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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A estrada da cura, by Neil Peart

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Há muitos motivos que levam alguém a viajar para além do simples turismo de lazer. Há gente que viaja a trabalho e há os que trabalham para viajar; há os que viajam para ir estudar e há os que estudam para poder viajar; há os que viajam para se encontrar e há os que viajam para se perder; há os que viajam para ajudar e há os que viajam para serem ajudados; há quem viaje para curar e há os que viajam para serem curados e são destes últimos de quem eu gostaria de falar dessa vez, das pessoas que usam a viagem como um processo de cura.

Solvitur ambulando – isso se resolve caminhando, uma máxima atribuída a Diógenes e a Santo Agostinho, seria uma boa epígrafe para essa postagem. Isso porque acabei de ler Ghost Rider, A Estrada da Cura, narrativa de viagem escrita por Neil Peart que fez da estrada a medicina para curar sua alma sofrida.



Não li muitos relatos de viagem que abordassem exclusivamente desse tema, talvez não tenha lido nenhum, mas com certeza me lembro de várias passagens de narrativas de viajantes discorrendo sobre suas perdas, suas tristezas e amarguras em algum episódio ocorrido durante a viagem.

Entretanto, conheci muitas pessoas que viajavam para se curar de suas feridas emocionais. Acontecia com frequência, quando fui voluntário na Espanha em alguns refúgios por um período de seis meses alguns anos atrás. Eu nada podia oferecer, naquelas ocasiões, a não ser uma acolhida calorosa e um prato de comida, além de um ombro amigo.

Foi assim que conheci uma brasileira, que resolvera fazer o Caminho de Santiago logo após um tratamento quimioterápico. Visivelmente debilitada, andava devagarinho, mas ainda assim muito determinada em chegar ao seu destino. Havia perdido alguns dentes durante a peregrinação, que ia guardando numa latinha de balas, como testemunho de sua entrega. Sua dor física era incontestável, assim como a alegria que sentia em estar ali, viva, caminhando seus oitocentos quilômetros. Por que resolvera fazer a peregrinação, o que a motivara? - perguntei-lhe. Para curar-me, foi o que ela me respondeu. Havia tido um sonho, após o fim da quimioterapia, em que uma cigana lhe dissera para visitar o túmulo de Santiago em Espanha. E assim o fez.


Conheci uma mexicana, linda, jovem, que chegou ao refúgio triste, muito emocionada, a quem vi chorar num canto da sala após o jantar. Foi ter com o cura, que lhe disse para voltar àquele sítio depois que chegasse a Santiago. Estava de volta alguns dias depois. Era outra mulher, havia encontrado a paz; caminhava para curar a tristeza da mãe recém-falecida. Diz que o Caminho a curou. Acreditei de imediato. Coisas do Caminho.

Recebi um rapaz que também viajava para curar sua alma triste. Levava na mochila as cinzas do pai, que havia feito o mesmo trajeto no ano anterior. Disse que lhe prestava uma homenagem e que em muitos momentos na caminhada sentia que o pai lhe acompanhava. Estava feliz porque descobrira que a morte não existe, foram suas palavras, e o Caminho o estava curando, pasito a paso. Anos depois li a mesma história num livro e também assisti a um filme cujo enredo se assemelha muito a esse. O Caminho cura.



Neil Peart não é um peregrino a Santiago, mas sua história é parecida com a dos peregrinos citados acima. No período de um ano, pouquinho mais talvez, perdeu a filha única em um acidente de carro e meses mais tarde, a esposa, de um câncer avassalador. O Neil é um cara famoso, baterista da mais prestigiada banda de rock canadense, o Rush, e escreve tão bem quanto maneja suas baquetas. Em A estrada da cura ficamos conhecendo sua história sob a perspectiva do luto. Neil viaja para curar sua “pequena alma de bebê”, como ele escreve. Enquanto atravessa o Canadá, os Estados Unidos e o México de moto vamos acompanhando sua jornada externa e também sua viagem interior pela estrada da cura.

Há muito para se refletir num relato como esse. Pensei em muitas coisas enquanto lia essa obra. Talvez seja necessário ter passado por alguma experiência semelhante na vida para poder entender o sentimento de Neil, sua conduta enquanto a viagem se desenrola.


Talvez porque tenha perdido meu pai enquanto estava viajando e não ter podido voltar a tempo para me despedir eu tenha entendido uma fração do que é estar sozinho vivenciando o processo de luto. No meu caso, não foi uma atitude opcional, diferente do Neil que partiu para buscar algum tipo de conforto bem longe de casa, montado numa moto sem rumo totalmente definido e sem tempo de voltar.

