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terça-feira, 12 de junho de 2018

O hábito de caminhar pela natureza rompe os muros invisíveis da rotina, by Carlos Cardoso Aveline


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Acompanho os textos de Carlos Cardoso Aveline há muito tempo, especificamente os que ele escreveu para a Revista Planeta, publicação que possuía um conteúdo voltado ao esoterismo e à espiritualidade e que, nas últimas décadas, passou a adotar um editorial focado mais nas questões ambientais, nas novas tecnologias, na educação e na ciência, certamente em busca de um público mais amplo.

Recentemente voltei a acompanhar o jornalista e escritor gaúcho no Facebook, plataforma em que publica diariamente diversos textos de cunho teosófico, espiritualista e ambientalista – o Carlos Aveline é também ativista ambiental e seus textos nessa temática são inspiradores, tanto que resolvi transcrever aqui no Odepórica uma de suas postagens recentes que muito me tocou, excerto de um capítulo de sua obra intitulada A vida secreta da Natureza.



Para os que, assim como eu, cada vez mais privilegiam as viagens que contemplam os ambientes naturais, essa pequena obra é de leitura obrigatória; fundamentada no conceito da ecologia profunda, os textos fazem uma ponte entre a ecologia e a espiritualidade focada na Natureza – uma espiritualidade não doutrinária, aberta a todos os que buscam um sentido maior para a existência.

“A natureza, cuja evolução é eterna, possui valor em si mesma, independentemente da utilidade econômica que tem para o ser humano que vive nela. Essa ideia central define a chamada ecologia profunda (expressão criada durante a década de 1970 pelo filósofo norueguês Arne Naess) – cuja influência é hoje cada vez maior – expressa a percepção prática de que o homem é parte inseparável, física, psicológica e espiritualmente, do ambiente em que vive.”

Há beleza em todos os capítulos dessa obra, a começar pelos títulos de alguns textos: O Oceano Primordial, Conversando com a Floresta, A vida Secreta do Cerrado, O Poder Oculto dos Rios... a cada capítulo, um insight, uma visão profunda da vida, um toque de poesia. Uma inspiração. Se você ouviu o chamado da Natureza, esse livro é para você.


“Navigare necesse, vivere non necesse”, diziam os antigos navegadores.  E, de fato, na primeira metade do século 21 não pode haver dúvida de que navegar, ou viajar, é necessário. A ciência moderna demonstrou que viajar é viver, porque tudo o que existe flui em um eterno movimento.

O núcleo de cada átomo do universo é como um pequeno sol em torno do qual navegam elétrons em alta velocidade. Nossa galáxia é regida pela lei do movimento. A própria palavra “planeta”, que vem do grego, significa “errante” ou “viajante”.  A terra já foi comparada a uma nave espacial, devido à sua viagem incessante em torno do sol.  Além disso, nosso planeta gira em torno do seu próprio eixo, o que dá origem aos nossos dias e noites.



Parece pouco? O sistema solar também está em peregrinação. Ele viaja à velocidade de 960 km por minuto ou 57.600 quilômetros por hora em direção à estrela Vega, a mais brilhante da constelação de Lira. Felizmente, Vega não está parada. Ela se desloca pelo cosmo numa direção e com uma velocidade que garantem pelo menos uma coisa: ela nunca será alcançada por nós. [1]

A mudança e o movimento – tanto internos como externos – são, portanto, o estado natural de tudo o que existe. Qualquer imobilidade ou estabilidade são subjetivas e passageiras. Permanentes são a transformação e a harmonização dinâmica das coisas em todo o cosmo. A cada desarmonia, segue-se uma harmonia maior e mais completa. 



Se tudo está em movimento e nada existe fora da dança do universo, não há motivo para que nós queiramos viver permanentemente fechados entre quatro paredes, como se fosse possível existir sem transformar-se. É só quando perdemos o contato com o ritmo natural da vida que o escritório, a fábrica, o apartamento ou a casa passam a funcionar como modernas prisões, ricas em recursos tecnológicos.

Segundo o filósofo Karl Gottlob Schelle, viver continuamente em atmosferas confinadas amolece o espírito das pessoas e enfraquece o seu bom senso. 

“O movimento do corpo não é diretamente uma das condições da vida”, escreve Schelle, “e sua ausência não desencadeia irremediavelmente a morte … mas ele é, no entanto, uma condição indireta. Ele é indispensável para a saúde do corpo e para o bom funcionamento do organismo.” [2]



A preservação da força vital passa pela simplicidade voluntária. Basta caminhar regularmente ao ar livre e conviver com o ambiente natural para recuperar e manter a vitalidade. A antiga arte de passear pela natureza rompe os muros invisíveis da rotina e amplia nossos horizontes pessoais.

É verdade que essa arte meditativa nem sempre precisa ser praticada a pé. A bicicleta e o cavalo são alternativas admissíveis, até certo ponto, porque permitem andar em silêncio, em baixa velocidade, em contato com o vento, percebendo a magia da natureza e participando do mistério da sua paz.



