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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Literatura odepórica jacobea: Os 8 portais do Caminho, by Ricardo Mendes

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Retomando leituras jacobeas, entre elas as narrativas de viagem pelos caminhos de Santiago, tirei da prateleira um texto que considero dos melhores já escritos por peregrinos brasileiros: Santiago de Compostela – os 8 portais do Caminho. O autor, bom viajante, é também fotógrafo de profissão, Ricardo Mendes. Seu livro, um misto de fotografias em p&b e divagações sobre o Caminho, numa escrita leve e cheia de insights sobre a experiência do peregrinar, no mais amplo sentido do termo.

Os portais do título têm a ver com a maneira como o autor dividiu os capítulos, 8 no total, todos eles breves e de agradabilíssima leitura, que me lembram um pouco o estilo de escrita do Luiz Carlos Lisboa, já blogado por aqui; ambos têm em comum um profundo comprometimento com as coisas do espírito, com a Busca, termo que nos remete à obra do bem aventurado Paul Brunton, um grande sábio que em breve iremos conhecer melhor aqui no Odepórica.

Os portais são assim introduzidos ao leitor pelo Ricardo:

O Caminho é uma perfeita redução da linha da vida e, desde que estejamos abertos, nos deparamos com os principais temas de nossas vidas ao percorrê-lo. A aventura desta experiência é que no Caminho há pouco espaço para distrações. Telefonemas, televisão, jornais, trânsito, poluição e o stress urbano. Assim, os tais temas se apresentam em sua forma mais pura e essencial. Um sumo de fruta extraído por uma poderosa centrífuga. Cada um deles é um portal para a nossa evolução pessoal, e é preciso coragem e determinação para atravessá-los.

O amor, a fé, a compaixão e a gratidão são os sentimentos mais sublimes que o ser humano pode experimentar. São a base de nossa evolução espiritual. Os portais que se apresentam em nosso caminho são apenas possibilidades para irmos de encontro a esta sintonia maior. Alguns são despertados através da prática, outros partem da compreensão intelectual. Seja qual for o caminho escolhido, não existe outro rumo possível que não seja o do coração. Em algum momento da história da humanidade, é nele que todos vamos nos encontrar em uníssono.

Bonito isso, não? Os Portais vão aparecendo ao longo da obra separados por inúmeras fotografias que tentam a seu modo traduzir em imagem o sentimento da passagem lida anteriormente. Algumas são bárbaras, outras extremamente simples, como simples são as lições que vão sendo aprendidas durante a jornada. Eu gostei muito disso: não é um trabalho fotográfico de um profissional deslumbrado querendo mostrar técnica - ainda bem, porque senão o resultado seria totalmente contraditório com a proposta do autor.

Desse modo, entre clics, surgem os portais: Desapego, Limites e Expectativas, Presença, Desvios, Novas Experiências, Solidão, Intuição (a Verdade Interior), fechando com Bênçãos. Como você já percebeu, a pegada é bem espiritual, e como não deveria? O Caminho é propício a isso e que assim seja.


Transcreverei passagens do trabalho do Ricardo para você conhecer de perto o que tocou o coração desse peregrino enquanto perambulava lá pelos caminhos de Santiago. Verá que o moço tem uma cuca bem legal. Buen Camino!

Ouvindo o chamado

Ir de encontro ao Caminho é, antes de tudo, atender a um chamado. Um chamado que tanto pode surgir da falta de sintonia com a vida que se está levando, em seus inúmeros aspectos (trabalho, relacionamentos afetivos, rumos pessoais), quanto do desejo de aprofundar esta sintonia. Pode se manifestar através de uma ponta de curiosidade e levar anos até amadurecer e nos tirar da inércia. Pode parecer impossível ante o asfixiante emaranhado de compromissos inadiáveis que nos enredam. Pode ir e vir quando as coisas não vão bem, não importa.

Todos ouvimos em algum momento da vida. Para reconhecê-lo é preciso afastar o temor e deixar que se revele, que cresça ou evapore. Ao se manifestar, ele assume uma dimensão tao grande em nossas vidas que acaba sendo inócuo fazer-se de surdo. Mesmo sabendo que um sem-número de outras vozes surgirão para nos incentivar a esquecer daquele perigoso chamado do coração e nos enraizar onde já estamos fincados.

Não há voz mais poderosa do que a que vem do coração. Somente ela é capaz de nos fazer aglutinar coragem suficiente para enfrentar expectativas, tomar uma atitude inesperada, ininteligível e, à primeira vista, incoerente. Uma atitude que nos faça sentir vivos novamente. Mesmo que esta ousadia inexplicável seja a de dedicarmos uma parte de nossas férias a dar alguns passos em direção a nós mesmos.

Portal 1: Desapego





(...) Existe ainda um tipo de apego nem sempre relacionado aos bens materiais. Ele é invisível e está ligado a necessidades muito mais profundas e inconscientes: os hábitos. Mesmo bons hábitos (no sentido de que nos fazem bem) podem não ser tão saudáveis, dependendo do tipo de relação que estabelecemos com eles. Ler jornal pela manhã, por exemplo, é bom para nos manter atualizados. Nunca estar disponível para conversar com os filhos antes de ler o jornal matinal pode não ser bom para eles.

Na medida em que vão se enraizando, os hábitos tendem a engessar nossas atitudes e nos fazer escravos, tornando cada vez mais difícil abrir mão deles de uma hora para outra sem entrarmos em desespero. Neste sentido, o Caminho também pode funcionar muito bem como antídoto. Ele nos “obriga” à sua própria rotina, a estarmos presentes a cada passo, canalizando a atenção para o aqui e agora, ao fazê-lo, tomamos consciência de tudo o que é acessório e mecânico em nossas vidas e esta é a primeira etapa para realizarmos uma bela faxina, deixando para trás aquilo que não faz mais sentido, ou que na verdade nunca fez. Pode ser que custe um pouco, ou que não aconteça da primeira vez, mas pelo menos uma semente fica plantada. Na pior das hipóteses, adquirimos o hábito de caminhar, o que não é nada mal.


Portal 2: Limites e Expectativas






No Caminho os limites surgem das maneiras mais surpreendentes e sob as formas mais inusitadas. Lidar com eles pode ser muito revelador. São em geral situações muito simples, mas que trazem à tona a essência de muitas outras situações do cotidiano. Ao final de um dia de caminhada você pode ter percorrido 25 quilômetros sob um sol arrasador. Seus pés doem, a mochila pesa uma tonelada. Tudo o que precisa é de um banho reconfortante, um prato de comida e botar os pés pra cima. Na porta do refúgio, um aviso informa que novos peregrinos só serão admitidos dentro de 3 horas. A partir deste momento, um cardápio de possibilidades surge à sua frente.

Chutar a porta, sentar no bar mais próximo e aguardar, chorar, caminhar em volta em busca de atrações turísticas, atualizar o diário de viagem, continuar até o refúgio seguinte, procurar um hotel. Uma infinidade de atitudes que podem levá-lo a criar novas expectativas, novos limites, mas, principalmente, novos aprendizados. Se você se mostra indiferente ao aviso na porta pode estar precisando de mais energia em sua vida. Se chuta a porta e dá urros de raiva, talvez precise exercitar sua capacidade de improvisação. Ou, quem sabe, exatamente o contrário. Quem pode afirmar alguma coisa? Mais importante é ir se percebendo e entrando em contato com os mecanismos que orientam suas ações e reações ao longo da vida. E este é o primeiro passo para mudar alguma coisa com a qual você não esteja satisfeito.


Portal 3: Presença





Durante seis meses um rapaz viveu numa comunidade espiritual junto a seu mestre, num lugar paradisíaco. A rotina junto à natureza, a tranqüilidade e os ensinamentos que recebeu marcaram profundamente sua vida. Anos depois d éter deixado o convívio do mestre, recebeu a notícia de que também deixara a comunidade. Vivia agora numa grande cidade e cuidava de seu pai, gravemente doente.

Dias depois foi ao seu encontro. Ele agora morava bem no centro da cidade, ao lado de um mercado popular bastante barulhento. O coração do jovem rapaz se apertou ao ver o pequeno cômodo em que viviam. Foi recebido com alegria e somente após o jantar, quando o velho já adormecera, pode conversar com seu mestre. Assim que sentaram frente a frente, o rapaz perguntou:

Mestre, tive a sorte de poder viver a seu lado na comunidade um período maravilhoso, num lugar paradisíaco, onde aprendi lições que me acompanharão pela vida inteira. Lá presenciei o amor que entregavas a cada um que chegava, o carinho com que amassavas o pão e preparavas a comida, a simplicidade de teus ensinamentos. Custa-me acreditar no que vejo agora. Foste sacado daquele paraíso pela doença de teu pai e desde então vives num cômodo apertado e barulhento, onde mal entra a luz do sol. Consegues aqui também ser feliz?

