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domingo, 22 de maio de 2011

Desertos, texto da Revista Siete Leguas, by Gerardo Olivares

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Visitar livrarias é um dos meus programas favoritos quando viajo. Passei alguns dias caminhando pela Galícia, uma das mais agradáveis regiões da Espanha, e no final da viagem reservei uma semana para garimpar livros e discos que só encontro por lá.

Trouxe poucas obras na bagagem, todas elas relatos de viagem não publicados por aqui. Entrei em várias livrarias em Santiago e outras tantas na cidade do Porto, sempre em busca de títulos relativos à literatura odepórica. Por lá, ao contrário daqui, as narrativas de viagem ganham um bom destaque entre as prateleiras. Vi coleções interessantes de relatos, muitos contemplando as impressões dos grandes viajantes do século 18 e 19, mas também interessantes narrativas contemporâneas. Um dia a gente chega lá.

Mas meu primeiro post pós-viagem não será sobre algumas das obras que resenharei no futuro, e sim sobre um artigo de revista, uma revista extraordinária que descobri por acaso, numa banca de jornal de uma estação de trem. Trata-se da edição de número 37 da revista SIETE LEGUAS (VIAJES DEL SIGLO XXI), publicada pela editora El Mundo, na Espanha.

Fiquei fascinado pela publicação e corri atrás de edições anteriores sem sucesso. Há pouca informação na internet sobre a revista, que não tem site próprio. Descobri que são editados apenas 4 números por ano (um para cada estação do ano) e que os textos são escritos por viajantes de prestígio e não por repórteres enviados pela redação. Por conta disso, as matérias ganham muito mais profundidade do que se costuma ver em publicações do gênero, que na verdade tratam das viagens quase que exclusivamente sob o ponto de vista turístico.

A edição 37 (Primavera) traz os seguintes artigos: Ilha de Páscoa, Cantábria, Guatemala e Bruxelas; um longo texto repleto de imagens fantásticas sobre o famoso festival das cores, o Holi, que dá as boas vindas à estação primaveril na Índia; um Cuaderno de Viaje, que surpreende o leitor com uma belíssima editoração em formato de caderno de viagem no mais puro estilo Moleskine (as cadernetas usadas pelos viajantes mundo afora e que custam muito mais do que você gostaria de pagar por uma caderneta) sobre o Quênia, e por fim o texto sobre os Desertos, meu escolhido para esta postagem.

Como você pode notar, são poucas matérias, mas todas elas muito bem escritas, com boas fotos e boas indicações de pesquisa para quem pretende seguir os passos do autor (a) da reportagem (o de sempre: quando ir, o que ler, como chegar, documentação, e o merchandising básico, evidentemente). É isso.

Escolhi transcrever a matéria sobre os desertos simplesmente porque sou fascinado por eles, embora nunca tenha estado de fato em algum. Talvez me contente em apenas ler as impressões de outros viajantes e de como o ser humano reage a uma experiência tão forte como deve ser a de passar alguns dias ou semanas imerso numa imensidão de areia e vivendo sob temperaturas extremas de frio e de calor. Tenho a mesma fascinação pelos relatos de montanhistas, como os de John Krakauer, mas decididamente desisti de querer conhecer os topos do mundo pelo mundo afora.

O que quero dizer com isso é que muitos de nós nos sentimos fascinados por alguns lugares específicos do planeta, lugares tão díspares como geleiras e desertos, mas nem por isso cogitamos uma aventura por essas paragens. Daí o encanto da literatura, que consegue nos levar até lá sem que tenhamos que sair de casa. Para muitos de nós, a viagem que se faz pela leitura já é o suficiente para alegrar o espírito e alimentar os sentidos. Quando não se pode – ou não se quer – por os pés na estrada, essa ainda é a melhor alternativa. Namastê!


Os tuaregues afirmam que o deserto de Ténéré é uma terra vazia que serve somente para ser atravessada. Em 2002 tive a oportunidade de atravessá-lo acompanhando uma caravana de camelos que se dirigia às minas de sal de Fachi.

Era o deserto mais incrível no qual eu jamais havia estado, a mãe de todos os desertos. Mil quilômetros de areia sem o mínimo resquício de sombra onde abrigar-se, sem o menor sinal de vida. O deserto dentro do deserto, a natureza morta, um pedaço de terra que os tuareg sempre temeram em atravessar.

Ibrahim, o chefe da caravana, não entendia por que os europeus se sentiam tão atraídos pelo deserto: “Não há nada, só areia, vento e silêncio”, costumava me dizer. Os desertos têm me cativado desde pequeno e não sei muito bem por quê. Provavelmente por seus infinitos horizontes; por seus fabulosos entardeceres; pelas gentes que os habitam; pelos sons do silêncio; pela solidão; por sentir a força da natureza, a insignificância do ser humano frente a ela; a dimensão do espaço; a profundidade do firmamento nas noites de lua nova.... A paz.

O primeiro deserto em que estive foi com meu pai no Marrocos, no começo dos anos oitenta, quando eu estava por volta dos dezoito anos. Voltei fascinado daquela viagem, tanto que desde então visitei ou atravessei praticamente todos os desertos com exceção da península arábica e o deserto australiano.

Em 1990 queria percorrer o deserto do Saara argelino e chegar até a fronteira com Mali, um sonho que acalentava havia muitos anos. Tentei conseguir para a empreitada um 4x4, mas como não foi possível, tive que me virar com o que possuía: um carrinho popular no qual a duras penas eu conseguia caber (meço quase dois metros de altura). Era isso ou nada. Foi a minha primeira grande viagem pelo Saara e assim a recordo:

Acabo de cruzar a fronteira entre o Marrocos e a Argélia. Viajo a bordo de um Seat Panda em uma complicada missão de chegar até à longínqua fronteira com Mali; O termômetro marca 51º C. Circulo pela N-6 em paralelo com a fronteira marroquina até o sul, em direção ao oásis de Reggane, porta de entrada do mítico e desconhecido deserto de Tanezrouft.

