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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sobre lares e pedras, fragmentos by Isabel Huggan

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Faz pouco tempo, li uma obra que me agradou muito pela maneira simples com a qual a escritora, Isabel Huggan, relata suas viagens e experiências de vida fora do Canadá, seu país de origem. Casada com um homem cujo trabalho o obrigava a viajar muito, Isabel partiu do Canadá, já na meia idade, para viver em lugares marcantes como a Tanzânia, as Filipinas, o Quênia e o sul da França, onde acabou estabelecendo moradia definitiva- com a condição de poder voltar, uma vez ao ano, à sua terra natal para visitar amigos e familiares.

A narrativa da autora canadense explora algo que aprecio bastante nos relatos de viagem que costumo ler e indicar: as relações humanas e uma atitude de reverência à cultura alheia, conduta esperada de todo bom viajante.


Dois momentos me chamaram a atenção durante a leitura de Belonging: home away from home (algo como Pertencimento: lar distante do lar). É justamente no título da obra que aparece o questionamento mais interessante de Isabel sobre suas viagens e o fato de viver em países longes e ao mesmo tempo tão diferentes de sua origem: o que é o lar, aquilo que chamamos de nossa casa, nosso lugar?

Seus questionamentos, que abrem a leitura, começaram quando ela parou para refletir que na língua francesa não existe um vocábulo que expresse o sentido da palavra lar, como o home do inglês, sua língua nativa. Fácil de entender, o mesmo acontece na nossa língua portuguesa, basta pensar nas palavras “casa” e “lar”, cujos significados parecem iguais dependendo do contexto em que são usados, mas que diferem bastante num sentido mais amplo.

A questão que ela levanta em suas memórias- disfarçadas em relatos de viagem- é que nunca sabe como se expressar quando quer dizer a alguém, na França, que no final do ano irá visitar sua casa (going home), quando na verdade sua casa é na França. É que em francês, o sentido de lar- daí o termo pertencimento que aparece no título da obra, inexiste, de modo que maison ou chez não conseguem traduzir com fidelidade a ideia de lar, porque são palavras que definem uma localidade física, isentas de significados emocionais agregados à ideia de lar.

A palavra lar tem uma origem muito bacana: os lares eram os nomes dos deuses romanos que protegiam as casas, por extensão as famílias; no latim, lare é a parte da casa onde se acende o fogo, daí o termo lareira. Portanto, o lar é um lugar ao qual pertencemos, onde reunimos nossa família e onde construímos nossa identidade.


A autora trabalha essa ideia na seguinte passagem:

Durante os anos passados fora do Canadá, eu vivi de acordo com algo que li numa entrevista com o cirurgião Chris Giannou: “O lar não é uma entidade física, geográfica. O lar é um estado moral. O verdadeiro lar são as amizades de cada um. Gosto de pensar nisso como uma forma elevada de organização social diferente do estado nação.”

Com meus pais falecidos e sem ter uma casa para a qual pudesse voltar ao Canadá, essa visão me deu muito conforto pelos anos que passei expatriada no exterior, pelo que mantive em mente a ideia de que eu e meu marido estávamos “somente vivendo de aluguel temporariamente” por causa do seu trabalho, e que meu verdadeiro lar estava em qualquer lugar, invisível mas estável – e permanente.


Em outro momento interessante da leitura, Isabel descreve aquela sensação estranha de despertarmos numa cama sem saber onde estamos ou como chegamos ali, tipo de acontecimento comum que muitos viajantes e imigrantes sentem por um período de tempo, quando a cabeça ainda não acompanha os compassos do coração; é um estar em casa sem de fato sentir-se em casa.

Às vezes acordo de manhã cedinho antes de clarear e naquele silêncio noturno me pego pensando: como foi que cheguei até aqui? Mas não há nada de misterioso, a razão é bem mundana – não é a vontade de Deus, mas o desejo de um escocês com o qual tenho estado casada desde 1970.

A primeira vez que nós viemos caminhar por essas montanhas, há mais de dez anos quando ainda vivíamos em Montpellier, ele disse, abruptamente, que sabia que seu lar estava ali na região montanhosa de Cévennes. Sua experiência foi intensa, afetando-o de uma maneira profundamente atávica que só pude compreender mais tarde, quando senti a mesma sensação magnética e um impulso quase hormonal no momento em que pus os pés na Tasmânia e soube que havia encontrado o meu lar.


Quando isso acontece, esse reconhecimento carnal de uma paisagem, tem-se a mesma sensação de se apaixonar sem saber o porquê, e esse sentimento irracional e inexplicável torna tudo muito mais intenso... a sensação do ar, a configuração da terra, a cor e o formato do horizonte, quem vai saber? Há lugares no planeta aos quais pertencemos e eles não ficam necessariamente no local onde nascemos.

