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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Viagens sonoras: os mantras de Krishna Das

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Foi em um curso sobre orientalismo, ministrado pelo professor Wagner Borges no comecinho dos anos 1990, que ouvi pela primeira vez um mantra. Ouvimos vários, por sinal, já que faziam parte da prática do curso. Enquanto muitos dos participantes relatavam suas visões espirituais, narrando tudo o que haviam visto com seus terceiros olhos bem calibrados, eu ficava lá no meu cantinho no fundo da sala, um impotente psíquico que achava aquilo tudo uma piração. Tendo o terceiro olho míope, tive que apelar para outras habilidades extra-sensoriais. Foi aí que senti, pela primeira vez, a presença pulsante dos chakras e como usar as ferramentas necessárias para trabalhar com esses fantásticos centros de energia. A música, no caso os mantras, foram essas ferramentas, muletas providenciais que auxiliam o aspirante espiritual a percorrer sua jornada rumo à autorealização.



Tudo bem se você não acredita nisso, não tem importância alguma. Também não vou ficar escrevendo sobre isso num blog sobre literatura de viagem, mas comecei assim essa postagem para dizer de onde surgiu minha paixão pelos mantras. O Wagner, que é um cara muito bacana, sempre buscou dividir as coisas boas que caíam em suas mãos; apaixonado pelo Tangerine Dream, gravava fitas k7 com algumas faixas mais “viajantes” desse grupo de rock progressivo para o povo que freqüentava suas palestras usar como música de fundo para práticas meditativas e de visualização.

Numa das aulas, na fase 1 do curso de orientalismo, se a memória não me trai, ele apertou o play do gravador e a turma vibrou com o que ouviu: faixas de mantras arrebatadores, das canções de Robert Gass e On Wings of Song (lembro-me bem da faixa tocada: Hara Hara Gurudeva, linda) ao som etéreo de Singh Kaur e Kim Robertson (harpista) com seus clássicos volumes da série Crimson Collection... e tinha um cara com uma voz grave, profunda, cheia de poder, sem brincadeira, um canadense chamado Patrick Bernard, difícil de encontrar por aqui, que cantava uma música que me dava medo de ouvir no escuro do quarto, um som invocativo, precisa ouvir prá sacar o lance do cara.



Com o tempo fui deixando de ir às palestras, mas nunca deixei de buscar a boa música que conheci através do Wagner e dos programas da Mirna Grzich. Não consigo conceber a vida sem uma boa trilha sonora, você consegue? E aqui vou puxar o gancho para o que me trouxe à frente dessa tela de computador; enquanto lá fora o povo pula o carnaval ao som do samba, eu me isolo aqui e ouço ad infinitum, nesse feriado pagão, o novo álbum de estúdio do Krishna Das. Um dos melhores de toda a sua carreira, na minha modesta opinião, intitulado Heart as Wide as the World, “um coração tão grande quanto o mundo”, traduzindo.

O disco me empolgou muito, tanto que resolvi comprar a biografia do Krishna Das, “Cantar para viver: minha busca por um coração de ouro” (no original, Chants for a Lifetime: Searching for a heart of gold). Se a sua cultura pop for boa, já deve ter sacado que o subtítulo faz referência a uma canção genial do mestre Neil Young, Heart of Gold, lindíssima e que começa assim: “I wanna live, I wanna give, I’ve been a miner for a heart of gold…” (Eu quero viver/ Eu quero doar/ Eu tenho cavado em busca de um coração de ouro...). (ouça clicando nesse link do
You Tube)

Essa referência rock’n roll tem a ver com a história de vida do Mr Das, nascido Jeffrey Kagel em 1947, nos Estados Unidos, filho de pais judeus. Diz ele que seu sonho quando jovem era o de tentar a carreira na música, de modo que aprendeu a tocar violão, imitando seus ídolos do blues e do folk. Nesse ponto não foi muito longe, mas em compensação o futuro lhe reservava muitas aventuras mundo afora – sendo a música, coisa boa, a mola propulsora de tudo o que viria a lhe acontecer.



Na época dos estudos universitários, super bicho-grilo, conheceu um conterrâneo que voltou transformado da Índia, como muitos malucos na segunda metade dos anos 60, mais velho que ele e que se tornou muito popular depois disso, Ram Dass seu nome iogue. Uma boa influência na vida do jovem Jeffrey, que não sossegou o facho enquanto não foi ele mesmo direto à fonte de todo aquele amor bhaktiniano.




Na primeira de suas inúmeras viagens ao subcontinente indiano, Krishna Dass (KD) esteve ao lado de seu guru por quase três anos. É de impressionar a relação guru-discípulo tal como relatada na biografia de KD; difícil, dificílimo de entender para um ocidental, mais ainda se este for um ser mais racional do que emocional. Questão de fé, entrega total, amor na mais alta expressão que um ser humano pode sentir por outro. Tipo de coisa que só se entende, provavelmente, se vivida na própria carne.

Eu estive na Índia há alguns anos e não cheguei nem perto de algum tipo de experiência numinosa, embora no fundo de minha alma achasse que numa esquina qualquer um velhinho encardido e iluminado fosse apontar para mim e dizer: venha! Que nada, a única vez em que alguém apontou para mim foi para rir da minha cara de ocidental perdido e atrapalhado no meio da multidão sem fim daquele país absurdo e frenético.

E não posso negar que daquela viagem nunca senti saudades, como senti de outros lugares que visitei na vida. Mas o tempo tem uma sabedoria só dele e a distância dos fatos faz com que enxerguemos muitas coisas de um ângulo diferente e, muitas vezes, surpreendente.

Hoje tenho guardado com carinho muitas cenas daquela viagem, e uma delas tem a ver com os mantras. Eu e meu amigo e companheiro de boas aventuras e perrengues, o Clélcio, fomos para o sul do país, numa cidadezinha chamada Puttaparthi, famosa sobretudo por abrigar o ashram (monastério) de um famoso guru, Sai Baba, falecido no ano passado.




Não éramos devotos, de modo que ficamos hospedados num hotelzinho do lado de fora do eremitério e participávamos de algumas poucas atividades, bem poucas por sinal; a multidão de pessoas presentes no ashram era algo assustador, nunca poderíamos imaginar. Participamos de dois ou três darshans, que é algo como ser abençoado somente por estar junto a um ser iluminado, um mahatma, caso de Sai Baba.

Não me senti melhor nem pior por estar perto do guru (bem, por perto entenda uns trezentos metros de distância e umas cinco mil cabeças à frente da sua...). Bem que tentei, meditei, aprumei a coluna, padmasanei, pranayamei, toda essa ioguice, mas nada. Ainda assim, àquela altura, tudo valia a pena.



