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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pic, o último romance de Jack Kerouac

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A maior surpresa que tive esse ano aconteceu no último final de semana de agosto. Estava procurando um livro que pudesse ler no domingo de uma só tirada, porque às vezes tenho essas vontades tolas de ler um romance em um dia ou dois no máximo.

Puxei da estante um Kerouac que nem me lembrava mais de haver comprado: Pic. Perfeito, pensei (e além do mais fazia tempo que não visitava meu autor predileto). Liguei um som baixinho, instrumental, para não me distrair com os ruídos externos e mergulhei na leitura. Sensacional, já vou adiantando.

Comecemos pelo título: Pic, que é o nome do narrador: Pictorial Review Jackson, um adorável menino negro de dez anos que nos relata, em primeira pessoa, a aventura de sair de casa no interior da Carolina do Norte rumo à costa oeste, uma aventura gigantesca para quem nunca havia saído de seu próprio quintal.

Kerouac situa a história nos anos 1940, época em que a segregação racial era muito pesada nos Estados Unidos; optou por escrever o romance da maneira como os negros falam, como um dialeto próprio, o que dá à narrativa uma dinâmica apropriada – os personagens são quase palpáveis e a empatia com o menino Pic, imediata.


A obra começou a ser escrita no início da década de 50, mas os biógrafos de Jack informam que ele a deixou encostada até o fim da vida, retomando a escrita poucos meses antes de falecer, em outubro de 1969. A obra foi publicada postumamente em 1971 e não foi bem recebida pelos críticos. Uma das críticas mais recorrentes recai sobre o uso mal empregado da fala dos negros americanos; por outro lado, há os que admiram a obra justamente pelo fato de Jack ter saído de sua zona de conforto e eu fico do lado dos que pensam assim.

Preciso dizer que a tradução da obra para o português, a cargo de Guilherme da Silva Braga, ficou divertida e cativante, lembrando muito a maneira de falar dos negros descendentes de escravizados das cidadezinhas coloniais de Minas Gerais. Veja uma passagem:

Vô, aquela noite tava muito escura porque a lua ficô encoberta pelas nuve assim que eu e o mano chegamo no bosque, e aquela lua não passava de uma bananinha de lua que brilhava fraca e franzina quando aparecia em meio às nuve. Tamém ficô frio, e eu tava quase tremendo. Achei que uma tempestade tava se armando pra me aquecê, porque pocas vez eu me senti tão bem como quando a gente se pôs a caminho.

Vamos ao enredo? Pic é um garoto negro, “o minino mais escuro, o minino mais preto que já tinha aparecido na escola”; sua mãe faleceu, seu pai sumiu do mapa há anos e seu irmão um dia foi embora e nunca mais voltou. A história que lemos é a que Pic conta ao seu avô, com quem vive e a quem muito estima.


Quando seu avô falece, o que acontece logo nas primeiras páginas, Pic é levado para a casa de uma tia onde o ambiente não lhe era favorável até que um dia aparece seu irmão mais velho, Slim, um saxofonista pobre e virtuoso, que veio de Nova Iorque exclusivamente para levá-lo embora. E é aqui que a aventura começa: Pic cai na estrada com o irmão e o que leremos daí em diante é puro deleite.

Um dos mais respeitados biógrafos de Kerouac, Gerald Nicosia (autor de Memory Baby: a critical biography of Jack Kerouac) afirma que quase todos os incidentes que se lê em Pic fazem referência a algum acontecimento da vida de Jack, inclusive a perspectiva de ver-se a si mesmo como um membro de outra raça (Jack era de origem franco-canadense), pelo que Pic pode ser enxergado como uma persona do autor.


A beleza dessa pequena novela, que mais se assemelha a um grande conto, está na visão de encanto que Jack procurava transmitir em suas obras. São os detalhes, o apreço às coisas simples da vida, a aventura do partir rumo ao desconhecido, a ânsia de novas descobertas que a vida na estrada oferece, a natureza, a solidão, o valor da amizade e da ternura... elementos que sempre estarão presentes na obra kerouaquiana.

Por admirar o trabalho de Kerouac sou suspeito para resenhar qualquer uma de suas obras, mas confesso que não esperava muito desse texto, porque num primeiro momento senti desconforto com a linguagem coloquial, até mesmo caricata dos diálogos entre Pic e seu irmão, mas o fato é que a história é tão bem contada, tão vibrante, que no segundo capítulo você até esquece esse lance da linguagem e torce para que o garotinho se dê bem na vida.

Pelo que li em algum lugar, o final dessa novela não foi concluído, e embora fique mesmo essa impressão, não desaponta: fechei o livro com um sorriso bem grandão no rosto. Acho que Jack fez um bom trabalho.
Excerto capítulo 11: Fazendo as mala pra Califórnia

(...) “Primero a gente tem que atravessá cinco mil e duzentos quilômetro”, o Slim suspirô, e eu lembrei dessas palavra mais tarde. “Cinco mil e duzentos quilômetro”, ele disse, “por uma planície, um deserto e três cordilhera de montanha, no meio de toda chuva que resolvê caí do céu. Que Deus nos ajude!”.  

Bom, agente foi pra cama e dormiu nossa última noite naquela casa, e pela manhã vendemo as cama. “Agora tamo entregue à nossa própria sorte”, o Slim disse, e ele tinha razão. De tarde a gente dexô a casa vazia a não ser por uma garrafa de leite, e tamém pelas meia que eu tinha levado comigo dês da Carolina do Norte.

A Sheila tava com a mala dela, e eu e o Slim tinha cada um uma mala com todas nossas coisa. A gente foi pra rodoviária e comprô o bilhete da Sheila e esperô a hora do ônibus dela.




Quando o ônibus tava prestes a saí nós três nos sentimo triste e apavorado. “Lá vô eu noite adentro”, a Sheila disse quando viu o ônibus que dizia CHICAGO nele. “Vô e provavelmente não volto nunca mais. É como morrê pra ir pra Califórnia – mas lá vô eu. Vô, eu ainda não me esqueci desse momento.

“Cê vai revivê quando chegá”, o Slim disse com uma risada, e a Sheila disse que era o que ela torcia que acontecesse. “Não dexa nenhum cara mexê contigo nesse ônibus”, o Slim disse, “porque cê vai tá sozinha até que eu e o Pic apareça por lá, e eu não sei quando vai sê.”