Se tivermos sorte, se os deuses estiverem de bom humor, nós os encontraremos, pelo tempo que for necessário para descobrirmos que, sim, nós pertencemos ao lugar e ele a nós. Mesmo que nós não possamos articular essa intensa sensação física, mesmo que a língua seja um empecilho, nós sabemos e sentimos em nossa carne que ali é o nosso lar.

Colecionando pedras


Recolho a seguir um fragmento da obra de Isabel que trata de um tema muito caro àqueles que viajam com frequência: a mania de trazer souvenires ou itens colecionáveis de cada lugar que se visita. Há quem colecione colherinhas, chaveiros, miniaturas, bibelôs de bichinhos que vão de sapos a elefantes, de fadas a unicórnios e tudo o que a imaginação e a loucura de cada um permitir.

Confesso que tive algumas manias do tipo, de selos a folhas secas, marcadores de livros a moedas, de conchas a caleidoscópios (esses ainda teimo em colecionar) e outras inutilidades parecidas. A pior certamente foi a de trazer pedras de todos os cantos pelos quais passava, às vezes dois quilos de pedras na mochila, algo que só não me parece insano hoje porque realmente sou apaixonado por elas, desde muito pequeno, talvez pelo sonho não realizado de um dia me tornar arqueólogo. Nossas frustrações sempre hão de aparecer em algum lugar, disso ninguém foge.


Com o tempo vamos aprendendo a trabalhar o desapego das coisas materiais, seja por uma questão interior, de cunho espiritual, ou por uma questão prática mesmo, que envolve a falta de espaço, o tempo desperdiçado para organizar as tralhas e por aí vai.

Diz a Isabel que desde pequenina tinha paixão por pedras, que ela chamava de fósseis, e que se lembra de caminhar pela praia colhendo pequenas rochas com seu pai, que a ensinou a “enxergar as pedras no mundo e o mundo nas pedras”. Com o tempo, a coleção cresceu consideravelmente até que um dia foram descartadas. Mas, diz ela, “eu ainda coleciono pedras e conchas, porque parece que não sou eu mesma até que tenha alguns pedacinhos do planeta ao alcance de minhas mãos”.


Diz que ganhou de um amigo de seu pai, ainda na infância, uma pirita, aquele minério de ferro dourado, muito bonito, também conhecido como “ouro de tolo”. Faz uma divagação interessante, dizendo que certa feita, ao segurar o pequeno minério em suas mãos, se pegou pensando se ela própria às vezes não fazia papel de tola ao se deixar encantar pelos “brilhos” que a vida oferece.   Quantos de nós também nos deixamos iludir?

Apesar de detestar a pirita, Isabel a mantém guardada por mais de cinquenta anos, sem entender direito por que nunca a descartou mesmo tendo mudado tanto de casa todos esses anos. Talvez a explicação se encontre no que escreveu a seguir:

Algo acontece com os objetos que guardamos, mesmo com aqueles que não amamos. Eles adquirem uma pátina de legitimidade, uma dignidade conquistada pela longevidade que se torna impensável jogá-los fora. Além disso, eu sei que se tivesse me livrado da pirita ela ficaria brilhando lá no lixo, radiante, me atormentando como um elemento cósmico, tal como nas histórias de HQ, até que eu obedientemente fosse lá buscá-la  de volta junto a mim.


Qual o significado dessa pedra, desse ouro de tolo? Bem, acredito que quando eu souber a resposta, ela se permitirá perder. Há alguma lição guardada para mim nesse pequeno pedaço de metal e enquanto eu necessitar dessa lição, devo manter essa coisa comigo.

Pedras, conchas, lembrancinhas, tudo isso desordena as superfícies das casas por onde passo a viver; minha escrivaninha está lotada de tigelas chinesas, latas esmaltadas, caixinhas de madeira e cestinhos de palha, louça antiga, vidros coloridos e cartões telefônicos. Como posso justificar essa bagunça?


Em seu ensaio “A moral das coisas”, Bruce Chatwin escreveu que “os objetos têm um jeito de se insinuarem nas vidas humanas; algumas pessoas atraem mais coisas do que outras, mas nenhuma pessoa, por mais desprendida que for, é totalmente desapegada das coisas. Um chimpanzé usa varas e pedras como ferramentas, mas ele não mantém posses. O homem sim. E as coisas pelas quais ele mais se mantém apegado não servem a nenhuma função. Ao contrário, elas são símbolos, ou âncoras emocionais. A questão que eu gostaria de levantar (sem a necessidade de se obter uma resposta) é: Por que os verdadeiros tesouros do homem são inúteis”?