Mas eis que, no finalzinho de nossa estadia, resolvemos um dia madrugar e saímos por volta das cinco horas da manhã do hotel, para participar de um puja, um ritual de louvor/oferenda, no eremitério. Foi aí que senti, provavelmente, o único momento de verdadeira paz espiritual na Índia. De um lado, homens, de outro, mulheres, todos vestindo branco, uma coisa linda; sentamo-nos no chão, guardando silêncio, cada um na sua e eu na minha, ainda sonolento.

Um som, que a princípio parecia um zumbido abafado e contínuo, começou a ficar mais alto e claro conforme um grupo de devotos que caminhava por detrás de um alojamento se dirigia em nossa direção. Não me lembro se havia homens entre as pessoas, pois minha lembrança é a de ver muitas senhoras indianas, com saris brancos, passando por nós, que continuávamos sentados, entoando mantras e tocando pequeninos instrumentos de percussão (manjirá), algumas levando lamparinas que iluminavam aqueles rostos morenos tão cheios de compaixão.



Uma cena que a gente revive na memória até começar a achar que nunca existiu, já passou por isso? Tudo bonito demais, uma harmonia mandálica que só poderia existir na imaginação de alguém, mas que por um acaso aconteceu comigo na Índia, onde tudo é Maya, ilusão, então tudo bem, somos todos um, let it flow, let it flow...

Deixando essas divagações de lado, volto ao Krishna Das, afinal foi ele quem me inspirou a escrever sobre os mantras. Se você não conhece o moço, vou logo avisando: ele é muito bom no que faz, mas não tem, musicalmente falando, uma voz bonita. Também não é um músico talentoso, faz lá o seu arroz com feijão direitinho e não sai disso. Entretanto, ele tem algo que poucos músicos têm: um carisma extraordinário.



Esse último álbum dele, por exemplo. Impossível ouvir qualquer uma das sete faixas sem cantar junto com ele, coisa que, aliás, faz parte da dinâmica de cantar mantras, que é a repetição do canto puxado pelo condutor (kirtan wala) quando a prática é feita em grupo. É gostoso prá caramba, tem que ver. O lance sempre começa meio tímido, meio baixinho, e depois, da metade para o final, parece que todo mundo fica meio doidinho, mas uma doideira de paz e de alegria, sensação gostosa de yoga, que é união... loucura tem tudo a ver, tantos foram os homens e mulheres, santos e santas, chamados loucos de Deus, veja só o Ramakrishna, a Teresa de Ávila... todos loucos, doidinhos de prazer, queimados pelo fogo do amor.






Já estou eu viajando de novo. Voltando, pois. Disse que gostei demais desse trabalho do KD, e acho que é porque ele nunca me pareceu tão solto numa gravação como nessa. Duas canções me pegaram na primeira audição: a faixa Narayana/ For your love, é uma delas. Sensacional, ele começa mantrando Narayana e sem que você se dê conta, ele entra com o clássico dos Yardbirds, For your love, que você acha que não conhece mas conhece sim. A letra é linda, veja só.

For your love...
I’d give the moon if it were mine to give
I’d give the stars and the sun for I live
To fill you with delight
I’d bring you diamonds bright
Don´t you think it would be excite
If I could dream of you tonight
For your love…




Uau, lindo demais, é preciso ouvir!
Ouça e seja feliz, e depois vá para a faixa 6, Sitaram, e se sentir vontade, e há de sentir, dance e gire feito sufi rodopiante, curta o momento, encontre o seu eixo, aquiete a mente, cante mantra...





Foi dessa maneira que KD encontrou o seu caminho, o sentido para a sua vida, cantando, mas fez isso como uma proposta de vida. Bonita é a passagem, no prefácio de sua biografia, que retrata esse comprometimento dele com sua missão, veja só:

Depois de quase três anos vivendo na Índia, na presença do meu guru, Neem Karoli Baba, ele me pediu para voltar para os Estados Unidos. Sentado ali na frente dele, naquela que seria a última vez que eu o veria, fiquei petrificado.

Quando fui embora do meu país, eu tinha deixado tudo para trás, até os meus jeans. Imaginei que ficaria na Índia para sempre. Agora ele estava me mandando de volta. Para onde eu vou? O que vou fazer? Fiquei pensando essas coisas, em pânico. Eu não queria perguntar a ele o que eu devia fazer quando voltasse, mas de repente soltei, angustiado: “Maharaj-ji! Como posso servira você nos Estados Unidos?”

Maharaj-ji olhou para mim, com desgosto fingido no rosto, e disse: “O quê? Se está perguntando como deve servir, então não serve. Faça o que você quiser”.

Com isso, minha mente entrou em turbilhão. Maharaj-ji deu risada e disse: “Então, como você vai me servir?” Minha cabeça estava vazia. Tinha chegado a hora de ir embora. Eu me levantei e atravessei o pátio. Olhei mais uma vez para ele, de longe, e me curvei. Ao fazer isso, ouvi a minha própria voz, vinda das profundezas do meu coração, dizendo: “Vou cantar para você nos Estados Unidos.”



Foi depois de ler essa passagem acima que resolvi comprar o livro do Krishna Das, porque percebi que não se tratava apenas da biografia de um cantor de mantras que eu admiro, mas sim da história da vida de uma pessoa que praticou aquilo que o satguru Joseph Campbell resumiu como o maior compromisso que alguém pode – e deve - assumir na vida: Follow your Bliss, siga a sua felicidade, corra atrás de sua benção.



Não pense que a vida de KD foi uma mar de lótus, que não foi. Para chegar onde queria, teve que enfrentar muitos obstáculos (depressão, drogas) e muitas dúvidas, você pode imaginar, na senda espiritual. Tudo isso faz parte da jornada do herói, continuando com a associação que fiz acima com o Campbell. Em um nível de compreensão mais amplo, o que se pode perceber hoje é que a postura adotada por Krishna Das, mantendo-se fiel à sua benção, não só foi bom para ele, mas também inspirou, continua inspirando, muitas pessoas que entram em contato com ele através de seu trabalho, que é a sua música. Cantando para o seu guru, Maharaj-ji, ele canta para todos nós, e sua felicidade, ou sua benção, é capaz de contagiar a quem dela se aproxima.




Cantar mantras me mantém aprumado. Faz com que eu retorne para aquele lugar interior profundo. Não faz diferença o número de pessoas que vêm cantar comigo, é sempre a mesma coisa. A todo lugar que vou, a família comparece. Nós cantamos e nós ajudamos uns aos outros a encontrar aquele lugar lá dentro que parece certo.