“E eu vô tá esperando você, Slim”, e a Sheila começo a chorá. Bom, o Slim não chorô mas ele pareceu que ia chorá quando abraçô ela. Pobrezinha- eu senti pena dela naquela noite, porque eu amava ela muito, que nem o Slim tinha dito que eu ia amá naquela primera noite no bosque. Uma jove mãe que não sabia o que ia acontecê com ela no outro lado do país com todas aquelas noite sozinha pela frente enquanto eu e o Slim não chegasse. É como diz na Bíblia, Fugitivo e vagabundo serás na terra, a única diferença era que ela era uma garota. Eu passei a mão no rosto dela e disse prela nos esperá na Califórnia.

“Tomem cuidado com as carona”, ela disse. “Eu inda acho que o Pic é piqueno demais pruma viagem tão longa e não me sinto muito bem em relação a isso.”


Mas o Slim disse que ia cuidá bem de mim, cuidá do melhor jeito possível, e se ele não pudesse fazê aquilo então ninguém mais podia. Era assim que o Slim se sentia, ele tinha confiança e cuidava da gente. Aí ele e a Sheila se bejaro, e depois ela tamém me deu um bejo macio e doce e entrô no ônibus.

“Tchau, Sheila”, eu disse, e comecei a abaná, e me senti inda mais sozinho e assustado do que na hora que ela chorô, e tchau, tchau todo mundo tava dando tchau pra todo mundo ao redor do ônibus, e vô essa é a tristeza de viajá tão longe, de tentá vivê e fazê as coisa até o dia que você morre.

Leia: Pic: uma novela. Jack Kerouac. L&PM Editores, 2015.

sábado, 8 de outubro de 2011

Viagens, by Paul Bowles

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Comprei um Kindle, o leitor de livros eletrônicos da Amazon e estou muito contente com o brinquedo. Baixei muitos títulos e me surpreendi com a quantidade de boas obras de literatura odepórica disponíveis gratuitamente na web. Veja alguns deles: Selections from Strabo (1893), Journal of a voyage to Brazil (Maria Graham, 1824), Travels with a Donkey in the Cevennes (Robert Louis Stevenson, 1914), The Traveller (Oliver Goldsmith, 1882), A little tour in France (Henry James, 1885) e Pictures of travel (Heirich Heines, 1882), só para citar alguns, todos em domínio público.

Também comprei alguns títulos, entre eles o último lançamento de um dos meus escritores mais queridos, Paul Bowles (1910-1999). A obra, ainda não lançada no Brasil, intitula-se Travels: collected writings, 1950-1993. Como o título indica, o livro é um apanhado de textos que Bowles publicou em jornais e revistas durante mais de quatro décadas.
São muitas as surpresas que encontramos nessa coletânea de textos de viagem do Bowles. A começar pela introdução, a cargo de ninguém menos do que Paul Theroux, um dos grandes da literatura odepórica contemporânea.

Além da introdução cativante de Theroux, ainda temos outras preciosidades que enriquecem a obra de um modo geral, não bastasse os textos preciosos do próprio autor. É o caso da cronologia no final da obra, escrita por Daniel Halpern, que teve o cuidado de enumerar os fatos mais marcantes da vida do escritor ano a ano, desde seu nascimento até seu suspiro final. Didático e preciso, como toda boa cronologia, deve ter dado um trabalho e tanto para o Mr Halpern.

Um capítulo que logo de cara me chamou a atenção foi o que faz referência a The Sheltering Sky, que está para Bowles assim como On the road para Kerouac: The Sky (O Céu). Foi o primeiro que li, logo depois da introdução. É um texto curto, retirado de uma obra de 1993, chamada Portraits Nudes Clouds que pelo que andei pesquisando foi editada por um artista e fotógrafo italiano chamado Vittorio Santoro juntamente com Bowles, sendo que um entrou com as imagens e o outro com os textos.
O céu sempre foi uma referência na obra de Paul Bowles, tocado que foi em vida pelas paisagens saarianas. E me pego agora, folheando novamente sua autobiografia, lendo uma passagem que grifei numa leitura anterior, em que Bowles fala justamente do céu:

No trem que partira de Chicago rumo ao Sudoeste eu via o céu tornando-se mais limpo e claro e sentia que mais uma vez a vida se abria para mim e ganhava sentido - uma sensação indefinida que tenho inexplicavelmente quando me dirijo a regiões desconhecidas.
E é interessante demais o excerto garimpado do livro de fotografias, tanto que não resisto em copiar um pedacinho dele aqui:

O ambiente de uma cena que testemunhamos na vida é determinado em grande medida pela luz projetada sobre nós a partir de cima. Como um mestre eletricista, o céu fornece uma variedade infinita de efeitos luminosos sobre nossas ações, ajudando a moldar até mesmo as emoções que as acompanham.
Há o lento escurecer do crepúsculo para a troca de intimidades, a luz do sol inundando uma manhã de primavera - um sentimento irracional de prazer, a escuridão da noite quando nenhuma luz cai do céu e cada um se torna vítima de suas próprias fantasias, o cinza, luz indiferente de um céu encoberto no verão, um estímulo à indolência.

O resto é ainda mais bonito, uma sucessão de insights lindos e poéticos que ganham nas mãos de Bowles uma dimensão quase espiritual. Como ele diz lá na frente, “é uma mera questão de observação, a performance vem do céu...”

E um bom viajante tem esse diferencial, o de saber observar tudo o que se encontra à sua volta, observar de maneira a entender o que acontece fora de si, para depois, contando com o referencial de suas próprias experiências de vida, construir os alicerces que formarão o ser em sua mais completa essência. Esse ponto jamais poderá ser alcançado por aqueles que viajam (em todas as acepções do termo) mantendo uma observação passiva sobre os acontecimentos que se desenrolam à sua frente.

