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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Paisagens do Brasil: O Pampa, by José de Alencar

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Viajar é um dos maiores prazeres da vida, poucos hão de discordar. Ler uma obra bem escrita é tão ou mais prazeroso do que perder-se planeta afora, afinal a leitura nos conecta com o mundo - real e imaginário - e muitas vezes viajamos mais e melhor quando lemos do que quando pomos o pé na estrada. Claro que uma coisa não exclui a outra- e o ideal, sempre que possível e a vida permitir, seria unir as duas atividades. 

Impedido de viajar nas férias, decidi aproveitar o tempo livre para viajar em casa, lendo obras esquecidas no fundo da estante, folheando, anotando, separando algumas para ler com mais atenção assim que terminar as leituras em andamento.

Mantenho o hábito de anotar passagens em romances onde o autor descreve paisagens, lugares e pessoas de maneira peculiar. Tenho a impressão de que na literatura mais recente faltam escritores que consigam se expressar de uma forma mais poética, escolhendo as palavras certas, tratando a língua com carinho, como era comum em autores de tempos atrás. É muito gratificante ter em mãos um texto onde se percebe que o autor se exercitou ao máximo para conseguir transferir para o papel a beleza capturada pelo olhar.  


No texto que você lerá a seguir, escrito em 1870, o mestre de estilo primoroso, José de Alencar, descreve a paisagem do pampa brasileiro de forma tão bela que às vezes temos a impressão de estarmos lendo não um romance, mas um poema acerca das belezas do nosso país. Finda a leitura, parece que fomos transportados para o sul, e difícil será não ter vontade de programar, para um futuro próximo, uma viagem ao bioma pampa levando na bagagem essa bela obra de José de Alencar.

O Pampa

Como são melancólicas e solenes, ao pino do sol, as vastas campinas que cingem as margens do Uruguay e seus afluentes! A savana se desfralda a perder de vista, ondulando pelas sangas e cochilhas, que figuram as flutuações das vagas nesse verde oceano.

Mais profunda parece aqui a solidão e mais pavorosa do que na imensidade dos mares. É o mesmo ermo, porém selado pela imobilidade, e como que estupefato ante a majestade do firmamento.



Raro corta o espaço cheio de luz um pássaro erradio, demandando a sombra, longe na restinga do mato, que borda as orlas de algum arroio. A trecho passa o poldro bravio, desgarrado do magote; ei-lo que se vai retouçando alegremente babujar a grama do próximo banhado.

No seio das ondas o nauta sente-se isolado: é o átomo envolto numa dobra do infinito. A ambula imensa tem só duas faces convexas: - o mar e o céu.

Mas em ambas a cena é vivaz e palpitante. As ondas se agitam em constante flutuação: têm uma voz, murmuram. No firmamento as nuvens cambiam a cada instante ao sopro do vento: há nelas uma fisionomia, um gesto.



A tela oceânica, sempre majestosa e esplêndida, ressumbra possante vitalidade. O mesmo pego, insondável abismo, exubera de força criadora: miríades de animais o povoam, que surgem à flor d’água. O pampa, ao contrário, é o pasmo, o torpor da natureza.

O viandante, perdido na imensa planície, fica mais que isolado, fica opresso. Em torno dele faz-se o vácuo: súbita paralisia invade o espaço, que pesa sobre o homem como lívida mortalha.



Lavor de jaspe, embutido na lâmina azul do céu – é a nuvem. O chão semelha a vasta lápide musgosa de extenso pavimento. Por toda a parte a imutabilidade. Nem um bafo, para que a natureza palpite; nem um rumor que simule o balbuciar do deserto.

Pasmosa inanição da vida no seio de um aluvio de luz! O pampa é a pátria do tufão. Ali, nas estepes nuas, impera o rei dos ventos. Para a fúria dos elementos inventou o Criador as rijezas cadavéricas da natureza. Diante da vaga impetuosa colocou o rochedo; como leito do furacão estendeu pela terra as infindas savanas da América e os ardentes areais da África.




Arroja-se o furacão pelas vastas planícies; espoja-se nelas como o potro indômito; convolve a terra e o céu em espesso turbilhão; afinal a natureza entra em repouso; serena a tempestade; queda-se o deserto, como dantes, plácido e inalterável. É a mesma a face impassível; não há ali sorriso, nem ruga. Passou a borrasca, mas não ficaram vestígios. A savana permanece como foi ontem, como há de ser amanhã, até o dia em que o verme homem corroer essa crosta secular do deserto.