(...) Logo no início desse duplo pesadelo, lembro de ter pensado: “Como alguém sobrevive a uma coisa dessas? E, se sobrevive, em que estado esse alguém ressurge do outro lado?

(...) Viajar tem me proporcionado pequenos momentos de Verdade e Beleza (estradas, paisagens, vida selvagem) e até mesmo alguns momentos efêmeros em que curto a vida novamente. Ainda há lágrimas e humores sombrios, e aquele onipresente “buraco negro profundo”, mas é sempre melhor estar em movimento.


O autor constrói sua narrativa com a ajuda de cartas, inúmeras cartas e postais que enviava a pessoas mais próximas, especialmente seu melhor amigo, Brutus. Aliás, não bastasse a perda da mulher e da filha (e também do cachorro), Neil ainda teve que suportar a tristeza de ver seu melhor amigo ser preso, por conta de um ato ilícito de comércio de ervas. Como se vê, nada é tão ruim que não possa piorar, mas isso faz parte do jogo. Diz Ramakrishna, grande mestre indiano, que o Universo é uma grande lila (em sânscrito, “brincadeira”, “jogo Divino”) do Senhor, em que jogamos o jogo de viver. Creio que o Neil entenderia muito bem essa metáfora.


Não é preciso dizer que cruzar dois ou três países montado em uma moto bacana sugere uma experiência cheia de aventuras. Elas aparecem, mas na narrativa do Neil tudo é muito comedido, o que fez com que eu criasse uma imagem muito simpática dele, de um homem que não escreve para se gabar de seus atos, porque fácil seria botar uma banca de Hell’s Angels e sair contando vantagens, mas longe disso. E ele bem que poderia.

Pode ser que o luto humanize mais as pessoas, que nesse jogo divino a lição seja a de que somos seres indefesos, por mais que tentemos nos valer de armaduras e máscaras; não há como fugir do destino que nos aguarda inevitavelmente ali na esquina, a morte. Há quem possa afirmar não ter medo de morrer, mas dificilmente haverá alguém que não tenha medo de perder uma pessoa amada, um ente querido. A morte sempre será temida, é um fato, mas é preciso sempre arrumar forças para conseguir continuar na brincadeira até que chegue sua própria vez.


(...) Eu não tinha um motivo de verdade para continuar, não tinha interesse algum na vida, no trabalho ou no mundo lá fora. Mas, ao contrário de Jackie, que sem dúvida desejava a própria morte, eu parecia estar blindado por algum instinto de sobrevivência, algum reflexo interno que se atinha à convicção de que “algo aconteceria”.

Devido a uma força (ou falha) de caráter, nunca me questionei “por que” deveria sobreviver, mas apenas “como” o faria – embora essa fosse uma questão relevante o suficiente para ocupar minha mente na época. (...) Eu não sabia, mas ao longo daquele tempo de luto, tristeza, desolação e completo desespero, alguma coisa dentro de mim parecia determinada a seguir em frente. Algo aconteceria.

(...) De qualquer maneira, agora eu partia com a minha motocicleta para tentar descobrir que tipo de pessoa eu me tornaria e em que tipo de mundo eu viveria.


E então foi assim que Neil decidiu tentar se curar, viajando solitariamente por longas estradas. Não que tenha sido essa sua primeira busca de ajuda; passou por outras etapas, comum nesse processo de luto: terapia, conforto de amigos e parentes, leitura de obras específicas sobre o tema, até chegar ao ponto de “abandonar o lar”. De novo, como sempre, a clássica jornada mítica do Herói que parte em uma jornada de busca. Por tudo o que viveu e sofreu, ao fim da leitura podemos sentir que Neil cumpriu com sucesso sua jornada de Herói.


Apesar de ter gostado bastante da leitura, não acredito que agradará a qualquer leitor: é preciso que haja alguma empatia com o autor, que a todo instante, entre chegadas e partidas, retoma o melancólico tema da perda. Faz parte do luto contar e recontar o trágico, como se com o tempo a dor fosse se diluindo até que continuar vivendo não se torne um fardo. Quem nunca perdeu alguém que amasse muito, os pais, um irmão, um filho ou um amigo íntimo, talvez se sinta entediado com a narrativa do Neil. Por outro lado, aqueles que perderam uma pessoa amada hão de se beneficiar com essa leitura, uma vez que o autor consegue passar uma mensagem sincera do que é conseguir continuar levando a vida quando uma parte de você foi embora para sempre.


