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quarta-feira, 14 de março de 2018

Caminhar, uma revolução. By Adriano Labbucci


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Não existe nada mais subversivo, mais alternativo em relação ao modo de pensar e de agir que o caminhar. Caminhar é uma modalidade do pensamento - um pensamento prático.

É assim cheio de sabedoria que o político e escritor italiano Adriano Labbucci começa seu ensaio, defendendo a ideia de que o ato de caminhar nos ajuda a melhor compreender o mundo e nossas relações com os outros. Difícil discordar.



Para quem já leu outras obras sobre a temática da caminhada esse pequeno ensaio talvez pareça superficial e repetitivo, acrescentando pouco a tudo o que já se escreveu sobre o tema. Mas não é bem assim, felizmente. Por ser um texto curto, desses que conseguimos ler em uma tarde ou duas, terminamos a leitura com vontade de pesquisar mais sobre o assunto e, sobretudo, de sair caminhando pela cidade tendo em mente as lições aprendidas no livrinho.

Essa é a maior diferença entre a obra do Adriano Labbucci e a de outros autores que também escreveram sobre o tema: ele nos incita a caminhar, a olhar o mundo de maneira diferente, não da forma filosófico/transcendental de um Thoreau (Caminhada) ou de um filósofo romântico como Rousseau (Os devaneios do caminhante solitário), que tão belamente escreveram sobre a prática da caminhada, assim como outro pensador, o alemão Karl Gottlob Schelle(A arte de passear) que buscou conciliar o exercício filosófico com as preocupações cotidianas, todos eles citados no ensaio do italiano.



Labbucci caminha junto desses sábios homens do passado, mas não dispensa a companhia de seus contemporâneos: Robert Walser (The Walk), Hermann Hesse (Caminhada) e Bruce Chatwin (O rastro dos cantos), só para citar os mais marcantes, todos eles guias nessa jornada que é ao mesmo tempo, “meio e fim, travessia e meta”, como afirma o autor.

Enxergar o mundo de maneira diferente, como propõe Labbucci, implica em literalmente por os pés na estrada, andar pelas ruas, não de maneira aleatória, mas com um objetivo, uma meta, onde o perder-se faz parte do processo de aprendizagem; ele não nega os filósofos, pelo contrário, usa-os como guias porque, desde sempre,



“caminhar tem tudo a ver com pensar e com as questões fundamentais que estão na base da filosofia: quem somos, onde estamos, para onde vamos; porque caminhar exprime, como poucas experiências, essa abertura para o mundo e para si mesmo.”

Caminhar é conhecer o mundo e também a melhor oportunidade para conhecer-se a si mesmo. Repare bem como os relatos de viagem mais marcantes frequentemente apresentam viajantes que caminham muito: peregrinos, exploradores, escaladores... Travessias de desertos, de vales montanhosos, de cânions, florestas, explorações de cavernas, aventuras que exigem demasiado dos pés.



Claro que existem os navegadores e suas extraordinárias aventuras pelos mares e rios do mundo, mas há uma diferença: para caminhar basta um par de calçados e disposição, às vezes nem isso: basta a disposição. Quando perguntaram a Bruce Chatwin qual era o melhor modo de visitar um país, ele respondeu: de botas.

Ao longo do ensaio o autor italiano brinda-nos com as melhores passagens de obras fundamentais da literatura odepórica, confirmando que esse tipo de literatura de viagem vai muito além das simples narrativas sobre lugares, paisagens e aventuras; quando o escritor é bom, a leitura deixa de ser apenas um passatempo para se transformar numa lição de vida, como no trecho retirado da obra de Werner Herzog (Caminhando no gelo):



(...) existe uma absoluta e implícita convicção, uma convicção tão eloquente que não precisa de explicações: de que, para sermos merecedores daquilo que nos circunda e que nos é caro, precisamos movimentar o corpo pelos pés; que, movendo nossos pés, coisas e acontecimentos entram em movimento; e que tal movimento produz uma mágica harmonia.

Essa foi uma ideia que os latinos já haviam experimentado e condensado na máxima Solvitur ambulando (caminhando se resolve), nos lembra o autor. “Porque as coisas boas, importantes, as coisas que têm valor devem ser preparadas, atingidas, alcançadas a pé, para dar a elas o tempo de se abrirem para nós e, a nós, o tempo de lhes transmitir toda a energia do nosso caminhar.”



Caminhar, afirma Labbucci, é um ato de liberdade; caminhar nos faz livres.

(...) Esse é o espírito profundo de quem caminha: não deixar pegadas que o vento não possa apagar, não se acomodar sobre os passos dados, não se deixar prender, errar por outros caminhos, voltar ao caminho para mais uma vez buscar.



