sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Sobre lares e pedras, fragmentos by Isabel Huggan
sábado, 23 de abril de 2011
Minhas viagens com Heródoto, by Ryszard Kapuscinski

Para Ryszard Kapuscinski, foi para responder a essa questão formulada na infância que Heródoto viajou o mundo e com seus relatos, reunidos numa extensa e magnífica obra, História, deu à luz à primeira grande reportagem da literatura mundial.
Kapuscinski foi um prestigiado repórter e escritor polonês que, assim como Heródoto, perambulou por tudo quanto foi lugar com a missão quase heróica de descrever o mundo que o cercava. Levou a vida itinerante tão a sério que ganhou a alcunha de Heródoto da era moderna.
A vida de Ryszard Kapuscinski, nascido em 1932 e falecido em 2007 é merecedora de uma série da BBC; na função de repórter comeu muitos quilômetros mundo afora, na maioria das vezes cobrindo guerras e situações de grandes riscos. Era muito envolvido com a questão política, a ponto de colaborar com os serviços de Inteligência do Partido Comunista polonês. Isso e muito mais você encontra na Wikipédia e por isso não tomarei o tempo do leitor e da leitora, já que a biografia do Ryszard fica em segundo plano aqui.
Como escritor, Kapuscinski foi um arraso, ganhou diversos prêmios e o respeito de muita gente de prestígio. Foi dono de uma técnica narrativa considerada sofisticada, interpretando aquilo que via pelo mundo valendo-se de metáforas, do imaginário e dos estados psicológicos das pessoas com as quais se relacionava. Deve ter sido um homem bem astuto, isso sim.
No jornalismo, em particular, recebeu elogios e também muitas críticas. Dizem que de bom teve o hábito de misturar um pouquinho de ficção com um tanto de realidade, dando uma roupagem muito mais interessante aos seus relatos. Mas também dizem que essa sua característica de praticar um jornalismo com a licença da ficção às vezes não pegava bem, porque deixava o leitor meio com a pulga atrás da orelha.

Em algum lugar eu li que o Kapuscinski foi um dos representantes do que se cunhou como “jornalismo mágico”, numa alusão ao “realismo mágico”, estilo literário ligado ao Gabriel García Márquez, que por sinal era chapa do escritor polaco. Esse “jornalismo mágico” pode ser interpretado como uma maneira de escrever sobre um fato real adaptando-o à realidade criada pela mente do autor. A mim me pareceu um lance bem interessante, merecedor de uma pesquisa posterior mais aprofundada.
Mas sigamos pelas estradas kaspuscinskianas... que coisa é essa de viagens com Heródoto? E quem foi esse grego de nome tão careta?

Pois de careta o Heródoto não tinha nada, muito pelo contrário, porque só alguém muito doido, doido de verdade, fez o que esse homem fez há mais de dois mil anos. Um resuminho sobre o grego viajante, que transcrevo da enciclopédia Oxford, dá uma ideia de quem foi Heródoto:
Historiador grego (490-80 a 430-20 a.C.), Heródoto é considerado o ‘Pai da História’. Escreveu a narrativa das guerras greco-pérsicas em nove volumes. O objetivo de seu trabalho, que incluía a narrativa da antiga história do Império Persa e uma longa digressão sobre o Egito, reflete tanto as características de sua mente inquiridora quanto suas longas viagens; visitou lugares tão distantes entre si como Atenas, Babilônia, Egito e o mar Negro. Extraía informações do povo que encontrava em suas viagens e de suas próprias observações. Apesar de ter muitas vezes abonado rápido demais o que escutava, sem sujeitar as narrativas a um exame mais minucioso, sua história, cheia de informações sobre os mundos grego e persa, que lhe eram coetâneos, foi uma realização de grande importância.
Agora as coisas começam a se encaixar; um dia, quando ainda era muito jovem e estava começando na carreira jornalística, Kapuscinski recebe sua primeira missão: uma viagem ao subcontinente indiano, onde escreveria uma série de reportagens que ajudariam a aproximar a Polônia da Índia. De presente da redatora-chefe, Kapuscinski ganha o livro História, de Heródoto, a quem sempre buscará conforto e inspiração durante as longas jornadas:
“À medida que avançava em sua leitura, eu fazia duas viagens ao mesmo tempo, a primeira cumprindo minhas obrigações de repórter, e a segunda seguindo as expedições do autor de História.”