Às dez da manhã o calor é tão extremo que não posso seguir dirigindo e decido parar no primeiro núcleo habitado que encontrar. À beira do caminho passo por uma placa com uma palmeira desenhada que marca a direção de Taghit, uma povoação situada a uns 30 quilômetros, no próximo desvio à esquerda.

A boa estrada de asfalto logo se converte em um pequeno inferno de buracos e poeira que, junto com a temperatura do habitáculo, terminam por transformar a viagem em um autêntico pesadelo. À beira de sofrer uma insolação, entro na pequena povoação de Taghit, onde o sonho ruim dá lugar ao sossego. O destino quis que eu fosse parar em um dos oásis mais charmosos do Saara.




Taghit é o que alguém sonha em encontrar quando viaja pela primeira vez ao Saara. O povoado está formado por ruazinhas estreitas de casas de adobe vermelho, protegidas por um ksar – fortaleza do deserto – e rodeada de um frondoso palmeiral a água corre e murmura entre hortas de limões, romãs e toranjas.

Às suas costas, as dunas do Grande Erg se levantam ameaçadoras, uma constante na vida de suas gentes e que a sabedoria está conseguindo conter.

Assim que cheguei ao oásis busquei proteção sob a sombra de uma figueira enquanto submergia a cabeça na água fresca que corre pelos seus canais. Estes oásis, cruciais às caravanas comerciais entre o sul e o Mediterrâneo, foram criados pelo homem a partir da presença natural da água. Seus milenários sistemas de irrigação são autênticas obras primas de engenharia hidráulica onde se aproveita até a última gota.

Ao cair da tarde me animo a subir a duna mais alta para contemplar o pôr-do-sol. Desfrutando das magníficas vistas do palmeiral, trato de imaginar o que deveriam sentir os caravaneiros ao chegar a um desses oásis depois de suas longas e penosas travessias pelo grande deserto.

Viajo até a cidade de Tamanrasset esgotado e desesperado por encontrar alguma sombra na qual pudesse buscar abrigo. Meu intento de atravessar o Tanezrouft – que na língua tuaregue quer dizer “ali onde não há nada” – para alcançar a fronteira com Mali, foi um fracasso. O calor e a escassez de água terminaram por me convencer de que o melhor seria sair dali o quanto antes.



Sabia que a cada ano o Tanezrouft cobra um bom número de viajantes incautos e inconseqüentes como eu havia sido; suas últimas vítimas foram um casal de alemães que deixaram a música de seu 4X4 ligada a noite toda e nunca mais conseguiram dar partida. Quando os encontraram, o exército argelino descobriu que antes de morrer haviam bebido até a água do radiador.





Minha viagem até o norte me levaria pela mítica Transaariana, uma das cinco grandes rotas que atravessam o Saara de norte a sul, até o maciço de Hoggar, uma das mais belas paisagens do deserto argelino. Logo após abandonar Tamanrasset comecei a vislumbrar no horizonte seus grandes picos de pedra vulcânica.

Conforme adentrava no Hoggar e ia ganhando altura, a temperatura começou a descer e pouco antes do sol cair, o termômetro marcava reconfortantes 25ºC. Quem diria que naquela noite eu teria que me agasalhar!

Na manhã seguinte continuei na pista empedrada até Assekrem, onde o padre Focauld construiu uma ermida com o intento de difundir o cristianismo entre as tribos nômades. A cada momento eu cruzava com famílias tuareg que me ofereciam saborosas tâmaras de seus oásis e que têm a fama de ser os mais ricos da Argélia. A pista serpenteava entre um labirinto de formações rochosas que seguiam assim até o cume do Assekrem.



A duras penas cheguei, momentos antes do sol se ocultar. E é então que o Hoggar se converte em um lugar mágico: conforme a luz do sol se atenuava, os enormes espigões de pedra iam adquirindo uma tonalidade de um vermelho tão intenso que pareciam pequenos faróis salpicados na planície infinita. Pouco a pouco a paisagem ia desaparecendo, fundindo-se na negritude, deixando iluminadas somente as moles de pedra.

Em 1991 atravessei o continente americano desde o Alaska até a Terra do Fogo em um Land Rover. Um dos locais da América do Norte que mais me cativou foi um pequeno cânion situado no deserto do Arizona.





O Cânion de Chelly é uma pequena joia da natureza, um remanso de paz e de tranqüilidade, em cujas paredes verticais se guardam zelosamente desde há 2000 anos a espiritualidade e a arte dos índios anasazi, os primeiros povoadores dos Estados Unidos.

No começo de agosto o calor no deserto é sufocante. Percorro a emocionante rota 25 em direção ao sul, até a fronteira com o México. Esta estrada legendária que nasce em Búffalo (Wyoming), e atravessa de norte a sul boa parte do Far West, morre na cidade fronteiriça de El Paso, lugar no qual pretendo entrar no México. Parte de seu itinerário atravessa cenários míticos que todos já vimos nos filmes de índios e caubóis, como Monument Valley.





Antes de entrar no México faço um desvio em direção ao oeste em busca de um pequeno cânion tão desconhecido como fascinante. O Cânion de Chelly forma parte da grande reserva de índios navajo, a maior dos EUA. A melhor maneira de percorrê-lo é caminhando ou a cavalo, para admirar os petróglifos e as construções de adobe que jazem incrustadas a 200 metros de altura.

Se acima na superfície o terreno é árido e monótono, na parte baixa o ar corre fresco graças às pequenas hortas que os navajo foram cultivando no leito seco do rio desde tempos imemoriais. Não em vão, o termo navajo tem sua origem no vocábulo Navahhu, que significa “campo de cultivo em leito seco”.



