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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A caminhada: notas sobre uma imagem romântica, by Jeffrey C. Robinson

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Pode parecer estranho, nos dias que correm, alguém se dispor a escrever sobre um ato simples e até certo ponto banal sobre o ato de caminhar.  Não estou falando sobre a caminhada enquanto exercício físico, aquela que milhares de pessoas mundo afora praticam rotineiramente com o propósito seguro de manter a saúde em dia e ainda de quebra arejar a mente e os pulmões. A caminhada a que me refiro é aquela em desuso, démodé em sua própria essência e romântica por natureza: a caminhada que exercita o corpo, a mente e o espírito.

Partindo dessa premissa romântica da caminhada, no sentido literário da questão, foi que o acadêmico, professor de literatura da Universidade de Glascow, Jeffrey C. Robinson escreveu uma interessante obra intitulada The Walk: notes on a romantic image. (A Caminhada: notas sobre uma imagem romântica). O professor Robinson é um apaixonado pelos poetas e escritores do período romântico (séculos XVIII e XIX) e em suas pesquisas notou que muitos daqueles escritores e poetas românticos eram também bons caminhantes, do tipo que saíam por aí flanando sem pressa, atrás, quem sabe, de inspiração para um próximo poema ou romance.



Pelo que lemos sobre o período romântico europeu, em particular em países como Alemanha, França e Inglaterra, a ênfase do movimento estava na liberdade individual de expressão: sinceridade, espontaneidade e originalidade tornaram-se novos padrões nas artes, substituindo as imitações dos modelos clássicos; os românticos voltaram-se para o caminho da experiência pessoal, da imaginação sem limites e da aspiração individual, valorizando os aspectos mais particulares da vida afetiva.

O próprio autor formula a questão que se segue: Por que a caminhada é uma imagem tipicamente Romântica? Para Jeffrey, a caminhada é de ordem fundamentalmente espiritual e trata essencialmente da conquista da felicidade. Não que isso tenha surgido com o romantismo, mas parece que nesse período houve uma busca nesse sentido, a caminhada como facilitadora desse processo de bem estar, ou, indo ainda mais longe, de transcendência espiritual. A caminhada, opina Jeffrey, “ressalta o drama do confronto entre o mundo interior e o mundo exterior, mundos que coexistem em diferentes graus de compatibilidade”.



Como não poderia deixar de ser, o autor vai calçar as questões básicas de seu texto - a imagem romântica e a caminhada deambulatória - em pensadores, escritores e filósofos que notoriamente curtiam uma boa caminhada; aqui nem importa o ritmo, o local e a distância, de modo que leremos ao longo do ensaio as palavras de um iluminado Bashô, o sábio peregrino japonês, passando por Laurence Sterne, Baudelaire e Rousseau.

Vem desse último, Rousseau, uma das passagens das quais mais apreciei desse ensaio e o capítulo cujo trecho você lerá a seguir intitula-se “O caminhar e a solidão”:



Eu nunca refleti tanto, existi tão vividamente e experienciei tanto, nunca fui tão eu mesmo – se é que posso usar essa expressão – quanto nas jornadas que fiz sozinho e a pé. Há algo sobre a caminhada que estimula e anima meus pensamentos. Quando eu permaneço em um lugar eu mal consigo pensar, meu corpo tem que estar em movimento para que minha mente siga funcionando.

A visão dos campos, a sucessão de vistas agradáveis, o ar puro, o apuro sonoro e a boa saúde que ganho ao caminhar, a atmosfera simples de uma pousada, a ausência de qualquer coisa que me faça sentir dependente de algo, de tudo o que me recorde de minha situação – tudo isso serve para livrar meu espírito, para deixar meus pensamentos mais arrojados, para me jogar, por assim dizer, na vastidão das coisas, de modo que eu possa combiná-las, selecioná-las e torná-las minhas conforme meu desejo, sem medo ou limitação. Disponho de toda a Natureza como mestre.



Pulando páginas, dois capítulos à frente, chegamos no “Caminhante urbano” cujo parágrafo inicial trata de um tema bastante simpático: um homem e seu cachorro. Sua leitura me fez lembrar dos solitários sem-teto, vagamundos que povoam as ruas das cidades grandes, e acredito que São Paulo, cidade de onde escrevo, deva ser uma das que mais alberga esses tipos de cidadãos, quer por opção, por conta de um vício, um problema psiquiátrico ou por total falta de oportunidade. Trouxe essa imagem à mente porque sempre me comovo quando observo os cachorros que acompanham essas pessoas que vivem à margem da sociedade: a fidelidade e o amor incondicional, tão próprio desse animal, em sua máxima expressão. Dizem que os cães são por eles adotados como proteção, mas também acredito que a companhia tem o mesmo peso nessa equação, senão maior.


O Jeffrey diz que muitos viajantes asseguram que a jornada tem que ser solitária: você, um par de botas e o horizonte à frente, nada mais. Mas nessa empreitada, quiçá, o cão pode ser o acordo perfeito entre a severidade da solidão e uma companhia tumultuada, agregando de maneira positiva a liberdade almejada e a companhia de alguém que não perturba. “Sem restringir os pensamentos de quem viaja, o cão conforta o caminhante em sua solidão, refletindo suas atividades, e como a imagem de um espelho, o cão exige do ser caminhante seus próprios movimentos contínuos na jornada; a pessoa e o cachorro compõem uma caminhada idílica.”



Depois disso cita Thomas Mann, autor de “A Montanha Mágica” (explicando que o alemão muitas vezes agregava um cão em seus romances) que publicou um romance famosíssimo intitulado “Um homem e seu cão” (A Man and His Dog) - até onde pesquisei não publicado por aqui, mas tem lá no site da Amazona (used) e o preço não é nada camarada. Ficamos na vontade mesmo.

Nesse mesmo capítulo – o do caminhante urbano - surge um lance bem interessante, quando o autor começa a divagar sobre obras de arte fotográficas que retratam caminhantes pelas cidades, clicadas por André Kertesz, onde vemos impressas duas delas: “Washington Square, Winter, 1954”



 e “Pont Neuf, Paris, 1931”




Interessante porque ele faz uma leitura comparativa entre o olhar do fotógrafo, que parece gostar de clicar pessoas solitárias andando pelas ruas, e aquilo que outros escritores publicaram sobre os homens, a solidão e as cidades. Diz que, “de um ponto de vista Romântico, a cidade moderna é o lugar do isolamento e da alienação”. Semelhante às telas encantadoras de Edward Hopper, quem melhor no mundo retratou o ser solitário das cidades, com a diferença de que em suas pinturas as pessoas se encontram sempre numa melancólica inércia contemplativa, raramente em movimento e quase sempre sentadas.



Coincidentemente, quando chego ao próximo capítulo, vejo que a arte pictórica é cara ao autor, que escreve sobre uma “jornada através de uma exibição de Degas” no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. Um capítulo que mereceria fazer parte do currículo de um bom curso de escrita criativa, uma aula de como observar uma obra de arte para além de sua aparência. E o interessante é que tudo o que ele escreve, cada nota que transcreve de seu bloquinho de anotações, tudo faz parte de um jogo onde o que importa é o proveito que se tira do passeio, a troca entre o sujeito e o objeto por ele observado – e por objeto se entende não só as pinturas de Degas como as pessoas que transitam pelas salas, as molduras penduradas nas paredes e tudo o mais que o cerca dentro daquele espaço-tempo liminar. São suas as palavras a seguir:



Viajando pelo museu eu pude imaginar todos estes Degases acorrentados às paredes, num estado de submissão, enfileirados em corredores em vez de estarem dignamente pendurados nas paredes dos verdadeiros apaixonados, numa sala cheia de personalidade e até mesmo devoção. E mesmo estando todas juntas, elas assumem o poder de uma comunidade ideal, se rivalizam, conversam umas com as outras. De fato, talvez o burburinho geral dos caminhantes pelas galerias é somente um eco dos sussurros entre as próprias pinturas. Pinturas dentro de pinturas; caminhadas dentro de caminhadas; sussurros dentro de sussurros. Essas repetições são de um tom muito mais sutil. 