A arte de viver com sabedoria inclui a necessidade de manter o corpo físico saudável e acostumado ao movimento. Isso nos estimula a tomar duas providências. A primeira é incorporar um pouco de trabalho físico à nossa rotina diária. A segunda é adotar o hábito de meditar caminhando.

Passear e contemplar a unidade da vida são duas atividades que podem ser feitas ao mesmo tempo. Quando caminhamos pela natureza com o espírito livre de preocupações, nosso sistema nervoso relaxa, o sangue circula com mais força e vitalidade, o cérebro e o coração têm sua vida renovada. Em todo o organismo, a vitalidade flui melhor. Enquanto isso, podemos contemplar o processo da vida ao nosso redor e perceber mais claramente a nossa identidade profunda com os outros seres.



Outra questão é saber o que o caminhante carrega consigo durante o passeio. Afinal, cada espírito humano possui uma espécie de bagageiro. Ali vão inúmeras lembranças, ideias, crenças, projetos, e alguns princípios éticos. Nem sempre carregamos bagagens agradáveis em nosso espírito. Há também feridas e cicatrizes da alma guardadas ali. Uma coisa é certa, porém. O bom passeador não aceita angústias e ansiedades como parte da sua bagagem.

Enquanto pedala ou caminha, ele esquece as atividades de curto prazo e expande sua consciência. As preocupações vão desaparecendo junto com as outras formas de apego emocional.  Esse processo de relaxamento é ajudado pelas reações bioquímicas que o exercício físico moderado causa naturalmente no corpo humano. O espírito do caminhante se eleva até que um dia ele passa a perceber em todas as coisas o princípio universal do equilíbrio e da harmonia.   



É com esse estado de espírito vasto e sereno que devemos caminhar. Aquele que possui uma mente aberta e um coração puro sabe escutar melhor o som do vento nas folhas das árvores. O aprendiz da sabedoria ouve o cântico dos pássaros e aprecia o nascer do sol sem pressa ou apego. Com a mesma tranquilidade que tem ao observar o vôo de um pássaro no céu, ele vê as ondas de pensamentos e sentimentos no espaço interior da sua própria consciência.

Na verdade, não há uma separação entre o mundo interno e o mundo externo. De um lado, as nossas emoções são influenciadas pelo que está fora de nós. E de outro, sempre julgamos o mundo externo a partir daquilo que carregamos em nossa própria mente e nosso coração.



Há milhares de anos, diferentes tradições religiosas usam longas peregrinações por terras desconhecidas como meio e método para a libertação dos apegos interiores. É preciso abrir mão tanto dos objetos externos como dos conteúdos internos, para conhecer a liberdade espiritual. O budismo, o hinduísmo e o cristianismo têm disciplinas espirituais que incluem o abandono da vida “normal” – feita de hábitos e compromissos – para viajar pelo mundo durante um período indefinido de tempo.

As caminhadas curtas também são parte daquilo que, não por acaso, passou a ser chamado de “caminho interior”. O ato de caminhar era um item básico da vida cotidiana e da disciplina espiritual nas escolas de filosofia do mundo antigo.



Para o cidadão moderno, os passeios a pé, de trinta ou quarenta minutos diários, são exercícios eficientes de meditação e higiene mental.  Alguns alegam que não têm tempo para isso. O argumento é compreensível. O hábito de caminhar exige que se abra mão da rigidez e da imobilidade. É necessário renunciar à rotina da pressa emocional para olhar o mundo de outros pontos de vista, enquanto mantemos o corpo em movimento e observamos o fluxo de nossos sentimentos e pensamentos. 

A prática do desapego está de tal forma associada à arte de passear que, para o escritor chinês Lin Yutang, “o verdadeiro viajante é sempre um vagabundo, com as alegrias, as tentações e o sentido de aventura que tem o vagabundo. Viajar é andar à toa, ou não é viajar”. Segundo Yutang, “a essência da viagem é não ter deveres nem horas marcadas”. É recomendável esquecer os assuntos pessoais.

Ele acrescenta:



“O bom viajante é o que não sabe aonde vai, e o viajante perfeito é o que não sabe de onde vem. Nem sabe seu nome e sobrenome. (…) É provável que esse viajante não tenha um único amigo em terra estranha, mas, como disse uma monja chinesa, ‘não estimar a ninguém em particular é estimar a humanidade em geral’. Não ter um amigo particular é ter a todos por amigos. Esse viajante, que ama a humanidade em geral, mistura-se com ela e vagueia, observando o encanto das gentes e de seus costumes.” [3]

Defensor da espontaneidade, autor de obras marcadas pelo espírito taoísta, Yutang afirma que o equipamento mais necessário para quem passeia “é um talento especial no peito e uma visão especial debaixo das sobrancelhas”.  Ele prossegue:



“O que interessa é saber se o viajante tem coração para sentir e olhos para ver. Se não os tem, suas excursões à montanha são pura perda de tempo e de dinheiro; em compensação, se os tem, poderá conseguir a maior alegria das viagens sem ir sequer às montanhas, mas permanecendo em sua casa e olhando os arredores, e percorrendo os campos para contemplar uma nuvem fugitiva, ou um cachorro, ou uma cerca, ou uma árvore solitária.”[4] 

Em meio à natureza, o caminhante renova a sua vitalidade física enquanto medita. Se meditar é expandir a consciência em direção ao que é imenso, sagrado e muito maior que ela própria, então é possível haver meditações inconscientes e involuntárias. E é isso que ocorre quando caminhamos. O convívio com plantas e animais nos ensina que a inteligência universal está por toda parte.