Ao pôr do sol perde o pampa os toques ardentes da luz meridional. As grandes sombras, que não interceptam montes nem selvas, desdobram-se lentamente pelo campo fora. É então que se assenta perfeitamente na imensa planície o nome castelhano. A savana figura realmente um vasto lençol desfraldado por sobre a terra e velando a virgem natureza americana.



Esta fisionomia crepuscular do deserto é suave nos primeiros momentos, mas logo após ressumbra tão funda tristeza, que estringe a alma. Parece que o vasto e imenso orbe cerra-se e vai minguando a ponto de espremer o coração.

Cada região da terra tem uma alma sua, raio criador que lhe imprime o cunho da originalidade. A natureza infiltra em todos os seres que ela gera e nutre aquela seiva própria; e forma assim uma família a grande sociedade universal.



Quantos seres habitam as estepes americanas, sejam homem, animal ou planta, inspiram nelas uma alma pampa. Tem grandes virtudes esta alma. A coragem, a sobriedade, a rapidez são indígenas da savana. No seio desta profunda solidão onde não há guarida para defesa, nem sombra para abrigo, é preciso afrontar o deserto com intrepidez, sofrer as privações com paciência e suprimir a distância pela velocidade.

Até a árvore solitária que se ergue no seio dos pampas é tipo destas virtudes. Seu aspecto tem o quer que seja de arrojado e destemido; naquele tronco derreado, naqueles galhos convulsos, na folhagem desgrenhada, há uma atitude atlética. Logo se conhece que a árvore já lutou com o pampeiro e o venceu. Uma terra seca e poucos orvalhos bastam à sua nutrição. A árvore é sóbria e afeita às inclemências do sol abrasador.



Veio de longe a semente, trouxe-a o tufão nas asas e atirou-a ali, onde medrou. É uma planta emigrante. Como a árvore são a ema, o touro, o corcel, todos os filhos bravios da savana. Nenhum ente, porém, inspira mais energicamente a alma pampa do que o homem, - o gaúcho.

De cada ser que povoa o deserto, toma ele o melhor: tem a velocidade da ema ou da corsa, os brios do corcel e a veemência do touro,



O coração, fê-lo a natureza franco e descortinado como a vasta cochilha; a paixão que o agita lembra os ímpetos do furacão: o mesmo bramido, a mesma pujança. A esse turbilhão de sentimentos, era indispensável uma amplitude de coração imensa como a savana.

Tal é o pampa.

Esse texto é um excerto da obra Anthologia Brasileira- collectanea em prosa e verso dos escriptores nacionaes. Eugenio Werneck. Editora Francisco Alves, 1918.


Leia: O Gaúcho. José de Alencar. Martin Claret, 2a ed. 2013

terça-feira, 3 de outubro de 2017

À margem da linha, by Paulo Rodrigues

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Muitos são os relatos de viagem que contemplam aquilo que nos estudos antropológicos se conhece como ritos de passagem ou de transformação. Um rito de passagem clássico, bastante estudado e de farta literatura acadêmica, é o da peregrinação, sobretudo a que contempla a visita aos lugares considerados sagrados: templos, mesquitas, catedrais, santuários, grutas, montanhas, rios, formações rochosas, só para citar os mais comuns.

Entretanto, há viagens sem nenhum cunho espiritual ou religioso que têm a particularidade de transformar um vagamundo em outra pessoa, na clássica interpretação de que, ao fim da jornada, aquele que parte jamais será o mesmo ao retornar, uma transformação simbólica e reveladora, um novo ciclo de vida.

Em seu primeiro romance, À margem da linha, Paulo Rodrigues trabalhou com perfeição esse modelo de rito de passagem, contando a trajetória de um menino de dez anos que, ao lado do irmão mais velho, parte de casa numa longa jornada a pé em busca do pai.


  
O menino mais novo é o narrador da história; praticamente um miserável, sua família vive à margem de uma estrada de ferro e pouco sabemos de sua vida a não ser o fato de que, ao partir com Mano (seu irmão e guia) não deixa quase nada para trás, a não ser a mãe, mulher sofrida e abandonada pelo marido e mais dois irmãos, de quem fala com carinho. Uma dicotomia: não deixa quase nada, mas ao mesmo tempo deixa tudo; a decisão de partir provém não só do sofrimento, mas também do amor e da admiração que sente pelo irmão.