Deixo de fora, na esperança de que o leitor procure ler a obra, os capítulos finais do ensaio, onde o autor amarra esses conceitos e ideias de cunho filosófico com o momento atual, sobretudo a realidade dos grandes centros urbanos onde cada vez mais o caminhante, o flâneur e o próprio pedestre perdem espaço para os automóveis. Valendo-se de estudos do contexto Sócio-político, lança a questão: Estamos livres para caminhar nos dias de hoje? As respostas podem lhe surpreender.
O repouso de Bruce Chatwin (uma nota de rodapé, pág 115)



Elizabeth, sua mulher, levou para a Grécia, para Kardamili, as cinzas do marido, enterradas próximo a uma pequena capela bizantina, homenagem à igreja grego-ortodoxa para a qual tinha olhado com sincero interesse nos últimos anos de sua vida.

Chega-se a ela por uma trilha de terra batida e com degraus de pedra, que desde a cidade velha sobre me direção à colina através de bosques, olivais e com o mar embaixo que de repente aparece, preenchendo o horizonte.



Experimenta-se uma feliz sensação caminhando entre o verde do entorno e o azul do mar que parece tocá-lo. Chega-se em menos de uma hora, com as montanhas do Taígeto às costas, à frente uma extensão de água que confunde as suas cores com o céu; abaixo, a aldeia de Kardamili.



Nessa paisagem serena e encantada onde chega apenas o som dos sininhos do gado no pasto, aí repousa Bruce Chatwin. Fiel a determinadas ideias e propostas suas, nada que testemunhe sua presença, nem uma cruz, nem, à maneira oriental, uma pilha de pedras. Resta, para quem chega lá, apenas o eco dos passos dados ou a força da memória e das associações: é o que serve para caminhar. 

Leia: Caminhar: uma revolução. Adriano Labbucci. Martins Fontes, 2013.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A caminhada: notas sobre uma imagem romântica, by Jeffrey C. Robinson

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Pode parecer estranho, nos dias que correm, alguém se dispor a escrever sobre um ato simples e até certo ponto banal sobre o ato de caminhar.  Não estou falando sobre a caminhada enquanto exercício físico, aquela que milhares de pessoas mundo afora praticam rotineiramente com o propósito seguro de manter a saúde em dia e ainda de quebra arejar a mente e os pulmões. A caminhada a que me refiro é aquela em desuso, démodé em sua própria essência e romântica por natureza: a caminhada que exercita o corpo, a mente e o espírito.

Partindo dessa premissa romântica da caminhada, no sentido literário da questão, foi que o acadêmico, professor de literatura da Universidade de Glascow, Jeffrey C. Robinson escreveu uma interessante obra intitulada The Walk: notes on a romantic image. (A Caminhada: notas sobre uma imagem romântica). O professor Robinson é um apaixonado pelos poetas e escritores do período romântico (séculos XVIII e XIX) e em suas pesquisas notou que muitos daqueles escritores e poetas românticos eram também bons caminhantes, do tipo que saíam por aí flanando sem pressa, atrás, quem sabe, de inspiração para um próximo poema ou romance.



Pelo que lemos sobre o período romântico europeu, em particular em países como Alemanha, França e Inglaterra, a ênfase do movimento estava na liberdade individual de expressão: sinceridade, espontaneidade e originalidade tornaram-se novos padrões nas artes, substituindo as imitações dos modelos clássicos; os românticos voltaram-se para o caminho da experiência pessoal, da imaginação sem limites e da aspiração individual, valorizando os aspectos mais particulares da vida afetiva.

O próprio autor formula a questão que se segue: Por que a caminhada é uma imagem tipicamente Romântica? Para Jeffrey, a caminhada é de ordem fundamentalmente espiritual e trata essencialmente da conquista da felicidade. Não que isso tenha surgido com o romantismo, mas parece que nesse período houve uma busca nesse sentido, a caminhada como facilitadora desse processo de bem estar, ou, indo ainda mais longe, de transcendência espiritual. A caminhada, opina Jeffrey, “ressalta o drama do confronto entre o mundo interior e o mundo exterior, mundos que coexistem em diferentes graus de compatibilidade”.



Como não poderia deixar de ser, o autor vai calçar as questões básicas de seu texto - a imagem romântica e a caminhada deambulatória - em pensadores, escritores e filósofos que notoriamente curtiam uma boa caminhada; aqui nem importa o ritmo, o local e a distância, de modo que leremos ao longo do ensaio as palavras de um iluminado Bashô, o sábio peregrino japonês, passando por Laurence Sterne, Baudelaire e Rousseau.

Vem desse último, Rousseau, uma das passagens das quais mais apreciei desse ensaio e o capítulo cujo trecho você lerá a seguir intitula-se “O caminhar e a solidão”:



Eu nunca refleti tanto, existi tão vividamente e experienciei tanto, nunca fui tão eu mesmo – se é que posso usar essa expressão – quanto nas jornadas que fiz sozinho e a pé. Há algo sobre a caminhada que estimula e anima meus pensamentos. Quando eu permaneço em um lugar eu mal consigo pensar, meu corpo tem que estar em movimento para que minha mente siga funcionando.