Minha experiência preferida com Maharaj-ji era quando eu ficava do lado ou atrás dele e podia observar o rosto das pessoas que se sentavam na frente dele. Era fantástico presenciar o peso da vida delas se desfazer e se suavizar na alegria incrível que se experimentava com ele. Testas franzidas se transformavam em sorrisos e lágrimas, em riso. Era a coisa mais linda de ver. Ao viajar por todos os lados e cantar hoje, eu revivo essa experiência, noite após noite. Eu me sinto como se estivesse sentado ali mais uma vez, observando a força e a doçura do amor de Maharaj-ji levar embora a tristeza da vida das pessoas que vêm para cantar. É exatamente a mesma coisa. Eu observo enquanto ele faz tudo.

Nesses momentos de “sanidade temporária”, meu coração não consegue conter minha gratidão por ser capaz de fazer o que eu faço. Nos meus sonhos mais loucos, eu nunca seria capaz de imaginar para mim uma vida com tanta graça divina e tantas bênçãos. Meus olhos chovem uma enxurrada de lágrimas, e eu me vejo sentado na frente de Maharaj-ji mais uma vez, como eu fazia quando estava com ele fisicamente. Eu volto para casa.


Leia: Cantar para viver: minha busca por um coração de ouro. Krishna Das. Realejo Edições, 2011.


Na vitrola: Heart as Wide as the World. Krishna Das em sua melhor forma. Jai Ram!


Site oficial do KD:
krishnadas.com

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Nos caminhos da Glória, by Eleonor Munro

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A peregrinação é uma atividade universal antiqüíssima que tem uma atração psicológica muito profunda. Leva multidões de pessoas para margens de rios, picos de montanhas e santuários solitários do deserto.

Na peregrinação o tempo é medido pelo nascer do Sol e da Lua, pelo aparecimento das estrelas, pelo equinócio e solstício e pela chegada dos planetas nas respectivas posições. Numa definição mais ampla, até seria possível argumentar que sair em peregrinação é uma das poucas práticas humanas compartilhadas pelo mundo todo e começou junto com o anseio de evoluir que provocou a percepção autoconsciente da humanidade em relação ao mundo.

São com estas palavras que Eleonor Munro abre seu estudo sobre peregrinações, numa obra intitulada Nos Caminhos da Glória. Dividido em seis capítulos, o livro aborda algumas das principais rotas peregrinatórias do Ocidente e do Oriente, contemplando as seguintes localidades nessa ordem: Índia, Indonésia, Jerusalém, Grécia, Roma e Santiago de Compostela.

Formada em História da Arte, Eleonor buscou nesse estudo oferecer uma descrição da peregrinação nas principais religiões universais, exceção feita ao islamismo, por conta da dificuldade que alegou possuir em se dirigir à sagrada cidade muçulmana de Meca. Diz ela que “o livro é também uma visão especulativa; sugiro que existe um mito básico que proporciona uma montagem visual e as estruturas internas da peregrinação pelo mundo inteiro.”


Nada de novo nessa visão de Eleonor, no que diz respeito ao mito básico que permeia as mais variadas tradições religiosas mundo afora. Muitos estudiosos das religiões já escreveram sobre isso, entre eles Mircea Eliade, uma referência nesse campo, Victor Turner (em seu excelente e fundamental texto A imagem e a peregrinação na sociedade cristã) e Joseph Campbell, o grande mitólogo norte-americano que dispensa comentários. A autora valeu-se desses e de outros grandes estudiosos para criar o alicerce de sua obra e nesse sentido foi muito feliz, porque o resultado em termos mais acadêmicos foi bastante sólido.

Porém, algo ficou faltando no meio do caminho e já lhe digo o que é. Mrs. Munro começa bem a sua jornada; de forma literal, a escritora põe os pés na estrada, de modo que logo imaginamos que o livro vai ter aquela aprazível mistura de texto acadêmico com narrativa de viagem que combina feito pão e vinho. Mas isso só acontece primordialmente na primeira viagem da velha dama, quando ela se dirige à Índia.




Naquele país temos um relato vigoroso, cheio de observações e notas de viagem saborosas, onde a autora se mistura com os locais, interroga (via intérprete) os homens santos - sem vergonha e quase de maneira descarada - com perguntas sonsas do tipo: “Em que está pensando?”. Sorte a dela que o sâdhu era um homem educado, assim como o indiano que ela encontrou um dia em Nova Iorque, quando arriscou uma pergunta um pouco mais elaborada:
- Qual a melhor coisa a procurar na Índia?
Procure Shiva – respondeu o hindu.
- Onde?
- Em Benares.
- Em que parte de Benares?
- Onde procurar, vai achá-lo.





Se não é tão boa com as perguntas, pelo menos não faz feio quando se põe a refletir sobre aquilo que acontece ao seu redor; Eleonor sabe tirar proveito de suas leituras e sem dúvida é uma mulher inteligente e bastante curiosa em aprender coisas novas. Nesse aspecto, o leitor ganha muito com a leitura.

Na releitura que fiz da obra logo me veio à mente o que havia me desagradado na primeira vez: o distanciamento da Eleonor viajante, que cedeu lugar à Eleonor pesquisadora; depois da viagem para o subcontinente indiano, a participação da autora com o objeto de sua pesquisa torna-se muito distanciada, e o que prometia ser um relato apaixonante de uma pesquisa de campo acaba se transformando em um texto acadêmico sem emoção. O capítulo dedicado ao Caminho de Santiago, que me motivou a comprar o livro na época, é um desânimo só. Um desperdício, porque Eleonor tem muito jeito com as palavras.



Enfim, o que se pode fazer? Eu havia desistido de escrever sobre essa obra aqui no Odepórica porque achei que não conseguiria tirar algum material condizente com a temática das viagens, por conta do que acabei de escrever no parágrafo anterior.

Mas achei um gancho, que servirá, pelo menos, como um momento de reflexão àqueles que, como eu, se sentem atraídos pelas experiências deambulatórias alheias (e fará com que minha releitura, afinal, tenha valido a pena). Refiro-me a uma passagem onde a autora se encontra na Índia, terra abençoada por um milhão de deuses. E nessa imensidão de divindades, uma sempre haverá de causar impacto: a deusa Kali.



Kali, a deusa negra, deusa dançarina dos crematórios, é uma das divindades mais assustadoras do panteão hindu – e possivelmente a mais mal interpretada de todas elas (tal como acontece com Exu, poderoso orixá do Candomblé, injustamente demonizado pelas religiões cristãs).



Iconograficamente, Kali é representada como uma deusa negra (Maha-Kali, a Grande Negra), com uma protuberante língua vermelha saindo de uma boca arregaçada sedenta de sangue, com uma guirlanda de crânios adornando o pescoço e um cinto feito de mãos decepadas.