O mestre sorriu, segurou as mãos dele entre as suas e disse olhando em seus olhos:

Não fui sacado daquele paraíso pela doença de meu pai, senão pelo amor que sinto por ele. E quanto à felicidade, aprendi que ela não depende de conforto ou de silêncio para se fazer presente. Para onde vou levo-a comigo embaixo de meus pés.


Portal 4: Desvios




(...) Mudar de vida muitas vezes pode significar nos aproximar de nós mesmos. A sensação de que exercemos pouco nossa individualidade é perfeitamente compreensível. Geralmente somos desestimulados a descobrir e desvendar as habilidades que somente nós trazemos, nossas verdadeiras impressões digitais. Neste sentido, caminhar por dias e dias ao ar livre, em contato com a natureza e pessoas desconhecidas de diversas origens, pode ser muito estimulante e revelador.

Nas condições naturais do Caminho, temos a chance de nos desnudar e entrar muito mais rapidamente em sintonia com o ser que realmente somos. E nada é tão capaz de deixar nossa essência emergir quanto nos despirmos das distrações. Feito este contato, tudo o que temos de fazer é cultivá-lo e fortalecê-lo. Assim, nos tornamos invencíveis.


Portal 5: Novas Experiências






(...) No Caminho, tudo o que se tem a fazer é caminhar, lavar roupa, comer, cuidar dos pés e dormir. Uma rotina muito mais simples do que aquela à qual estamos acostumados, sem a pressão d éter que ganhar a vida e pagar as contas. As paisagens são novas, dezenas de pessoas de diversas origens passam por nós. Por que então continuar a fazer tudo do mesmo jeito?

Depois de enfrentar tantos senões até por o pé no Caminho, por que não permanecer aberto a novas experiências? Não é necessário que seja algo muito revolucionário, nem é preciso fazer uma lista e programar tudo com antecedência. Basta deixar acontecer, perceber e mergulhar. Dizer não para algo a que você sempre diz sim, dizer sim para algo a que você sempre diz não.

Parece simples e realmente é. Minha primeira experiência nova no Caminho foi tirar uma soneca em plena trilha sob uma frondosa árvore, sem me preocupar por quanto tempo dormiria, se as formigas tomariam conta do meu saco de dormir ou se corria o risco de ser roubado. Foi delicioso, uma sensação de entrega como há muito não sentia.


Portal 6: Solidão






No Caminho pode-se escolher entre caminhar em grupo ou em sua própria companhia, variando muitas vezes durante o mesmo trecho. Durante minha caminhada preferi estar sozinho a maior parte do tempo para me conectar com o Caminho e ouvi-lo cada vez que me chamava a fotografar. Devo ter parecido antipático para alguns, apressadinho para outros. Queria apenas me concentrar no que estava fazendo. Muitas vezes usei o pretexto de parar para fotografar para interromper uma conversa aborrecida e estimular meu interlocutor a ir em frente.

Muita gente também não gosta de ficar a sós porque seus pensamentos incomodam. Que pensamentos são esses? Pensamentos são como pessoas e ninguém gosta de ficar fechado numa sala com alguém desagradável. A não ser que não seja preciso interagir com ela. Se é possível ler uma revista, ver televisão, enfim, distrair-se, tudo é tolerável. Sem distrações, nem pensar. Quando acumulamos questões em nossas vidas que não nos sentimos prontos para resolver, tornamo-nos viciados em distrações.

A própria companhia torna-se insuportável. Com o tempo, o sentimento de solidão se instala e as distrações precisam ser cada vez mais surpreendentes. Neste caso a solidão é uma saudade de si mesmo. De alguém que poderíamos ter sido. E que um dia ainda poderemos voltar a ser.


Portal 7: Intuição, a Verdade interior





(...) o Caminho é uma excelente oportunidade para retomarmos a prática de decisões mais intuitivas, menos racionais. Um jogo divertido, que pode começar com pequenas decisões mais intuitivas e ir aquecendo aos poucos. O que seu coração diz? Ficar nesta cidade ou caminhar até a próxima? Tomar banho e comer ou comer e depois tomar banho? Deixar para conhecer a cidade de manhã e partir ou sair com todo mundo bem cedinho? Nada impede, tudo apóia o que vem do coração. Ele nunca se engana, é legítimo. As decisões tomadas a partir dele vêm de um lugar invisível onde a única regra é a verdade sem partido, onde tudo é possível e apoiado pelas forças da natureza.


Portal 8: Bênçãos





No Caminho, por mais que isto pareça evidente, o mais importante é caminhar. Não é possível chegar a lugar algum sem fazê-lo. Caminhar, no entanto, é apenas um pretexto para que se possa apreciar e interagir com o Caminho. Receber o que el tem para dar. Deixar por lá o que não faz mais sentido carregar. Experimentar leveza. Voar, rir, correr, cantar, admirar a natureza. Desenvolver dentro de si um sentimento de gratidão por participar desta magnífica experiência de estar vivo neste momento. Aproveitar ao máximo o limite da impermanência. E por uma fração de tempo, sentir-se feliz.


Sobre o autor:



Ricardo Mendes é redator, fotógrafo, ator; desde 1985 estuda e pratica diversas técnicas de autoconhecimento, cura espiritual e alimentação naturista. Entre as tradições que mais fizeram sentido em sua vida estão a Meditação Transcendental, o Reiki, o Tai Chi Chuan, o Ayurveda, conhecimento milenar sobre a saúde, originário da Índia (Vedas), e a Medicina do Beija-Flor, um conjunto de práticas reunidas e desenvolvidas pelo xamã Foster Perry visando à cura espiritual. Seu trabalho pessoal na fotografia consiste na reinterpretação de lugares sagrados através da linguagem em preto e branco.


Leia: Santiago de Compostela – os 8 Portais do caminho. Ricardo Mendes. Axcel Books do Brasil Editora. Rio de Janeiro, 2002.



Se você gostou dessa obra, indicou um outro título do Ricardo Mendes que segue a mesma linha: Andando em Círculos: as pedras milenares e o Caminho da tríplice Espiral. Imperdível, agradará em cheio aqueles que se interessam pela Irlanda e Inglaterra com seus monumentos megalíticos cheios de mistérios e fascínio.



Na vitrola: O espírito da paz, gravado em 1994 pelos Madredeus. Simplesmente a melhor música e a melhor banda portuguesa de todos os tempos.





As fotos dessa postagem foram clicadas por mim na Galícia em maio e outubro de 2011. Liberadas para uso.

sábado, 4 de setembro de 2010

A literatura odepórica nos anos 30 - texto da Revista Brasil-Europa

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Repasso aqui um texto sobre a literatura de viagem produzida no período de 1930. Vai interessar em particular aqueles que chegam aqui no Odepórica buscando posts com um aprofundamento mais acadêmico sobre a temática do blog.






Diferenças e conotações político-culturais: literatura de viagens nos anos 30

Um problema na consideração de textos de relevância para os estudos euro-brasileiros, em particular da década de 30 do século XX, reside no necessário discernimento do tipo de literatura e da qualificação de seus autores.

Não é suficiente, para estudos culturais mais aprofundados, que se considere indiferentemente textos impressos, apenas dando atenção à quantidade de dados informativos que oferecem. Esses textos não representam apenas "minas de achados", mas oferecem testemunhos do desenvolvimento de determinadas áreas disciplinares ou da imprensa de divulgação, de informação de atualidades ou de entretenimento.

Esse discernimento, porém, indispensável para leituras mais cuidadosas e para a apreciação adequada das fontes, não é sempre fácil e exige formação adequada, especificamente teórico-cultural. Nem todos os textos de pesquisadores legitimamente formados em determinadas áreas dos estudos culturais se caracterizam por linguagem técnica ou pouco acessível, e nem todos os textos de uma literatura de cunho popularizante ou jornalístico oferecem dados pouco fidedignos ou não os interpretam de forma contextualizada e diferenciada.

