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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Clics odepóricos: o trabalho de Eydís Einarsdóttir

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No último post, sobre a arte da quietude, comentei sobre as imagens que ilustram o texto do Pico Iyer, trabalho da fotógrafa Eydís Einarsdóttir que muito enriquecem a leitura desse bonito texto sobre as aventuras rumo a lugar nenhum. No final da obra há uma pequena introdução à arte da fotógrafa islando-canadense:

“Einarsdóttir começou sua viagem fotográfica na infância, por influência do pai – um fotógrafo notável -, da mãe, artista, e da iluminada paisagem da Islândia. As palavras que melhor descrevem seus trabalhos são detalhe, contraste e simplicidade. Seu domínio sutil das cores e o talento com a iluminação criam um efeito visualmente diferenciado e sedutor.”



De fato, há uma beleza peculiar nas imagens capturadas pela fotógrafa que fazem da leitura dessa pequena obra de Pico Iyer uma experiência quase sensorial, como se imagem e texto se fundissem numa única linguagem, um casamento perfeito entre literatura e arte fotográfica.

Transcrevo a seguir um texto sucinto escrito por Eydís Einarsdóttir, onde percebemos o papel fundamental da viagem em sua produção artística. As imagens são as mesmas que compõem a obra supra citada.



Quietude ou, em islandês, kyrrô  – a palavra em si já me transporta para um dos poucos lugares onde encontrei a quietude perfeita de corpo e mente: a Islândia.

Todo ano viajo da minha casa, em Vancouver, no Canadá, para a Islândia, onde nasci. Não fico muito na cidade. Costumo me instalar no silencioso chalé dos meus pais, ao lado de um lago, para eliminar o estresse e experimentar kyrrô og ró (paz e quietude).



Depois de alguns dias de descanso, faço excursões com meus pais ao redor da ilha. Para mim, essas viagens são menos uma exploração fotográfica do que um momento para visitar meu “velho” país; a câmera simplesmente vai junto. No entanto, como a Islândia oferece tantas vistas e luzes de tirar o fôlego, inevitavelmente acabo parando aqui e ali.

Assim que pego a máquina, encontro essa quietude dentro de mim, o sentimento profundo de paz que busco todo dia. Fico tão maravilhosamente perdida que é difícil descrever. É como se tivesse encontrado um pedaço de mim que perdi, sem saber que tinha perdido.



Quando fico imóvel olhando pela lente do visor, meus sentidos se apuram. O cheiro da terra faz com que em me sinta enraizada, o som das ondas quebrando, da grama farfalhando ao vento ou do balido distante de uma ovelha solitária me dão a sensação de estar viva.




A vastidão de tudo o que vejo me torna expansiva. Isso é estar no Agora, que, na verdade, é estar quieto de corpo e mente. Minhas fotos vêm de um lugar de emoção. Não tento captar imagens perfeitas, mas sim o sentimento que vivi ao testemunhar as coisas que estavam à minha frente.


Saiba mais sobre o trabalho da Eydís Einarsdóttir no blog da fotógrafa:

terça-feira, 14 de abril de 2015

O farol de La Jument, by Paco Nadal

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Não sou muito de mar, confesso, porque amo as montanhas e a segurança dos meus pés no chão. Mas um lado meu ama as histórias de aventuras marítimas, sobretudo as de naufrágios e de bravos sobreviventes que acabam indo parar em uma ilha perdida desses mares sem fim. 

Também adoro a imagem dos faróis, tão simbólicos em suas estruturas salvadoras, sua solidão imponente, quem não se encanta? E temos a impressão, nós que vivemos longe do mar, que parecem nem existir os tais faróis que vemos reproduzidos por aí, em pôsteres e quadrinhos mal pintados das lojinhas de souvenir de cidades litorâneas. E foi assim, lembrando de uma imagem, a mesma que você vê aí abaixo, que Paco Nadal se inspirou, durante uma viagem, para escrever sobre uma foto, que é linda e fantástica e cuja história merece ser contada. 
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Como foi feita essa foto? O faroleiro morreu ao ser atingido por uma onda? Eu me fiz essa pergunta quando vi pela primeira vez essa imagem impactante em um pôster já nem me recordo onde. Depois a vi centenas de vezes em lugares diferentes, como você também provavelmente já deve ter visto: é um dos pôsteres mais vendidos em lojas de lembranças e recordações.

E olha onde me encontro hoje: na ilha francesa de Ouessant, na Finisterre da Bretanha, quando tropeço sem querer com a história dessa foto e do faroleiro que a protagoniza.