A visão dos campos, a sucessão de vistas agradáveis, o ar puro, o apuro sonoro e a boa saúde que ganho ao caminhar, a atmosfera simples de uma pousada, a ausência de qualquer coisa que me faça sentir dependente de algo, de tudo o que me recorde de minha situação – tudo isso serve para livrar meu espírito, para deixar meus pensamentos mais arrojados, para me jogar, por assim dizer, na vastidão das coisas, de modo que eu possa combiná-las, selecioná-las e torná-las minhas conforme meu desejo, sem medo ou limitação. Disponho de toda a Natureza como mestre.



Pulando páginas, dois capítulos à frente, chegamos no “Caminhante urbano” cujo parágrafo inicial trata de um tema bastante simpático: um homem e seu cachorro. Sua leitura me fez lembrar dos solitários sem-teto, vagamundos que povoam as ruas das cidades grandes, e acredito que São Paulo, cidade de onde escrevo, deva ser uma das que mais alberga esses tipos de cidadãos, quer por opção, por conta de um vício, um problema psiquiátrico ou por total falta de oportunidade. Trouxe essa imagem à mente porque sempre me comovo quando observo os cachorros que acompanham essas pessoas que vivem à margem da sociedade: a fidelidade e o amor incondicional, tão próprio desse animal, em sua máxima expressão. Dizem que os cães são por eles adotados como proteção, mas também acredito que a companhia tem o mesmo peso nessa equação, senão maior.


O Jeffrey diz que muitos viajantes asseguram que a jornada tem que ser solitária: você, um par de botas e o horizonte à frente, nada mais. Mas nessa empreitada, quiçá, o cão pode ser o acordo perfeito entre a severidade da solidão e uma companhia tumultuada, agregando de maneira positiva a liberdade almejada e a companhia de alguém que não perturba. “Sem restringir os pensamentos de quem viaja, o cão conforta o caminhante em sua solidão, refletindo suas atividades, e como a imagem de um espelho, o cão exige do ser caminhante seus próprios movimentos contínuos na jornada; a pessoa e o cachorro compõem uma caminhada idílica.”



Depois disso cita Thomas Mann, autor de “A Montanha Mágica” (explicando que o alemão muitas vezes agregava um cão em seus romances) que publicou um romance famosíssimo intitulado “Um homem e seu cão” (A Man and His Dog) - até onde pesquisei não publicado por aqui, mas tem lá no site da Amazona (used) e o preço não é nada camarada. Ficamos na vontade mesmo.

Nesse mesmo capítulo – o do caminhante urbano - surge um lance bem interessante, quando o autor começa a divagar sobre obras de arte fotográficas que retratam caminhantes pelas cidades, clicadas por André Kertesz, onde vemos impressas duas delas: “Washington Square, Winter, 1954”



 e “Pont Neuf, Paris, 1931”




Interessante porque ele faz uma leitura comparativa entre o olhar do fotógrafo, que parece gostar de clicar pessoas solitárias andando pelas ruas, e aquilo que outros escritores publicaram sobre os homens, a solidão e as cidades. Diz que, “de um ponto de vista Romântico, a cidade moderna é o lugar do isolamento e da alienação”. Semelhante às telas encantadoras de Edward Hopper, quem melhor no mundo retratou o ser solitário das cidades, com a diferença de que em suas pinturas as pessoas se encontram sempre numa melancólica inércia contemplativa, raramente em movimento e quase sempre sentadas.



Coincidentemente, quando chego ao próximo capítulo, vejo que a arte pictórica é cara ao autor, que escreve sobre uma “jornada através de uma exibição de Degas” no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. Um capítulo que mereceria fazer parte do currículo de um bom curso de escrita criativa, uma aula de como observar uma obra de arte para além de sua aparência. E o interessante é que tudo o que ele escreve, cada nota que transcreve de seu bloquinho de anotações, tudo faz parte de um jogo onde o que importa é o proveito que se tira do passeio, a troca entre o sujeito e o objeto por ele observado – e por objeto se entende não só as pinturas de Degas como as pessoas que transitam pelas salas, as molduras penduradas nas paredes e tudo o mais que o cerca dentro daquele espaço-tempo liminar. São suas as palavras a seguir:



Viajando pelo museu eu pude imaginar todos estes Degases acorrentados às paredes, num estado de submissão, enfileirados em corredores em vez de estarem dignamente pendurados nas paredes dos verdadeiros apaixonados, numa sala cheia de personalidade e até mesmo devoção. E mesmo estando todas juntas, elas assumem o poder de uma comunidade ideal, se rivalizam, conversam umas com as outras. De fato, talvez o burburinho geral dos caminhantes pelas galerias é somente um eco dos sussurros entre as próprias pinturas. Pinturas dentro de pinturas; caminhadas dentro de caminhadas; sussurros dentro de sussurros. Essas repetições são de um tom muito mais sutil. 

E antes que o livro termine, o Jeffrey divaga sobre o papel das pontes, um tema fascinante dentro dos estudos simbólicos que ele explora quase que superficialmente, fechando o ensaio com uma breve menção à carta do Louco no Tarô, que alguns estudiosos colocam como sendo a carta zero dos 22 arcanos maiores, e outros como sendo a última, a que fecha o ciclo da jornada. Uma escolha mais do que sugestiva para terminar um ensaio sobre a caminhada. Namastê!