Houve e há, assim, entre alguns pesquisadores, sobretudo aqueles de formação filosófica, o cuidado de manter a simplicidade na forma de expressão e na exposição dos resultados de suas investigações, evitando um academicismo formal e de linguagem que, em alguns círculos seria recebido como manifestação de pedantismo. Um exemplo que poderia ser citado seria Therese da Baviera que, ao escrever o seu relato de uma viagem que fora verdadeiramente de pesquisa, foi aconselhada a escrevê-lo na forma amena de um diário, o que posteriormente lamentou, uma vez que prejudicou a sua exposição e relativou o valor científico da sua obra (Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reise in den Brasilianischen Tropen, Berlin: Dietrich Reimer, 1897, Prefácio).

Por outro lado, escritores não vindos primordialmente de uma formação específica em etnologia, folclore, geografia, história cultural ou de outra área dos estudos culturais passaram, com conhecimentos ganhos através de leituras e estudos posteriores, a publicar obras nas quais preocupações literárias se mesclam com intuitos de difusão de conhecimentos e de interpretações de fatos e ocorrências.

O surgimento desse tipo de literatura tornou-se particularmente evidente na década de 30 do século XX. Veio de encontro, também, a uma tendência político-cultural que se caracterizou pela procura de tomada de posse de esferas sociais e sócio-culturais por caminhos dos fatos, através de relações individuais em determinados grupos e independentemente de vias mais circunstanciosas, ou seja, pelo caminho de instituições legítimas e personalidades devidamente habilitadas.

O "globo como grande aldeia" já na década de 30

Na Semana do Livro Alemão de 1936, o tema particularmente considerado foi o do jornalismo de viagens. A julgar por comentários, essa semana serviu para salientar o significado dos relatos de viagem para a informação e formação dos leitores.

Partia-se da constatação de que toda a terra havia sido descoberta, quase já não havendo regiões desconhecidas. Apesar de o mundo ter-se tornado pequeno através dos meios de transporte e comunicação, nem todos tinham a possibilidade de visitar países distantes. A ampla literatura de viagens podia, porém, trazer a todos informações das mais recônditas regiões. O mundo, trazido para o homem do povo, tornava-se ao mesmo tempo mágico ou encantado.


Os continentes estão desvendados, as manchas das terras incógnitas nos mapas se tornam cada vez menores e em menor número. Os meios modernos de transporte levam o viajante até o interior de terras longínquas, que até há poucas décadas apenas eram alcançáveis pelo pesquisador, e isso com grandes fadigas e pesados riscos. A rede das linhas aéreas abrange todo o globo de forma cada vez mais densa e as gigantescas distâncias parecem diluir-se gradualmente num nada.

E nós? - Maravilhados contemplamos o espírito do homem ousado, que com a sua força mágica da técnica transformou os conceitos de espaço e tempo e reduziu o globo sob as suas mãos. A nossa ânsia acompanha o descobridor pacífico da era moderna, que cruza voando os oceanos do ar. Nas horas calmas sonhamos no mundo maravilhoso, distante da Índia, que hoje se pode conhecer confortavelmente de ônibus, assim como com a gigantesca silhueta dos arranha-céus norte-americanos, aos quais o moderno viajante pode chegar em poucos dias em hotéis flutuantes.

Vamos, porém, querer afirmar que estamos destinados a nunca viajar na nossa vida às regiões distantes, até os fins do mundo? Em nenhuma época ofereceram-se ao homem tantas ocasiões de deixar atrás de si o seu quotidiano e de se lançar nas suas horas de folga na vastidão do desconhecido que o atrai. Apenas estende a mão, pega um livro e se deixa levar a um mundo encantado." (H.W.Ludwig, "Die ferne Welt - uns nahegerückt", Durch alle Welt 43, 1936, 31)

Diferença entre relatos de pesquisadores e jornalismo cultural



Esses testemunhos da época salientam a extraordinária expansão que então experimentava a literatura de viagens e o correspondente aumento de interesse por esse tipo de publicações.

Na Semana de 1936, tornou-se evidente que a esse crescimento era acompanhado por uma diversificação de tipos literários. Os comentários salientam aqui a diferença entre os relatos escritos por pesquisadores e aqueles textos produzidos por jornalistas.

Segundo esses comentaristas, o jornalismo cultural representava o principal desenvolvimento dos anos 30 na área da literatura de viagens. Diferentemente dos textos de pesquisadores, os jornalistas procuravam descrever situações e fatos comparando-os com os do país natal, ou melhor, vendo-os sob os critérios de seu Estado, mantendo, porém, sempre um tom coloquial e bem humorado.

"O livro de viagem é aquele que deve ser louvado por possibilitar uma abertura do mundo àquela grande parte da humanidade que é presa a seu lar. Desde o início da literatura de viagens, o círculo de leitores cresceu imensamente. Ao mesmo tempo, cresceu o número dos livros de viagem, até então pouco numerosos. E assim como o seu volume, também mudou-se o seu tipo. Pode-se afirmar que hoje há escritores de viagem de todos os tipos.

Apenas uma pequena parte deles escreve como profissão exclusiva. Justamente por isso é que tantos livros de viagem adquirem a sua nota particular. Na obra do pesquisador, o leitor aprende a ver o mundo pelos olhos do investigador e aprende ao mesmo tempo coisas interessantes dessa difícil profissão, o que contribui para enriquecer os seus conhecimentos gerais. Tais leituras, que não precisam ser áridas, são adequadas sobretudo para o leitor que está interessado na exatidão e na objetividade do relatado.



O jornalista está acostumado a ver por assim dizer o seu público diante de si, ele se esforça, através de comparações e cotejos com o mundo da terra natal de expor da forma tão plástica quanto possível o exotismo do visto e vivenciado. A sua descrição, leve, não deve abandonar um tom divertido, tal qual como um velho conhecido que fala coloquialmente sobre as suas impressões de viagem."

Novo tipo do jornalista viajante e "a visão clara do mundo"



Os comentários da Semana do Livro de 1936 salientam o surgimento de um novo tipo de jornalista viajante. Seria aquele que procuraria expor contextos dos países visitados. Os trabalhos aproximar-se-iam dos relatos de pesquisadores, diferenciavam-se porém desses pelo fato de constituirem ainda fundamentalmente produtos de jornalismo, ou seja, tecendo comparações e mantendo um tom divertido.

"Apenas há pouco tempo surgiu um tipo especial de jornalista viajante, que não dirige o seu olhar apenas para aquilo que se encontra à direita ou à esquerda do seu caminho. Como observador atento, possuindo o necessário preparo, procura expor contextos dos países visitados. Aqui, o livro de viagens supera o seu objetivo original e se transforma em exposição de situações populares, políticas e econômicas, além de desenvolvimentos."

Outros tipos de literatura de viagens



Dessas palavras, compreende-se que os produtos desse mais recente jornalismo de viagens transformaram-se em importantes apoios na difusão de visões do mundo e do homem de natureza política.

Comparando situações observadas com as do país natal, onde havia um alinhamento de conceitos e visões, sob o primado da ideologia do partido e do Estado, os relatos adquiriam quase que necessariamente um cunho instrutivo ou "esclarecedor", uma vez que situações que contradiziam aquelas do país natal não poderiam ser apresentadas a partir de seus próprios critérios, mas sim à distância possibilitada pelo tom de humor que caracterizava o jornalismo.

Para os comentaristas, a diversidade que se constatava na literatura de viagens já não era tão relevante; o principal era o surgimento desse novo tipo de jornalismo, caracterizado por uma aparência de objetividade científica.

Os outros tipos de literatura representariam, segundo esses comentários, apenas algumas pedras de mosaico numa obra maior, num quadro panorâmico que se oferecia aos leitores.

"Naturalmente, o amigo da aventura e da sensação na literatura de viagens encontra também o que lhe satisfaz. O caçador o atrai com as suas estórias de proezas, o navegador vivencia temporais perigosos, o voador conta como viu o nosso planeta da perspectiva dos pássaros. Ao lado de todos esses conversadores, contistas e pensadores aparecem também irregularmente livros que não podem ser classificados. Ali é um homem que passou décadas de sua vida entre povos estranhos, ou solitariamente como fazendeiro, até que sentiu o desejo ardente de comunicar as suas impressões ao mundo. Como pedras reluzentes, esses escritos singulares mas nascidos da própria vida introduzem-se num mosaico colorido que nos traz para perto o distante mundo e que nos apresenta como uma imagem que eternamente se renova e nos atrai."