Paul Bowles viajou muito, e suas andanças o levaram a diversas partes do mundo; deslocou-se com alguma frequência entre os Estados Unidos, a Europa e o norte da África, tendo vivido suas últimas cinco décadas de vida em Tânger, no Marrocos. Diz ele em sua autobiografia:
Não escolhi morar em Tânger para sempre; aconteceu. Pretendia fazer-lhe apenas uma breve visita e depois partir e continuar viajando indefinidamente. Fiquei com preguiça e adiei a partida. E um dia constatei, chocado, que não só o mundo tinha mais gente que pouco tempo antes, como também os hotéis eram menos bons, as viagens menos confortáveis e os lugares em geral muito menos bonitos. Depois disso, quando ia a algum canto, logo ansiava para voltar a Tânger. Assim, se estou aqui agora, é só porque ainda estava aqui quando percebi até que ponto o mundo piorara e me dei conta de que não queria mais viajar.

E grande parte desses deslocamentos de Paul Bowles pelo mundo aparece documentada de alguma maneira em Travels; a própria divisão dos capítulos já dá uma ideia da cronologia de suas viagens, contemplando diversas cidades e países: Fez, Paris, Tânger, Sri Lanka, Quênia, Cabo Verde, Portugal, Espanha, Tailândia..., só para citar algumas das localidades. Fotos aqui e ali ajudam a entrar ainda mais no clima enfeitiçante das viagens de Bowles. E o resto você só saberá mesmo ao ler a obra, torcendo para que ela seja publicada por aqui.
O editor da obra faz um lembrete importante: Bowles já havia publicado um livro com suas narrativas de viagem no ano de 1963, com o peculiar título Their heads are green and their hands are blue (literalmente, “Suas cabeças são verdes e suas mãos são azuis”), um apanhado de artigos publicados originalmente em revistas. A pequena nota editorial de Mark Ellingham termina lembrando que os diários de viagem de Paul Bowles foram uma amostra da grande qualidade literária de sua prosa, ganhando um papel de destaque em sua obra e em sua vida.

A seguir vou transcrever alguns trechos da introdução que Paul Theroux fez da coletânea Travels, de Paul Bowles.
O Paul Bowles estereotipado é um sujeito talentoso, enigmaticamente exilado, elegantemente vestido, com um cigarro entre os dedos, curtindo luxuriosamente o por do sol marroquino, ocasionalmente oferecendo suas ficções alarmantes e bem polidas a boa parte do mundo.

Esse retrato tem uma dose de verdade, mas há muito mais a saber sobre ele. Com certeza, Bowles tinha estilo, e um livro de sucesso. Mas um único livro, ainda que muito popular, dificilmente garante uma renda regular. E, afora a questão do dinheiro, a vida de Bowles era complicada emocionalmente, sexualmente, geograficamente e, sem dúvida, criativamente.

Um homem engenhoso – como costumam ser os exilados ou expatriados – Bowles teve muitas maneiras de expressar sua imaginação. Fez nome como compositor, escrevendo música para um grande número de filmes e peças de teatro. Foi um etnologista musical, um precursor em gravações de canções e melodias tradicionais de remotas vilas no Marrocos e no México.

Escreveu romances, contos e poemas, traduzindo textos do espanhol, do francês e do árabe, além de produzir mais de uma dúzia de livros com o contador de histórias marroquino, Mohammed Mrabet. De modo que o lânguido e desprestigiado estereótipo dá lugar a um homem muito ocupado, altamente produtivo, à beira de uma estafa.
(...) Foi um homem bonito e duro de impressionar; observador, solitário e que conhecia sua própria mente; seu espírito de aceitação, mesmo das fatalidades, fez dele um viajante ideal. Ele não era muito de gastronomia – como se vê em sua ficção, a comida repugnante (por exemplo, um ensopado de pele de coelho) lhe interessava mais do que a alta gastronomia.

Tinha paixão pelas paisagens e o efeito em que causavam no viajante... Era fascinado pelas ambientações celestes e se empolgava com o grotesco, onde quer que a deformidade pudesse ser encontrada. Desdenhava o progresso e a tecnologia, chamando certa vez a modernidade de “gangrena do século vinte”.

(...) Bowles teve a sorte de escrever em uma época em que as revistas de viagem ainda acolhiam bem ensaios longos e repletos de reflexão. Escreveu artigos para várias revistas de prestígio e foi publicado em diversas coletâneas de ensaios. Também escreveu um artigo para a revista Holiday sobre haxixe, outro de seus entusiasmos, lembrando que ele nunca deixou de ser um cara chapado.

Sabia bem o que curtia numa viagem, e também o que o aborrecia: “Se eu tiver que encarar a decisão de escolher entre visitar um circo e uma catedral, um café e um monumento público, uma festividade ou um museu, receio que normalmente eu optaria pelo circo, pelo café e pela festa”.

Não importa para quem ele está escrevendo, uma revista de viagem ou uma pomposa publicação trimestral, ele sempre soa feliz e frequentemente engraçado. (...) Sua rica vivência do mundo lhe capacitou a escrever sobre viagem, e um dos melhores ensaios de Travels, (“The Challenge to Identity”) faz uma análise da literatura de viagem:

O que é um livro de viagem? Para mim é a história daquilo que aconteceu a uma pessoa em um determinado lugar, e nada mais do que isso; sem conteúdo de informações sobre hotéis e estradas, listas de frases úteis, estatísticas ou dicas de vestimentas necessárias ao visitante. Pode ser que tais livros pertençam a uma categoria destinada à extinção. Espero que não, porque não há nada de que eu goste mais de ler do que um relato preciso de um escritor inteligente daquilo que aconteceu com ele distante de casa.
Assim que finalizei a leitura de Travels, voltei a ler a introdução de Paul Theroux e vi que ele escolheu passagens realmente significativas da obra, o que não é uma tarefa muito fácil porque estamos falando de um livro de 513 páginas com muitas informações dignas de serem lembradas em uma apresentação ou resenha.

Evidentemente isso é uma questão pessoal; no meu caso, selecionei tantas passagens da obra (e o Kindle facilita muito esse processo) que teria que escrever pelo menos uns três posts para poder contemplar a todas; procurando ser objetivo, selecionei dois momentos, os quais têm um peso fundamental na obra e vida de Bowles. Um fala do deserto, o outro de Fez, cidade marroquina por ele tão amada.
O deserto (e suas adjacências) sempre foi o grande personagem das obras de Bowles. Não é apenas um pano de fundo, como um local de grande efeito cênico. Se você leu (ou assistiu) O céu que nos protege, então sabe do que estou falando aqui, porque tudo o que acontece naquela trama não teria tamanha profundidade e efeito transformador nos personagens se estes não estivessem viajando pelo deserto.

