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Na
pegada dos peregrinos
Entre os viajantes mais assíduos, certamente, os
peregrinos que, vestidos de túnicas rudes e mantos e “armados” com bastões (um
simples bastão nodoso), se dirigiam de toda parte da Cristandade rumo às tumbas
dos santos e dos mártires, mas também aos chamados “lugares santos”.
Os destinos preferidos, naturalmente, eram a Terra Santa
– onde se visitavam as basílicas do Santo Sepulcro e do Calvário, de Belém e do
Monte das Oliveiras – e Roma – onde eram veneradas as tumbas dos apóstolos
Pedro e Paulo. Com o tempo, porém, surgiram em toda parte, do Mediterrâneo ao
coração do continente, igrejas e catedrais que atraíam multidões de devotos.
Entre os santuários mais visitados estavam Santiago de
Compostela na Espanha, São Martinho de Tours e a Catedral de Colônia, sede,
desde a segunda metade do século XII, dos espólios dos Reis Magos, retirados da
Basílica de Santo Eustórgio, em Milão, por ordem do Imperador Frederico
Barbarossa, após terminar vitoriosamente o assédio de Milão.
Para ligar entre si todas essas localidades tão distantes
havia estradas nem sempre de fácil utilização, longuíssimas, pouco frequentadas
e cheias de perigos. A mais célebre, sem dúvida, é a Via Francígena que,
partindo da França, chegava até Roma atravessando as árduas cordilheiras
apenínicas.
A estrada era trafegadíssima e muito servida: foi
calculado que, apenas na parte toscana, a média era de uma hospedaria a cada
cinco quilômetros. Muitas vezes eram os próprios romeiros (romei, de Roma) que construíam estradas e pontes e, com seus
deslocamentos, faziam a interação entre culturas e povos diversos.
Além do Caminho de Santiago e da Via Francígena, havia
outros itinerários que ligavam igrejas e lugares de culto diferentes por
características particulares. Uma “ramificação” da Francígena – a assim chamada
“Via dos Abades” até agora pouco documentada historicamente – unia Pavia a Roma
passando pelo Mosteiro de Bobbio, fundado em Val Trebbia em 614 pelo abade irlandês
Columbano em um terreno recebido do casal real lombardo Agilulfo e Teodolinda.
Exatamente Bobbio e o Piacentino em geral se tornaram
destinos obrigatórios para monges e peregrinos provenientes da Irlanda:
contando com a hospedaria vizinha à Igreja de Santa Brígida em Placência –
construída já em torno do ano de 861 – iam à abadia para rezar sobre o túmulo
de São Columbano e depois prosseguiam passando por Pontremoli, a caminho da
Cidade Eterna.
Muito popular era também o itinerário que ligava os
principais santuários dedicados a São Miguel Arcanjo, cujo culto havia se
difundido muito na Alta Idade Média, graças sobretudo às populações de origem
germânica como os godos e os lombardos: partindo de Mont Saint-Michel na Baixa
Normandia (onde no começo do séc. VIII foi construído um famosíssimo santuário
ainda hoje destino de turistas de todas as partes do mundo), o percurso
transpunha os Alpes, alcançava a Abadia de Saint-Michel no Val de Susa e
depois, passando por muitos lugares ermos, cavernas e igrejas rupestres,
chegava até o grande santuário em Gargano.
Considerada lugar de encontro e de passagem para embarcar
para a Terra Santa, Veneza muitas vezes é ignorada como destino de
peregrinação. Mas a cidade, tanto dentro quanto um pouco fora (Marghera,
Mestre, Caorle, Chioggia...), contava com muitas hospedarias para acolhimento
não só daqueles que se preparavam para partir rumo ao Oriente, como também de
quem queria ver as inúmeras relíquias guardadas em suas igrejas.
Um testemunho precioso a esse propósito é o de certo
Leonardo Frescobaldi, que no seu relato de viagem escrito em 1394 conta:
Encontramos em Veneza muitos peregrinos franceses e
venezianos e nos fizeram muitas homenagens [...]. Fomos visitar a Igreja da
Virgem Santa Luzia, onde está exposto seu santíssimo corpo. No Mosteiro de São
Zacarias, pai de São João Batista, em um altar belíssimo, estão expostas muitas
relíquias, e ainda o corpo do dito São Zacarias, o de São Jorge e o de São
Teodoro mártir. Na Igreja de São Jorge fora de Veneza vimos seu braço e o corpo
de São Paulo, e a cabeça de Santa Felicidade. Na Igreja de São Cristóvão vimos
o santíssimo corpo e também um joelho, que é um milagre ver. Na Igreja de Santa
Helena, mãe do Imperador Constantino fora de Veneza, vimos seu corpo inteiro e
vimos ali um grande pedaço do lenho da Santa Cruz e um dedo de Constantino. Na
Igreja de São Donato em Murano fora de Veneza, vimos na igreja uma arca enorme
de pedra contendo cento e noventa e oito crianças, isto é, inocentes inteiros,
ou seja, aqueles que Herodes mandou matar por Cristo e se via neles todos os
golpes dos ferimentos, dizem que costumavam ser duzentas, mas, quando o rei da
Hungria fez a paz com os venezianos, foram-lhe dadas duas dessas crianças.