Heródoto foi sem dúvida alguma a maior fonte de inspiração para Kapuscinski, e, mais do que isso, uma providencial justificativa daquilo que ele próprio viria a fazer no resto de seus dias, como que a se proteger, nem que fosse moralmente, do tipo de jornalismo por ele praticado.
Parece bobagem mas não é. Um jornalista trabalha com fatos e sua ética profissional o obriga a ser fiel à sua fonte, a dizer a verdade e a não manipular ou distorcer a informação resultante de seu trabalho. Mas a partir do momento em que o repórter ou o escritor tomam a liberdade de juntar aos fatos um produto da ficção, a coisa pode complicar, resultando numa realidade distorcida que, dependendo do contexto, acaba gerando conflitos perigosos.

Pode não ter sido esse o caso de Ryszard Kapuscinski, mas certamente foi por essa conduta, digamos, heroditiana, que o levou a ser tão criticado pela turminha do contra. Faz parte do jogo, como sempre.
Mas isso é só um parêntese, necessário para podermos entender a relação de Kapuscinski com seu mestre grego; o que importava para Kapuscinski era viajar, correr o mundo, procurar saber o que existia do outro lado, para além da fronteira. São suas as palavras:
Minhas andanças vez por outra me levavam a vilarejos próximos da fronteira. Isso ocorria muito raramente e, nessas ocasiões, quanto mais eu me aproximava da fronteira, mais a região se mostrava deserta e mais difícil era encontrar pessoas. O vácuo aumentava o mistério da região em si e, como pude constatar, na faixa da fronteira reinava um silêncio sepulcral.
Esse mistério e esse silêncio me atraíam e intrigavam. Sentia-me tentado a ver o que havia mais ao longe, do outro lado. O que se sente numa hora dessas? Em que se pensa?Teria que ser um momento de grande emoção, excitação e tensão. O que havia do outro lado? Teria que ser diferente.
Mas o que significa “ser diferente”? Qual seria a sua aparência? Com que se pareceria? Quem sabe fosse desprovido de qualquer semelhança com tudo o que eu já conhecia e, portanto, seria incompreensível e inimaginável? Na realidade, porém, o meu maior desejo, um desejo que não me deixava em paz e me mantinha em constante estado de excitação, era extremamente modesto: eu queria apenas poder desfrutar do mais simples dos atos – atravessar a fronteira.
Queria apenas poder atravessar uma fronteira, não importava qual delas; para mim, um destino ou uma meta não eram importantes, o que importava era aquele ato quase místico e transcendental de atravessar a fronteira.
Se interpretarmos essa fronteira como uma metáfora, encontraremos um significado muito maior nas palavras do ainda jovem Kapuscinski e seu desejo de atravessar fronteiras. Embora não afirme isso, o que ele buscava de fato era atravessar um limiar, e esse foi o seu chamado à jornada heróica. Kapuscinski, assim como Heródoto, são exemplos clássicos do arquétipo do Herói, tão bem trabalhado nas obras de Joseph Campbell.
Eu poderia gastar muitas linhas mais se optasse por escrever sobre o perfil de Kapuscinski sob a ótica dos arquétipos, mas isso me obrigaria a estudá-lo dentro de um contexto puramente psicológico e não seria justo entrar nessa vereda tendo na bagagem apenas a leitura de uma única obra do autor.
Preferi, como de hábito aqui no Odepórica, transcrever algumas passagens, pequenos trechos da obra que agreguem algum tipo de reflexão bacana e que sirvam de inspiração para a jornada pessoal de quem tem a paciência de ler meus posts longos e por vezes cheios de devaneios. Namastê!
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Memórias, viagens, reflexões...
Heródoto confessa que era obcecado pela memória – sabedor de que ela é falível, frágil, limitada, temporária e até ilusória. Ele tinha consciência de que aquilo que a memória continha poderia desvanecer-se, desaparecer sem deixar vestígios. Toda a sua geração, todas as pessoas que viveram naqueles tempos estavam tomadas pelo mesmo medo. Sem memória, não se pode viver, pois ela é o que faz o homem se diferenciar dos animais, é a base da sua alma, mas, ao mesmo tempo, é enganosa, fugaz e traiçoeira.