Uma pena que Bruce tenha falecido, porque eu teria respondido sua pergunta com outra: quem pode dizer o que é “útil” ou não? Eu considero essas coisas ao meu redor úteis – os complexos motores da memória, feito máquinas poderosas. Uma pedra parece ser apenas uma pedra, mas dentro dela se encontra uma energia pulsante: não é uma âncora, mas uma embarcação.


Eu fico com o Bruce, e acho que a Isabel não absorveu direito o que leu, porque está claro quando ele afirma que as coisas atuam num plano simbólico e em assim sendo as coisas que guardamos são como muletas que usamos para ajudar na caminhada. No caso da autora canadense, a pedra a que ela se refere é sim um objeto inútil- mas inútil num sentido prático. É isso o que Chatwin quis dizer.

Acredito que quando trazemos algo na volta ao lar, seja um galho seco, uma concha, pedras ou as lembrancinhas comuns made in China das lojinhas de souvenires, o que estamos de fato fazendo, de maneira intuitiva, é materializar um momento de felicidade em um objeto que manteremos por um tempo à nossa vista, como lembrança/recordação dos dias felizes ou especiais que ficaram para trás. E o engraçado é que a maioria deixa de ter significado algum tempo depois, e o que era um objeto estimado passa a ser um elemento kitsch, até vergonhoso, que precisará ser descartado na primeira oportunidade.


Vejo a mesma coisa acontecendo com as fotografias, quando voltamos de viagem com mais de mil fotos na máquina... será mesmo que precisamos de tantas provas daquilo que vivemos? Me pergunto onde estava o foco da pessoa enquanto clicava sem parar o bonito cenário que a cercava. Na máquina?

Minha pedra filosofal (fragmento final)


Alguns objetos sempre levo comigo num saquinho azul que carrego quando viajo. Eles também podem existir na mente da deusa que determina onde e como as estórias nascem: uma semente escarlate seca, um pequeno canivete, um caco de cerâmica cretense, dois dentes de bebês, e um chaveiro atado à uma caixinha de música pequenina que tilinta os primeiros acordes de “Für Elise”. Meu pai a comprou para minha mãe em Beijing, um ano antes de seu falecimento. Também levo uma sodalita polida, tão azul quanto um lápis lázuli, que foi colocada em minha mão Há muitos anos por um professor de filosofia que amei até a sua morte. Eu ainda o amo, ele ainda visita meus sonhos. Minha pedra filosofal. Minhas estórias.
Isabel Huggan




Belonging: home away from home. Isabel Huggan. Alfred A. Knopf. Publisher. Canada, 2003. 

sábado, 23 de abril de 2011

Minhas viagens com Heródoto, by Ryszard Kapuscinski

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De onde vêm os navios que vemos no horizonte?
Para Ryszard Kapuscinski, foi para responder a essa questão formulada na infância que Heródoto viajou o mundo e com seus relatos, reunidos numa extensa e magnífica obra, História, deu à luz à primeira grande reportagem da literatura mundial.

Kapuscinski foi um prestigiado repórter e escritor polonês que, assim como Heródoto, perambulou por tudo quanto foi lugar com a missão quase heróica de descrever o mundo que o cercava. Levou a vida itinerante tão a sério que ganhou a alcunha de Heródoto da era moderna.

A vida de Ryszard Kapuscinski, nascido em 1932 e falecido em 2007 é merecedora de uma série da BBC; na função de repórter comeu muitos quilômetros mundo afora, na maioria das vezes cobrindo guerras e situações de grandes riscos. Era muito envolvido com a questão política, a ponto de colaborar com os serviços de Inteligência do Partido Comunista polonês. Isso e muito mais você encontra na
Wikipédia e por isso não tomarei o tempo do leitor e da leitora, já que a biografia do Ryszard fica em segundo plano aqui.


Como escritor, Kapuscinski foi um arraso, ganhou diversos prêmios e o respeito de muita gente de prestígio. Foi dono de uma técnica narrativa considerada sofisticada, interpretando aquilo que via pelo mundo valendo-se de metáforas, do imaginário e dos estados psicológicos das pessoas com as quais se relacionava. Deve ter sido um homem bem astuto, isso sim.


No jornalismo, em particular, recebeu elogios e também muitas críticas. Dizem que de bom teve o hábito de misturar um pouquinho de ficção com um tanto de realidade, dando uma roupagem muito mais interessante aos seus relatos. Mas também dizem que essa sua característica de praticar um jornalismo com a licença da ficção às vezes não pegava bem, porque deixava o leitor meio com a pulga atrás da orelha.


Em algum lugar eu li que o Kapuscinski foi um dos representantes do que se cunhou como “jornalismo mágico”, numa alusão ao “realismo mágico”, estilo literário ligado ao Gabriel García Márquez, que por sinal era chapa do escritor polaco. Esse “jornalismo mágico” pode ser interpretado como uma maneira de escrever sobre um fato real adaptando-o à realidade criada pela mente do autor. A mim me pareceu um lance bem interessante, merecedor de uma pesquisa posterior mais aprofundada.