Há uma inteligência nas orquídeas. Os pássaros têm sua linguagem. O vento sugere coisas. As árvores são seres evoluídos. Para o escritor Maurice Maeterlinck, cada planta que encontramos pelo caminho é um ser dotado de inteligência:

“Não é somente na semente ou na flor, mas em toda a planta, caule, folhas e raízes, que se descobre, se quisermos inclinar-nos por um instante sobre seu humilde trabalho, numerosos sinais de uma inteligência perspicaz. Lembre-se dos magníficos esforços em direção à luz feitos por galhos contrariados, ou a luta criativa e valente das árvores em perigo.”



E Maeterlinck narra o drama de uma grande árvore situada à beira de um precipício, cuja pedra de apoio caíra, mas que se sustentava miraculosamente lançando novas raízes ao solo para evitar o pior. Espetáculos como esse são relativamente comuns nas margens dos rios atacados de erosão. [5]

Depois de discutir a questão da inteligência dos vegetais e dos insetos, Maeterlinck aborda em poucas palavras um tema central da filosofia esotérica:

“Mas que pouca importância tem, no fundo, a questão da inteligência pessoal das flores, dos insetos ou dos pássaros! Que se diga, a propósito da orquídea como da abelha, que é a Natureza e não a planta ou a mosca que calcula, combina, adorna, inventa e raciocina. Que interesse pode ter para nós essa distinção?”



Na verdade – acrescenta Maeterlinck – também os conhecimentos humanos fazem parte da natureza. Nossas pequenas inteligências pessoais são parcelas de um conjunto maior: “Todos os nossos motivos arquitetônicos e musicais, todas nossas harmonias de cor e de luz, etc., são tomadas diretamente da Natureza”. [6]

Sabendo disso, o bom passeador caminha ou pedala em harmonia com o cosmo, tanto na avenida de uma grande cidade como na beira do mar ou na trilha de um bosque.  Ele percebe a unidade da vida e se reconhece como um pequeno ser participante da grande inteligência universal. Por esse motivo, o caminhante sente que nada tem a temer do passado, do presente ou do futuro. Ele vê que, no fundo, a paz comanda a vida – não só aqui e agora, mas também em todas as partes, e sempre. 
Notas:

[1] “O Livro de Ouro do Universo”. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Ediouro: 2001, 509 pp., ver p.136.

[2] “A Arte de Passear”. Karl Gottlob Schelle. Ed. Martins Fontes:  2001, pp. 16-17.

[3] “A Importância de Viver”. Lin Yutang. Ed. Globo:1959,  tradução de Mário Quintana, 360 pp., ver p. 267.

[4] “A Importância de Viver”, obra citada, p. 269.

[5] “La Inteligencia de las Flores”.Maurice Maeterlinck, Ediciones Nuevo Siglo, Buenos Aires: 1997, 126 pp., ver pp. 13-14.

[6] “La Inteligencia de las Flores”, obra citada, ver pp. 59-60.

Fonte: capítulo 15 do livro “A Vida Secreta da Natureza”,de Carlos Cardoso Aveline, terceira edição,Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007, 156 pp.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Peregrinos cibernéticos no Caminho de Santiago

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Vou contar aqui um pouco do que vem acontecendo no ambiente das peregrinações a Santiago. Minha visão é a de um peregrino que aos trancos e barrancos chegou a Santiago de Compostela no inverno de 1995 após completar 28 dias de caminhada. Foi uma viagem muito sofrida fisicamente: bolhas, tendinites, gripe e vários dias sem tomar banho.

Dizem que aprendemos com os erros, não? Nem sempre. Eu que jurei nunca mais pisar em terras espanholas, dois anos depois estava de volta, dessa vez no verão. Sabe o calor do Rio em janeiro? Uma brisa, perto do insano calor que faz nas longas planícies das mesetas no verão espanhol. E mais uma vez, bolhas, tendinites e vários outros incômodos que uma longa viagem a pé acarreta.

Nessas duas aventuras o sofrimento físico foi um fator em comum. Etimologicamente, sofrer deriva do latim sufferre, “sob ferros”, ou seja, acorrentado, carregando peso. Essa dinâmica do sofrer tem uma relação muito estreita com a peregrinação. Em algum momento ela há de aparecer: as dores do corpo, das perdas, das partidas, da saudade de casa, cada um carrega a sua.