O homem moderno não se preocupa com sua memória, uma vez que vive cercado de memórias armazenadas. Basta estender a mão – enciclopédias, dicionários, compêndios. Bibliotecas e museus, arquivos e antiquários, fitas de áudio e vídeos, internet. Ele dispõe de reservas infindáveis de palavras, sons, imagens, nas residências, nas revistas, nos depósitos, nos porões e nos sótãos. (...) Nenhuma, ou quase nenhuma, dessas instituições e técnicas existia nos tempos de Heródoto. O homem sabia tão-somente aquilo que sua memória conseguia reter.
No mundo de Heródoto, o único depositário da memória é o próprio ser humano. Para ter acesso a algo que ficou nela guardado, é preciso chegar a um homem e, quando esse homem vive longe de nós, temos que ir ao seu encontro, partir em viagem. Quando o encontrarmos, sentaremos ao seu lado e escutaremos o que ele tem para contar – ouvir, conservar na memória e, se possível, anotar. É assim que começa uma reportagem – é de uma situação como essa que ela nasce.
Portanto, Heródoto viaja pelo mundo, encontra pessoas e ouve o que têm a dizer. Elas lhe dizem quem são e contam suas histórias. Mas, qual é a origem desse saber? Eis a respostas: elas ouviram isso de outras pessoas, principalmente dos antepassados. Foram os antepassados que transmitiram aquele conhecimento que elas, agora, transmitem a outros. Esse conhecimento tem o formato das mais diversas histórias. As pessoas se sentam em torno de uma fogueira e falam. Depois, tudo aquilo que foi dito passa a ser chamado de lendas e mitos, contudo, no momento em que é dito ou ouvido, trata-se da mais absoluta verdade, da mais real das realidades.
(...) A chama é comunidade. A chama é história. A chama é memória. Para Heráclito, mais velho que Heródoto, a chama era o elemento primordial de todas as matérias: tudo, dizia ele, é como o fogo, que está em movimento permanente e se apaga para reacender. Tudo flui, mas ao fluir sofre mudanças. O mesmo acontece com a memória. Algumas de suas imagens se apagam, para surgirem novas em seu lugar. (...) E é essa lei da irrecuperável transformação que Heródoto entende com perfeição e à sua natureza destrutiva ele quer se opor: “Heródoto de Helicarnasso teve em mira evitar que os vestígios das ações praticadas pelos homens se apagassem com o tempo”.
As pessoas que não gostam de sair de casa e de ultrapassar as cercas de sua propriedade – na verdade elas são a maioria – tratam esses andarilhos como seres excêntricos, esquisitos, desequilibrados. (...) Uma viagem não se inicia quando se cai na estrada e não termina quando se chega ao destino estabelecido. Com efeito, ela começa muito antes e, na prática, nunca termina, já que a fita magnética da memória continua girando no interior da nossa mente, apesar de, fisicamente, permanecermos no mesmo lugar. É sabido que existe um mal – pode-se dizer incurável – costumeiramente chamado de “infecção viageira”.
(...) Heródoto era o protótipo do viajante eterno, aquele que, mais tarde, na Europa medieval, foi chamado de “homem da estrada”. Mas suas andanças não consistiam de deslocamentos levianos e despreocupados; as viagens de Heródoto tinham um objetivo claro e definido: conhecer o mundo e seus habitantes – conhecê-los e, depois, descrevê-los. E, acima de tudo, poder descrever “as grandes e maravilhosas explicações dos Gregos, assim como a dos Bárbaros”.
(...) O centro daquele mundo era o mar Egeu, suas margens e ilhas. É de lá que Heródoto parte em suas expedições. E, quanto mais se aproxima dos limites da terra, mais coisas ele descobre. É o primeiro a dar-se conta da natureza multicultural do mundo. O primeiro a insistir que cada cultura exige aceitação e compreensão e que, para tanto, é preciso primeiro conhecê-las. Em que as culturas diferem umas das outras? Antes de tudo, pelas suas particularidades. Diga-me como te vestes, como te comportas, como são teus costumes, que deuses cultuas – e eu te direi quem és. O homem não somente cria a sua cultura e vive nela; ele a carrega dentro de si – o homem é sua própria cultura.
