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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Turismo capilar, by J.P.Cuenca

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Uma das coisas que mais me motivam a pesquisar a literatura odepórica é o fato de que você nunca sabe o que vai encontrar pela frente; de fato, em se tratando de narrativa de viagem, qualquer cena pode servir como ponto de partida para uma boa história e o que torna um relato de viagem mais interessante do que o outro é o fator surpresa, não tanto pelo desfecho senão pela estranheza ou peculiaridade do tema. Por exemplo, o Luigi Monga, que foi um estudioso brilhante da literatura odepórica, editou duas obras que serão referência por muitas décadas na área das narrativas de viagem e entre seus achados odepóricos a gente encontra o olhar do viajante sobre os temas mais variados e, por vezes, insólitos.


Lembro-me de um texto, parte dessa coletânea editada pelo Monga, em que o autor (Andrés Zamora) gasta muitas linhas para nos informar que, na experiência da viagem, o componente excremental ocupa um lugar relevante. Nesse paper, intitulado Odiseas excrementales (original em espanhol) o Andrés relembra que no período renascentista um dos ensinamentos dados aos viajantes era o de praticar uma evacuação geral antes de se colocar os pés na estrada. Cita a obra Ulysses, de James Joyce, dizendo que o personagem principal, Leopold Bloom, inicia sua odisseia urbana depois de uma prazerosa e frutífera visita ao banheiro. E por aí vai, um dia traduzo o texto na íntegra porque não há quem não goste de um tema escatológico de vez em quando. Bom, eu adoro.

E eis que encontro, num caderno de turismo da Folha de São Paulo, um artigo supimpa do J.P.Cuenca narrando suas experiências no estrangeiro focando as barbearias e os salões de cabelereiros que visitou em suas deambulações por Madri, Berlim e Buenos Aires. É um relato gostoso de ler, e o que poderia parecer uma leitura desinteressante se revela uma prazerosa aventura literária, mostrando que, em se tratando de viagens, qualquer lugar pode ser um cenário para experiências divertidas e inovadoras, como os salões e as barbearias retratadas pelo J.P. Cuenca no texto que você lerá a seguir. Namastê!
Turismo capilar


Nos últimos anos, uma rotina de viagens cada vez mais longas fez com que eu passasse a cortar o cabelo sempre fora do Brasil. Abandonei a estável relação que tive com barbeiros de nomes como Péricles e Kléber para aventurar-me na roleta da tesoura desconhecida. Como certa vez escreveu Alan Pauls, "cada salão que não se conhece e no qual se aventura é um perigo e uma esperança, uma promessa e uma armadilha". Destaco aqui alguns relatos desse constante flerte com a desaparição.

Madri


No boêmio bairro de Malasaña, fica a Corta Cabeza. Descendo pela Corredera Baja de San Pablo, depois de um lauto almoço e alguns mojitos, vejo a fachada em estilo industrial e decido entrar. Sou sempre atravessado pela decisão de cortar o cabelo na viagem de forma imperiosa, como se vivesse um daqueles raros momentos de iluminação. A certeza que acompanha cada passo. Eles tinham horário, era o meio de uma tarde calorenta de terça-feira.

Quem lavou a minha cabeça foi uma bela travesti filipina com 1,80 m e mãos firmes. Meditar de olhos fechados enquanto um desconhecido entrelaça os dedos pelos seus cabelos molhados com água quente e xampu é um dos grandes prazeres da vida, inclusive superior à toalha morna que antecipa o toque da lâmina no rosto. Meu barbeiro foi um anão. Quando sentei na poltrona de couro negro, seu rosto ficou exatamente na altura da minha cabeça. Atmosfera almodovariana à parte, foi o melhor repicado que tive em anos. A Corta Cabeza diz em seu site (cortacabeza.com): "Somos fabricantes de beleza". Digamos que, em mim, eles tentaram com bravura.

Berlim


O Bernardo Carvalho já escreveu sobre ele, mas creio que o conheci primeiro. Trata-se do barbeiro comunista de Neuköln, cujo negócio tem como símbolo a foice e a tesoura no lugar no martelo. O lugar fica no coração do bairro de imigrantes turcos e árabes, centro do aparentemente inesgotável debate sobre gentrificação que domina a cidade. É um salão com apenas uma cadeira, paredes desbotadas e quadros "naïf" francamente horríveis pendurados na parede. Quando perguntei em inglês se ele tinha horário, me olhou com má vontade e disse: "Volte às seis da tarde. E lave o cabelo!".

Três horas depois, lá eu estava de novo, sentado com um lençol branco sobre o colo ouvindo um disco de rock industrial. O homem, um tipo de 45 anos, camiseta rasgada e cabelos esvoaçados, se desentendeu com o cortador elétrico e jogou-o no chão. Gritou com a assistente, que, desconfio, também era sua mulher. Chutou um balde de lixo no cachorro que dormia esparramado num canto. O cachorro latiu. Como eu não falo alemão, sorri em desespero. Depois, o homem monologou contra Berlim, a Alemanha, os turistas, os preços dos aluguéis e o aburguesamento do bairro enquanto gentrificava minhas madeixas com um corte à la Playmobil. Conversamos sobre música e arte contemporânea. Escrevendo este texto, descubro em obituário do jornal "Tagesspiegel" que ele morreu em agosto deste ano. Enfartou com a tesoura na mão.

