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domingo, 30 de abril de 2017

Cadernos de viagem: a arte da descoberta e da aventura

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Em um recente artigo publicado no periódico El País, em que o autor discute o impacto do turismo de massa sobre a produção de literatura de viagem, havia algumas indicações de literatura odepórica muito relevantes, sendo que uma delas fez meus olhos brilharem: Explorer’s Sketchbooks: the Art of Discovery & Adeventury.

Tenho uma caixa de arquivo com uma dezena de sketchbooks, que são aqueles pequenos caderninhos de rascunhos, objetos simpáticos que usamos quando queremos ditar um ritmo mais contemplativo ao ofício da escrita, em contraste com os sempre impessoais aparelhos eletrônicos, necessários e tediosos na mesma proporção.



Esses cadernos de anotações também são muito usados para esboços de desenhos e pinturas. Eu que não consigo desenhar um ovo, sempre morri de inveja dos solitários desenhistas de museus, aqueles que vivem alheios à multidão, num cantinho da sala, tentando capturar detalhes de uma tela, as mãos e os pés de uma dama renascentista, a fruta de uma natureza morta, o sorriso pétreo de uma criança esculpida em mármore... tão poética a cena quanto o resultado que vai aparecendo no contato do grafite com o papel.



Uma das coisas que me fascinam quando leio sobre a vida dos grandes escritores e viajantes, é que todos eles carregavam esses cadernos de notas e não há como não se entusiasmar quando se tem a oportunidade de admirar o conteúdo desses pequenos objetos de prazer. Não é exagero meu: o Huw Lewis-Jones e a Kari Herbert também pensam assim, tanto que pesquisaram bastante e publicaram uma obra de encher os olhos: trezentas páginas, setenta exploradores/as e mais de uma centena de pinturas, bosquejos e páginas de diários de viagem que fazem a alegria de qualquer apaixonado pelo tema.



Livro gostoso de folhear, daqueles que abrimos aleatoriamente, pulando páginas, namorando ilustrações, escaneando frases com o olhar, um ato de prazer. Corri os olhos pelo índice em busca de um nome e ele estava lá: Bruce Chatwin, de quem já falamos aqui no blog, escritor e aventureiro que muito admiro e quem praticamente tornou os moleskines um objeto de desejo. O Bruce fazia estoque desses caderninhos e me recordo que foi depois que li O Rastro dos Cantos que soube da existência deles. Fui conferir, meu exemplar todo grifado na página 223:





“Na França, esse tipo de caderno é conhecido como carnet moleskine: sendo moleskine, neste caso, a tela preta que cobria a encadernação. Cada vez que ia a Paris, comprava uma nova leva (...) As páginas eram quadriculadas, e a capa e a contracapa eram mantidas fechadas por meio de um elástico. Eu os tinha numerados em série. Escrevia meu nome e endereço na folha de rosto, oferecendo uma recompensa a quem o achasse. Perder um passaporte era a menor das preocupações; perder um caderno de anotações era uma catástrofe”.




Concordo com o Chatwin: alguns desses moleskines, hoje, valeriam alguns milhares de dólares. Para além da importância literária e documental dessas cadernetas, há a questão do fetiche; ter em mãos um manuscrito de um autor admirado é estar o mais próximo possível de sua essência, talvez o mesmo sentimento de um religioso ao tocar as relíquias de um santo de devoção. Para muitos leitores e escritores, tal afirmação não é um exagero.

Voltemos à obra, página 86, Bruce Chatwin:




“Os cadernos de capa negra que Chatwin regularmente comprava em Paris tornaram-se lendários hoje. Eles são preenchidos com breves apontamentos, rascunhos de parágrafos, linhas de poesia, descrições fugazes de pessoas, encontros fortuitos, e são difíceis de decifrar. Quando ele saía para uma jornada, frequentemente pegava qualquer caderneta que estivesse à mão; não é incomum um único moleskine incluir trechos de muitas jornadas: América do Sul, Austrália, Rússia, África – tudo junto, e ele raramente datava suas entradas. (...) Chatwin sempre disse que havia se tornado um escritor ‘para justificar sua própria inquietação’.”

Volto algumas páginas e encontro Franz Boas, nome que conheci numa aula de antropologia e a quem devo algumas boas inspirações em meu projeto de mestrado. Boas foi agraciado com uma vida longa e próspera, e Gilberto Freyre foi seu aluno na Universidade de Columbia nos anos 1920.