(...) Naquela manhã, eu havia escrito um título otimista na frente do meu diário, “A estrada da cura”, e depois de uma salada e de um “combo triplo” de costelinhas, souvlaki e camarão, escrevi as seguintes reflexões sobre o tema:

Enquanto me empanturrava, eu pensava que me sinto melhor hoje à noite do que jamais me senti em amis de um ano. Alcancei a “imersão” na Jornada, o que costumava ser um estado de espírito obrigatoriamente limitado: principalmente quando era interrompido pelo trabalho. Ou pelo fim da jornada. Na presente situação, nenhuma das duas coisas é uma possibilidade real...

Talvez hoje tenham sido 950 quilômetros de cura. “Não é sempre agradável pensar isso?”

Esta frase final de O sol também se levanta, obra de Ernest Hemingway, tinha adquirido um sentido novo para mim nos últimos tempos, na ironia consciente de alimentar um desejo sem acreditar na sua possibilidade. Eu não acreditava realmente que chegaria ao destino chamado “cura”, mas pelo menos eu havia começado a acreditar na estrada, e isso era o suficiente para me manter rumo ao oeste.

“Você pode levar essas rodas até o final da estrada. Você ainda encontrará o passado logo atrás de você.”

Neil Peart


Leia: Ghost Rider – a estrada da cura. Neil Peart. Ed Belas Letras, 2014.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

No teu deserto, by Miguel Sousa Tavares


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Há coisa de seis anos ganhei um livro intitulado Sul: viagens, escrito pelo jornalista português Miguel Sousa Tavares, autor que já foi citado anteriormente aqui no Odepórica, num post sobre desertos.

O livro é uma coletânea de textos e fotos de diversas viagens do Miguel, que se intitula um contador de histórias a quem pagam para percorrer o mundo e contar o que viu. Sorte a dele. Nesse livro de bonita edição, o português relata o que viveu em suas perambulações pelo sul do planeta, que em sua definição engloba países da África, Ásia, América do Sul, Europa e Caribe. Um sul abrangente, como se vê.

Gostei do livro, das fotos e do jeito que o Miguel escreve, embora nunca me sentirei confortável de verdade com a gramática e o vocabulário lusitano, tanto que raramente compro edições de autores publicadas na ortografia de Portugal. Acho que eles devem sentir o mesmo em relação à nossa escrita, e nisso nada há de mal.


Mas há uma coisa que não me encanta muito ao ler os relatos do viajante português: sua escrita está mais para o jornalismo do que para a literatura; percebe-se o cuidado dele ao narrar aquilo que viu com detalhes mais ou menos precisos, como se ele escrevesse já pensando no leitor (o que se espera de um bom jornalista, de fato), e não como se estivesse viajando com o leitor. Percebi em seus textos uma narrativa muito linear, quando esperava encontrar um relato de viagem com as surpresas que surgem durante o trajeto, os desvios e as divagações que tiram o leitor da monotonia das viagens por estradas retas e bem asfaltadas, quando a paisagem passa rapidamente pelo lado de fora do automóvel. A máxima que diz que “viajar é perder-se” também vale, parcimoniosamente, para a viagem narrativa. Uma questão de gosto, pode ser.

Por uma dessas coincidências bobas do destino, enquanto terminava a leitura de Sul: viagens, vi numa banca de jornal outro título do Miguel, desses livros de capa dura que saem em coleções temáticas; a coleção em questão, editada pela Folha de São Paulo chama-se “Literatura Ibero-Americana” e coube ao Miguel Tavares o volume de número 17, intitulado No teu deserto (2009).



É dessas obras ligeiras de cem páginas, de capítulos curtos que se lê com prazer numa tarde de folga. Mais uma vez o Miguel se volta para o deserto, cenário que parece inspirá-lo mais do que qualquer outro. Diz ele que já visitou o Saara mais de dez vezes e isso já demonstra algum tipo de obsessão, não fosse o mundo tão grande e à espera de inúmeros lugares a serem explorados. Não estou julgando o moço, de forma alguma, porque também sou do tipo que gosta de repetir viagens e cenários, então estamos em casa.