E antes que o livro termine, o Jeffrey divaga sobre o papel das pontes, um tema fascinante dentro dos estudos simbólicos que ele explora quase que superficialmente, fechando o ensaio com uma breve menção à carta do Louco no Tarô, que alguns estudiosos colocam como sendo a carta zero dos 22 arcanos maiores, e outros como sendo a última, a que fecha o ciclo da jornada. Uma escolha mais do que sugestiva para terminar um ensaio sobre a caminhada. Namastê!



Fonte: The Walk: notes on a romantic image. Jeffrey C. Robinson. Dalkey Archive Press, 1989. London. 144pp.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Notas de viagem e escrita fragmentária, by Olivia Dresher

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Descobri por acaso um site muito interessante que trata de um gênero literário pouco explorado, a escrita fragmentária. Na realidade, creio que nem podemos classificar esse tipo de escrita (em inglês, “fragmentary writing”) como um gênero literário propriamente dito, mas uma escritora estadunidense de Seattle, Olivia Dresher, pensa diferente: para ela a escrita fragmentária é sim um gênero, por possuir características próprias que o diferencia de outros gêneros como o romance ou o conto.

Entendo bem a posição da Olivia Dresher, porque a mesma coisa aconteceu com o
Luigi Monga, que lutou pelo reconhecimento da literatura odepórica enquanto gênero literário, tirando-o do limbo dos subgêneros. A bem da verdade, o que importa? Quem quiser ficar discutindo essa questão, que aproveite, e quem quiser ficar do lado dos pequenos, que fique. Eu fico com eles, que além de tudo me parecem pessoas simpáticas e de alto astral.



Diz a Olivia Dresher (na foto acima, nos anos 70) que a literatura fragmentária é um gênero difícil de definir, porque ele dificilmente se encaixa em algumas das categorias tradicionais de literatura (romances, contos, memórias, etc.); para ela, esse tipo de escrita se apresenta quebrada de alguma maneira e não é trabalhada de modo a possuir um início, meio e fim distintos. Duas formas de escrita que são inerentemente fragmentárias são os diários/agendas/cadernos de notas e as cartas.

Uma das características da escrita fragmentária é que é possível pular um parágrafo ou algumas linhas e sentir-se imediatamente envolvido com a leitura; os trechos fragmentados podem permanecer isolados, separados uns dos outros, mantidos em aberto e incompletos, mas isso também faz parte do seu charme natural.

A Olivia se encantou tanto com esse gênero de escrita que fundou uma editora independente, a Impassio, voltada à publicação de uma variedade de escrita fragmentária com um grande mix de gêneros, com ênfase especial em diários, relatos, cadernos de notas, ficção, aforismos, fragmentos de ensaios, prosa poética, fragmentos filosóficos, todos eles contemplando diversas artes literárias, como o romance, o conto e a poesia.



Além de escritora e editora, Olivia Dresher é antologista, tendo publicado duas obras nesse campo: In pieces: an anthology of fragmentary writing e Darkness and Light: Private writing as Art. E como eu ia dizendo lá no primeiro parágrafo, a dama tem um site - na verdade uma revista online, a Fraglit - que vale muito a pena perder um par de horas navegando; teve vida breve, o que é uma pena, porque tinha um conteúdo bacaníssimo de textos fragmentários.

Tudo começou em 2007, com artigos datados do jeito que os ianques costumam fazer e eu adoro: Outono de 2007, Primavera de 2008 e assim sucessivamente, de estação em estação (inverno e verão de fora) até o outono de 2010. Foram sete números, cada um deles com vários colaboradores e colaboradoras, e cada edição com um tema norteando os trabalhos publicados. O primeiro deles, que é o que nos trouxe até aqui, foi dedicado aos “Fragmentos de Viagem”. Depois vieram nessa ordem: Meditações sobre o amor, Cadernos filosóficos, Fragmentos de poemas, Memórias persistentes, Micro ensaios e Solidão. Interessante que só. Vou lhe dar uma dica de amigão: se tiver que optar por ler apenas um dos textos dessa primeira edição sobre Viagens, vá direto ao artigo do Guy Gauthier, Travel Journals: A way of capturing the moment. Essencial.



Claro que não vou transcrever o material do número sobre viagens na íntegra, para isso você terá que ir direto à fonte, prestigiando o trabalho da Olivia porque ela merece, claro. Como sempre, deixo o link no finalzinho do post, prá facilitar as coisas prá você.

Escolhi publicar o texto assinado pela própria Olivia. São citações (travel quotes) sobre o ato (ou a arte) de viajar que têm a cara do Odepórica, como você poderá conferir agora mesmo. Pensando bem, muito do material que lemos aqui no blog se encaixa direitinho nesse gênero de escrita fragmentária. Tudo a ver, pois como bem lembra a Olivia, a viagem, em essência, é uma experiência fragmentária. Namastê!

Travel Quotes, by Olivia Dresher



Quanto mais eu viajo, mais eu me torno consciente do fato de que não me encaixo facilmente em qualquer lugar. É como estar com saudades de um lugar imaginário. (Rane Arroyo, 2003)



Não tenho a tendência de me preparar para conhecer um novo lugar lendo guias de viagem. Eu quero, sem aquele habitual senso de rapidez, ser surpreendida, ir me desdobrando durante o percurso... Viajar talvez seja como a arte: nutre as partes de nós das quais nem imaginávamos ansiar. O que eu experimentei na Escandinávia está além das palavras; eu a envolvi em torno de mim como um xale de lã bordado. (Deena Linett, 1998)



Quando estou viajando sozinho e sem obrigações, anonimamente e sem agenda pré-estabelecida, por uma cidade onde nunca havia estado, normalmente há um momento onde eu me desloco para “dentro” do lugar, que é como eu imagino que deve ser entrar em um espelho. Eu não estou mais no lugar, mas sou do lugar. Esse processo de mudar para dentro de um lugar geralmente ocorre simultaneamente ao movimento que faço para dentro de mim mesmo, de modo que eu deixo de me sentir impotente em um lugar estranho que é maior e mais misterioso do que a minha capacidade de contê-lo ou compreendê-lo, e passo a controlá-lo- eu estou nele e sou parte dele, e me movimento através dele seguindo o meu próprio ritmo. (Randy Roark, 2004)



26 de janeiro. Não era uma miragem. Nova Iorque é aqui; tudo é real. Rajadas de vento no céu azul, no ar úmido e suave, mais triunfante do que o traiçoeiro charme da noite... Eu estou aqui e Nova Iorque vai ser minha... Caminho pelas ruas nunca pisadas por mim, ruas onde minha vida ainda não foi esculpida, ruas sem o mínimo aroma do passado. Ninguém aqui está interessado com a minha presença; ainda sou um fantasma, e deslizo pela cidade sem incomodar ninguém. (Simone de Beauvoir, 1947)



O que dá valor à viagem é o medo. É o fato de que, num determinado momento, quando estamos bem longe do nosso país, somos tomados por um medo vago, e um desejo instintivo de voltar para a segurança dos velhos hábitos. É este o benefício mais óbvio das viagens. Naquele momento estamos febris, mas também muito abertos, de modo que o mais leve toque nos faz tremer nas profundezas de nosso ser. Deparamo-nos com uma cascata de luz e já não há eternidade. É por isso que não devemos dizer que viajamos por prazer; não existe prazer em viajar, e eu olho para isso mais como uma ocasião de um exame espiritual. (Albert Camus, from Notebooks 1935-1942)



Se você deseja viajar para longe e de maneira rápida, viaje leve. Deixe para trás as suas invejas, os seus ciúmes, sua incapacidade de perdoar, seus egoísmos e medos. Cesare Pavese (1908-1950)



Minha mãe havia morrido e no vazio que se seguiu, tudo o que eu queria era estar longe de casa. Viajar tem um poder de cura para mim, e busquei nisso a droga para meu processo de cura. Eu ansiava por um lugar distante e inacessível o suficiente que me obrigasse a manter ao máximo a concentração para sobreviver ao momento presente, com nada pendente para o futuro ou o passado. Escolhi o Tibete. Eu queria fuga e epifania; levei poeira e distração. No final, era quase tudo a mesma coisa, e me senti agradecida. (Catherine Watson, 1997)





Cada vez que viajo, cada vez que dirijo, cada vez que monto um cavalo, eu sinto que estou viajando. Não importa onde estou, ou para onde vou, mesmo que seja apenas um quilômetro de casa. Quando viajo sozinha, eu derreto. Meu eu se converte em um rio de percepção. (Olivia Dresher, 2007)

Visite o site:
fraglit.com

Para ir mais longe, indico a leitura de um artigo acadêmico que encontrei disponível na Web quando procurava informações sobre a literatura fragmentária. O paper, apresentado este ano num congresso da ABRALIC tem autoria de Mauro Marcelo Berté da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e intitula-se
“Da França ao Marrocos, da Irlanda à Itália, Barthes e Joyce em deslocamento”. É leitura acadêmica, escrita em academiquês, mas o tema é tão interessante que você até esquece desse detalhe. Nota dez pro Berté!

domingo, 14 de novembro de 2010

A alegoria da viagem em Virginia Woolf e Clarice Lispector, by Douglas P. Barreiros

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Encontrei por acaso esse texto enquanto fazia uma pesquisa na web para minha próxima postagem. Ando lendo a obra de Isabel Allende, de quem pretendo falar em breve, e foi buscando informações dessa encantadora (e encantada) escritora que me deparei com outras duas grandes mulheres da literatura mundial, Virginia Woolf e Clarice Lispector.