Buenos Aires


O Rojo é o salão hipster quase-fora-de-moda da cidade, onde estrelas do rock e "wannabes" em geral cuidam de seus mullets e franjinhas há duas décadas. O Rojo original fica em Caballito, mas para usufruir do espetáculo completo, recomendo a unidade de Palermo Viejo, na Calle Malabia 1.931. Após a lavagem -no teto, telas exibiam um clipe hipnótico e sensual que se repetiu dezenas de vezes-, uma diligente funcionária me levou pela mão até a sala principal. Ali está a magia do lugar. As duas paredes de espelhos, cortadas por faixas de LED em movimento multicolor, refletem-se num jogo infinito. De cada lugar, você é capaz de ver seu rosto e suas costas, assim como o rosto e as costas de todas as outras pessoas, tudo multiplicado até a dissolução. É como entrar dentro de um caleidoscópio.

Se nas milongas e cafeterias de Buenos Aires os espelhos evocam metafísica, esse aquário de reflexos desperta curiosidades e tremores em partes inferiores do abdômen. Enquanto sentem a suave mordida da tesoura contra seus couros cabeludos, os clientes portenhos se miram. E se miram. E se miram. E se miram.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Vislumbres da Índia, by Octavio Paz


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Octavio Paz (1914-1998), prêmio Nobel de Literatura em 1998, é considerado um dos maiores escritores e pensadores do século XX. Sua obra abarca diversos gêneros, do ensaio à prosa, mas é na poesia que seu nome brilha com mais intensidade. Nascido e falecido na Cidade do México, passou a infância nos Estados Unidos, voltou ao México para iniciar os estudos superiores – em direito, inconcluso – mas acabou se encantando mesmo com a poesia.

Rodou o mundo o poeta mexicano; em 1945 ingressa no serviço diplomático, o que o leva a viver em Paris, até o ano de 1951, quando então é transferido para a Índia. Nessa missão permaneceu pouquinho tempo, pois logo o chamaram para assumir um cargo no Japão. Do país do sol nascente foi parar em Genebra e em 1954 já estava de volta a casa. Podemos dizer que Octavio Paz foi um bom viajante.



Em 1962 é nomeado embaixador do México e foi novamente cumprir sua missão na Índia, dessa vez numa longa permanência de seis anos. O livro que tenho em mãos trata exatamente desse período da vida de Dom Octavio Paz, e foi o último que publicou em vida: Vislumbres de la India.

Comprei meu exemplar no ano passado na Librería Encontros, em Santiago de Compostela, após a indicação de um vendedor que mui gentilmente me indicou a obra. Eu buscava títulos de literatura odepórica mas não queria nada relacionado ao tema das peregrinações jacobeas. Daí que o bom librero me põe nas mãos o pequeno exemplar do poeta, e eu que já tenho uma simpatia natural pela Índia nem hesitei e saí empolgado com minha aquisição. Comecei a ler o livro logo depois, sentado num café, sob os arcos da Rua do Villar. Chovia em Santiago.



Mas sabe quando você compra um livro achando que é uma coisa e depois não é nada daquilo que você imaginava? No meu caso, o que eu buscava estava ali, mas somente entre as páginas 07 e 24; entre essas folhas você conhece um pouco do Octávio Paz viajante, deslumbrado com as paisagens e encantado com os orgiásticos excessos de informação visual que a Índia tem a oferecer.



A partir da página 25, o que parecia ser um relato de viagem transforma-se em um grande ensaio sobre a arte, a espiritualidade, a filosofia e a política daquele país. Já li muitas narrativas de viagem sobre a Índia, de indianos e de gente que nem sabia do que estava falando, e garanto que a escrita de Dom Octavio é das mais inteligentes que já li sobre o país. O poeta não deixa escapar nada, até da culinária chega algo que se aproveita de maneira mais instigante. Quer ver um trecho? Vamos lá:



“A comida, mais do que as especulações místicas, é uma maneira segura de se aproximar de um povo e de sua cultura. Já sinalei que muitos dos sabores da cozinha indiana são também os da mexicana. Contudo, há uma diferença essencial, não nos sabores senão na apresentação: a cozinha mexicana consiste em uma sucessão de pequenos pratos. Trata-se, provavelmente, de uma influência espanhola. Na cozinha europeia esta sucessão de pratos obedece a uma ordem muito precisa. É uma cozinha diacrônica, como disse Lévi-Strauss, na qual os guisados seguem um após o outro, numa espécie de marcha interrompida por breves pausas. É uma sucessão que evoca tanto o desfile militar como a procissão religiosa. O mesmo acontece com a teoria, no sentido filosófico da palavra. A cozinha europeia é uma demonstração. A cozinha mexicana obedece à mesma lógica, embora não com o mesmo rigor: é uma cozinha mestiça. Nela intervém outra estética: o contraste, por exemplo, entre o picante e o doce. É uma ordem violada ou pontuada por certo exotismo. Diferença radical: na Índia as diferentes iguarias juntam-se num único grande prato. Não há sucessão nem desfile, mas sim aglutinação e sobreposição de substâncias e de sabores: comida sincrônica. Fusão dos sabores, fusão dos tempos.”



