terça-feira, 18 de dezembro de 2018
A viagem ao Brasil de Marianne North
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
O país inventado de Isabel Allende

Li em seguida Paula, um relato emocionante de Isabel sobre o tempo em que passou ao lado da filha, a Paula do título, durante os meses em que ela lutou para sobreviver aos efeitos nefastos da rara doença que a levou embora. Agora estou lendo A soma dos dias, mas deste ainda não posso escrever uma linha porque apenas comecei a leitura. Mas já vi que vou gostar bastante.
Essas três obras têm uma característica comum: são relatos de cunho biográfico, memórias de uma escritora cuja vida realmente merece ser contada e recontada.
Meu país inventado (Mi país inventado, no original) é um livro de memórias onde a autora tenta, como se conversasse consigo mesma, construir a imagem do país em que estão guardadas suas lembranças afetivas mais significativas. Isabel Allende tem um senso de observação bastante apurado, que aliado à facilidade que demonstra ter em contar histórias (reais e inventadas) resulta numa escrita fluida e cheia de vigor. E é de se observar que grande parte desse vigor surge como conseqüência das inúmeras viagens empreendidas por Isabel desde seus primeiros anos de vida. São suas as palavras:
Ser estrangeira, como quase sempre tenho sido, significa que devo esforçar-me muito mais que os nativos, o que sempre me manteve alerta e me obrigou a desenvolver flexibilidade a fim de adaptar-me a ambientes diversos. Essa condição tem algumas vantagens para aqueles que ganham a vida observando: nada me parece natural, quase tudo me surpreende. Faço perguntas absurdas, mas às vezes faço-as à pessoa certa, e assim vou reunindo temas para o meu romance.
Isabel Allende morou em diversos lugares: Bolívia, Chile, Líbano, Venezuela e Bélgica são alguns citados por ela; na meia-idade casou-se pela segunda vez com William Gordon, também escritor, e hoje vivem juntos numa bela casa californiana. Viaja à terra natal pelo menos uma vez ao ano e embora tenha deixado o país diversas vezes, o Chile jamais saiu de dentro dela. Eu diria que Isabel está para o Chile assim como Clarice, Lygia, e Cora estão para o Brasil. E isso não é pouco.
A ideia de escrever Meu país inventado nasceu em parte por conta da necessidade em responder a uma questão que um dia lhe foi formulada por um desconhecido durante uma conferência de escritores especializados em viagens: que papel a nostalgia desempenha em seus romances?

A pergunta tirou-me o fôlego, pois até aquele momento não havia me dado conta de que escrevo como um exercício constante de saudade. Tenho sido forasteira durante quase toda a minha vida, condição que aceito por não dispor de alternativa. Várias vezes vi-me forçada a partir, rompendo laços e deixando tudo para trás, a fim de recomeçar em outra parte do mundo; tenho peregrinado por mais caminhos do que sou capaz de recordar. De tanto despedir-me, secaram minhas raízes e tive de criar outras, que, à falta de um lugar geográfico no qual aprofundar-se, foi na memória que se fincaram; mas, cuidado!, a memória é um labirinto dentro do qual minotauros nos espreitam.
E esse é o fio condutor do relato de Isabel: a nostalgia, as lembranças do passado, as histórias que ouviu e soube guardar na memória, e quando não soube tratou de inventar ela mesma os encaixes necessários para trazer à vida aquilo que considerasse importante documentar para continuar vestindo a alma de sua existência. Uma outra leitura, de cunho mais social, é a questão da busca da identidade (talvez sua principal busca), da vida vivida no exílio e de como reagem os imigrantes ao se depararem com uma nova cultura. Um tema atualíssimo, por sinal.
De tudo o que há de bom em Meu país inventado, talvez o melhor seja mesmo a qualidade da escritora em transformar temas comuns da vida em acontecimentos instigantes: sua relação com a família, os avós cheios de personalidade a quem tanto amou, a mãe e o padrasto por ela tão admirados, sua juventude no Chile, o abandono da pátria nos tristes anos de ditadura, essas coisas que nós brasileiros/as conhecemos tão bem. E é divertido notar que, à parte as diferenças culturais entre o Brasil e o Chile, há muita coisa em comum (tomando por base o que se lê na obra) entre os povos dessas duas nações que não dividem fronteiras, coisas das quais nos orgulhamos, como nosso reconhecido caráter de povo hospitaleiro e nossas belas mulheres, e outras das quais não nos orgulhamos, mas destas é melhor nem perdermos tempo.A narrativa de Meu país inventado segue mais ou menos uma linha cronológica linear: vai da Isabel menina à Isabel avó, mas com muitas idas e voltas nesse percurso. O tom do livro é o de um humor constantemente sutil e você se pega muitas vezes sorrindo durante a leitura. Não há como negar: a chilena é boa de prosa.
Escolhi para esse post uma passagem da obra que considero bastante reveladora no tocante ao papel da memória, de como nossas lembranças do passado, de quem fomos um dia, afeta nossa condição presente e ajuda a construir quem somos. Realidade ou imaginação? Faz mesmo tanta diferença assim? Particularmente acho que há algo de saudável em fazer uso da imaginação em alguns momentos da vida, sejam eles bons ou ruins, não importa.

E as lembranças de nossas viagens, terão mesmo acontecido da maneira tal como as imaginamos hoje, depois de tanto tempo? Será que temos controle total sobre nossas lembranças afetivas? Difícil saber, levando-se em consideração o enorme peso que o inconsciente tem sobre nós. Mesmo assim, em meio a toda essa complexidade, a verdade é que imaginar, sonhar, alimentar desejos e lembranças boas, inventar descaradamente ou não uma vida mais criativa do que a que foi vivida – e a que ainda será – torna todo esse jogo um fenômeno muito mais interessante e divertido. Namastê!
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O Chile de Isabel

(...) Há um certo frescor e inocência na pessoa que sempre esteve no mesmo lugar e tem testemunhas de sua passagem pelo mundo. Em compensação, aqueles como nós, que partimos muitas vezes, foram obrigados, pela necessidade, a curtir o próprio couro. Como carecemos de raízes e de testemunhos do passado, devemos confiar na memória para dar continuidade às nossas vidas; mas a memória é sempre confusa, não podemos confiar nela. Os acontecimentos de meu passado não têm contornos precisos, estão esfumaçados, como se minha vida não tivesse passado de uma sucessão de ilusões, de imagens fugazes, de assuntos que não compreendo ou que compreendo apenas pela metade. Não tenho nenhum tipo de certeza. Também não consigo sentir o Chile como um lugar geográfico com certas características precisas, um lugar definido e real. Vejo-o como vemos os caminhos do campo ao entardecer, quando as sombras dos álamos enganam a vista, e a paisagem parece apenas um sonho.
(...) Tenho uma imagem romântica de um Chile congelado no começo da década de 1970. Durante anos acreditei que quando a democracia voltasse tudo seria como antes, mas mesmo essa imagem congelada era ilusória. Talvez o lugar de que me sinto saudosa jamais tenha existido. Quando o visito, tenho de confrontar o Chile verdadeiro com a imagem sentimental que levei comigo durante vinte e cinco anos.