Nunca li Virginia Woolf, e de Clarice conheço pouco, um par de obras lidas na época do colégio. Preciso dar um jeito nisso, mas enquanto não tomo vergonha na cara, vou lendo pequenas passagens aqui e ali, comentários, citações, frases soltas em diários virtuais...

Embora não conheça a obra de Virginia Woolf, sei um pouco de sua biografia por conta de um livro delicioso escrito pelo Antonio Bivar, autor que sempre recomendo e que é membro do Virginia Woolf Society; de suas peripécias pela Inglaterra, no meio da inglesada toda apaixonada pela obra de Virginia, publicou em 2005 Bivar na corte de Bloomsbury. (mais sobre o Bivar aqui)

O texto que você irá ler é uma análise acadêmica de duas obras que marcaram o início da produção literária de Clarice e Virgínia: Perto do coração selvagem e The voyage out. O autor, Douglas Paulino Barreiro, escreve que é uma beleza, sendo sua análise clara e objetiva, como deveriam ser todas as análises literárias.

As duas obras tratam do tema da viagem. O autor escreve que nessas obras a viagem aparece “como construção alegórica que representa o percurso de transformação interior vivido pelas protagonistas”. Primeiro ele trata de analisar o livro da Virginia Woolf, em cuja obra “a viagem pelo mar alegoriza a tentativa da protagonista em adentrar no mundo masculino”; depois é a vez da nossa Clarice, que faz uma viagem diferente, mas que em comum com a narrativa da inglesa tem a jornada rumo ao mar. O objetivo do autor foi o de traçar analogias entre os textos das duas escritoras.

O Douglas não explorou muito algo que a mim me chamou a atenção: o significado simbólico da água. Matriz, de onde surge a vida, a água traz à tona os elementos do inconsciente, é purificadora e tem fortíssima ligação com o feminino, a fertilidade e a fecundidade. E isso só para ficarmos na superfície, claro. Gostoso notar que de uma leitura surgem inúmeras outras, não? Namastê!

A alegoria da viagem em Virginia Woolf e Clarice Lispector



Por Douglas Paulino Barreiros



A literatura de viagem tem uma longa história e desde seus primórdios caracteriza-se como o relato de uma vivência proporcionada por um deslocamento físico. Trata-se, portanto, da descrição/narração de uma experiência vivida por alguém que partiu de um lugar conhecido e se dirigiu para um espaço novo, estranho. Essas narrativas, contadas sob a ótica estrangeira do viajante, são uma espécie de ligação entre um mundo vivenciado e um outro desconhecido.

Contar os acontecimentos de uma viagem implica uma tradução do “outro”, do “novo”. Aquele que viaja tem um repertório próprio de imagens, símbolos e concepções. Por isso, a representação da alteridade se faz por meio do afastamento e da aproximação do que é visto pela primeira vez com o que é familiar.

Esses relatos unem aventura, observação, impressões e representações, que constituem um modo único de escrita, um gênero próprio, condicionado a uma prática particular, a viagem. As narrativas de viagens não podem ser consideradas exclusivamente como documentos históricos, literários, ficcionais ou científicos, isso porque, muitas vezes, estes estilos encontram-se reunidos simultaneamente.

Tomando o século XVI, período das descobertas, como ponto de partida, é possível perceber que a literatura de viagem evoluiu gradativamente, passando de um relato descritivo para o registro de uma experiência. Se antes o ponto de interesse era a descrição de um espaço exterior, bem como seu reconhecimento, hoje, a narrativa de viagem firma-se como a escrita de uma vivência pessoal do indivíduo viajante, o que resulta em uma poética de impressões subjetivas.

Essa transição é fruto das transformações ocorridas entre os séculos XVI a XX, como por exemplo, o desenvolvimento cartográfico, as evoluções dos meios de transporte cada vez mais velozes, o surgimento dos meios de comunicação de massa, que além de informar o que se passa ao redor do mundo, conta com a presença de imagens que mostram lugares distantes e inacessíveis. Todas essas questões contribuíram para que na modernidade a literatura de viagem se desenvolvesse como narrativa deixando seu caráter pragmático para trás.

O que importa saber é que o tema da viagem é ainda hoje marca recorrente na literatura universal e se apresenta sob formas diversas, como a viagem real, imaginária, simbólica, fantástica ou alegórica. Dentre essas maneiras de se tematizar a viagem, a alegoria merece atenção especial, pois é possível perceber um número considerável de obras modernas que se utilizam desse recurso narrativo para reeditar o interesse pela viagem. Com o objetivo de proporcionar uma discussão em torno dessa modalidade, partiremos da análise de dois romances modernos cujo tema da viagem é tratado pelo viés alegórico.

Os textos aos quais nos referimos são The Voyage Out, de Virginia Woolf e Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector. Estas obras marcam o início da produção literária de ambas as autoras. Acreditamos que a seleção destes escritos é significativa, pois além de tratarem do tema da viagem, eles delineiam as características principais das escritoras.

A partir da leitura e análise dessas obras, é possível perceber que nesses romances a viagem é na verdade uma construção alegórica que representa o percurso de transformação interior pelo qual passam as protagonistas. Essa hipótese pode ser confirmada a partir dos conceitos que João Adolfo Hansen aborda em seu livro Alegoria: construção e interpretação da metáfora.

Para este estudioso, a alegoria está diretamente relacionada com a metáfora sendo que a diferença entre elas seria de ordem estilística. Enquanto a metáfora é uma figura de palavras, a alegoria estende-se ao nível do enunciado, ou seja, a alegoria é na verdade uma metáfora continuada.

Vale ressaltar outra questão tratada por Hansen. Segundo este autor, a alegoria é ordenada em lugares-comuns, sendo a travessia pelo mar o mais usual de todos. Para ele, a viagem assume, de modo geral, o significado de destino pessoal. Conforme apontado, é isto que se percebe na construção dos romances analisados. Em ambos os textos a viagem marítima empreendida pelas protagonistas alegoriza o percurso interior de auto conhecimento e auto transformação.

Iniciaremos os apontamentos pela análise do livro de Virginia Woolf, para em seguida traçar analogias com o texto de Clarice Lispector. O motivo de tal metodologia se justifica por uma questão cronológica, em nenhum momento se pensou em contrapor os textos e traçar hierarquias entre eles.

The Voyage Out é a narrativa de uma viagem realizada por um grupo de ingleses que parte de Londres, a bordo do navio Euphrosyne, em direção a Santa Marina, cidade fictícia localizada na América do Sul, na foz do rio Amazonas. A protagonista do romance é Rachel Vinrace, jovem órfã, cuja educação coube a duas tias, senhoras idosas e defensoras dos padrões tradicionais da sociedade inglesa da época vitoriana.

O desenvolvimento da trama se faz a partir da história de Rachel, cuja vida passa por inúmeras modificações que são metaforizadas na viagem. Desta forma, o romance se estrutura em dois planos distintos: o relato do deslocamento físico, paralelo ao da transformação interior da protagonista.

No começo do romance a personagem é apresentada como um ser frágil, sensível, inocente, além de superprotegida.