A viagem dos garotos se aproxima do drama vivido pelos retirantes nordestinos, igualmente vítimas da miséria, e talvez a busca pelo pai ausente seja apenas uma desculpa para justificar o abandono do lar. Na realidade, esse texto permite múltiplas interpretações e nisso reside seu encanto. O autor não dá nome ao narrador, nem tampouco ao seu irmão, se levarmos em conta que Mano é apenas uma referência, um grau de parentesco e não o nome de fato do seu companheiro de viagem. Dessa forma o texto se abre para que cada leitor se coloque no lugar de um ou de outro (Quem somos nós nessa história? Os que guiam ou os que são guiados?).



Os incidentes que aparecem em capítulos curtos e muito bem escritos (o autor costura lindamente as palavras) não irão surpreender o leitor, uma vez que quase nada de extraordinário transcorre na narrativa. Mas o pouco que acontece, nessa economia de emoções, se traduz numa enorme transformação na vida dos garotos, resultando em um final surpreendentemente belo.

A linha de trem, que serve de orientação aos meninos nessa viagem, pode ser entendida como uma metáfora da vida; é preciso tomar coragem para, em algum momento, desviar-se da rota e abandonar o ninho, estar aberto ao acaso e às surpresas escondidas nos caminhos. Quando isso acontece, um ciclo se fecha e a vida se renova. Algumas pessoas se arriscam (toda jornada implica riscos), outras não. E só no final da vida, naquele momento em que já não nos resta mais nada a não ser viver das lembranças, é que saberemos se tomamos as decisões certas quando o destino nos ofereceu seus desvios incertos e cheios de possibilidades.



“(...) Diante da agitação em que eu me encontrava, o Mano decidiu me explicar o quanto seria bom, dali pra frente, a gente se manter afastado das coisas desconhecidas. Com isso, eu refletia, ele queria gravar em minha mente a importância da nossa viagem, para que eu pudesse suplantar o medo e as incertezas com a força da convicção. Era como se me dissesse que devíamos manter o olhar firme, fixando num ponto lá adiante, onde os trilhos se juntam, a nossa meta. Do seu jeito confuso, mas preciso, o Mano determinou que seguiríamos em frente, desviando do caminho apenas o estritamente necessário.

Olhando o Mano caminhar alguns metros à minha frente, lembrei-me de um dia em que eu, bem pequeno, garimpando um caco de magnésia, lhe perguntei se aquilo era uma esmeralda. Foi a primeira e única vez que os olhos dele se encheram d’água ao me responder que isso não tinha importância, pois de todo modo, fosse joia ou vidro, era sempre uma beleza. Com isso, ele insinuou que as coisas têm sempre o valor que a gente lhes dá. E era nessa forma, eu intuí, que ele gostaria de moldar o meu espírito.

A partir daí, começamos a sair juntos à procura de tesouros perdidos, mas foi muito, muito tempo depois desse dia que comecei a alcançar a exata medida dos seus pensamentos, e a perceber que os seus ensinamentos iam sempre muito além das parcas palavras. (cap. 6, págs 33-34)”


Leia: À margem da linha. Paulo Rodrigues. Cosaic & Naify, 2001.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Tarde sertaneja, by Visconde de Taunay

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Tarefa difícil, para quem tem paixão pelos livros, é ter que abrir espaço em estantes e prateleiras para que novas obras que chegam ocupem o lugar das que devem partir. Nessas horas, parece que não usamos muito a razão e o que determina essa “escolha de Sofia” livresca é mesmo o apego emocional à coleção.

Há certamente os livros que jamais sairão da nossa biblioteca particular, os nossos amores eternos, os que nos acompanham desde a primeira leitura e mesmo que jamais relidos, ficam ali, fazendo-nos felizes pelo simples fato de existirem e estarem pertinho de nós; há os clássicos, evidentemente, que também não podem ser assim descartados por qualquer best-seller da moda, mesmo que você goste mais do Dan Brown do que do Proust. Por isso aprendi a ser prático: livros da moda ou tomo emprestado ou nem leio. Se sair o filme então, melhor ainda, resolvo tudo em duas horas e pronto. Gastar meu tempo de leitura, por hora, só com o que vale a pena.


