quarta-feira, 19 de março de 2014
O cavaleiro preso na armadura, by Robert Fisher
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Nos caminhos da Glória, by Eleonor Munro

Na peregrinação o tempo é medido pelo nascer do Sol e da Lua, pelo aparecimento das estrelas, pelo equinócio e solstício e pela chegada dos planetas nas respectivas posições. Numa definição mais ampla, até seria possível argumentar que sair em peregrinação é uma das poucas práticas humanas compartilhadas pelo mundo todo e começou junto com o anseio de evoluir que provocou a percepção autoconsciente da humanidade em relação ao mundo.
São com estas palavras que Eleonor Munro abre seu estudo sobre peregrinações, numa obra intitulada Nos Caminhos da Glória. Dividido em seis capítulos, o livro aborda algumas das principais rotas peregrinatórias do Ocidente e do Oriente, contemplando as seguintes localidades nessa ordem: Índia, Indonésia, Jerusalém, Grécia, Roma e Santiago de Compostela.
Formada em História da Arte, Eleonor buscou nesse estudo oferecer uma descrição da peregrinação nas principais religiões universais, exceção feita ao islamismo, por conta da dificuldade que alegou possuir em se dirigir à sagrada cidade muçulmana de Meca. Diz ela que “o livro é também uma visão especulativa; sugiro que existe um mito básico que proporciona uma montagem visual e as estruturas internas da peregrinação pelo mundo inteiro.”

Nada de novo nessa visão de Eleonor, no que diz respeito ao mito básico que permeia as mais variadas tradições religiosas mundo afora. Muitos estudiosos das religiões já escreveram sobre isso, entre eles Mircea Eliade, uma referência nesse campo, Victor Turner (em seu excelente e fundamental texto A imagem e a peregrinação na sociedade cristã) e Joseph Campbell, o grande mitólogo norte-americano que dispensa comentários. A autora valeu-se desses e de outros grandes estudiosos para criar o alicerce de sua obra e nesse sentido foi muito feliz, porque o resultado em termos mais acadêmicos foi bastante sólido.
Porém, algo ficou faltando no meio do caminho e já lhe digo o que é. Mrs. Munro começa bem a sua jornada; de forma literal, a escritora põe os pés na estrada, de modo que logo imaginamos que o livro vai ter aquela aprazível mistura de texto acadêmico com narrativa de viagem que combina feito pão e vinho. Mas isso só acontece primordialmente na primeira viagem da velha dama, quando ela se dirige à Índia.

Naquele país temos um relato vigoroso, cheio de observações e notas de viagem saborosas, onde a autora se mistura com os locais, interroga (via intérprete) os homens santos - sem vergonha e quase de maneira descarada - com perguntas sonsas do tipo: “Em que está pensando?”. Sorte a dela que o sâdhu era um homem educado, assim como o indiano que ela encontrou um dia em Nova Iorque, quando arriscou uma pergunta um pouco mais elaborada:
- Qual a melhor coisa a procurar na Índia?
Procure Shiva – respondeu o hindu.
- Onde?
- Em Benares.
- Em que parte de Benares?
- Onde procurar, vai achá-lo.
Se não é tão boa com as perguntas, pelo menos não faz feio quando se põe a refletir sobre aquilo que acontece ao seu redor; Eleonor sabe tirar proveito de suas leituras e sem dúvida é uma mulher inteligente e bastante curiosa em aprender coisas novas. Nesse aspecto, o leitor ganha muito com a leitura.
Na releitura que fiz da obra logo me veio à mente o que havia me desagradado na primeira vez: o distanciamento da Eleonor viajante, que cedeu lugar à Eleonor pesquisadora; depois da viagem para o subcontinente indiano, a participação da autora com o objeto de sua pesquisa torna-se muito distanciada, e o que prometia ser um relato apaixonante de uma pesquisa de campo acaba se transformando em um texto acadêmico sem emoção. O capítulo dedicado ao Caminho de Santiago, que me motivou a comprar o livro na época, é um desânimo só. Um desperdício, porque Eleonor tem muito jeito com as palavras.

Enfim, o que se pode fazer? Eu havia desistido de escrever sobre essa obra aqui no Odepórica porque achei que não conseguiria tirar algum material condizente com a temática das viagens, por conta do que acabei de escrever no parágrafo anterior.
Mas achei um gancho, que servirá, pelo menos, como um momento de reflexão àqueles que, como eu, se sentem atraídos pelas experiências deambulatórias alheias (e fará com que minha releitura, afinal, tenha valido a pena). Refiro-me a uma passagem onde a autora se encontra na Índia, terra abençoada por um milhão de deuses. E nessa imensidão de divindades, uma sempre haverá de causar impacto: a deusa Kali.