Her face was weak rather than decided, saved from insipidity by the large enquiring eyes, denied beauty, now that she was sheltered indoors, by the lack of colour and definite outline. Moreover, a hesitation in speaking, or rather a tendency to use the wrong words, made her seem more then normally incompetent for her years […] Yes, how clear it was that she would be vacillating, emotional and when you said something to her it would make no more lasting impression than the stroke of a stick upon water (WOOLF, 1992, p.13).[1][1]

Essas características são o resultado do tipo de educação recebida e também revelam o caráter simples e interiorano da personagem. Rachel passou a infância, a adolescência e parte da juventude no campo, em Richmond, onde contava apenas com a companhia das tias. Por conta da dificuldade em se chegar a este sítio, a única amiga de Rachel era uma “girl who was a religious zealot, who in the fervour of intimacy talked about God, and the best ways of taking up one´s cross” (WOOLF, 1992, p. 27).[1][2] Essa reclusão é rompida com o convite que Rachel recebe de seu pai, um comerciante, para acompanhá-lo em uma expedição.

As modificações interiores pelas quais a protagonista passa são motivadas pelas relações interpessoais. No navio, as personagens vão sendo descritas física e psicologicamente, é também neste espaço que o narrador apresenta o início da mudança de Rachel. O começo da viagem é explicitado no primeiro parágrafo do capítulo dois, no qual o narrador supervaloriza esta cena. Isso ocorre porque, na verdade, o que se inicia é a “viagem interior” de Rachel. .

The Voyage had begun, and had begun happily with a soft blue sky, and a calm sea. The sense of untapped resources, things to say as yet unsaid, made the hour significant, so that in future years the entire journey perhaps would be represented by this one scene, with the sound of sirens hooting in the river the night before, somehow mixing in (WOOLF, 1992, p. 17).[1][3]

Os capítulos que narram a viagem vão apresentando aos poucos as alterações interiores da protagonista, que passa a interagir com as outras personagens, sobretudo com Helen, uma outra tia que participa da travessia, e posteriormente com um casal – Richard e Clarissa Dalloway – que embarca em Portugal.

Rachel de imediato simpatiza-se com o par, principalmente com Mrs. Dalloway, uma mulher bonita, elegante, extrovertida, astuta e muito inteligente. Durante o primeiro jantar dos Dalloways a bordo do Euphrosyne, Rachel não participa dos diálogos dos personagens, isso porque passa todo o período observando e admirando os gestos, a fala e os trajes de Clarissa. Na mente de Rachel a nova passageira é perfeita e por alguns instantes deseja ser como aquela senhora.

Richard é apresentado como um homem chauvinista. Este senhor assume papel de relevada importância no romance, pois é ele quem “inicia” Rachel no mundo feminino por meio de um beijo. A partir desse acontecimento, a personagem começa e se conhecer como mulher.

Dentre os tripulantes do navio, merece destaque o casal Ridley Ambrose e Helen Ambrose, tios paternos de Rachel. Esta senhora seria uma espécie de “mentora” da sobrinha, exercendo sobre ela uma decisiva influência. Mrs. Ambrose é uma mulher urbana, extrovertida, ousada, além de possuir grande beleza. Seu marido é um homem sério, recluso e conhecedor de filosofia, botânica, literatura e artes.

O fato de a viagem ser marítima é de grande importância, isso porque a água, elemento transformador, pode ser interpretada como o símbolo da mudança de Rachel. Um outro elemento alegórico é o navio que, por meio da personificação, alude diretamente à protagonista: “the ship was a bride going forth to her husband, a virgin unknown of men; in her vigour and purity she might be likened to all beautiful things, for as a ship she had a life or her own”(WOOLF, 1992, p. 25)[1][4]; “[...] the ship seemed to groan and strain as though a lash were descending” (WOOLF, 1992, p.61)[1][5].

Outro grande momento da narrativa acontece após a chegada dos viajantes a Santa Marina, é nesta colônia inglesa, situada na América do Sul, que a protagonista conhece o escritor Terence Hewet por quem se apaixona. Esta paixão é recíproca, porém uma fatalidade interrompe sua plena realização: Rachel é afetada por uma febre que acaba por causar-lhe a morte.

Nesta parte do romance destaca-se a problemática do choque cultural pelo qual passam os ingleses ao chegarem à cidade sul americana. Antes da saída de Londres, Rachel idealizava o vilarejo, pensava nele como um verdadeiro paraíso, onde tudo seria belo e perfeito. No entanto, ao desembarcar em Santa Marina o sonho começa a ser desmistificado pela realidade. O lugar é realmente belo, todavia o clima, a vegetação, a língua dos habitantes e, sobretudo, seus hábitos são muito diferentes de tudo que a personagem aprendeu e vivenciou.

Em Santa Marina, Rachel desembarca como uma nova mulher. Mudanças significativas em seu caráter são apresentadas como resultado da viagem marítima a qual lhe permitiu adentrar no mundo da filosofia e da literatura. Durante a travessia, a protagonista encontra na figura de seu tio, Ridley Ambrose, um instrutor inteligente e perspicaz. Foi este senhor intelectual quem lhe apresentou autores de renome nas áreas filosófica e literária. Rachel pôde conhecer Platão, Sófocles, Gibbon, Swift, Balzac, Coleridge, Pope, Marlowe, Shakespeare, dentre outros.

Assim, a viagem pelo mar alegoriza a tentativa da protagonista em adentrar no mundo masculino, uma vez que o acesso a tais obras não era comum entre as mulheres de seu tempo.

É também neste período de estada em Santa Marina que Rachel empreende outra viagem. Trata-se de uma excursão organizada pelos hóspedes de um hotel do vilarejo. Eles partem em busca de conhecer outras localidades da terra tão exótica na qual se encontram. Enquanto os demais personagens se entregam ao conhecimento dos arredores de Santa Marina, a viagem de Rachel é interior, ou seja, agora seria “the Voyage in”, isto é, dentro do país tropical recém conhecido por ela e, sobretudo, dentro de si mesma. É nesta viagem que ela passa a refletir sobre tudo que se passou no navio: seus diálogos com o tio, o conhecimento e carinho despertado pelos Dalloways, bem como sua paixão por Terence Hewet.

Este jovem escritor a princípio se apresenta como um homem de pensamento moderno no que se refere à diferença dos gêneros. Porém, ao aceitar o noivado, Rachel começa a perceber que Terence é favorável a igualdade entre os sexos apenas na ficção produzida por ele. Durante esta segunda viagem, ‘the voyage in”, a protagonista é acometida por uma doença, acompanhada de longos períodos de delírio conduzindo a personagem à morte.

Conforme dissemos, Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, é outro romance moderno a tratar da viagem como alegoria da transformação interior de uma personagem. Contudo, vale lembrar que, apesar da semelhança temática e alegórica, esse romance traz um diferencial que o singulariza. Para que possamos ilustrar essa questão, partiremos primeiramente da análise do mesmo para na seqüência traçar paralelos entre ele e The Voyage Out.

Perto do Coração Selvagem narra a história de Joana, uma mulher em busca de si mesma e de seu autoconhecimento. Trata-se de uma personagem complexa cuja marca principal é a mobilidade e o desejo de sempre ir além “[...] vou continuar, é exatamente de minha natureza nunca me sentir ridícula, eu me aventuro sempre, entro em todos os palcos” (LISPECTOR, 1998, p. 116).

O romance estrutura-se por capítulos que se alternam entre a vida infantil e a adulta da protagonista. As diversas cenas apresentadas acompanham a peregrinação interior da personagem.

Joana, assim como Rachel, fica órfã ainda criança e passa a ser educada por uma tia. Esta por sua vez, não compreende a sobrinha e acaba por enviá-la para um internato, onde, apesar de cercada de outras meninas, sente-se só. Esta solidão é compensada pelas viagens imaginárias que a personagem faz como forma de fuga da realidade que a cerca. Como exemplo, vale destacar o trecho no qual Joana acorda no meio da noite, olha para as camas das outras garotas do internato e se imagina saindo daquele espaço:

Que importa que em aparência eu continue nesse momento no dormitório, as outras moças mortas sobre as camas, o corpo imóvel? Que importa o que é realmente? Na verdade estou ajoelhada, nua como um animal, junto à cama, minha alma se desesperando como só o corpo de uma virgem pode se desesperar. A cama desaparece aos poucos, as paredes do aposento se afastam, tombam vencidas. E eu estou no mundo, solta e fina como uma corça na planície. Levanto-me suave como um sopro, ergo minha cabeça de flor e sonolenta, os pés leves, atravesso campos além da terra, do mundo, do tempo, de Deus. Mergulho e depois emerjo, como de nuvens, das terras ainda não possíveis, há ainda não possíveis. Daquelas que eu ainda não soube imaginar, mas que brotarão. Ando, deslizo, continuo, continuo... Sempre, sem parar, distraindo minha sede cansada de pousar num fim (LISPECTOR, 1998, p. 68).
Este parece ser o destino de Joana, a eterna peregrinação, a busca constante por “terras distantes”, ainda que imaginadas. O que move Joana é o desejo de sair de seu estado de inércia, fugir da vida comum que a prende ao passado. Ela aspira a encontrar lugares desconhecidos, metáfora de sua interioridade. Desta forma, o movimento e o translado são as ações que dão sentido a sua vida.