É ao cair da tarde que o Cânion de Chelly mostra todo o seu esplendor. Há vários lugares para contemplar as mudanças de cor projetadas nas rochas. O melhor ponto é o mirante de Spider Rock, um dedo de pedra de 240 metros que, com o cair do sol, adquire um tom vermelho tão intenso que parece irreal.

No coração do altiplano boliviano existe outro lugar tão fascinante quanto o Cânion de Chelly. O Salar de Yuni é o maior deserto de sal do mundo e um dois cenários mais surpreendentes do continente americano. E se você tiver a sorte de atravessá-lo depois de uma tormenta de chuva, então o espetáculo é formidável.





Havia passado vários dias rodando nas ilhas do Lago Titicaca, com os índios aimaras e meu objetivo seguinte era o Salar de Uyuni, o principal destino turístico da Bolívia. Tomei a Ruta I rumo ao sul. Em Challapata parei para abastecer o carro. “Faz um frio intenso no Salar, agasalhe-se bem...”, me disse o homem enquanto enchia o tanque.

A ideia era atravessar sua desolada superfície e posteriormente entrar no Chile por uma pista que atravessa os Andes. Cheguei às suas margens no meio da tarde de um dia cinzento e as últimas chuvas haviam criado uma fina capa de água que convertia a salina em um espelho perfeito.

Ansioso por adentrar-me naquele mundo irreal, tomei referências, ajudado por um mapa e bússola, e depois de marcar o rumo, coloquei-me em marcha. Viajava sobre uma superfície salina de 10 metros de espessura e, no entanto, com o reflexo do céu tormentoso sobre a salina, parecia que estava flutuando, ou melhor, voando em um mundo simétrico através de um fantástico mar de nuvens negras e ameaçadoras. Era uma sensação muito estranha e totalmente nova.





Ao cair da tarde, as nuvens daquele horizonte indeterminado se dissiparam e o sol fez sua aparição. Decidi parar e dormir ali, em meio ao tão fabuloso cenário, montei minha cadeira e sentei-me para contemplar em silêncio aquele espetáculo.

Em 1998 atravessei todo o continente asiático desde a Espanha até Singapura, em uma viagem que durou mais de um ano e meio. Percorri 19 países e todos os desertos do continente. Viajo pelas terras altas da Anatólia Central através de uma cuidada estrada de asfalto de retas intermináveis. A luz enviesada do entardecer suaviza as cores de uma paisagem formosa que mostra toda a gama de ocres.

Vou até a Capadócia, uma das regiões mais interessantes e estranhas da Ásia Menor. De tempo em tempo aparecem pelo caminho estranhos edifícios retangulares de pedra, sem janelas e com um grande portão de entrada. Alguns foram reabilitados, e outros estão abandonados e semidestruídos.



Detenho-me em um deles e descubro que são caravanserais, antigos refúgios edificados para dar abrigo e proteção aos comerciantes e suas caravanas de camelos. A estrada pela qual viajo passa pela mais importante rota comercial que houve entre Oriente e Ocidente: A Rota da Seda. Seu estratégico enclave foi o que marcou o passado da Capadócia, uma região localizada no meio de um dos mais importantes corredores da história.

Por aqui passaram hititas, assírios, persas e gregos; o império romano, as hordas do temido Gengis Khan, seljúcidas e cristãos; seus habitantes sobreviveram a todos eles graças a um terreno que lhes permitiu esconder-se durante meses sem serem vistos. Ainda hoje é possível visitar alguns destes refúgios subterrâneos como o de Kaymakli, que podiam albergar populações de até 25.000 pessoas, equipadas com padarias, cavalariças, poços de água, etc.





Ao sul da Capadócia, em terras jordanas, se encontra um pequeno deserto conhecido como o Vale da Lua. É um soberbo cenário natural onde em 1962 foi rodado o épico filme Lawrence da Arábia. Em seu livro Os sete pilares da sabedoria, sobre sua aventura pelas longínquas terras da Península Arábica, o oficial de inteligência britânico Thomas Edward Lawrence escreveu sobre o deserto de Wadi Rum: “O entardecer carmesim nestes alcantilados e escadas inclinadas de fogo neblinoso descem até a senda amuralhada.... É um lugar imenso, solitário... como que tocado pela mão de Deus.”

As palavras utilizadas por este intrépido arqueólogo e militar fazem honra a este pequeno universo vazio e sem limites onde a areia, o vento e a água foram esculpindo ao longo do tempo uma das paisagens mais belas da Terra.

A melhor maneira de percorrer o deserto de Wadi Rum é no lombo de um camelo, onde se poderá adentrar até os lugares mais recônditos de Jebel Rum, descobrir as ruínas da casa de T.S.Lawrence ou antigos petróglifos de 4000 anos de antiguidade, e acampar sob os arcos de pedra de Burdah e Wadak para contemplar os mais belos entardeceres enquanto se desfruta da tradicional cerimônia beduína das três xícaras de café: uma pela alma, outra pela espada e outra pelo convidado.

Sobre o autor:

Gerardo Olivares é um viajante incansável. Começou a percorrer o mundo em 1987, quando ainda estudava na universidade de Madrid. Aos vinte anos pediu emprestada a vespa de seu irmão e foi para a Lapônia, onde realizou sua primeira reportagem gráfica sobre os nômades que vivem além do Círculo Polar Ártico. Regressando a Madrid, publicou sua reportagem na revista Los Aventureros, onde começou a trabalhar efetivamente pouco depois. Um ano mais tarde percorre boa parte do deserto do Saara em um carro popular - deserto que atravessaria posteriormente em várias ocasiões. Numa das viagens começou a amadurecer aquilo que seria seu primeiro grande projeto documental, “La ruta de las Córdobas”, uma viagem desde o Alaska até a Terra do Fogo, seguindo as 36 cidades, povoados e acidentes geográficos que levam o nome de Córdoba. Durante um ano e meio percorreu a espinha dorsal do continente americano, que acabou virando uma série de TV de grande audiência na Espanha. Em 1997 percorre o continente asiático, desde a Espanha até Singapura, para realizar a premiada série “La ruta de Samarcanda”, programa mais visto no canal 2 da TVE no ano 2000. É diretor e roteirista de documentários, tem 47 anos e vive em Madrid com a família. (fonte: Wikipedia)