Kali, a deusa negra, deusa dançarina dos crematórios, é uma das divindades mais assustadoras do panteão hindu – e possivelmente a mais mal interpretada de todas elas (tal como acontece com Exu, poderoso orixá do Candomblé, injustamente demonizado pelas religiões cristãs).

Iconograficamente, Kali é representada como uma deusa negra (Maha-Kali, a Grande Negra), com uma protuberante língua vermelha saindo de uma boca arregaçada sedenta de sangue, com uma guirlanda de crânios adornando o pescoço e um cinto feito de mãos decepadas.
Na verdade, Kali é a personificação da Deusa Mãe e todas as outras deusas são manifestações dela: Devi, Durga, Parvati, Uma, Sati, Padma, etc. Algo semelhante acontece no catolicismo, com suas inumeráveis Santas Marias, todas elas representações de uma única Virgem ou Nossa Senhora. E puxando um gancho, a Mirella Faur, autora do interessante Anuário da Grande Mãe, diz em seu estudo sobre as deusas que Kali (Kalika, para ela) é cultuada atualmente como Sara Kali ou a Madona Negra. Prossegue: “Transformada pela Igreja em Santa Sara, ela continua sendo para os ciganos a Mãe de seu povo. Devido a sua cor escura, Sara Kali é considerada a precursora das Virgens Negras europeias.” Interessante, não?

Enquanto Krishna ou Ganesha, (o deus menino com cabeça de elefante) causam simpatia e alguma comoção entre os viajantes e turistas mal informados que viajam à Índia, Kali é aquela cuja presença causa arrepios nos desavisados; obviamente, não foi o que aconteceu com a Eleonor Munro, uma pesquisadora séria e muito culta. A pergunta, que muitos não hindus se fazem, é: qual o significado dessa representação que, à primeira vista – e isso não se pode negar – causa tanta estranheza aos que são de fora?

Essa resposta pode ser difícil até mesmo para um indiano, já tão acostumado com a presença da grande deusa em seus altares. É em parte, através da observação dos rituais, das oferendas e das manifestações de amor e de carinho dirigidas a Kali que o viajante ou turista poderá compreender que aquela imagem tem que ser compreendida amplamente dentro de um sistema simbólico religioso, sem o qual ela jamais poderá ser decifrada, lembrando que o padrão simbólico tem o propósito de orientar o iniciado em seu processo de busca interior, a famosa jornada - em termos psicológicos - rumo ao Self.
Acredito que qualquer pessoa, com um pouco de sensibilidade e um tanto de leitura prévia sobre os costumes e a cultura local de um povo, seja capaz de ultrapassar a barreira das aparências e entender, ainda que parcialmente, que existe algo que vai além da primeira impressão.
Lembro-me que em minha viagem à Índia, em 1997, visitei com um amigo uma igreja católica em uma cidade cujo nome não me recordo, e que num salão anexo ao templo havia um museu, um tanto decadente, com vários bonecos em tamanho natural representando cenas importantes da bíblia, cada passagem como que montada em pequenas celas no estilo vulgar dos parques de diversões comuns em cidades litorâneas e do interior, com suas capengas e divertidas casas assombradas.

Marcou-me muito o fato das crianças de um grupo escolar que nos acompanhou ao passeio rirem (sem faltar com o respeito) daquela encenação toda, afinal para elas tudo aquilo não fazia o menor sentido e quisera eu poder entender sua língua para saber o que diziam as gravações que explicavam aquelas cenas. Nunca saberei. Íamos caminhando e parávamos em frente a cada cela que se iluminava enquanto a anterior se apagava, e foi assim até a última parada, quando então apareceu-nos encenado o Cristo crucificado, quase tão coberto de sangue quanto a deusa Kali.

Sempre desejei saber o que se passou na cabeça daquelas crianças naquele exato momento, quando já não mais viam graça alguma na representação. Novamente, nunca saberei, mas algo me diz que a dramaticidade daquela cena passou longe do sentimento de amor e compaixão ao qual os cristãos associam a Cristo Jesus.
Guardando as devidas proporções, não estamos diante de dois fatos semelhantes? Pois para um hindu, cuja religião não se conecta com o cristianismo, um Jesus na cruz é tão aterrador quanto a face negra de Kali com sua grinalda de caveiras o é para um ocidental. Daí a importância de nunca julgarmos aquilo que não conhecemos ou não compreendemos bem, um preceito tão óbvio e ao mesmo tempo tão facilmente ignorado.