Agora vou ser didático. O livro tem doze capítulos; até o capítulo V, quem narra a história é o Miguel. Do capitulo VI ao XII a coisa muda de figura, e então começa o jogo de troca narrativa: uma vez o Miguel, a outra a Cláudia - sua companheira de aventura, depois o Miguelito, depois ela novamente e assim vai. Parece uma troca de cartas, e a coisa quando bem feita fica até interessante e divertida. A história? Pois. É simples, vamos lá: um jornalista, que é o Miguel, viaja com uma caravana para o Saara para fazer uma reportagem para um programa de televisão português.



A caravana de 15 jipes e 4 motos vai percorrer a rota saariana por mais de um mês, mas o Miguel só poderá encontrar seus companheiros de viagem alguns dias depois, em um local combinado previamente, por conta dos trâmites burocráticos para poder filmar na Argélia. A viagem aconteceu no final dos anos oitenta, tempo em que os viajantes e aventureiros ainda não contavam com as facilidades de hoje, como o GPS e a internet. Sim, isso deve ser levado em consideração quando o assunto é aventura e risco.

Começa escrevendo entre parênteses (literalmente) que, no final da história, sua companheira de viagem, a jovem Cláudia, morre. Pá-pum. Juro que não entendi qual foi a do Miguel, entregar assim aquilo que deveria ter sido deixado para o final do relato. Se um dia eu me encontrar com ele por aí, juro que lhe darei um peteleco na orelha.



O gatilho que fez com que resolvesse escrever sobre aquela viagem de 87 foi uma fotografia largada num fundo de gaveta, junto a tantos outros velhos retratos. A lembrança da jovem, a saudade de sua presença (nada mais lusitano do que a saudade) surgida ao olhar para uma foto de Cláudia, fez com que resolvesse escrever sobre a história deles dois, ambientada nas areias saarianas.

Bom, agora você deve estar achando, como ocorreu comigo, que teríamos pela frente uma narrativa de viagem com pitadas de romance, um tipo de viagem de aventura com direito a longos diálogos sobre relacionamento homem/mulher ao estilo Antes do amanhecer/Antes do pôr-do-sol, filmes memoráveis nesse quesito, que nem todo mundo gosta mas que eu curto de montão (aliás, quando li No teu deserto eu imaginei a personagem de Cláudia com a cara da Julie Delpy).



Nada disso, nenhum romance à vista; fica no ar se rolou alguma coisa entre Miguelito e Cláudia. Será? Ninguém sabe, mesmo quando ambos dormem juntos na barraca. Ou não aconteceu nada, biblicamente falando, ou o Miguel agiu mui cavalheirescamente, por respeito à memória da amiga. Não pude deixar de pensar assim: se o jornalista fosse um brasileiro narrando a aventura, duvido que deixaria de fora um affaire no meio do deserto, compartilhando noites geladas com uma gata dentro de uma barraca de camping. Você duvida?

Deixando essas bobagens de lado, vamos ao que interessa, que é a viagem em si. Um crítico da Folha escreveu que nessa obra reconhecem-se os rastros deixados por escritores como Hemingway, Camus e Paul Bowles, meus ídolos literários.  Se tais traços existem, então eles se encontram bem apagadinhos, bem mesmo. Mas não digo isso para desmerecer o texto do Miguel Tavares, só o faço porque decidi comprar o livro por conta desse comentário escrito na capa de trás da obra e não encontrei ligação entre esta e outras obras dos autores citados, a não ser as coincidências geográficas e o cenário do deserto (a Oran e as travessias de navio, de Camus, o deserto e o povo árabe, de Bowles...)  


Há bons e maus momentos na narrativa do Miguel Tavares. Vamos aos bons, àquilo que faz valer a pena a leitura: a fluidez narrativa, a descrição dos locais, os muitos perrengues pelos quais passaram os viajantes e que dão ao relato uma boa dose de adrenalina, os capítulos enxutos com ganchos que incitam a continuar com a leitura página após página, e o capítulo V, o qual gostei muito e que você poderá ler um trecho logo abaixo.

O que me causou estranheza e me fez torcer um pouco o nariz foi justamente a construção da personagem de Cláudia, que é real e que, falecida, jamais poderá contar a sua versão dos fatos. Entenda: se o relato não é uma ficção, até que ponto o autor tem o direito (ou pelo menos a capacidade) de expressar os sentimentos de um terceiro? Meio delicado, embora o narrador não tenha absolutamente tratado a companheira com um mínimo de leviandade, muito pelo contrário, a impressão que se tem é que a jovem que o acompanhou era mais madura do que ele próprio, homem viajado e muito mais vivido.