O farol se chama La Jument e é uma das lanternas de mar mais espetaculares da costa francesa; está a dois quilômetros mar adentro da ilha de Ouessant e foi construído entre 1904 e 1911 para sinalizar um ponto perigosíssimo onde antes houve muitos naufrágios.

A história da foto aconteceu em 21 de dezembro de 1989. O fotógrafo francês especializado em imagens de faróis, Jean Guichard, sobrevoava de helicóptero La Jument em um dia de forte tormenta buscando a foto perfeita dessas ondas gigantes do Atlântico golpeando a estrutura do farol. Dentro, o faroleiro Theophile Malgorn, que naquela época rondava os trinta anos, escutou as repetidas passagens do helicóptero e pensou que algo estranho estivesse acontecendo; podia ser que o piloto estivesse tentando entrar em contato com ele por conta de um naufrágio ou por algum acidente. E em uma atitude insana, abriu a porta para ver o que se passava.

A ação completa durou apenas dois segundos. Guichard viu aquele homem na porta e seu instinto de fotógrafo lhe disse que ali havia uma composição perfeita: o homem e a força da natureza. Pôs-se a disparar sua câmera alucinadamente até quase o momento em que uma onda gigantesca começava a abraçar com toneladas de água embravecida a estrutura do farol. Nesse mesmo instante, o faroleiro Malgorn – assomado junto à porta do farol, escutou uma trovoada seca, como um estampido brutal (o impacto da onda contra a frente do farol) e soube que havia cometido um erro tremendo. Tão rápido como abriu voltou a fechar a porta, apenas um milésimo de segundo antes que a onda arrasasse tudo. Estava vivo por um milagre.

No carretel da câmera fotográfica de Guichard ficaram impressas 9 imagens – as que deram tempo de serem disparadas pelo motor do equipamento e que fariam o fotógrafo famoso por toda sua vida e com as quais, em 1990, conquistaria o segundo lugar na premiação da World Press Photo (o primeiro foi para a célebre imagem de um manifestante chinês parando sozinho uma coluna de tanques de  combate em Tianammen).

O faroleiro Theophile Malgorn continua vivendo na ilha de Ouessant e não quer que ninguém lhe volte a perguntar sobre a maldita foto. Seus amigos me contaram que ele se aborreceu muito naquele momento porque o haviam colocado em uma situação mortal de maneira irresponsável e além do mais por um motivo comercial; ele saiu para ver o que estava acontecendo por profissionalismo e isso quase lhe custou a vida. Mas pouco tempo depois Guichard o visitou em sua casa, presenteou-lhe com uma foto autografada daquele “momento decisivo” – como diria Cartier Bresson – e acabaram ficando muito amigos.

O último faroleiro abandonou La Jument em 26 de julho de 1991, desde então convertido em um farol automático. Theophile é agora um telecontrolador do farol de Creac’h, também em Ouessant. Os vizinhos costumam vê-lo passear com seus cães pelo sendeiro que margeia a costa da ilha, com o olhar perdido no mar bravio batendo nas falésias, observando a silhueta escura dos faróis onde, quando jovem, passou grandes momentos de solidão em um quarto úmido e escuro.

Os faroleiros são (ou eram) gente muito especial. Seres solitários e pouco falantes, artistas com todo o tempo do mundo para escrever, pintar ou esculpir. Filósofos de uma vida que muito poucos teriam sido capazes de suportar.


É por isso que eles acham difícil adaptar-se a uma vida sedentária, controlando um farol diante de um computador em uma sala limpa e aquecida depois de haverem sido os últimos românticos do mar; filósofos solitários que a cada noite acendiam luzes que salvariam vidas de navegantes anônimos que nunca lhes conheceriam nem encontrariam ocasião de agradecê-los. Como Theophile Malgorn. 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Vem comigo: clics odepóricos, by Murad Osmann


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Cá entre nós, qual o camarada que não gostaria de vagamundear por aí sendo levado pelas mãos por uma belíssima e nada inibida namorada russa? Lugares incríveis como Hong Kong, Moscou, Singapura, Bali e diversas capitais europeias foram assim fotografados por Murad Osmann, um fotógrafo russo que encontrou uma maneira insólita para documentar suas viagens.




