pelo Caminho de Santiago (daí o Iacobus do título). A faixa que abre o álbum, Pórtico (referência ao Pórtico da Glória, obra prima de Mestre Mateo na Catedral de Santiago) é para ouvir dez milhões de vezes, assim como Onde vai aquel romeiro?. E o resto do disco também.




Envoltos em um ambiente misterioso, os músicos do Milladoiro, de origem folk, tocam junto com a pomposa The English Chamber Orchestra, numa mistura admiravelmente equilibrada e fascinante. O encarte, que está escrito em galego, traz um texto cheio de mensagens cifradas e numa passagem se lê assim: “Para nós, Milladoiro, Iacobus Magnus implicou por transitar por um caminho convertido em longo pentagrama que se ofereceu em silêncio para empreender uma viagem entre o labirinto das cinco linhas com as suas chaves e mistérios incluídos.” Sei lá o que eles quiseram dizer com isso, mas esses galegos são sempre cheios de atitude.




Os do
LUAR NA LUBRE não são assim tão esotéricos, e a música deles é melodiosa, meio triste, com aquela melancolia charmosa tão presente na música irlandesa. O melhor disco da turma, ainda com a abençoada voz de Rosa Cedrón (que já saiu da banda) é sem dúvida o Cabo do Mundo. Lindo é um adjetivo que não chega nem perto prá qualificar esse álbum. É sublime. Duas canções que se você conseguir baixar por aí vão te deixar muito bem impressionado/a: Chove em Santiago e Romeiro ao Lonxe, versão galega para a clássica Scarborough Fair, sempre regravada por todo mundo mundo afora.





E prá terminar com os celtas, tem que ouvir alguma coisa do BILL DOUGLAS, viu? Um must, instrumental quase sempre, com coro dos anjos do céu de vez em quando, ele arrasa. Basta um, do Bill: Circle of Moons, com o “hit” new age Heaven in a Wild flower, cuja letra vem de uma poesia de William Blake que diz o seguinte:

To see a world in a grain of sand,
And Heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.



Lindo mesmo. Algo bem mais simples, celta também, só que com uma pegada barroca, acústico, é o trabalho do GREG JOY, que toca violão que é uma beleza. Um folk celta, tem dois discos que merecem o investimento e já foram lançados aqui: Celtic Secrets I e II. Além do violão do Greg, tem o som das flautas, dos tinwhistles, de viola... coisa boa de verdade, bom prá ouvir com amigos, para celebrar a vida.



E os americanos, que adoram inventar moda como ninguém, criaram uma sub-categoria dentro da vasta categoria new age chamada
Fairy Music, que é, o nome já diz, a música inspirada pelos elementais da natureza, as fadas, os elfos, salamandras, ondinas e quem mais chegar. Não é coisa de criança não, mas elas bem que gostam dessa sonoridade, tem que ver. Um dos nomes mais aclamados nesse estilo surreal é GARY STADLER e ele merece a fama que tem.




O álbum Fairy of the woods é um arraso, principalmente porque conta com a participação de
SINGH KAUR, já falecida, cujo trabalho com KIM ROBERTSON (Crimson Collection) ganhou, merecidamente, a aura de clássico dos clássicos da new age dos anos oitenta e noventa (na vertente mantra music). Outros títulos que fazem a cabeça dos brothers elfos e das sisters elfas são Fairy Nightsongs e Fairy Heart Magic.




Mais bacana ainda é o som de uma banda que desde que comprei o cd nunca mais parei de ouvir. Um feitiço, portanto cuidado antes de se aventurar no universo de WOODLAND. Também levam esse lance de fadas a sério (assista aos vídeos no youtube). Música que embriaga, o primeiro trabalho deles intitula-se Twilight (2003, nada a ver com o filme homônimo boboca) e é de se ouvir ajoelhado levantando as mãos aos céus. Kelly Miller-Lopez (foto abaixo) é dona de uma voz doce e suave e como se isso não bastasse, ela ainda arrasa na harpa, no whistle e nas flautas nativas. Que beleza, não?



Tudo é magnífico no Woodland: as letras são inspiradíssimas, o encarte do álbum é um arraso e, o mais importante, os músicos da banda são de primeiríssima linha, com harpas, violinos, flautas, piano e percussão sintonizados numa energia avassaladora. Tente baixar a canção que abre o disco, I Remember. E tome cuidado que vicia.




Outras sonoridades nota mil: Paul Horn, Steven Halpern, Gandalf, Mike Oldfield, Kamal, Peter Kater, David Darling, Deuter, Carlos Nakai, Medwyn Goodall, Andreas Vollenweider, Vangelis, George Winston, Steve Roach, Tangerine Dream, Ray Lynch, Robert Gass and On Wings of Song, Oliver Shanti (baixe a música Sacral Nirvana, do álbum Tai Chi too e seja feliz para sempre)... todos eles mestres absolutos, e cada um mereceria um post, só que preciso de mais tempo para isso. Poquito a poco vamos enveredando por essas e outras trilhas sonoras.





E eu nem falei dos meus queridos álbuns de mantras, que não são poucos e são muito bons, assim como a minha coleção de música antiga (Early Music), contemplando o período medieval e renascentista com peças que atiçam os cantos mais escondidos da sua alma.

Quanta viagem! Quantos caminhos! A música cumpre bem esse papel, leva a gente para os lugares mais inacessíveis do planeta, para outras dimensões até.



E tudo isso que acabei de escrever devo à bendita MIRNA GRZICH, essa mulher de boa fé e linda voz, que durante muitos anos dividiu seus conhecimentos com uma legião de fãs em seu extinto programa Nova Era, que a Rádio Eldorado levava ao ar nas noites de domingo. Já escrevi sobre isso aqui no blog, se você não leu, leia, que há um link no final do post que te dá uma ideia da egrégora fantástica que rolava naquelas gravações do programa.

A Mirna não tem mais programa de rádio, o que é uma pena. Mas descobri no youtube um canal bacaníssimo onde ela dispôs muitas gravações, de coletâneas variadas em que andou participando nas últimas décadas. A Mirna escreve, se amarra nessa parada de anjos e quem a ouve entende: ela mesma parece ser um. Será?




E já que temos que por um ponto final nessa postagem, que o façamos com estilo, transcrevendo um texto da Mirna que eu classificaria como um “poema espiritual”. O título (clique nele para ouvir a própria autora lendo) é “
Seja qual for o seu caminho”. Namastê!


Seja qual for o seu caminho, seja você mesmo.
Seja qual for o seu caminho, seja generoso.
Seja qual for o seu caminho, seja justo.
Seja qual for o seu caminho, seja impecável.
Seja qual for o seu caminho, seja verdadeiro consigo mesmo.
Seja qual for o seu caminho, seja amoroso.
Seja qual for o seu caminho, seja Mestre de si mesmo.
Seja qual for o seu caminho, seja alerta sobre as suas emoções.
Seja qual for o seu caminho, saiba que a vida é um sonho.
Seja qual for o seu caminho, seja não domesticável.
Seja qual for o seu caminho, seja livre.
Seja qual for o seu caminho, tenha compaixão.
Seja qual for o seu caminho, seja responsável.

Visite e delicie-se: Canal de Mirna Grzich no Youtube. Basta clicar
bem aqui.