Franz Boas foi também um bom viajante. Entre 1883 e 1884, aos vinte e cinco anos, foi viver com os esquimós na Colúmbia Britânica, viagem que foi determinante em sua carreira na antropologia:

“Boas chegou no final de agosto de 1883 e estabeleceu sua base numa estação  escocesa de caça às baleias na ilha de Kekerten. Dali, fez extensas viagens com os Inuit, de trenó puxado por cães e de barco, mapeando a costa e registrando os locais com os nomes indígenas. Essa imersão na cultura Inuit durou um ano. Ele vestiu as roupas dos esquimós, comeu de sua comida e viveu em casas de gelo; aprendeu sua língua e seus modos de fazer as coisas, e ouviu atentamente as suas histórias, crenças e lendas.”



“Ao deixar a região gelada, Boas concluiu que se fazia necessária uma abordagem antropológica totalmente nova. Ele viria a se tornar uma figura distinta e muito influenciadora em seu meio, pioneiro no ‘campo das quatro abordagens’ – uma disciplina de metodologia combinando arqueologia, linguística, antropologia física e antropologia cultural – ao mesmo tempo defendendo os valores da pesquisa exaustiva, do trabalho de campo e do conhecimento folclórico.”

Franz Boas foi um ardente opositor ao racismo e ao fascismo e por sua abordagem holística no estudo do comportamento humano, ficou conhecido como o pai da antropologia moderna. Nos tempos livres, enquanto se encontrava preso no barco, esperando o gelo derreter para poder navegar adiante, gostava de desenhar icebergs e mapas dos territórios mapeados:



Outra figura fascinante documentada na obra de Lewis-Jones e Kari Herbert é Freya Stark. Sua vida foi literalmente uma grande aventura e é inacreditável que não tenhamos uma obra de sua vasta produção literária publicada no Brasil.



Nascida em Paris, Freya Stark passou grande parte da infância no norte da Itália. Criança doente, sua válvula de escape era a leitura das Mil e Uma Noites. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ela se voluntariou como enfermeira no front italiano e se virou como contrabandista para poder pagar suas despesas.

A todo o momento o Oriente lhe chamava. Ao chegar a Beirute em 1927, em sua primeira viagem pelo deserto, ela já conseguia conversar em árabe e estava aprendendo o persa. Devia aprontar muito em suas deambulações e dizem que foi uma mulher divertida, com um senso de humor peculiar, também presente em suas narrativas de viagem. Dizia que acordar sozinha em uma cidade estranha era uma das sensações mais prazerosas do mundo, um chamado à aventura.




Conheceu líderes de rebeliões, foi presa pelas autoridades francesas por suspeita de espionagem, mas jogou um charme e conseguiu se livrar da cadeia, antes de se aventurar pelo interior do Líbano e da Síria, onde nenhum ocidental havia ido antes dela. Atravessou o desfiladeiro de Chala, no Afeganistão e seguiu o rio Alamut através do Iran, corrigindo mapas já existentes da região por onde passava, enquanto sobrevivia à malária, dengue, disenteria e sarampo.

Nas selvas de Lamiasar ela descobriu a fortaleza da famosa seita ismaelita da Ordem dos Assassinos, escalando a escarpa de meias porque o caminho era muito escorregadio para seus calçados. Seus mapas precisos e a narrativa de sua viagem renderam-lhe medalhas da Royal Geographical Society e da Royal Asiatic Society.




Freya escrevia sobre suas andanças nas cartas que enviava à sua mãe e ao seu editor, escritas sob a sombra de árvores e de ruínas, em viagens que duraram décadas e renderam mais de vinte livros, muitos dos quais hoje considerados clássicos da literatura odepórica. Excêntrica, sem rodeios e segura de si, Freya foi uma mulher à frente de seu tempo.




Depois da Segunda Guerra, visitou a Ásia Central, o Afeganistão, a China e os Himalaias; aos 60 anos ela retraçou a rota de Alexandre, o Grande, percorrendo o sul da Turquia; aos 80, desceu o Eufrates de jangada. Continuou a viajar até os 92 anos. Faleceu em sua casa, na Itália, aos cem anos de idade. Em seu tributo, os jornais italianos nomearam-na rainha nômade; na Bretanha, o escritor Lawrence Durrell declarou que ela foi a “poeta da viagem”, uma das mulheres mais memoráveis de nosso tempo. Entretanto, Freya se enxergava em termos mais modestos: “vejo-me uma peregrina, mera residente temporária nesse mundo”. Palmas prá ela.