Diz que sua namorada, Nataly Zakharova, cansada de esperá-lo em suas longas e incessantes tomadas fotográficas, começou a puxá-lo pelas mãos para que andasse mais depressa e esse gesto simples desencadeou uma ideia: Murad começou a tirar fotografias desde o ponto de vista de sua noiva levando-o pelas mãos pelo mundo afora, começando por Barcelona em outubro de 2011. A série de fotos do casal foi intitulada no aplicativo do Instagram de “Follow me On”, com mais de 290 mil seguidores até o momento. Link no final do post. Namastê!
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Perfil do Murad Osmann no Instagram: clique aqui!
As breves informações desse post foram tiradas do site megaricos.com

segunda-feira, 6 de maio de 2013

As viagens de Sebastião Salgado: matéria da Revista Bravo

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Sou leitor assíduo da Revista Bravo, a melhor publicação sobre cultura que temos no Brasil. A edição 188 (Abril/2013) traz na capa uma foto de Sebastião Salgado, representante maior da fotografia brasileira e um dos nomes mais respeitados do mundo nessa arte.  Não vou me estender além desse breve parágrafo introdutório, portanto acomode-se em frente ao computador e delicie-se com essa matéria, muito bem escrita pela jornalista Kênya Zanatta. Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas a Kênya conseguiu com seu texto enriquecer ainda mais a experiência do olhar. Boa viagem!
Viagem às Origens do Mundo

Em Genesis, seu novo ensaio, o fotógrafo Sebastião Salgado retrata paisagens e comunidades ainda não impactadas pelo que chamamos de progresso. Para preparar o trabalho, ele percorreu mais de 30 países durante oito anos
por Kênya Zanatta

No princípio, o menino de olhos azuis vivia feliz entre árvores e animais. Então, ele cresceu e decidiu partir. Correu o mundo registrando dramas e terrores da humanidade. Um dia, não suportando o peso das misérias testemunhadas, o menino, agora homem, decidiu voltar ao paraíso da infância. Lá chegando, encontrou uma terra estéril. À imagem de Deus, decidiu recriar seu jardim.

Essa história com ares de parábola poderia resumir a origem de Genesis, novo projeto do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado. O resultado de oito anos de trabalho em mais de 30 países, distribuídos por África, Ásia, Américas, Oceania e Antártica, foi condensado em um livro que acaba de ser lançado pela editora Taschen e numa exposição, que será inaugurada este mês no Natural History Museum, em Londres, e deve vir ao Rio de Janeiro em maio.

*Xamãs da tribo camaiurá da baciado Alto Xingu, no Mato Grosso (2005). Apenas a eles é permitido fumar, ato considerado sagrado (no centro, de chapeu de pele de jaguar, Takumã, o mais importante pajé do Xingu)

Em certo ponto da entrevista concedida na sede da Amazonas Images, sua agência fotográfica, à beira do canal Saint-Martin, em Paris, Salgado diz que não crê em Deus, mas não pôde resistir à simbologia contida na palavra “gênesis”.

*Mulheres das aldeias de Mursi e Surma, no Parque Nacional de Mago, na Etiópia (2007). O uso de alargadores em formato de prato nos lábios é restrito às castas superiores

Da militância política, que o levou a deixar o Brasil no período da ditadura, às preocupações ambientalistas de hoje, o fotógrafo aponta que sua produção sempre espelhou suas convicções. Assim, seu primeiro grande projeto documental, Trabalhadores, realizado entre 1986 e 1992, enfocava um mundo do trabalho em plena mutação, tema central em sua breve carreira de economista – profissão que abandonou em 1973 para se dedicar à fotografia.“Com esse projeto, percebi uma reorganização da família humana”, diz ele, que fez dos movimentos populacionais o tema de seu ensaio posterior, Êxodos(1994-1999).

*Povo da tribo dinkae seus animais, no sul do Sudão (2006). A fumaça de uma carcaça de gado queimada serve para afastar insetos e parasitas

Em Ruanda, país africano que conhecia desde a época em que trabalhava como economista na Organização Internacional do Café, Salgado testemunhou a ferocidade do genocídio e o desespero da fuga. O homem por trás da câmera sucumbiu aos dramas que se desenrolaram diante de sua objetiva. Doente, decidiu voltar para sua cidade natal, Aimorés, em Minas Gerais, e tomar conta da fazenda da família. “Eu tinha perdido a fé na nossa espécie. Achava que a humanidade ia acabar. Estava no limite de uma depressão”, conta.

*Homem vestido para o festival de Sing-Sing, em Mount Hagen, Papua Nova Guiné (2008). Anualmente, em agosto, a festa reúne tribos de todo o país

No Vale do Rio Doce, amargou outra decepção: “Achava que ia voltar para o paraíso, mas encontrei uma terra morta, exaurida”. Foi a mulher do fotógrafo, Lélia Wanick Salgado, que sugeriu promover o replantio da floresta. A partir disso, juntos, fundaram o Instituto Terra. A iniciativa em Aimorés foi tão bem-sucedida que o casal prepara um programa em parceria com o governo federal e a iniciativa privada para recuperar todas as nascentes do rio Doce.

