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domingo, 17 de setembro de 2017

Esperança do mundo, by Albert Camus

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Uma das coisas mais prazerosas para um leitor é ter acesso às correspondências, anotações e esboços de seu autor preferido. Esse voyeurismo literário permite-nos conhecer certos aspectos de um escritor que nem sempre estão explícitos em suas obras, como seus anseios e devaneios, suas inseguranças e angústias, mas também seus sonhos e suas fantasias, o que os tornam mais próximos de nós, que não raro mitificamos aqueles a quem admiramos.

Albert Camus foi um desses escritores que tinham por hábito manter cadernos de anotações que se tornariam um verdadeiro “laboratório de criação”, onde apareceriam esboçadas muitas ideias originais vistas posteriormente em suas obras.


Aqui no Brasil a Editora Hedra publicou três dos nove cadernos que Camus escreveu durante sua vida (de 1935 a 1959): Cadernos (1935-37) – Esperança do Mundo; Cadernos (1937-39) – A Desmedida na Medida; Cadernos (1939-42) – A Guerra Começou. Onde Está a Guerra? O primeiro caderno foi publicado em 1962, dois anos após a morte do escritor, e é dele que trataremos nesse post.

Como apreciador da escrita fragmentária (já escrevemos sobre isso aqui no Odepórica), me surpreendi com o fato de encontrar nas breves anotações de Camus, ainda na juventude de seus 22 anos, visões profundas e belas sobre a vida, prova de sua precoce genialidade filosófico-literária. No posfácio desse primeiro caderno, escrito a quatro mãos pelos tradutores e estudiosos da obra de Camus, Raphael Araújo e Samara Geske, lê-se o seguinte:

O caderno poderia ser considerado a primeira obra de Camus: mais do que uma base para o processo de criação de seus romances e ensaios, é também um espaço de experimentação e de escrita. 

A escrita fragmentada das notas, geralmente ligada à ideia de inacabamento, oferece, ao contrário, um campo de possibilidades ao escritor, que não precisa necessariamente estar ligado ao “todo” de um texto.

Algumas notas podem ser encaradas como fechadas em si mesmas: muitas delas encerram pensamentos, proposições morais e éticas, observações sobre o ser humano e a literatura.

Encontramos até mesmo alguns fragmentos poéticos que se assemelham aos haikus japoneses, quando fixam um momento, uma paisagem, um sentimento: “Florença. No recanto de cada igreja, um espetáculo de flores, grandes e brilhantes, peroladas de água, singelas”.



Há beleza por toda a parte, como sempre nas obras de Camus, um escritor que manejava as palavras como um mago o seu ofício. É fascinante o fato de um jovem de vinte e poucos anos escrever algo assim:

“Os sentidos e o mundo – os desejos se confundem. E neste corpo que eu aperto contra o meu, guardo também essa estranha alegria que desce do céu em direção ao mar”.

É sobretudo quando Camus observa a natureza, o que faz com frequência, que seu texto emociona mais profundamente. Ele possuía o dom de colocar em palavras a poesia que se esconde nas manifestações mais simples da vida, embora essa simplicidade ocultasse um profundo questionamento sobre a existência humana.

Viagens e paisagens camusianas

Nesse primeiro caderno as viagens de Camus aparecem em destaque, assim como seu encanto pela natureza, sua quase obsessão pelo céu e pelo sol - sua luz e calor, como se esses elementos fossem um combustível essencial para sua escrita.

Transcrevo a seguir as notas que considerei mais encantadoras, palavras que poderão lhe inspirar na próxima vez que seus pés tocarem a estrada. Permita-se.

Esse jardim do outro lado da janela, só vejo os muros. E algumas folhagens por onde a luz se espalha. Mais alto, ainda as folhagens. Mais alto, o sol. E de toda essa jubilação do ar que se sente fora, de toda essa alegria espalhada no mundo, eu só percebo as sombras das folhagens que brincam com as cortinas brancas. Cinco raios de sol também despejam pacientemente no cômodo um perfume dourado de capim seco. Uma brisa, e as sombras se animam na cortina. Que uma nuvem cubra e depois descubra o sol, e eis que da sombra surge o amarelo radiante desse vaso de mimosas. É suficiente: esse único raio nascente e eis que me inundo de uma alegria confusa e atordoante. Prisioneiro da caverna, aqui estou sozinho diante da sombra do mundo”.

O que faz o preço da viagem é o medo. É que em dado momento, tão longe de nosso país, de nossa língua, um medo indefinido nos toma, e um desejo instintivo de voltar ao abrigo dos velhos hábitos. É a mais clara contribuição da viagem. Nesse momento, estamos febris mas porosos.

O menor choque nos abala até o fundo do ser. Que se encontre uma cascata de luz, a eternidade está lá. É por isso que não é necessário dizer que se viaja pelo prazer. Não há prazer em viajar. Eu veria mais uma ascese. É por sua cultura que se viaja, se se entende por cultura o exercício de nosso sentido mais íntimo, que é o da eternidade. O prazer nos afasta de nós mesmos como o divertimento de Pascal distancia de Deus. A viagem, que é como uma ciência maior e mais séria, nos traz de volta.