Há obras que mantenho por questão intelectual, a maioria delas literatura acadêmica, mais voltadas para o estudo e há as que guardo por questão estética mesmo: o texto é ruim, mas as gravuras ou as ilustrações são de primeira, sendo assim, ficam na estante - para os chiques, na mesinha de centro fazendo pose.

Não vão embora nunca as que fazem parte de coleções temáticas: minhas obras de Literatura Odepórica, do Ciclo Arturiano, dos autores beats, coleção cervantina, todas as de poesia, de autores e temas relacionados às Minas Gerais, e as que separo por autores/as queridos/as, que nem vou citar porque poucos não são.

Como se vê, na hora de descartar, não sobra muita coisa, mas ainda assim juntei duas caixas para doação e uma sacolinha com bons títulos que darei à Miss Cely Blues, jornalista araraquarense que ama os livros como ninguém nessa terra. Tô te esperando em Sampa, Cé!


E nesse “vai ou fica” de hoje, salvei de última hora, da caixa dos rejeitados, uma obra misteriosa: sem título, sem autor, sem nota alguma que possa identificá-la, encadernada naquele bonito tom de verde musgo antigo, páginas internas em sépia e com ortografia que remete às primeiras décadas do século passado. Trata-se de uma coletânea, em cuja página inicial destaca-se o título Primeira Parte: Prosa; quatrocentas e cinquenta e tantas páginas adiante, outro título: Segunda Parte: Poesia.


Foi um anjo quem me fez retirar da caixa esse livro; iria perder um pequeno tesouro, que só fui notar ao folhear mais atentamente a obra: um compêndio de todos os mais importantes autores da literatura brasileira do século XIX com notas biográficas e excertos breves de suas principais obras. Como acredito que nada ocorre por acaso, abri o livro na página 37 e encontrei uma pequena joia intitulada Tarde Sertaneja, uma passagem da obra Inocência, do Visconde de Taunay que tem tudo a ver com o universo das viagens.


O Visconde, nascido Alfredo d’Escragnolle Taunay, foi oficial do exército, professor, político, romancista, historiador e compositor musical. A nota primordial, a face principal de sua obra é o seu brasileirismo, não só na escolha dos assuntos e nas descrições e paisagens que pintou, como até na linguagem e na maneira de escrever: caracteristicamente brasileiro no sentimento e na expressão. Tudo indica, numa pesquisa rápida pela web, que o Taunay foi um homem muito bacana e digno.

Você lerá a seguir uma breve passagem de sua obra mais conhecida, Inocência, onde o autor descreve um fim de tarde no sertão, presenciado por um viajante que cruza aquelas áridas terras montado em um cavalo, aventura que o próprio visconde deve ter vivenciado em suas viagens pelo Brasil. No final do post, deixo um link para quem tiver interesse em ler uma narrativa de viagem, na íntegra, do Visconde de Taunay. Até a próxima!
Tarde Sertaneja


Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo o vento. Não criam mais os buritis; gemem, e convulsivamente agitam as flabeladas palmas. É a tarde que chega.

Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe uma pouca d’água; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para outro e corre afinal a buscar o animal, que de pronto encilha e cavalga.


Uma vez montado, lá vai ele a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de espírito, por aqueles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.

Quanta melancolia baixa à terra com o cair da tarde!


Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora. Enegrece o solo; formam os matagais sombrios maciços, e ao longe se desdobra tênue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no qual, como linhas a meio apagadas, ressaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.


É a hora em que se aperta de inexplicável receio o coração. Qualquer ruído nos causa sobressalto; ora, o grito aflito do zabelê nas matas, ora as plangentes notas do bacurau a cruzar os ares. Frequente é também amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.


Quem viaja atento às impressões íntimas, estremece malgrado seu ao ouvir, nesse momento de saudades, o tanger de um sino muito, muito ao longe ou o silvar distante de uma locomotiva impossível. São insetos ocultos na macega, que trazem essa ilusão, por tal modo viva e perfeita, que a imaginação, embora desabusada e prevenida, ergue o vôo e lá vai por estes mundos fora a doudejar e a criar mil fantasias.
Para baixar a obra Cenas de viagem de Visconde de Taunay, clic aqui!