Trilha sonora


Se você, assim como o Gerardo Olivares, se identifica com os cenários dos desertos e da cultura dos povos nômades, com certeza irá curtir os álbuns que fazem a minha cabeça. Vale a pena correr atrás:

Hisham - Somewhere in a dream





Dead can Dance - Spiritchaser



Paul Horn and Roberto Carlos Nakai: Inside Canyon de Chelly




Trilha sonora de "O céu que nos protege", a cargo de Ryuichi Sakamoto



terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mongólia, by Bernardo Carvalho

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Minha última leitura revelou-se uma grata surpresa: Mongólia, de Bernardo Carvalho, brasileiro do Rio de Janeiro que vem produzindo uma respeitada carreira literária. Já de cara adorei a capa do livro: fotos em p&b do próprio autor, dá vontade de ver o que tem dentro; um mapa da Mongólia nas páginas 7 e 8 entrega: temos relato de viagem pela frente. E dos bons.

A narrativa de Mongólia é muito interessante: um diplomata carioca aposentado recebe uma missão especial do Itamaraty. Um jovem fotógrafo havia viajado para a Mongólia há muitos meses e ninguém mais sabia do seu paradeiro. Ao diplomata coube a tarefa de enviar alguém à Mongólia em busca do rapaz aventureiro, um subordinado (também ele diplomata) que, assim que descobre de quem se trata, recusa o trabalho. Mas não era um caso a que se pudesse recusar, de modo que o enviado, chamado pelos mongóis de Ocidental, vai a contragosto cumprir sua missão, relatando os acontecimentos de sua viagem em um diário.

A partir desse ponto o leitor conhecerá a Mongólia através de duas fontes narrativas: o diário do Ocidental, lido pelo narrador principal, e o diário que o rapaz sumido escreveu, lido pelo diplomata que parte ao encontro dele. É através do diário do fotógrafo que o Ocidental tenta buscar as pistas que o levarão ao encontro do rapaz. E é pelo olhar dos dois que o leitor irá conhecer um pouco da cultura e da tradição mongol.

No que se refere às pistas deixadas pelo diário do Ocidental, dos lugares por onde andou, há uma passagem muito interessante em que o autor coloca, na boca de um personagem mongol (Purevbaatar) encarregado de guiar o Ocidental pelas estepes, o significado do termo ‘lugar’, que no contexto da cultura nômade ganha uma dimensão diferente quando comparado com a nossa compreensão da mesma palavra:

“Talvez você não tenha entendido o meu trabalho quando me contratou. Não brinco em serviço. Você me pediu para fazer o mesmo percurso que fiz com ele há seis meses. Acontece que esse percurso depende das pessoas que encontramos no caminho. Num país de nômades, por definição, as pessoas nunca estão no mesmo lugar. Mudam conforme as estações. Os lugares são as pessoas. Você não está procurando um lugar. Está procurando uma pessoa. Pois é atrás dela que eu estou indo.”

O mérito de Bernardo Carvalho reside na maneira como ele constrói o diálogo entre as personagens através de seus diários de viagem, numa linguagem simples e bastante descritiva. Vale a pena saber que o autor efetivamente viajou pela Mongólia (como bolsista, em 2002), o que de fato acrescenta à narrativa uma sensação de realidade factual que dá à história um frescor cativante.

Não posso dizer muito mais sobre o enredo sem correr o risco de entregar a surpresa guardada para o final. Por isso, vamos analisar algumas passagens que me pareceram interessantes sob o ponto de vista da literatura odepórica. O que nos revela o olhar do Ocidental? Quais foram as impressões anotadas em seu diário pelo jovem fotógrafo? Como a cultura ocidental dialoga com a cultura dos nômades? Respostas a essas questões vão surgindo aos poucos durante a leitura. Provocação, preconceito, curiosidade, temor, julgamento, tudo isso afeta e ao mesmo tempo constrói o olhar do estrangeiro. Lições que podemos aprender, nós que também adoramos viajar. Mais um motivo para encarar, com prazer, as 185 páginas de Mongólia.


Do diário do desaparecido (pág.38)

5 de julho. Voamos de Ulaanbaatar para Khatgal, na região de Khövsgöl, terra de xamãs na fronteira com a Rússia. O Antonov aterrisa aos sacolejos na pista de terra mal nivelada. Os passageiros pulam em suas cadeiras. Alguns estrangeiros se entreolham e riem. É como pousar num campo esburacado. Batnasan, nosso motorista, um homem grande e boa-pinta, nos espera com seu furgão russo ao lado da pista. Vamos para Tsagaannuur, ao contrário dos outros passageiros, que vieram passar o fim de semana às margens do lago Khövsgöl, na tranqüilidade de um campo turístico com uma paisagem alpina e familiar ao fundo. É o começo da minha viagem.

Meu objetivo é fotografar os tsaatan, criadores de renas que vivem isolados na fronteira com a Rússia, entre a taiga e as montanhas. Estão em vias de extinção. Abastecemos em Khatgal. O vilarejo tem jeito siberiano. Não há um bairro de iurtas, como na maioria das cidades da Mongólia. As iurtas – ou gers, em mongol – são tendas circulares, com estrutura de hastes de madeira, cobertas por uma camada de feltro no interior, outra intermediária de tecido impermeável ou plástico e por último uma lona branca, que funcionam como isolantes no calor ou no frio. Mantêm o frescor no verão de trinta graus e o calor no inverno de menos trinta.

A fenda redonda no topo serve tanto de saída para a chaminé do fogareiro central como de ventilação, e é de especial utilidade durante as tempestades de areia mo deserto. Serve também de relógio de sol, deixando entrar os raios que, ao iluminarem progressivamente diferentes pontos, marcam as horas do dia. A porta, de madeira, fica sempre virada para o sul, por causa do sol provavelmente.