Só mesmo uma pessoa muito culta e observadora é capaz de captar a essência de uma cultura, seu ethos, através de algo tão coloquial (em termos) quanto a cozinha de um povo. É um tema fascinante que merece abordagens muito mais profundas, mas não agora.

A comida - ou o ato de comer - tem uma relação muito íntima com o sexo: ambos tratam da gula, do prazer, dos excessos, tanto que o verbo comer se conjuga tanto na mesa quanto na alcova. Um dos aspectos marcantes da cultura indiana é justamente a união do sagrado com o profano e na literatura temos o Kama Sutra como exemplo mais lembrado, assim como os templos medievais de Khajuraho, das coisas mais impressionantes que um viajante não deveria deixar de conhecer antes de aposentar suas botas.



Vou me alongar um pouquinho nessa temática. Dom Octavio Paz também se estendeu no assunto, que me fez lembrar de antigas leituras sobre os cenobitas, João Cassiano e Santo Antão e seus padres do deserto, coisa fina que só mas que ninguém mais nos dias de hoje quer saber, além de mim e de dois ou três esquisitos que devem existir por aí. Retomando o foco, quando estudamos sobre a vida desses monges e monjas do passado distante (e olha lá, porque hoje virou tudo um carnaval), o que parece chamar nossa atenção não é o retiro e a vida isolada em comunidade, mas talvez a questão da vida celibatária.

Dom Octavio Paz nota que as divindades indianas possuem, como as gregas e as romanas, uma forte sexualidade. Entre seus poderes está um imenso poder genésico que os leva a copular com todos os gêneros de seres vivos e a produzir, sem cessar, novos indivíduos e espécies. Isso você já sabe, toda mitologia em algum momento tem lá seu tempero picante.



Em um dos livros sagrados da Índia, chamado Atharva Veda, que é donde Dom Octavio tirou as informações que você vai ler a seguir, existe uma explicação fascinante sobre o tema da castidade, que merece ser lida porque lança um olhar muito diferente daquele que se observa nas tradições religiosas ocidentais. Para ler com a mente aberta, por favor:

“O prazer sexual é, por si só, valioso. Para os hindus é uma das quatro finalidades do homem; para além de ser uma força cósmica, um dos agentes do movimento universal, o desejo (Kama) é também um deus, semelhante a Eros, dos gregos. Kama é um deus porque o desejo, em sua forma mais pura e ativa, é energia sagrada: movimenta a natureza inteira e os homens.



Nesta visão da sexualidade como energia cósmica e do corpo como reserva de energia criadora reside uma das causas, provavelmente a mais antiga, da abstinência sexual. O corpo, como a natureza inteira, é vida que produz vida: a semente fecunda a terra e o sêmen o ventre da mulher. O corpo humano não só entesoura a vida: transforma sua energia em pensamento e o pensamento em poder.

A castidade começou por ser uma prática dirigida a entesourar vida e energia vital. Foi uma receita de longevidade e, para alguns, de imortalidade. Esta ideia é um dos fundamentos da filosofia do Yoga e do tantrismo. É também parte central do taoísmo chinês. A vida é energia, poder físico e psíquico: o sexo é poder e poder fecundante que se multiplica; o corpo é uma fonte de sexualidade e, portanto, de energia; reter o sêmen (bidu, em sânscrito), guardá-lo e transformá-lo em energia psíquica, é apropriar-se de grandes poderes naturais e sobrenaturais (siddhi).



O mesmo acontece com o fluxo sexual feminino (rajas). Um texto tântrico diz: ‘o bidu é Shiva e as rajas são Shakti (a consorte feminina do deus), o sêmen é a lua e as rajas o sol...’. Por isso, ainda que o prazer (Kama) seja uma das finalidades do ser humano, o sábio o descarta e escolhe a via da abstinência e da meditação solitária. O prazer é desejável, mas finito; não nos salva da morte nem nos liberta das sucessivas reencarnações. A castidade nos dá poder para a grande batalha: romper a cadeia das transmigrações.”



Isso tudo só para mostrar como uma leitura puxa outra, como nos leva a fazer pontes, como nos faz viajar. Mas também quis com isso mostrar as possibilidades infinitas que se escondem nos relatos de viagem, tanto para quem escreve quanto para quem lê. Os vislumbres da Índia de Dom Octavio Paz fizeram-no desbravar territórios pouco explorados por quem visita a Índia, exceção feita aos que lá se dirigem para estudar suas tradições espirituais e religiosas.