E como acontece com tantos escritores, há de se ter um domínio muito bom da escrita e uma percepção muito perspicaz da mente humana para poder caracterizar com autenticidade a identidade do gênero oposto ao daquele que escreve. Há nuances que diferenciam o pensamento e a maneira de agir de homens e mulheres que poucos (as) são capazes de captar. É uma vereda traiçoeira, e o risco é o de não conseguir convencer o leitor de que as palavras que saem da boca da personagem soem verossímeis.

No caso do Miguel Tavares, não consegui deixar abstrair que os pensamentos de Cláudia não eram dela, mas uma projeção do próprio autor (o que sempre será de fato, mas que não deveria ser tão facilmente percebido); em algumas passagens, por exemplo, temos a impressão de que o autor é um tanto egocêntrico, quando não arrogante - outro perigo de falar de si próprio através da boca de outro personagem.

Para completar, não gostei da maneira como o Miguel elaborou a questão da perda, da morte da amiga (que não se sabe se foi amante)... Teria Cláudia cometido suicídio? A história é boa, talvez algumas páginas a  mais tratariam de dar mais corpo à narrativa, talvez ele pudesse explorar mais a questão da solidão, de como uma travessia pelo deserto mexe com os sentimentos do viajante, com sua participação no mundo, como tão magistralmente escreveu Paul Bowles em O Céu que nos protege...

Enfim, de um modo geral, mesmo com alguns tropeços, é leitura que vale a pena essa a do Miguel Sousa Tavares. Fecho o post com um excerto do capítulo que mencionei acima, na única passagem onde pude sentir de verdade o Miguel entregue de corpo e alma à magia do deserto. Namastê!



Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos – e esse é assustador. Será assim a morte, também, Cláudia?

Quando um de nós ficava parado a contemplar o deserto, o outro não deveria dizer nada. Tudo o que se pudesse dizer, naquelas alturas, ali, em frente ao nada ou ao absoluto, seria tão inútil que só poderia vir de uma alma fútil. Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos. No deserto, não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio. Mas, naqueles dias, eu estava sempre com pressa. Alguém tinha de estar sempre com pressa e coubera-me a mim, por função. Só não tinha pressa à noite, depois de montado o acampamento, cozinhando o jantar, revisto e arrumado o jipe e de ter passado para um caderno as notas do trabalho do dia e quando, enfim, me sentava com os outros à lareira a olhar as estrelas do Sahara.

Um dia, porém, depois de mais uma paragem para colher imagens, ao regressar ao jipe vi que tinhas ficado ao lado da pista, a olhar em frente, como se tivesse desligado de tudo. Ia gritar-te, buzinar-te, quando qualquer coisa na maneira como tu estavas em pé a olhar o deserto, qualquer coisa na maneira como tinhas as mãos enfiadas nos bolsos, a cabeça ligeiramente inclinada de lado, o cabelo varrido pelo vento, me fez ficar quieto ao volante. E fiquei assim a observar-te até que tu virasses e visses que estava à tua espera. Aprendi que é preciso dar tempo aos outros para olharem. Se não fosse para isso, por que teríamos nós vindo ao deserto?

Muitos anos mais tarde, neste ano em que escrevo esta história, estava num fim do mundo, junto ao rio Guadiana, num sítio tão vazio quanto o deserto, lá em baixo, no Alentejo. Estava a recuperar o fôlego de uma longa caminhada e tinha-me sentado numa pedra a olhar o rio que corria no fundo do desfiladeiro. Creio que estaria como tu estavas naquele dia, o mesmo olhar perplexo perante a vastidão daquele cenário: há alturas em que a beleza é tão devastadora que magoa. Devia haver qualquer coisa na forma como eu olhava aquela paisagem, todo aquele despojamento humano, que fez com que o alentejano que estava comigo, e que antes tinha sido pastor naqueles vales, comentasse:
- A terra pertence ao dono, mas a paisagem pertence a quem sabe olhar.

E era assim connosco naqueles dias, também. Éramos donos do que víamos: até onde o olhar alcançava, era todo nosso. E tínhamos um deserto inteiro para olhar.


Leia: No teu deserto. Miguel Sousa Tavares. 1ª ed. – São Paulo, 2012. Coleção Folha Literatura Ibero-Americana. MEDIAfashion.