Há todo um cerimonial e uma série de regras de comportamento para quem entra numa iurta, a começar pela interdição de bater na porta, que é sagrada. Bater indica hesitação do viajante e, por conseguinte, constitui uma ofensa aos moradores, como se ele não os considerasse dignos de recebê-lo. Fáceis de montar, as iurtas são ideais para os nômades. Não poderia haver arquitetura mais adequada a um país sem árvores, castigado pelo vento e por oscilações extremas de temperatura.

Já nos vilarejos do norte, como em Khatgal, as casas são de madeira, barracões com telhados de chapas metálicas pintados de verde ou vermelho. É uma região de florestas. A população local não é formada pela maioria étnica mongol, os khalk, mas pelos darkhad, que têm um sotaque forte e são orgulhosos de sua identidade, como o nosso motorista. A viagem até Tsagaannuur deve levar dois dias. O terreno é especialmente ruim e acidentado. Quando não são os buracos e as montanhas, são os pântanos. (...)

Geou pela manhã. Chegamos a Tsagaannuur no final da tarde. É um vilarejo conhecido pelos bêbados, perdido às margens de um pequeno lago. Precisamos pegar uma autorização na polícia de fronteira para visitarmos os tsaatan. A polícia fica num barracão de madeira. No interior do barracão, um grande mapa da região ocupa toda uma parede coberta por uma cortina de cetim vermelho. O delegado é um sujeito gordo, sempre acompanhado por dois soldados simpáticos. Toda a situação tem um quê de peça de Gogol. Seguimos viagem à procura do guia que poderá nos levar a cavalo até os tsaatan, pelas montanhas e pela taiga. (...)

Seguimos de carro à procura de um lugar protegido onde armar as barracas. O terreno é pantanoso. Somos devorados pelos mosquitos. Quando finalmente surge um canto que me parece adequado, Batnasan se recusa a se aproximar com o furgão. Diz que ali é impossível, diz que é proibido e aponta para um pinheiro em que está amarrada uma faixa azul. O local é sagrado, está povoado de espíritos. Alguém pode ter morrido ali.

Estamos em terra de xamãs. Quem viaja por toda a Mongólia vai encontrando pelo caminho amontoados de pedras, como pequenas pirâmides com faixas e estandartes azuis fincados no topo. São os ovoos, que marcam os locais onde há maior proximidade entre o céu e a terra e maior facilidade de comunicação com os espíritos. Designados pelos xamãs, em geral ficam em pontos altos da paisagem, mas nem sempre. E é de bom agouro para o viajante jogar uma pedra e dar três voltas em torno do ovoo, em sentido horário, sempre que depara com um. Na Mongólia, a terra reflete o céu. A sombra das nuvens corre pelo deserto e pelas estepes. O céu está sempre tão perto. A paisagem não se entrega. O que você vê não se fotografa.


Reflexões sobre o nomadismo (do diário do Ocidental, pág 137)

As estradas da Mongólia na realidade são pistas que o motorista tem que decifrar entre dezenas de outras, são marcas de pneus em campos de pedras, desertos e estepes. Marcas deixadas por pneus que, de tanto incidirem sobre o mesmo caminho, acabam criando uma posta. Muitas vezes, no deserto, por exemplo, não há nenhum ponto de referência além das trilhas deixadas pelos pneus de outros carros. Os motoristas insistem em segui-las, como quem toma o caminho seguro, tradicional. O bom motorista é aquele que sabe achar a sua pista no deserto. A boa pista. A repetição é a condição de sobrevivência.

É essa também a cultura dos nômades. Apesar da aparência de deslocamento e de uma vida em movimento, fazem sempre os mesmos percursos, voltam sempre aos mesmos lugares, repetem sempre os mesmos hábitos. O apego à tradição só pode ser explicado como forma de sobrevivência em condições extremas. A ideia de ruptura não passa pela cabeça de ninguém. As estradas só se tornam estradas pela força do hábito. O caminho só existe pela tradição. É isso na realidade o que define o nomadismo mongol, uma cultura em que não há criação, só repetição. Decidir-se por um caminho novo ou por um desvio é o mesmo que se extraviar. E, no deserto ou na neve, esse é um risco mortal. Daí a imobilidade de costumes.
Os dois motivos (losangos ou círculos entrelaçados) que sempre se repetem na decoração das portas, portões, móveis, tapetes, etc., por toda a Mongólia, representam o infinito e o casamento, o que só confirma a obsessão pela estabilidade e pela tradição numa sociedade que em aparência é completamente móvel, a ponto de não haver espaço para nenhum outro movimento.

Entre os nômades, o interessante não é o sistema e os costumes, que são sempre os mesmos, mas os indivíduos. A graça de visitar as iurtas é a surpresa do que se vai encontrar, a diversidade dos indivíduos que ali estão fazendo as mesmas coisas. O nomadismo em si não tem nenhuma graça. A mobilidade é só aparente, obedece a regras imutáveis e a um sistema e a uma estrutura fixos. São as pessoas. Talvez por causa da vida dura e isolada, sem surpresas ou novidades, as visitas em geral sejam tão bem-vindas. O nomadismo é uma estrutura regulada pela necessidade e pela sobrevivência nos seus fundamentos mais essenciais.
Não há liberdade, pois não é possível escapar a essa regra (em última instância, poderia dizer isso de qualquer outra cultura). É uma vida regrada pelas necessidades básicas da natureza. Uma vida simples, reduzida ao essencial para a sobrevivência. O que conta são os indivíduos, quando não sobra mais nada.

Leia:

Mongólia. Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Teoria da viagem: poética da geografia, by Michel Onfray

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Quer ler um livro excepcional sobre a arte de viajar? Pois então não perca tempo e corra atrás desse pequenino ensaio que é uma jóia: Teoria da viagem: poética da geografia. O autor é um jovem filósofo francês cinqüentenário, Michel Onfray, que escreve como ninguém sobre as sutilezas da experiência mágica da viagem.