É a velha noção, que Bowles soube captar tão bem em sua obra, de que somente a solidão pode te levar de encontro ao self. Solidão, claro, num duplo sentido: a física e a psíquica, de modo que a geografia acaba sendo um agente facilitador desse processo de transformação interior. Uma experiência para poucos, vale lembrar.
E há os que vivem voltando ao deserto, aficionados que são pelas solitárias rotas esquecidas pela civilização. Por que será? O que há de tão cativante nessas paragens tão cheias de dificuldades? Há muitas respostas e a de Bowles é a seguinte:

Quando um homem esteve no deserto e sobreviveu ao batismo da solidão ele não consegue mais se ajustar por si só; uma vez que ele esteve sob o feitiço da vasta, luminosa e silenciosa região, nenhum lugar será forte o suficiente para ele, nenhum outro ambiente poderá oferecer a sensação de suprema satisfação de existir em meio a algo que é absoluto. Ele voltará, seja o preço que for, porque o absoluto não tem preço.
O que mais me agradou em Travels foi poder encontrar numa única obra várias faces do pensamento de Bowles e perceber, através dos relatos de suas viagens ao longo de quarenta anos, que ele nunca se posicionou de maneira contraditória; sua identidade não mudou no meio do percurso e mesmo no final da vida seu texto continuou com a mesma força e carisma de sempre.

Gosto muito quando ele escreve sobre o comportamento humano dos marroquinos, de como escreve sobre Fez, cidade cujos habitantes não têm vergonha de seu hedonismo, como afirma Bowles, ele próprio um tremendo hedonista, traço de caráter também comum aos seus colegas da geração beat; Bowles foi amigo de Allen Ginsberg (que junto com Burroughs perambulou pelo Marrocos) que o incentivou a publicar, pela City Lights (a mítica editora de Lawrence Ferlinghetti) um livro sobre o uso do Kif, como a marijuana é chamada pelas bandas marroquinas. Em Travels, de lambuja, você encontra um capítulo falando disso, e a obra foi lançada mesmo, em 1967 com o título Book of Grass, ou “O Livro da Maconha”. Direto ao ponto.
Antes de encerrar, vamos ler mais um pouquinho do texto de Bowles, um trecho onde ele fala de Fez. Veja como é tocante a maneira como ele narra uma cena comum vivida por uma família em um parque; Bowles sempre soube captar a poesia das coisas mais simples, resultado do olhar treinado de anos de vagamundagem.
Fez não é uma cidade agrada a qualquer pessoa. Muitos viajantes têm uma reação negativa de suas vielas escuras e sinuosas, repletas de pessoas e animais. Qualquer um com tendência a claustrofobia a achará um pesadelo desordenado de túneis, passagens sem saída e paredes sem janelas.

Para absorver o fascínio desse lugar a pessoa teria que ser do tipo que gosta de se perder no meio de uma multidão e de ser levada por ela, não se importando para onde nem por quanto tempo; deve saber ficar relaxada com a ideia de encontrar-se só numa multidão sem poder contar com a ajuda de ninguém; deve saber encontrar prazer nas coisas bizarras e enxergar a beleza onde ela menos tenha chance de aparecer.
Não faz muito tempo, em uma de minhas caminhadas, deparei-me com uma família espalhada no meio de um gramado. Eles estavam sentados silenciosamente em seus tapetes de palha, mas algo em sua atitude coletiva me fez parar e observar mais atentamente.

Foi então que eu vi que, ao redor deles, num raio de talvez trinta metros, havia um círculo de gaiolas, cada qual suspensa por uma estaca fincada no chão. Havia pássaros em todas as gaiolas e eles estavam cantando.
A família inteira sentou-se ali alegremente, ouvindo o canto dos passarinhos. Assim como os habitantes dos centros urbanos carregam consigo seus rádios, eles levavam seus pássaros com eles desde a cidade, exclusivamente como entretenimento.

As mudanças trazidas nos últimos cinqüenta anos desde que vi Fez pela primeira vez são relativamente superficiais; nenhuma delas foi tão drástica a ponto de alterar essa imagem.
Sem dúvida Paul Bowles foi um ser humano singular, um homem que soube captar nuances da vida que pouquíssimos de nós teremos oportunidade ou ousadia de vivenciar. Outros tempos, podemos pensar, mas será mesmo que essa dinâmica de comportamento diante da vida depende desse fator?

De modo que, se a nós não surgiu a oportunidade das experiências desses grandes homens e mulheres, escritores e viajantes, ao menos temos seus testemunhos, que de certa maneira estão aí, indicando caminhos, plantando sementes, acendendo fagulhas. Daí para por os pés na estrada, basta um passo e um tanto de coragem.


Leia
: Travels – Collected Writings (1950-1993). Paul Bowles. Harper Collins Publishers, 2010.

Sobre o Céu que nos protege, a obra mais conhecida de Paul Bowles, já falamos aqui no Odepórica. Se lhe interessar, clique aqui.

sábado, 2 de outubro de 2010

Cartas do yage, by William Burroughs & Allen Ginsberg

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Estou todo contente, só porque acabei de ler uma recente publicação sobre a literatura beat. Trata-se de uma pequena e deliciosa coletânea de entrevistas com os mais conhecidos nomes da cena beat, editada pela Azougue Editorial na coleção Encontros (a arte da entrevista). O título, óbvio e básico: Geração Beat, organização de Sergio Cohn. O conteúdo da pequena coletânea de entrevistas não deixa nenhum fã da literatura beat desapontado, bastando dar uma olhada nos entrevistados para saber que o lance é bom: Allen Ginsberg, Gary Snyder, Jack Kerouac, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Neal Cassady, Will Burroughs, Michael McClure e até Bukowski, que nem era beat mas que sempre aparece no meio dos malucos todos da época.