Como vivi muito tempo fora, tenho tendência a exagerar as virtudes e a esquecer os traços desagradáveis do caráter nacional. Esqueço o classicismo e a hipocrisia da classe alta; esqueço o quanto é conservadora e machista a maior parte da sociedade; esqueço a esmagadora autoridade da Igreja Católica; espantam-me a violência e o rancor alimentados pela desigualdade; mas também me comovem as coisas boas, que apesar de tudo não desapareceram, como essa familiaridade imediata com a qual nos relacionamos, a forma carinhosa de nos saudarmos com beijos, o humor oblíquo que sempre me faz rir, a amizade, a esperança, a simplicidade, a solidariedade na desgraça, a simpatia, a coragem indomável das mães, a paciência dos pobres.
Construí a idéia de meu país como um quebra-cabeças, selecionando as peças ajustáveis ao meu desenho e ignorando as demais. Meu Chile é poético e pobretão; por isso descarto as evidências dessa sociedade moderna e materialista, para a qual o valor das pessoas é medido pela riqueza bem ou mal adquirida, e insisto em ver por toda parte os sinais de meu país de antigamente.
Criei também uma versão de mim mesma sem nacionalidade ou, melhor, com múltiplas nacionalidades. Não pertenço a um território, mas a vários, ou talvez só pertença ao âmbito da ficção que escrevo. Não pretendo saber o quanto de minha memória são fatos verdadeiros e o quanto foi inventado por mim, pois não me cabe a obrigação de traçar a linha entre uma coisa e a outra.Andréa, minha neta, escreveu uma composição escolar na qual declara: “Gosto da imaginação de minha avó.” Perguntei-lhe a que se referia e ela replicou sem vacilar: “Você se lembra das coisas que nunca aconteceram.” Mas não fazemos todos o mesmo? Dizem que o processo cerebral de imaginar e o de recordar parecem tanto que são quase inseparáveis. Quem pode definir a realidade? Tudo não é subjetivo?
Se você e eu presenciamos o mesmo acontecimento, iremos recordá-lo e contá-lo de modo diverso. Quando meus irmãos contam nossa infância, é como se cada um de nós tivesse crescido em um planeta diferente. A memória está condicionada pela emoção; recordamos mais e melhor os eventos que nos comovem, como a alegria de um nascimento, o prazer de uma noite de amor, a dor de uma morte próxima de nós, o trauma de uma ferida. Quando contamos o passado, referimo-nos aos seus momentos febris – bons ou maus – e omitimos a imensa zona cinzenta de cada dia.
Se eu nunca tivesse viajado, se tivesse permanecido ancorada e segura em minha família, se houvesse aceitado as regras e a visão de mundo de minha avó, teria sido impossível recriar ou enfeitar minha própria existência, pois outros a teriam definido e eu seria apenas um elo a mais na longa cadeia familiar. Mudar-me de lugar obrigou-me a reajustar várias vezes minha história, e isso eu fiz de maneira atoleimada, pelo fato de estar demasiado envolvida com a tarefa de sobreviver. Quase todas as vidas se parecem e podem ser contadas com o tom de quem lê a lista telefônica, a menos que alguém resolva dar-lhes ênfase e cor. Em meu caso, tenho procurado polir os detalhes para ir criando minha legenda privada, de modo que, quando eu estiver em uma instituição geriátrica, esperando a morte, possa ter material para entreter os outros hóspedes, velhinhos e senis.
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(...) o mais importante de minha viagem por este mundo não aparece em minha biografia ou em meus livros de ficção, mas aconteceu de forma quase imperceptível nas câmaras secretas do coração. Sou escritora porque nasci com um bom ouvido para as histórias e tive a sorte de contar com uma família excêntrica e um destino de peregrina errante. O ofício da literatura definiu-me: de palavra em palavra criei a pessoa que sou e o país inventado em que vivo.
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Leia: Meu país inventado. Isabel Allende. Ed. Bertrand Brasil, 2003.domingo, 14 de novembro de 2010
A alegoria da viagem em Virginia Woolf e Clarice Lispector, by Douglas P. Barreiros
Encontrei por acaso esse texto enquanto fazia uma pesquisa na web para minha próxima postagem. Ando lendo a obra de Isabel Allende, de quem pretendo falar em breve, e foi buscando informações dessa encantadora (e encantada) escritora que me deparei com outras duas grandes mulheres da literatura mundial, Virginia Woolf e Clarice Lispector.
Nunca li Virginia Woolf, e de Clarice conheço pouco, um par de obras lidas na época do colégio. Preciso dar um jeito nisso, mas enquanto não tomo vergonha na cara, vou lendo pequenas passagens aqui e ali, comentários, citações, frases soltas em diários virtuais...
Embora não conheça a obra de Virginia Woolf, sei um pouco de sua biografia por conta de um livro delicioso escrito pelo Antonio Bivar, autor que sempre recomendo e que é membro do Virginia Woolf Society; de suas peripécias pela Inglaterra, no meio da inglesada toda apaixonada pela obra de Virginia, publicou em 2005 Bivar na corte de Bloomsbury. (mais sobre o Bivar aqui)
O texto que você irá ler é uma análise acadêmica de duas obras que marcaram o início da produção literária de Clarice e Virgínia: Perto do coração selvagem e The voyage out. O autor, Douglas Paulino Barreiro, escreve que é uma beleza, sendo sua análise clara e objetiva, como deveriam ser todas as análises literárias.
As duas obras tratam do tema da viagem. O autor escreve que nessas obras a viagem aparece “como construção alegórica que representa o percurso de transformação interior vivido pelas protagonistas”. Primeiro ele trata de analisar o livro da Virginia Woolf, em cuja obra “a viagem pelo mar alegoriza a tentativa da protagonista em adentrar no mundo masculino”; depois é a vez da nossa Clarice, que faz uma viagem diferente, mas que em comum com a narrativa da inglesa tem a jornada rumo ao mar. O objetivo do autor foi o de traçar analogias entre os textos das duas escritoras.
O Douglas não explorou muito algo que a mim me chamou a atenção: o significado simbólico da água. Matriz, de onde surge a vida, a água traz à tona os elementos do inconsciente, é purificadora e tem fortíssima ligação com o feminino, a fertilidade e a fecundidade. E isso só para ficarmos na superfície, claro. Gostoso notar que de uma leitura surgem inúmeras outras, não? Namastê!
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A alegoria da viagem em Virginia Woolf e Clarice Lispector
Por Douglas Paulino Barreiros
A literatura de viagem tem uma longa história e desde seus primórdios caracteriza-se como o relato de uma vivência proporcionada por um deslocamento físico. Trata-se, portanto, da descrição/narração de uma experiência vivida por alguém que partiu de um lugar conhecido e se dirigiu para um espaço novo, estranho. Essas narrativas, contadas sob a ótica estrangeira do viajante, são uma espécie de ligação entre um mundo vivenciado e um outro desconhecido.
Contar os acontecimentos de uma viagem implica uma tradução do “outro”, do “novo”. Aquele que viaja tem um repertório próprio de imagens, símbolos e concepções. Por isso, a representação da alteridade se faz por meio do afastamento e da aproximação do que é visto pela primeira vez com o que é familiar.
Esses relatos unem aventura, observação, impressões e representações, que constituem um modo único de escrita, um gênero próprio, condicionado a uma prática particular, a viagem. As narrativas de viagens não podem ser consideradas exclusivamente como documentos históricos, literários, ficcionais ou científicos, isso porque, muitas vezes, estes estilos encontram-se reunidos simultaneamente.