O Michel tem tanta coisa boa escrita nesse livro de cento e onze páginas que nem sei por onde começar. Mais uma vez me sinto frustrado por ter que deixar muitas passagens geniais de uma obra de lado, mas a concisão é uma necessidade, de modo que tentarei selecionar aquilo que imagino irá inspirar os leitores e as leitoras do Odepórica a comprar o livrinho do filósofo francês (como sempre, não estou lucrando nada com isso, palavra).

Os sete tópicos desse estudo são diretos e instigantes; leitura agradável, consegue a proeza de equilibrar o discurso acadêmico com o popular, sem nunca parecer pedante ou superficial. Vamos ler a seguir algumas passagens, na verdade insights cheios de sabedoria e atitude. Veja o que pensa Onfray sobre:

A escolha de uma destinação:

“Cada corpo busca reencontrar o elemento no qual se sente mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e de prazeres confusos, mas memoráveis. Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la.”

“Uma palavra, um lugar legíveis no mapa retêm, então, a atenção. Nome de um país, de um curso de água, de uma montanha, de um vulcão, de um continente, de uma ilha ou de uma cidade. O indistinto, o visceral, se reconhecem de súbito numa emoção desencadeada por um nome guardado na memória: ir ao tibete, ver o rio Amur, escalar o monte Fuji ou o Etna, caminhar nas colinas de N´Gong, nadar no oceano Pacífico (...) cada um dispõe de uma mitologia antiga fabricada com leituras de infância, filmes, fotos, imagens escolares memorizadas a partir de um mapa-múndi, numdia melancólico ao fundo da classe.”

Os livros:

“A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de razões antes escondidas no corpo. No começo do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domicílio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formulação, a realização, a concretização de uma escolha do destino.”

“Toda documentação alimenta a iconografia mental de cada um. A riqueza de uma viagem requer, a montante, a densidade de uma preparação – assim como as experiências espirituais convidam a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade capaz de infundir. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. (...) Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se é portador. O vazio do viajante gera a vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excelência dela.”

O começo da viagem:

“Em que momento começa realmente a viagem? A vontade, o desejo, a leitura, certamente tudo isso define o projeto; mas a viagem mesma, quando se pode dizer que começou? É quando decidimos partir para um lugar e não um outro? Quando fechamos a mala, afivelamos a mochila? Não. Pois há um momento singular, identificável, uma data de nascimento evidente, um gesto signatário do começo: é quando giramos a chave na fechadura da porta de casa, quando fechamos e deixamos para trás nosso domicílio, nosso porto de matrícula. Nesse instante preciso começa a viagem propriamente dita.”

A amizade:

“Nem a sós, nem com vários: circular com o amigo permite evitar a angústia multiplicada do trajeto solitário, da barreira das línguas estrangeiras, dos incômodos burocráticos nas fronteiras com funcionários e policiais de todo o mundo. O estrangeiro que circula livremente num país inquieta as autoridades, sobretudo onde não reina a democracia, isto é, na maioria dos lugares do planeta. A amizade serve de tônico necessário para a conjuração do estado de fragilidade consubstancial ao afastamento do domicílio, longe das referências habitualmente tranqüilizadoras do animal em nós. No exercício da amizade, o outro é o estranho menos estranho possível. (...) No detalhe da viagem, a amizade permite a descoberta de si e do outro.”

A memória da viagem:

“Pouco importa o suporte, desde que a memória produza lembranças, extraia quintessências, elabore referências com as quais organizar mais tarde o conjunto da viagem. No amontoado e na balbúrdia da experiência vivida, o vestígio cartografa e permite o levantamento de uma geografia sentimental. Mais tarde, quando o tempo do acontecimento estiver longe de nós, restam instantes congelados em formas capazes de reativação imediata.”

“(...) um poema bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiência vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou sei, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação.”

A diferença entre viajantes e turistas:

“Viajar supõe menos o espírito missionário, nacionalista, eurocêntrico e estreito, do que a vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta. O turista compara, o viajante separa. O primeiro permanece à porta de uma civilização, toca de leve uma cultura e se contenta em perceber sua espuma, em apreender seus epifenômenos, de longe, como espectador engajado, militante de seu próprio enraizamento; o segundo procura entrar num mundo desconhecido, sem intenções prévias, como espectador desengajado, buscando nem rir nem chorar, nem julgar nem condenar, nem absolver nem lançar anátemas, mas pegar pelo interior, que é compreender, segundo a etimologia. O comparatista designa sempre o turista, o anatomista indica o viajante.”

A busca:

“Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser.”

O nomadismo:

“Não há viagem sem reencontro com Ítaca, que dá sentido ao deslocamento. Um exercício perpétuo de nomadismo sairia dos limites da viagem para entrar na errância permanente, na vagabundagem. Os próprios nômades praticam um tipo de sedentarismo, pois percorrem trajetos habituais, se instalam na rotina de um deslocamento, sempre o mesmo, servem-se das mesmas referências, ramagens secas, montes de pedras, linhas e rastros feitos por animais, leem sempre do mesmo modo o mapa das estrelas ou dos movimentos do sol, mas também porque vão a lugares onde têm seus hábitos, suas práticas tribais e rituais na arte de ocupar os solos.”

“Assim como o sedentarismo contínuo não me agradaria, o nomadismo permanente não me seduz: as raízes, o local, a vida há muito tempo num lugar idêntico não podem ser consideradas sem um recurso regular a deslocamentos ao redor do planeta (...) entendo a viagem como um momento num movimento mais geral – não como um movimento por si só. Tanto mais porque o reencontro com o domicílio dá um sentido, o seu sentido, ao nomadismo – e vice-versa.”