Cada uma das entrevistas é uma pequena jóia, um documento valioso para quem curte os beats e quer saber um pouco mais de seus escritores favoritos. Para mim, que sou suspeito, Kerouac sempre brilha mais, e a entrevista intitulada “Santo Jack” (1959) é uma curtição só, você se sente ali ao lado dele e do entrevistado, e de sua mãe Gabrielle, que vira e mexe aparece para dar uns pitacos, enquanto Jack entorna uma lata de cerveja atrás da outra (mas sem nunca perder a pose e a lucidez). Vou dizer uma coisa: nas mãos de um autor competente, só essa entrevista renderia uma boa montagem teatral.
Gary Snyder é outro que me surpreendeu; sua entrevista, publicada originalmente em 1977 na revista East West tem o sugestivo título de “Meditar e varrer o jardim”. Para quem não conhece a turma, Snyder (que completou 80 esse ano) é o beat zen da galera, um poeta prestigiado que passou anos no Japão, com formação em antropologia e cultura oriental. Meditou pacas, influenciou Kerouac de montão em sua fase budista e nunca deixou a peteca cair. Embora nem se considere um beat – e de certa forma estava mesmo distante daquela parada toda – foi sempre tratado como tal. Eu diria que a seu modo Snyder foi uma alternativa zen em meio a tantas doideiras praticadas pelos outros, sobretudo no que diz respeito ao uso de drogas, hábito comum a todos, mas incompatível com a proposta espiritual dele. Por essas e outras, Snyder é um homem que brilhou - que ainda brilha, por ter vivido de acordo com suas crenças de forma honesta, sem nenhum tipo de hipocrisia. A entrevista dele faz com que você perceba isso com muita facilidade.
Outro poeta e nome chave da cena beat, Allen Ginsberg, é mais um que merece destaque na coletânea. Assim como Snyder, Ginsberg também foi um homem que viveu de maneira honesta aquilo que acreditava, mas seu barato era outro, e só quem já leu seus escritos e poemas sabe a dimensão porralouquice de sua obra. No bom sentido, sempre. Allen Ginsberg foi genial, de uma cultura e inteligência acima da média e não se pode negar o papel de destaque que as drogas sempre tiveram em sua vida. E também na de William Burroughs, seu grande amigo e outro nome fundamental na história do movimento beat.
E é desses dois camaradas de quem vou agora tratar, só que deixando de lado o Geração Beat (leia, leia, leia!) e tomando nas mãos o pequenino livro intitulado Cartas do yage, que tem a ver com viagem, afinal, e cujo resumo copio descaradamente da capa posterior:

“Em 1953, logo após a controversa morte acidental de sua mulher, William Burroughs (1914-1997) se lançou em uma viagem à América do Sul. Mais especificamente ao Peru e à Colômbia, na busca pelo yage, ou ayahuasca, droga usada pelos índios da nascente do rio Amazonas à qual se atribuem poderes sensoriais e anestésicos. (...) um pouco diário de viagem, um pouco relato ficcionalizado, contém as cartas escritas ao amigo, amante e poeta Allen Ginsberg (1926-1997) sobre a experiência. Traz também as cartas que este enviou a Burroughs sete anos mais tarde, ao fazer uma jornada similar.”

Simples assim. A obra (lançada originalmente pela mítica City Lights, em 1963) como consta no resumo acima, trata da troca de correspondência entre Allen e Will Burroughs contando suas experiências com o yage no Peru e na Colômbia amazônica. Primeiro foi um, WB em 1953; sete anos depois, é Allen quem vai e daí você que nem leu já pode imaginar o que os dois devem ter aprontado no meio do mato pra poder garantir um barato alucinógeno. Diz o Will (em sua obra Junkie):
"Andei lendo sobre uma droga chamada yage, usada pelos índios da nascente do Amazonas. Dizem que ela aumenta a sensibilidade telepática. Portanto, resolvi me mandar pra Colômbia em busca do puro barato que expande a mente, ao contrário da heroína, que a estreita. Talvez eu descubra no yage o que andava procurando na heroína, na maconha, na coca. Yage talvez me dê o barato definitivo.”

O yage, do título, é a conhecida ayahuasca, o cipó de onde se produz a mesma bebida que ingerem os membros do Santo Daime, de quem já falamos aqui no Odepórica outras vezes. A diferença entre a experiência destes (Will e Allen) com a dos praticantes dos grupos religiosos é a conduta espiritualmente pouco ortodoxa dos dois escritores; ainda que possa parecer haver algo de espiritual na busca de ambos, por conta do desejo em experimentar uma expansão da mente, fica a noção de que o que buscavam de fato era a pura fruição alucinógena (em particular no caso de Burroughs), sem qualquer preocupação com a sacralidade. A bem da verdade, Burroughs sempre foi um junkie inveterado, tendo feito de seu próprio corpo um templo para todos os tipos de experiências com drogas (ainda assim, apesar de todos os excessos nessa área, o homem teve a proeza de viver 83 anos, um verdadeiro antecessor de Ozzy Ousborne). Allen Ginsberg, diferente de Will, sempre viveu uma profunda - e aparentemente legítima- busca espiritual, o que se nota com clareza ao se comparar os relatos de ambos ao descreverem suas experiências com o yage numa comunidade peruana.
Enfim, não resta muito a ser dito. O livro é curto, as cartas idem. Escolho apenas duas amostras, a título de curiosidade. A primeira missiva escrita por William Burroughs, a outra pelo Ginsberg. Apenas um recorte, bastante superficial, de duas viagens empreendidas por homens que nunca tiveram medo de viver seus sonhos e loucuras - loucuras estas muitas vezes praticadas até o limite no qual a maioria das pessoas jamais ousaria se aproximar.



Lima, 10 de julho de 1953

Querido Allen:

Ontem à noite, tomei o resto da mistura de yage que trouxe de Puccalpa. Não adianta levá-la para os Estados Unidos. Não se conserva por mais do que alguns dias. Esta manhã, ainda viajando. Foi isso que aconteceu comigo. Yage é uma viagem espaço-tempo. O quarto parece sacudir e vibrar com movimento. O sangue e a essência de muitas raças: negros, polinésios, mongóis da montanha, nômades do deserto, poligotes do Oriente Próximo, índios, novas raças ainda não determinadas e por nascer e combinações ainda não descobertas passam através do meu corpo. Migrações, incríveis viagens através de desertos, florestas e montanhas (marasmo e morte em estreitos vales montanhosos onde plantas brotam da pedra e enormes crustáceos eclodem e quebram a concha do corpo), através do Pacífico num catamarã para a Ilha da Páscoa. A Cidade Composta onde todos os potenciais humanos estão espalhados num vasto e silencioso mercado.