Na verdade, Kali é a personificação da Deusa Mãe e todas as outras deusas são manifestações dela: Devi, Durga, Parvati, Uma, Sati, Padma, etc. Algo semelhante acontece no catolicismo, com suas inumeráveis Santas Marias, todas elas representações de uma única Virgem ou Nossa Senhora. E puxando um gancho, a Mirella Faur, autora do interessante Anuário da Grande Mãe, diz em seu estudo sobre as deusas que Kali (Kalika, para ela) é cultuada atualmente como Sara Kali ou a Madona Negra. Prossegue: “Transformada pela Igreja em Santa Sara, ela continua sendo para os ciganos a Mãe de seu povo. Devido a sua cor escura, Sara Kali é considerada a precursora das Virgens Negras europeias.” Interessante, não?



Enquanto Krishna ou Ganesha, (o deus menino com cabeça de elefante) causam simpatia e alguma comoção entre os viajantes e turistas mal informados que viajam à Índia, Kali é aquela cuja presença causa arrepios nos desavisados; obviamente, não foi o que aconteceu com a Eleonor Munro, uma pesquisadora séria e muito culta. A pergunta, que muitos não hindus se fazem, é: qual o significado dessa representação que, à primeira vista – e isso não se pode negar – causa tanta estranheza aos que são de fora?



Essa resposta pode ser difícil até mesmo para um indiano, já tão acostumado com a presença da grande deusa em seus altares. É em parte, através da observação dos rituais, das oferendas e das manifestações de amor e de carinho dirigidas a Kali que o viajante ou turista poderá compreender que aquela imagem tem que ser compreendida amplamente dentro de um sistema simbólico religioso, sem o qual ela jamais poderá ser decifrada, lembrando que o padrão simbólico tem o propósito de orientar o iniciado em seu processo de busca interior, a famosa jornada - em termos psicológicos - rumo ao Self.





Acredito que qualquer pessoa, com um pouco de sensibilidade e um tanto de leitura prévia sobre os costumes e a cultura local de um povo, seja capaz de ultrapassar a barreira das aparências e entender, ainda que parcialmente, que existe algo que vai além da primeira impressão.

Lembro-me que em minha viagem à Índia, em 1997, visitei com um amigo uma igreja católica em uma cidade cujo nome não me recordo, e que num salão anexo ao templo havia um museu, um tanto decadente, com vários bonecos em tamanho natural representando cenas importantes da bíblia, cada passagem como que montada em pequenas celas no estilo vulgar dos parques de diversões comuns em cidades litorâneas e do interior, com suas capengas e divertidas casas assombradas.



Marcou-me muito o fato das crianças de um grupo escolar que nos acompanhou ao passeio rirem (sem faltar com o respeito) daquela encenação toda, afinal para elas tudo aquilo não fazia o menor sentido e quisera eu poder entender sua língua para saber o que diziam as gravações que explicavam aquelas cenas. Nunca saberei. Íamos caminhando e parávamos em frente a cada cela que se iluminava enquanto a anterior se apagava, e foi assim até a última parada, quando então apareceu-nos encenado o Cristo crucificado, quase tão coberto de sangue quanto a deusa Kali.



Sempre desejei saber o que se passou na cabeça daquelas crianças naquele exato momento, quando já não mais viam graça alguma na representação. Novamente, nunca saberei, mas algo me diz que a dramaticidade daquela cena passou longe do sentimento de amor e compaixão ao qual os cristãos associam a Cristo Jesus.





Guardando as devidas proporções, não estamos diante de dois fatos semelhantes? Pois para um hindu, cuja religião não se conecta com o cristianismo, um Jesus na cruz é tão aterrador quanto a face negra de Kali com sua grinalda de caveiras o é para um ocidental. Daí a importância de nunca julgarmos aquilo que não conhecemos ou não compreendemos bem, um preceito tão óbvio e ao mesmo tempo tão facilmente ignorado.

Para quem acha esse tema interessante e quiser se aprofundar mais, indico as obras de Heinrich Zimmer (1890-1943), famoso indólogo que publicou textos extraordinários sobre a arte e as tradições religiosas da Índia. Embora o tema me interesse em particular, continuar escrevendo sobre Kali e os aspectos simbólicos dentro da religiosidade hindu foge muito da temática deste blog, por isso, para fechar as nossas divagações, vamos ler a seguir a passagem que me levou a escrever isso tudo que você acabou de ler aqui. OM Sri Kalikaya Namaha!


Na qualidade de peregrina, cheguei em Kali-Durga no lugar que passo a descrever. No chão de um santuário escuro como breu, no meio de uma porção de lixo e estrume, vi uma pedra preta com olhos de prata colados; uma língua vermelha de tanto lamber sangue saía da pedra.

Alguém havia colocado flores e arroz diante da pedra.
- E isto? Que acha disto? – perguntei ao meu guia, que era muito cordial.
- Acho cheio de paz. Tranqüilo. Como uma cemitério. A gente descansa. Qualquer um pode ficar aqui como se estivesse morto.
Pensei comigo: enquanto eu não entendesse Kali como “paz”, não seria capaz de entender a Índia. Algum tempo depois fui ao templo de Calcutá onde o crânio de Sati caiu do céu.



Passamos por vários becos sem sol. Em algum lugar um cachorro uivou. De várias cabanas de bambu escurecidas pelo tempo surgiram várias pessoas de rosto escuro que foram olhar da porta. Em cima de um muro de pedra vimos uma indigente empoleirada nuns joelhos magros, jogando dados com um menino vestido de trapos vermelhos.

Dobramos a esquina e chegamos numa praça. Numa plataforma alta ficava o templo, apinhado de peregrinos. Havia muitos gongos soando. Subimos e ficamos com a multidão que se empurrava para o altar. Bandeiras vermelhas tremulavam. De repente, vi-me levada para a frente.




Tropecei na beira de uma pedra e olhei para baixo. Vi a chama de muitas lamparinas a óleo entre flores vermelhas. “Salve, Mãe do Mundo das Ilusões!” choravam os peregrinos que estavam atrás de mim e ao meu lado. Ali, no meio do fogo e das flores, estava Kali de novo, transformada outra vez em pedra preta, dessa vez com três olhos, a língua vermelha de fora e as mãos erguidas em súplica, mãos vermelhas como o toco do braço de uma criança cuja mãe tomou talidomida.

Estaria eu esperando ver ali a Virgem Maria, de faces rosadas, dentro de uma nuvem? Confusa, olhei de novo para o meu guia e amigo. Ele olhou para mim com olhos muito brandos e repetiu: “Paz”.