Possíveis lições para o presente



Desse relato pode-se tirar alguns subsídios para a consideração teórico-cultural das revistas da época, sobretudo daquelas de interesse para os estudos referentes ao mundo de língua portuguesa. Dele se apreende que a literatura de viagens, apesar de sua diversidade, passou a ser marcada por um novo tipo de publicações, escritas por viajantes que procuravam dar a seus textos um cunho especializado, aproximando-os daqueles de pesquisadores devidamente formados e que realizavam viagens primordialmente com o escopo de realização de pesquisas.

Para o estudioso de hoje, a distinção nem sempre é fácil, mas necessária. A primeira, um resultado da época totalitária e a serviço do sistema, era escrita sobretudo segundo preceitos dele originados, caracterizados basicamente por humor, leitura divertida ou amena, referenciada segundo com o contexto cultural do leitor. O segundo, poderia ser antes considerado como expressão de uma democratização de conhecimentos.



Essa distinção, a ser ganha de estudos de um desenvolvimento do passado, pode contribuir a um aguçamento da percepção para possíveis problemas do presente. Assim, seria inadequado, e até mesmo inadmissível que uma área designada como "Turismo Cultural", em alguns países até mesmo com posição universitária, fosse confundida com Estudos Culturais no sentido estrito do termo, mesmo que estes tenham uma orientação baseada na observação empírica e em viagens de estudos e pesquisas.
(...)


(Grupo redatorial sob a direção de A.A.Bispo)

FONTE
http://www.revista.brasil-europa.eu/124/Literatura_de_viagens.html


Imagem: Revista Ilustração, no.109, July 1 1930-7. Do blog http://oldadvertising.blogspot.com/

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Notícias de um país distante, by Christian Schwartz (Gazeta do Povo)

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Foi publicada no jornal paranaense Gazeta do Povo, uma excelente matéria intitulada Notícias de um país distante, assinada por Christian Schwartz, que brinda o leitor com um texto de alta qualidade, tanto pela escrita quanto pelas fontes por ele utilizadas.


Schwartz conseguiu fazer uma abordagem muito clara sobre a literatura odepórica (o jornalista adota o termo inglês travel writing) apresentando alguns autores pontuais dentro desse gênero ainda pouco tradicional em nosso país, como ele mesmo notou, além de levantar questões fundamentais sobre a literatura odepórica tais como: Existe futuro para a literatura de viagem? Existe algum sentido em se falar desse gênero literário na era da internet?

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Vou postar a reportagem na íntegra; os três primeiros textos são de Christian Schwartz e o último, intitulado Saint-Hilaire e as trilhas da identidade foi escrito por Marcelo Lima, que publicou um livro que leva o mesmo título de seu artigo e que parece ser interessantíssimo levando-se em conta a riqueza de informações encontrada na matéria que você irá ler aqui no Odepórica. Boa viagem.

Notícias de um país distante


Livros de viagem, que antes se ocupavam de falar dos lugares, cada vez mais se voltam para os relatos que tratam de pessoas.



Publicado em 16/01/2010 Christian Schwartz, especial para a Gazeta do Povo

É tempo de viajar. Aeroportos e rodoviárias abarrotados, destinos turísticos tentando comportar o dobro ou o triplo de sua população normal, cada vez mais gente pegando a estrada: por terra mesmo, mas também por céus e, por que não, mares – na onda dos cruzeiros a preços acessíveis até à chamada “classe C emergente”.


Mas houve época em que ir conferir in loco a boa-nova de terras distantes era impossível, ou coisa para muito poucos.


Em lugar do guia de viagem de hoje – livros de utilidade prática que pressupõem a repetição de um percurso e se dedicam a facilitar a vida de quem vai fazer o mesmo passeio de um “desbravador” – havia o relato de viagem, que não se limitava, vale dizer, ao diário de bordo. Toda uma tradição se formou em torno do que, em inglês, passou a se chamar travel writing. Nasciam um tipo de autor e um gênero de texto: os aventurosos escritores-viajantes e sua colorida literatura de viagem, cheia de imaginação, pois era preciso deslumbrar um leitor que jamais botaria os pés naqueles mesmos lugares.


A tradição remonta aos gregos – e o que mais é a Odisséia, de Homero, senão uma jornada por terras distantes? – e às peregrinações de Abraão no Velho Testamento, com escalas obrigatórias no Oriente dos épicos de Gilgamesh e Mahabharata, ou ainda nos relatos de grandes aventureiros como Marco Polo e os descobridores portugueses e espanhóis – basta lembrar os diários sobre o Novo Mundo deixados por um Pero Vaz de Caminha ou um Américo Vespúcio.


Os séculos seguintes foram de exploração das colônias por seus respectivos impérios. E, particularmente entre franceses e ingleses, surge a figura do escritor-viajante munido de curiosidade científica – não à toa muitos naturalistas, como Saint-Hilaire em sua passagem pelo Brasil, e até mesmo Darwin deram suas “voltas ao mundo” para desbravar novas paisagens e espécies. Deixaram o tipo de relato que pode ser considerado ancestral direto do que viriam a fazer – ou, em alguns casos, já começavam a publicar – aventureiros típicos do século 19 e início do 20.


Essa literatura de viagem que tem um pouco de antropologia, outro tanto de cartografia – afinal, nem todos os mapas estavam desenhados, àquela altura – e muito de reportagem foi a tônica entre os escritores-viajantes que, aproveitando-se de sua condição de “civilizados”, oriundos das metrópoles, iam buscar impressões sobre a gente e os lugares mais “exóticos”. Existirá hoje algum recanto intocado, habitado por povo tão peculiar, que ainda justifique esses escritores e suas aventuras?


Ou, conforme se perguntou, em artigo recente, o escritor William Dalrymple, ele próprio um dos expoentes da atual literatura de viagem em língua inglesa: “(...) existe realmente algum sentido em se falar desse gênero literário na era da internet, quando é possível obter informação confiável, e instantânea, sobre qualquer lugar do globo?”


Dalrymple aponta que, durante quase uma década, entre os anos 70 e 80, a literatura de viagem foi a vedete. “Ela reemergiu num momento de desencanto com o romance”, explica, “e parecia estar se tornando uma séria concorrente para a ficção. Um escritor poderia continuar a usar as técnicas do romance – era possível desenvolver personagens, selecionar e delinear a experiência da viagem numa série de cenas e episódios, ordenar a ação de modo a conferir à narrativa uma forma e um ritmo – mas escrevendo sobre fatos reais. E, além disso, ao contrário da ficção, a literatura de viagem vendia bem.”


Foi, entre as muitas “épocas de ouro” da literatura de viagem, só a mais recente, cujos marcos se deram, quase ao mesmo tempo, com a publicação de dois livros: O Grande Bazar Ferroviário (Objetiva), de Paul Theroux, que percorreu o planeta, quase literalmente, usando o meio de transporte que um dia revolucionou os deslocamentos; e Na Patagônia (Cia. das Letras), de Bruce Chatwin, um mergulho no mundo selvagem contado com sutil poesia. Ao lado dos dois, estavam no auge nomes menos conhecidos – e até hoje praticamente inéditos no Brasil – como Leigh Fermor.


Por fim, já em 1984, a prestigiosa revista literária britânica Granta dedica um número inteiro à literatura de viagem – inspiração também, ainda que não declarada, da Granta brasileira em sua edição número dois, no primeiro semestre de 2008, intitulada Longe daqui. As memórias de viagem de Edmund White, outro assíduo freqüentador da travel writing, sobre o deslumbramento de um americano na Europa valem a edição.


William Dalrymple lança o desafio: “existe futuro para a literatura de viagem?” Ele responde que sim, há uma excelente nova geração de escritores-viajantes na ativa, mas ressalva: “Se, no século 19, a literatura de viagem era principalmente sobre lugares – tratava-se de preencher certas lacunas nos mapas descrevendo lugares remotos que poucos haviam visitado – a melhor literatura de viagem do século 21 é quase sempre sobre pessoas: explora a extraordinária diversidade que ainda existe no mundo sob a superfície da globalização”.


Para o filósofo francês Michel Onfray, autor de Teoria da Viagem (L&PM), a palavra escrita, além do mais, é insubstituível como veículo da memória de quem viaja – uma apologia às diversas formas assumidas pelo relato de viagem: o atlas, o poema, a prosa em suas diversas vertentes, até mesmo os “utilitários” guias... “Os lugares do mundo convergem para as telas informáticas ou televisivas, tristemente semelhantes à sua realidade, mas engaiolados (...)”, protesta Onfray. “Qualquer linha de um autor, mesmo medíocre, aumenta mais o desejo do lugar descrito do que fotografias, muito menos filmes, vídeos ou reportagens. Entre o mundo e nós, intercalaremos prioritariamente as palavras.”