Para quem acha esse tema interessante e quiser se aprofundar mais, indico as obras de Heinrich Zimmer (1890-1943), famoso indólogo que publicou textos extraordinários sobre a arte e as tradições religiosas da Índia. Embora o tema me interesse em particular, continuar escrevendo sobre Kali e os aspectos simbólicos dentro da religiosidade hindu foge muito da temática deste blog, por isso, para fechar as nossas divagações, vamos ler a seguir a passagem que me levou a escrever isso tudo que você acabou de ler aqui. OM Sri Kalikaya Namaha!
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Na qualidade de peregrina, cheguei em Kali-Durga no lugar que passo a descrever. No chão de um santuário escuro como breu, no meio de uma porção de lixo e estrume, vi uma pedra preta com olhos de prata colados; uma língua vermelha de tanto lamber sangue saía da pedra.
Alguém havia colocado flores e arroz diante da pedra.
- E isto? Que acha disto? – perguntei ao meu guia, que era muito cordial.
- Acho cheio de paz. Tranqüilo. Como uma cemitério. A gente descansa. Qualquer um pode ficar aqui como se estivesse morto.
Pensei comigo: enquanto eu não entendesse Kali como “paz”, não seria capaz de entender a Índia. Algum tempo depois fui ao templo de Calcutá onde o crânio de Sati caiu do céu.

Passamos por vários becos sem sol. Em algum lugar um cachorro uivou. De várias cabanas de bambu escurecidas pelo tempo surgiram várias pessoas de rosto escuro que foram olhar da porta. Em cima de um muro de pedra vimos uma indigente empoleirada nuns joelhos magros, jogando dados com um menino vestido de trapos vermelhos.
Dobramos a esquina e chegamos numa praça. Numa plataforma alta ficava o templo, apinhado de peregrinos. Havia muitos gongos soando. Subimos e ficamos com a multidão que se empurrava para o altar. Bandeiras vermelhas tremulavam. De repente, vi-me levada para a frente.

Tropecei na beira de uma pedra e olhei para baixo. Vi a chama de muitas lamparinas a óleo entre flores vermelhas. “Salve, Mãe do Mundo das Ilusões!” choravam os peregrinos que estavam atrás de mim e ao meu lado. Ali, no meio do fogo e das flores, estava Kali de novo, transformada outra vez em pedra preta, dessa vez com três olhos, a língua vermelha de fora e as mãos erguidas em súplica, mãos vermelhas como o toco do braço de uma criança cuja mãe tomou talidomida.
Estaria eu esperando ver ali a Virgem Maria, de faces rosadas, dentro de uma nuvem? Confusa, olhei de novo para o meu guia e amigo. Ele olhou para mim com olhos muito brandos e repetiu: “Paz”.
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Leia: Nos Caminhos da Glória. Eleonor Munro. Editora Siciliano, 1992.
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Fontes:
Filosofias da Índia e Mitos e símbolos na arte e na civilização da Índia, de Heirich Zimmer, publicado por aqui pela bem aventurada Editora Palas Athena.
O Anuário da Grande Mãe: guia prático de rituais para celebrar a Deusa. Mirella Faur. Editora Gaia, 2001 (2ª ed.)
domingo, 28 de fevereiro de 2010
O rastro dos cantos, by Bruce Chatwin

Essas imagens pobres sobre uma determinada cultura são as que primeiro aparecem em nossos pensamentos (por exemplo: pense em Austrália e logo lhe vem à cabeça um canguru, ou um bumerangue ou a fisionomia peculiar dos aborígines); acredito que isso se deva, até certo ponto, à influência de uma memória coletiva que a maioria de nós guardamos sobre certos lugares e acontecimentos. É a mesma coisa, se formos comparar, com o que pensam os estrangeiros sobre o Brasil: país do samba e do futebol, como se somente isso caracterizasse a nossa rica cultura.
Comecei a enxergar a Austrália de maneira diferente depois de haver assistido a alguns filmes que rodaram o mundo fazendo muito sucesso: O casamento de Muriel e Priscilla a rainha do deserto, por exemplo, fizeram muito sucesso e, para mim, mostraram um lado simpático, bem humorado e um tanto amalucado dos australianos.
Na literatura, até onde me recordo, meu primeiro contato direto com a Austrália foi no livro O rastro dos cantos, do escritor e viajante inglês Bruce Chatwin, de quem já postamos matéria aqui no Odepórica, sobre o seu trabalho mais conhecido, Na Patagônia.