Leia: Nos Caminhos da Glória. Eleonor Munro. Editora Siciliano, 1992.


Fontes:

Filosofias da Índia e Mitos e símbolos na arte e na civilização da Índia, de Heirich Zimmer, publicado por aqui pela bem aventurada Editora Palas Athena.

O Anuário da Grande Mãe: guia prático de rituais para celebrar a Deusa. Mirella Faur. Editora Gaia, 2001 (2ª ed.)

domingo, 31 de outubro de 2010

Vivekananda, um sábio peregrino indiano. Parte 3, final

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A seguir você irá ler a terceira e última parte do post sobre a vida de Vivekananda, transcrição de uma matéria de 1975 da Revista Planeta. Com essas postagens tive a intenção de apresentar ao leitor/leitora do Odepórica uma breve introdução à vida de Vivekananda, um dos mais respeitados homens santos da Índia, ao lado de tantos outros já bem conhecidos aqui no Ocidente, como Paramahansa Yogananda, Sri Aurobindo, Krishnamurti, Osho, Sivananda, Ramakrishna, Mahatma Gandhi, Satya Sai Baba, só para citar alguns e sem nos esquecermos, evidentemente, das mulheres santas que também – ainda que menos alardeadas – têm deixado um forte legado espiritual ao longo dos anos. (sobre as mulheres santas da Índia, sugiro a leitura de duas obra cativantes: Filhas de Deusa: as mulheres santas na Índia de hoje, de Linda Johnson, Ed. Nova Era, e a pequena biografia de Sarada Devi, a Santa Mãe, que foi a esposa de Ramakrishna, mestre de Vivekananda como vimos nos textos aqui postados. Esta última publicada pela Lótus do Saber).

Não somente, devo lembrar, quis trazer ao conhecimento dos leitores/as do Odepórica a vida de Vivekananda, já que para isso poderia ter buscado outras fontes biográficas que certamente enriqueceriam o texto publicado na revista; a intenção, como sempre, foi a de mostrar o papel fundamental das viagens no processo de transformação daquele/a que viaja. No caso dessas grandes figuras, como Vivekananda, as viagens tiveram uma importância tão grande em sua vida que não só mudaram o seu destino, como o de milhares de pessoas em todas as partes do mundo onde suas mensagens chegaram – e continuam chegando - mesmo após um século de sua passagem pelo planeta.

Se Vivekananda não tivesse se deslocado tanto, muito provavelmente seus ensinamentos não teriam sido conhecidos fora de seu país. Sua própria obra, aliás, não teria sido tão rica e cheia de sabedoria caso não houvesse visitado outras culturas, pois foi o fato de observar o outro que deu a ele o material para compreender efetivamente, ainda que à custa de muita dor e sofrimento, a alma de seu povo. Essa troca é o que faz das viagens algo especial e transformador.

Antes de terminar essa introdução, gostaria de pedir a você, que topou a leitura dessas três longas postagens, para tomar cuidado antes de julgar algumas passagens da vida de Vivekananda. Muito do que o pensador declarou tem que ser lido contextualmente, e nisso o autor do texto foi feliz em esclarecer, quando da passagem em que Vivekananda afirma que “a virilidade é a base de tudo”, fazendo alusão à maneira violenta de agir frente às adversidades.

Vivekananda jamais teria simpatizado com qualquer ato de violência; sua conduta, pelo que se sabe de sua vida e obra, sempre foi a de buscar a realização espiritual e a de ajudar ao próximo nessa jornada. Quando fala em um “mal necessário”, quer deixar claro, assim como se lê no Bhagavad-Gita, livro sagrado do hinduísmo, que a inércia, a falta de ação, é pior do que ir à luta, mesmo que isso implique em uma posição de violência. Essa luta faz parte do Karma-Yoga, o yoga da ação, sem o qual o ser não tem acesso ao conhecimento. Diz Vivekananda que “o conhecimento está na mente como o fogo está na pedra; é a fricção que o faz brotar.”

Paro por aqui. No final da matéria indico algumas obras publicadas pelo Vivekananda em português, fáceis de serem encontradas em sebos a preços muito camaradas. Em tempo: Vivekananda, o nome sânscrito que Narendranath Dutt recebeu quando ingressou na ordem dos Swamis tem um significado muito inspirador: Viveka significa “discernimento”, e Ananda, “alegria, felicidade”. A felicidade suprema que só se atinge através do discernimento. Bonito, não? Namastê.


A Índia demorou muito para saber do êxito de Vivekananda no Congresso de Chicago e quando soube, ocorreu verdadeira explosão de júbilo e orgulho nacional. Seis meses depois é que os monges de Baranagor tiveram a notícia. Quase não podiam crer que um de seus irmãos fosse o triunfador tão famoso e em suas comemorações evocavam a profecia de Ramakrishna: “Barém abalará o mundo até seus alicerces”.

Algumas facções políticas pretendiam tirar partido do sucesso de Vivekananda que protestou energicamente, pois jamais desejou tomar parte em movimentos de interesse pessoal e dizia: “pouco me importa a vitória ou o fracasso. Devo conservar a pureza do meu trabalho ou não o faço”. Nada queria com a política e considerava como únicas no mundo, as políticas originárias de Deus e da verdade. As demais não existiam.

Ao contrário do que tinha acontecido em outras peregrinações pela Índia – quando mendigava e muitas vezes era até perseguido – agora ele recebia estrondosas manifestações populares. Por onde passava atiravam-lhe flores e regavam seus caminhos com a água sagrada vinda do Ganges. Aceitava essas honrarias pensando exclusivamente nos bens que poderiam trazer à causa a que se propunha.

Contra seus princípios, precisava participar muitas vezes dos movimentos de caráter nacionalista e tratava, por isso, intensa luta interior. Quando da crise ocorrida nos primeiros dias de outubro de 1898, ele seguiu sozinho para o santuário da mãe Kali, em Cachemira. Ficou horrorizado diante das ruínas e dos sofrimentos decorrentes da guerra. Encontrou também o santuário depredado. Como puderam ter feito aquilo?

Se ele estivesse ali, teria dado a vida para defender a madre (mãe Kali). Regressou transtornado e disse a Nivedita: “desapareceu em mim todo o patriotismo. Tenho sido muito enganado! Ouvi a repreensão da mãe Kali dizendo que alguns incrédulos entraram em seu templo e macularam sua imagem. – O que tem você a ver com eles? – perguntou-me ela. – Acaso é você meu protetor ou sou eu quem o protege? Estava profundamente abatido, e ainda muito mais porque dias antes havia ocorrido brutal abuso de poder por parte da Inglaterra, em relação à Índia. Em seus discursos, entretanto, não deixava transparecer a amargura e as angústias recalcadas em seu coração.