Mas sigamos pelas estradas kaspuscinskianas... que coisa é essa de viagens com Heródoto? E quem foi esse grego de nome tão careta?




Pois de careta o Heródoto não tinha nada, muito pelo contrário, porque só alguém muito doido, doido de verdade, fez o que esse homem fez há mais de dois mil anos. Um resuminho sobre o grego viajante, que transcrevo da enciclopédia Oxford, dá uma ideia de quem foi Heródoto:

Historiador grego (490-80 a 430-20 a.C.), Heródoto é considerado o ‘Pai da História’. Escreveu a narrativa das guerras greco-pérsicas em nove volumes. O objetivo de seu trabalho, que incluía a narrativa da antiga história do Império Persa e uma longa digressão sobre o Egito, reflete tanto as características de sua mente inquiridora quanto suas longas viagens; visitou lugares tão distantes entre si como Atenas, Babilônia, Egito e o mar Negro. Extraía informações do povo que encontrava em suas viagens e de suas próprias observações. Apesar de ter muitas vezes abonado rápido demais o que escutava, sem sujeitar as narrativas a um exame mais minucioso, sua história, cheia de informações sobre os mundos grego e persa, que lhe eram coetâneos, foi uma realização de grande importância.

Agora as coisas começam a se encaixar; um dia, quando ainda era muito jovem e estava começando na carreira jornalística, Kapuscinski recebe sua primeira missão: uma viagem ao subcontinente indiano, onde escreveria uma série de reportagens que ajudariam a aproximar a Polônia da Índia. De presente da redatora-chefe, Kapuscinski ganha o livro História, de Heródoto, a quem sempre buscará conforto e inspiração durante as longas jornadas:





“À medida que avançava em sua leitura, eu fazia duas viagens ao mesmo tempo, a primeira cumprindo minhas obrigações de repórter, e a segunda seguindo as expedições do autor de História
.”

Heródoto foi sem dúvida alguma a maior fonte de inspiração para Kapuscinski, e, mais do que isso, uma providencial justificativa daquilo que ele próprio viria a fazer no resto de seus dias, como que a se proteger, nem que fosse moralmente, do tipo de jornalismo por ele praticado.

Parece bobagem mas não é. Um jornalista trabalha com fatos e sua ética profissional o obriga a ser fiel à sua fonte, a dizer a verdade e a não manipular ou distorcer a informação resultante de seu trabalho. Mas a partir do momento em que o repórter ou o escritor tomam a liberdade de juntar aos fatos um produto da ficção, a coisa pode complicar, resultando numa realidade distorcida que, dependendo do contexto, acaba gerando conflitos perigosos.



Pode não ter sido esse o caso de Ryszard Kapuscinski, mas certamente foi por essa conduta, digamos, heroditiana, que o levou a ser tão criticado pela turminha do contra. Faz parte do jogo, como sempre.

Mas isso é só um parêntese, necessário para podermos entender a relação de Kapuscinski com seu mestre grego; o que importava para Kapuscinski era viajar, correr o mundo, procurar saber o que existia do outro lado, para além da fronteira. São suas as palavras:

Minhas andanças vez por outra me levavam a vilarejos próximos da fronteira. Isso ocorria muito raramente e, nessas ocasiões, quanto mais eu me aproximava da fronteira, mais a região se mostrava deserta e mais difícil era encontrar pessoas. O vácuo aumentava o mistério da região em si e, como pude constatar, na faixa da fronteira reinava um silêncio sepulcral.
Esse mistério e esse silêncio me atraíam e intrigavam. Sentia-me tentado a ver o que havia mais ao longe, do outro lado. O que se sente numa hora dessas? Em que se pensa?Teria que ser um momento de grande emoção, excitação e tensão. O que havia do outro lado? Teria que ser diferente.

Mas o que significa “ser diferente”? Qual seria a sua aparência? Com que se pareceria? Quem sabe fosse desprovido de qualquer semelhança com tudo o que eu já conhecia e, portanto, seria incompreensível e inimaginável? Na realidade, porém, o meu maior desejo, um desejo que não me deixava em paz e me mantinha em constante estado de excitação, era extremamente modesto: eu queria apenas poder desfrutar do mais simples dos atos – atravessar a fronteira.

Queria apenas poder atravessar uma fronteira, não importava qual delas; para mim, um destino ou uma meta não eram importantes, o que importava era aquele ato quase místico e transcendental de atravessar a fronteira.