Fonte: The Walk: notes on a romantic image. Jeffrey C. Robinson. Dalkey Archive Press, 1989. London. 144pp.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Fragmentos odepóricos: Friedrich Nietzsche, parte 1


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Todos estamos acostumados a ler na poesia, na filosofia, nos relatos de viagem e nos textos sagrados de todas as religiões, que a viagem é a metáfora por excelência da passagem do ser humano pela Terra. Sem embargo, por mais clichê que isso tenha se tornado, há quem consiga fazer magia com as palavras e os sentimentos.

Foi navegando por um blog muito especial, A Casa de Vidro, (seguindo um link de outro excelente blog sobre o autoconhecimento, o inspirador Dharmalog), que me deparei com dois pensamentos do filósofo Friedrich Nietzsche que trata com maestria dessa metáfora que não canso de explorar aqui no Odepórica. São tão bonitos e tão especiais que decidi economizar e publicar em duas postagens separadamente, de modo que o leitor terá tempo para ler e refletir sobre as palavras de um dos maiores pensadores que caminharam por este planeta um dia. Boa viagem.




Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem.

Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar.




Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos.



Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: – eles buscam a filosofia da manhã.


Friedrich Nietzsche
(em
 “Humano Demasiado Humano” #638)
Imagens deste post: telas de Donna Walker

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Caminhar, uma filosofia, by Frédéric Gros



Não há como não gostar de um filósofo que afirma o seguinte: “a liberdade é um bocado de pão, um gole de água fresca, uma paisagem aberta”. Chama-se Frédéric Gros, o autor da sentença, um professor de filosofia na Universidade Paris-XII que escreveu uma excepcional obra intitulada Caminhar, uma filosofia.

E eu com o livro aqui em mãos nem sei por onde começar essa postagem, por conta da grande quantidade de trechos que fui sublinhando ao longo da leitura, que fiz como se deve fazer quando se trata de um texto de qualidade: devagar, refletindo, voltando parágrafos na intenção de querer guardar na memória aquela passagem que pareceu mais especial e que às vezes a gente sublinha para depois copiar em algum lugar, papel solto que provavelmente ficará esquecido dentro de uma gaveta ou de um livro qualquer.



Nesse livro sobre o ato de caminhar (diferente do passeio, como vimos no post sobre A arte de passear, obra de outro filósofo, Karl Schelle), Frédéric Gros apresenta a ideia de que a caminhada é também um ato filosófico e uma experiência espiritual. Para isso o bom professor se vale de suas próprias experiências enquanto caminhante/viajante e de suas leituras e estudos sobre alguns dos grandes nomes da filosofia e da sabedoria espiritual.

Aparecerão nessa ordem os seguintes autores escolhidos a dedo pelo Frédéric: Nietzsche, Rimbaud, Rousseau, Thoreau, Kant e o querido Gandhi; entre um nome e outro, revezam-se capítulos que tratam de questões simpáticas às mentes filosóficas: liberdade, tempo, solidão, silêncio, eternidade, peregrinação, regeneração e presença... muita coisa boa, como você já deve ter percebido. E o melhor de tudo é que a leitura flui suave, porque o Frédéric escreve para o leitor comum, ou seja, seu texto não é um tratado filosófico sobre a caminhada, mas sim uma obra que pretende mostrar, muitas vezes de maneira poética, que grandes sacadas filosóficas nasceram durante longas caminhadas e perambulações.



Acredito que muitos ficarão surpresos ao descobrir que o bigodudo Nietzsche era um exímio caminhante; a caminhada ao ar livre, escreve Gros, foi o elemento da obra de Nietzsche, o acompanhamento permanente de sua escrita. O aforismo que abre o capítulo em homenagem ao filósofo alemão reforça essa imagem:


“Ficar sentado o menos possível: não pôr fé em pensamento algum que não tenha sido concebido ao ar livre, no livre movimento do corpo- em ideia alguma em que os músculos não tenham também participado. Todo preconceito provém das entranhas. Ficar ‘chumbado na cadeira’, repito-o, é o verdadeiro pecado contra o espírito.” (in Ecce Homo)

Gostei imensamente desse capítulo sobre o Nietzsche, porque nele o autor se desdobrou para pincelar passagens de várias obras do filósofo que mostram a real importância das caminhadas. Fiquei muito tempo pensando sobre isso, sobre como as pessoas emburrecem quando simplesmente deixam de sair para ver o mundo, quando se entregam à comodidade de um sofá em frente à tv, ao tempo gasto diante da tela de um computador... será que não é possível encontrar um equilíbrio nessa dinâmica de vida?
 

E tem aquele lance de que falam sobre a liberação das endorfinas, que acontece na cadência de longas caminhadas e isso me veio à mente ao ler a passagem de uma carta de Nietzsche, quem sabe talvez meio endorfinado por conta de suas jornadas, que escreveu de maneira tão bonita o que se lerá a seguir:


“A intensidade de meus sentimentos me faz rir e me arrepia ao mesmo tempo- várias vezes não pude sair do quarto pelo motivo ridículo de que estava com os olhos vermelhos – e de quê? É que na véspera eu havia, durante minhas longas caminhadas, chorado demais, e não com essas lágrimas sentimentais, mas com lágrimas de felicidade, cantando e cambaleando, com um olhar novo que é a marca de meu privilégio sobre os homens de hoje.”