*Pinguins chinstrap, nas ilhas Sandwich (2009). O arquipélago é um território britânico ultramarino, no extremo sul do planeta

Com verve de evangelizador, Sebastião Salgado dispara números e argumentos, explicando por que plantar árvores e preservar a mata nativa é essencial para o futuro do planeta. Desse entusiasmo pela causa ecológica surgiu a vontade de fotografar paisagens, animais e comunidades que ainda não sucumbiram ao fruto proibido do progresso e da sociedade de consumo. “Temos quase 46% do planeta em estado prístino. Genesis é uma amostra do que precisamos preservar no mundo. E o trabalho do Instituto Terra é uma amostra do que devemos fazer”, diz ele.

A primeira viagem, em 2004, foi para as ilhas Galápagos – o lugar que inspirou a revolucionária teoria da evolução de Charles Darwin. Embora Salgado insista que seu trabalho nada teve de científico, as imagens deixam entrever uma preocupação em inventariar os elementos de um mundo original, dos adereços festivos das tribos de Papua Nova Guiné à infinita variedade de tons e texturas das extensões geladas da Antártida.

O uso do preto e branco, o domínio da técnica da contraluz e o rigor na composição, que em projetos anteriores lhe valeram a acusação de fazer arte com a miséria alheia, dão uma qualidade atemporal às fotografias de Genesis. Para Anne Biroleau, curadora de fotografia da Biblioteca Nacional da França, algumas dessas imagens transmitem “o sentimento de uma força cósmica que ultrapassa o humano e sobrevive a ele”. Ela argumenta que o apuro estético das imagens é uma maneira de “chamar a atenção para a verdadeira questão, ou seja, o posicionamento de Salgado sobre os temas que aborda”. “Ninguém criticou Goya por ele ter produzido gravuras belas e perfeitas sobre os desastres da guerra”, compara.


*Colônia de albatrozes no arquipélago Willis, no Atlântico Sul (2009). A ilha foi descoberta no século 18 pelo explorador inglês James Cook

Genesis, o projeto, custou 1 milhão de euros por ano e foi financiado em parte por revistas e jornais que publicaram as reportagens de Salgado ao longo do trabalho, como a semanal francesa Paris Matche o diário inglês The Guardian. A outra parte dos custos foi coberta por patrocinadores, a exemplo da mineradora brasileira Vale do Rio Doce, além de duas fundações norte-americanas. Salgado frisa que suas fotos são apenas “a ponta do iceberg”. Por trás delas, houve um imenso esforço de preparação e edição dispendido por uma equipe de oito pessoas, que trabalha há anos na Amazonas Images. Ele faz questão de enfatizar também o papel crucial de sua mulher, responsável pelo design de seus livros e pela curadoria de suas exposições. Foi ela que comprou a primeira câmera fotográfica do casal, quando ainda era estudante de arquitetura.

De canoas a balões, passando por mulas, aviões e veículos militares, a equipe de Salgado teve que levar em conta situações extremas de clima e geografia para planejar cada uma das expedições. Um dos trajetos mais marcantes foi percorrido a pé, em 2008. “Uma verdadeira viagem pelo Velho Testamento”, define o fotógrafo. A travessia de 850 km nas montanhas do norte da Etiópia começou na cidade de Lalibela e terminou no parque natural Simien. “Fisicamente, não foi fácil, mas talvez tenha sido a viagem mais bonita que fiz na vida. É emocionante poder andar num caminho que o homem percorre há 5 mil anos.” A caminhada durou 55 dias, em uma região de desfiladeiros, passando por tribos cristãs e comunidades de judeus falasha.

*O cacique Afukaka Kuikuro com sua filha caçula (2005). O povo kuikuro tem a maior população do Alto Xingu, no Mato Grosso


Já acompanhar a transumância de 6 mil renas em trenó ao lado dos nenets, comunidade nômade siberiana nos confins do Círculo Polar Ártico, colocou outros desafios: “Trabalhamos com uma temperatura de até 45º abaixo de zero. Passei 47 dias sem tomar banho. Eu morava com os nenets em tendas de 5 m de altura, feitas com varas compridas e peles de rena”.

Em algumas ocasiões, o fotógrafo teve que viajar levando a própria comida e até painéis solares para produzir energia elétrica, além de uma vasta seleção de medicamentos – que no entanto não bastaram para todas as emergências. Picado por um inseto e com um início de gangrena em uma das pernas, o assistente que acompanhou Salgado em quase todas as viagens, Jacques Barthélemy, um ex-guia de montanhismo de 65 anos, precisou ser resgatado de avião em meio a uma floresta de Papua, província da Indonésia na parte ocidental da Nova Guiné. Apesar de todas as precauções, o próprio Salgado quase sucumbiu à malária falciparum, a forma mais perigosa da doença.