Se interpretarmos essa fronteira como uma metáfora, encontraremos um significado muito maior nas palavras do ainda jovem Kapuscinski e seu desejo de atravessar fronteiras. Embora não afirme isso, o que ele buscava de fato era atravessar um limiar, e esse foi o seu chamado à jornada heróica. Kapuscinski, assim como Heródoto, são exemplos clássicos do arquétipo do Herói, tão bem trabalhado nas obras de Joseph Campbell.
Eu poderia gastar muitas linhas mais se optasse por escrever sobre o perfil de Kapuscinski sob a ótica dos arquétipos, mas isso me obrigaria a estudá-lo dentro de um contexto puramente psicológico e não seria justo entrar nessa vereda tendo na bagagem apenas a leitura de uma única obra do autor.

Preferi, como de hábito aqui no Odepórica, transcrever algumas passagens, pequenos trechos da obra que agreguem algum tipo de reflexão bacana e que sirvam de inspiração para a jornada pessoal de quem tem a paciência de ler meus posts longos e por vezes cheios de devaneios. Namastê!

Memórias, viagens, reflexões...





Heródoto confessa que era obcecado pela memória – sabedor de que ela é falível, frágil, limitada, temporária e até ilusória. Ele tinha consciência de que aquilo que a memória continha poderia desvanecer-se, desaparecer sem deixar vestígios. Toda a sua geração, todas as pessoas que viveram naqueles tempos estavam tomadas pelo mesmo medo. Sem memória, não se pode viver, pois ela é o que faz o homem se diferenciar dos animais, é a base da sua alma, mas, ao mesmo tempo, é enganosa, fugaz e traiçoeira.

O homem moderno não se preocupa com sua memória, uma vez que vive cercado de memórias armazenadas. Basta estender a mão – enciclopédias, dicionários, compêndios. Bibliotecas e museus, arquivos e antiquários, fitas de áudio e vídeos, internet. Ele dispõe de reservas infindáveis de palavras, sons, imagens, nas residências, nas revistas, nos depósitos, nos porões e nos sótãos. (...) Nenhuma, ou quase nenhuma, dessas instituições e técnicas existia nos tempos de Heródoto. O homem sabia tão-somente aquilo que sua memória conseguia reter.


No mundo de Heródoto, o único depositário da memória é o próprio ser humano. Para ter acesso a algo que ficou nela guardado, é preciso chegar a um homem e, quando esse homem vive longe de nós, temos que ir ao seu encontro, partir em viagem. Quando o encontrarmos, sentaremos ao seu lado e escutaremos o que ele tem para contar – ouvir, conservar na memória e, se possível, anotar. É assim que começa uma reportagem – é de uma situação como essa que ela nasce.

Portanto, Heródoto viaja pelo mundo, encontra pessoas e ouve o que têm a dizer. Elas lhe dizem quem são e contam suas histórias. Mas, qual é a origem desse saber? Eis a respostas: elas ouviram isso de outras pessoas, principalmente dos antepassados. Foram os antepassados que transmitiram aquele conhecimento que elas, agora, transmitem a outros. Esse conhecimento tem o formato das mais diversas histórias. As pessoas se sentam em torno de uma fogueira e falam. Depois, tudo aquilo que foi dito passa a ser chamado de lendas e mitos, contudo, no momento em que é dito ou ouvido, trata-se da mais absoluta verdade, da mais real das realidades.



(...) A chama é comunidade. A chama é história. A chama é memória. Para Heráclito, mais velho que Heródoto, a chama era o elemento primordial de todas as matérias: tudo, dizia ele, é como o fogo, que está em movimento permanente e se apaga para reacender. Tudo flui, mas ao fluir sofre mudanças. O mesmo acontece com a memória. Algumas de suas imagens se apagam, para surgirem novas em seu lugar. (...) E é essa lei da irrecuperável transformação que Heródoto entende com perfeição e à sua natureza destrutiva ele quer se opor: “Heródoto de Helicarnasso teve em mira evitar que os vestígios das ações praticadas pelos homens se apagassem com o tempo”.


As pessoas que não gostam de sair de casa e de ultrapassar as cercas de sua propriedade – na verdade elas são a maioria – tratam esses andarilhos como seres excêntricos, esquisitos, desequilibrados. (...) Uma viagem não se inicia quando se cai na estrada e não termina quando se chega ao destino estabelecido. Com efeito, ela começa muito antes e, na prática, nunca termina, já que a fita magnética da memória continua girando no interior da nossa mente, apesar de, fisicamente, permanecermos no mesmo lugar. É sabido que existe um mal – pode-se dizer incurável – costumeiramente chamado de “infecção viageira”.