Leia: Teoria da viagem: poética da geografia. Michel Onfray. Trad. De Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O rastro dos cantos, by Bruce Chatwin

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Foto: capa da primeira edição norte-americana, 1987
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Devo confessar que nunca tive vontade de visitar a Austrália, embora não haja nada, em absoluto, que me faça querer evitar a viagem. Acho interessante o pouco que sei, através de leituras e documentários vistos em insuspeitos programas de televisão, da cultura aborígine, e da exuberante beleza das praias. O resto é aquela imagem quase sempre ridícula que guardamos na memória dos lugares distantes que nunca conhecemos mas que estamos tão acostumados a ver através das telas (tv/cinema/computador) que parece até que já lá estivemos.

Essas imagens pobres sobre uma determinada cultura são as que primeiro aparecem em nossos pensamentos (por exemplo: pense em Austrália e logo lhe vem à cabeça um canguru, ou um bumerangue ou a fisionomia peculiar dos aborígines); acredito que isso se deva, até certo ponto, à influência de uma memória coletiva que a maioria de nós guardamos sobre certos lugares e acontecimentos. É a mesma coisa, se formos comparar, com o que pensam os estrangeiros sobre o Brasil: país do samba e do futebol, como se somente isso caracterizasse a nossa rica cultura.

Comecei a enxergar a Austrália de maneira diferente depois de haver assistido a alguns filmes que rodaram o mundo fazendo muito sucesso: O casamento de Muriel e Priscilla a rainha do deserto, por exemplo, fizeram muito sucesso e, para mim, mostraram um lado simpático, bem humorado e um tanto amalucado dos australianos.

Na literatura, até onde me recordo, meu primeiro contato direto com a Austrália foi no livro O rastro dos cantos, do escritor e viajante inglês Bruce Chatwin, de quem já postamos matéria aqui no Odepórica, sobre o seu trabalho mais conhecido, Na Patagônia.

Em O Rastro dos cantos Chatwin mergulha profundamente no universo da tradição mitológica dos aborígines australianos. É meio complicada a explicação sobre o rastro dos cantos, mas de modo geral funciona assim: no passado, cada antepassado aborígine, ao viajar pelo país, espalhava um rastro de letras e notas musicais ao longo da linha de suas pegadas, de modo que isso mais tarde funcionaria como um meio de comunicação entre as tribos mais distantes. “Um canto”, escreve Chatwin, “era tanto um mapa como um orientador direcional. Desde que você o conheça, sempre poderá encontrar seu caminho através do país.”

Continuando com as palavras do autor:

“Em teoria, pelo menos, a totalidade da Austrália poderia ser lida como uma partitura musical. Dificilmente haveria uma pedra ou riacho no país que não pudesse ou não tivesse sido cantado. Talvez se devessem visualizar os Rastros de Cantos como um espaguete de Ilíadas e Odisséias, retorcendo-se para um lado e para o outro, onde cada ‘episódio’ poderia ser lido em termos de geologia”.

“(...) Tenho uma visão dos Rastros de Canto se estendendo por continentes e pelos séculos; que, por onde quer que tenha andado, o homem deixou uma trilha de canto (cujo eco podemos, vez por outra, perceber); e que essas trilhas devem levar de volta, no tempo e no espaço, a um bolsão isolado na savana africana, onde o Primeiro Homem, abrindo a boca em desafio aos terrores que o cercavam, gritou o verso de abertura do Canto do Mundo: ‘EU SOU!’ .”

Eu, que nunca havia ouvido falar em algo parecido, achei encantadora essa imagem de um mapa sonoro cobrindo todo um país, já imaginou? Acho que essa imagem combina muito bem com o Brasil, um país tão musical e repleto de cenários maravilhosos... haja canto para tanto!

Mas vamos prosseguir aqui com nossa leitura. Bruce, ao chegar à Austrália, entra em contato com um expert no assunto, Arkadii, um homem culto e apaixonado pela cultura aborígine, que o levará para cima e para baixo no território australiano para compreender melhor como funciona o lance dos rastros. Conhecem muitas pessoas ao longo do caminho, o que parece ser uma marca registrada de Chatwin em seus relatos de viagem, o que confere um brilho todo especial à sua narrativa. Mais uma vez, percebemos que uma das coisas mais importantes e gratificantes de uma viagem são as pessoas com as quais convivemos durante o percurso, por mais superficiais e breves que sejam esses encontros. Às vezes, um simples comentário feito à toa por um residente local em uma cidade pode mudar radicalmente os planos de uma viagem. Daí a importância de se estar aberto ao novo, uma atitude receptiva em relação ao outro contabiliza muito mais ganhos do que uma posição neutra ou fechada.

Mas desse mal não sofre Chatwin, que topa tudo, ou quase, que lhe aparece pela frente. E com a companhia de Arkadii, que assume a posição de um guia de viagem em relação a Bruce, tudo fica mais fácil. Quem é esse Arkadii, um australiano descendente de russos que perambula pela Austrália atrás dos rastros dos cantos? Bruce Chatwin fala um pouco sobre seu amigo logo nas primeiras linhas do livro, embora não fiquemos sabendo exatamente como eles se conheceram ou foram apresentados.

“Era um andarilho incansável, um sertanista. Não pensava duas vezes antes de partir, com um cantil e um pouco de comida, para uma caminhada de cento e sessenta quilômetros pelas montanhas. Depois, voltava para casa, saindo da luminosidade e do calor, puxava as cortinas e tocava a música de Buxtehude e Bach no cravo. As progressões ordenadas dessa música, dizia, adequavam-se aos contornos da paisagem da Austrália Central.

(...) Gostava de aborígines. Gostava de sua coragem e tenacidade, e da habilidade que tinham para lidar com o homem branco. Aprendeu, ou quase, duas de suas línguas e ficou assombrado com o vigor intelectual, as proezas de memória e a capacidade e a determinação de sobrevivência deles. Não eram, ele insistia, uma raça em extinção – embora necessitassem de ajuda, vez por outra, para tirar o governo e as companhias de mineração de suas costas.