Viagens pelo coração do Brasil revisitadas




A literatura de viagem não tem no Brasil a mesma tradição que lá fora, sobretudo nos mundos de língua inglesa – pródigo em aventureiros que são, ao mesmo tempo, grandes prosadores do idioma – e francesa, que deu ao mundo alguns dos principais poetas-viajantes (Rimbaud talvez o principal deles) e outros tantos pensadores e filósofos do ato de viajar.


Há, claro, muitos relatos de estrangeiros sobre a terra brasilis – não à toa, de novo, além de portugueses e espanhóis por razões óbvias, ingleses e franceses. Muitos deles, como se sabe, patrocinados no século 19 pela curiosidade do imperador D. Pedro II – ele também viajante contumaz.


Coincidência ou não, alguns dos melhores relatos de viagem escritos por autores brasileiros que resolveram percorrer a imensidão do próprio país são remakes de viagens anteriores. Duas expedições, uma recente e outra nem tanto, dão a medida dessa tendência.


As viagens pelo interior do Brasil feitas, entre 1927 e 1929, pelo escritor modernista Mário de Andrade, e mais tarde relatadas em O Turista Aprendiz, foram repetidas pelo jornalista Miguel de Almeida, então um jovem repórter da Folha de S. Paulo, no início dos anos 80. O resultado da experiência – na época publicado em capítulos regulares no jornal – acaba de ganhar relançamento no livro Na Trilha dos Trópicos (Lazuli), editado pela primeira vez logo após a viagem.


Euclides da Cunha, muito conhecido pelo trabalho como correspondente de guerra na campanha de Canudos e pelo clássico daí resultante, Os Sertões, se aventurou também pela Amazônia. Engenheiro de formação e ex-militar, Euclides foi nomeado chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus e, durante alguns meses do ano de 1905, comandou uma expedição cheia de percalços ao Acre. Chegou a passar fome e sofreu com surtos de malária, experiência que resultou nos textos de À Margem da História (Martin Claret) – na verdade, apenas a parte que conseguiu concluir, antes de ser assassinado, de um volume maior que deveria se chamar Um Paraíso Perdido.

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O itinerário de Euclides foi refeito, por ocasião do centenário de morte do escritor, no ano passado, pelo jornalista Daniel Piza e pelo fotógrafo Tiago Queiroz, de O Estado de S. Paulo. O relato alimentou, por alguns dias, o blog de Piza, além de render material para um documentário dirigido por Felipe Machado. Um resumo da saga desses viajantes, seguindo os passos de Euclides da Cunha na Amazônia, está disponível na internet:
www.estadao.com.br/pages/especiais/euclides (CS)

Peregrinos, andarilhos, vagabundos e “vagamundos”





Por que viajar? Há viajantes de todos os tipos nos dias de hoje, pela facilidade de transportes, claro, mas igualmente porque os destinos possíveis, conhecidos, são muitos, e nem sempre foi assim.


O paradoxo é que, como manda o clichê, o mundo hoje fica logo ali, “à distância de um clique no mouse”. Até existem aqueles que preferem o conforto do sofá de casa ou da tela do computador para uma volta ao mundo particular, mas são minoria. A informação abundante – e, sobretudo, as imagens exuberantes – dos quatro cantos do mundo, para não falar de tudo mais que se encontra pelo caminho, desperta o impulso da viagem.


Além disso, o mundo dito globalizado e suas assimetrias incentivam – quando não obrigam – a migrar. A informação, mais uma vez, sobre destinos que possam garantir um futuro que a terra natal lhe recusa é o que impulsiona, muitas vezes, o migrante.


Para o filósofo francês Michel Onfray, em seu belíssimo ensaio Teoria da Viagem (L&PM), as raízes do desejo de se largar no mundo são mais profundas: “Ninguém se torna nômade impenitente a não ser instruído, na carne, pelas horas do ventre materno, arredondado como um globo, um mapa-múndi”, escreve Onfray, poética mais até do que filosoficamente.


Mas, a quem decide viajar, outra inquietação se impõe de imediato: “Todas as destinações se tornaram possíveis – questão de tempo. Nesse campo dos possíveis, como escolher um lugar? O que escolher? A que renunciar? E por que razões? Nas combinações pensáveis, qual preferir, e por quê?”, reflete o pensador francês, que mais uma vez junta razão com alguma poesia para responder: “(...) cada um dispõe de uma mitologia antiga fabricada com leituras da infância, filmes, fotos, imagens escolares memorizadas a partir de um mapa-múndi, num dia melancólico ao fundo da classe”, escreve. “Existe uma cartografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la.”


Num bonito texto sobre os dilemas da identidade no mundo atual (From Pilgrim to Tourist, “do peregrino ao turista” – sem tradução para o português), o sociólogo Zygmunt Bauman, polonês radicado na Inglaterra, fala da inevitabilidade da viagem.


Depois de lembrar que a idéia de peregrinação é, no mínimo, tão antiga quanto o Cristianismo, Bauman afirma: “Para os peregrinos de qualquer época, a verdade está em outro lugar; o verdadeiro destino está sempre a certa distância, a certo tempo de viagem daqui. Onde quer que o peregrino esteja agora, não é onde deveria estar, e não é o lugar aonde sonha ir”.


Mais recentemente, porém, quando a palavra de ordem – mais do que simples necessidade – é evitar fixar-se (e até mesmo adotar uma identidade única e imutável), nada restou “remotamente parecido com o senso de propósito e aferrada determinação do peregrino”. Daí a norma: “não planeje viagens muito longas – quanto mais curta, maior a chance de ser concluída”; ao que se poderia acrescentar: para logo viajar para outro lugar. Instaura-se a ditadura do turismo.


Bauman identifica alguns tipos de viajantes que, em busca de definir-se, perambulam pelo mundo, entre eles o “andarilho” – outra tradução possível é “vagabundo” ou, para usar o neologismo já um pouco gasto, mas aqui cheio de sentido, “vagamundo”, aí incluído o migrante que às vezes viaja à força, em fuga; e o próprio turista. Sempre em movimento, como o “andarilho”, o turista se move com um propósito: ter novas experiências; ao contrário do “andarilho”, porém, não se depara com realidades duras e difíceis (apenas com a “vida estetizada e esculpida”) e, principalmente, tem uma casa para onde voltar.


Já Michel Onfray identifica dois tipos de “temperamento” no que diz respeito à necessidade humana de se pôr em movimento: de um lado, há o turista, de novo ele; mas, de outro, em absoluto contraponto, fica o “viajante”.


“O turista compara, o viajante separa”, define Onfray. “O primeiro permanece à porta de uma civilização, toca de leve uma cultura e se contenta em perceber sua espuma (...); o segundo procura entrar num mundo desconhecido, sem intenções prévias, como espectador desengajado (...).”


Há quem se ressinta da predominância do turista sobre o viajante – uma separação também adotada por outro, mais do que filósofo (que de fato ele foi), poeta: Émil Cioran, romeno radicado na França. Conforme lembrou o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, em artigo recente, Cioran gostava das praias da Normandia e da Bretanha no verão. Mas se desesperava com as hordas de turistas: “Num desses momentos, ele escreve que os ‘novos bárbaros’ (os turistas) tomaram o lugar dos ‘viajantes’, pessoas que amam conhecer o mundo pra se ‘espantar’ com ele, e não torná-lo seu ‘churrasco na laje em Paris’”, resumiu Pondé, impiedoso. (Christian Schwartz)


Saint-Hilaire e as trilhas da identidade


O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire percorreu, entre 1816 e 1822, cerca de 8 mil quilômetros pelas principais províncias brasileiras do centro ao sul do país, caminho comum de diversos viajantes que, beneficiando-se da abertura concedida com a vinda de d. João VI, fizeram expedições para catalogar as “terras e as gentes” do Brasil para a expansão dos domínios europeus.


Diferentemente da primeira leva de viajantes e cronistas, que aportaram no Brasil com os portugueses, a geração de Saint-Hilaire valorizava a racionalidade. Os naturalistas da época de Saint-Hilaire eram como repórteres, que, munidos de equipamentos da ciência, relatavam a “vida como ela era”; já os cronistas como Pero Vaz de Caminha, Magalhães Gandavo e Jean de Léry, que chegaram ao Brasil dois séculos antes, podem ser comparados a poetas: sob um imaginário religioso e mágico, em muitos casos tinham uma visão da realidade que contava com elementos fantasiosos.