Em O Rastro dos cantos Chatwin mergulha profundamente no universo da tradição mitológica dos aborígines australianos. É meio complicada a explicação sobre o rastro dos cantos, mas de modo geral funciona assim: no passado, cada antepassado aborígine, ao viajar pelo país, espalhava um rastro de letras e notas musicais ao longo da linha de suas pegadas, de modo que isso mais tarde funcionaria como um meio de comunicação entre as tribos mais distantes. “Um canto”, escreve Chatwin, “era tanto um mapa como um orientador direcional. Desde que você o conheça, sempre poderá encontrar seu caminho através do país.”
Continuando com as palavras do autor:
“Em teoria, pelo menos, a totalidade da Austrália poderia ser lida como uma partitura musical. Dificilmente haveria uma pedra ou riacho no país que não pudesse ou não tivesse sido cantado. Talvez se devessem visualizar os Rastros de Cantos como um espaguete de Ilíadas e Odisséias, retorcendo-se para um lado e para o outro, onde cada ‘episódio’ poderia ser lido em termos de geologia”.
“(...) Tenho uma visão dos Rastros de Canto se estendendo por continentes e pelos séculos; que, por onde quer que tenha andado, o homem deixou uma trilha de canto (cujo eco podemos, vez por outra, perceber); e que essas trilhas devem levar de volta, no tempo e no espaço, a um bolsão isolado na savana africana, onde o Primeiro Homem, abrindo a boca em desafio aos terrores que o cercavam, gritou o verso de abertura do Canto do Mundo: ‘EU SOU!’ .”
Eu, que nunca havia ouvido falar em algo parecido, achei encantadora essa imagem de um mapa sonoro cobrindo todo um país, já imaginou? Acho que essa imagem combina muito bem com o Brasil, um país tão musical e repleto de cenários maravilhosos... haja canto para tanto!
Mas vamos prosseguir aqui com nossa leitura. Bruce, ao chegar à Austrália, entra em contato com um expert no assunto, Arkadii, um homem culto e apaixonado pela cultura aborígine, que o levará para cima e para baixo no território australiano para compreender melhor como funciona o lance dos rastros. Conhecem muitas pessoas ao longo do caminho, o que parece ser uma marca registrada de Chatwin em seus relatos de viagem, o que confere um brilho todo especial à sua narrativa. Mais uma vez, percebemos que uma das coisas mais importantes e gratificantes de uma viagem são as pessoas com as quais convivemos durante o percurso, por mais superficiais e breves que sejam esses encontros. Às vezes, um simples comentário feito à toa por um residente local em uma cidade pode mudar radicalmente os planos de uma viagem. Daí a importância de se estar aberto ao novo, uma atitude receptiva em relação ao outro contabiliza muito mais ganhos do que uma posição neutra ou fechada.
Mas desse mal não sofre Chatwin, que topa tudo, ou quase, que lhe aparece pela frente. E com a companhia de Arkadii, que assume a posição de um guia de viagem em relação a Bruce, tudo fica mais fácil. Quem é esse Arkadii, um australiano descendente de russos que perambula pela Austrália atrás dos rastros dos cantos? Bruce Chatwin fala um pouco sobre seu amigo logo nas primeiras linhas do livro, embora não fiquemos sabendo exatamente como eles se conheceram ou foram apresentados.
“Era um andarilho incansável, um sertanista. Não pensava duas vezes antes de partir, com um cantil e um pouco de comida, para uma caminhada de cento e sessenta quilômetros pelas montanhas. Depois, voltava para casa, saindo da luminosidade e do calor, puxava as cortinas e tocava a música de Buxtehude e Bach no cravo. As progressões ordenadas dessa música, dizia, adequavam-se aos contornos da paisagem da Austrália Central.
(...) Gostava de aborígines. Gostava de sua coragem e tenacidade, e da habilidade que tinham para lidar com o homem branco. Aprendeu, ou quase, duas de suas línguas e ficou assombrado com o vigor intelectual, as proezas de memória e a capacidade e a determinação de sobrevivência deles. Não eram, ele insistia, uma raça em extinção – embora necessitassem de ajuda, vez por outra, para tirar o governo e as companhias de mineração de suas costas.
Foi durante sua experiência como professor que Arkadii tomou conhecimento do labirinto dos caminhos invisíveis que serpenteavam por toda a Austrália e eram conhecidos dos europeus como ‘Trilhas de Sonho’ ou ‘Rastros de Cantos’; e pelos aborígines, como ‘Pegadas dos Antepassados’ ou ‘Caminho da Lei’.