É tudo muito bonito nessa obra de Dom Octavio, que fala pouco das viagens, em termos de deslocamento, mas que brilha como um cristal multifacetado quando discorre sobre a vida em suas múltiplas manifestações. É preciso reconhecer, e isso só com muita leitura, que grandes narrativas de viagem não têm necessariamente que tratar dos caminhos todo o tempo; a bem dizer, os textos que se prendem mais à estrada do que às pessoas - ou às relações interpessoais - são os que menos agregam conhecimento e no final da leitura o que sobra não ajuda muito a enriquecer o leitor, à parte a diversão e o prazer por ela proporcionados.

Para não terminar sem ao menos copiar um trechinho de uma cena de deambulação desse querido autor sábio-vagamundo, transcrevo uma bonita passagem que aparece no início da obra, um vislumbre da Índia, como escreveu o próprio autor:



“(...) a noite me atraía e decidi dar outro passeio pela grande avenida que margeia o cais, uma zona tranquila. No céu ardiam silenciosamente as estrelas. Sentei-me aos pés de uma grande árvore, estátua da noite, e tentei fazer um resumo do que havia visto, ouvido, cheirado e sentido: enjoo, horror, estupor, assombro, alegria, entusiasmo, náuseas, invencível atração. O que me atraía? Era difícil responder: Human kind cannot bear much reality. Sim, o excesso de realidade se transforma em irrealidade, mas essa irrealidade se havia convertido, para mim, em um súbito terraço desde o qual me projetava. Em direção a quê? Ao que se encontra além e que ainda não possui um nome...”


Vislumbres de la India. Octavio Paz. Ed. Austral. Barcelona, España, abril de 2012. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Brasil no olhar dos viajantes - documentário TV Senado

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Repasso aqui o release de um programa que tem tudo a ver com a temática do Odepórica.




O BRASIL VISTO POR ELES

No dia 22 de dezembro, a TV Senado estreia o primeiro episódio da série Brasil no olhar dos viajantes, um documentário sobre os relatos das primeiras viagens feitas ao país e a influência que eles tiveram na construção da nossa imagem perante o mundo e entre os próprios brasileiros. No momento em que vários países voltam o olhar para o Brasil, seja por sua atuação no cenário econômico, seja pela preparação dos eventos grandiosos que estão por vir, Brasil no olhar dos viajantes retoma a questão da identidade nacional a partir dos relatos daqueles que primeiro tentaram decifrar este país.

O primeiro documentário percorre o período compreendido entre os séculos XVI e XVIII. Apesar da restrição imposta por Portugal para a vinda de outros navegantes europeus após o descobrimento, franceses e holandeses, em suas tentativas de colonização no território brasileiro, bem como os ingleses e alguns aventureiros, entre eles o alemão Hans Staden, deixaram registros de sua passagem por estas terras.

Pelos relatos de viagem, é possível entender a atmosfera criada pela descoberta do Novo Mundo. Navegadores, aventureiros, comerciantes e religiosos enfrentaram todo tipo de percalço e cruzaram o Atlântico em busca do “paraíso terrestre”. Lançaram-se mar adentro meses e meses rumo às terras ainda desconhecidas e se depararam com um mundo completamente diferente de tudo o que se sabia. Um cenário composto por uma paisagem exuberante e ameaçadora, “cheia de todo gênero de feras”, e por homens que viviam “como animais irracionais”, sem nenhum traço de civilidade, como eles próprios descreviam.

Brasil no olhar dos viajantes resgata esse contexto histórico e mostra como as narrativas de viagem produzidas lá fora influenciaram de modo significativo a formação da nossa identidade. O olhar estrangeiro sobre a forma de exploração desse imenso território e de suas riquezas naturais; o entendimento da relação entre exploradores e nativos; o olhar crítico sobre os costumes dos índios, dos colonos e sobre o comportamento lascivo das mulheres dos trópicos podem ser lidos em vários textos desses viajantes. Textos que circulavam pela Europa da época e acabaram tornando-se referências para nossos intelectuais séculos depois na construção da nacionalidade brasileira.

Com a participação de historiadores, sociólogos e pesquisadores, o documentário Brasil no Olhar dos Viajantes mostra os testemunhos de homens que viram um país ainda desconhecido, primitivo e exótico tecer as bases de sua sociedade e de sua história.


Brasil no olhar dos viajantes, 2012
Estreia: dia 22 de dezembro, às 21h30
Direção: João Carlos Fontoura
Duração (episódio): 60min
Reprises: sábado, 22 – 21h30 / domingo, 23 – 12h30 / segunda, 24 – 19h00
terça, 25 – 17h00 / sábado, 29 – 14h30/ domingo, 30 – 20h30/ segunda, 31 – 23h00


Sinopse: Documentário investiga os relatos dos estrangeiros que estiveram no Brasil entre os séculos XVI e XIX e mostra como eles contribuíram para consolidar a imagem do Brasil no exterior e entre os próprios brasileiros.