Céu de tempestade em agosto. Ventos mordazes. Nuvens negras, ao leste. Contudo, uma faixa azul, delicada, transparente. Impossível olhá-la. Sua presença é um incômodo para os olhos e para a alma. É que a beleza é insuportável. Ela nos angustia, eternidade de um minuto que nós gostaríamos no entanto de estender por todo o tempo.”

“Longa descida resplandecente de sol. Os loureiros-rosa em Mônaco e Gênova cheios de flores. As noites azuis da costa liguriana. Meu cansaço e aquela vontade de chorar. A solidão e a sede de amar.

Enfim Pisa, cheia de vida e austera, seus palácios verdes e amarelos, seus domos e, ao longo do Arno vagaroso, sua graça. Tudo o que há de nobre na recusa de se entregar. Cidade pudica e sensível. Nas ruas desertas da noite, tão perto de mim – que, de passear sozinho, finalmente me entrego à vontade de chorar. Alguma coisa aberta em mim que começa a cicatrizar.

Pisa e seus homens deitados na frente do Duomo. O Campo Santo, suas linhas retas, ciprestes nos quatro cantos. Compreendem-se as querelas dos séculos XV e XVI. Cada cidade conta aqui com sua aparência e sua verdade profunda.

Não há outra vida senão aquela de que meus passos marcavam a solidão ao longo do Arno. Aquela também que me agitava no trem que descia para Florença. Esses rostos de mulheres tão sérias, que um sorriso transformava subitamente. (...) Bebi nas fontes e a água estava um pouco morna, porém bem fluida. Descendo para Florença, eu me pus a contemplar rostos, beber sorrisos. Seria eu feliz ou infeliz? A pergunta tem pouca importância. Vivo com tal ímpeto.

Coisas, seres me esperam e, claro, eu os espero também e os desejo com toda minha força e minha tristeza. Mas aqui eu ganho minha vida de tanto silêncio e segredo.

O milagre de não precisar falar de si mesmo.

Os Giotto de Santa Croce. O sorriso interior de São Francisco, amante da natureza e da vida. Ele justifica aqueles que têm o gosto pela felicidade. Luz doce e fina sobre Florença. A chuva se prepara e enche o céu. Enterro de Giotto; a dor nos dentes cerrados de Maria.
 ♣

(...) As nuvens aumentaram por cima do mosteiro e a noite pouco a pouco escureceu as lápides nas quais se inscreve a moral da qual se favorecem aqueles que estão mortos. Se eu tivesse que escrever aqui um livro sobre moral, ele teria cem páginas, e noventa e nove seriam brancas. Na última eu escreveria: “Eu só conheço uma obrigação: a de amar”. E, para o restante, digo não.

Leia: Esperança do mundo. Albert Camus. Ed. Hedra. São Paulo, 2014.
Outras postagens sobre Camus:







sábado, 4 de maio de 2013

Fragmentos odepóricos: Friedrich Nietzsche, parte 2

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“Ninguém pode construir para ti a ponte sobre a qual precisamente tu tens de passar sobre o rio da vida, ninguém além de ti mesmo. Decerto que há inumeráveis atalhos e pontes e semideuses que te querem carregar através do rio, mas apenas ao preço de ti mesmo; tu te darias em penhor e te perderias. Há no mundo um único caminho que ninguém pode trilhar além de ti: para onde o conduz? Não perguntes, prossegue. Um homem jamais se eleva mais alto do que quando não sabe para onde seu caminho ainda o pode conduzir.”


F.NIETZSCHE In: Schopenhauer como Educador

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Fragmentos odepóricos: Friedrich Nietzsche, parte 1


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Todos estamos acostumados a ler na poesia, na filosofia, nos relatos de viagem e nos textos sagrados de todas as religiões, que a viagem é a metáfora por excelência da passagem do ser humano pela Terra. Sem embargo, por mais clichê que isso tenha se tornado, há quem consiga fazer magia com as palavras e os sentimentos.

Foi navegando por um blog muito especial, A Casa de Vidro, (seguindo um link de outro excelente blog sobre o autoconhecimento, o inspirador Dharmalog), que me deparei com dois pensamentos do filósofo Friedrich Nietzsche que trata com maestria dessa metáfora que não canso de explorar aqui no Odepórica. São tão bonitos e tão especiais que decidi economizar e publicar em duas postagens separadamente, de modo que o leitor terá tempo para ler e refletir sobre as palavras de um dos maiores pensadores que caminharam por este planeta um dia. Boa viagem.




Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem.

Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar.




Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos.



Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: – eles buscam a filosofia da manhã.