O Vêneto inteiro estava no centro dos deslocamentos de
peregrinos que chegavam através da Via Alemanha e da Via Ongaresca,
respectivamente da área alemã e da eslava. E quem provinha daquelas nações, às
vezes parava para ajudar a sistematizar as coisas para os próprios
conterrâneos. Assim, por exemplo, em Treviso, havia oito hospedarias geridas
por alemães.
Fugindo
do (próprio) mundo
Para fazer uma peregrinação eram necessários meses ou
mesmo anos de caminhadas a pé ou no lombo de uma mula, em condições de
segurança precária e contando com a hospitalidade de mosteiros ou de algum
proprietário provado sensível.
Por sorte, podiam-se contar com alguma ajuda, como o Guia do peregrino compilado no século
XII, que fornecia preciosas sugestões a quem decidia empreender tal viagem e
sobretudo defendia a sacralidade do hóspede.
“Pobre ou rico, deve ser por todos recebido com caridade
e cercado de veneração. Pois quem quer que o receba e procure diligentemente
dar-lhe hospedagem, terá como hóspede não apenas São Tiago, mas o Senhor em
pessoa, Ele que disse no Evangelho: ‘Quem acolhe um de vós, a mim acolhe’”.
Quem eram os peregrinos? Homens, com certeza, mas também
mulheres, velhos e crianças, sãos e doentes que se encaminhavam para fazer um
voto, para pedir perdão, para expiar algum pecado, para obter uma cura,
procurar relíquias de santos, mas também (coisa bem menos edificante!) para...
escapar dos próprios deveres. Havia até quem fizesse a viagem em nome de alguém
impossibilitado de fazê-lo: ser peregrino, nesses casos, equivalia a um
verdadeiro “trabalho”, muito bem remunerado.
Um extraordinário e precoce perfil das dificuldades e
aventuras que faziam parte de uma peregrinação consta no célebre Itinerarium Egeriae (ou Peregrinatio
Aetheriae, em uma variação do nome), relato de viagem aos lugares santos
realizada, no final do século IV, por uma mulher chamada Egéria.
Da obra, descoberta em Arezzo no ano de 1884 em um códice
manuscrito, resta, infelizmente, apenas a parte central: o resto perdeu-se. A
excepcionalidade do achado, mais do que pela narrativa em si, reside na sua datação
e no fato de ter sido escrito por uma mulher, muito provavelmente originária da
costa atlântica da Espanha ou da Gália, dotada de discreta cultura e de
conspícuos meios econômicos.
A viagem, de fato, dura quatro anos (a datação geralmente
aceita é o período entre 381 e 384), durante o qual a autora, embebida de
autêntico espírito cristão, faz anotações – a que dará forma definitiva apenas
depois de retornar a seu país – que se revelam uma fonte preciosa para conhecer
edificações, instituições e aspectos da liturgia daquela época.
Outro relato interessante, dentro da infinita literatura
sobre o tema, é o Libro d’Oltramare do franciscano Nicolau de Poggibonsi, que
viveu no século XIV. O texto narra a aventurosa peregrinação realizada nos anos
1345-1350 de Veneza à Terra Santa e é riquíssimo de preciosas anotações, entre
as quais a informação de que a casa de Maria, em Nazaré– ainda existente no ano
1289 -, tinha sido destruída e reduzida a pouco mais do que uma gruta.
A viagem, que durou cerca de cinco anos, levou-o a
visitar a Palestina, Damasco, o Egito, a Península do Sinai, Chipre. Dali
tentou retornar à sua pátria, mas a navegação, cheia de dificuldades, durou
mais de quatro meses, durante os quais chegou a ser sequestrado por piratas.
Tendo conseguido fugir, chegou em Veneza no fim de 1349, e, após uma estadia de
alguns meses em Ferrara, pôde rever sua casa.
Mais tardio, mas não menos rico em detalhes- sobretudo no
que diz respeito ais aspectos gastronômicos: descreve, de fato, as iguarias que
lhe foram servidas durante a viagem -, o diário do milanês Pedro Casola
(1427-1507) conta a viagem realizada em 1494 também à Terra Santa, a Jerusalém.
De caráter mais místico, porém, o relato da viagem a
Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela do inglês Margery Kempe (1373 c.- post 1438), em que a narrativa é
intercalada pelas orações e pelas “conversas” que teve com Cristo por mais de
quarenta anos.
Mas a peregrinação não era uma prerrogativa apenas
cristã: prevista como forma de devoção por quase todas as religiões, era um
dever preciso de todo muçulmano, que devia ir, ao menos uma vez na vida, a
Meca, a cidade santa do Islã.
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Fonte: capítulo 4 da obra A Vida Secreta da Idade Média. Elena Percivaldi. Editora Vozes. Petrópolis, 2018.

























