Do Nietzsche há tantas sacadas interessantes que só mesmo tendo a obra em mãos para aproveitar como se deve. A mesma coisa acontece com o capítulo dedicado ao jovem poeta Rimbaud, que se intitulava “um pedestre, nada mais”. E olha que o guri andou muito, muito mesmo, e não estava nem aí se a grana não pintava; ia com a cara e a coragem, como se dizia, e não estamos falando de uma jornada de parcos quilômetros não, o lance era maluquíssimo, atravessava países e mais tarde, um deserto. “A pé. Sempre a pé e medindo com suas ‘pernas que não têm iguais’ a amplidão da terra”.


Isso tudo teve um preço, e as andanças intermináveis do audacioso poeta, sua quase loucura em se recusar a ficar parado seja onde fosse, detonaram um dos joelhos, muita dor, muito sofrimento, e finalmente uma perna amputada. Impossível imaginar desgraça maior. Diz o Frédéric Gros que todas as viagens de Rimbaud eram fugas, “fugas raivosas”.

“Vejo em Rimbaud o sentido de caminhar como sendo fugir. Essa alegria profunda, sempre, que se experimenta caminhando, de deixar para trás. Está fora de cogitação voltar quando se caminha. Pronto, partiu-se. E essa alegria imensa, que complementa a outra, a do cansaço, da extenuação, do autoesquecimento e da indiferença pelo mundo. Todos os nossos relatos antigos, e esses fatigantes murmúrios, abafados pelo martelar das passadas sobre a estrada. O esgotamento que afoga tudo. Sabe-se sempre porque se está caminhando. Para avançar, partir, atingir, tornar a partir.”

Que beleza. O próximo na lista é o Rousseau, mas esse grande personagem já apareceu aqui no Odepórica, assim como o bem aventurado mestre Thoreau. Deles não falo, embora o capítulo sobre o Thoreau seja irresistível, de modo que não consigo deixar de transcrever um insight maravilhoso do Frédéric.

Nessa passagem ele discorre sobre um ponto fundamental na leitura de Walden, coisa de filósofo atento, por isso vale a pena aprender com ele. Diz o Fréd que Thoreau era um caminhante incrível (três a cinco horas diárias nos arredores do lago Concord), mas que estava longe de ser um grande viajante. Surge a questão: Foi Thoreau um aventureiro de pernas curtas?


“Thoreau nos alerta contra o grande perigo que é a procura pelo exótico. Vê-se tanta gente que caminha para ir longe e contar tudo o que viu por aquelas bandas: achados necessariamente fabulosos, acontecimentos forçosamente épicos, paisagens sempre sublimes, alimentos evidentemente sem cabimento. Grandes feitos, então: no relato, na aventura, nos extremos. E, contudo, o Walden de Thoreau terá fascinado muito mais que todos os relatos de viagens. Sente-se nele, de fato, uma radicalidade na conversão que deixa sem graça as epopeias pomposas de nossos aventureiros dos limites extremos. Nunca será demais repetir: não é necessário ir muito longe para caminhar. O verdadeiro significado da caminhada não está em rumar para a alteridade (outros mundos, outros semblantes, outras culturas, outras civilizações), está em ficar à margem dos mundos civilizados, quaisquer que sejam. Caminhar é pôr-se fora do caminho: ocupar uma posição marginal com relação aos que trabalham, marginal às autoestradas de alta velocidade, marginal aos produtores de lucro  e de miséria, aos exploradores, aos trabalhadores esforçados, posição marginal com relação aos indivíduos sérios que sempre têm coisa melhor para fazer do que dar boa acolhida à pálida suavidade de um sol de inverno ou ao frescor de uma brisa primaveril.”


E isso é só um aperitivo, o que vem depois só faz o texto melhorar. O próximo da lista é Kant, seguido do andarilho fiador pacifista Mahatma Gandhi. Não renderam nesse livro bons textos em comparação com os anteriores, mas isso é uma impressão particular, evidentemente.