Joana passa por três experiências amorosas que marcam sua existência e contribuem para que ocorram alterações significativas em seu caráter. Na infância, sente-se atraída por seu professor, pessoa sempre buscada por ela em momentos de insegurança e crise. É ele quem aconselha a menina Joana, instruindo-a a respeito da vida e do homem.

Quando adulta ela conhece o advogado Otávio, noivo de Lídia, moça simples cujo sonho maior é se casar e assumir o papel de esposa dedicada a “um homem que disporia de todas as forças da mulher para sua própria fogueira [...], bastava sua presença [Otávio], apenas pressentida, para toda ela anular-se e ficar à espera” (LISPECTOR, 1998, p. 89).

Otávio abandona Lídia e casa-se com Joana. Este casamento fora idealizado pela protagonista como algo que a tornaria plenamente realizada, no entanto, esta projeção é frustrada, pois ela percebe que a inércia e a rotina não fazem parte de sua natureza. Após algum tempo de casada, Joana constrói uma imagem pessimista do casamento:

Mas a dois, comendo diariamente o mesmo pão sem sal, assistindo à própria derrota na derrota do outro... Isso sem contar com o peso dos hábitos refletidos nos hábitos do outro, o peso do leito comum, da mesa comum, da vida comum, preparando e ameaçando a morte comum (LISPECTOR, 1998, p. 149).

A união do casal é fortemente abalada quando Joana descobre que seu esposo mantém relações extraconjugais com Lídia. Entre as duas mulheres, Otávio decide deixar a esposa e assumir seu romance com Lídia, que se encontrava grávida.

O terceiro relacionamento amoroso vivido pela protagonista é com um homem cujo nome sempre fez questão de não saber.

Dissera-lhe: quero te conhecer por outras fontes, seguir para tua alma por outros caminhos; nada desejo de tua vida que passou, nem teu nome, nem teus sonhos, nem a história do teu sofrimento; o mistério explica mais que a claridade; também não indagarás de mim o que quer que seja; sou Joana, tu és um corpo vivendo, eu sou um corpo vivendo, nada mais (LISPECTOR, 1998, p.188).

O anônimo, assim como o fez Otávio, abandona Joana depois de conviver com ela durante certo período. Este acontecimento marca uma significativa transformação em Joana. Seu pensamento começa a vaguear entre o passado vivido e o presente transformado, neste sentido “morre” uma Joana e “nasce” outra. É significativa uma passagem do romance na qual ela se encontra sozinha em seu apartamento e faz a seguinte reflexão:

Tivera coisas, ah isso tivera. Um marido, seios, um amante, uma casa, livros, cabelos cortados, uma tia, um professor [...] era uma mulher fraca em relação às coisas. Tudo lhe parecia às vezes preciso demais, impossível de ser tocado. E às vezes, o que usavam como ar de respirar, era peso e morte para ela (LISPECTOR, 1998, p. 173).

Os verbos no passado mostram que algo foi superado e não mais se repetirá, tem-se agora a imagem de uma Joana renovada e pronta para continuar sua incansável busca, desta vez concretizada na viagem pelo mar.

Naquela tarde já velha – um círculo de vida fechado, trabalho findo – naquela tarde em que recebera o bilhete do homem, escolhera um novo caminho. Não fugir, mas ir. Usar o dinheiro intocado do pai, a herança até agora abandonada, e andar, andar, andar, ser humilde, sofrer, abalar-se na base, sem esperanças. Sobretudo sem esperança (LISPECTOR, 1998, p. 196).

Conforme apontado, os acontecimentos da vida da protagonista são seguidos de modificações em seu caráter. Parece que cada vez mais a personagem se aproxima de si; porém, a concretização plena de seu desenvolvimento só irá ocorrer no último capítulo do romance, intitulado “A Viagem”. Nele, a busca da protagonista assume um caráter metafísico, resultante da inquietação da personagem no decorrer da obra. Deste modo, a viagem assinala o fim de uma fase da vida de Joana, bem como aponta para um recomeço. Após encerrar um percurso, Joana parte em busca de um novo mundo, que certamente lhe proporcionará novas experiências.

Aqui se encontra um dos diferenciais do romance com relação a The Voyage Out. Em Lispector, a viagem marítima só acontece depois da viagem interior da personagem, ou seja, a protagonista passa por um processo de transformação interior que a prepara para a travessia pelo mar, que como apresentado no romance, será um novo mundo de descobertas. Em Virginia Woolf, a viagem interior é paralela com a viagem pelo mar, esta sendo plena alegoria daquela. Assim, as transformações vão acontecendo na medida em que o navio avança rumo ao seu destino.

Outro ponto a ser destacado é que em The Voyage Out o percurso de Rachel é interrompido, o que impede a personagem de retornar ao lugar de origem e de concretizar os planos que a mesma elaborou para o futuro. O que se destaca em sua história são os vários momentos pelos quais ela passa durante sua viagem. São eles que fazem dela uma nova mulher, madura e pronta para enfim alcançar com seu verdadeiro destino, a morte, prevista desde o início do romance, sendo esta a grande metáfora do livro.

Uma das características da literatura de viagem, em sua estrutura clássica, é o regresso do viajante. No entanto, esse procedimento não ocorre em nenhum dos textos analisados. Em The Voyage Out o regresso não acontece por conta da morte da personagem, ao passo que Em Perto do Coração Selvagem, a narrativa termina em aberto não revelando nem mesmo o destino da protagonista.

[1][1] Seu rosto era antes fraco do que decidido, e só não era insípido por causa dos grandes olhos interrogativos; tendo-lhe sido negada a beleza, agora que estava abrigada dentro de casa, pela falta de cor e contornos definidos. Mais que isso, uma hesitação ao falar, ou uma tendência a usar as palavras erradas, faziam com que parecesse mais incompetente do que o normal para sua idade. [...] Sim, como estava claro que ela seria vacilante, emotiva, e quando lhe dissessem alguma coisa não faria impressão mais duradoura do que o golpe de um bastão na água.(Todas as citações que aparecerem em notas de rodapé, serão retirados do volume traduzido por Lya Luft).
[1][2] garota que era uma fanática religiosa, que no fervor da intimidade, falava sobre Deus e nas melhores maneiras de assumir a própria cruz.
[1][3] A viagem começara, e começara feliz com um céu azul suave e com um mar calmo. A sensação de recursos ociosos de coisas não ditas tornou a hora importante, de modo que em anos futuros toda a jornada talvez fosse representada por esta última cena, com o som de sirenes uivando no rio na noite anterior, de alguma forma misturado nela.
[1][4] O navio era uma noiva avançando para seu marido, uma virgem desconhecida dos homens; no seu vigor e pureza poderia ser comparado a todas as coisas belas, pois como navio tinha uma vida própria.
[1][5] O navio parecia gemer e conter-se como se uma chibata estivesse descendo sobre ele.

REFERÊNCIAS

CÂMARA, Elisabete. Clarice Lispector e Virginia Woolf: Dois enigmas e um mistério. In:PONTIERI, Regina. (org). Leitores e leituras de Clarice Lispector. São Paulo: Hedra, 2004. p.85 – 108.
HANSEN, João Adolfo. Alegoria: construção e interpretação da metáfora. São Paulo: Hedra, 2006.
LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
NITRINI, Sandra Margarida. Viagens reais, viagens literárias. In:______.Revista literatura e sociedade. no2, FFLCH, DTLLC, 1997.
SÁ, Olga. Uma escritura metafórico-metafísica: eixos do universo clariceano. In:______.A escritura de Clarice Lispector. 3a ed. Lorena, 2000. p. 212 – 281.
SILVA, Wilton Carlos lima. Viajantes. In:______.As terras inventadas. São Paulo: Unesp, 2003.
WOOLF, Virginia. The Voyage Out. London: Penguin Books, 1992.
WOOLF, Virginia. A Viagem. Trad. Lya Luft. São Paulo: Siciliano, 1993.