Segunda viagem ao Ocidente


Partindo de Calcutá no dia 2 de junho de 1899, Vivekananda passou por Madras, Colombo, Aden, Nápoles e Marselha, chegando a Londres no dia 31 de julho. Um dia após seguiu de Glascow para Nova York, permanecendo nos Estados Unidos até 20 de julho de 1900, onde percorreu toda a Califórnia. De 1º de agosto a 24 de outubro viajou por Paris, Bretanha, Luego, Viena, os Bálcãs, Constantinopla, Grécia e Egito, regressando à Índia nos princípios de dezembro.

O objetivo principal dessa viagem era o de inspecionar as obras fundadas por ele e ao mesmo tempo ativar o trabalho dessas organizações. Estava acompanhado por Nivedita e Turyananda. Em seu corpo enfraquecido mantinha uma energia incomum e redobrada disposição para a luta, todavia demonstrava profundo desgosto por sentir a despersonalização de seu povo, sempre abatido e desanimado.

Estava arrebatado pelas epopéias históricas da Europa. Em Gibraltar veio à sua lembrança a invasão árabe. Tinha tanto desprezo pela covardia a ponto de admitir o crime, e quando ouvia falar do baixo índice criminal da Índia, exclamava: “oxalá ocorresse o contrário. Quanto mais envelheço, mais cresce minha convicção de que a virilidade é a base de tudo e este é o meu novo evangelho”. Chegou mesmo a dizer que devia ser praticado o mal contra o homem, e, se necessário, que se cometessem crimes em benefício da grandeza e da virilidade. Revoltado pela inércia de seu povo, dizia essas coisas a pessoas de absoluta confiança, pois gente maldosa poderia interpretar diferente, desvirtuar e provocar escândalos.
Quando regressou à Índia, entretanto, estava desapegado da vida e chocado com a violência existente no imperialismo ocidental. Não podia esquecer aquela gente de fisionomias rancorosas, lembrando aves de rapina. Na primeira viagem ficou excessivamente impressionado com o poderio, organização e aparente democracia, tanto da América quanto da Europa. Entretanto, agora, mais afeito aos costumes e linguagem, tinha outra visão. Observou espíritos negocistas e avarentos que colocavam o “deus dinheiro” acima de qualquer coisa e promoviam lutas ferozes e combinações infames para alcançarem o predomínio. “A vida no Ocidente é parecida com o inferno.”

Tinha descoberto a tragédia oculta suportada por aquele povo e disfarçada sob o colorido da frivolidade. Para ele a vida social no Ocidente se comparava a uma gargalhada que tem início num sorriso natural que vai crescendo e acaba num soluço. O entusiasmo e os gestos de cortesia demonstrados, para Vivekananda, estavam apenas na superfície. Já na Índia a aparência é triste e melancólica, porém o interior é vibrante e despreocupado.

Morte física de Vivekananda


Quanto mais analisava o avanço das ciências e da civilização, maior consistência adquiriam suas próprias profecias: “a próxima revolução que dará origem a uma nova era, virá da Rússia ou da China. Não vejo exatamente qual delas... O mundo está em sua terceira etapa, sob o domínio de vaisya (o mercador, o estado livre). A quarta será a de sudra (o proletário)”.

Em determinado instante de sua viagem de volta, teve o pressentimento de que seu velho e fiel amigo, senhor de Sevier, tinha falecido no Ashram do Himalaia. Recebeu a confirmação na chegada. Sem pensar em descanso, seguiu para lá, apesar de todas dificuldades representadas pelo acesso ao Himalaia naquela época do ano, e mais ainda pelo seu estado de saúde. Venceu a tudo e dia 3 de janeiro de 1901 estava cumprimentando e prestando seu conforto moral e espiritual à viúva de Sevier.
Permaneceu ali alguns dias, comemorando inclusive seu aniversário no dia 13 de janeiro (38 anos). Retornou ao mosteiro de Belur no dia 24. Fez a que seria a última peregrinação aos lugares santos de Bengala Oriental, Ossam, Dakka e Shillong, realizando uma série de conferências. Essa excursão por lugares de espírito conservador fanático trouxe à luz, com maior intensidade, suas concepções religiosas, fazendo-o lembrar aos hindus beatos que a verdadeira forma de se ver a Deus é enxergá-lo através dos próprios homens, sendo totalmente inútil a fixação no passado, por mais glorioso que tenha sido.

A cada dia mais enfraquecido, voltou a Belur para levar uma vida de frade franciscano, em contato com a natureza. Ficava pouco tempo no quarto, apenas para escrever e meditar. Raramente dormia na cama, preferindo deitar no chão. Acompanhado do cão Bagha, da cabra Hansi e de um cabritinho, caminhava pelos campos, quase em êxtase, a cantar sua extraordinária e doce voz. Mesmo assim, encontrava tempo para desempenhar suas funções de reitor e com pulso firme dirigia o mosteiro, a despeito dos terríveis sofrimentos físicos.
A doença avançava e a diabete se transformou em hidropisia. Não conseguia dormir e o médico o proibiu de qualquer esforço, prescrevendo rigoroso regime que o impedia de tomar água. Resignado, suportou esse duro regime durante 21 dias.

Quando pressentiu a morte, chamou a todos os discípulos – até os do outro lado do mar. A tranqüilidade que aparentava enganou a todos, pois acreditavam que ele pudesse viver mais alguns anos. No dia 4 de julho de 1902, sentindo-se mais forte, levantou e foi à capela. Contra seus hábitos, fechou as janelas e a porta, ficando ali desde oito horas até às 11 da manhã.

Quando saiu estava transfigurado, falando sozinho e cantando o hino a Kali. Almoçou com apetite, acompanhado dos discípulos e depois ministrou aulas de sânscrito aos noviços, durante três horas. Posteriormente andou com Premananda cerca de duas milhas, pelos caminhos de Belur, falando do projeto de criação de um colégio para o ensino do Veda.

Às 19 horas as sinetas do convento chamaram para o Avati (culto). Vivekananda voltou ao quarto, contemplou o Ganges e dispensou o noviço que o acompanhava. A seguir mandou chamar os monges, pediu que abrissem todas as janelas e se estendeu no chão, permanecendo imóvel. Acreditavam que meditava. Uma hora depois, emitindo profundo suspiro, morria, fisicamente, o grande Vivekananda. Tinha pouco mais de 39 anos e confirmava assim sua profecia: “Não vou alcançar os 40 anos”.