Assista às chamadas no Youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=MdmH0j9_sgU

https://www.youtube.com/watch?v=972Zw12pFRI

https://www.youtube.com/watch?v=abDPQIKrbic&list=UULgti7NuK0RuW9wty-fxPjQ&index=1




COMO SINTONIZAR A TV SENADO:

Canais: 07 NET, 118 SKY, 183 TVA, 903 Oi e 121 Via Embratel.
Em operação: Brasília Canal 51 UHF (Geradora da Rede) e 50.1 digital UHF; Gama (DF) Canal 36 UHF; São Paulo (SP) Canal 61.3 digital UHF; Salvador (BA) Canal 53 UHF; João Pessoa (PB) Canal 40 UHF; Recife (PE) Canal 55 UHF; Manaus (AM) Canal 57 UHF; Natal (RN) Canal 52 UHF; Macau (RN) TV Litorânea - canal 22- emissora de TV afiliada a TV Senado; Cuiabá (MT) Canal 55 UHF; Fortaleza (CE) Canal 43 UHF; Rio Branco (AC) Canal16 UHF; Rio de Janeiro (RJ) Canal 49 UHF (Zona Oeste).
Entrevistados da série

Jean Marcel Carvalho França
Professor de História do Brasil Colonial - Unesp

Sheila Moura Hue
Professora Visitante de Literatura da UERJ

Carmen Lícia Palazzo
Pesquisadora e Doutora em História pela UnB

Ronaldo Vainfas
Professor Titular de História Moderna da UFF

Evaldo Cabral de Melo
Historiador

Pedro Alvim
História da Arte

Paulo Knauss
Professor de História da UFF e Diretor-geral do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro

Carlos Martins
Museólogo e pesquisador da Pinacoteca - SP

Victor Leonardi
Escritor e historiador

Dirceu Franco
Historiador do Instituto Hercule Florence

Karen Macknow Lisboa
Professora de História do Brasil da USP

Lacê Medeiros
Professor e pesquisador de Biologia da UnB.

Maria Angélica Madeira
Professora do Instituto Rio Branco e pesquisadora da UnB.

Mariza Veloso
Socióloga e professora do Instituto Rio Branco e da UnB.

sábado, 3 de novembro de 2012

Brasileza, by Patrick Corneau


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Minhas caçadas literárias odepóricas têm rendido bons frutos. Um deles, grata surpresa: Brasileza- suítes brasileiras, deliciosa leitura que retrata de maneira muito simpática e honesta nosso povo brasileiro. O autor se chama Patrick Corneau, um professor universitário francês que andou perambulando pelas bandas de cá, imagino eu, na década passada, já que ele não informa a data, mas cita em notas de rodapé eventos desse período. Também não importa, o que interessa é que o Patrick conseguiu publicar um livro que traça um perfil surpreendentemente real daquilo que podemos chamar de ethos brasileiro – o conjunto de costumes e hábitos de um povo que acabam por conferir a ele uma identidade própria, que o diferencia de outras culturas.

E qual a melhor maneira de conhecer o caráter de um povo senão viajando e convivendo com os locais? Foi seguindo esse princípio que o professor e escritor francês Patrick Corneau, botou o mochilão às costas e se jogou pelos quatro cantos desse imenso país.


Seu livro apresenta três capítulos e confesso que não entendi bem a conexão com o termo “Suíte”- talvez tenha a ver com o significado do termo em francês (série, conexão) e que nós logo associamos ao jargão musical. Não entendi, mas achei bonito. Na Suíte Brasileira I (Aqui e Agora) é onde acontece a narrativa de viagem propriamente dita, onde conhecemos os deslocamentos do viajante francês.

O relato se costura entre cidades conhecidas, grandes capitais e depois o matão amazônico. Assim, a aventura começa por São Paulo, e passa nessa ordem pelas seguintes localidades: Rio, Parati, Salvador, Brasília, Iguaçu (com esticadinha ao Paraguai), Belo Horizonte, Ouro Preto, Fordlândia, Manaus, Belém e, finalmente, São Luiz do Maranhão.


Surpreende a qualidade das observações do Patrick sobre a cultura e os fatos históricos dos locais que ele visita; não há futilidade nem nas coisas fúteis como provar uma tigela de açaí, por exemplo; nenhum comentário surge sem que dele se aprenda alguma coisa interessante, sem que se agregue algo que nos ajude a construir pouco a pouco a imagem do povo dos trópicos formado de culturas tão diferentes e por isso mesmo tão complexo em sua própria compreensão. É possível, por conta disso, que ao estrangeiro seja mais fácil construir essa identidade brasileira, porque o olhar do outro vê coisas que nós, de tão habituados, já não mais conseguimos enxergar e, pior que isso, saibamos valorizar.