“Eles vivem como nós víviamos há 50 mil anos. E as coisas essenciais para mim nessa minha comunidade urbana, consumidora e moderna são as mesmas coisas essenciais para eles”, afirma Salgado, sobre as comunidades isoladas que visitou. O fotógrafo cita o exemplo das complexas noções de balística que os índios zo’è, da Amazônia, colocam em prática na hora de caçar com arco e flecha, similares às usadas pelos militares que ele pôde observar quando fazia reportagens de guerra para as agências Gamma e Magnum.

*Distrito Autônomo de Yamalo-Nenet, no norte da Sibéria, Rússia (2011). No fim do dia, os nômades nenets fazem um círculo em redor de seus pertences para montar o acampamento, depois coberto com couro de rena

Para quem enfrentou os rigores de longas expedições em territórios inóspitos, é irônico que um de seus maiores traumas se relacione ao ambiente de assepsia dos aeroportos. Celebrado pelas proezas que realizou em película durante quase 40 anos, Sebastião Salgado foi levado a adotar a fotografia digital devido sobretudo ao aumento do nível de segurança nas viagens internacionais após os atentados de 11 de setembro de 2001. A cada aeroporto era uma luta para evitar que os filmes passassem pelas máquinas de raios x. “Uma vez, tudo bem. Mas depois de três ou quatro há uma perda da estrutura do grão, da gama de cinzas. Uma semana antes da volta, já ficava tenso porque corríamos o risco de perder tudo o que tínhamos feito”, conta. Em uma viagem de Sumatra a Paris, por exemplo, foram sete controles de segurança. O suficiente para convencer Salgado, que declara com uma ponta de orgulho não saber nem ligar um computador, a se equipar com quatro câmeras digitais Canon EOS 1D Mark III.


*No fim do inverno, os nenets acompanham centenas de renas por mais de mil km até as pastagens de verão, localizadas no Círculo Polar Ártico (2011). Segundo Salgado, o costume é tão enraizado que ninguém sabe quem guia quem

Em algumas expedições de Genesis, o fotógrafo foi acompanhado por seu filho, Juliano, que agora prepara um documentário, Shade and Light, sobre a realização da obra, em colaboração com Wim Wenders. Amigo da família, o cineasta alemão fez uma série de entrevistas com Salgado e filmagens no Brasil. O longa deve estrear em setembro, quando Genesis chega a São Paulo.

Na tarde em que a reportagem de BRAVO! visitou a agência, a equipe se concentrava nos preparativos finais para a série de exposições, em meio a pacotes com livros e fotografias a serem expedidos. No subsolo, duas colaboradoras avaliavam uma impressão destinada à mostra no Rio de Janeiro e questionavam o fotógrafo sobre uma pequena imperfeição invisível aos olhos da repórter. Em meio às questões técnicas, Salgado parou um momento para contemplar a imagem grandiloquente de dois vulcões separados por uma nuvem e repetir quanto prazer tivera em fazer essas fotos. Voltar às origens do planeta parece ter sido seu último trabalho de grande alento: “Já tenho 69 anos e dificilmente vou conseguir fazer outro projeto longo como esse porque a demanda física é muito forte. Mas não vou parar de fotografar”.

Fonte: Revista Bravo

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Literatura odepórica jacobea: Os 8 portais do Caminho, by Ricardo Mendes

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Retomando leituras jacobeas, entre elas as narrativas de viagem pelos caminhos de Santiago, tirei da prateleira um texto que considero dos melhores já escritos por peregrinos brasileiros: Santiago de Compostela – os 8 portais do Caminho. O autor, bom viajante, é também fotógrafo de profissão, Ricardo Mendes. Seu livro, um misto de fotografias em p&b e divagações sobre o Caminho, numa escrita leve e cheia de insights sobre a experiência do peregrinar, no mais amplo sentido do termo.

Os portais do título têm a ver com a maneira como o autor dividiu os capítulos, 8 no total, todos eles breves e de agradabilíssima leitura, que me lembram um pouco o estilo de escrita do Luiz Carlos Lisboa, já blogado por aqui; ambos têm em comum um profundo comprometimento com as coisas do espírito, com a Busca, termo que nos remete à obra do bem aventurado Paul Brunton, um grande sábio que em breve iremos conhecer melhor aqui no Odepórica.

Os portais são assim introduzidos ao leitor pelo Ricardo:

O Caminho é uma perfeita redução da linha da vida e, desde que estejamos abertos, nos deparamos com os principais temas de nossas vidas ao percorrê-lo. A aventura desta experiência é que no Caminho há pouco espaço para distrações. Telefonemas, televisão, jornais, trânsito, poluição e o stress urbano. Assim, os tais temas se apresentam em sua forma mais pura e essencial. Um sumo de fruta extraído por uma poderosa centrífuga. Cada um deles é um portal para a nossa evolução pessoal, e é preciso coragem e determinação para atravessá-los.