Vivekananda Rock and Temple in Kanyakumari, Índia

Obras de Swami Vivekananda publicadas no Brasil:
O que é religião – Ed. Lótus do Saber;
Epopéias da Índia Antiga – Ed. Lorenz;
Quatro yogas de auto-realização – Ed. Pensamento;
Karma yoga: a educação da vontade – Ed. Pensamento

Sites que merecem a visita:

Vivekananda.net
Vivekananda.org

Vedanta.org.br
Ramakrishna.org


AGI! DESPERTAI! E NÃO VOS DETENHAIS ATÉ ALCANÇAR A META.
Swami Vivekanandají


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Vivekananda, um sábio peregrino indiano. Parte 2

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Consagração em Chicago

Tendo percorrido a Índia toda, foi um tormento deparar com a pobreza e a miséria daquela gente. Diante desse quadro tão desolador, ficou mais convencido da inutilidade da pregação aos desgraçados, sem antes aliviar seus sofrimentos. E pensando mais seriamente na salvação do povo indiano, decidiu buscar recursos em outras plagas, possivelmente na América.

Ouvindo falar sobre um Congresso de Religiões a ser realizado em alguma parte da América, tomou a resolução de participar dele. Dispondo de informações muito vagas, partiu de Bombaim no dia 31 de maio de 1893 e, por mar e terra, com a maior dificuldade, chegou a Chicago onde se inteirou de que o congresso seria realizado ali, depois de 10 de setembro. Todavia, o prazo para inscrições já estava vencido e além disso, nenhuma inscrição poderia ser aceita sem a apresentação de referências oficiais. Abalado, sem saber o que fazer por ser desconhecido naquela terra, não via solução. Tratou de telegrafar a seus amigos de Madras, solicitando a intercessão deles junto às Sociedades Religiosas a fim de conseguir alguma subvenção e as indispensáveis referências. As entidades oficiais, porém, não perdoavam os elementos independentes, tanto que um dos chefes vociferou: “Que esse diabo morra de frio!”.
Contudo o diabo não se rendeu e nem morreu. Com os poucos recursos que lhe restavam, embarcou para Boston e na viagem conheceu uma senhora de Massachusetts que, interessando-se por ele, o conduziu à sua casa e o apresentou ao helenista, J.M. Wright, professor da Universidade de Harvard; impressionado com o talento do indiano, custeou-lhe a viagem de volta a Chicago e providenciou as recomendações à comissão organizadora do congresso, garantindo, inclusive, alojamento. Com essas medidas, Vivekananda teve condições para representar o hinduísmo.

Em 11 de setembro o congresso foi inaugurado sob a presidência do cardeal Gibbons. Ao seu lado, assentava-se o delegado oriental, Protap Chumder Mazumdar, chefe do Brahmosamaj e antigo amigo de Narém. No plenário permaneciam os representantes das mais diversas seitas e religiões. Todos discursavam e, pela ordem, Vivekananda foi o último orador. Era a primeira vez que enfrentava uma assembléia dessa grandeza e mal iniciou seu discurso, saudando os irmãos norte-americanos, centenas de pessoas, de pé, irromperam em calorosos aplausos. Restabelecido o silêncio ele prosseguiu falando de um Deus universal, enquanto os que o antecederam falaram do Deus de suas seitas. Quando terminou foi ovacionado consagradoramente.
Voltou a ocupar a tribuna inúmeras vezes crescendo sempre o seu conceito e popularidade. Sabendo que ele falava por último o público aguardava paciente até o fim da sessão. Os jornais, New York Herald e Boston Evening Transncript, enalteciam a figura do jovem indiano. De um instante para outro estava célebre e isso poderia resultar em benefício para a Índia.

América, estranha e paradoxal

As influências hindus que, direta ou indiretamente, penetraram no espírito norte-americano, no século 19, deve ter contribuído para a formação da estranha mentalidade moral e religiosa dos Estados Unidos, na época de Vivekananda. Para um estrangeiro é difícil compreender a mescla de puritanismo anglo-saxão, de otimismo ianque, de pragmatismo de ciência e do pseudovedantismo. O problema deve envolver aspectos psicológicos que cabe à história da civilização analisar.

Segundo consta, o principal introdutor do pensamento hindu nos Estados Unidos foi Emerson, sob a influência de Thoreau. Outros como Edgard Poe e o poeta Walt Whitman também se inspiraram intensamente nesse espírito. Na realidade, existia na América, antes da chegada de Vivekananda, exemplos patentes de predisposição ao vedantismo.

Vivekananda aprendera a admirar Whitman, através de suas obras e mais tarde teve a oportunidade de conhecer melhor a vida do poeta, tornando-se amigo do famoso orador agnóstico e materialista, Roberto Ingersoll, íntimo de Whitman. Essa amizade significava a penetração de Vivekananda nos círculos mais livres e avançados do pensamento norte-americano. Ainda por intermédio de Ingersoll ficou sabendo que o fanatismo oculto persistia na América.

Esse conjunto de manifestações espirituais reinantes nos Estados Unidos, em ebulição no decorrer do século 19, explicava as reações positivas do povo norte-americano em torno de Vivekananda. Iniciando a série de pregações, acorriam para ouvi-lo centenas de homens e mulheres de todas as classes – gente das universidades e da sociedade, livres pensadores, agnósticos e até mesmo cristãos sinceros.

Vivekananda ficou surpreso – e muitos ficam até hoje – ao verificar que, paradoxalmente, naquela terra “jovem e velha” a esperança e o medo do futuro caminhavam juntos. Penetravam na verdade, participando da falsidade. Demonstravam, de um lado, o desinteresse total e, de outro, se entregavam ao imundo culto ao ouro. Ingenuidade de criança e maldade de fera. Apesar disso, Narém com muita prudência mantinha o fiel da balança conciliando as simpatias e antipatias e reconhecendo, constantemente, as virtudes e energias efetivas dessa América espetacular e estranha.

Encontrando apoio, fundou obras maravilhosas que permaneceram muito mais sólidas que as de outros países. Vivekananda ficava espantado com a facilidade com que os poderes constituídos destinavam verbas para todo tipo de serviço público e social. Na Índia, muito pouco se fazia para solucionar os problemas sociais; e ele, que vinha disposto a condenar o orgulho do Ocidente, rendia-se humilhado e confundido diante dos modelos de obras assistenciais mantidos nesse mesmo Ocidente.

Visitando uma prisão de mulheres observou o tratamento humano dispensado às prisioneiras e lembrou da indiferença dos indianos em relação aos seus presidiários. Nenhuma sociedade esmaga os infelizes, tão desapiedadamente, quanto a sociedade da Índia. A culpa não é da religião mas, sim, dos fariseus e saduceus hipócritas.