Minaretes, palmeiras, montanhas, florestas. Um lento rio onde pulam peixes defeituosos, enormes parques tomados pelo mato onde os meninos deitam na grama ou jogam. Nenhuma porta trancada na cidade. Qualquer um entra no seu quarto a qualquer hora. O chefe de polícia é chinês, palita os dentes e escuta as denúncias de um louco. Hipsters com os rostos macilentos e flácidos recostam-se nas portas, revirando cabeças encolhidas nas correntes de ouro, rostos inexpressivos com uma calma insetívora jamais vista.

Atrás deles, através da porta aberta, mesas e reservados, bares e quartos, cozinhas e banheiros, casais copulando em fila nas camas de latão, ziguezague de milhares de redes, junkies se picando, fumantes de ópio, fumantes de haxixe, pessoas comendo, falando, tomando banho, cagando numa névoa de fumaça e vapor.

Mesas de jogo onde são feitos jogos com apostas incríveis. De vez em quando, um jogador pula dando um grito inumano e desesperado por ter perdido a juventude para um velho ou por tornar-se latah para seu adversário. Mas há apostas mais altas que a juventude ou o latah. Jogos em que apenas dois jogadores no mundo sabem qual é a aposta.

Todas as casas da cidade são geminadas. Casas de barro com mongóis da montanha piscando nas portas enfumaçadas, casas de bambu e de teça, casas de adobe, pedra e tijolo aparente, casas do Pacífico Sul e de Maori, casas em árvores e casas em barcos, casas de trezentos metros de comprimento que abrigam tribos inteiras, casas de caixas velhas e ferro enferrujado onde os velhos vestidos de farrapos podres sentam falando sozinhos e cozinhando calor enlatado, grandes e enferrujadas bastes erguendo-se trinta metros no ar, saindo dos pântanos e do lixo com perigosas repartições construídas sobre plataformas de vários níveis e redes balançando no vazio.

Expedições partem para lugares desconhecidos, com propósitos desconhecidos. Estranhos chegam em balsas de caixotes velhos amarrados com corda podre. Cambaleiam para fora da floresta, os olhos inchados das picadas de insetos. Descem pela trilha da montanha com os pés quebrados e sangrando através dos poeirentos e ventosos arredores da cidade, onde as pessoas cagam em fila ao longo das paredes de adobe e urubus brigam por cabeças de peixe; caem nos parques com pára-quedas remendados. São escoltados por um policial bêbado para se registrarem num enorme banheiro público. Os dados tomados são pendurados por um prendedor e usados como papel higiênico.

Os cheiros da cozinha de todos os países pairam sobre a cidade, uma névoa de ópio, haxixe, a fumaça sinuosa e vermelha do cheiro de comida da floresta, sal, o rio podre, excremento seco, suor e genitais. Floresta de altas montanhas, jazz, bebop, instrumentos mongóis de uma corda, xilofones ciganos e gaitas árabes.

A cidade é visitada por epidemias de violência, e os mortos abandonados são comidos por urubus nas ruas. Não são permitidos funerais nem cemitérios.

Albinos piscam ao sol, garotos sentam-se nas árvores masturbando-se languidamente, pessoas atacadas por doenças desconhecidas cospem nos passantes, mordem-nos, jogam pus, cascas e vários tipos de vetores (insetos suspeitos de transmitir doenças), esperando infectar alguém.

Quando você fica completamente bêbado, acorda com um desses cidadãos doentes na sua cama, que passou a noite exaurindo sua ingenuidade tentando se infectar. Mas ninguém sabe como as doenças são transmitidas ou se são realmente contagiosas. Esses mendigos doentes vivem num labirinto de tocas sob a cidade e surgem de lugar nenhum, quase sempre se arrastando pelo chão de um bar lotado.

Seguidores de ocupações inimagináveis e obsoletas rabiscam em etrusco, viciados em drogas ainda não sintetizadas, traficantes de harmina ensopada, junk reduzida ao simples vício de oferecer uma serenidade vegetal precária, líquidos para induzir o latah, antibióticos cortados, soro da longevidade titoniano, negociantes do mercado negro da Terceira Guerra Mundial, vendedores de remédios para a doença da radiação nuclear, investidores de infrações denunciadas por calmos e panorâmicos jogadores de xadrez, executores de ordens fragmentárias determinando inomináveis mutilações de espírito anotadas – em taquigrafia hebefrênica, burocratas de espectrais repartições, oficiais de estados policiais não-constituídos, uma anã lésbica que foi recém-operada, a ereção pulmonar que estrangula um inimigo adormecido; vendedores de cilindros de orgônio (*energia vital perceptível sobretudo durante o orgasmo sexual) e máquinas de relaxamento, corretores de sonhos fantásticos e memórias testadas em células sensibilizadas pela fissura e permutados pelos materiais crus da vontade; médicos treinados no tratamento de doenças dormentes na poeira negra das cidades em ruínas, acumulando virulência no sangue branco dos vermes sem olhos, sentindo vagarosamente a superfície e os hospedeiros humanos, enfermidades do fundo do oceano e da estratosfera, enfermidades de laboratório e da guerra atômica, eliminadores da sensibilidade telepática, osteopatas do espírito.

Um lugar onde o passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som. Entidades larvais aguardando algo vivo.
William Lee

Trechos de uma carta escrita por Allen Ginsberg a William Burroughs, contando sua experiência com o yage. (Desenhos de Allen)

Pucallpa, 10 de junho de 1960

(...) A primeira vez foi muito mais forte que a bebida que tomei em Lima; Ayahuasca pode ser engarrafada e transportada e mantém-se forte, se não fermentar – a garrafa precisa estar bem fechada. Tomei uma xícara: a mistura estava um pouco velha, tinha sido feita há muitos dias e um pouco fermentada também; deite-me e depois de uma hora (numa choça de bambu, fora de sua cabana, onde ele cozinha) comecei a ver ou sentir o que pensei ser o Grande Ser, ou alguma de suas manifestações, aproximando-se de minha mente como uma grande e úmida vagina, onde fiquei por um tempo, a única imagem que posso recriar é de um grande buraco negro do Deus-Nariz, através do qual vi um mistério – e o buraco negro cercado por toda a criação, especialmente cobras coloridas – tudo real.
Me senti um pouco como o que esta imagem representa, a sensação é tão real.