Tomando o século XVI, período das descobertas, como ponto de partida, é possível perceber que a literatura de viagem evoluiu gradativamente, passando de um relato descritivo para o registro de uma experiência. Se antes o ponto de interesse era a descrição de um espaço exterior, bem como seu reconhecimento, hoje, a narrativa de viagem firma-se como a escrita de uma vivência pessoal do indivíduo viajante, o que resulta em uma poética de impressões subjetivas.
Essa transição é fruto das transformações ocorridas entre os séculos XVI a XX, como por exemplo, o desenvolvimento cartográfico, as evoluções dos meios de transporte cada vez mais velozes, o surgimento dos meios de comunicação de massa, que além de informar o que se passa ao redor do mundo, conta com a presença de imagens que mostram lugares distantes e inacessíveis. Todas essas questões contribuíram para que na modernidade a literatura de viagem se desenvolvesse como narrativa deixando seu caráter pragmático para trás.
O que importa saber é que o tema da viagem é ainda hoje marca recorrente na literatura universal e se apresenta sob formas diversas, como a viagem real, imaginária, simbólica, fantástica ou alegórica. Dentre essas maneiras de se tematizar a viagem, a alegoria merece atenção especial, pois é possível perceber um número considerável de obras modernas que se utilizam desse recurso narrativo para reeditar o interesse pela viagem. Com o objetivo de proporcionar uma discussão em torno dessa modalidade, partiremos da análise de dois romances modernos cujo tema da viagem é tratado pelo viés alegórico.
Os textos aos quais nos referimos são The Voyage Out, de Virginia Woolf e Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector. Estas obras marcam o início da produção literária de ambas as autoras. Acreditamos que a seleção destes escritos é significativa, pois além de tratarem do tema da viagem, eles delineiam as características principais das escritoras.
A partir da leitura e análise dessas obras, é possível perceber que nesses romances a viagem é na verdade uma construção alegórica que representa o percurso de transformação interior pelo qual passam as protagonistas. Essa hipótese pode ser confirmada a partir dos conceitos que João Adolfo Hansen aborda em seu livro Alegoria: construção e interpretação da metáfora.
Para este estudioso, a alegoria está diretamente relacionada com a metáfora sendo que a diferença entre elas seria de ordem estilística. Enquanto a metáfora é uma figura de palavras, a alegoria estende-se ao nível do enunciado, ou seja, a alegoria é na verdade uma metáfora continuada.
Vale ressaltar outra questão tratada por Hansen. Segundo este autor, a alegoria é ordenada em lugares-comuns, sendo a travessia pelo mar o mais usual de todos. Para ele, a viagem assume, de modo geral, o significado de destino pessoal. Conforme apontado, é isto que se percebe na construção dos romances analisados. Em ambos os textos a viagem marítima empreendida pelas protagonistas alegoriza o percurso interior de auto conhecimento e auto transformação.
Iniciaremos os apontamentos pela análise do livro de Virginia Woolf, para em seguida traçar analogias com o texto de Clarice Lispector. O motivo de tal metodologia se justifica por uma questão cronológica, em nenhum momento se pensou em contrapor os textos e traçar hierarquias entre eles.
The Voyage Out é a narrativa de uma viagem realizada por um grupo de ingleses que parte de Londres, a bordo do navio Euphrosyne, em direção a Santa Marina, cidade fictícia localizada na América do Sul, na foz do rio Amazonas. A protagonista do romance é Rachel Vinrace, jovem órfã, cuja educação coube a duas tias, senhoras idosas e defensoras dos padrões tradicionais da sociedade inglesa da época vitoriana.
O desenvolvimento da trama se faz a partir da história de Rachel, cuja vida passa por inúmeras modificações que são metaforizadas na viagem. Desta forma, o romance se estrutura em dois planos distintos: o relato do deslocamento físico, paralelo ao da transformação interior da protagonista.
No começo do romance a personagem é apresentada como um ser frágil, sensível, inocente, além de superprotegida.
Her face was weak rather than decided, saved from insipidity by the large enquiring eyes, denied beauty, now that she was sheltered indoors, by the lack of colour and definite outline. Moreover, a hesitation in speaking, or rather a tendency to use the wrong words, made her seem more then normally incompetent for her years […] Yes, how clear it was that she would be vacillating, emotional and when you said something to her it would make no more lasting impression than the stroke of a stick upon water (WOOLF, 1992, p.13).[1][1]
Essas características são o resultado do tipo de educação recebida e também revelam o caráter simples e interiorano da personagem. Rachel passou a infância, a adolescência e parte da juventude no campo, em Richmond, onde contava apenas com a companhia das tias. Por conta da dificuldade em se chegar a este sítio, a única amiga de Rachel era uma “girl who was a religious zealot, who in the fervour of intimacy talked about God, and the best ways of taking up one´s cross” (WOOLF, 1992, p. 27).[1][2] Essa reclusão é rompida com o convite que Rachel recebe de seu pai, um comerciante, para acompanhá-lo em uma expedição.
As modificações interiores pelas quais a protagonista passa são motivadas pelas relações interpessoais. No navio, as personagens vão sendo descritas física e psicologicamente, é também neste espaço que o narrador apresenta o início da mudança de Rachel. O começo da viagem é explicitado no primeiro parágrafo do capítulo dois, no qual o narrador supervaloriza esta cena. Isso ocorre porque, na verdade, o que se inicia é a “viagem interior” de Rachel. .
The Voyage had begun, and had begun happily with a soft blue sky, and a calm sea. The sense of untapped resources, things to say as yet unsaid, made the hour significant, so that in future years the entire journey perhaps would be represented by this one scene, with the sound of sirens hooting in the river the night before, somehow mixing in (WOOLF, 1992, p. 17).[1][3]
Os capítulos que narram a viagem vão apresentando aos poucos as alterações interiores da protagonista, que passa a interagir com as outras personagens, sobretudo com Helen, uma outra tia que participa da travessia, e posteriormente com um casal – Richard e Clarissa Dalloway – que embarca em Portugal.
Rachel de imediato simpatiza-se com o par, principalmente com Mrs. Dalloway, uma mulher bonita, elegante, extrovertida, astuta e muito inteligente. Durante o primeiro jantar dos Dalloways a bordo do Euphrosyne, Rachel não participa dos diálogos dos personagens, isso porque passa todo o período observando e admirando os gestos, a fala e os trajes de Clarissa. Na mente de Rachel a nova passageira é perfeita e por alguns instantes deseja ser como aquela senhora.
Richard é apresentado como um homem chauvinista. Este senhor assume papel de relevada importância no romance, pois é ele quem “inicia” Rachel no mundo feminino por meio de um beijo. A partir desse acontecimento, a personagem começa e se conhecer como mulher.
Dentre os tripulantes do navio, merece destaque o casal Ridley Ambrose e Helen Ambrose, tios paternos de Rachel. Esta senhora seria uma espécie de “mentora” da sobrinha, exercendo sobre ela uma decisiva influência. Mrs. Ambrose é uma mulher urbana, extrovertida, ousada, além de possuir grande beleza. Seu marido é um homem sério, recluso e conhecedor de filosofia, botânica, literatura e artes.
O fato de a viagem ser marítima é de grande importância, isso porque a água, elemento transformador, pode ser interpretada como o símbolo da mudança de Rachel. Um outro elemento alegórico é o navio que, por meio da personificação, alude diretamente à protagonista: “the ship was a bride going forth to her husband, a virgin unknown of men; in her vigour and purity she might be likened to all beautiful things, for as a ship she had a life or her own”(WOOLF, 1992, p. 25)[1][4]; “[...] the ship seemed to groan and strain as though a lash were descending” (WOOLF, 1992, p.61)[1][5].