Sul: Viagens. Miguel Sousa Tavares. Publicado em Portugal pela Editora Oficina do Livro. O capítulo final, intitulado “A pista para Tamanrasset” trata da mesma viagem relatada pelo escritor em No teu deserto e acrescenta detalhes pormenorizados da rotina da caravana pelo Saara. Para amantes desse tipo de aventura, vale a pena a leitura.

domingo, 18 de março de 2012

Recordações e viagens, by Antero de Figueiredo

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Uma das grandes qualidades do povo português é sem dúvida a disposição de sua gente para viajar. Li em um artigo de revista, não faz muito tempo, que os portugueses estão entre os povos que mais cruzam fronteiras. Não é de se estranhar tal afirmação, se levarmos em conta o histórico das grandes viagens de exploradores portugueses mundo afora - viagens estas que contribuíram para redesenhar o mapa do mundo em que hoje vivemos. E sso não é pouco.

Algo me diz que todo esse histórico de viagens e deslocamentos para fora da Península em que se encontra o povo português ajudou a formatar a personalidade de sua gente, originando daí, e desde então, o forte sentimento de saudade tão a eles associado. Essa é uma das características do ethos português que mais admiro, algo que torço profundamente para que não se perca com o andar da carruagem pós-moderna e líquida na qual todos estamos inevitavelmente inseridos.

Embora o ato de viajar esteja associado às melhores coisas da vida, há momentos em que a alegria do deslocamento dá lugar a sentimentos antagônicos a este sentimento: a dor da solidão e a melancolia da saudade e não é difícil encontrar quem nunca sentiu uma vontade louca de voltar o mais rápido possível para casa ainda no meio de uma viagem programada durante meses. Simplesmente acontece, faz parte do ritual.

Acabei de ler um livro muito antigo, de autoria de um viajante e escritor português há muito falecido. Seu nome é Antero de Figueiredo (1866, Coimbra -1953, Porto) e a obra que li intitula-se Recordações e Viagens, uma segunda edição portuguesa do ano de 1916. Rubricada pelo autor, se posso gabar-me.






Parece-me fascinante esticar o esqueleto na poltrona com uma obra centenária nas mãos e, por uma ou duas semanas, me transportar para o ambiente de um escritor e viajante bom de prosa e culto como foi D. Antero de Figueiredo. Como de praxe, como sói acontecer quando leio relatos de viagem antigos, foi possível encontrar muitas passagens das impressões de viagens de D. Antero em que podemos comprovar que certas coisas pouco ou nada mudam com o passar do tempo, principalmente aquelas relacionadas à personalidade humana, o que me leva a conjeturar que somos todos seres muito previsíveis...

Como bom português que foi, D. Antero perambulou bastante pelos países da Europa e ainda deu um pulinho nos Estados Unidos, porque português, para viajar de verdade, tem que atravessar pelo menos um oceano. Seu relato de viagem pelos States aparece lá no finalzinho do livro, num capítulo intitulado Páginas de um “Bloc-Notes” e a viagem pela “América” tem uma entrada bem blasé: “Passando por Washington”. Um barato o D. Antero, que a propósito teve ótimas sacadas sobre o povo de lá.





De todos os capítulos, um me chamou a atenção em particular, porque tenho especial apreço pelo tema: visitas a cemitérios. Como bom escorpiano que sou, esse ambiente sempre me causou fascínio, desde moleque. Nunca havia parado para pensar nisso, mas agora me vem claro à memória um fato interessante: em todas as minhas viagens eu acabo entrando em um ou mais cemitérios.

Gosto tanto dos famosos, para visitar túmulos de gente conhecida, como os pequeninos e abandonados, cuja presença mal se nota num canto de estrada ou na saída de um povoado qualquer. Houve ocasião, na Espanha, em que parei para comer um lanche no meio de um dia quente e nem percebi que havia escolhido como banco, sob uma árvore, a lápide de um velho túmulo aparentemente abandonado. Só me restou ler o nome do defunto e rezar pela sua alma uma ave-maria rápida, porém honesta, antes de tomar de volta o rumo da estrada.





Eu achei as observações cemiteriais de D. Antero muito cativantes, da mesma forma que gostei do seu relato de viagem à terra de São Francisco, em Assis. Os outros capítulos, devo confessar, não me entusiasmaram tanto, talvez por conta das inúmeras divagações pessoais que ganham mais destaque na narrativa do que os lugares por ele visitados, embora isso seja provavelmente comum aos relatos de viagem mais antigos. Também com isso aprendemos, quando for a nossa hora de escrever sobre nossas próprias impressões de viagem.