Cada um destes três personagens citados acima, tão diferentes entre si, assim como os outros sessenta e sete retratados, têm em comum o fato de que, em um determinado estágio de suas vidas, tiveram que assumir riscos. O texto introdutório, escrito a quatro mãos pelos autores, foi escrito com maestria e traz muitas passagens dignas de reflexão; costuram suas palavras colhendo notas peculiares dos exploradores que aparecerão nas páginas adiante.



Tudo, afinal, se entrelaça, porque a vida sempre foi e sempre será uma aventura, cada qual com sua jornada cheia de surpresas. Muitos morreram na estrada, muitos sucumbiram à jornada, mas, lembram os autores, o maior risco sempre será o de não sair de casa. Em outras palavras, não ouvir o chamado à aventura.



“A justificativa de Ernest Shackleton para sua vida instável, era simples: ‘Eu escolhi a vida acima da morte para mim e para meus amigos. Creio que está em nossa natureza explorar, lançar-se ao desconhecido. A única falha verdadeira seria não buscar, não explorar.’ E para muitos, mais do que ser um registro do desespero ou de angústia, escrever em um caderno de  notas era um momento de pura alegria: uma chance de descrever a beleza vista ou rascunhar algo memorável, como tirar uma fotografia, uma imagem para a posteridade,  uma descoberta para ser visualizada e compartilhada.”




O ponto alto dessa obra eclética talvez esteja no fato de que nem todos os viajantes são pessoas conhecidas ou famosas; alguns nunca foram publicados e nesse compêndio encontraremos exploradores pioneiros, topógrafos, botânicos, artistas, caçadores de plantas, ecologistas, antropólogos, escritores, visionários, mulheres e homens curiosos em enxergar e registrar o que poderia existir além do horizonte.



A riqueza desses registros nos cadernos de viagem é imensurável: há notas sobre a chegada ao cume do Monte Everest, a primeira visão do Polo Sul, os primeiros relatos das Cataratas de Vitória, do coração dos grandes desertos e do interior da tumba de Tutankhamun. Também veremos os primeiros desenhos dos icebergs, de borboletas e insetos raros, monumentos sagrados e de antigas inscrições, e das primeiras representações dos nativos americanos, caçadores esquimós e reis africanos.



Como dizem os autores, o processo de criação dessa obra foi em si uma exploração, uma caça ao tesouro. Quanto mais avançamos na leitura, mais desejamos cair na estrada, sair de casa, não importando a distância, mas sim a mudança do olhar, porque a aventura pode estar logo ali no próximo quarteirão. Temos que voltar a seguir nossos instintos, nossos impulsos, para conseguir ouvir o chamado.



“Na próxima vez que você programar uma viagem, leve um pequeno bloco de notas junto com seus equipamentos eletrônicos na mochila, ou melhor ainda, deixe esses aparatos em casa. Preencha as páginas  dos seus cadernos com aventuras e experiências. Siga a sua curiosidade. E apenas certifique-se de voltar para casa e compartilhar a sua história.”

Leia: Explorers´Sketchbooks: The Art of Discovery & Adventure. Huw Lewis-Jones and Kari Herbert. Chronicle Books, 2017.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Notas de viagem sobre a Argélia, by Albert Camus

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Coisa boa é ter em mãos leitura de primeira grandeza. Acabei de ler uma obra encantadora de Albert Camus da qual nunca havia ouvido falar: Núpcias, O Verão. O título estranho tem uma explicação simples: trata-se de duas obras, Núpcias, publicada em 1938, e O Verão, lançada em 1954. Em algum momento alguém sacou que as duas combinavam, daí que juntaram uma com a outra e pronto: leve dois, pague um e viva feliz.

Núpcias (Noces) e O verão (L’été) entram na categoria de ensaios da obra de Camus, mais conhecido na literatura por seus romances de títulos breves e de leitura arrebatadora: O estrangeiro (1942), A Peste (1947), A queda (1956), e O primeiro homem (publicada postumamente em 1995).