O olho é uma imagem imaginária, que dá vida ao quadro. Também há uma sensação corporal de grande satisfação, nenhuma náusea. Durou, em fases distintas, umas duas horas – os efeitos desapareceram em três horas – a fantasia durou três quartos de hora depois de beber até mais ou menos duas horas depois.

(...) fui a uma sessão de grupo formal ontem à noite – dessa vez a mistura estava fresca e apresentada com todo o cerimonial, ele cantarolava (e assoprava fumaça de cigarro ou cachimbo) docemente sobre a xícara alguns minutos antes (xícara esmaltada, lembrei-me da tua xícara de plástico), então acendi um cigarro, dei uma baforada sobre a xícara e bebi.

Vi uma estrela cadente – aerólito -, antes de entrar, e a lua cheia, e me serviu primeiro. Então deitei-me esperando sabe Deus que outra visão agradável, então começou a bater e então toda essa porra de cosmos desprendeu-se à minha volta, acho que foi a coisa mais forte e pior que já me aconteceu ... No início, comecei a me dar conta que a minha preocupação com os mosquitos e o vômito era idiota, já que era uma questão de vida ou Morte – Senti-me encarado pela Morte, minha caveira na minha barba num catre num pórtico, rolando para frente e para trás e finalmente parando, como que reproduzindo o último movimento que faço antes de estabelecer a morte real – senti náusea, corri para fora e comecei a vomitar, todo coberto de cobras, como um Serafim-Cobra, serpentes coloridas numa auréola ao redor do meu corpo, senti-me como uma cobra vomitando o universo, ou um jívaro de cocar com dentes de cobra vomitando ao empreender o Assassinato do Universo – minha morte por vir – a morte de todos por vir – ninguém está preparado – eu não estou preparado – ao meu redor, nas árvores, o barulho desses animais espectrais, os outros bebedores vomitando (parte normal das sessões de Cura) na noite de sua horrível solidão no universo – vomitando sua vontade de viver, de ser preservado neste corpo, quase – Voltei e me deitei – Ramon veio suavemente como uma enfermeira (ele não tinha bebido, é uma espécie de ajudante para auxiliar os sofredores) e perguntou-me se estava bem e “bien mareado” (bem bêbado) – eu disse “bastante” e voltei para ouvir o espectro que se aproximava da minha mente.
(...) lembro-me que você disse para tomar cuidado com a visão de quem se tem – mas Deus sabe eu não sei a quem me voltar quando finalmente a Sorte tiver baixado espiritualmente e eu tiver que depender da minha própria memória de Ser-Serpente das Alegres Visões de Blake – ou depender de nada e entrar de vez – mas entrar no quê? – Morte? – e naquele momento – vomitando, sentindo-me ainda como um Grande e perdido Anjo-serpente vomitando na consciência da Transfiguração por vir – com o senso radiotelepático de um Ser cuja presença ainda não senti completamente – tão terrível para mim, ainda aceitar o fato da comunicação total com, digamos, qualquer serafim eterno, macho e fêmea ao mesmo tempo – e eu, uma pobre alma perdida buscando ajuda – bem, vagarosamente a intensidade começou a diminuir, fiquei incapaz de me mover em qualquer direção, espiritualmente – sem saber quem procurar – sem confiança para perguntar ao Maestro – apesar de que, na visão da cena, dentre todos era ele o guia espiritual local lógico a quem recorrer – levantei e sentei a seu lado (como Ramon sugeriu suavemente) para ser “assoprado” – isto é, ele cantarola para curar a tua alma e assopra fumaça – uma presença bastante confortadora, apesar de que agora o medo mais profundo tenha passado – ao passar de todo, levantei-me, peguei um mosquiteiro que tinha trazido e fui para casa ao luar, com o gordo Ramon – que disse que quanto mais se satura de ayahuasca, mais fundo se vai – visitar a lua, ver os mortos, ver Deus – ver os espíritos das árvores etc.
Allen Ginsberg

Leia:
Geração Beat. Azougue Editorial, 2010.

Cartas do Yage. William Burroughs & Allen Ginsberg. L&PM, 2a edição, 2008.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

Satori em Paris, by Jack Kerouac

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A editora L&PM presenteia mais uma vez os admiradores de Jack Kerouac com o recente lançamento de Satori em Paris, obra publicada originalmente em 1966 e inédita por aqui. Graças ao empenho da L&PM, aos poucos vemos crescer nossa coleção de obras da literatura beat, sobretudo os títulos do mestre Kerouac.

Tentarei ser imparcial aqui, e sinto que para isso terei que comentar Satori em Paris valendo-me de duas abordagens. Primeira delas: ler a obra sob a ótica de alguém que nunca leu Kerouac. Segunda: ler Satori sob a ótica de quem conhece a vida e a obra do autor.

Kerouac partiu para o andar de cima em 1969, aos 47 anos. Satori em Paris é um de seus últimos livros, já muito distante da euforia e vibração de On the road, seu trabalho mais conhecido. Encharcado de álcool, em Satori Jack pouco ou quase nada lembra o aventureiro jovem e inconseqüente que vagabundeava pelos Estados Unidos nas décadas anteriores, quando a estrada era o seu yoga, a sua união com a transcendência.

Pintura: Jack Kerouac, The Gary Buddha

Pode-se dizer que, até certo ponto, Satori em Paris não deixa de colher semelhanças com outras deambulações do escritor; até arrisco afirmar que nunca antes dessa viagem Kerouac havia definido tão objetivamente o motivo de sua partida. A história é simples: em 1965, contando com quarenta e três anos, Jack viaja à França com o intuito de colher informações sobre seus ancestrais, um homem na meia-idade em busca de suas origens, de seu próprio nome, Kerouac:

“Fui à França e à Bretanha apenas para olhar esse meu velho nome que tem cerca de trezentos anos e jamais mudou em todo esse tempo, pois quem mudaria um nome que significa simplesmente Casa (Ker), No Campo (Ouac) – ”

Dez dias é o tempo que dura a sua jornada; apenas dez dias, e pouca coisa realmente acontece nesse curto período de tempo. Por isso escrevi aquilo sobre a ótica de leitura de Satori pois, para um leitor ainda virgem na leitura de Kerouac (ou mesmo aquele que leu apenas On the road), não consigo imaginar sequer um único motivo para indicar essa leitura. Consigo inclusive enumerar alguns motivos para não indicá-la, fosse esse o caso.