No Ocidente, as riquezas materiais deslumbravam Vivekananda, porém o que o embevecia realmente eram os bens sociais e morais. Admirava, também, a aparente igualdade democrática vistas nas menores coisas, como por exemplo, uma pessoa rica e nobre e outra do povo, viajando juntas no mesmo veículo. Isso tinha significação muito maior quando sabia dos preconceitos de castas existentes na Índia. Fazia ainda comparações entre a liberdade de muitas mulheres intelectuais, norte-americanas, e a vida de cativeiro das mulheres indianas. Deixava de lado o amor pátrio para reconhecer a superioridade do Ocidente, em todos os pontos, desejando apenas que essa superioridade pudesse levar benefícios ao seu povo.

Empreendeu na América uma série de campanhas apostólicas visando a propagação das sementes vedânticas e dos impulsos de amor de Ramakrishna. Conseguiu inúmeros adeptos e dentre eles destacou-se o jovem inglês, J.J. Goodwin, cuja conversão ocorreu a partir de 1895, que se dedicou inteiramente a Vivekananda como secretário e principal divulgador do pensamento do mestre.

Os três anos de viagem através do Novo Mundo, em contato permanente com o pensamento e a crença do Ocidente, amadureceram em Vivekananda a ideia de uma religião universal. Tinha pretendido escrever o Maximum Testamentum, o Evangelho Universal, porém para um espírito como o dele, a religião não deve ser firmada eternamente, em textos ou formas, mas deve, isso sim, acompanhar a evolução dos povos e dos tempos. O seu ideal de universalidade preconizava a união do Oriente e do Ocidente, independente de uma doutrina ou de um período. Sonhava com uma união viva e avançada e para isso foi organizada em Nova York a Vedanta Society sob a presidência de Sir Francis Legget. Essa entidade deveria ser o centro de irradiação do movimento vedantista na América e tinha por lema: “Tolerância e universalismo religioso”.

No ambiente frenético de Nova York, o gênio de Vivekananda ardia como tocha. Sua força física, porém, vinha se consumindo no trabalho estafante, comprometendo seriamente sua saúde já relativamente abalada desde a adolescência, quando passou a sofrer de diabete.

Tinha sofrido com o impaludismo (malária) e quase morrera, tempos antes, de difteria. Sem se abater, ele dizia: “minha vida se acaba”. Entretanto, prosseguia teimosamente em sua missão heróica. Acreditava que uma viagem à Europa faria bem. Para onde quer que fosse, continuaria se consumindo no trabalho.

Raça digna de inveja

Esteve na Inglaterra três vezes e numa dessas vezes, em 1895, passou por Paris antes de ir a Londres. A visita foi rápida e viu apenas algumas catedrais, museus e o túmulo de Napoleão. Mesmo assim, teve a impressão dominante de que a França tinha um povo privilegiado, cercado de artistas extraordinários. Voltou à França somente cinco anos depois.

Os efeitos dessas viagens foram muito mais profundos e inesperados do que os alcançados na América. Na Europa encontrou os mestres Max Muller e Pablo Deussen. A grandeza da ciência filosófica e filológica se identificava bastante com o seu gênio e probidade.

A Inglaterra proporcionou-lhe outra grande emoção: chegava como inimigo e se rendia ante a diferente realidade encontrada. Tanto assim que ao regressar à Índia proclamou com toda a lealdade: “ao desembarcar na Inglaterra eu trazia na alma todo o ódio contra a raça inglesa. Agora, porém, duvido que outros possam estimá-la tanto quanto eu”. A um discípulo norte-americano ele também confirmou ter modificado completamente sua opinião a respeito do povo inglês e não cansava de dizer: “raça digna de inveja! Impõe o respeito até mesmo àqueles a quem oprime”. Outras vezes dizia que o Império britânico, com todos os seus defeitos, era a maior de todas as máquinas para a propagação de idéias. Por essa razão tinha certeza de que o seu pensamento transmitido ali seria difundido pelo mundo inteiro.
Na Inglaterra fez amizade com Margaret Noble e com os senhores de Sevier. Margaret tinha 28 anos quando, aceitando as idéias de Vivekananda, seguiu com ele para a Índia a fim de se dedicar à instrução das mulheres. Naturalizou-se hindu e pronunciou os votos de Brahmacharya. Foi a primeira mulher do Ocidente admitida numa ordem monástica indiana e tomou o nome de Sister Nivedita.
Extremamente cansado e com a saúde mais abalada, foi obrigado pelos amigos a uma viagem de repouso na Suíça, onde permaneceu durante todo o verão de 1896. Aparentemente restabelecido, retornou à Inglaterra.

Deixou a Grã-Bretanha em 16 de dezembro de 1896, passando por Dover, Calais e Monte Cenis, dando por encerrada sua estada na Europa com uma rápida excursão pela Itália. Foi a Milão para contemplar a Ceia de Da Vinci e seguiu para Roma que considerava uma espécie de Delhi. Ficou espantado com a semelhança existente entre as liturgias católicas e as cerimônias hindus.

Fracasso no plano material

Impressionou-se vivamente diante das recordações dos primeiros cristãos e mártires, compartilhando da veneração do povo italiano pelas figuras de Jesus Cristo e da virgem Maria e jamais esqueceu desses fatos. Certa noite, num navio, sonhou com um ancião que lhe dizia: “Veja bem este lugar. É a terra onde começou o cristianismo e eu sou um dos que viviam aqui. As verdades que pregamos têm sido apresentadas como ensinamentos de Cristo, porém Ele nunca nasceu e quando fizerem escavações aqui, virão à luz as provas desta afirmação”.

Vivekananda acordou sobressaltado, querendo saber onde estavam e foi informado de que navegavam a 50 milhas da ilha de Creta. Até então ele nunca havia duvidado da autenticidade de Jesus, embora para um espírito como o dele, a realidade histórica de um Deus fosse a menor de todas as realidades. “O Deus que é fruto da alma de um povo é mais real que o nascido do ventre de uma virgem.”

Quando recapitulava os acontecimentos vividos nesse período de quatro anos, ficava convicto de que tinha adquirido enorme tesouro espiritual do qual seu povo iria participar. Contudo, seria isso o que a miséria de seus patrícios reclamava com mais urgência? Positivamente não. Nessas condições, materialmente, a viagem redundara em fracasso.

Necessitava reativar a luta sobre novas bases e refazer a Índia pela Índia. A solução devia sair de si mesmo, tendo que enfrentar um trabalho quase insano. Agora, porém, estava investido da autoridade que não possuía antes de viajar e isso o ajudaria bastante.