A geração de Saint-Hilaire foi responsável por mostrar uma visão objetiva do Brasil para as nações modernas que se formavam na Europa. O perfil geológico, botânico, a fauna e os recursos naturais foram contabilizados por esses viajantes, que dominavam vários conteúdos.


Além do estudo da natureza, os viajantes registraram a vida social daquela época. Se quisermos ter uma visão sobre a sociedade no Brasil do século 19, a melhor fonte são os relatos dos viajantes. Os ensaístas que fizeram, a partir do início do século 20, as grandes interpretações do país, serviram-se de maneira abundante das observações dos viajantes. O que estes escreveram sobre o Brasil ajudou a construir a identidade, apesar de ser um olhar de fora, do europeu falando do seu “outro”.


Em janeiro de 2001, refiz o percurso de Saint-Hilaire no Paraná, por onde ele passou em 1820, quando o território integrava a Província de São Paulo. O resultado foi o livro Nas Trilhas de Saint-Hilaire, um diário de viagem em que procurei registrar lugares e pessoas. As fotografias foram feitas por Antonio Liccardo, geólogo e fotógrafo que, três anos mais tarde, fez um livro sobre o percurso do viajante francês em Minas Gerais.


Os 181 anos que separam minha passagem e a de Saint-Hilaire por algumas cidades do Paraná marcam diferenças enormes. Nesse intervalo, o Paraná foi “reinventado”. No território, havia uma meia-dúzia de cidades em 1820, fazendas, escravos, ga­­rimpeiros, tropeiros e proprietários de terra.


À diferença da Província de Minas Gerais e de partes de São Paulo, o território que hoje compreende o Paraná era pouco habitado, mas já tinha algumas marcas de identidade cultural que podem ser observadas até hoje. Trata-se de uma identidade formada por elementos das culturas portuguesa, indígena e negra.


Esses traços foram transformados aos poucos. No final do século 19, o Paraná receberia uma grande leva de imigrantes europeus, trazendo novos elementos culturais ao Estado. Esse dado, no entanto, passou a ser visto como determinante da cultura paranaense. O crítico Wilson Martins, por exemplo, escreveu um ensaio chamando o Paraná de “Brasil diferente”. Nele, afirmou que os elementos europeus não-portugueses foram determinantes na formação da cultura paranaense. A tese de Martins questionava autores que defendiam o papel importante do indígena, do negro e do português na formação do caráter do brasileiro.


A tese de “Brasil diferente” rondou a mente dos paranaenses e foi mote de campanhas oficiais que venderam o Paraná e Curitiba como pedaços da Europa no Brasil. Trata-se de uma identidade cultural que chegou a ser disseminada em livros didáticos, matérias jornalísticas e propagandas oficiais.


Ao percorrer as trilhas de Saint-Hilare, no entanto, descobri um “Brasil diferente” daquele mostrado tanto pelo viajante francês quanto pelo crítico literário. Ele não é mais formado por uma população predominantemente rural, com mesclas de português, índio e negro, tampouco é uma região marcada pela cultura europeia, preconizada na tese de Martins.


Exemplo: um trabalho que vem sendo realizado pelo Grupo Clóvis Moura “descobriu”, recentemente, 87 quilombos no Estado, que, em sua formação, conta com 24% de afrodescendentes. Na região por onde Saint-Hilaire passou – os Campos Gerais, que envolvem cidades como Ponta Grossa, Tibagi, Reserva, Castro e Sengés –, a presença negra chega a 40% da população.


Infelizmente, vêm sendo pouco valorizadas as culturas do negro, do índio e até mesmo do português na formação do Paraná, ocultadas em nome de uma suposta formação europeia, o que, na verdade, revela um certo complexo de inferioridade do Estado e da cidade de Curitiba, até hoje vendida nos guias turísticos pelas suas características europeias. Ações que buscam corrigir esse equívoco devem ser aplaudidas. E a leitura de Saint-Hilaire é um bom começo para mostrar que o Paraná não é um Brasil tão diferente assim.


Marcelo Lima é jornalista e professor. É autor de Nas Trilhas de Saint-Hilaire (2001). A reportagem original publicada no site da Gazeta do Povo pode ser acessada aqui.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Os 20 melhores livros de viagem do século passado pelo The Times

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Ilustração: Blexbolex



São inúmeras as obras da literatura odepórica que inspiraram várias gerações a viajar e a escrever sobre viagens. O jornal britânico The Times publicou uma lista dos 20 melhores livros de viagem do século vinte. Listas, na maioria das vezes, são referências dotadas de grande subjetividade, mas no geral nunca resistimos a dar uma conferida, sempre na expectativa de encontrar nossas próprias preferências inclusas na listagem.

Os livros selecionados abaixo são recomendações de diversos escritores, entre eles Victoria Hislop (“A Ilha”), Colin Thubron (“The Last Heart of Asia; “Shadow of the Silk Road”), Alexander McCall Smith (“Amigos, Amantes, Chocolate”; “O Clube Filosófico Dominical”) e Douglas Kennedy (“O Fotógrafo”; In God’s Country”), além de jornalistas do The Times. Algumas das indicações também vieram de listagens semelhantes feitas por escritores e até mesmo retiradas do twitter.

É apenas uma lista, e o autor do artigo assume que tem plena consciência da ausência de nomes de peso, como o de Jack Kerouac; para ele, o leitor pode pensar que muitas dessas obras são de fato romances históricos, mas se fosse assim teriam sido incluídas as obras de Orwell, Hemingway e Steinbeck. Os livros dessa lista são puramente relatos de viagem que inspiraram gerações futuras – ou ao menos as fizeram encontrar o seu próprio caminho.

Até onde consegui verificar, apenas cinco dessas vinte obras foram editadas aqui. Nenhum autor brasileiro, nem mesmo latino, aparece na lista, mas em compensação quatro delas tratam de viagens pela América do Sul – uma das quais retratando exclusivamente o Brasil.

As obras eleitas abarcam, como se pode supor, várias regiões do planeta. É interessante notar que nenhuma das viagens contempla a América do Norte. Por curiosidade, fui checar os destinos que mais apareceram e cheguei ao seguinte resultado:

Europa: 5 relatos
América do Sul: 4 relatos
Oriente Médio: 3 relatos
Ásia: 3 relatos
África: 2 relatos
Oceania: 1 relato
Volta ao mundo: 1 relato
Outros: 1 relato

Nesse “outros” coloquei a obra do filósofo best-seller Alain de Botton, The art of travel, lançada no Brasil como “A arte de viajar”, que é um ensaio maravilhoso, mas que não se enquadra numa listagem como essa (postarei em breve um texto sobre essa obra).

Vamos à lista? As obras já publicadas no Brasil aparecem com seu título em português. Confira:

20) Full Tilt: Ireland to Índia with a bicycle, by dervla Murphy (1965)

19) A arte de viajar, by Alan de Botton (2002)

















18) A Dragon Apparent: travels in Indo-China, by Norman Lewis (1951)

17) The Granite Island, by Dorothy Carrington (1971)

16) Cut Stones and Crossroads- a journey in Peru, by Ronald Wright

15) Notes from a Small Island, by Bill Bryson (1995)

14) The Silk Road: beyond the celestial kingdom, by Colin Thubron (1989)

13) Love and War in the Apenines, by Eric Newby (1971)

12) Uma aventura no Brasil, by Peter Fleming (1934)












11) Na Patagônia, by Bruce Chatwin (1977)













10) Into the heart of Borneo, by Redmond O’Hanlon e James Fenton (1984)

9) Trieste and the meaning of Nowhere, by Jan Morris (2001)

8) Road to Oxiana, by Robert Byron (1933)

7) Mani- travel in the Southern Peloponnese, by Patrick Leigh Fermor (1958)

6) As I walked out one midsummer morning, by Laurie Lee (1969)

5) Arabia through the looking glass, by Jonathan Raban (1979)

4) O grande bazar ferroviário, by Paul theroux (1975)


















3) A pior viagem do mundo, by Apsley Cherry-Garrard (1922)















2) A winter in Arabia, by Freya Stark (1940)

1) The Danakil Diary: journeys through Abyssinia, 1930-4, by Wilfred Thesiger (1996)

Se você se interessou pelo assunto, sugiro dar uma conferida no site de onde tirei essa matéria. O mais fantástico é que cada uma das 20 obras aqui selecionadas vem com uma breve resenha e com o link direcionando para o Times Archive, com matérias originais da época em que foram publicadas no jornal. In English, of course.