A empatia é imediata: o autor ama o Brasil e os brasileiros, e nós adoramos aqueles que nos amam e admiram, porque brasileiro de verdade tem o ego inflado que só. Mas nem vamos entrar nesse assunto, que é muito instigante mas que foge do nosso tema. Voltemos ao livro e às viagens. O Patrick deve ser muito organizado, além de inteligente e culto. Faz links interessantíssimos entre aquilo que vê e aquilo que leu e pesquisou. Leu bem, aliás; cita bons mestres que ainda hoje são referência nos estudos sobre o povo brasileiro, como Gilberto Freyre, Claude Lévi-Strauss e Sérgio Buarque de Holanda. E cita Clarice, duas vezes, porque tem bom gosto ou porque foi bem assessorado, disso não sei.


Como disse, sua viagem começa por São Paulo, cidade caótica, de trânsito indomável e à mercê da violência. A poluição e a falta de horizonte são fatores que obrigam o paulistano a buscar alternativas para sobreviver à falta de beleza e de espaço, numa cidade onde tudo acontece em direção ao céu, onde “tudo se apresenta sobre um único plano vertical como uma espécie de muro contínuo e cinzento de concreto”, observa muito bem o autor.

Diz o viajante que o que choca o olhar europeu, ao visitar São Paulo, não é a novidade, mas a precocidade das devastações do tempo. “O Novo Mundo é sempre novo, tanto que vestígios sucedem vestígios sem que o tempo traga uma valorização. Assim que um bairro é edificado às pressas – portanto mal na maioria das vezes -, o ciclo da degradação começa: as fachadas se descascam, a chuva e a poluição deixam manchas e sulcos, o estilo cai de moda, a ordem primitiva desaparece sob um novo frenesi de demolições.”


As observações e os comentários do Patrick ensinam a enxergar além das aparências, algo que se deve tentar praticar nos deslocamentos. Por exemplo, dizer que São Paulo é uma cidade feia é algo óbvio, ainda mais se no contexto houver uma comparação com outra cidade, como o Rio de Janeiro, cartão postal do país. Diz o autor que os que declaram que São Paulo é feia são vítimas de uma ilusão, uma vez que sua beleza selvagem não nasce de sua natureza urbana, e que somente a estética do caos pode nos ajudar a apreender esse monstro.

“Não, São Paulo nunca me pareceu feia, mas indomável, delirante e profética como o cenário de um filme-catástrofe e ébria de movimento, atarefada, ofegante... Finalmente, o que fascina nessa cidade, tão irritante para nossos hábitos de temperança, é essa surpreendente capacidade de fazer misturas, mestiçagens entre o primitivismo e a modernidade, ligando o que nós separamos.”


“Nessa turbulência, essa efervescência cuja razão não distinguimos claramente – uma espécie de condição natural -, mistura complexa de doçura e violência, de vida pública e de vida privada, de razão e afetividade, de individualismo e de clãs há uma ordem sutil que nos conduz necessariamente – se quisermos compreendê-la – a afinar nossa sensibilidade e nossa inteligência.”


Próxima parada: Rio de Janeiro. Mais uma vez, o óbvio, mas não há como não falar do Rio e dos cariocas sem falar da praia, a praia brasileira que “é um espetáculo terrestre luminoso, ensolarado, atmosférico, natal, (...) onde nosso corpo se esparrama, se dilata".

“Diz-se que Ipanema destronou Copacabana nos desfiles de tecidos minúsculos. Mas nada de seios de fora. Mal visto, esse gesto caracterizava outrora as escravas. (...) No ano passado, numa praia de Fortaleza, fui surpreendido pelo gesto de uma bela Lolita que, saindo da água, jogara com pudor sobre si uma saída de banho ligeiramente transparente como para esconder o esplendor de suas formas no espelho parabólico da concupiscência. Jean Baudrillard, fino observador, disse tudo: Os brasileiros (as) têm uma maneira de estar mais nus do que nós, pois eles estão nus por dentro. Nós apenas tiramos a roupa”.


Passagens interessantes sobre o Rio de Janeiro, numa delas me veio à memória velha canção dos Paralamas, aquela que diz – referindo-se à capital fluminense - “cidade que tem braços abertos num cartão postal, com os punhos fechados na vida real”, e o Rio me parece ser bem isso, realidade que se projeta país afora, com certeza, pois mudam as paisagens, os sotaques, mas o povo continua sendo o mesmo, compartilhando desde sempre as desigualdades sociais terceiromundistas.

É possível, tanto no Rio quanto em São Paulo enxergar a beleza implícita no contraste dessas desigualdades, e o jogo na verdade desse relato de viagem é esse, talvez a mensagem que o autor quis passar, a de que o Brasil continua a ser uma terra de contrastes, como sempre foi. Toque de poesia do autor:



“Rio, noite lá fora, jantar num clube chique na Urca. Beleza das favelas que se transformam em constelações de luzes multicolores, e escorrem dos morros para o mar como um diadema colocado sobre a cidade. Unidade sideral que se procuraria em vão durante o dia, emblema de inversões com as quais não se cessa de brincar aqui: é a miséria diurna que produz a maior beleza noturna, como se a injustiça social pudesse ser compensada, mesmo ‘esteticamente’.”