Você irá ler, portanto, o capítulo sobre os cemitérios que D. Antero de Figueiredo visitou em sua passagem pela Itália. Não se trata apenas da descrição de lápides e monumentos funerários, mas também de certos costumes que, já àquela época (comecinho do século passado), pareceram mórbidos ao olhar do viajante português, mas que não deixam de ser documento antropológico precioso para ajudar a compreender o fascinante comportamento do homem em sua relação com a morte e com o além. Ao final desse relato, transcrevi um Post-Scriptum muito interessante e que tem tudo a ver com o universo do Odepórica, no qual D. Antero responde à seguinte questão: O que é que fica do torvelinho das viagens? Leia que vale a pena. Namastê!


Três cemitérios italianos (Palermo, Pisa e Gênova)




Os cemitérios estrangeiros vêem-se sem nos doer. São lugares que se visitam como qualquer outra curiosidade: museus, palácios ou ruínas! Nas nossas terras, onde todos nos conhecemos, vivos e mortos, tais visitas são sempre tristes: voltamos de lá – dessa terra que nos espera – com tanto medo à morte como à vida!...

Na Itália, os cemitérios, no meio de relvados, de flores, de estátuas, de belos monumentos; fora das cidades, em campos cheios de sol e debaixo de um céu sempre azul; - são alegres, perfumados, e dá gosto andar por eles como em jardim. Mas esse, nos subterrâneos do convento dos capuchinhos, em Palermo, é pavoroso! Maupassant, viajando na Sicília, foi vê-lo, poucos anos antes de morrer; e nenhum daqueles seus nevrosados contos, já às portas da loucura, sem nenhum dos de Poë ou de Villiers de L’Isle-Adam, produzem o calafrio de terror que nos causa esse cemitério, cuja terra tem a trágica sofreguidão de devorar em alguns meses a carne que lhe põem! Tudo desaparece!




Então, a família do morto manda desenterrar o esqueleto, lava-o, articula-lhe os ossos ainda pendurados por ligamentos ressequidos, veste-lhe o último fato que em vivo usou, ou um simples hábito de frade, e dependura-o na parede da galeria, ao lado de outros, e assim o visita pelo ano adiante! Medonho!





Há viúvos que vestem o esqueleto das mulheres com os trajes brancos do noivado, pondo essas sedas e essas flores de frescura imaculada em cima de crânios esverdinhados pelas chagas da podridão! Há mães que vestem os filhos com as roupinhas que eles tinham quando lhes morreram; e nos ossos das mãozinhas põem-lhes os brinquedos com que eles mais gostavam de brincar!...





Não há pesadelo de nevropata comparável ao horror que se sente vendo as fisionomias dessas centenas de caveiras, umas torcendo-se em risos infinitos, outras ladrando pragas infernais; mas todas interrogando-nos violentamente com as covas negras dos seus olhos profundos! Foge-se apavorado!





O cemitério de Pisa produz impressão bem diversa. Chama-se ainda “Campo-Santo”, mas há séculos que se não sepulta aí ninguém; e as últimas trasladações fizeram-se há muito. Hoje, na terra desse claustro – terra santa que um bispo medieval mandou vir do Monte Calvário – cresce erva em paz e canta a roldana de um poço humilde tocado de sol. Aos lados, a toda a roda, sob arcadas de paredes cobertas de frescos desbotados, há a luz e o silêncio das naves góticas...






Mas quão diferente não seria há cinco ou seis séculos, quando era verdadeiramente um Campo-Santo! Então, à tristeza do lugar e da época, juntava-se o pavoroso sentido dessas trágicas pinturas murais, expressamente aí postas para mais entenebrecer as almas embiocadas num cristianismo taciturno, e confrangidas sob as servidões e preconceitos da Meia-Idade. Era terrificante a lição dos painéis! Se nas igrejas o povo estrebuchava ouvindo as descrições do inferno, feitas com apavorados exageros, o que não sentiria ao ver essas pinturas, onde o castigo eterno era mostrado em paroxismos de imaginação!





Todos os pecados e castigos aí figuravam. O diabo – esse vitorioso diabo medieval – por toda a parte espiona oportunidade de ilaquear as almas, na cela ou na tebaida. O nojo que elas lhe tinham levava-as a pintá-lo em fantasiosas formas de animais imundos; mas via-se que a mão do artista tremia ao desrespeitar tão alto poderio!... Por outro lado, nessas cenas de julgamentos finais, o juiz supremo, tonante como Júpiter, não era representado com menos paixão em sua cólera divina: o gesto com que expulsava os réprobos aterrava tanto como o rir do diabo a precipitar os condenados na dor infinita!