(...) Heródoto era o protótipo do viajante eterno, aquele que, mais tarde, na Europa medieval, foi chamado de “homem da estrada”. Mas suas andanças não consistiam de deslocamentos levianos e despreocupados; as viagens de Heródoto tinham um objetivo claro e definido: conhecer o mundo e seus habitantes – conhecê-los e, depois, descrevê-los. E, acima de tudo, poder descrever “as grandes e maravilhosas explicações dos Gregos, assim como a dos Bárbaros”.


(...) O centro daquele mundo era o mar Egeu, suas margens e ilhas. É de lá que Heródoto parte em suas expedições. E, quanto mais se aproxima dos limites da terra, mais coisas ele descobre. É o primeiro a dar-se conta da natureza multicultural do mundo. O primeiro a insistir que cada cultura exige aceitação e compreensão e que, para tanto, é preciso primeiro conhecê-las. Em que as culturas diferem umas das outras? Antes de tudo, pelas suas particularidades. Diga-me como te vestes, como te comportas, como são teus costumes, que deuses cultuas – e eu te direi quem és. O homem não somente cria a sua cultura e vive nela; ele a carrega dentro de si – o homem é sua própria cultura.

(...) As viagens de Heródoto não teriam sido possíveis sem a existência da figura do próxeno. Resumidamente, o próxeno era “o amigo do visitante”, uma espécie de cônsul. Remunerado ou não, ocupava-se dos recém-chegados provenientes da mesma cidade que a sua. (...) O próxeno desempenhava um papel particular naquele mundo extraordinário, em que os deuses viviam entre os homens, sem deles se distinguir. Quando chegava um visitante, era preciso recebê-lo com toda a cordialidade, pois nunca se sabia se aquele viajante que pedia comida e teto era um homem ou um deus sob a forma humana.


Outra fonte valiosa e inesgotável para Heródoto eram os guardiões da memória, representados pelos contadores de histórias, por historiadores autodidatas e por músicos ambulantes. Até os dias de hoje, na África, é muito comum encontrar os griôs, viajantes que, nos vilarejos e mercados, contam lendas, mitos e histórias do seu povo, clã ou tribo. Por alguns trocados, ou mesmo por uma refeição e uma caneca d’água, um velho griô, homem de grande sabedoria e imaginação fértil, narra a história de seu país, com todos os acontecimentos, aventuras e milagres envolvidos. Se é verdade ou não, ninguém é capaz de dizer – e é melhor nem investigar.

(...) Qual é a motivação quando, intrépido e infatigável, Heródoto se lança em sua grande aventura? Acho que é uma fé plena, uma fé que nós, homens modernos, perdemos há muito tempo: a de que o mundo pode ser descrito.

Leia: Minhas viagens com Heródoto: entre a história e o jornalismo. Ryszard Kapuscinski. Companhia das Letras, 2006.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O país inventado de Isabel Allende

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Bom demais! Assim começo esse post, pelo entusiasmo que sinto cada vez que leio um texto de Isabel Allende. Aliás, comecei a ler a obra dessa premiada autora chilena (bueno, uma chilena nascida no Peru...) esse ano e quase que não me perdôo pelo atraso da descoberta. O único contato que tive com a obra de Isabel Allende foi através do filme baseado em seu romance mais famoso, A casa dos espíritos. Muitos anos depois cai em minhas mãos Mi país inventado, que devorei de um fôlego só e de quem vamos falar daqui a pouco.

Li em seguida Paula, um relato emocionante de Isabel sobre o tempo em que passou ao lado da filha, a Paula do título, durante os meses em que ela lutou para sobreviver aos efeitos nefastos da rara doença que a levou embora. Agora estou lendo A soma dos dias, mas deste ainda não posso escrever uma linha porque apenas comecei a leitura. Mas já vi que vou gostar bastante.

Essas três obras têm uma característica comum: são relatos de cunho biográfico, memórias de uma escritora cuja vida realmente merece ser contada e recontada.

Meu país inventado (Mi país inventado, no original) é um livro de memórias onde a autora tenta, como se conversasse consigo mesma, construir a imagem do país em que estão guardadas suas lembranças afetivas mais significativas. Isabel Allende tem um senso de observação bastante apurado, que aliado à facilidade que demonstra ter em contar histórias (reais e inventadas) resulta numa escrita fluida e cheia de vigor. E é de se observar que grande parte desse vigor surge como conseqüência das inúmeras viagens empreendidas por Isabel desde seus primeiros anos de vida. São suas as palavras:

Ser estrangeira, como quase sempre tenho sido, significa que devo esforçar-me muito mais que os nativos, o que sempre me manteve alerta e me obrigou a desenvolver flexibilidade a fim de adaptar-me a ambientes diversos. Essa condição tem algumas vantagens para aqueles que ganham a vida observando: nada me parece natural, quase tudo me surpreende. Faço perguntas absurdas, mas às vezes faço-as à pessoa certa, e assim vou reunindo temas para o meu romance.