Em Parati o viajante encontra as portas das igrejas escancaradas...vem daí a deixa para falar de algo que me interessa particularmente, a religiosidade popular brasileira. Pela narrativa, imagino que o autor entrou naquela igreja de Parati no momento em que acontecia uma missa carismática, do tipo em que o povo se solta mais, cantando e até dançando, dependendo da maior ou menor exaltação do pároco. Se aqui já começamos a nos acostumar com a “performance” carismática, lá fora o lance ainda parece bem peculiar:



“Assistimos a uma pregação interativa: o padre interpela os fiéis, cita os Evangelhos, questiona, manda levantar a mão. Ele entoa em seguida um cântico, uma pequena orquestra o acompanha, a assembleia bate palmas e entra no embalo. O padre parece feliz com o ambiente, ele se volta para o fundo do coro e lança (em francês): ‘Então padre, você canta conosco?’. Sentado ao lado das crianças do coro, um velho padre francês balança timidamente a cabeça grisalha, com ar incomodado, embaraçado, sem dúvida por esse fervor bastante (demais) tropical. Esse catolicismo convivial explica-se em grande parte pelo caráter intimista que pode revestir no Brasil a devoção. Mais religiosidade do que religião, é um culto amável, quase fraterno, que não cabe bem no cerimonial e suprime as distâncias. Diz-se que mesmo a ponta do Vaticano, se se instalasse no Brasil, não resistiria à irreverência local e que em alguns dias o papa teria um apelido de camarada.” 


Em Salvador o viajante se pega olhando para o céu noturno em busca do Cruzeiro do Sul e a Bahia tem as noites mais lindas que alguém pode ver na vida.... isso quem diz sou eu, mas não são as estrelas do céu de Salvador que impressionam o viajante francês, senão os tambores do Olodum, os de lá do Pelourinho, “num ambiente superaquecido, apimentado pelo cheiro de suor, os rostos hesitando entre furor dionisíaco e terror místico, os dançarinos, em frente à orquestra, avançavam por ondas sucessivas, como imantados pela energia radiante das percussões”. Diz o Patrick que não é o rumor do trânsito que ritma Salvador, mas o bater incessante dos tambores que, de quando em quando e onde quer que se esteja, marca as horas. Impossível discordar dele.



Brasília, BSB, “asfalto e concreto demais, cidade matemática onde se sente que um samba não pode nascer”, escreve ele. Fiquei surpreso ao ler o que vem a seguir, uma passagem que tem muita afinidade com uma das canções mais marcantes e idolatradas da Legião Urbana, Faroeste Caboclo: “Uma cidade de faroeste, humana e suja, miserável e cheia de vida, com suas reverberações, seus ônibus, suas mães de família, trombadinhas... enfim, um repouso benfeitor para os aventureiros e para o olhar do visitante, uma cidade perfeita!”


Falar de Brasília é também falar de Niemeyer, evidentemente. Pois não há neste país cidade onde a arquitetura seja mais discutida do que na capital. Ame ou odeie (seu trabalho), Oscar Niemeyer é um gênio, mas nem por isso temos que gostar do seu estilo, de sua marca. Embora suas obras nem sempre agradem (como aquela pavorosa mão sangrenta no Memorial da América Latina, em Sampa), jamais alguém fica indiferente à presença de algum de seus inúmeros e representativos trabalhos. Tudo bem, nem Gaudí consegue agradar todo mundo sempre, então não tem problema.

E a questão é que a arquitetura brasiliense vai muito além das aparências, cheia de simbolismos que só. Curiosamente, o autor não se prende à arquitetura da capital, mas à imensidão mágica do céu do planalto central:


“Na Praça do Três Poderes, desesperado por não ter nada que se pudesse fotografar, entendo que ali estou pelo ‘amor ao céu’. Para o céu imenso de Brasília, ‘The Big Sky’ – diriam os americanos-, céu cuja doçura caída sabe-se lá de onde parece quase nos fazer esquecer a terra. Era então essa a finalidade da viagem? Seu oriente? A imensidão, simplesmente. Imantada pela visão nostálgica dessas nuvens de altitude ao mesmo tempo tão longe e tão perto, suspensas na vastidão de um céu original que parece ter sido pintado por Dalí ou Tanguy, entrevistas outrora em algum documentário e que me acenavam. O que havíamos esquecido não nos esquece. Sonhar, viajar, têm por base um sous-venir que não cessa, que persiste em sobrevir ao seio de tudo. Já que no mundo falta espaço, a dimensão é a atração dos turistas que nos tornamos. Só a Sibéria, a Antártida e o Saara podem rivalizar com a imensidão brasileira, mas o clima naqueles lugares é desastroso. É por isso que o governo brasileiro, em sua sabedoria, construiu Brasília e cravou suas florestas virgens de estradas...”