Os mitos aborígines da Criação falam dos seres totêmicos legendários que vagaram pelo continente no Tempo do Sonho, cantando o nome de tudo o que cruzava seu caminho – pássaros, animais, plantas, pedras, poços – e assim dando existência ao mundo por meio do canto. Arkadii ficou tão marcado pela beleza desse conceito que começou a tomar notas de tudo o que via ou ouvia, não para publicá-las, mas para satisfazer a sua própria curiosidade. No começo, os anciãos waldbiris desconfiaram dele, e as respostas que davam às suas perguntas eram evasivas. Com o tempo, uma vez tendo conquistado a confiança deles, passou a ser convidado a testemunhar suas cerimônias mais secretas, e foi encorajado a aprender suas canções.”
Isso basta para podermos verificar que Bruce teve a sorte de ter como companheiro de aventura um homem extremamente qualificado para o seu projeto, se é que essa pessoa realmente existiu, visto que muitos críticos afirmam que Chatwin inventou muitos fatos e personagens em suas narrativas, ou seja, você nem sempre vai saber quando aquilo que está lendo é fato ou ficção. Não que isso importe, a não ser que você esteja atrás de uma leitura mais comprometida com fatos reais, um estudo de campo, por exemplo. Se for o caso, essa leitura não se aplica, nem mesmo se a sua intenção for a de conhecer mais sobre a cultura dos povos nômades australianos, já que Chatwin não é antropólogo e seus conhecimentos sobre a cultura dos aborígines mostram-se bastante superficiais.
O que merece atenção é o chamado à aventura, é você entrar no mundo desse viajante obstinado, sair um pouco da sua rotina que suponho deva ser muito diferente daquela que se encontra na narrativa de Chatwin e nisso o livro é bom, gostoso de ler.
O Rastro dos Cantos pode ser dividido em duas partes; na primeira vamos acompanhar o autor pelo outback australiano, as áreas de terras áridas e distantes dos centros urbanos. Nessa parte o leitor conhece mais sobre o objeto de estudo do escritor, os rastros dos cantos propriamente ditos. Isso toma dois terços do livro, até que, pego de surpresa, o leitor se depara com o final da narrativa, quando Bruce se separa de Arkadii (que felizmente volta a aparecer no finalzinho da história) e começa a escrever anotações soltas de suas cadernetas de viagem (seus inseparáveis Moleskines) numa longa divagação onde reflete principalmente sobre a natureza nômade do ser humano.
É estranho? É sim, um pouco, mas eu particularmente gostei muito, de verdade. É como se pudéssemos entender melhor a cabeça de Chatwin, uma parada na viagem, que é sempre proveitosa se esta for longa e cheia de informações novas. Parar para descansar, para refletir, para aquietar o corpo e a alma, e para escrever – para quem é dado a isso. Escrever um diário de viagem pode ser um grande exercício de meditação, sabia? E é isso o que se lê nas páginas finais desse livro. Nem tudo é de interesse do leitor, pelo menos foi assim comigo. Nem sempre as notas dos cadernos têm relação com a história, estão mais para divagações, para preencher lacunas de pensamentos soltos. Mas isso não chega a incomodar já que os textos são sempre curtos (do contrário seriam entediantes).
As conclusões de toda essa narrativa sobre os rastros dos cantos aparecem pinceladas em algumas passagens, principalmente mais para o final da obra e merecem ser postadas aqui. Bruce Chatwin estava, no período dessa viagem, lutando contra a realidade da Aids, que o venceria dois anos após essa aventura, de modo que esse foi seu último grande trabalho.
“Tive um pressentimento de que a fase ‘viajante’ da minha vida estava chegando ao fim. Senti, antes que o mal-estar da fixação me invadisse, que devia reabrir aqueles cadernos. Devia colocar no papel uma lista das idéias, citações e encontros que me entretiveram e obcecaram, e com os quais eu esperava poder iluminar o que, para mim, é a questão entre as questões: a natureza do desassossego humano. Pascal, em uma de suas pensées mais sombrias, dá como sua opinião que todos os sofrimentos originam-se de uma só causa: nossa incapacidade de permanecer quietos numa sala”.
“Todos os Grandes Mestres pregaram que o Homem, originalmente, era um ‘errante pelo deserto seco e árido deste mundo’ – são palavras do Grande Inquisidor de Dostoievski – e que, para redescobrir sua humanidade, era preciso despojar-se das amarras e tomar a estrada”.