Isabel Allende morou em diversos lugares: Bolívia, Chile, Líbano, Venezuela e Bélgica são alguns citados por ela; na meia-idade casou-se pela segunda vez com William Gordon, também escritor, e hoje vivem juntos numa bela casa californiana. Viaja à terra natal pelo menos uma vez ao ano e embora tenha deixado o país diversas vezes, o Chile jamais saiu de dentro dela. Eu diria que Isabel está para o Chile assim como Clarice, Lygia, e Cora estão para o Brasil. E isso não é pouco.

A ideia de escrever Meu país inventado nasceu em parte por conta da necessidade em responder a uma questão que um dia lhe foi formulada por um desconhecido durante uma conferência de escritores especializados em viagens: que papel a nostalgia desempenha em seus romances?

A pergunta tirou-me o fôlego, pois até aquele momento não havia me dado conta de que escrevo como um exercício constante de saudade. Tenho sido forasteira durante quase toda a minha vida, condição que aceito por não dispor de alternativa. Várias vezes vi-me forçada a partir, rompendo laços e deixando tudo para trás, a fim de recomeçar em outra parte do mundo; tenho peregrinado por mais caminhos do que sou capaz de recordar. De tanto despedir-me, secaram minhas raízes e tive de criar outras, que, à falta de um lugar geográfico no qual aprofundar-se, foi na memória que se fincaram; mas, cuidado!, a memória é um labirinto dentro do qual minotauros nos espreitam.

E esse é o fio condutor do relato de Isabel: a nostalgia, as lembranças do passado, as histórias que ouviu e soube guardar na memória, e quando não soube tratou de inventar ela mesma os encaixes necessários para trazer à vida aquilo que considerasse importante documentar para continuar vestindo a alma de sua existência. Uma outra leitura, de cunho mais social, é a questão da busca da identidade (talvez sua principal busca), da vida vivida no exílio e de como reagem os imigrantes ao se depararem com uma nova cultura. Um tema atualíssimo, por sinal.
De tudo o que há de bom em Meu país inventado, talvez o melhor seja mesmo a qualidade da escritora em transformar temas comuns da vida em acontecimentos instigantes: sua relação com a família, os avós cheios de personalidade a quem tanto amou, a mãe e o padrasto por ela tão admirados, sua juventude no Chile, o abandono da pátria nos tristes anos de ditadura, essas coisas que nós brasileiros/as conhecemos tão bem. E é divertido notar que, à parte as diferenças culturais entre o Brasil e o Chile, há muita coisa em comum (tomando por base o que se lê na obra) entre os povos dessas duas nações que não dividem fronteiras, coisas das quais nos orgulhamos, como nosso reconhecido caráter de povo hospitaleiro e nossas belas mulheres, e outras das quais não nos orgulhamos, mas destas é melhor nem perdermos tempo.

A narrativa de Meu país inventado segue mais ou menos uma linha cronológica linear: vai da Isabel menina à Isabel avó, mas com muitas idas e voltas nesse percurso. O tom do livro é o de um humor constantemente sutil e você se pega muitas vezes sorrindo durante a leitura. Não há como negar: a chilena é boa de prosa.

Escolhi para esse post uma passagem da obra que considero bastante reveladora no tocante ao papel da memória, de como nossas lembranças do passado, de quem fomos um dia, afeta nossa condição presente e ajuda a construir quem somos. Realidade ou imaginação? Faz mesmo tanta diferença assim? Particularmente acho que há algo de saudável em fazer uso da imaginação em alguns momentos da vida, sejam eles bons ou ruins, não importa.



E as lembranças de nossas viagens, terão mesmo acontecido da maneira tal como as imaginamos hoje, depois de tanto tempo? Será que temos controle total sobre nossas lembranças afetivas? Difícil saber, levando-se em consideração o enorme peso que o inconsciente tem sobre nós. Mesmo assim, em meio a toda essa complexidade, a verdade é que imaginar, sonhar, alimentar desejos e lembranças boas, inventar descaradamente ou não uma vida mais criativa do que a que foi vivida – e a que ainda será – torna todo esse jogo um fenômeno muito mais interessante e divertido. Namastê!


O Chile de Isabel



(...) Há um certo frescor e inocência na pessoa que sempre esteve no mesmo lugar e tem testemunhas de sua passagem pelo mundo. Em compensação, aqueles como nós, que partimos muitas vezes, foram obrigados, pela necessidade, a curtir o próprio couro. Como carecemos de raízes e de testemunhos do passado, devemos confiar na memória para dar continuidade às nossas vidas; mas a memória é sempre confusa, não podemos confiar nela. Os acontecimentos de meu passado não têm contornos precisos, estão esfumaçados, como se minha vida não tivesse passado de uma sucessão de ilusões, de imagens fugazes, de assuntos que não compreendo ou que compreendo apenas pela metade. Não tenho nenhum tipo de certeza. Também não consigo sentir o Chile como um lugar geográfico com certas características precisas, um lugar definido e real. Vejo-o como vemos os caminhos do campo ao entardecer, quando as sombras dos álamos enganam a vista, e a paisagem parece apenas um sonho.