Nesses ensaios, relativamente curtos, Camus relata as impressões de suas viagens pela terra natal, a Argélia, num período que vai de 1934 a 1952, evocando lembranças de cidades marcantes em sua biografia, como Tipasa, Djemila, Orã e Argel. Nessas evocações, cenários se repetem: as ruínas, a natureza mediterrânea, o mar. A soma disso tudo ficou para sempre impregnada naquilo que se transformou Camus, e isso serve também para refletirmos sobre como somos afetados pelo lugar em que nascemos, talvez sem termos consciência de como a geografia de um lugar ou região, de alguma maneira, molda o nosso ser.





“À força de indiferença e de insensibilidade, pode acontecer que um rosto se incorpore à grandeza mineral de uma paisagem. Assim como certos camponeses da Espanha chegam a assemelhar-se às oliveiras de suas terras, assim também os rostos de Giotto, despojados das sombras irrisórias onde a alma se manifesta, terminam por incorporar-se à própria Toscana...”

Albert Camus era ainda muito jovem quando escreveu Núpcias, não tinha mais do que 25 anos, mas a pouca idade só serve para atestar a sua genialidade. Quando releio as passagens que fui marcando ao longo da leitura fico fascinado pelo domínio que ele possuía da escrita; a simplicidade de suas palavras e a maneira poética de descrever cenários e paisagens não conseguem esconder a profundidade de sua natureza filosófica, o que confere à sua leitura uma experiência literária fascinante.

Trabalho difícil é escrever sobre Núpcias, O Verão, porque nenhuma resenha sobre essa obra seria justa em relação à grandeza que ali se encerra. É como tentar explicar a um amigo o sentimento de transcendência vivido no alto de uma montanha depois de muitas horas de caminhada; qualquer tentativa será inútil, porque há coisas que só conseguem ser compreendidas através da experiência.

Penso, enquanto digito essas palavras, que tipo de leitor gostará tanto dessa obra quanto eu gostei; tenho o hábito de supervalorizar aquilo que me agrada aos sentidos: uma leitura, um filme, uma música, essas coisas que tocam a gente profundamente dependendo do nosso estado de espírito no momento em que elas aparecem em nosso caminho.

No caso do Camus, acho que me impressionei com esse texto porque o li com especial atenção, fruindo vagarosamente cada parágrafo, tentando captar toda a emoção, por vezes alegre, outras vezes melancólica, de um autor em começo de carreira, já dando sinais de que levava a vida mais a sério do que de fato se deveria levá-la – ou estarei eu errado? Estão ali, pontuando seu texto, as questões sempre presentes em sua obra, a solidão, a morte, o silêncio, o senso de justiça....

A lucidez de suas observações sobre as pessoas e a natureza, aliada à sua privilegiada inteligência filosófica faz com que passagens simples como a descrição de um banho de mar ganhem uma dimensão quase mágica: como alguém pode ser tão bom com as palavras? Camus consegue essa proeza, e com isso, com esse dom que lhe é peculiar, transforma lembranças de viagem em poesia.

O tipo de leitor que apreciará essa obra é aquele que busca entender o mundo para além de suas aparências. Será esse o seu caso? Pois então faça um teste: selecionei algumas passagens de Núpcias, O Verão aqui no Odepórica para que você possa por conta própria verificar se minhas impressões dessa obra são exageradas ou se tenho um pouco de razão naquilo que acabo de escrever. Boa viagem e Namastê.




Núpcias em Tipasa

É preciso que eu fique nu e, depois, mergulhe no mar e que, ainda perfumado de essências da terra, possa lavá-las nas águas desse mesmo mar, estreitando em meu corpo o abraço pelo qual suspiram, lábio a lábio, há tão longo tempo, a terra e o mar. Uma vez dentro d’água, é o sobressalto, a subida de uma viscosidade fria e opaca, depois o mergulho no zumbido dos ouvidos, o nariz a pingar e a boca amarga – o nado, os braços envernizados de água, saídos do mar para se dourarem ao sol e movidos numa torção de todos os músculos, a corrida da água sobre meu corpo, a posse tumultuosa da onda pelas minhas pernas – e a ausência de horizonte.

Na praia, é a queda na areia, abandonado ao mundo, uma vez mais de volta a meu peso de carne e osso, embrutecido de sol, lançando de longe em longe um olhar para os meus braços, onde as poças de pele seca deixam a descoberto, à medida que a água escorre, a penugem loura e a poeira de sal.