Boa viagem.

Acesse a matéria original aqui.






quarta-feira, 22 de julho de 2009

Diários de Viagem

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.Foi publicado no periódico espanhol La Vanguardia (01/07/2009) um interessante artigo que trata de um tema que tem tudo a ver com o universo do Odepórica: os diários de viagem. A matéria, que traduzimos na íntegra, aborda o tema dos diários de viagem priorizando os autores espanhóis, mas isso não tira o interesse da leitura; pelo contrário, dá vontade de pesquisar mais profundamente o trabalho de autores brasileiros que, diga-se de passagem, publicaram- e continuam publicando - muito material contemplando a arte de viajar. Quem sabe, depois de ler o artigo abaixo, você não ganhe inspiração para levar, na sua próxima aventura, um pequeno caderno de notas transformado em diário de viagem. Experimente. Sua forma de ver o mundo pode ganhar um sentido muito mais interessante do que você imagina.



Diários de viagem


Títulos como “El món sobre rodes”, de Albert Casals ou “Bueno, me largo”, de Hape Kerkeling, significativos êxitos editoriais recentes, demonstram a vitalidade de um gênero, o diário de viagem, cultivado historicamente por nomes tão diversos como Cristóvão Colombo, Montaigne, Cinto Verdaguer ou Charles Darwin. O fato é que a viagem e o diário – escrito ou desenhado – quase sempre caminharam juntos.

“Partimos na sexta-feira 3 de agosto de 1492, da barra de Saltes, às oito horas...” Assim começa o diário de viagem mais famoso do mundo, o de Cristóvão Colombo, que registra que na noite de 11 para 12 de outubro, “às duas horas após a meia-noite apareceu a terra...” É claro que não cabe a todos os viajantes fazer descobertas tão sensacionais, mas foram - e ainda são - muitos os que, a cada noite, se empenham em deixar escrito aquilo que foi visto e vivido durante o dia.

O diário de viagem é um gênero antigo e bem definido; foi praticado por navegantes, como Colombo; naturalistas, como José Longinos (Diário das expedições às Califórnias) ou Darwin (Diário de viagem de um naturalista ao redor do mundo); peregrinos, como Jacinto Verdaguer (Dietari dún pelegrí a Terra Santa), escritores testemunhas de guerra, como George Sand ou Pedro Antonio de Alarcón, e simples viajantes. Pode tratar-se de um documento puramente pessoal, o equivalente escrito aos antigos desenhos ou às modernas fotografias (que também podem ser incorporadas), ou pode ser algo mais: o embrião de um livro.

Assim, Javier Reverte, seguramente o principal escritor de viagem espanhol, confessa trabalhar em três fases. A primeira consiste em tomar notas em uns “cadernos pequenos, de folhas quadriculadas e de espiral metálica” que leva sempre no bolso. (Os escritores, e ainda mais se forem viajantes, se mostram especialmente maníacos quando se trata de cadernos. Bruce Chatwin chegava ao extremo de comprar os seus exclusivamente em Paris: eram os Moleskine que graças a ele estão tão na moda hoje). À noite, no hotel (ou compartimento de trem, ou camarote, ou barraca de campanha), Reverte passa a limpo as notas dos pequenos cadernos em outros cadernos, estes de tamanho mediano, que “vão sempre na minha mochila, não me separo deles nem para ir ao banheiro”. E, já em Madrid, reelabora o material para convertê-lo em livros como El corazón de Ulises, El rio de la desolación ou a Trilogía de África.

Um método parecido usa Rosa Regás, com a única diferença de que a segunda fase – a de passar as “notas curtas, desconexas, importantes ou não, mas que me chamaram a atenção” a algo mais legível tem como suporte não o papel, senão o computador portátil com o qual sempre viaja. “É então quando deixo correr a imaginação e a lembrança, atiçada pelas notas, se torna mais poderosa e me ajuda a mergulhar de cheio naquilo que estou contando”: a descoberta da Síria (Viaje a la luz del Cham) ou a América Central (Volcanes dormidos, prêmio Grandes Viajeros 2005).

Também José Ovejero (China para hipocondríacos, premio Grandes Viajeros 1998) toma notas, ainda que não seja em diários – “demasiadamente desalinhavadas” – nem servem forçosamente para escrever um relato de viagem, “podem tomar parte de outras narrativas”. A grande época dos diários de viagem é sem dúvida o século XIX. Depois dos conquistadores, colonizadores, missioneiros dos séculos anteriores, vêm agora os cientistas. O mais notável, com certeza, Charles Darwin, que não se atenta apenas às espécies, senão que relata a navegação, as paisagens, os encontros com os indígenas... Este é, por exemplo, o sumário do capítulo sobre a Terra do Fogo: “Baía do Bom Sucesso. – Relato dos fueguinos a bordo. – Entrevista com os selvagens. – Aspecto dos bosques. – Cabo de Hornos. – Condição miserável dos selvagens. – Canibais. – Matricídio. – Sentimentos religiosos. – Grande tempestade. – Construção de cabanas. – Glaciares.” (Diário de viagem de um naturalista ao redor do mundo).

Mas o século XIX não é somente o século dos viajantes científicos, senão do início do turismo em seu sentido atual. Com a melhora dos transportes, a viagem se generaliza: deixa de ser um perigo, uma aventura; é relativamente cômodo e seguro, sem com isso deixar de ser pitoresco. A Espanha é um dos destinos mais atrativos. Em 1800, por exemplo, Wilhelm von Humboldt nos visita e anota meticulosamente suas observações sobre as mais variadas facetas da vida do país, desde as finanças até a colombofilia, passando pela situação linguística: “O catalão se fala como língua oficial do país e sem paralelo a não ser com o valenciano em Valencia”, se bem que, “em todas as reuniões sociais as pessoas educadas, ainda que raramente as mulheres, falam castelhano.” (Diário de viaje a España).

Algumas décadas mais tarde, em 1872, outro viajante, o famoso escritor italiano Edmundo de Amicis (o autor de Corazón), retrata assim os camponeses catalães: “Iam vestidos dos pés à cabeça de veludo negro e usavam em volta do pescoço uma espécie de xale com listras brancas e vermelhas, sobre a cabeça um gorro de um vermelho intenso, e umas polainas de couro ajustadas até os joelhos; outros, sapatos de tecido, com a sola de corda, abertos à frente e amarrados ao redor dos pés com faixas negras cruzadas; um vestir, no conjunto, garboso e elegante e, ao mesmo tempo, austero”. (España. Diario de viaje de un turista escritor). E haverá muitos outros viajantes-escritores que anotarão suas impressões sobre o nosso país, como Georges Borrow com La Bíblia en España ou André Gide em seu diário.

A imprensa escrita, fenômeno do século XIX, ajudou a modificar o diário de viagem, criando assim um gênero híbrido, o do diário que à medida em que se escreve se publica em um jornal. Assim, em 1859-1860, o romancista espanhol Pedro Antonio de Alarcón (autor de El sombrero de tres picos) envia à revista El Museo Universal crônicas vivas da guerra entre Espanha e Marrocos; e Jacint Verdaguer acrescenta, a seus ofícios de poeta e sacerdote, o de correspondente para um semanário de Vic, quando em 1886 peregrina à Terra Santa. O texto resultante, Diari d’un pelegrí a Terra Santa, era considerado por Josep Pla o melhor texto em prosa catalã do século XIX. E no século XX? A função de reportagem que o diário cumpriu com tanta eficácia nos séculos XVIII e XIX, mediante a palavra e com freqüência a ilustração (Napoleão, em sua expedição ao Egito, levava ilustradores, e o mesmo faziam alguns viajantes românticos de bom poder aquisitivo), herda a fotografia e logo o cinema. Forçosamente, a viagem se transforma - generalizando-se a idéia de que toda viagem é primordialmente interior – e com ela, o diário, que se torna algo íntimo, tanto ou mais do que a própria viagem: é esse o caso de Gide, com seus périplos pela Bretanha ou Argélia, ou o de Mircea Eliade, autor de Diario íntimo de la Índia.