(...) As viagens de Heródoto não teriam sido possíveis sem a existência da figura do próxeno. Resumidamente, o próxeno era “o amigo do visitante”, uma espécie de cônsul. Remunerado ou não, ocupava-se dos recém-chegados provenientes da mesma cidade que a sua. (...) O próxeno desempenhava um papel particular naquele mundo extraordinário, em que os deuses viviam entre os homens, sem deles se distinguir. Quando chegava um visitante, era preciso recebê-lo com toda a cordialidade, pois nunca se sabia se aquele viajante que pedia comida e teto era um homem ou um deus sob a forma humana.
Outra fonte valiosa e inesgotável para Heródoto eram os guardiões da memória, representados pelos contadores de histórias, por historiadores autodidatas e por músicos ambulantes. Até os dias de hoje, na África, é muito comum encontrar os griôs, viajantes que, nos vilarejos e mercados, contam lendas, mitos e histórias do seu povo, clã ou tribo. Por alguns trocados, ou mesmo por uma refeição e uma caneca d’água, um velho griô, homem de grande sabedoria e imaginação fértil, narra a história de seu país, com todos os acontecimentos, aventuras e milagres envolvidos. Se é verdade ou não, ninguém é capaz de dizer – e é melhor nem investigar.
(...) Qual é a motivação quando, intrépido e infatigável, Heródoto se lança em sua grande aventura? Acho que é uma fé plena, uma fé que nós, homens modernos, perdemos há muito tempo: a de que o mundo pode ser descrito.
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Leia: Minhas viagens com Heródoto: entre a história e o jornalismo. Ryszard Kapuscinski. Companhia das Letras, 2006.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
O país inventado de Isabel Allende

Li em seguida Paula, um relato emocionante de Isabel sobre o tempo em que passou ao lado da filha, a Paula do título, durante os meses em que ela lutou para sobreviver aos efeitos nefastos da rara doença que a levou embora. Agora estou lendo A soma dos dias, mas deste ainda não posso escrever uma linha porque apenas comecei a leitura. Mas já vi que vou gostar bastante.
Essas três obras têm uma característica comum: são relatos de cunho biográfico, memórias de uma escritora cuja vida realmente merece ser contada e recontada.
Meu país inventado (Mi país inventado, no original) é um livro de memórias onde a autora tenta, como se conversasse consigo mesma, construir a imagem do país em que estão guardadas suas lembranças afetivas mais significativas. Isabel Allende tem um senso de observação bastante apurado, que aliado à facilidade que demonstra ter em contar histórias (reais e inventadas) resulta numa escrita fluida e cheia de vigor. E é de se observar que grande parte desse vigor surge como conseqüência das inúmeras viagens empreendidas por Isabel desde seus primeiros anos de vida. São suas as palavras:
Ser estrangeira, como quase sempre tenho sido, significa que devo esforçar-me muito mais que os nativos, o que sempre me manteve alerta e me obrigou a desenvolver flexibilidade a fim de adaptar-me a ambientes diversos. Essa condição tem algumas vantagens para aqueles que ganham a vida observando: nada me parece natural, quase tudo me surpreende. Faço perguntas absurdas, mas às vezes faço-as à pessoa certa, e assim vou reunindo temas para o meu romance.
Isabel Allende morou em diversos lugares: Bolívia, Chile, Líbano, Venezuela e Bélgica são alguns citados por ela; na meia-idade casou-se pela segunda vez com William Gordon, também escritor, e hoje vivem juntos numa bela casa californiana. Viaja à terra natal pelo menos uma vez ao ano e embora tenha deixado o país diversas vezes, o Chile jamais saiu de dentro dela. Eu diria que Isabel está para o Chile assim como Clarice, Lygia, e Cora estão para o Brasil. E isso não é pouco.
A ideia de escrever Meu país inventado nasceu em parte por conta da necessidade em responder a uma questão que um dia lhe foi formulada por um desconhecido durante uma conferência de escritores especializados em viagens: que papel a nostalgia desempenha em seus romances?