É de fato uma pena não poder compartilhar com o leitor/a cada uma das anotações que fiz ao longo dessa leitura sublime sobre o caminhar; há muita coisa preciosa em cada um dos capítulos, quando ele fala sobre a “Filocalia do coração”, que não direi do que se trata, mas é algo verdadeiramente mágico e transformador; quando divaga sobre as liberdades, assim mesmo no plural (“é no instante em que se abre mão de tudo que tudo nos é oferecido, no instante em que não se pede mais nada que tudo é entregue, em abundância”); as duas páginas sobre a peregrinação a Santiago, duas encantadoras páginas que sintetizam muito sobre a experiência jacobea (“não deveríamos dizer que atravessamos as montanhas, as planícies, e que paramos nas pousadas. É praticamente o contrário: durante vários dias, moro numa paisagem, vou tomando posse dela devagar, torno-a meu espaço”.); a história sobre o sábio peregrino, encaixada na página sessenta e dois, que até pensei em transcrever, mas depois mudei de ideia.... enfim, você já entendeu o recado: nessa leitura, tudo vale a pena, não há desperdício de palavras, nem de ideias, nem de poesia. Namastê!
Disse um sábio taoísta: Os pés sobre o chão ocupam pouquíssimo espaço; é por todo o espaço que eles não ocupam que se pode caminhar”.
Dedico esse post ao casal de peregrinos, Leo y Clarisa, bons caminhantes à espera de um futuro niño/ña peregrino/a. ¡Ultreya y Suseya!
Leia: Caminhar, uma filosofia. Frédéric Gros. Ed. É Realizações, 2010.  

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os devaneios do caminhante solitário, by Jean-Jacques Rousseau

.Comprei por impulso, por causa do título, um pequeno volume da coleção pocket da L&PM intitulado Os devaneios do caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), autor que me remetia às aborridas aulas de história da época do ginásio.

Para minha surpresa, o velho e sábio Rousseau me fez mudar radicalmente de opinião, mesmo antes de terminar, com muita satisfação, a leitura de seus devaneios lá no longínquo século dezoito. Uma espiada na cronologia da vida de Rousseau já entrega: ele não passou à toa por esse planeta não. Veja só:

Nasceu em 1712, em Genebra; sua mãe falece poucos dias após o parto e seu pai o entrega a uma família aos dez anos de idade. Aos 16, com os hormônios a mil, é acolhido por uma jovem viúva de 28, senhora de Warens, a quem chamava freudianamente de “mamãe”. Serão amigos e amantes por toda vida, o que não deixa de ser encantador.




Entre 1729 e 1730 vai bater perna pela França e pela Suíça, depois de viver um tempo em Turim, onde troca o protestantismo pelo catolicismo. Nessa vagamundagem passa um tempo em Annecy, Lyon, Fribourg, Lausanne, Neuchâtel, Berna e Soleure. Prá fechar com estilo, no ano seguinte viaja a Paris. Entre as andanças e algumas longas estadias com “mamãe”, Rousseau se dedica ao estudo da música e vai tão fundo nisso que desenvolve um novo sistema de notação musical, na altura em que chegava aos 30. Palmas para ele.




No verão de 1743 acompanha o embaixador da França em uma viagem a Veneza, e aproveita o dolce far niente para publicar sua Dissertação sobre a música moderna. Deixa Veneza no ano seguinte depois de brigar com o embaixador. Esfria os ânimos ao conhecer Thérèse Levasseur com quem se casará duas décadas depois, pobre moça. Dizem que nesse período o irritadinho Rousseau entrega três filhos a um asilo de crianças. E paro por aqui, porque essa história vai longe. É bom saber que sua vida não foi lá muito tranqüila não, à parte as boas viagens e o reconhecimento intelectual celebrado ainda em vida.

Rousseau causou muita polêmica com suas obras na área da política e da educação o que o levou a ser expulso de alguns lugares, forçando-o a uma vida errante por um período. Por ter sido o primeiro escritor de sua época a atacar a instituição da propriedade privada, é considerado um precursor do socialismo moderno.

O autor de Os devaneios é um homem já no finalzinho da vida, mais comedido, mais sábio e mais romântico também. Nos dez capítulos, enumerados por “Caminhadas” (primeira caminhada, segunda caminhada, etc...) vamos conhecer alguns fatos bastante particulares da vida de Rousseau, o que nos leva a ter uma empatia imediata com ele, pelo menos assim se passou comigo.
O legal é que, mesmo não conhecendo a obra desse grande personagem, filósofo, músico e botânico (grande paixão teve pela botânica o Rousseau), não há como não gostar desse texto antigo com boas sacadas sobre a condição humana. A impressão que se tem é a de que ele saía para caminhar e aproveitava os momentos de solidão e prazer em meio à natureza para repensar a vida e quando voltava para casa punha no papel aquilo que sua mente conseguia organizar. Diz ele que “essas horas de solidão e de meditação são as únicas do dia em que sou eu mesmo por inteiro e pertenço a mim sem distinção, sem obstáculo, e em que posso dizer de verdade que sou o que a natureza quis.”

A tradutora dessa pequena edição em português, Julia da Rosa Simões, tem um quê de dedo-duro, achei até graça nisso; em notas de rodapé vai mostrando alguns dos lapsos de Rousseau quanto a citações de autores clássicos e de algumas localidades, o que mostra que ela fez a lição de casa direitinho, toda aplicadinha.



É na segunda caminhada que a coisa toda começa a acontecer prá valer. Dizem que Rousseau tinha mania de perseguição, um preço a pagar por aqueles que dizem o que pensam sem dosar as conseqüências; caminhar, portanto, era uma chance de despistar os mal aventurados que o perseguiam. “Esses enlevos, esses êxtases que sentia algumas vezes ao caminhar assim sozinho, eram prazeres que devia a meus perseguidores: sem eles nunca teria encontrado nem conhecido os tesouros que carregava em mim mesmo.”