Na primeira página de um dos meus diários de viagem, copiei uma frase retirada de uma homilia que diz que “O sofrimento é a escola de simpatia do Espírito Santo”. Gostei dessa afirmação, que em sua simplicidade guarda uma profunda verdade: somente quem já sofreu saberá consolar quem sofre. Isso nos remete não só à figura do Cristo e dos santos, mas a todos os homens e mulheres de diversas tradições religiosas que encontraram a paz através do sofrimento. Sofrer faz parte do mistério da vida.

Toda essa reflexão me levou a meditar sobre a realidade que se vive hoje numa peregrinação milenar como a do Caminho de Santiago, na Espanha. O Caminho que conheci há vinte anos mudou em relação ao Caminho de hoje? Como fica a questão espiritual nessa época onde a rota se encontra, como dizem os espanhóis, saturada de turistas e carente de peregrinos?

Há muito que se discutir aqui. Comecemos com a questão da saturação do Caminho, que é real e que mudou completamente a experiência do caminhar quase solitário das décadas passadas, sobretudo nos meses de baixa temporada. Os refúgios, centros de acolhida de peregrinos (antes paroquiais e municipais, hoje quase todos particulares) converteram-se -salvo poucas exceções- em um lugar para descansar, tomar banho e dormir, como se faz nos hostels espalhados mundo afora.



Antigamente, o peregrino oferecia um donativo e agradecia; hoje, o peregrino exige, porque paga. Muitos hospitaleiros que vivem no Caminho lamentam que a primeira coisa que um peregrino ou uma peregrina perguntam quando chegam a um albergue é: “Tem Wi-Fi”? O acesso à Internet, quem imaginaria, é hoje mais importante do que um chuveiro com água quente e um colchão para descansar o corpo da fadiga da estrada.

Portanto, o cenário que temos é este: trilhas lotadas de turistas e peregrinos, albergues particulares cheios de gente, empresas que transportam sua mochila até a próxima etapa (para que sofrer?) e comerciantes nos povoados se aproveitando da ocasião, cobrando mais e oferecendo menos. O que isso tudo tem a ver com uma peregrinação? Será que existe espaço para a fé, para o Sagrado, para o Mistério?

Certamente há espaço e sempre haverá. Porque a relação do ser humano com a espiritualidade não se mede em Gigabytes; o contato com o Divino não se dá no Ciberespaço; não se acessa o Sagrado através de um Browser e não se conversa com Deus trocando e-mails. Vivemos numa fase de transição onde não sabemos ainda no que tudo isso irá se transformar, o que não nos impede de observar que algumas coisas já mudaram radicalmente nosso comportamento social e, no escopo desse texto, religioso/espiritual.



A peregrinação é em sua essência uma prática religiosa. Os peregrinos caminham em direção a um lugar sagrado, Locus Sanctus, a fim de prestar homenagem a um santo, agradecer uma dádiva recebida ou cumprir uma promessa. Num sentido amplo, é essa a proposta original. O auge das peregrinações a Santiago se deu na Idade Média e foi decaindo após o Renascimento até praticamente serem esquecidas nos séculos posteriores. A partir dos anos 1980, às vésperas de um mundo virtualmente conectado, o Caminho renasce e volta a brilhar como há muito não se via. Desde então, as estatísticas mostram que o número de peregrinos a Santiago aumenta a cada ano, e é indiscutível que a Internet, e mais recentemente as redes sociais, têm uma relação direta com esse enorme afluxo de gente que resolve cruzar a Espanha rumo à Galícia, terra do Apóstolo. Dê um Google em “Camino de Santiago”: mais de 15 milhões de resultados irão aparecer na tela. Não é pouca coisa.
           
Muito se discute hoje entre estudiosos do Caminho de Santiago acerca do perfil dos peregrinos atuais. E um dos hábitos mais criticados é o uso indiscriminado dos smartphones. Se por um lado a tecnologia veio para facilitar a vida de todos, por outro trouxe consigo mudanças que, à primeira vista, enfraqueceram o relacionamento interpessoal (ainda que essa afirmação seja bastante discutível).



Nos albergues, onde antes se dava o encontro de pessoas, as trocas de experiências sobre a jornada, onde antes se repartia o pão, agora se vê uma profusão de gente encasulada, atualizando suas redes sociais e procurando notícias sobre o mundo; a mesma coisa acontecendo nas mesas dos restaurantes, praças e qualquer lugar com Wi-Fi livre. Só o Caminho não basta a si mesmo.

Hoje um peregrino chega ao Caminho de Santiago sabendo tudo o que encontrará pela frente: paisagens, personagens conhecidos, as trilhas, as facilidades e dificuldades de cada etapa, tudo salvo na memória de um aparelho (ou “na nuvem”). Não há mais lugar para a surpresa, para o desconhecido. Não há nada de ruim nessa realidade. O Caminho é uma metáfora da vida; o que se vive na peregrinação a Santiago é uma suspensão da realidade, um rito de passagem, onde cada um encontrará justamente aquilo que procura ou necessita aprender.