“Meus cadernos mais recentes estavam cobertos de notas tomadas na África do Sul, onde examinara, em primeira mão, certas provas da origem de nossa espécie. O que lá aprendi – junto com o que agora sei sobre os Rastros de Cantos – parecia confirmar a conjetura que vinha ruminando por tanto tempo: que a seleção natural nos destinou – da estrutura de nossas células cerebrais até a estrutura do dedão do pé – a uma vida de viagens sazonais a pé através de uma terra impiedosa de espinhos ou do deserto”.
“Se assim o fosse, se o deserto fosse o ‘lar’, se nossos instintos fossem forjados no deserto, para sobreviver aos rigores do deserto – então ficaria mais fácil compreender por que pastagens mais verdejantes nos enfastiam; por que os bens nos esgotam, e por que o homem imaginário de Pascal vê como uma prisão suas confortáveis acomodações”.
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
O caminho de Avalon, by Jean Shinoda Bolen

Jean Shinoda Bolen é médica psiquiatra e seu trabalho tem como diferencial o ênfase na dimensão espiritual do ser, sobretudo no que diz respeito às mulheres. Seus livros são usados nas universidades nas áreas que se dedicam aos estudos de gênero, psicologia da mulher, mitologia, espiritualidade, e temas afins. Só por aí já podemos imaginar que um papo com a senhora Bolen deve ser muito prazeroso, não?
Em O caminho de Avalon: os mistérios femininos e a busca do Santo Graal, Jean Bolen relata sua peregrinação pelos sítios relacionados à lenda do Santo Graal, ou mais propriamente, aos lugares mágicos associados à literatura do ciclo arturiano. Como feminista, a autora se deixou influenciar abertamente pela obra de Marion Zimmer Bradley, famosa por suas Brumas de Avalon, que , para quem não leu, faz uma releitura do mito arturiano sob a ótica das mulheres, o que não agradou um montão de gente, mas que eu particularmente achei uma delícia de ler.
O ponto de partida da autora é interessante mesmo, veja você: há algumas décadas a “Deusa” vem ressurgindo em todos os lugares. Aqui, caro leitor, cara leitora, você deve entender essa “Deusa” num sentido arquetípico, uma imagem arquetípica, o que Jung define como sendo um padrão ou motivo universal originado no inconsciente coletivo, e de onde sai o conteúdo básico das religiões, das mitologias, das lendas e dos contos de fadas. Prosseguindo: com o ressurgimento da “Deusa”, o planeta vive uma espécie de ressacralização, como se o Graal estivesse retornando ao mundo. O Graal, aquele cálice onde Jesus bebeu vinho na última ceia junto com seus apóstolos, se você for pesquisar, carrega uma simbologia muito rica e interessante.
Por ter sido usado por Jesus, e numa ocasião de profunda significação espiritual para os cristãos, o Graal ganhou um status de objeto sagrado e dotado de poderes fantásticos. Na Idade Média ficou também associado à saga dos cavaleiros arturianos, cuja missão maior era a de encontrar o Santo Graal, numa demanda cheia de aventuras e mistérios. É preciso saber interpretar essa busca, e é preciso saber interpretar esse Graal, então preste atenção ao que diz o Dicionário de Símbolos (Chevalier & Gheerbrant):
“A Demanda do Graal inacessível simboliza, no plano místico que é essencialmente o seu, a aventura espiritual e a exigência de interioridade, que só ela pode abrir a porta da Jerusalém celeste em que resplandece o divino cálice. A perfeição humana se conquista não a golpes de lança como um tesouro material, mas por uma transformação radical do espírito e do coração.”
Para Jean Bolen, existe um movimento espiritual feminino acontecendo no mundo todo, não de uma maneira organizada e tampouco seguindo tradições rígidas; a mudança tem ocorrido de modo intuitivo e as mulheres estão fazendo espontaneamente aquilo que sentem ser o correto. É um modo de dizer que estamos vivendo um período onde o patriarcado começa a dar passagem a um outro tipo de conhecimento e manifestação. A preocupação com o planeta, a Terra vista como mãe dos seres vivos que nela habitam, por exemplo, é um indício dessa mudança que vem surgindo aos poucos. Num sentido mais religioso, não podemos deixar de notar a força que vem ganhando em todo o mundo o culto mariano, onde Maria/Nossa Senhora em muitas ocasiões é tratada pelos fiéis mais como Deusa do que propriamente como Santa.