O principal motivo para deixar essa obra de lado já aparece no título: Satori. Não se iluda: se houve algum satori nessa experiência de Kerouac em Paris, ele ficou de fora da história. Palavrinha bonita esta, Satori. No Zen, significa “percepção interior do ser em uma ordem mais elevada”. O satori implica numa expansão da consciência, um estado de iluminação espiritual, a mesma noção de samadhi, para o hinduísmo.

Desenho: Jack Kerouac, Face of the Buddha, 1956

Bom, nada disso acontece nesse relato de viagem. Pelo menos, não dessa forma. Por conta disso, se você não acompanha a trajetória kerouakiana vai achar esse relato uma perda de tempo, por isso deixe Satori em Paris de lado e tente Vagabundos iluminados, Viajante solitário ou Big Sur, três ótimas escolhas pós leitura On the road.

Muito bem. Agora vamos pensar em Satori em Paris de uma maneira diferente, supondo que você já conheça um pouco de literatura beat em geral e de Kerouac em particular. De primeira, um fato: duvido que esta obra esteja entre as mais queridas dos leitores de Kerouac, mas mesmo assim há alguns pontos em Satori que devem interessar a quem busca entender um pouco mais a personalidade desse grande escritor.

A viagem é um ponto relevante: Kerouac busca a estrada para encontrar respostas. Ainda que não tenha efetivamente seguido o curso completo do itinerário a que se havia proposto cumprir – por conta das bebedeiras constantes - parece que no final sentiu ter atingido seu objetivo. Até escreveu uma passagem bonita, que transcrevo abaixo:

“Eu já estava com saudade de casa. Contudo este livro é para provar que não importa como você viaje, quão ‘bem-sucedida’ seja sua jornada, ou abreviada, você sempre aprende alguma coisa e aprende a mudar seus pensamentos.”

A questão do satori. É preciso entendê-la dentro do contexto dessa narrativa. Kerouac aproximou-se do budismo em 1954, após uma fase de grande esgotamento intelectual e provavelmente psíquico também; sentindo-se sozinho e desamparado, encantou-se com uma máxima do budismo que afirma que “toda a vida é sofrimento”. Foi um gatilho que disparou na hora certa: o budismo, uma filosofia que, finalmente, era capaz de traduzir suas mais profundas questões interiores.

Jack começou a ler os grandes textos do budismo e também do hinduísmo e toda aquela sabedoria oriental lhe fazia muito sentido e, podemos supor, dava-lhe certo conforto espiritual. Traduziu do francês os sutras do budismo e chegou a escrever uma biografia do Buddha. Levou tudo aquilo muito a sério, ainda que jamais tenha deixado a birita de lado. O budismo, como não poderia deixar de ser, ainda mais em se tratando de um autor tão intenso quanto Kerouac, acabou entrando no corpo de sua obra, pelo que podemos afirmar que na bibliografia kerouakiana existe uma “fase (zen) budista”, tal como a fase azul ou rosa de um Picaso ou a fase católica de um Bob Dylan.

Entretanto, e isso é muito relevante, Jack jamais abandonou sua fé católica, por mais simpático que tenha sido à doutrina budista. Acredito que nesse ponto Jack não se diferencie em nada dos adeptos da Nova Era, onde a mistura de várias idéias, condutas e práticas espirituais não entram em conflito com a religião do praticante. Em outras palavras: pode-se ser católico, frequentar a missa aos domingos, mas isso não impede a pessoa de participar de outras práticas religiosas, como a umbanda o candomblé ou o kardecismo, fato tão corriqueiro aqui no Brasil. Acredito que Kerouac não via o budismo como uma outra religião (coisa que, teoricamente, não é mesmo), mas sim como uma sabedoria que vinha preencher um espaço que sua religião não era capaz de preencher.

E é isso o que justifica aquilo que eu estou tentando escrever aqui tomando certo cuidado com as palavras. Pois, a partir do momento em que você interpreta o conhecimento de uma tradição espiritual fora do contexto em que ele foi escrito, por exemplo, buscando idéias aleatórias fazendo-as se encaixar um sua própria linha de pensamento ou discurso (“toda a vida é sofrimento”), corre no mínimo dois grandes riscos: o primeiro, a deturpação do conhecimento, e o segundo, talvez menos perigoso, pecar pela superficialidade.

E Kerouac foi superficial em Satori em Paris? Absolutamente. Mas um leitor desavisado vai achar que sim. Só que, no contexto da obra e da vida de Jack (uma frase absurda já que em Kerouac a vida e a obra estão completamente conectadas), o uso dos termos budistas soam totalmente plausíveis, fazendo sentido onde aparentemente não há sentido algum.

E essa complexidade kerouakiana faz parte do jogo, meu amigo, por isso é que considero a leitura dos livros de Kerouac um desafio muito mais do que uma diversão. Daí que, para arrematar, dou a dica: o satori de Jack aconteceu sim, no contato dele com o outro (no caso, os outros). Uma questão, portanto, de alteridade, a mensagem que o filósofo Martin Buber nos deixou, a de que o ser humano só se realiza na relação com o outro. Pegou?

Por isso, se você gosta de Kerouac, experimente ler Satori em Paris como quem busca conhecer um pouco melhor a alma de um homem que apesar de haver sucumbido ao vício, conseguiu ser lúcido o suficiente para escrever sobre as condições mais profundas da alma humana. Finalizo com as palavras do escritor:

“Meus modos, por vezes abomináveis, podem ser meigos. Virei um bêbado enquanto envelhecia. Por quê? Porque gosto do êxtase da mente. Sou um Desgraçado. Mas amo o amor.”


Leia: Satori em Paris. Jack Kerouac. Tradução de Lúcia Brito. Coleção L&PM POCKET. Verão de 2010.
As fotos desse post foram tiradas de um blog bacaníssimo: http://rarerarefind.blogspot.com/