Turista ou peregrino? Não importa. Muitos começam como turistas e terminam como peregrinos. Quando trabalhei como hospitaleiro voluntário por seis meses em refúgios paroquiais conheci alguns caminhantes ateus e muitos não católicos que se emocionavam apenas em observar os peregrinos devotos e começaram a frequentar as missas das igrejas dos pequenos povoados por onde passavam, porque isso, segundo eles, lhes trazia um grande sentimento de conforto e paz. 



Um peregrino judeu, norte-americano, me confessou que havia decidido fazer o Caminho porque achava que seria uma grande aventura: caminhar, beber e namorar. Com o tempo, no convívio com outros peregrinos, se sentiu tocado com a manifestação de fé dos colegas de jornada, a ponto de sentir uma grande vontade de comungar! Quando chegou a Santiago (chegamos juntos) não conseguia parar de chorar e abraçou a imagem do Santo no altar (um dos ritos de chegada em Santiago) como seu mais fiel devoto o faria. Coisas do Caminho.

Isso me traz à mente um texto de Martin Buber, filósofo austríaco conhecido como “profeta da relação” (ou do encontro) para quem o ser humano só se realiza na relação com o outro. Buber acreditava na unidade entre Deus, o homem e o mundo: uma comunhão. O outro dessa relação pode ser o homem, Deus, uma obra de arte, uma flor ou qualquer coisa que implique reciprocidade. Toda a vida atual, dirá o filósofo, é encontro; o essencial é vivido na presença:

A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o tu. Pois, no contato com cada tu, toca-nos um sopro da vida eterna.




Em um dos mais belos livros sobre a prática espiritual no Caminho de Santiago, Jose Antonio García-Monge diz que o Caminho nos faz porque nos dá ferramentas para fazermos: Tempo, Solidão, Silêncio, Integração, Encontros, Presença, Amor. A questão da alteridade permeia todo o texto, pelo que gostaria de compartilhar uma das passagens que mais me encantaram nessa obra:

Comecei a caminhar só. Como um longo e quilométrico monólogo, e descobri que sou muito mais do que eu mesmo. Esse encontro foi possível graças aos “tus” que são a base do caminho de minha vida. Graças à necessidade e ao desejo do outro. Graças à solidão sonora que repetia meu nome, não como um eco, mas com um acento novo de outra voz humana. Sou um eu-tu. Graças a ti. O risco vivido em comum, a refeição partilhada, a vista animadora, as marcas indicadoras de outras pessoas para as quais não fui algo, mas alguém, me fizeram aprender a personalizar. Não só as pessoas, mas também as coisas. Um caminho se converteu em um sussurro orientador, uma catedral de pedras em uma voz que me chama pelo nome, um santo em um homem. No fim, sei quem sou, como me chamo, porque pude escutar no silêncio da noite como me chamam. Ao responder, se inaugurou um eu-tu que me fez maior do que eu mesmo, sem deixar de ser quem sou.    



Não são os smartphones e os aparelhos de GPS que vão acabar com a peregrinação. Tampouco o excesso de turistas, a Internet e as redes sociais. Enquanto houver caminhantes, haverá Caminho, como se lê em um poema do século XIII (Codex Calixtinus):

La puerta se abre a todos, enfermos y sanos;
no sólo a católicos, sino aún a paganos,
a judíos, herejes, ociosos y vanos;
y más brevemente, a buenos y profanos.

Devemos, portanto, saudar as novas mudanças que chegam ao Caminho, porque elas fazem parte da vida, da nossa realidade. Conectados e desconectados, tradicionais e modernos, todos fazem parte da mesma busca. Acredito que um pouco da mágica transformadora se perde quando se apela com frequência para as facilidades da vida moderna: carros de apoio, transporte de mochilas, reservas antecipadas em hospedarias e albergues, pular etapas difíceis... a negação total do sacrificium (sacrum facere), o ato de manifestar o sagrado, uma afirmação da vida. Interessante refletir sobre isso, porque o Caminho é um reflexo da existência de cada ser. O que se faz lá, se faz aqui. Do que se foge lá, se foge aqui. Qual o papel do Sagrado em nossas vidas?  Essa é uma questão que cada um deve responder por si.



Sustento a ideia de que ainda há uma forte característica espiritual no ambiente contemporâneo da peregrinação a Santiago, apesar da massificação com a qual o Caminho aparece identificado nas últimas décadas o que, para alguns observadores do fenômeno, estaria acabando com a “essência” da peregrinação. Na realidade, o que parece estar mudando não é de fato a noção de que o Caminho esteja mais aberto ao profano, mas sim o fato de que os peregrinos contemporâneos estão se relacionando de maneira diferente com o sagrado. 

“O encanto das viagens não está nas mudanças de cenário, ou na fuga à vida de todo dia, mas nas descobertas que se sucedem no espírito. Se a viagem externa - aquela que nos leva de um lugar a outro no mapa - não se fizer acompanhar de uma viagem interior, o cavaleiro estará vivendo talvez, no seu percurso, a mesma experiência de sua montaria.” (Luiz Carlos Lisboa, Nova Era).