Entre estes dois temores vivia o espírito frágil dos crentes. Os padres clamavam estas tremendas ideias, e os pintores giotescos mostravam-nas ali naquele lugar já de si tão triste – tão apavorado do sentimento religioso nascido da ideia da morte!

O artista toscano desse tempo, sombrio e imaginoso, pintava os pesadelos que atormentavam sua ânsia de salvação. Outros eram inspirados por padres que se serviriam da pena de escritor submisso: muitos frescos são dissertações pintadas – panfletos da época. Eram pinturas de ideias, como um século depois, na Alemanha do sul, o foram os profundos desenhos de Dürer.



O cemitério de Gênova, como o de Milão, é uma galeria esculpida em mármore de famílias dos mortos. O italiano de hoje tem a vaidade de por a sua escultura num túmulo, como o alemão do tempo de Memling e de Holbein tinha a de ver o seu retrato num tríptico; mas ia melhor com a piedade esse retrato humilde e de mãos postas, do que vai com o pudor das dores intimas o mostrar cada um em público as lágrimas que chora por seus mortos!

Este assunto – esse luto – é tratado no cemitério de Gênova de mil maneiras diferentes; e se há formas originais, notáveis como pensamento e como arte, outras há – o maior número – vulgares, tresandando à endinheirada encomenda burguesa que impôs o seu mau gosto ao escultor, como, por exemplo, isso de reproduzir a cena dos últimos momentos do moribundo – o quarto da cama, a família e os criados com lágrimas nos olhos – tudo em tamanho natural e em belo mármore de Carrara, não faltando o pormenor do corte das unhas e do fio da fazenda!



Vários são assim; mas há um túmulo que impressiona vivamente: junto de um caixão, um austero frade capuchinho – velho de longas barbas e testa vincada – em pé, absorvido num livro de orações. É tudo; mas com que respeito nos aproximamos desse túmulo e nos pomos a falar baixo para não perturbar a reza do santo, que advoga no Infinito a causa daquela alma!...

Outro, e este todo delicadeza: de um sarcófago pende um medalhão com o busto, tamanho natural, de homem ainda novo. Junto, uma linda figura de mulher com uma criança ao colo – viúva e órfão – que veio visitar o seu morto; e enquanto, chorosa, alivia a sua dor na dor de pensar nele..., a criancinha, sorrindo, faz festas, com os deditos, na face do busto em que reconheceu o pai!





Se a saudade pelos mortos fosse em todos os túmulos tratada com tão comovido poder de arte como é nesse, seria bem impressionante andar pelo meio deles! Mas não é; e ainda bem, para que a nossa saudade se não rasgue na saudade dos outros!...

Post-Scriptum


O que é que fica, afinal, do rodopio das viagens? Os práticos tiram delas uma clara noção da vida, no que é trabalho e ganho, como não tinham antes de ver o mundo; as almas livres criam mais amor à liberdade, porque a viagem liberta; aos de mente pregueada de prejuízos de toda a espécie, a viagem areja e ensina como passear pela História; mas para os espíritos depressa saciáveis, e que tudo viram, fica o tédio que se segue à imprudência de realizar...

Felizmente, porém, os olhos destes viajantes andam tão vagos, e pousam, sem se apegar, a tanta coisa (que bem considerada daria para demorado gozo) que do muito que vêem pouco lhes fica, como pouco se retem do muito que se estuda. E esta lacuna é fermento bastante para novas ânsias; e dá o prazer esquisito de se amar o que se não viu pelo que viu...

De um país inteiro, fica uma cidade, fica uma aldeia; dessa aldeia, certa esquina de rua, certa igreja; da igreja, um canto de altar; de um quadro, uma figura, uma expressão, um gesto, e do gesto, às vezes, somente a alma de uma linha, a sugestão de uma cor.

Afinal, repito a pergunta: que é o que fica do torvelinho das viagens? Não atino com resposta que não seja esta: fica o que fica dessa outra viagem através da mocidade: saudade! Saudade que terá também a sua tarde poente, porque, com o decorrer do tempo que tudo desbota, um dia há de vir em que ela verá apagarem-se de todo as imagens, já de si tão dispersas, já de si tão afastadas, daquilo que foi o brilho e de que se enamorara. E, então, no crepúsculo derradeiro desse frio entardecer, sentirá a saudade das suas saudades!...



Leia: Recordações e viagens. Antero de Figueiredo. Livrarias Allaud & Bertrand. Lisboa, 1916. 2ª edição. Fácil de encontrar nos portais de Sebos virtuais.