Por mais que tenha vontade de compartilhar cada passagem dessas suítes brasileiras, sinto que já escrevi mais do que deveria; já li muitos artigos e algumas obras de visitantes estrangeiros escrevendo sobre o Brasil, mas nenhum escritor me pareceu captar tão bem o ethos brasileiro quanto o Patrick Corneau.

Gostei demais de sua obra, que segue o estilo da escrita fragmentária, tipo de literatura onde “o narrador viajante desloca-se, com frequência sem transição, da nota histórica, lendária ou própria do guia do viajante para o devaneio poético, da descrição da monumentalidade ou da paisagem humana para uma micro-narrativa de enredo sentimental ou aventuroso, sempre fiel a uma estratégia da alternância, potenciando o caráter dinâmico de uma escrita fragmentária e de algum modo adotando a técnica do patchwork” (Maria de Fátima Outeirinho, “Fragmento e Narrativa de Viagem” em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6712.pdf).

Viajar é responder a um chamado, escreve o Patrick Corneau, já finalizando seu texto na estimulante Suíte Brasileira III (Travelogue). O trecho que transcreverei abaixo é das coisas mais bonitas e mais profundas que já li sobre a arte de viajar, algo que eu adoraria ter escrito algum dia. Brasileza é uma obra para ser lida e relida com imenso prazer. Merci, Patrick!



Que proveito tirar da viagem senão o de assumir totalmente a condição de estrangeiro? A estranheza dos estrangeiros, mas também nossa própria estranheza? Um idioma que não compreendemos, uma sociedade e um cotidiano que parecem nos rejeitar, céus que não nos viram nascer. Nada para nos confortar. A viagem quebra em nós uma espécie de cenário interior. Não é mais possível dissimular: eis-nos desnudos. A cortina dos hábitos, a tessitura confortável dos gestos e das palavras em que o espírito se apazigua se ergue lentamente e desvela a face pálida da inquietude.

Ficamos reduzidos ao osso das coisas, e cada coisa nos remete a nossa angústia, a qual lhe dá sorrateiramente seu preço. O homem está face a face consigo mesmo. E é, no entanto, por aí que a viagem o ilumina. Um grande desacordo acontece entre ele e as coisas. Entre ele e essa parte de si mesmo à qual era acostumado e que não reconhece mais. Nessa falha, a música do mundo entra mais facilmente. Nesse despojamento de si, a menor árvore e o sorriso mais leve se tornam a mais terna e a mais frágil das imagens. De novo se aprofunda em nós, com que uma fome da alma, um fervor reencontrado: não estamos prestes a acolher os rostos dos homens enraizados em sua terra, os monumentos nos quais séculos se resumem. Por último, essa fração de nós mesmos desprendida da vida trivial onde rastejamos.


Para dar a cada ser e a cada objeto seu valor de milagre, foi-nos preciso pagar o imposto de um curto abandono. É um de meus exercícios favoritos quando viajo: mudar de pele, pegar um destino-minuto, entrar na vida de um outro e trocar sua opacidade pela minha. As oportunidades são múltiplas para quem não se resigna em ser si mesmo e que, como o Zelig de Woody Allen, entra no molde ou no papel que lhe propõem. Os restaurantes, principalmente quando o serviço demora, são perfeitos observatórios da diversidade humana e favorecem esse exercício de compaixão.

Assim era aquela pizzaria no centro de Manaus, onde parecia ter encalhado uma clientela de viajantes que não queriam se afastar de seus hotéis. As pessoas sozinhas são sempre mais interessantes: não solicitadas por uma conversação ou a presença de outrem, parecem menos protegidas. Um olhar que vagueia pelo salão diz mais do que uma conversa educada. Um gesto ligeiramente inesperado revela de repente uma existência com seu peso de fatalidade, suas dificuldades, suas falhas secretas. (...)


“A finalidade da viagem é a de sentir-se próximo dos Longínquos e consanguíneo dos Diferentes. Sentir-se em casa na concha dos outros. Como um bernardo-eremita. Mas um bernardo-eremita planetário. (citando Jacques Lacarriere, escritor viajante)”.
Saudades do Brasil...



No vôo noturno São Paulo/Paris, dois franceses se jogam pesadamente nos bancos à esquerda e à direita do meu. Com roupas de “mochileiros em férias”, eles começam tirando os sapatos, enrolando-se nas cobertas e botando os pés descalços na divisória entre nossos assentos. Um deles inclinou a poltrona antes da decolagem e passou os braços para trás do encosto, o que parecia incomodar o passageiro de trás. Apoderando-se de minhas duas braçadeiras (“é ‘meu’ lugar”), eles vão passar uma parte do vôo falando por cima de minha cabeça, passando revistas sem emitir o mínimo “com licença”.

Volta à França. Acabaram-se gentileza, sorrisos e boas maneiras. Bem-vindo ao mundo moderno da indelicadeza e da pangrosseria. Desgraça. Saudades do Brasil.
Leia: Brasileza: Suítes Brasileiras. Patrick Corneau. (trad. Mônica Cristina Corrêa). São Paulo: Perspectiva, 2007