Artigo publicado na Revista CREatividade- Revista da Cultura Religiosa- PUC Rio. Ano 2017, Número 2, edição intitulada CAMINHOS DO CRISTIANISMO HOJE.
Link para o texto original: Espiritualidade conectada no Caminho

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Silêncio e solidão na Grande Cartuxa, by A.J.Cronin

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Dizem que o silêncio é um prelúdio de abertura à revelação. Gosto de pensar que quando estou só e em silêncio, alguma coisa dentro de mim se transforma, como uma semente que aguarda o momento certo de se revelar para fora da terra, em direção ao sol.

Quando penso nas viagens que fiz percebo que nem sempre os momentos mais marcantes e inesquecíveis foram os mais alegres e divertidos, pelo contrário; pergunte a um bom viajante para falar de suas aventuras vividas na estrada e certamente você ouvirá muitas histórias em que a solidão e o silêncio foram parte fundamental da experiência.

Entretanto, imagino que a maioria das pessoas não se sente confortável em ficar a sós e em silêncio, e muito menos em viajar buscando esse tipo de situação. Daí o interesse que despertam as narrativas de viagem em que o protagonista narra suas desventuras; sua solidão, o “estar perdido no mundo” é algo que assusta ao mesmo tempo em que fascina, talvez uma lembrança arcaica de quando perambulávamos sós pelo mundo. Talvez, no fundo, ainda tenhamos uma necessidade orgânica de ficarmos sozinhos por um período de tempo.



Muitas ordens religiosas, de distintas tradições, pregam a solidão e o silêncio como princípios básicos de evolução espiritual ou transformação interior; o buscador, em todos os casos, é um ser solitário. A mente sábia é uma mente quieta.

Gosto de ler os relatos de viajantes laicos que se aventuram em estadias monásticas, geralmente em mosteiros cristãos e monastérios budistas; é interessante ler sobre a visão de quem está do lado de fora, observando e vivenciando uma rotina completamente distante de sua realidade cotidiana. Coloco-me no lugar do outro, me questiono se agiria ou pensaria da mesma forma que o narrador e depois da leitura sonho em percorrer as mesmas distâncias, viver as mesmas experiências... Por que não?

Transcrevo aqui no Odepórica um relato que retrata exatamente essa experiência da solidão e do silêncio. O autor, o escritor escocês Archibald Joseph Cronin (1896-1981) teve esse texto publicado em 1960 na Reader’s Digest (Seleções) em uma edição de capa dura, volume 35, intitulado Janelas para o Mundo.  É notável como, passados mais de cinquenta anos de sua publicação as questões do autor continuam atuais, como você mesmo poderá conferir na leitura que se segue.
O que aprendi na Grande Cartuxa



Ao brilho intenso do sol dos Alpes da Saboia francesa, depois de uma subida extenuante. Normalizei a respiração e puxei a corda da campainha. Aberto o postigo da pesada porta, após um momento de exame, um irmão leigo de capuz pardo introduziu-me, silenciosamente, num pátio murado, onde, entre canteiros de flores e zumbir de abelhas, uma fonte cantava.

Adiante, de cada lado da vetusta igreja, corriam dois compridos claustros arqueados, dos quais saíam fileiras de curiosas moradas de íngremes telhados vermelhos. Percebi logo que se tratava dos eremitérios individuais, onde habitam, na solidão e no silêncio, os monges da ordem.

Sabendo que quase nenhum estranho tinha entrado naquele remoto santuário, experimentei profunda palpitação de expectativa. Depois de uma velocíssima viagem de 6500 quilômetros, e sentindo ainda nos ouvidos o burburinho de Nova York, eu me achava no pátio do famoso mosteiro da Grande Cartuxa.



Mas eis que se aproxima de mim, com passos rápidos e com um sorriso tímido, mas amistoso, um vulto franzino de hábito branco. Era o prior, homem de seus 50 anos, de face corada e olhos de um azul muito profundo. Deu-me as boas-vindas com simplicidade e dignidade, e ouviu, cortesmente, a explicação dos motivos da minha visita. Depois levou-me a um eremitério desocupado e disse que o arquivista iria acompanhar-me numa visita geral. E retirou-se.

O eremitério era de pedra e tinha no andar térreo uma pequena oficina com ferramentas, um banco de carpinteiro e um depósito de madeira; no andar superior ficavam o oratório singelo e a cela. Nesta, o que vi foi uma mesa simples de carvalho, uma pequena estufa de ferro, uma estante de livros, um modesto genuflexório e a cama – um tosco enxergão de palha sobre um jirau.


Um sino tocou suavemente, ecoando entre os cumes banhados de sol. Lá no alto, o céu era de um azul ofuscante. Envolvido pelo sentimento de solidão que me cercava, sentei-me. Era ali, naquela prisão voluntária, que um homem tinha decidido passar toda a sua vida. Era ali que ele trabalhava e orava, estudava, cultivava o seu pequeno jardim e se entregava àquela intensa contemplação que é o fim e o propósito do monge cartusiano.