Aqui, compreendo o que se denomina glória: o direito de amar sem medida. Existe apenas um único amor neste mundo. Estreitar um corpo de mulher é também reter de encontro a si essa alegria estranha que desce do céu para o mar. Daqui a pouco, quando me atirar no meio dos absintos, a fim de que seu perfume penetre meu corpo, terei consciência, contra todos os preconceitos, de estar realizando uma verdade que é a do sol e que será também a de minha morte. Em certo sentido, é justamente a minha vida que estou representando aqui, uma vida com sabor de pedra quente, repleta de suspiros do mar e de cigarras, que agora começam a cantar. (...)




(...) Ao entardecer, encaminhei-me para uma zona mais bem tratada do parque, toda ajardinada, situada à beira da estrada nacional. Ali, ao sair do tumulto dos perfumes e do sol, no ar agora refrescado pela tarde, o espírito se acalmava e o corpo, distendido, saboreava o silêncio interior que nasce do amor satisfeito.

Sentei-me num banco. Olhava o campo arredondar-se com o dia. Sentia-me saciado. Sobre mim, uma romãzeira deixava pender os botões de suas flores, cerrados e cheios de nervuras como pequeninos punhos fechados que contivessem toda a esperança da primavera. Havia alecrim, atrás de meu banco, mas eu percebia apenas o perfume do álcool. Colinas emolduravam-se entre as árvores e, mais longe ainda, um debrum de mar por cima do qual o céu, como vela enfunada, repousava toda a sua ternura. Sentia em meu coração uma estranha alegria, a mesma que nasce da consciência tranquila.




O vento em Djemila

Há lugares onde o espírito morre a fim de que nasça uma verdade que é a sua própria negação. Quando estive em Djemila, havia vento e sol, mas isso é outra história. O que é preciso dizer, em primeiro lugar, é que ali reinava um vasto silêncio, pesado e compacto – algo semelhante ao equilíbrio de uma balança. Pios de pássaros, o som da flauta de três orifícios, um patear de cabras, rumores que vinham do céu e outros tantos ruídos compunham o silêncio e a desolação desses lugares.

(...) Por esse árido esplendor andáramos a vagar o dia inteiro. Pouco a pouco, o vento, que mal se percebia no inicio da tarde, pareceu-nos crescer com o passar das horas e ocupar novamente toda a paisagem. Soprava de uma abertura entre as montanhas longínquas, a leste, chegava apressado do fundo do horizonte e vinha cabriolar em cascatas por entre as pedras e o sol. Sem parar, zunia com força através das ruínas, girava num circo de pedras e de terra, banhava os montões de blocos devastados pelo granizo, envolvia cada uma das colunas com seu sopro e depois ia derramar-se com gemidos incessantes sobre o foro que se abria ao céu.





Sentia-me estalar ao vento como os mastros de um navio. Esvaziado pela metade, os olhos a arderem e os lábios crestados, minha pele secava a um ponto tal que não mais me pertencia. Antigamente, graças a ela eu decifrava a escritura do mundo. Nela o vento costumava traçar os sinais de sua ternura ou de sua cólera, aquecendo-a com seu hálito de verão ou mordendo-a com seus dentes de gelo. No entanto, tão longamente roçado pelo vento, sacudido durante mais de uma hora e aturdido de tanto resistir, acabei por perder a consciência do contorno do meu próprio corpo.

Tal um seixo polido pelas marés, assim estava eu, polido pelo vento, desgastado até a alma. Sentia-me parcela daquela força que me fazia oscilar; cada vez uma parte maior dela; até que finalmente eu era essa própria força, confundindo as pulsações do meu sangue com as grandes batidas sonoras do coração onipresente da natureza.



(...) Logo, difundido pelos quatro cantos do mundo, descuidado, esquecido de mim mesmo, sou este vento e, no vento, estas colunas e este arco, estas lajes que exalam quentura e estas montanhas pálidas que circundam a cidade deserta. E jamais senti com tanta intensidade, e a um só tempo, o desprendimento de mim mesmo e a minha presença no mundo.



O verão em Argel

(...) Da caixa de Pandora, na qual fervilham os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos. Não conheço símbolo algum mais emocionante do que este. Porque a esperança, ao contrário do que se crê, equivale à resignação. E viver não é resignar-se.