Douglas Paulino Barreiros
é mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Desde o ano 2000 atua como professor de Língua Inglesa no Ensino Fundamental e Médio, além de participar de Eventos e Congressos de Língua e Literatura. E-mail: teacherdouglas@ig.com.br
Retirei o texto acima do site do Portal Cronópios.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80, by Cesar Augusto de Carvalho

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Tive uma grata surpresa ao deparar-me com a obra Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80, fruto de um longo trabalho de pesquisa de Cesar Augusto de Carvalho, sociólogo e professor da Universidade Estadual de Londrina. Primeiro, porque o tema me fascina e depois porque o autor teve muita coragem em defender sua tese de doutorado valendo-se, na escrita, de uma linguagem distante das amarras do modelo acadêmico com sua formalidade que muitas vezes (nem sempre, claro) encobre um desenvolvimento intelectual confuso e isento de grandes novidades.

Duas grandes sacadas aqui: a primeira delas foi que, ao optar por uma escrita clara e objetiva, o pesquisador conseguiu ir além da banca de defesa da tese, levando assim o resultado de sua pesquisa a um público muito mais amplo do que o do limitado espaço acadêmico; a outra foi o fato de que, ao agir dessa maneira, o autor se relacionou com seu objeto de igual para igual, pois não há nada mais distante do universo da contracultura do que atitudes formais e caretas, sobretudo no âmbito da comunicação. Aliás, como bem lembra o autor, nem sempre a linguagem científica e racional consegue explicar tudo:

“Não me oponho às metodologias científicas estabelecidas. Dou-me ao direito de propor uma narrativa que pratique a tolerância discursiva, a pluralidade e a relatividade do conhecimento. (...) Se quiser pode chamar minha proposta de rebelde, mas não entenda essa rebeldia no sentido convencional de recusa ou rejeição. Não nego, nem tenho como o fazer, que toda a história da contracultura foi movida por rebeldes. Mas eram rebeldes que radicalizavam sua oposição ao mundo, rejeitando-o, negando-o e procurando viver à margem. A rebeldia proposta é de outra ordem.”

Uma rápida passada d’olhos no sumário da obra adianta um pouco aquilo que você irá encontrar no transcorrer da leitura: antes da viagem, em direção ao centro, a linguagem do silêncio, drogas, dietas e relacionamentos, vida natural, encontrando um rumo.... não entrega muito, é verdade, mas já serve para podermos imaginar do que se trata.

Um resumo da obra vai bem: na segunda metade dos anos 1980 um professor universitário, cheio de questionamentos, interessou-se pela pesquisa sobre os paradigmas do conhecimento e tinha um grande interesse em “pensar alternativas aos dispositivos científicos que pudessem ser criados sem que houvesse o predomínio da lógica racional.” Matutando essa ideia, achou que seria interessante encontrar respostas às suas indagações intelectuais se conhecesse de perto o universo dos jovens que estavam indo morar nos lugares mais distantes do país com a proposta de criar uma sociedade alternativa (inspirados, quem sabe, pela famosa canção de Raul Seixas).

Daí para por os pés na estrada não demorou muito. Grana curta, o lance era traçar um destino easy rider montado numa nada endiabrada motoca 125 cc. Hum, atrevido esse professor. O roteiro foi construído de maneira quase ingênua, confiando numa desatualizada (o que ele só se daria conta depois) edição do Guia do peregrino, lançado pela Editora Três em 1985. Tudo bem, temos que nos atentar ao fato de que naquele período ainda não existia a poderosa ferramenta da internet.

A viagem tinha uma duração pré-determinada de seis meses e em algumas localidades o professor aventureiro poderia contar com a ajuda de colegas quanto à estadia e contatos relacionados com seu objeto de pesquisa. O resto o acaso daria conta.

Os principais lugares visitados foram os seguintes: Campo Grande, Corumbá, Cuiabá, Chapada dos Guimarães, Porto Velho, Rio Branco e Manaus. Praticamente toda a viagem pode ser enquadrada em dois grandes blocos de acontecimentos: o primeiro, que marca a fase inicial, o “centro” na Chapada, é dedicado ao contato com os remanescentes de comunidades alternativas; o segundo, contemplado com mais intensidade pelo pesquisador, dedica-se ao contato com integrantes de seitas que cultuam o Santo Daime. São essas duas perspectivas que irão nortear toda a narrativa da obra.

Como leitor comum e interessado na temática da contracultura, gostei muito do resultado da obra como um todo. Mas numa visão mais crítica, enquanto pesquisador, achei que a pesquisa teve algumas falhas e que, de certo modo, foi pouco calçada bibliograficamente, levando-se em conta que estamos diante de uma tese de doutorado. Acredito que o autor poderia ter explorado muito mais o seu objeto se contasse com uma orientação mais exigente, causando-me estranheza, nas referências bibliográficas, a quase total ausência de textos estrangeiros.

Mas aqui nada disso tem muita importância, o que nos interessa neste blog são as narrativas de viagem e as reflexões dos autores a respeito da arte de viajar. Nesse ponto gostei do que li e dou nota dez ao Cesar pela sua posição de abertura frente ao novo, ao desconhecido; em muitos aspectos o professor/escritor/pesquisador Cesar Augusto de Carvalho pareceu seguir as diretrizes de um bom trabalho etnográfico, fazendo-me lembrar um pouco da dinâmica do trabalho de campo tal como proposta por Hans-Jürgen Greschat, fantástico pesquisador alemão que se dedica ao estudo das religiões, já citado aqui no blog em um post anterior.

Feita a introdução, vamos agora curtir alguns trechos de Viagem ao mundo alternativo. Como de hábito, escolhi as passagens nas quais o tema da viagem aparece mais evidenciado. Boa leitura e Namastê!

Com o pé na estrada – notas do autor


“A viagem, portanto, seria uma oportunidade única para conhecer as comunidades alternativas, cujas imagens foram formadas pelas informações midiáticas à época. Seria, também, a possibilidade de levantar informações para responder às angústias teóricas e existenciais que me assaltavam. Como todo viajante otimista, isso me possibilitaria dar novo significado ao sentido da vida.”

“Mas nenhuma viagem transcorre sem, pelo menos, a possibilidade de perigos. E o perigo maior não é o que está ligado a eventuais acidentes, mas sim aquele que coloca o viajante em uma rota sem destino, que o faz se perder. E a razão é simples. Em uma viagem excessivamente longa, como a proposta, o meu lar seria a própria estrada. Por mais tempo que permanecesse aqui ou ali, seria impossível o apego a objetos ou pessoas. Estaria em constante deslocamento, exatamente como o fogo que arde rapidamente e consome o mato seco.”


“O fogo não é apenas uma figura de linguagem, é o próprio comportamento do viajante. E a razão disso, hoje, parece fácil compreender. Enquanto se vive em um cotidiano rotineiro, objetos, hábitos e coisas ganham uma significação precisa, ainda que muitas vezes sem vida. Já o constante deslocamento do viajante obriga-o a passar pelas coisas sem lhes dar muita importância. À medida que esses deslocamentos se intensificam, o risco de o viajante não chegar ao seu destino é cada vez maior. E isso só não acontece quando ele encontra o que busca.”

“Acredito ser esta a principal razão que transforma o ato de viajar em um símbolo mítico, porque é constante o processo de mudança de valores. Só o cansaço pode levá-lo a prender-se a algo: ‘ Viajo constantemente, o que significa que não tenho apego a nada nem a ninguém’ (Pedro Almodóvar, 1998)”.

“A própria viagem física, que ocorre entre diferentes pontos geográficos, serve para redimensionar o sentido da vida quando as experiências do viajante o levam a importantes mudanças de mentalidade.”

A temática

Até o final do século XIX, os relatos descrevem de forma objetiva as cenas e objetos que o viajante encontra em seu deslocamento temporal e espacial; no século XX os relatos mudam o foco para os mapas dos conflitos, angústias e dramas que se desenham durante a jornada interior do viajante. Nesta acepção, os deslocamentos não são condições necessárias para produzir mudanças significativas na estrutura de personalidade. Muitas vezes, sem sair de seu quarto, o adolescente se redefine: “Ah... que viagem, estar aqui, parada”, diria Alice Ruiz sobre esse mergulho interior.