Outro grande momento da narrativa acontece após a chegada dos viajantes a Santa Marina, é nesta colônia inglesa, situada na América do Sul, que a protagonista conhece o escritor Terence Hewet por quem se apaixona. Esta paixão é recíproca, porém uma fatalidade interrompe sua plena realização: Rachel é afetada por uma febre que acaba por causar-lhe a morte.
Nesta parte do romance destaca-se a problemática do choque cultural pelo qual passam os ingleses ao chegarem à cidade sul americana. Antes da saída de Londres, Rachel idealizava o vilarejo, pensava nele como um verdadeiro paraíso, onde tudo seria belo e perfeito. No entanto, ao desembarcar em Santa Marina o sonho começa a ser desmistificado pela realidade. O lugar é realmente belo, todavia o clima, a vegetação, a língua dos habitantes e, sobretudo, seus hábitos são muito diferentes de tudo que a personagem aprendeu e vivenciou.
Em Santa Marina, Rachel desembarca como uma nova mulher. Mudanças significativas em seu caráter são apresentadas como resultado da viagem marítima a qual lhe permitiu adentrar no mundo da filosofia e da literatura. Durante a travessia, a protagonista encontra na figura de seu tio, Ridley Ambrose, um instrutor inteligente e perspicaz. Foi este senhor intelectual quem lhe apresentou autores de renome nas áreas filosófica e literária. Rachel pôde conhecer Platão, Sófocles, Gibbon, Swift, Balzac, Coleridge, Pope, Marlowe, Shakespeare, dentre outros.
Assim, a viagem pelo mar alegoriza a tentativa da protagonista em adentrar no mundo masculino, uma vez que o acesso a tais obras não era comum entre as mulheres de seu tempo.
É também neste período de estada em Santa Marina que Rachel empreende outra viagem. Trata-se de uma excursão organizada pelos hóspedes de um hotel do vilarejo. Eles partem em busca de conhecer outras localidades da terra tão exótica na qual se encontram. Enquanto os demais personagens se entregam ao conhecimento dos arredores de Santa Marina, a viagem de Rachel é interior, ou seja, agora seria “the Voyage in”, isto é, dentro do país tropical recém conhecido por ela e, sobretudo, dentro de si mesma. É nesta viagem que ela passa a refletir sobre tudo que se passou no navio: seus diálogos com o tio, o conhecimento e carinho despertado pelos Dalloways, bem como sua paixão por Terence Hewet.
Este jovem escritor a princípio se apresenta como um homem de pensamento moderno no que se refere à diferença dos gêneros. Porém, ao aceitar o noivado, Rachel começa a perceber que Terence é favorável a igualdade entre os sexos apenas na ficção produzida por ele. Durante esta segunda viagem, ‘the voyage in”, a protagonista é acometida por uma doença, acompanhada de longos períodos de delírio conduzindo a personagem à morte.
Conforme dissemos, Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, é outro romance moderno a tratar da viagem como alegoria da transformação interior de uma personagem. Contudo, vale lembrar que, apesar da semelhança temática e alegórica, esse romance traz um diferencial que o singulariza. Para que possamos ilustrar essa questão, partiremos primeiramente da análise do mesmo para na seqüência traçar paralelos entre ele e The Voyage Out.
Perto do Coração Selvagem narra a história de Joana, uma mulher em busca de si mesma e de seu autoconhecimento. Trata-se de uma personagem complexa cuja marca principal é a mobilidade e o desejo de sempre ir além “[...] vou continuar, é exatamente de minha natureza nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos” (LISPECTOR, 1998, p. 116).O romance estrutura-se por capítulos que se alternam entre a vida infantil e a adulta da protagonista. As diversas cenas apresentadas acompanham a peregrinação interior da personagem.
Joana, assim como Rachel, fica órfã ainda criança e passa a ser educada por uma tia. Esta por sua vez, não compreende a sobrinha e acaba por enviá-la para um internato, onde, apesar de cercada de outras meninas, sente-se só. Esta solidão é compensada pelas viagens imaginárias que a personagem faz como forma de fuga da realidade que a cerca. Como exemplo, vale destacar o trecho no qual Joana acorda no meio da noite, olha para as camas das outras garotas do internato e se imagina saindo daquele espaço:
Que importa que em aparência eu continue nesse momento no dormitório, as outras moças mortas sobre as camas, o corpo imóvel? Que importa o que é realmente? Na verdade estou ajoelhada, nua como um animal, junto à cama, minha alma se desesperando como só o corpo de uma virgem pode se desesperar. A cama desaparece aos poucos, as paredes do aposento se afastam, tombam vencidas. E eu estou no mundo, solta e fina como uma corça na planície. Levanto-me suave como um sopro, ergo minha cabeça de flor e sonolenta, os pés leves, atravesso campos além da terra, do mundo, do tempo, de Deus. Mergulho e depois emerjo, como de nuvens, das terras ainda não possíveis, há ainda não possíveis. Daquelas que eu ainda não soube imaginar, mas que brotarão. Ando, deslizo, continuo, continuo... Sempre, sem parar, distraindo minha sede cansada de pousar num fim (LISPECTOR, 1998, p. 68).
Este parece ser o destino de Joana, a eterna peregrinação, a busca constante por “terras distantes”, ainda que imaginadas. O que move Joana é o desejo de sair de seu estado de inércia, fugir da vida comum que a prende ao passado. Ela aspira a encontrar lugares desconhecidos, metáfora de sua interioridade. Desta forma, o movimento e o translado são as ações que dão sentido a sua vida.Joana passa por três experiências amorosas que marcam sua existência e contribuem para que ocorram alterações significativas em seu caráter. Na infância, sente-se atraída por seu professor, pessoa sempre buscada por ela em momentos de insegurança e crise. É ele quem aconselha a menina Joana, instruindo-a a respeito da vida e do homem.
Quando adulta ela conhece o advogado Otávio, noivo de Lídia, moça simples cujo sonho maior é se casar e assumir o papel de esposa dedicada a “um homem que disporia de todas as forças da mulher para sua própria fogueira [...], bastava sua presença [Otávio], apenas pressentida, para toda ela anular-se e ficar à espera” (LISPECTOR, 1998, p. 89).
Otávio abandona Lídia e casa-se com Joana. Este casamento fora idealizado pela protagonista como algo que a tornaria plenamente realizada, no entanto, esta projeção é frustrada, pois ela percebe que a inércia e a rotina não fazem parte de sua natureza. Após algum tempo de casada, Joana constrói uma imagem pessimista do casamento:
Mas a dois, comendo diariamente o mesmo pão sem sal, assistindo à própria derrota na derrota do outro... Isso sem contar com o peso dos hábitos refletidos nos hábitos do outro, o peso do leito comum, da mesa comum, da vida comum, preparando e ameaçando a morte comum (LISPECTOR, 1998, p. 149).
A união do casal é fortemente abalada quando Joana descobre que seu esposo mantém relações extraconjugais com Lídia. Entre as duas mulheres, Otávio decide deixar a esposa e assumir seu romance com Lídia, que se encontrava grávida.
O terceiro relacionamento amoroso vivido pela protagonista é com um homem cujo nome sempre fez questão de não saber.