Nesse ponto ouvi uma leve pancada na porta. Era Dom Arthaud, o arquivista, homem idoso, mas de porte viril, rosto largo e simpático, olhos castanhos inteligentes piscando brejeiramente atrás dos óculos, para surpresa minha.

- Às suas ordens, senhor. Que deseja saber? – perguntou-me ele depois de cumprimentar-me.
- Tudo. Diga-me antes de mais nada: guarda-se aqui silêncio absoluto?
- Exatamente. Exceto, é claro – acrescentou, fazendo uma delicada mesura – quando temos a honra de receber alguém como o senhor.
- Quando começa o dia para os frades?
- Às 5 e 45 levantamos com o sino e nos ocupamos com orações, até às 7 e 15.
- E em seguida fazem a primeira refeição?


- Não, a primeira e única refeição completa é feita ao meio-dia.
- Somente ao meio-dia? – exclamei. – Em que consiste?
- Em geral, consta de verduras da nossa horta.
- Comem carne de vez em quando?
- Nunca. (O meu espanto pareceu diverti-lo.) E uma vez por semana, bem como em muitos dias especiais, o nosso único sustento é pão seco e água.
Meus olhos caíram duro no jirau.

- Deitam-se cedo? – perguntei?
- Sim. Às seis da tarde.
- Pelo menos, têm um bom descanso à noite.
- Só até às 10 horas – disse o monge com um sorriso manso. – Então o sino toca, nós nos erguemos para o ofício noturno, e depois, acendendo nossas lanternas, vamos para as devoções em comum na igreja.
- Mas então quando é que se deitam?
- Cerca das três da manhã.
- E tornam a levantar-se às 5 e 45?
- Por certo... E garanto-lhe que é descanso mais que suficiente. O frade apertou-me o braço, como para abafar em mim qualquer expressão de dó.
- Venha comigo. Vamos dar a nossa volta pelo mosteiro.


Enquanto me conduzia pela belíssima igreja, com os magníficos assentos de couro lavrados, o arquivista informou-me que sua fundação se devia a um tal Bruno, com seis companheiros, em 1084. Mas o que me interessava era mais o lado humano do que o histórico. Enquanto caminhávamos por um corredor de lajes, onde, mesmo naquele dia de verão, se sentia a umidade e um calafrio de Antiguidade, perguntei:

- Vocês não sentem frio aqui no inverno?
- Oh, não.
Ele bateu familiarmente a pedra nua, como quem tocasse o ombro de um velho amigo:
- As paredes são espessas. E nós temos os nossos pequenos aquecedores.
- Mas parece que não aquecem grande coisa...
- Talvez não - e o piscar de seus olhos acentuou-se. – Mas rachar lenha nos aquece.


Pensei nos longos meses de neve, nas procissões noturnas através da escuridão gelada, no serviço religioso à meia-noite naquela igreja imponente e tenebrosa, e não pude reprimir um arrepio. Ao dobrar uma esquina vimos um jovem leigo empurrando uma carrocinha cheia de fatias de pão, parando para deixar uma fatia na janelinha da cada eremitério.

Dom Arthaud explicou que aquele brave garçon voltara há pouco do serviço militar, tendo-se distinguido na campanha da Indochina.
- Cada qual toma sua refeição sozinho?
- Sim... Sempre na solidão.
- E é essa a sua ração de hoje?
O arquivista fez que sim com a cabeça. Com adorável simplicidade, dobrou o possante bíceps e disse:
- O pão é bom. Eu deixo um pedaço sobre o meu banco de carpinteiro quando trabalho... como e trabalho ... trabalho e como ... Ninguém pensa em comida quando está deveras ocupado.
- Ocupado?
- Fique certo, meu amigo, que o tempo não dá para o que desejamos fazer. Os assentos esculpidos à mão que o senhor tanto admirou na igreja são todos trabalho dos nossos monges. O mesmo se dá com estes painéis – e mostrou magníficos trabalhos de entalhe ao longo do vestíbulo interno, representando volutas em forma de capulhos de linho.
- Também os móveis do nosso mosteiro, os armários do vestiário e inúmeras outras coisas... Como vê, até mesmo no sentido material não somos totalmente ociosos.


Prosseguimos pelo claustro. O arquivista mostrou um eremitério próximo e explicou:
- Ali mora um americano... Temos aqui dois americanos. E um padre mexicano. Outro da Áustria. Até um do Japão temos aqui.
- Então vem gente de toda a parte?
- Sim, meu amigo. Mas temos todos um destino comum.

Com um gesto expressivo ele me conduziu por uma arcada gótica a um pátio relvado banhado de sol e flores silvestres. Ali, em filas bem ordenadas, via-se uma série de singelas cruzes de madeira preta, sem nomes nem inscrição. Fiquei calado por algum tempo.

- São muito juntas umas das outras... aquelas cruzes – disse eu por fim.
- Nós não ocupamos muito espaço. Isso porque não precisamos de caixões. Como em vida, basta-nos uma tábua para deitar em cima.