Já não se aspira tanto a recopilação de informações objetivas como a que Paulina Fariza - editora do selo barcelonês Alba – chama de “subjetividade documentada”. Ainda que o gênero não tenha se dissipado muito em nosso país, existem alguns marcos literários. Tomás Escuder anota, por exemplo, suas impressões de um périplo pelas pequenas ilhas pertencentes à Irlanda (Diario de Aran), Miguel F. Martín nos conta como percorreu 5.000 kms pela África (La ruta del Okavango), Virginia Calvache e Javier Campos narram sua expedição ao Pólo Norte Magnético (Las huellas de Nanuk), Mercedes Rosúa conta seu ano como professora de espanhol em uma cidade no interior da China, na época da República Popular (Diario de China)...

Dois viajantes jovens, o catalão Albert Casals e o alemão Hape Kerkeling foram capazes de retomar o gênero enfrentando cada um deles uma dificuldade particular: o primeiro, viajando em uma cadeira de rodas, e o segundo, dar um novo fôlego a algo tão velho como a peregrinação a Santiago de Compostela, prova de que, com mais de cinco séculos às costas, os diários de viagem nunca morrem.
by Laura Freixas, La Vanguardia

O texto original pode ser acessado através do site La Vanguardia

quinta-feira, 26 de março de 2009

Literatura Odepórica?

.Um dia, pesquisando na internet sobre relatos de viagem, uma palavrinha incomum chamou-me a atenção: odepórica. Clicando em um link, cujo acesso levou-me a um texto acadêmico da Universidade de Vanderbilt na Carolina do Norte (EUA), descobri fascinado a existência de duas obras que tratam com muito respeito o que alguns acadêmicos parecem não dar muita atenção. Refiro-me aos relatos de viagem, um gênero (subgênero para alguns) literário que parece estar atraindo pouco a pouco um olhar mais atento entre estudiosos e pesquisadores das mais variadas áreas das Ciências Humanas.

Certo de que a literatura de viagem merecia um espaço à altura de sua relevância acadêmica, o italiano Luigi Monga (1941-2004), professor da Universidade de Vanderbilt, começou a estudar os relatos de viajantes europeus dos séculos XVI e XVII e se identificou com esse tipo de literatura, pouco apreciada até pelos seus colegas de universidade; naquele momento, início dos anos 1980, poucas pessoas escreviam sobre literatura de viagem, mas esse quadro mudou significativamente desde então.


Se deve a Monga não só o mérito de trazer à luz a riqueza de estudos que se encontra nas páginas dos relatos de viajantes e aventureiros, mas também seu esforço em tentar classificar esse gênero literário de modo a permitir um diálogo entre estudiosos e apaixonados pelo tema em todo o mundo. Foi o próprio Monga quem cunhou o termo odepórico, do grego hodós, caminho, senda, estrada e poreuo, viajar; editou duas extensas obras sobre o tema da literatura odepórica (em outras palavras, literatura de viagem), e na primeira delas fez uma pequena introdução ao vocábulo, da qual transcrevemos um trecho:

O italiano é talvez a única língua moderna que aceitou o termo no seu léxico: odeporico, um adjetivo (‘referente a viagem’), e um substantivo (‘narrativa de viagem’), e l´odeporica, um substantivo feminino (‘literatura de viagem’). (...) Na língua francesa, por exemplo, pode-se conceber o adjetivo hodéporique (‘pertencente à literatura de viagem’) e um substantivo feminino, l’hodéporic (‘literatura de viagem’). (...) Em espanhol, contudo, o termo caminería, que foi recentemente proposto à Real Academia de la Lengua de Madrid, presumivelmente excluiria qualquer terminologia relacionada a uma plausível odepórica de ganhar aceitação. (...) Embora o Oxford English Dictionary não indique a ocorrência da terminologia que nós estamos propondo, seria impossível atestar que a palavra nunca foi usada. A razão para cunhar o termo hodoeporic é a de que o uso adjetivado do termo ‘literatura de viagem’ é um tanto incômodo; hodoeporics, além disso, poderia ser usado como um pronome, especificamente para aplicações literárias e científicas.

O cânone clássico da literatura de viagem, na visão de Monga, pode incluir sagas, relatos históricos e trabalhos de cunho geográfico. Porém, antes de aceitar todo esse material naquilo que se pode chamar de odepórico hoje, deve-se estabelecer um método objetivo de classificação. Sendo assim, Monga exclui desse gênero os poemas épicos, as viagens envoltas em lendas e situações míticas, textos clássicos como a Odisséia e Eneida, e a maioria dos épicos nacionais, pois estes não refletem viagens reais. Por outro lado, cita a gigantesca obra História, de Heródoto, escrita há mais de 2500 anos como sendo o primeiro texto de uma narrativa de viagem; testemunha ocular de seu tempo, Heródoto, um grande viajante, através de sua “[...] observação do mundo, confrontando realidade com a voz de seus informantes, tornou-se o padrão para a elaboração de uma escrita de viagem”.

O papel da memória


Talvez encontremos, a partir de Heródoto, uma das chaves mais importantes para compreendermos a importância de um relato de viagem: a memória. Não seria exatamente isso o que busca preservar aquele que toma notas de sua viagem?

"Heródoto confessa que era obcecado pela memória - sabedor de que ela é falível, frágil, limitada, temporária e até ilusória. Ele tinha consciência de que aquilo que a memória continha poderia desvanecer-se, desaparecer sem deixar vestígios. Toda a sua geração, todas as pessoas que viveram naqueles tempos estavam tomadas pelo mesmo medo. Sem memória, não se pode viver, pois ela é o que faz o homem se diferenciar dos animais, é a base da sua alma, mas, ao mesmo tempo, é enganosa, fugaz e traiçoeira. É exatamente por essa razão que os homens se sentem tão inseguros a respeito de si mesmos. (...) No mundo de Heródoto, o único depositário da memória é o próprio ser humano. Para ter acesso a algo que ficou nela guardado, é preciso chegar a um homem e, quando esse homem vive longe de nós, temos que ir ao seu encontro, partir em viagem. Quando o encontrarmos, sentaremos ao seu lado e escutaremos o que ele tem para contar- ouvir, conservar na memória e, se possível, anotar. É assim que começa uma reportagem- é de uma situação como essa que ela nasce."
(Ryszard Kapuscinski. Minhas viagens com Heródoto, 2006).

Em um texto onde aborda a “armadilha da narrativa” (“snare of narrative”) implícita na literatura odepórica, Luigi Monga assinala a dificuldade de um leitor em saber se um determinado texto é uma narrativa ficcional ou um relato pessoal de viagem. Muitas vezes, as duas situações estão presentes: o relato pessoal de uma viagem abre espaço para a imaginação do autor, permitindo que elementos de ficção se misturem a fatos reais. Partindo dessa perspectiva, Monga teve um brilhante insight ao lembrar-nos de que Hermes, o deus dos mentirosos, é também o patrono dos viajantes, pelo que podemos perceber com isso que todos os relatos de viajantes carregam uma dose de mentira, ou, pelo menos, de uma criatividade literária que não necessariamente condiz com a realidade vivenciada.

Talvez possamos entender essa “armadilha”, tomando emprestado o termo de Monga, como um método utilizado pelo escritor-viajante para tentar passar ao leitor a intensidade daquilo que encontrou, possivelmente um fenômeno tão à margem de sua realidade que idéias ordinárias não seriam capazes de traduzir tamanha surpresa, lembrando que estamos falando de uma época onde o campo visual ainda não estava contaminado pelo excesso de imagens e informações.

Se você tiver interesse em se aprofundar um pouco mais no trabalho de Monga e em conhecer o que outros teóricos escreveram sobre literatura odepórica, nossa pesquisa intitulada A literatura odepórica e a peregrinação jacobea: um estudo sobre a espiritualidade nos relatos de viagem dos peregrinos brasileiros no Caminho de Santiago (item 1.4) pode ser uma boa introdução. Esse trabalho é o resultado de mais de dez anos de pesquisa sobre o Caminho de Santiago, com ênfase nos relatos de viagem de brasileiros que toparam perambular pela Espanha atrás de um sonho, sonho este dividido depois com muita gente após a publicação de seus diários.

E é esse o objetivo, também, desse blog: compartilhar com você, leitor/a, os meus sonhos e os daqueles que, assim como eu, acham que a vida que vale a pena ser vivida é aquela cujo tempo é gasto na estrada, seja real, seja imaginária, porque ambas a seu modo carregam um enorme potencial de transformação. Namastê!