Enfim, tudo isso acabou mexendo com a cabeça de Jean, que aceitou de uma amiga um convite para viajar e sem hesitar partiu como turista em direção às Ilhas Britânicas e voltou como peregrina, com tantas histórias para contar que sentou e escreveu esse livro, um encantado relato de viagem recheado de poderosos insights sobre os mistérios femininos. Em seu roteiro, visitou lugares fantásticos como Chartres, Glastonbury, Findhorn e Lindisfarne, que você depois de ler vai querer sair correndo comprar uma passagem para as próximas férias, posso apostar que sim.
Vamos ler um pedacinho dessa aventura? Escolhi o trecho em que Jean viaja para Glastonbury, porque o local é tão recheado de histórias e lendas encantadas que é impossível não termos a curiosidade de um dia visitar essa região de Somerset, na parte oeste da Inglaterra. Só para você ter uma idéia, Glastonbury teria sido o lugar mais sagrado da Grã-Bretanha antes do cristianismo; foi para lá que José de Arimatéia teria levado o Santo Graal; é lá onde se localizaria a ilha de Avalon, para onde Artur foi levado depois de ferido em sua última batalha; e é lá que se encontra um dos maiores centros de energia do mundo ocidental. Precisa mais? Então vamos ler as impressões que esse mágico lugar causou na peregrina Bolen. Boa viagem.
*
Para chegar a Glastonbury, partimos do aeroporto de Heatrow de carro tomando o sentido oeste em uma auto-estrada que nos conduziu para depois de Stonehenge. Após pegar várias estradas menores, estávamos na Shepton Mallet Road, uma estrada estreita, meio sinuosa e margeada por cercas vivas e de outros tipos. A estrada nos conduziu por campos com ovelhas pastando e cruzou parte do polêmico Zodíaco de Glastonbury, cujos defensores afirmam que Glastonbury situa-se dentro de um Círculo Zodiacal com cerca de 16 quilômetros de diâmetro. Os signos são formados por características da paisagem que, segundo se supõe, estão situadas nas mesmas posições relativas ocupadas pelas constelações no céu.
Subitamente, a estrada mudou – por uma mudança na inclinação ou na elevação ou um intervalo na cerca viva – e lá estava o pico de Glastonbury! Digo isso com um ponto de exclamação porque trata-se de um impacto, de algo a ser contemplado. O pico na verdade é apenas uma colina, exceto pelo fato de que não é justo chama-la de colina. Ela é de um verde viçoso e aparentemente terraplanado, com uma torre de sentinela no topo. Como estávamos no final do mês de maio, havia macieiras em flor próximo à base e nos campos em volta. Do primeiro ponto de observação, o pico parecia ter um formato triangular, como uma pirâmide. Mas depois, quando seguimos pela estrada e passamos por ele, sua silhueta mudou, pois o ângulo de um dos declives se alongou.
De qualquer ângulo, o pico emana força e mistério. Existe algo de anormal e escultural em relação a sua forma, com seus terraços em espiral que parecem envolver suas laterais e a torre no topo que se assemelha a um megalito do tamanho de Stonehenge. A torre é a única parte que restou de uma igreja de São Miguel que um dia ocupou o pico. Um terremoto descomunal destruiu a igreja e deixou apenas a torre intacta.
Na Inglaterra, os lugares que um dia foram consagrados à Deusa foram dominados pelos cristãos de uma destas formas: através da construção de igrejas dedicadas a São Miguel, como no pico, ou capelas em louvor a Maria. São Miguel costuma ser representado pisando uma serpente, que era um símbolo da Deusa, e que também representava as correntes energéticas telúricas ou meridianos de energia (ou ley lines, como são chamadas na Inglaterra) que “serpenteiam” sob a terra em lugares sagrados. Na China, essas linhas são conhecidas como lung-mei, os caminhos do dragão. Até hoje, na moderna Hong Kong, as pessoas costumam consultar os geomantes chineses sobre essas correntes do dragão antes de construir edifícios.
As áreas onde a energia é mais intensa tornam-se lugares sagrados ou, na linguagem atual, pontos de energia. As imagens associadas a essa energia são arquetipicamente semelhantes, esteja você na Europa Ocidental ou na China. A cobra, a serpente e o dragão chinês têm corpo ondulante e poder. Mas, enquanto em uma cultura que respeitava a Terra o dragão era considerado benevolente, nas culturas judaico-cristãs, onde a Terra (e as deusas e as mulheres) tinha de ser dominada e subjugada, os dragões, cobras e serpentes tinham de ser temidos – eliminados por São Miguel, expulsos por São Patrício ou mortos por São Jorge.