De volta ao eremitério e novamente só, tratei de por em ordem os meus pensamentos. O modo de vida naquela prisão voluntária era muito mais severo do que eu havia imaginado. E no entanto, em vez da tristeza peculiar à penitência, em vez da melancolia do ascetismo que eu esperava, o que parecia impregnado na própria substância daquelas antigas pedras cinzentas era uma alegria despreocupada.

O sino soou mais uma vez. O sol escondera-se atrás dos píncaros da montanha. E com a passagem silenciosa das horas aquela estranha existência que, vista de fora, parecia falsa e contrária ao bom senso, assumiu um tranquilo ar de sanidade, enquanto o mundo hostil e absurdo lá embaixo se apresentava perdido no caos e na confusão.

Lá, em todos os continentes, os homens lutavam desvairadamente para triunfar, e em momentos de lazer só se preocupavam com divertimentos que lhes deleitassem os sentidos. A televisão lampejava, o rádio papagueava, aviões roncavam fendendo as nuvens com maior rapidez que o som, grandes navios atravessavam velozes os sete mares transportando cargas humanas para aqui e para ali, em busca de riqueza ou de prazer.


Ao mesmo tempo, porém, atormentada e perplexa, vítima de profundo desassossego, a humanidade não conhecia o verdadeiro contentamento. Em todas as nações, crescendo cada vez mais, ganhando malignidade cada dia, acumulavam-se os apetrechos feitos pelo homem para a destruição do seu semelhante.

A ciência era agora a senhora, a pobre humanidade a escrava, e o homem, esquecido da simplicidade dos seus antepassados, atolado num tremedal de interesses individuais e de ideais falsos, extenuava-se e suava para fazer girar a roda-viva sem fim da sua própria desagregação. Essa, debaixo do seu fraco verniz de civilização, era a triste epopeia da Terra, um mundo de trágicos desatinos girando pelo espaço, tendo apenas alguns poucos a erguerem o espírito, o coração e a voz para o Criador.

Não seriam, pois, mais sábios aqueles que tinham resolvido passar seus dias nesse retiro monástico, longe do som e da fúria terrestre, perto da abóbada celeste, de maneira que pudessem fixar permanentemente a vista nas verdades eternas e oferecer, talvez, com suas humildes preces, uma reparação pela culpa dos outros?


Poucos, sem dúvida, são capazes de um tal retraimento. A convicção deste fato se arraigou em mim à medida que os dias passavam e eu conheci privações insólitas, o tormento de noites insones e da alimentação espartana, a angústia da solidão nova.

Mas da experiência foi brotando pouco a pouco uma verdade fulgurante. No supremo isolamento da Grande Cartuxa, embora inatingível para a maioria de nós, encontra-se uma salutar advertência – a necessidade imprescindível que todo homem tem de se apartar dos outros de quando em quando e de fazer uma romaria ao próprio coração. 

Colhidos no vórtice da vida moderna, enredados em suas complicações, adquirimos o medo de ficar sozinhos e preferimos procurar qualquer distração a permanecer na embaraçosa companhia dos nossos próprios pensamentos.


A minha estada ali tinha, forçosamente, de chegar a um termo. Quando me despedi dos bons monges e desci à planície embaixo, senti uma estranha tristeza no coração. Mas percebi, claramente, que a minha subida ao convento não tinha sido vã e aprendi a lição da Grande Cartuxa.

A sua mensagem era, manifestamente, esta: que de vez em quando devemos tomar um pouco de tempo às múltiplas preocupações do nosso trabalho e de nossas distrações para reajustar o nosso senso de valores, para colocar em seus devidos lugares os nossos desejos materiais.

Banindo da nossa boca a inevitável desculpa, “Eu bem quisera, se pudesse, mas não disponho de um só momento para mim”, devemos arranjar tempo – cinco, dez, vinte minutos ao fim do dia, uma hora em cada tarde de domingo consagrado a um passeio de meditação, um fim de semana vez por outra passado a completo recolhimento.

Então veremos como são de pouca monta as coisas que perseguimos com tamanho afã; então, talvez, pudéssemos descobrir não só a consciência de nós mesmos, mas – o que é muito mais importante – a existência da nossa própria consciência.
Texto retirado da obra 35 Janelas para o Mundo, Seleções do Reader’sDigest. 1ª Edição, 1960. Editora Ypiranga. (“O que Aprendi na Grande Cartuxa”, A.J. Cronin, pp.286-292).

Se você gostaria de se aprofundar um pouco mais sobre a Ordem dos Cartuxos e sobre o Mosteiro onde o autor do texto acima viveu sua experiência, indico o filme Le Grand Silence (em português, O Grande Silêncio). O documentário de quase três horas é um mergulho interior na rotina da vida monástica cartusiana, sem diálogos e sem nenhum tipo de intervenção tecnológica. Guarde um tempo para viver essa experiência. Ao terminar de assistir você terá tido a impressão de que foi transportado de corpo e alma para a Grande Chartreuse. Não é para qualquer um, mas pode ser para você. Disponível na íntegra no Youtube.