A pergunta tirou-me o fôlego, pois até aquele momento não havia me dado conta de que escrevo como um exercício constante de saudade. Tenho sido forasteira durante quase toda a minha vida, condição que aceito por não dispor de alternativa. Várias vezes vi-me forçada a partir, rompendo laços e deixando tudo para trás, a fim de recomeçar em outra parte do mundo; tenho peregrinado por mais caminhos do que sou capaz de recordar. De tanto despedir-me, secaram minhas raízes e tive de criar outras, que, à falta de um lugar geográfico no qual aprofundar-se, foi na memória que se fincaram; mas, cuidado!, a memória é um labirinto dentro do qual minotauros nos espreitam.
E esse é o fio condutor do relato de Isabel: a nostalgia, as lembranças do passado, as histórias que ouviu e soube guardar na memória, e quando não soube tratou de inventar ela mesma os encaixes necessários para trazer à vida aquilo que considerasse importante documentar para continuar vestindo a alma de sua existência. Uma outra leitura, de cunho mais social, é a questão da busca da identidade (talvez sua principal busca), da vida vivida no exílio e de como reagem os imigrantes ao se depararem com uma nova cultura. Um tema atualíssimo, por sinal.
De tudo o que há de bom em Meu país inventado, talvez o melhor seja mesmo a qualidade da escritora em transformar temas comuns da vida em acontecimentos instigantes: sua relação com a família, os avós cheios de personalidade a quem tanto amou, a mãe e o padrasto por ela tão admirados, sua juventude no Chile, o abandono da pátria nos tristes anos de ditadura, essas coisas que nós brasileiros/as conhecemos tão bem. E é divertido notar que, à parte as diferenças culturais entre o Brasil e o Chile, há muita coisa em comum (tomando por base o que se lê na obra) entre os povos dessas duas nações que não dividem fronteiras, coisas das quais nos orgulhamos, como nosso reconhecido caráter de povo hospitaleiro e nossas belas mulheres, e outras das quais não nos orgulhamos, mas destas é melhor nem perdermos tempo.A narrativa de Meu país inventado segue mais ou menos uma linha cronológica linear: vai da Isabel menina à Isabel avó, mas com muitas idas e voltas nesse percurso. O tom do livro é o de um humor constantemente sutil e você se pega muitas vezes sorrindo durante a leitura. Não há como negar: a chilena é boa de prosa.
Escolhi para esse post uma passagem da obra que considero bastante reveladora no tocante ao papel da memória, de como nossas lembranças do passado, de quem fomos um dia, afeta nossa condição presente e ajuda a construir quem somos. Realidade ou imaginação? Faz mesmo tanta diferença assim? Particularmente acho que há algo de saudável em fazer uso da imaginação em alguns momentos da vida, sejam eles bons ou ruins, não importa.

E as lembranças de nossas viagens, terão mesmo acontecido da maneira tal como as imaginamos hoje, depois de tanto tempo? Será que temos controle total sobre nossas lembranças afetivas? Difícil saber, levando-se em consideração o enorme peso que o inconsciente tem sobre nós. Mesmo assim, em meio a toda essa complexidade, a verdade é que imaginar, sonhar, alimentar desejos e lembranças boas, inventar descaradamente ou não uma vida mais criativa do que a que foi vivida – e a que ainda será – torna todo esse jogo um fenômeno muito mais interessante e divertido. Namastê!
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O Chile de Isabel

(...) Há um certo frescor e inocência na pessoa que sempre esteve no mesmo lugar e tem testemunhas de sua passagem pelo mundo. Em compensação, aqueles como nós, que partimos muitas vezes, foram obrigados, pela necessidade, a curtir o próprio couro. Como carecemos de raízes e de testemunhos do passado, devemos confiar na memória para dar continuidade às nossas vidas; mas a memória é sempre confusa, não podemos confiar nela. Os acontecimentos de meu passado não têm contornos precisos, estão esfumaçados, como se minha vida não tivesse passado de uma sucessão de ilusões, de imagens fugazes, de assuntos que não compreendo ou que compreendo apenas pela metade. Não tenho nenhum tipo de certeza. Também não consigo sentir o Chile como um lugar geográfico com certas características precisas, um lugar definido e real. Vejo-o como vemos os caminhos do campo ao entardecer, quando as sombras dos álamos enganam a vista, e a paisagem parece apenas um sonho.