Jornada, a viagem é rito de iniciação responsável pela mudança de percepção e de vida do indivíduo. A partir da década de 50, quando ganha amplitude e importância jamais vistas, torna-se marco importante da juventude do pós-guerra. On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac é exemplo clássico: no romance, dois personagens cruzam os Estados Unidos, do Leste ao Oeste. Vagões de trens de carga, motos, carros, ônibus, não importa o veículo a ser utilizado, nem o destino, importa o movimento. O movimento incessante dos personagens, de um lugar a outro, sem parada.

Nos anos 60, a viagem consolidou-se estilo de vida, marca. Cair na estrada era um desejo de qualquer jovem. Receptiva ao novo segmento de mercado, a indústria fonográfica soube aproveitar-se. O sonho de uma Califórnia aconchegante cantado pelos The Mamas and the Papas na música “California Dreamin’” foi sucesso imediato ao ser lançada no Verão do Amor, em 1966.


O universo simbólico apontava para a prática recorrente da juventude: mochila nas costas e o compromisso de estar em movimento. Muitas vezes, o final da viagem se revela surpreendente ao redefinir os rumos de vida e história do viajante. É quando a viagem revela-se rito de iniciação da jornada do herói, o viajante. A viagem de Che Guevara pela América Latina no início dos anos 50 enquadra-se na narrativa típica de construção do herói mítico. Quando Che Guevara, depois de viajar oito meses, separa-se de seu companheiro, reconhecendo a necessidade de manter-se afastado por um tempo, pois precisava assimilar tudo o que havia vivenciado. Sete anos depois ele seria um dos guerrilheiros comandados por Fidel Castro que tomaria o poder em Cuba, e transformaria a ilha no primeiro país socialista da América Latina.


(...) Os diários de viagens de Che Guevara só foram publicados depois de sua morte, mas permitem a compreensão do processo de mudança pelo qual passou em sua busca, em princípio uma simples aventura – “coisa de jovem” -, no final, a construção de um personagem redefinido, com um novo papel no mundo. Antes mesmo de ser morto, Che Guevara já era um modelo de herói a alimentar o imaginário da juventude mundial. E muitos jovens sentiram-se motivados a perseguir sua trilha, que coincidia com o auge do movimento hippie nos anos 60.

Viagem, uma lição ambígua


“A viagem pode começar como uma fuga declarada, movida pela profunda necessidade de mudança interior; o indivíduo vê, como única saída, o cair na estrada, o perder-se, o fugir...”

“Perder-se é uma possibilidade real que o viajante encontra em seu percurso. Sempre em movimento, vivendo como estrangeiro em terras estranhas, com gente estranha, só tem a si próprio como referência. É uma situação perigosa, pois a pior batalha a ser travada é contra si mesmo, segundo os ensinamentos de Buda. Insatisfeito consigo próprio, o objeto de valor a ser encontrado é o desconhecido, o inacessível, o impossível de ser alcançado, e o indivíduo torna-se outsider, o marginal por excelência da literatura existencialista: ‘Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus’ (Ginsberg).”

Drogas e viagens


“Viajar tem também o significado de estar sob o efeito de drogas. E, nesse caso, a jornada interior pode produzir ilusões que, longe de fazer o viajante enfrentar a si mesmo, transformam-se em caminhos de fuga. As drogas alucinógenas, todavia, não foram compreendidas nesse contexto na sociedade pós-guerra. Elas eram muito mais uma possibilidade de abrir as portas da percepção para outros horizontes e, com isso, ajudar o usuário a redefinir seu self. As drogas serviram, assim, para romper os rígidos paradigmas mentais estruturados com base na racionalidade dominante, constituindo-se numa alternativa, não isenta de riscos, de integração social.”



Leia: Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80. Cesar Augusto de Carvalho. Editora Unesp. 2008.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Teoria da viagem: poética da geografia, by Michel Onfray

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Quer ler um livro excepcional sobre a arte de viajar? Pois então não perca tempo e corra atrás desse pequenino ensaio que é uma jóia: Teoria da viagem: poética da geografia. O autor é um jovem filósofo francês cinqüentenário, Michel Onfray, que escreve como ninguém sobre as sutilezas da experiência mágica da viagem.

O Michel tem tanta coisa boa escrita nesse livro de cento e onze páginas que nem sei por onde começar. Mais uma vez me sinto frustrado por ter que deixar muitas passagens geniais de uma obra de lado, mas a concisão é uma necessidade, de modo que tentarei selecionar aquilo que imagino irá inspirar os leitores e as leitoras do Odepórica a comprar o livrinho do filósofo francês (como sempre, não estou lucrando nada com isso, palavra).

Os sete tópicos desse estudo são diretos e instigantes; leitura agradável, consegue a proeza de equilibrar o discurso acadêmico com o popular, sem nunca parecer pedante ou superficial. Vamos ler a seguir algumas passagens, na verdade insights cheios de sabedoria e atitude. Veja o que pensa Onfray sobre:

A escolha de uma destinação:

“Cada corpo busca reencontrar o elemento no qual se sente mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e de prazeres confusos, mas memoráveis. Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la.”

“Uma palavra, um lugar legíveis no mapa retêm, então, a atenção. Nome de um país, de um curso de água, de uma montanha, de um vulcão, de um continente, de uma ilha ou de uma cidade. O indistinto, o visceral, se reconhecem de súbito numa emoção desencadeada por um nome guardado na memória: ir ao tibete, ver o rio Amur, escalar o monte Fuji ou o Etna, caminhar nas colinas de N´Gong, nadar no oceano Pacífico (...) cada um dispõe de uma mitologia antiga fabricada com leituras de infância, filmes, fotos, imagens escolares memorizadas a partir de um mapa-múndi, numdia melancólico ao fundo da classe.”

Os livros:

“A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de razões antes escondidas no corpo. No começo do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domicílio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formulação, a realização, a concretização de uma escolha do destino.”

“Toda documentação alimenta a iconografia mental de cada um. A riqueza de uma viagem requer, a montante, a densidade de uma preparação – assim como as experiências espirituais convidam a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade capaz de infundir. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. (...) Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se é portador. O vazio do viajante gera a vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excelência dela.”

O começo da viagem:

“Em que momento começa realmente a viagem? A vontade, o desejo, a leitura, certamente tudo isso define o projeto; mas a viagem mesma, quando se pode dizer que começou? É quando decidimos partir para um lugar e não um outro? Quando fechamos a mala, afivelamos a mochila? Não. Pois há um momento singular, identificável, uma data de nascimento evidente, um gesto signatário do começo: é quando giramos a chave na fechadura da porta de casa, quando fechamos e deixamos para trás nosso domicílio, nosso porto de matrícula. Nesse instante preciso começa a viagem propriamente dita.”

A amizade:

“Nem a sós, nem com vários: circular com o amigo permite evitar a angústia multiplicada do trajeto solitário, da barreira das línguas estrangeiras, dos incômodos burocráticos nas fronteiras com funcionários e policiais de todo o mundo. O estrangeiro que circula livremente num país inquieta as autoridades, sobretudo onde não reina a democracia, isto é, na maioria dos lugares do planeta. A amizade serve de tônico necessário para a conjuração do estado de fragilidade consubstancial ao afastamento do domicílio, longe das referências habitualmente tranqüilizadoras do animal em nós. No exercício da amizade, o outro é o estranho menos estranho possível. (...) No detalhe da viagem, a amizade permite a descoberta de si e do outro.”

A memória da viagem:

“Pouco importa o suporte, desde que a memória produza lembranças, extraia quintessências, elabore referências com as quais organizar mais tarde o conjunto da viagem. No amontoado e na balbúrdia da experiência vivida, o vestígio cartografa e permite o levantamento de uma geografia sentimental. Mais tarde, quando o tempo do acontecimento estiver longe de nós, restam instantes congelados em formas capazes de reativação imediata.”

“(...) um poema bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiência vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou sei, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação.”