Dissera-lhe: quero te conhecer por outras fontes, seguir para tua alma por outros caminhos; nada desejo de tua vida que passou, nem teu nome, nem teus sonhos, nem a história do teu sofrimento; o mistério explica mais que a claridade; também não indagarás de mim o que quer que seja; sou Joana, tu és um corpo vivendo, eu sou um corpo vivendo, nada mais (LISPECTOR, 1998, p.188).
O anônimo, assim como o fez Otávio, abandona Joana depois de conviver com ela durante certo período. Este acontecimento marca uma significativa transformação em Joana. Seu pensamento começa a vaguear entre o passado vivido e o presente transformado, neste sentido “morre” uma Joana e “nasce” outra. É significativa uma passagem do romance na qual ela se encontra sozinha em seu apartamento e faz a seguinte reflexão:
Tivera coisas, ah isso tivera. Um marido, seios, um amante, uma casa, livros, cabelos cortados, uma tia, um professor [...] era uma mulher fraca em relação às coisas. Tudo lhe parecia às vezes preciso demais, impossível de ser tocado. E às vezes, o que usavam como ar de respirar, era peso e morte para ela (LISPECTOR, 1998, p. 173).
Os verbos no passado mostram que algo foi superado e não mais se repetirá, tem-se agora a imagem de uma Joana renovada e pronta para continuar sua incansável busca, desta vez concretizada na viagem pelo mar.
Naquela tarde já velha – um círculo de vida fechado, trabalho findo – naquela tarde em que recebera o bilhete do homem, escolhera um novo caminho. Não fugir, mas ir. Usar o dinheiro intocado do pai, a herança até agora abandonada, e andar, andar, andar, ser humilde, sofrer, abalar-se na base, sem esperanças. Sobretudo sem esperança (LISPECTOR, 1998, p. 196).
Conforme apontado, os acontecimentos da vida da protagonista são seguidos de modificações em seu caráter. Parece que cada vez mais a personagem se aproxima de si; porém, a concretização plena de seu desenvolvimento só irá ocorrer no último capítulo do romance, intitulado “A Viagem”. Nele, a busca da protagonista assume um caráter metafísico, resultante da inquietação da personagem no decorrer da obra. Deste modo, a viagem assinala o fim de uma fase da vida de Joana, bem como aponta para um recomeço. Após encerrar um percurso, Joana parte em busca de um novo mundo, que certamente lhe proporcionará novas experiências.
Aqui se encontra um dos diferenciais do romance com relação a The Voyage Out. Em Lispector, a viagem marítima só acontece depois da viagem interior da personagem, ou seja, a protagonista passa por um processo de transformação interior que a prepara para a travessia pelo mar, que como apresentado no romance, será um novo mundo de descobertas. Em Virginia Woolf, a viagem interior é paralela com a viagem pelo mar, esta sendo plena alegoria daquela. Assim, as transformações vão acontecendo na medida em que o navio avança rumo ao seu destino.
Outro ponto a ser destacado é que em The Voyage Out o percurso de Rachel é interrompido, o que impede a personagem de retornar ao lugar de origem e de concretizar os planos que a mesma elaborou para o futuro. O que se destaca em sua história são os vários momentos pelos quais ela passa durante sua viagem. São eles que fazem dela uma nova mulher, madura e pronta para enfim alcançar com seu verdadeiro destino, a morte, prevista desde o início do romance, sendo esta a grande metáfora do livro.
Uma das características da literatura de viagem, em sua estrutura clássica, é o regresso do viajante. No entanto, esse procedimento não ocorre em nenhum dos textos analisados. Em The Voyage Out o regresso não acontece por conta da morte da personagem, ao passo que Em Perto do Coração Selvagem, a narrativa termina em aberto não revelando nem mesmo o destino da protagonista.
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[1][1] Seu rosto era antes fraco do que decidido, e só não era insípido por causa dos grandes olhos interrogativos; tendo-lhe sido negada a beleza, agora que estava abrigada dentro de casa, pela falta de cor e contornos definidos. Mais que isso, uma hesitação ao falar, ou uma tendência a usar as palavras erradas, faziam com que parecesse mais incompetente do que o normal para sua idade. [...] Sim, como estava claro que ela seria vacilante, emotiva, e quando lhe dissessem alguma coisa não faria impressão mais duradoura do que o golpe de um bastão na água.(Todas as citações que aparecerem em notas de rodapé, serão retirados do volume traduzido por Lya Luft).
[1][2] garota que era uma fanática religiosa, que no fervor da intimidade, falava sobre Deus e nas melhores maneiras de assumir a própria cruz.
[1][3] A viagem começara, e começara feliz com um céu azul suave e com um mar calmo. A sensação de recursos ociosos de coisas não ditas tornou a hora importante, de modo que em anos futuros toda a jornada talvez fosse representada por esta última cena, com o som de sirenes uivando no rio na noite anterior, de alguma forma misturado nela.
[1][4] O navio era uma noiva avançando para seu marido, uma virgem desconhecida dos homens; no seu vigor e pureza poderia ser comparado a todas as coisas belas, pois como navio tinha uma vida própria.
[1][5] O navio parecia gemer e conter-se como se uma chibata estivesse descendo sobre ele.
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REFERÊNCIAS
CÂMARA, Elisabete. Clarice Lispector e Virginia Woolf: Dois enigmas e um mistério. In:PONTIERI, Regina. (org). Leitores e leituras de Clarice Lispector. São Paulo: Hedra, 2004. p.85 – 108.
HANSEN, João Adolfo. Alegoria: construção e interpretação da metáfora. São Paulo: Hedra, 2006.
LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
NITRINI, Sandra Margarida. Viagens reais, viagens literárias. In:______.Revista literatura e sociedade. no2, FFLCH, DTLLC, 1997.
SÁ, Olga. Uma escritura metafórico-metafísica: eixos do universo clariceano. In:______.A escritura de Clarice Lispector. 3a ed. Lorena, 2000. p. 212 – 281.
SILVA, Wilton Carlos lima. Viajantes. In:______.As terras inventadas. São Paulo: Unesp, 2003.
WOOLF, Virginia. The Voyage Out. London: Penguin Books, 1992.
WOOLF, Virginia. A Viagem. Trad. Lya Luft. São Paulo: Siciliano, 1993.
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Douglas Paulino Barreiros é mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Desde o ano 2000 atua como professor de Língua Inglesa no Ensino Fundamental e Médio, além de participar de Eventos e Congressos de Língua e Literatura. E-mail: teacherdouglas@ig.com.br
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terça-feira, 27 de julho de 2010
Conselhos a uma viajante dolorida

O que me levou a querer postar essa matéria foi a maneira como o autor do texto abordou um fato muitas vezes corriqueiro entre os viajantes, que é a vontade que se tem, muitas vezes, de viajar para fugir ou esquecer de algo ou de alguém. Quem nunca teve o desejo, pelo menos uma vez na vida, de largar tudo e sumir do mapa?
A deixa para tratar desse tema foi uma carta que Mr Miles recebeu de uma leitora, aparentemente desiludida e disposta a reencontrar a felicidade perdida em um novo lugar. Ela pede sugestões de lugares ao homem mais viajado do mundo. A resposta você lerá a seguir. Namastê!
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CONSELHOS A UMA VIAJANTE DOLORIDA

Querido mr. Miles: vou poupá-lo dos detalhes, mas tenho pouco mais de 30 anos, acabo de sair de uma relação longa, mas sem projetos, e estou disposta a começar a vida em algum outro lugar do mundo. Adoro viajar, mas não gosto de locais quentes e tenho medo ficar deprimida em invernos longos demais. O senhor tem alguma sugestão de lugar onde eu pudesse voltar a buscar a felicidade?