Algumas considerações sobre o ato e o hábito de caminhar compartilhadas por Rousseau me trouxeram à memória os escritos de um grande pacifista, o monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh, famoso por ensinar a técnica da meditação em movimento. Já lemos sobre ele aqui no
Odepórica, e vou transcrever um trecho de outra obra desse mestre que ganhei de presente de minha irmã e que é linda, tanto em sua aparência, com ilustrações tocantes de Mayumi Oda, quanto em conteúdo, simples e profundo como um koan budista. O título do livro é “Present moment, wonderful moment”:



“Nossa mente pula de uma coisa para outra, como um macaco pulando de galho em galho sem descanso. Os pensamentos têm milhões de caminhos, e somos sempre levados por eles para o mundo do esquecimento. Se nós pudermos transformar o local de nossa caminhada em um campo de meditação, nossos pés darão cada passo com consciência plena. Nossa respiração estará em harmonia com nossos passos, e nossa mente estará naturalmente em paz. Cada passo que damos irá reforçar nossa paz e alegria e resultará num fluxo de calma energia que fluirá através de nós. Então podemos dizer: ‘A cada passo, sopra um vento suave’.”



Lembrei-me dessa passagem de Thich Nhat Hanh por causa de outra escrita por Rousseau na segunda caminhada, que diz assim:

O hábito de entrar em mim mesmo por fim me fez perder a sensação e quase a lembrança de meus maces; aprendi, assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar miserável aquele que sabe querer ser feliz. Há quatro ou cinco anos experimentava essas delícias internas que as almas afetivas e suaves encontram na contemplação.

Na terceira caminhada os pensamentos ganham maior profundidade: Rousseau reflete sobre a morte, afirmando que o estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer, é apenas aprender a morrer e que ficará feliz se conseguir aprender a sair da vida mais virtuoso do que nela entrou.

Todos os velhos têm mais apego à vida que as crianças e saem dela com maior má vontade que os jovens. Como todas as suas obras foram para essa mesma vida, vêem a seu fim que trabalharam em vão. Todos os seus esforços, todos os seus bens, todos os frutos de suas laboriosas vigílias, tudo é deixado quando partem. “Não pensaram em adquirir algo em suas vidas que pudessem levar na morte”.




Para Rousseau, a sociedade parece ser a origem de todo o mal, no sentido de uma maldade que tem como conseqüência a desconexão do homem com a sua divindade interior, ou Eu superior, como queiram chamar. Suas escapadas, de certo modo, eram o antídoto contra esse mal, trazendo à tona a ideia de que só mesmo a solidão e, se possível, o contato com a natureza, fossem capazes de aliviar o sofrimento de uma alma apartada.

A meditação no recolhimento, o estudo da natureza, a contemplação do universo forçam um solitário a se erguer de maneira constante ao autor das coisas e a procurar com uma dúvida inquietante a finalidade de tudo o que vê e a causa de tudo o que sente. Quando meu destino me lançou na torrente da sociedade, não encontrei mais nada que pudesse deleitar por um instante meu coração.

Aos quarenta anos, “na maturidade e com toda a força do entendimento” Rousseau determina um turning point em sua vida: a mudança se faz necessária, pois o homem, palavras suas, precisava de “uma regra fixa de conduta para o resto de meus dias”. Essa regra de conduta encontra-se no isolamento, e aqui me lembrei de outra leitura,
Walden, de Thoreau, que também buscou esse afastamento, ainda que temporário, da sociedade.



É dessa época que posso datar minha total renúncia ao mundo e esse gosto vivo pela solidão que não me abandona desde então. A obra que iniciava só poderia ser realizada em retiro absoluto; exigia longas e serenas meditações que o tumulto da sociedade não permitia. Isso me obrigou a levar por algum tempo outro modo de viver, no qual logo me senti tão bem que, tendo-o interrompido apenas à força e por poucos instantes, retomei-o com todo o meu coração e a ele me limitei sem dificuldade assim que pude, e quando a seguir os homens me obrigaram a viver sozinho, descobri que ao me isolarem para me tornar miserável eles haviam feito mais por minha felicidade do que eu soubera fazer por mim mesmo.

Na quarta caminhada é hora de questionar-se sobre a mentira e sua memória volta aos dezesseis anos, fazendo-o sofrer horrores por conta de uma falsa acusação de roubo, episódio de sua vida que só nos resta lamentar. Dessa caminhada anoto um belo ditame: “Se é preciso ser justo com o próximo, é preciso ser verdadeiro consigo mesmo; é uma homenagem que o homem honesto precisa render à sua própria dignidade”. Falou bem.




Quinta caminhada: uma ode ao ócio. Deliciosa seqüência de dias passados às margens do lago de Bienna, na Suíça, uma região “pouco freqüentada por viajantes (...) mas interessante para os solitários contemplativos que gostam de se embriagar à vontade com os encantos da natureza e se recolher num silêncio não perturbado por outro barulho que o grito das águias e o rumor das águas que caem da montanha...”