(...) Tenho uma imagem romântica de um Chile congelado no começo da década de 1970. Durante anos acreditei que quando a democracia voltasse tudo seria como antes, mas mesmo essa imagem congelada era ilusória. Talvez o lugar de que me sinto saudosa jamais tenha existido. Quando o visito, tenho de confrontar o Chile verdadeiro com a imagem sentimental que levei comigo durante vinte e cinco anos.

Como vivi muito tempo fora, tenho tendência a exagerar as virtudes e a esquecer os traços desagradáveis do caráter nacional. Esqueço o classicismo e a hipocrisia da classe alta; esqueço o quanto é conservadora e machista a maior parte da sociedade; esqueço a esmagadora autoridade da Igreja Católica; espantam-me a violência e o rancor alimentados pela desigualdade; mas também me comovem as coisas boas, que apesar de tudo não desapareceram, como essa familiaridade imediata com a qual nos relacionamos, a forma carinhosa de nos saudarmos com beijos, o humor oblíquo que sempre me faz rir, a amizade, a esperança, a simplicidade, a solidariedade na desgraça, a simpatia, a coragem indomável das mães, a paciência dos pobres.

Construí a idéia de meu país como um quebra-cabeças, selecionando as peças ajustáveis ao meu desenho e ignorando as demais. Meu Chile é poético e pobretão; por isso descarto as evidências dessa sociedade moderna e materialista, para a qual o valor das pessoas é medido pela riqueza bem ou mal adquirida, e insisto em ver por toda parte os sinais de meu país de antigamente.
Criei também uma versão de mim mesma sem nacionalidade ou, melhor, com múltiplas nacionalidades. Não pertenço a um território, mas a vários, ou talvez só pertença ao âmbito da ficção que escrevo. Não pretendo saber o quanto de minha memória são fatos verdadeiros e o quanto foi inventado por mim, pois não me cabe a obrigação de traçar a linha entre uma coisa e a outra.

Andréa, minha neta, escreveu uma composição escolar na qual declara: “Gosto da imaginação de minha avó.” Perguntei-lhe a que se referia e ela replicou sem vacilar: “Você se lembra das coisas que nunca aconteceram.” Mas não fazemos todos o mesmo? Dizem que o processo cerebral de imaginar e o de recordar parecem tanto que são quase inseparáveis. Quem pode definir a realidade? Tudo não é subjetivo?

Se você e eu presenciamos o mesmo acontecimento, iremos recordá-lo e contá-lo de modo diverso. Quando meus irmãos contam nossa infância, é como se cada um de nós tivesse crescido em um planeta diferente. A memória está condicionada pela emoção; recordamos mais e melhor os eventos que nos comovem, como a alegria de um nascimento, o prazer de uma noite de amor, a dor de uma morte próxima de nós, o trauma de uma ferida. Quando contamos o passado, referimo-nos aos seus momentos febris – bons ou maus – e omitimos a imensa zona cinzenta de cada dia.

Se eu nunca tivesse viajado, se tivesse permanecido ancorada e segura em minha família, se houvesse aceitado as regras e a visão de mundo de minha avó, teria sido impossível recriar ou enfeitar minha própria existência, pois outros a teriam definido e eu seria apenas um elo a mais na longa cadeia familiar. Mudar-me de lugar obrigou-me a reajustar várias vezes minha história, e isso eu fiz de maneira atoleimada, pelo fato de estar demasiado envolvida com a tarefa de sobreviver. Quase todas as vidas se parecem e podem ser contadas com o tom de quem lê a lista telefônica, a menos que alguém resolva dar-lhes ênfase e cor. Em meu caso, tenho procurado polir os detalhes para ir criando minha legenda privada, de modo que, quando eu estiver em uma instituição geriátrica, esperando a morte, possa ter material para entreter os outros hóspedes, velhinhos e senis.



(...) o mais importante de minha viagem por este mundo não aparece em minha biografia ou em meus livros de ficção, mas aconteceu de forma quase imperceptível nas câmaras secretas do coração. Sou escritora porque nasci com um bom ouvido para as histórias e tive a sorte de contar com uma família excêntrica e um destino de peregrina errante. O ofício da literatura definiu-me: de palavra em palavra criei a pessoa que sou e o país inventado em que vivo.



Leia: Meu país inventado. Isabel Allende. Ed. Bertrand Brasil, 2003.