Foi durante sua experiência como professor que Arkadii tomou conhecimento do labirinto dos caminhos invisíveis que serpenteavam por toda a Austrália e eram conhecidos dos europeus como ‘Trilhas de Sonho’ ou ‘Rastros de Cantos’; e pelos aborígines, como ‘Pegadas dos Antepassados’ ou ‘Caminho da Lei’.

Os mitos aborígines da Criação falam dos seres totêmicos legendários que vagaram pelo continente no Tempo do Sonho, cantando o nome de tudo o que cruzava seu caminho – pássaros, animais, plantas, pedras, poços – e assim dando existência ao mundo por meio do canto. Arkadii ficou tão marcado pela beleza desse conceito que começou a tomar notas de tudo o que via ou ouvia, não para publicá-las, mas para satisfazer a sua própria curiosidade. No começo, os anciãos waldbiris desconfiaram dele, e as respostas que davam às suas perguntas eram evasivas. Com o tempo, uma vez tendo conquistado a confiança deles, passou a ser convidado a testemunhar suas cerimônias mais secretas, e foi encorajado a aprender suas canções.”

Isso basta para podermos verificar que Bruce teve a sorte de ter como companheiro de aventura um homem extremamente qualificado para o seu projeto, se é que essa pessoa realmente existiu, visto que muitos críticos afirmam que Chatwin inventou muitos fatos e personagens em suas narrativas, ou seja, você nem sempre vai saber quando aquilo que está lendo é fato ou ficção. Não que isso importe, a não ser que você esteja atrás de uma leitura mais comprometida com fatos reais, um estudo de campo, por exemplo. Se for o caso, essa leitura não se aplica, nem mesmo se a sua intenção for a de conhecer mais sobre a cultura dos povos nômades australianos, já que Chatwin não é antropólogo e seus conhecimentos sobre a cultura dos aborígines mostram-se bastante superficiais.

O que merece atenção é o chamado à aventura, é você entrar no mundo desse viajante obstinado, sair um pouco da sua rotina que suponho deva ser muito diferente daquela que se encontra na narrativa de Chatwin e nisso o livro é bom, gostoso de ler.

O Rastro dos Cantos pode ser dividido em duas partes; na primeira vamos acompanhar o autor pelo outback australiano, as áreas de terras áridas e distantes dos centros urbanos. Nessa parte o leitor conhece mais sobre o objeto de estudo do escritor, os rastros dos cantos propriamente ditos. Isso toma dois terços do livro, até que, pego de surpresa, o leitor se depara com o final da narrativa, quando Bruce se separa de Arkadii (que felizmente volta a aparecer no finalzinho da história) e começa a escrever anotações soltas de suas cadernetas de viagem (seus inseparáveis Moleskines) numa longa divagação onde reflete principalmente sobre a natureza nômade do ser humano.

É estranho? É sim, um pouco, mas eu particularmente gostei muito, de verdade. É como se pudéssemos entender melhor a cabeça de Chatwin, uma parada na viagem, que é sempre proveitosa se esta for longa e cheia de informações novas. Parar para descansar, para refletir, para aquietar o corpo e a alma, e para escrever – para quem é dado a isso. Escrever um diário de viagem pode ser um grande exercício de meditação, sabia? E é isso o que se lê nas páginas finais desse livro. Nem tudo é de interesse do leitor, pelo menos foi assim comigo. Nem sempre as notas dos cadernos têm relação com a história, estão mais para divagações, para preencher lacunas de pensamentos soltos. Mas isso não chega a incomodar já que os textos são sempre curtos (do contrário seriam entediantes).

As conclusões de toda essa narrativa sobre os rastros dos cantos aparecem pinceladas em algumas passagens, principalmente mais para o final da obra e merecem ser postadas aqui. Bruce Chatwin estava, no período dessa viagem, lutando contra a realidade da Aids, que o venceria dois anos após essa aventura, de modo que esse foi seu último grande trabalho.

“Tive um pressentimento de que a fase ‘viajante’ da minha vida estava chegando ao fim. Senti, antes que o mal-estar da fixação me invadisse, que devia reabrir aqueles cadernos. Devia colocar no papel uma lista das idéias, citações e encontros que me entretiveram e obcecaram, e com os quais eu esperava poder iluminar o que, para mim, é a questão entre as questões: a natureza do desassossego humano. Pascal, em uma de suas pensées
mais sombrias, dá como sua opinião que todos os sofrimentos originam-se de uma só causa: nossa incapacidade de permanecer quietos numa sala”.

“Todos os Grandes Mestres pregaram que o Homem, originalmente, era um ‘errante pelo deserto seco e árido deste mundo’ – são palavras do Grande Inquisidor de Dostoievski – e que, para redescobrir sua humanidade, era preciso despojar-se das amarras e tomar a estrada”.

Meus cadernos mais recentes estavam cobertos de notas tomadas na África do Sul, onde examinara, em primeira mão, certas provas da origem de nossa espécie. O que lá aprendi – junto com o que agora sei sobre os Rastros de Cantos – parecia confirmar a conjetura que vinha ruminando por tanto tempo: que a seleção natural nos destinou – da estrutura de nossas células cerebrais até a estrutura do dedão do pé – a uma vida de viagens sazonais a pé
através de uma terra impiedosa de espinhos ou do deserto”.

“Se assim o fosse, se o deserto fosse o ‘lar’, se nossos instintos fossem forjados no deserto, para sobreviver aos rigores do deserto – então ficaria mais fácil compreender por que pastagens mais verdejantes nos enfastiam; por que os bens nos esgotam, e por que o homem imaginário de Pascal vê como uma prisão suas confortáveis acomodações”.

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Leia: O Rastro dos Cantos (The songlines). Bruce Chatwin. Foi editado no Brasil em 1996 pela Companhia das Letras e não é difícil de ser encontrado em sebos.