Jana Gomes Meirelles, por e-mail
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"Well, my dear Jana: sou melhor como contador de histórias de viagem do que, I presume, como consultor sentimental. Mas sei, porque aprendi com o grande psicanalista e velejador Nelson Dienstag, que o caminho que você pretende trilhar raramente conduz a algum lugar específico ou a uma solução para suas angústias.

Você pode até esquecer as malas em casa e viajar apenas com a roupa do corpo, para evitar carregar consigo qualquer lembrança física da pessoa de cujas memórias quer (quer mesmo?) escapar. Você pode, of course, escolher mudar-se para o outro lado do mundo, onde sempre haverá uma cidade bonita na latitude que condiz com suas aspirações climáticas.
Mas há um item que embarcará na sua companhia, clandestino e indesejado. Ele estará, quiçá, em sua nécessaire, no bolso de seu jeans ou no forro de sua jaqueta, como um intruso indesejado. Você o verá nos lagos aos pés do Himalaia, nas muitas igrejas da Morávia, nos aromas da Provença ou nos girassóis da Andaluzia.

Trata-se da dor que a levou a viajar. I"m very sorry, my dear, mas ainda que sair mundo afora seja uma experiência enriquecedora, as grandes decepções sempre viajam conosco. Yes, darling, todas as coisas ganham a dimensão adequada quando estamos longe de nossas referências mais próximas. Eis por que os problemas comezinhos do dia a dia, pequenas cizânias de trabalho e frustrações do cotidiano desaparecem num passe de mágica quando saímos de férias para recuperar energias.

However, das dores da alma não se pode simplesmente escapar pelo finger de um aeroporto. Otherwise, a indústria química não ganharia rios de dinheiro criando pílulas que prometem a felicidade e, unfortunately, raramente a entregam.
Se eu fosse você, dear Jana, não carregaria a sua dor para, sobre ela, construir uma nova vida. Acho, até, que você pode levá-la para passear, para testar se a beleza de novas descobertas não a torna menos desagradável, ainda que seja assim apenas por alguns momentos.

Melhor ainda seria se você viajasse com uma pessoa amiga, para trocar impressões, fotos e sorrisos eventuais. O luto por alguém que deixou a sua vida (oh, my God, estou me tornando piegas!), tem o mesmo comportamento de um viajante. Deixa marcas, evoca lembranças. Mas é sempre passageiro.
Do you know what I mean?"
quarta-feira, 17 de março de 2010
Peregrinas brasileiras: mulheres no Caminho de Santiago
E foi aí que, precisamente, nascia um imaginário jacobeo todo especial para nós aqui do Brasil. Gente morena e bronzeada atravessando o mar disposta a percorrer centenas de quilômetros numa terra distante, abrindo mão de conforto e lazer só para dar um abraço no Apóstolo Tiago. Foi mais ou menos assim que aconteceu. Primeiro foi um, depois foi outro, depois mais um... e quando a espanholada percebeu, uma invasão brazuca tomou conta do Caminho.
Essa brasileirada, no começo, chegou a assustar um pouco os espanhóis mais tradicionais. E por que isso? Bem, você tem que imaginar a seguinte situação: já é meio esquisito para o padrão dos espanhóis que vivem à margem da rota jacobea ver passar pelas portas de suas casas um tipo de gente diferente dos estrangeiros branquelos que há gerações passam por lá: alemães, franceses, holandeses e belgas, em sua maioria, além dos nativos, claro.
Os europeus, para peregrinar, já saem andando da porta de suas casas, não precisam atravessar o mar para isso, mas os brazucas, não. Além disso, chegam ao Caminho “apadrinhados” por um escritor praticante de bruxaria, que foi obrigado, depois de alguns mal-entendidos, a mudar algumas passagens de sua obra onde afirmava que um padre e uma hospitaleira francesa eram bruxos. Uma bobagem para nós, mas não para eles que guardam na memória uma amarga passagem pela Inquisição, certo? Certo.
Daí que, aqueles que foram no embalo do mago, voltaram de suas viagens cheios de coisas prá contar prá gente. Alguns escreveram suas memórias, publicando seus diários de viagem e a coisa toda virou uma festa: paulinhos coelhos e paulinhas coelhas mexendo com a cabeça dos moços e das moças cheios de vontade de ir atrás dos seus sonhos, suas espadas, seus segredos templários e discos voadores imaginários. Tem gnomos e duendes lá? Tem sim, e cães amaldiçoados pelo capeta, e bruxas cheias de poderes e poções, e anjos da guarda disfarçados de pastores. Uma doideira esse tal de Caminho de Santiago, diriam alguns.
Parece exagero? E é, claro, mas só até certo ponto, porque de fato essa salada místico/esotérica por um bom tempo fez parte de tudo aquilo que uma pessoa comum associava ao Caminho. Não que isso tenha acabado, mas podemos dizer que essa imagem já não vende com a mesma força de outrora o “produto” Caminho (e nem vou entrar nessa discussão porque não me interessa mesmo).
Muitos relatos de viagem foram publicados desde o Diário de um Mago. Mais de uma centena, o que me parece um número bastante razoável. Dessa primeira leva de peregrinos escritores, cinco foram mulheres. É sobre elas que quero escrever dessa vez.
A primeira peregrina chama-se Lizia Azevedo, fez o Caminho em 1990 na condição de discípula de Paulo Coelho e publicou sua história, O Poder de Domar do Grande dois anos depois, em 1992.
O livro de Lizia é na verdade uma espécie de diário onde ela relata o seu caminho na senda da magia; é instruída por Paulo Coelho e mais da metade do livro trata disso, das dificuldades de uma mulher comum, mãe de dois filhos, que além das tarefas cotidianas ainda tem que se empenhar nas artes mágicas, uma espécie de Paulo Coelho de saias. Ela só chega à Espanha na página 123, e de lá parte na página 181, por isso, se você quiser ler apenas sobre as experiências de Lizia no Caminho, pode começar dali a sua leitura. E vale a pena?
Bom, depende daquilo que se busca. Como documento histórico, vale sim, afinal foi a primeira dama peregrina a se aventurar na literatura odepórica jacobea. Também vale para aqueles leitores interessados nesse lance mais “pagão” do Caminho. Na realidade, o que mais me agrada nessa e nas outras obras que iremos conhecer aqui no blog é o fato de que todas foram escritas num período chave do Caminho de Santiago, um pouco antes ou um pouco depois do Ano Santo de 1993. Foi uma época de grandes transformações para a história da peregrinação compostelana, quando o Caminho ganhou uma projeção que há séculos não se via. Foi também o mesmo período em que eu peregrinei a Santiago e para mim a leitura tem um gostinho especial porque muitos dos personagens que aparecem nessas obras, alguns já falecidos, eu tive o privilégio de conhecer pessoalmente.
Vamos ler um trecho do relato de Lizia? A cena se passou no vigésimo sétimo dia da viagem:
O dia estava quente. Caminhávamos pela estrada. O asfalto consumia as energias e tornava monótona essa parte do Caminho. O som distante de um rio era a única coisa que chamava minha atenção. Eu estava cansada e com sede. Uma placa avisando a quilometragem, localizada num lugar afastado do acostamento, permitia que pudesse descansar um pouco ali. Avisei aos meus companheiros que iria procurar o banheiro do peregrino: a mata. Segui por uma trilha estreita que aparecia por detrás da folhagem.