Não conheço a obra de Rousseau, mas no tocante a esse livro, não veremos tantos momentos de felicidade quanto os que ele descreve naqueles meses de descanso na casa do lago e tudo soa tão bonito, e tão verdadeiro, que temos vontade de viver a mesma experiência por ele vivida ali.

Considero aqueles dois meses o momento mais feliz de minha vida, tão feliz que foi suficiente para toda a minha existência, sem deixar nascer uma única vez em minha alma o desejo de outro estado.
Na sexta caminhada é hora de falar sobre as boas ações e suas observações sobre o ato de fazer o bem ao próximo são bastante lúcidas: “vi que para fazer o bem com prazer seria preciso agir com liberdade, sem coação, e que para perder toda a doçura de uma boa ação bastaria que ela se tornasse um dever”. E filosofa, lá no finalzinho do capítulo: “Nunca acreditei que a liberdade do homem consistisse em fazer o que quisesse, mas sim em nunca fazer o que não quisesse.”

O momento de maior devaneio, e que mais me surpreendeu, aconteceu na caminhada seguinte, a sétima. O mote desse capítulo é a paixão de Rousseau pela botânica e, por extensão, a natureza em geral. Não fosse Rousseau quem fosse, eu diria que ele andava enamorado de alguma religião ou filosofia oriental; é certo que o homem quando em contato direto com a natureza e afastado da vida mundana se volta mais para o interior, o próprio meio o convida a isso. Não à toa, grandes mestres de variadas ordens religiosas ou espiritualistas buscaram momentos de solidão em ambientes isolados de bosques, montanhas, desertos ou cavernas.

Para alguns, o contato mais íntimo com a natureza pode levar a algum tipo de transcendência (um samadhi, para usar uma expressão do hinduísmo), especialmente se é isso o que se busca. Percebi lampejos desse sentimento de transcendência, não sei bem se é este o termo adequado, em algumas passagens que transcrevo a seguir:




Quanto mais o contemplador tiver a alma sensível, mais se entregará aos êxtases que essa harmonia lhe provoca. Um devaneio doce e profundo se apodera de seus sentidos, e ele se perde com deliciosa embriaguez na imensidão desse belo sistema com o qual se sente identificado. Todos os objetos particulares lhe escapam; ele nada vê e nada sente senão no todo. É preciso que alguma circunstância específica restrinja suas ideias e circunscreva sua imaginação para que possa ver em partes esse universo que se esforçava por abarcar.

(...) Essa maneira de pensar, que sempre reduz tudo a nosso interesse material, que em tudo procura proveito ou remédios e que faria olharmos para toda a natureza com indiferença se sempre estivéssemos bem, jamais foi a minha (...) só encontrei verdadeiro encanto nos prazeres do espírito ao perder de vista os interesses de meu corpo.





(...) Não, nada de pessoal, nada que diga respeito ao interesse de meu corpo pode ocupar de verdade minha alma. Nunca medito, nunca sonho de maneira mais prazerosa do que quando esqueço de mim mesmo. Sinto êxtases, encantamentos inexprimíveis, que me dissolvem, por assim dizer, no sistema dos seres, que me identificam com toda a natureza.

A oitava caminhada eu passo. Vou direto para a nona, bonita caminhada que empeça assim: “a felicidade é um estado permanente que não parece feito para o homem neste mundo”. Filosofa feito sábio budista ou hindu, algumas linhas mais à frente, quando afirma: “Tudo muda à nossa volta; nós mesmos mudamos, e ninguém pode garantir que amará amanhã aquilo que ama hoje. Assim, todos os nossos projetos de felicidade nessa vida são ilusões. Aproveitemos o contentamento do espírito quando ele ocorre...”. Depois não diga que não reparou.



Nessa caminhada chama a atenção o fato de Rousseau se dirigir às crianças com enorme carinho, o que me fez pensar se isso não tem alguma relação com os filhos que deu para adoção, embora aqui os sentimentos sejam da mais pura alegria; no final, não deixa de ser uma metáfora: os pequenos são a expressão da felicidade justamente por conta de sua natureza simples e aberta e é isso o que Rousseau tenta nos dizer com essa caminhada, que a felicidade encontra-se nas pequenas coisas, nos pequenos prazeres, na soma das pequenas alegrias que temos ao longo de nossa existência.

Enfim, chegamos à décima e última caminhada do sábio peregrino solitário. Está inacabada, mas suas palavras se dirigem todas à mulher que primeiro amou, a senhora de Warens. É uma bonita declaração póstuma, onde o autor abre o coração e agradece “à melhor das mulheres”, como ele a chama. Quase sem querer é que percebemos que o gosto pela solidão já estava latente no coração do jovem Rousseau, quando afirma categoricamente: “Preciso me recolher para amar”.





Leia: Os devaneios do caminhante solitário. Jean-Jacques Rousseau. L&PM, outono de 2010.

Na vitrola: Eight String Religion, obra prima de David Darling.