A diferença entre viajantes e turistas:

“Viajar supõe menos o espírito missionário, nacionalista, eurocêntrico e estreito, do que a vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta. O turista compara, o viajante separa. O primeiro permanece à porta de uma civilização, toca de leve uma cultura e se contenta em perceber sua espuma, em apreender seus epifenômenos, de longe, como espectador engajado, militante de seu próprio enraizamento; o segundo procura entrar num mundo desconhecido, sem intenções prévias, como espectador desengajado, buscando nem rir nem chorar, nem julgar nem condenar, nem absolver nem lançar anátemas, mas pegar pelo interior, que é compreender, segundo a etimologia. O comparatista designa sempre o turista, o anatomista indica o viajante.”

A busca:

“Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser.”

O nomadismo:

“Não há viagem sem reencontro com Ítaca, que dá sentido ao deslocamento. Um exercício perpétuo de nomadismo sairia dos limites da viagem para entrar na errância permanente, na vagabundagem. Os próprios nômades praticam um tipo de sedentarismo, pois percorrem trajetos habituais, se instalam na rotina de um deslocamento, sempre o mesmo, servem-se das mesmas referências, ramagens secas, montes de pedras, linhas e rastros feitos por animais, leem sempre do mesmo modo o mapa das estrelas ou dos movimentos do sol, mas também porque vão a lugares onde têm seus hábitos, suas práticas tribais e rituais na arte de ocupar os solos.”

“Assim como o sedentarismo contínuo não me agradaria, o nomadismo permanente não me seduz: as raízes, o local, a vida há muito tempo num lugar idêntico não podem ser consideradas sem um recurso regular a deslocamentos ao redor do planeta (...) entendo a viagem como um momento num movimento mais geral – não como um movimento por si só. Tanto mais porque o reencontro com o domicílio dá um sentido, o seu sentido, ao nomadismo – e vice-versa.”

Leia: Teoria da viagem: poética da geografia. Michel Onfray. Trad. De Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Os funerais de "anjinho" na literatura de viagem, por Luiz Lima Vailati

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Está disponível no site da Revista Brasileira de História, vol.22 no.44, 2002, um excelente artigo acadêmico escrito pelo historiador Luiz Lima Vailati intitulado Os funerais de “anjinho” na literatura de viagem que merece nossa atenção por dois motivos principais: primeiro, porque o autor enfatiza a importância das narrativas de viagem que, “quando submetidas a um crivo criterioso, têm se revelado fontes fundamentais para o desenvolvimento de temas como a família, as relações de gênero, a alimentação, as práticas religiosas, as formas de convívio e sociabilidade, dentre outras.” O segundo motivo é a maneira como o autor se valeu das narrativas dos viajantes do século XIX para estudar o cotidiano do Brasil dos oitocentos, em particular, como o próprio título entrega, o tema da morte das crianças e os rituais que se seguiam em torno dessa ocasião.


Embora seja um texto acadêmico, a leitura do artigo de Lima Vailati não assusta o leitor pouco habituado a esse tipo de produção. Pelo contrário, torna-se mesmo difícil abandonar a leitura das vinte páginas, repletas de informações que tratam basicamente do olhar estrangeiro sobre a nossa cultura e os nossos costumes. A morte, não se pode negar, é um tema que chama a atenção de qualquer pessoa, e ainda que estejamos à mercê de uma mídia que explora essa temática de maneira intensa e desavergonhada, vendendo-a como um produto vulgar, ainda assim estamos diante de um tabu, o que talvez ajude a explicar o fascínio/terror que desperta entre os seres humanos.


Há várias passagens interessantíssimas sobre como eram os ritos funerários infantis, verdadeiros espetáculos que se distinguiam dos cerimoniais fúnebres dos adultos, e que causavam perplexidade nos viajantes estrangeiros que aqui se encontravam de passagem. Iremos transcrever dois pequenos excertos desse texto apenas para que você, leitor, se sinta impelido a ler o artigo completo cujo link aparece no final dessa postagem.

O "ANJINHO"


Afora essas impressões mais gerais, o que os viajantes nos informam, de fato, dos funerais infantis? Apesar do grande número de viajantes que se interessaram em registrar suas experiências dos enterros de "anjinho" no Brasil, não temos nenhum que tenha feito uma descrição completa com todos os eventos que se seguiam à morte de uma criança. É possível afirmar que, de modo geral, estes relatos se concentram em dois momentos particulares do cerimonial fúnebre de criança: um deles, que diz respeito à forma como se apresentava o cadáver à visitação, nos informando sobre como o corpo era preparado e sobre o aparato material que o acompanhava; o outro é a procissão fúnebre, sendo que vez por outra fazem descrições sobre os lugares e formas de enterramento e alguns cuidados pós-sepultamento.


Sobre o "anjinho", os visitantes estrangeiros se mostraram favoravelmente surpresos pelo esmero em que esses pequenos defuntos eram arrumados e expostos. "Prazerosamente", "ricamente" são os termos por meio dos quais homens como John Lucccock, já no começo do período estudado, e mais tarde Daniel Kidder, lançam mão para descrever a maneira pela qual eram preparadas as crianças. Nesse fato se encontra, dentro do conjunto das práticas fúnebres, a primeira manifestação de que às crianças mortas não se votava qualquer tipo de menosprezo. Diferentemente do que hoje isso nos possa parecer, essa dimensão do gestual funerário está bem longe de ter uma importância secundária, restrita ao plano estético, conforme parece ter sido interpretada por esses estrangeiros. Tendo origem em tempos nos quais a crença na separação entre corpo e alma após a morte não era algo bem definido, a idéia de que a forma como se era enterrado e também como se entraria no além resistiu por muito tempo aqui. Assumindo uma dimensão de insondável importância, devia-se cuidar do aspecto pelo qual o corpo se ia apresentar no reino dos mortos, e disso dependia mesmo a direção que a alma irremediavelmente tomaria na geografia do outro mundo. De tal modo a escolha da última roupa interferia nos destinos da alma, que todo aquele que testava procurava informar em detalhe como queria estar vestido nessa ocasião.


Residindo no Brasil em meados da década de 1840, Thomas Ewbank mostrou-se particularmente interessado por esse aspecto do cerimonial fúnebre no Brasil. No caso das crianças, ele nos informa que em alguns casos as crianças eram vestidas como santos:
As crianças com menos de 10 e 11 anos são vestidas de frades, freiras, santos e anjos. Quando se veste de São João o cadáver de um menino, coloca-se uma pena em uma das mãos e um livro na outra. Quando é enterrado como São José, um bordão coroado de flores toma o lugar da pena, pois José tinha um cajado que florescia com o de Araão. A criança que tem o mesmo nome que São Francisco ou Santo Antônio usa geralmente como mortalha um hábito de monge e capuz. Para os maiores, São Miguel Arcanjo é o modelo. Veste-se então o pequeno cadáver com uma túnica, uma saia curta presa por um cinto, um capacete dourado (de papelão dourado) e apertadas botas vermelhas, com a mão direita apoiada sobre o punho de uma espada. As meninas representam "madonas" e outras figuras populares
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O CORTEJO FÚNEBRE

(...) Durante grande parte do século XIX brasileiro, rezava o costume de realizar o translado do corpo à igreja para ali ser enterrado (hábito que, por dois séculos, será debaldadamente combatido pelas autoridades eclesiásticas e médicas, até que fosse definitivamente abandonado) à noite
. Ora, segundo experiência também compartilhada por outros viajantes, o francês Arago, vagando pelas ruas da Corte, foi surpreendido, ao dobrar uma esquina, com um cortejo fúnebre "en plein jour": tratava-se de um pequeno defunto com destino ao cemitério. Com efeito, esse diferença não passou despercebida a Kidder que, ao enumerá-las, lhe ocorreu mencionar, em primeiro lugar, a questão do período do dia em que essas cerimônias aconteciam. Estamos novamente diante de uma prática que relaciona a morte da criança a um acontecimento cujo sucesso já se conhece de antemão. As cerimônias de um adulto eram noturnas, com tudo aquilo que a noite encerra de mistérios e perigos, em bastante conformidade com o que se acreditava serem os primeiros momentos que presidiam a passagem para o além. O dia, por sua vez, é o lugar do cotidiano, daquilo que é familiar. Se o defunto adulto realizava sua última viagem nas trevas, como referência ao seu decisivo e desafiador trajeto para o outro mundo, onde até os mais pios poderiam se perder, para a criança morta esse transportar-se não comportava risco ou surpresa. As procissões diurnas eram índice de que se dava por garantido sua salvação.

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