O amor, a fé, a compaixão e a gratidão são os sentimentos mais sublimes que o ser humano pode experimentar. São a base de nossa evolução espiritual. Os portais que se apresentam em nosso caminho são apenas possibilidades para irmos de encontro a esta sintonia maior. Alguns são despertados através da prática, outros partem da compreensão intelectual. Seja qual for o caminho escolhido, não existe outro rumo possível que não seja o do coração. Em algum momento da história da humanidade, é nele que todos vamos nos encontrar em uníssono.

Bonito isso, não? Os Portais vão aparecendo ao longo da obra separados por inúmeras fotografias que tentam a seu modo traduzir em imagem o sentimento da passagem lida anteriormente. Algumas são bárbaras, outras extremamente simples, como simples são as lições que vão sendo aprendidas durante a jornada. Eu gostei muito disso: não é um trabalho fotográfico de um profissional deslumbrado querendo mostrar técnica - ainda bem, porque senão o resultado seria totalmente contraditório com a proposta do autor.

Desse modo, entre clics, surgem os portais: Desapego, Limites e Expectativas, Presença, Desvios, Novas Experiências, Solidão, Intuição (a Verdade Interior), fechando com Bênçãos. Como você já percebeu, a pegada é bem espiritual, e como não deveria? O Caminho é propício a isso e que assim seja.


Transcreverei passagens do trabalho do Ricardo para você conhecer de perto o que tocou o coração desse peregrino enquanto perambulava lá pelos caminhos de Santiago. Verá que o moço tem uma cuca bem legal. Buen Camino!

Ouvindo o chamado

Ir de encontro ao Caminho é, antes de tudo, atender a um chamado. Um chamado que tanto pode surgir da falta de sintonia com a vida que se está levando, em seus inúmeros aspectos (trabalho, relacionamentos afetivos, rumos pessoais), quanto do desejo de aprofundar esta sintonia. Pode se manifestar através de uma ponta de curiosidade e levar anos até amadurecer e nos tirar da inércia. Pode parecer impossível ante o asfixiante emaranhado de compromissos inadiáveis que nos enredam. Pode ir e vir quando as coisas não vão bem, não importa.

Todos ouvimos em algum momento da vida. Para reconhecê-lo é preciso afastar o temor e deixar que se revele, que cresça ou evapore. Ao se manifestar, ele assume uma dimensão tao grande em nossas vidas que acaba sendo inócuo fazer-se de surdo. Mesmo sabendo que um sem-número de outras vozes surgirão para nos incentivar a esquecer daquele perigoso chamado do coração e nos enraizar onde já estamos fincados.

Não há voz mais poderosa do que a que vem do coração. Somente ela é capaz de nos fazer aglutinar coragem suficiente para enfrentar expectativas, tomar uma atitude inesperada, ininteligível e, à primeira vista, incoerente. Uma atitude que nos faça sentir vivos novamente. Mesmo que esta ousadia inexplicável seja a de dedicarmos uma parte de nossas férias a dar alguns passos em direção a nós mesmos.

Portal 1: Desapego





(...) Existe ainda um tipo de apego nem sempre relacionado aos bens materiais. Ele é invisível e está ligado a necessidades muito mais profundas e inconscientes: os hábitos. Mesmo bons hábitos (no sentido de que nos fazem bem) podem não ser tão saudáveis, dependendo do tipo de relação que estabelecemos com eles. Ler jornal pela manhã, por exemplo, é bom para nos manter atualizados. Nunca estar disponível para conversar com os filhos antes de ler o jornal matinal pode não ser bom para eles.

Na medida em que vão se enraizando, os hábitos tendem a engessar nossas atitudes e nos fazer escravos, tornando cada vez mais difícil abrir mão deles de uma hora para outra sem entrarmos em desespero. Neste sentido, o Caminho também pode funcionar muito bem como antídoto. Ele nos “obriga” à sua própria rotina, a estarmos presentes a cada passo, canalizando a atenção para o aqui e agora, ao fazê-lo, tomamos consciência de tudo o que é acessório e mecânico em nossas vidas e esta é a primeira etapa para realizarmos uma bela faxina, deixando para trás aquilo que não faz mais sentido, ou que na verdade nunca fez. Pode ser que custe um pouco, ou que não aconteça da primeira vez, mas pelo menos uma semente fica plantada. Na pior das hipóteses, adquirimos o hábito de caminhar, o que não é nada mal.