O barulho das águas do rio começou a ficar mais forte. A descida acabava num monte de pedras que se unia a um lago formado por uma bela cachoeira. Meu desejo se realizara. Tirei os sapatos, suspendi minha calça e coloquei meus pés na água. Ela estava me convidando para entrar não só com sentimento, mas também com todo meu corpo.
Olhei ao meu redor. Vi que não seria possível a ninguém chegar até ali. Tirei toda minha roupa e, calmamente, coloquei os pés nas pedras. Quando dei o segundo passo, meu pé esquerdo escorregou no limo. Algo pontudo penetrou entre meus dedos. Pela dor, calculei que o corte fora profundo. Mergulhei, sentindo a água fria em meu corpo. O prazer e a dor se misturaram. O Caminho exigia de mim, além de suor e lágrimas, meu sangue: a consumação dos mistérios da vida.
Ao sair da água, sentei novamente na pedra para olhar o corte. Eu estava certa. Havia sido profundo. Talvez precisasse levar alguns pontos.
Meu pé, então, latejava. Sinal de inflamação. Uma mulher entrou na igreja carregando flores. Ajoelhou-se para rezar. Assim que terminou sua oração, foi ao altar levar as flores para enfeitá-lo. Ela parecia estar em ritmo de festa.
Encolhida de frio, sentada no banco, só escutava os meus próprios soluços. Eu não escondia minha tristeza. Ela não escondia sua alegria. Era o Caminho de cada uma de nós. A solidão da dor era o que eu estava sentindo. Não podia dividi-la com ninguém. Olhei para Jesus. Talvez estivesse sentindo essa mesma solidão, pregado na cruz.
A mulher caprichava na arrumação do arranjo de flores nos vasos. Absorta em meus pensamentos não percebi quando ela saía da igreja. “Bonita” - disse ela segurando meu braço – “ não se preocupe. Tudo o que você quiser vai conseguir.”
Como instrumento de Deus, ela me transmitia Sua mensagem. Eu tinha certeza. Nesse momento, o sol saiu de detrás das nuvens, iluminando a igreja, atrás dos vitrais, em diferentes cores. O céu parecia ter descido com toda a corte celestial. Eu não vi nem escutei, mas minha alma sentia.
Fora as provas que deveria passar, o Caminho sempre se mostrou cheio de surpresas agradáveis. “Não precisa ficar triste para chegar mais perto de Deus” – disse para mim o padre de Burgos.
Levantei e fui beijar os pés de Jesus. Quando olhei para o chão, vi uma rosa vermelha. Procurei por toda a igreja se tinha mais alguma rosa nos vasos. Não havia. Nesse momento uma enorme força tomou conta de mim, dissipando as nuvens de meu coração e me despertando para as lições do Caminho.
Segundo a Tradição, existem quatro maneiras de a mulher se revelar a Deus. Cada uma tem apenas um modo, um determinado anel para cumprir seu papel no mundo. Aquela que usa o anel da Santa se revela através da doação, do servir. A Mártir é aquela cuja revelação é feita através do sofrimento. A Virgem se revela a Deus por meio da solidão. Ela encarna, ao mesmo tempo, o homem e a mulher. Por fim, a Bruxa, cuja revelação se faz através do prazer. Simbolicamente, retirei o anel de mártir, deixando-o para outra, cuja sina fosse usá-lo. Peguei, então, meu verdadeiro anel de revelação, o qual andei tanto para encontrar: o da Bruxa. Ao sair da igreja, o sol ainda estava no céu, mostrando um novo dia e uma nova mulher que despontava dentro de mim.
No mesmo ano de 1990, Dalva Storchi também peregrinou a Compostela. Seu registro, pequenino, intitula-se O Caminho de Alba: descobrindo Deus em Santiago de Compostela. Dalva, assim como Lizia, foi discípula de Paulo Coelho, como ela mesma escreve, “uma iniciada nas Artes da Magia”.
Chama a atenção no relato de Dalva a maneira como sua prática mágica se entrelaça com um profundo contato com a fé católica. São suas as palavras: “(...) ainda que a vida inteira eu houvesse resistido à Igreja Católica Ortodoxa (sic) com seus dogmas e arbitrariedades, e ao seu eterno ar de dona da verdade, ao clero e ao Vaticano, eu por minha livre e espontânea necessidade buscava o sagrado, o meu laço com a Divindade.”
Essa maneira de se relacionar com o sagrado, tirando de cada religião aquilo que lhe interessa – e descartando o que não interessa ou não se aceita – é uma atitude típica dos novos movimentos religiosos, muito difundida entre peregrinos brasileiros. Até certo ponto existe um comprometimento com a Igreja, mesmo porque o Caminho faz parte da tradição católica, mas o modo como o peregrino opera a sua relação particular com Deus (ou com a Deusa, ou com os deuses) está acima de quaisquer dogmas ou compromissos institucionais. A narrativa de viagem de Dalva Storch é das mais curtas entre as inúmeras obras publicadas; sua viagem teve que ser interrompida várias vezes por causa do estado lastimável de seus pés, e algumas etapas foram percorridas de ônibus. Ainda assim, percebe-se que sua peregrinação foi uma experiência bastante transformadora.
Anna Sharp publica em 1993 A Magia do Caminho Real, provavelmente o relato mais lido entre todos os publicados naquele período. A seu favor, Anna tem uma escrita mais atraente e uma proposta que difere da dos demais autores: o uso do Caminho para aprofundar questões de cunho psicológico/espiritual, uma espécie de terapia de autoconhecimento (segue um pouco o modelo dos livros de auto-ajuda, mas de forma mais sutil). Anna Sharp foi uma espécie de fada-madrinha de muitos peregrinos e peregrinas da “primeira leva”. E, também ela, fez o Caminho a convite de Coelho, de quem se desligou ainda durante a caminhada, num momento de saco-cheio-de-tudo.
Seu livro é gostoso de ler e traz capítulos curtos intercalados de uma forma bem peculiar: a mulher, a peregrina e a terapeuta. As partes mais interessantes, opinião minha, são as que se passam no Caminho. Vamos ler uma passagem?
Desdobrei meu saco de dormir na relva macia; sentia-me absolutamente protegida, e adormeci olhando a Via Láctea, experimentando a sensação de entrega total. Descobrira que o meu dom era da “revelação”... que havia sido sempre assim.
As respostas sempre me foram sopradas, pensei sonolenta. Talvez pelos anjos... Escrevi uma carta para o meu marido, falando de meu amor por ele em trinta anos de buscas e agradecendo a paciência com a minha inquietude; somente um homem muito forte e seguro de si poderia viver ao meu lado: ele era assim e, sem perceber, tornara-se a pessoa mais importante de minha vida. Era o meu chão.
Escrevi agradecida outra carta para Paulo, meu querido guia, desligando-me de qualquer compromisso com a Tradição, abençoando-o e a seu Mestre, ainda desconhecido para mim, pela oportunidade de viver aqueles momentos; respeitei-O por sua sabedoria ao exigir que eu fizesse o Caminho da solidão. Por Seu conhecimento, me entregara ao Divino...
Eu não podia ser sua seguidora; sempre havia tido um mestre, um Mestre Interno já contatado há muito tempo, que me guiara e trouxera até aquele momento; sabia agora que não me julgava, que me aceitava e que nunca me abandonaria. A partir daquele momento o Caminho era MEU”!