Esta, acima de tudo, é a austera lição dos verões da Argélia. Mas a estação já estremece e o verão oscila. As primeiras chuvas de setembro, após tantas violências e obstinações, são como as primeiras lágrimas da terra libertada, como se, durante alguns dias, todo o país se envolvesse em ternura. Enquanto isso, desprende-se das alfarrobeiras um perfume de amor que invade toda a Argélia. À noite ou depois da chuva, o ventre regado por um sêmen com odor de amêndoa amarga, a terra inteira repousa de ter sido possuída pelo sol durante todo o verão. Então, novamente, esse odor consagra as núpcias do homem e da terra, despertando em nós o único amor verdadeiramente viril deste mundo: perecível e generoso.



O deserto (viagem à Itália)


(...) Não existem muitas verdades das quais o coração tenha certeza. E eu compreendia bem a evidência dessa afirmativa, certo entardecer, quando a sombra começava a afogar as vinhas e as oliveiras dos campos de Florença numa grande tristeza muda. Mas nessa região a melancolia é apenas um comentário da beleza. E no trem que corria pela tarde adentro sentia qualquer coisa desatar-se em mim. Posso hoje duvidar de que aquela sensação, embora tivesse o rosto da tristeza, se chamasse felicidade?

Sim, a lição que seus homens ilustram, a Itália as prodiga também através de suas paisagens. Mas é fácil não atentar na felicidade, porquanto ela é sempre imerecida. Mesmo na Itália. E sua graça, embora súbita, nem sempre é imediata. Melhor do que qualquer outro país, a Itália nos convida a aprofundar uma experiência que dá a impressão de nos oferecer, logo de saída, em toda a sua plenitude. Isso porque, a princípio, é pródiga em poesia, para melhor esconder sua verdade.

Seus primeiros sortilégios são ritos do esquecimento: os loureiros rosados de Mônaco, Gênova cheia de flores e odores de peixe, e as tardes azuis da costa liguriana. Depois, enfim, Pisa, e uma Itália que perdeu o encanto um pouco vulgar da Riviera. Mas ela continua sendo fácil – e por que não cedermos, durante certo tempo, à sua graça sensual?

(...) Florença! Um dos únicos lugares da Europa onde compreendi que no íntimo de minha revolta havia um consentimento latente. Em seu céu, mesclado de lágrimas e de sol, aprendi a submeter-me à terra e a deixar-me abrasar na chama sombria de seus festejos. Eu sentia... mas como expressá-lo? Que desmesura era aquela? De que maneira consagrar a harmonia do amor e da revolta? A terra! Neste grande templo abandonado pelos deuses, todos os meus ídolos têm pés de barro.



Excerto de “O verão”

(...) Nessas praias da Orânia, todas as manhãs de verão parecem ser as primeiras do mundo. Todos os crepúsculos dão-nos a impressão de serem os últimos, agonias solenes anunciadas ao pôr-do-sol através de uma derradeira luz que escurece todos os matizes.

O mar é ultramar; o caminho, cor de sangue coagulado; a praia, amarela. Tudo desaparece com o sol verde; uma hora mais tarde, a lua começa a jorrar das dunas. Nesses momentos, as noites se fazem incomensuráveis sob a chuva de estrelas. Por vezes cruzam-nas tempestades, e os relâmpagos escorrem sobre o dorso das dunas, empalidecem o céu, pondo na areia e nos olhos clarões alaranjados.

Mas nada disso se pode compartilhar. É necessário tê-lo vivido. Tamanha solidão e grandeza dão a esses lugares um rosto inesquecível. Ao nascer da madrugada frágil, passadas as primeiras vagas ainda negras e amargas, é um novo ser o que fende a água da noite, tão difícil de suportar.

A lembrança dessas alegrias não é uma saudade triste; por isso sei que eram boas. Tantos anos depois, ainda persistem em algum recanto de meu coração, que tem dificuldade de ser fiel. E hoje sei que sobre a duna deserta, se eu quisesse retornar, o mesmo céu continuaria derramando sobre mim sua carga de suspiros e estrelas. Porque aqui estão as terras da inocência.

Leia: Núpcias, O Verão. Albert Camus. Meu exemplar, dos anos 80, foi editado pelo Círculo do Livro e custou menos do que uma entrada de cinema. Tradução de Vera Queiroz da Costa e Silva.