Portal 2: Limites e Expectativas






No Caminho os limites surgem das maneiras mais surpreendentes e sob as formas mais inusitadas. Lidar com eles pode ser muito revelador. São em geral situações muito simples, mas que trazem à tona a essência de muitas outras situações do cotidiano. Ao final de um dia de caminhada você pode ter percorrido 25 quilômetros sob um sol arrasador. Seus pés doem, a mochila pesa uma tonelada. Tudo o que precisa é de um banho reconfortante, um prato de comida e botar os pés pra cima. Na porta do refúgio, um aviso informa que novos peregrinos só serão admitidos dentro de 3 horas. A partir deste momento, um cardápio de possibilidades surge à sua frente.

Chutar a porta, sentar no bar mais próximo e aguardar, chorar, caminhar em volta em busca de atrações turísticas, atualizar o diário de viagem, continuar até o refúgio seguinte, procurar um hotel. Uma infinidade de atitudes que podem levá-lo a criar novas expectativas, novos limites, mas, principalmente, novos aprendizados. Se você se mostra indiferente ao aviso na porta pode estar precisando de mais energia em sua vida. Se chuta a porta e dá urros de raiva, talvez precise exercitar sua capacidade de improvisação. Ou, quem sabe, exatamente o contrário. Quem pode afirmar alguma coisa? Mais importante é ir se percebendo e entrando em contato com os mecanismos que orientam suas ações e reações ao longo da vida. E este é o primeiro passo para mudar alguma coisa com a qual você não esteja satisfeito.


Portal 3: Presença





Durante seis meses um rapaz viveu numa comunidade espiritual junto a seu mestre, num lugar paradisíaco. A rotina junto à natureza, a tranqüilidade e os ensinamentos que recebeu marcaram profundamente sua vida. Anos depois d éter deixado o convívio do mestre, recebeu a notícia de que também deixara a comunidade. Vivia agora numa grande cidade e cuidava de seu pai, gravemente doente.

Dias depois foi ao seu encontro. Ele agora morava bem no centro da cidade, ao lado de um mercado popular bastante barulhento. O coração do jovem rapaz se apertou ao ver o pequeno cômodo em que viviam. Foi recebido com alegria e somente após o jantar, quando o velho já adormecera, pode conversar com seu mestre. Assim que sentaram frente a frente, o rapaz perguntou:

Mestre, tive a sorte de poder viver a seu lado na comunidade um período maravilhoso, num lugar paradisíaco, onde aprendi lições que me acompanharão pela vida inteira. Lá presenciei o amor que entregavas a cada um que chegava, o carinho com que amassavas o pão e preparavas a comida, a simplicidade de teus ensinamentos. Custa-me acreditar no que vejo agora. Foste sacado daquele paraíso pela doença de teu pai e desde então vives num cômodo apertado e barulhento, onde mal entra a luz do sol. Consegues aqui também ser feliz?

O mestre sorriu, segurou as mãos dele entre as suas e disse olhando em seus olhos:

Não fui sacado daquele paraíso pela doença de meu pai, senão pelo amor que sinto por ele. E quanto à felicidade, aprendi que ela não depende de conforto ou de silêncio para se fazer presente. Para onde vou levo-a comigo embaixo de meus pés.


Portal 4: Desvios




(...) Mudar de vida muitas vezes pode significar nos aproximar de nós mesmos. A sensação de que exercemos pouco nossa individualidade é perfeitamente compreensível. Geralmente somos desestimulados a descobrir e desvendar as habilidades que somente nós trazemos, nossas verdadeiras impressões digitais. Neste sentido, caminhar por dias e dias ao ar livre, em contato com a natureza e pessoas desconhecidas de diversas origens, pode ser muito estimulante e revelador.

Nas condições naturais do Caminho, temos a chance de nos desnudar e entrar muito mais rapidamente em sintonia com o ser que realmente somos. E nada é tão capaz de deixar nossa essência emergir quanto nos despirmos das distrações. Feito este contato, tudo o que temos de fazer é cultivá-lo e fortalecê-lo. Assim, nos tornamos invencíveis.


Portal 5: Novas Experiências






(...) No Caminho, tudo o que se tem a fazer é caminhar, lavar roupa, comer, cuidar dos pés e dormir. Uma rotina muito mais simples do que aquela à qual estamos acostumados, sem a pressão d éter que ganhar a vida e pagar as contas. As paisagens são novas, dezenas de pessoas de diversas origens passam por nós. Por que então continuar a fazer tudo do mesmo jeito?

Depois de enfrentar tantos senões até por o pé no Caminho, por que não permanecer aberto a novas experiências? Não é necessário que seja algo muito revolucionário, nem é preciso fazer uma lista e programar tudo com antecedência. Basta deixar acontecer, perceber e mergulhar. Dizer não para algo a que você sempre diz sim, dizer sim para algo a que você sempre diz não.