Nos dias seguintes, percebi que de alguma forma sutil havia entrado em outro Universo. Era como se tivesse passado de uma dimensão para outra, mais leve e integrada. Meu corpo parecia se movimentar diferente: “eu levava” o meu corpo em vez de “ser levada” por ele.
Como um passe de mágica, o mundo se enchera de vida; conheci vários peregrinos nos refúgios, à noite, tendo sempre momentos de “trocas” altamente enriquecedoras. Falávamos uma só língua (entre holandês, inglês, francês, alemão e espanhol): a do “coração”. Nos entendíamos perfeitamente bem e a nossa despedida podendo ser um “para nunca mais”, já que nenhum de nós sabia qual seria a próxima parada. A liberdade total, a solidão durante o caminhar, são a ética do verdadeiro peregrino: aquele que busca Deus em si mesmo.
Numa tarde de muito calor, cheguei absolutamente faminta e sedenta a San Juan de Ortega, povoado medieval e precioso com apenas cinco casas. Encostado à porta da belíssima igreja românica, onde está a cripta que guarda o sepulcro do santo, estava um cura: “Por favor, senhor, sabe onde fica o refúgio?” – perguntei, apoiada em meu bastão. “A uns vinte ou trinta quilômetros daqui” – respondeu, com cara fechada. Fiz também uma expressão zangada ao perceber que estava mentindo, e novamente me dirigi a ele: “O senhor teria uma faca bem afiada para me emprestar?”. Curioso, me perguntou: “E para que quer uma faca?”. “Para cortar meus pulsos! Vou lhe deixar em culpa por toda a eternidade, pois se recusa a dar abrigo a uma pobre peregrina exausta...”
Caímos juntos na gargalhada, e o simpático Padre José Maria me convidou a entrar em sua casa, onde já estava disposta uma farta mesa com pães, queijos e salames que carinhosamente sempre preparava para os peregrinos cansados que por ali passavam.
Algum tempo depois, num ambiente dos mais calorosos, o cura em frente ao fogão nos preparou sua especialidade: uma deliciosa “sopa de alho”, designando tarefas para todos que iam chegando. E, à tardinha, rezou uma missa, mostrando uma relação bastante íntima e calorosa com Deus. Comunguei agradecida. Lentamente se processava em mim um estado alterado de consciência. Observava o mesmo fenômeno em alguns companheiros que já encontrara mais de uma vez.
(...) Uma tarde, depois da chuva miúda, formou-se no céu um lindo arco-íris, símbolo de meus sonhos de infância; compreendi que havia encontrado o “pote de ouro” tão procurado... estava viva e me amava! O amor transbordava de mim para tudo e todos que me rodeavam. Caminhava em êxtase; já não sabia em que dia do mês ou da semana estava. Tudo me parecia certo e perfeito. Há dias e dias que não me olhava num espelho, mas cantando e andando, me enfeitava com as flores que encontrava, colocando-as desordenadamente nos cabelos. Liberdade total! Nada me faltava.
Dentro da mochila, além de uma muda de roupa e um casaco, levava o saco de dormir que me protegia do frio noturno; muitas noites preferia dormir sob as estrelas, protegida pelo escuro ao meu redor e acordava acariciada pelo sol, com a música dos passarinhos em meus ouvidos. Percebi que nunca me havia sentido tão completa e feliz. Pela primeira vez consegui VER com os olhos do coração a Obra Divina. Apenas eu, o Caminho e Deus. Um.
Depois de Anna Sharp, aparece o relato de Baby do Brasil, (Baby Consuelo, a cantora), figura conhecida no meio artístico brasileiro tanto pela sua aparência exótica quanto pelas suas declaradas opções religiosas. Atualmente, Baby do Brasil se considera evangélica, mas sua imagem ficou muito marcada nas décadas de 1970/1980 por sua ligação com Thomas Green Morton, vulgarmente conhecido como o homem do “Rá”.
Com a obra intitulada Peregrina: meu caminho no Caminho, Baby escreveu um relato interessante, dando uma ênfase especial na sua busca espiritual, com características familiares à onda new age, como você poderá notar facilmente na passagem abaixo:
“Todos soltos no ambiente da alma, sintonizando suavemente numa freqüência de aceitação, amor e liberdade, sabíamos que logo que chegássemos à Espanha estaríamos prontos para decolar nessa outra ‘viagem’ rumo ao Eu e a certeza da chegada era o grande Orgasmo Cósmico em que já nos encontrávamos.”
Apesar do nome, Magda von Brixen é brasileira nascida no Rio de Janeiro. Fez a peregrinação na mesma época em que Baby fez a dela, e não por coincidência: ambas foram ao Caminho com o apoio de Anna Sharp, que após sua viagem a Compostela criou um curso chamado Caminho Real, onde entre outras coisas os participantes aprendem que a endorfina, um neurotransmissor capaz de modificar o estado emocional de uma pessoa, é liberada no organismo após a prática de um exercício físico intenso, como a caminhada. Daí para botar o conceito em prática, basta vontade e dinheiro para atravessar o mar e chegar à terra del Quijote.
Em sua obra, Em terra, pisando estrelas, Magda von Brixen propõe analisar o Caminho de Santiago sob a ótica feminina. Dedica uma atenção especial à questão da mulher em seu processo de transformação interior, mas isso não faz de seu texto um relato feminista, quando muito poderíamos classificá-lo como um relato feminino, que é de fato a proposta desta peregrina.
Logo no início de sua jornada, no pequeno povoado de Roncesvalles, Magda escreve uma passagem que me parece interessante por ilustrar o primeiro momento dos peregrinos brasileiros no Caminho no início dos anos 1990:
“Na Colegiata de Roncesvalles, o primeiro encontro sem fronteiras com peregrinos franceses, holandeses, belgas, alemães e espanhóis. Mistura de emoções em todos os idiomas, gestos e risos valendo mais do que palavras. A irreverência de Baby não agradou ao cura, que também não tinha em boa conta o misticismo verde-amarelo: disse em alto e bom som que brasileiros vinham ao Caminho em busca de bruxarias. O catolicismo espanhol é muito conservador e a tradução do livro de Paulo Coelho na Espanha não agrada ao clero local. Mas Javier, que coordenava trabalhos e movimentos na Colegiata, revelou-se mais irreverente que nós:
- Você é o cura?- perguntei, ao chegar.
- No, soy locura... ”
Essa visão que o cura de Roncesvalles tem sobre os peregrinos brasileiros, tal como é apresentada no relato de Magda, é sem dúvida preconceituosa e generalista. Mas, sem querer justificar a atitude do padre, temos que lembrar que, naquele momento, corria o mundo uma obra em que ele próprio era citado como um dos “bruxos” do caminho de Santiago, como já foi dito.
Com os livros de Magda e Baby um ciclo se fecha; até o final de década de 1990 poucos relatos serão publicados, até que em 1999, um Año Santo (assim como 2010, pois 25 de julho, dia de Santiago, cai em um domingo), dá-se o boom de brasileiros e brasileiras no Caminho. Com eles chegarão dezenas de relatos de viagem e uma nova geração de peregrinos pós-Coelho, ainda que, de um modo ou de outro, a pegada “místico/esotérica” continue presente na maioria dos relatos. Mas isso fica para um outro post. Ultreya!





