Isso me levou a pensar que o terremoto que fez desmoronar do pico a abadia de São Miguel pode ter sido uma expressão de uma Deusa-Mãe Terra ofendida que se recusou a ser oprimida. No entanto, São Miguel triunfou, pois a abadia que havia no pico é uma das muitas que ainda existem e está localizada em um meridiano de energia que se estende do pico a sudoeste da Inglaterra até a ilha rochosa do monte de São Miguel, próximo ao cabo Finisterra, na Cornualha.
A segunda maneira de usurpar locais da Deusa era através da construção de capelas ou catedrais em louvor a Maria. Por ser uma expressão feminina da divindade, Maria é arquetipicamente a deusa-mãe. Exceto pelo nome, é dessa forma que ela é adorada em Chartres, por exemplo. Independente dos pontos de diferenciação estabelecidos pelos teólogos, o homem ou a mulher que ore a Maria está se dirigindo à mesma deusa piedosa, cujos nomes eram, entre outros, Deméter, Ísis, Tara ou Kuan Yin, deusas que, como Maria, aprenderam pelo sofrimento. Perséfone, a filha de Deméter, foi raptada e levada para o mundo subterrâneo, e Ísis, a filha de Odin, foi esquartejada. A exemplo do filho crucificado de Maria, Perséfone e Osíris ressuscitaram. Embora sejam construídas capelas de Maria em antigos lugares devotados à Deusa, elas são na verdade locais novamente consagrados a Ela e onde se poderia dizer que Ela continua a ser louvada.
A estrada nos levou para além do pico de Glastonbury, em direção à cidade, à Chalice Hill House (Casa da Colina do Cálice), onde ficaríamos hospedadas. Ao chegarmos, descobri que Geoffrey Ashe, escritor e especialista na história e nas lendas da região estava nos esperando – um encontro que a Sra. Detiger havia preparado. Ele nos conduziu a um local onde pudemos ter uma visão panorâmica da região e vislumbrar na paisagem a figura de uma mulher recostada. Mais tarde, Barri Devigne, um profundo estudioso da lenda do rei Artur, nos levou a Cadbury, o lugar provável atribuído a Camelot. No caminho, ele parou para mostrar características específicas do Zodíaco de Glastonbury. Olhar a paisagem e poder visualizar o que eles descreviam era como olhar as constelações no céu à noite. Identificar os pontos geográficos de referência era tão fácil quanto localizar as estrelas quando alguém as aponta para nós. Mas, o que não era tão óbvio eram as figuras que esses pontos formavam. Em Glastonbury, a paisagem estimula a imaginação, convida as pessoas a enxergar além da realidade comum.
Leia: O caminho de Avalon – os mistérios femininos e a busca do Santo Graal, de Jean Shinoda Bolen. Editado pela Record/Rosa dos Ventos em 1996, vai agradar muito as mulheres que nunca desistem da Busca. O site da autora, para quem se vira bem no inglês, vale uma espiadinha:
http://www.jeanshinodabolen.com/
Para completar a temática desse post: indico as Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley (virou filme, com a poderosa Anjelica Huston como Viviane do Lago), para uma leitura descompromissadamente romântica e sonhadora. Fácil de sebar, tanto os livros quanto o dvd.
Leitura mais séria? Sem pestanejar, pesquise as obras de Mircea Eliade (em especial: O sagrado e o profano e Tratado de história das religiões) e Joseph Campbell (O Herói de mil faces e também O poder do mito); na área da psicologia há muito, mas como introdução eu indicaria She, a chave do entendimento da psicologia feminina, de Robert Johnson (eu li o He, que é muito bom).
Sobre essa questão da Grande Mãe e das Deusas, um ótimo guia para consulta é o Anuário da Grande Mãe, de Mirella Faur, da editora Gaia; se o seu lance é paganismo, sem dúvida um dia terá que ler A dança cósmica das feiticeiras, de Starhawk, que trata da Religião da Deusa com muita competência.
Finalmente, dos montes de obras que trabalham a questão das mudanças planetárias (no nível consciencial e comportamental) eu li e gostei de duas em particular: Um peregrino em Aquário, de David Spangler (Editora Pensamento) e A conspiração aquariana, de Marilyn Ferguson (Editora Record). Ambas meio datadas, é verdade, mas ainda assim estimulantes. Para quem quer ir mais longe ainda, procure pelas obras de Aldo Natale Terrin (recomendo Nova Era: a religiosidade do pós-moderno e O rito: antropologia e fenomenologia da ritualidade, ambos da Paulus ed.) e de Paul Heelas e Linda Woodhead o estudo sobre a espiritualidade, em inglês, The spiritual revolution: why religion is giving way to spirituality.