Parece simples e realmente é. Minha primeira experiência nova no Caminho foi tirar uma soneca em plena trilha sob uma frondosa árvore, sem me preocupar por quanto tempo dormiria, se as formigas tomariam conta do meu saco de dormir ou se corria o risco de ser roubado. Foi delicioso, uma sensação de entrega como há muito não sentia.


Portal 6: Solidão






No Caminho pode-se escolher entre caminhar em grupo ou em sua própria companhia, variando muitas vezes durante o mesmo trecho. Durante minha caminhada preferi estar sozinho a maior parte do tempo para me conectar com o Caminho e ouvi-lo cada vez que me chamava a fotografar. Devo ter parecido antipático para alguns, apressadinho para outros. Queria apenas me concentrar no que estava fazendo. Muitas vezes usei o pretexto de parar para fotografar para interromper uma conversa aborrecida e estimular meu interlocutor a ir em frente.

Muita gente também não gosta de ficar a sós porque seus pensamentos incomodam. Que pensamentos são esses? Pensamentos são como pessoas e ninguém gosta de ficar fechado numa sala com alguém desagradável. A não ser que não seja preciso interagir com ela. Se é possível ler uma revista, ver televisão, enfim, distrair-se, tudo é tolerável. Sem distrações, nem pensar. Quando acumulamos questões em nossas vidas que não nos sentimos prontos para resolver, tornamo-nos viciados em distrações.

A própria companhia torna-se insuportável. Com o tempo, o sentimento de solidão se instala e as distrações precisam ser cada vez mais surpreendentes. Neste caso a solidão é uma saudade de si mesmo. De alguém que poderíamos ter sido. E que um dia ainda poderemos voltar a ser.


Portal 7: Intuição, a Verdade interior





(...) o Caminho é uma excelente oportunidade para retomarmos a prática de decisões mais intuitivas, menos racionais. Um jogo divertido, que pode começar com pequenas decisões mais intuitivas e ir aquecendo aos poucos. O que seu coração diz? Ficar nesta cidade ou caminhar até a próxima? Tomar banho e comer ou comer e depois tomar banho? Deixar para conhecer a cidade de manhã e partir ou sair com todo mundo bem cedinho? Nada impede, tudo apóia o que vem do coração. Ele nunca se engana, é legítimo. As decisões tomadas a partir dele vêm de um lugar invisível onde a única regra é a verdade sem partido, onde tudo é possível e apoiado pelas forças da natureza.


Portal 8: Bênçãos





No Caminho, por mais que isto pareça evidente, o mais importante é caminhar. Não é possível chegar a lugar algum sem fazê-lo. Caminhar, no entanto, é apenas um pretexto para que se possa apreciar e interagir com o Caminho. Receber o que el tem para dar. Deixar por lá o que não faz mais sentido carregar. Experimentar leveza. Voar, rir, correr, cantar, admirar a natureza. Desenvolver dentro de si um sentimento de gratidão por participar desta magnífica experiência de estar vivo neste momento. Aproveitar ao máximo o limite da impermanência. E por uma fração de tempo, sentir-se feliz.


Sobre o autor:



Ricardo Mendes é redator, fotógrafo, ator; desde 1985 estuda e pratica diversas técnicas de autoconhecimento, cura espiritual e alimentação naturista. Entre as tradições que mais fizeram sentido em sua vida estão a Meditação Transcendental, o Reiki, o Tai Chi Chuan, o Ayurveda, conhecimento milenar sobre a saúde, originário da Índia (Vedas), e a Medicina do Beija-Flor, um conjunto de práticas reunidas e desenvolvidas pelo xamã Foster Perry visando à cura espiritual. Seu trabalho pessoal na fotografia consiste na reinterpretação de lugares sagrados através da linguagem em preto e branco.


Leia: Santiago de Compostela – os 8 Portais do caminho. Ricardo Mendes. Axcel Books do Brasil Editora. Rio de Janeiro, 2002.



Se você gostou dessa obra, indicou um outro título do Ricardo Mendes que segue a mesma linha: Andando em Círculos: as pedras milenares e o Caminho da tríplice Espiral. Imperdível, agradará em cheio aqueles que se interessam pela Irlanda e Inglaterra com seus monumentos megalíticos cheios de mistérios e fascínio.



Na vitrola: O espírito da paz, gravado em 1994 pelos Madredeus. Simplesmente a melhor música e a melhor banda portuguesa de todos os tempos.





As fotos dessa postagem foram clicadas por mim na Galícia em maio e outubro de 2011. Liberadas para uso.