(...) Tenho uma imagem romântica de um Chile congelado no começo da década de 1970. Durante anos acreditei que quando a democracia voltasse tudo seria como antes, mas mesmo essa imagem congelada era ilusória. Talvez o lugar de que me sinto saudosa jamais tenha existido. Quando o visito, tenho de confrontar o Chile verdadeiro com a imagem sentimental que levei comigo durante vinte e cinco anos.
Como vivi muito tempo fora, tenho tendência a exagerar as virtudes e a esquecer os traços desagradáveis do caráter nacional. Esqueço o classicismo e a hipocrisia da classe alta; esqueço o quanto é conservadora e machista a maior parte da sociedade; esqueço a esmagadora autoridade da Igreja Católica; espantam-me a violência e o rancor alimentados pela desigualdade; mas também me comovem as coisas boas, que apesar de tudo não desapareceram, como essa familiaridade imediata com a qual nos relacionamos, a forma carinhosa de nos saudarmos com beijos, o humor oblíquo que sempre me faz rir, a amizade, a esperança, a simplicidade, a solidariedade na desgraça, a simpatia, a coragem indomável das mães, a paciência dos pobres.
Construí a idéia de meu país como um quebra-cabeças, selecionando as peças ajustáveis ao meu desenho e ignorando as demais. Meu Chile é poético e pobretão; por isso descarto as evidências dessa sociedade moderna e materialista, para a qual o valor das pessoas é medido pela riqueza bem ou mal adquirida, e insisto em ver por toda parte os sinais de meu país de antigamente.
Criei também uma versão de mim mesma sem nacionalidade ou, melhor, com múltiplas nacionalidades. Não pertenço a um território, mas a vários, ou talvez só pertença ao âmbito da ficção que escrevo. Não pretendo saber o quanto de minha memória são fatos verdadeiros e o quanto foi inventado por mim, pois não me cabe a obrigação de traçar a linha entre uma coisa e a outra.Andréa, minha neta, escreveu uma composição escolar na qual declara: “Gosto da imaginação de minha avó.” Perguntei-lhe a que se referia e ela replicou sem vacilar: “Você se lembra das coisas que nunca aconteceram.” Mas não fazemos todos o mesmo? Dizem que o processo cerebral de imaginar e o de recordar parecem tanto que são quase inseparáveis. Quem pode definir a realidade? Tudo não é subjetivo?
Se você e eu presenciamos o mesmo acontecimento, iremos recordá-lo e contá-lo de modo diverso. Quando meus irmãos contam nossa infância, é como se cada um de nós tivesse crescido em um planeta diferente. A memória está condicionada pela emoção; recordamos mais e melhor os eventos que nos comovem, como a alegria de um nascimento, o prazer de uma noite de amor, a dor de uma morte próxima de nós, o trauma de uma ferida. Quando contamos o passado, referimo-nos aos seus momentos febris – bons ou maus – e omitimos a imensa zona cinzenta de cada dia.
Se eu nunca tivesse viajado, se tivesse permanecido ancorada e segura em minha família, se houvesse aceitado as regras e a visão de mundo de minha avó, teria sido impossível recriar ou enfeitar minha própria existência, pois outros a teriam definido e eu seria apenas um elo a mais na longa cadeia familiar. Mudar-me de lugar obrigou-me a reajustar várias vezes minha história, e isso eu fiz de maneira atoleimada, pelo fato de estar demasiado envolvida com a tarefa de sobreviver. Quase todas as vidas se parecem e podem ser contadas com o tom de quem lê a lista telefônica, a menos que alguém resolva dar-lhes ênfase e cor. Em meu caso, tenho procurado polir os detalhes para ir criando minha legenda privada, de modo que, quando eu estiver em uma instituição geriátrica, esperando a morte, possa ter material para entreter os outros hóspedes, velhinhos e senis.
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(...) o mais importante de minha viagem por este mundo não aparece em minha biografia ou em meus livros de ficção, mas aconteceu de forma quase imperceptível nas câmaras secretas do coração. Sou escritora porque nasci com um bom ouvido para as histórias e tive a sorte de contar com uma família excêntrica e um destino de peregrina errante. O ofício da literatura definiu-me: de palavra em palavra criei a pessoa que sou e o país inventado em que vivo.
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Leia: Meu país inventado. Isabel Allende. Ed. Bertrand Brasil, 2003.