Friedrich Nietzsche
(em
 “Humano Demasiado Humano” #638)
Imagens deste post: telas de Donna Walker

domingo, 7 de abril de 2013

Deep Travel - Viagem profunda


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Retomando minhas divagações odepóricas, trago um texto que transcrevi de um site literário de alto nível chamado Bookslut, daqueles que você passa horas lendo artigos incríveis e inspiradores. No caso em questão, o que me inspirou a traduzir o texto que você irá ler, assinado por Jessa Crispin, editora e fundadora do Bookslut.com, foi uma expressão que eu ainda não conhecia nesse meio da literatura odepórica: Deep Travel, Viagem Profunda.

O artigo da Jessa é precedido por uma questão: É possível falhar em uma viagem? Bom, pensei, qual o sentido dessa pergunta? É o que eu estou imaginando? De fato, era. Tudo começou quando a autora do artigo leu no blog de viagens Wolrdhum e depois no Vagabondish uma petit polêmica surgida entre os leitores desses sites discutindo acaloradamente o artigo de uma jovem viajante publicado numa revista eletrônica chamada Thougt Catalog. (links no final do post).

A jovem, que se chama Caitlin Rolls, escreveu um texto intitulado “Viajar para a Europa não mudou a minha vida”. E daí? Daí que o povo ficou doido com as afirmações da moça, que nada mais fez do que levantar a questão de que esse papo de que as viagens transformam as pessoas é uma grande balela.

Eu simplesmente adorei o atrevimento da Caitlin, embora não necessariamente concorde com seus argumentos. Diria que concordo em parte, no sentido de que o que ela diz é um fato real: nem todas as viagens, talvez mesmo a maioria delas, são uma experiência transformadora- o que não quer dizer que a possibilidade de transformação interior não exista nunca. É uma autoanálise interessante esta: quantas viagens você fez que verdadeiramente mudaram  a sua vida? E se mudaram, o que foi que mudou efetivamente?

Resposta não tão fácil, porque mexe com coisas como o ego, você sabe disso; ao mesmo tempo, isso tudo envolve doses generosas de subjetividades, afinal quem poderá saber o que significa para você termos como transformação interior, crescimento pessoal, arrebatamento espiritual, quebra de paradigmas e tantos outros associados àquilo que denominamos de experiência transformadora de uma viagem?

O termo Deep Travel, que a Jessa usou no artigo dela foi retirado de uma obra de Tony Hiss (que ela cita ao longo da leitura) e não é muito explorado, embora a ideia esteja explícita no texto de uma maneira geral. Cá entre nós, achei que o fulano nada mais fez do que criar uma expressão de algo que já existia, mas está valendo, pois chama a atenção ao que de fato importa: o que podemos chamar nos dias que correm de Viagem com V maiúsculo? Viagem de viajante, não viagem de turista. Fazer um safári pela África ou subir uma montanha no Tibet, com todas as facilidades modernas, podemos chamar isso de uma grande viagem, ou como diz o gringo, viagem profunda?

Cada um que tire suas próprias conclusões, é o que posso dizer somente. A leitura que se segue valerá a pena se você se interessou pelas questões formuladas acima. Boa viagem.
É possível falhar numa viagem?


Uma garota (ou um rapaz) viaja para a Europa a fim de se descobrir. E a gente sabe o que acontece a seguir. Esse é um enredo firmemente tecido na nossa cultura. Está nos nossos romances, nos nossos filmes e em nossas memórias. De Henry James a Elizabeth Gilbert (Comer, rezar, amar), essa é a história que contamos a nós mesmos e aos outros: o ato de viajar, ou tocar em frente, irá de alguma forma destilar sua essência interior, um entregar-se a si mesmo, de modo que você descerá daquele trem ou sairá do setor de bagagens do aeroporto uma versão mais você de você mesmo.

Uma garota vai para a Europa para se encontrar. Só que isso não acontece. Ela descobre, ao invés disso, que as pessoas de Paris ou de Londres ou de Barcelona reagem frente a uma garota bonita e jovem da mesma maneira que as pessoas nos Estados Unidos. Ninguém a leva a sério o suficiente para lhe dizer qual o sentido da vida, e ela também não é capaz de encontrar a resposta dentro de si mesma.

Ela volta prá casa e escreve um ensaio para um site chamado Thought Catalog (algo como “Catálogo de Reflexões”) afirmando que as pessoas que falam sobre o lance das viagens que mudam suas vidas estão mentindo para si mesmas; essas mesmas pessoas não apreciaram seu ponto de vista. 

Eu descobri esse ensaio no site de viagem World Hum, um site que “explora como a viagem nos transforma, como ela muda a maneira como enxergamos o mundo e como a própria viagem muda o mundo”.  Depois li o mesmo artigo no Vagabondish e em outros blogs de viagem que tratam dessa temática.



“Essa pessoa está obviamente enfastiada ao ponto de não ficar impressionada com nada”, escreveu um leitor no World Hum, e seu comentário foi seguido por diversos outros simpáticos à sua opinião. No próprio site Thought Catalog, a seção dos comentários ficou repleta de afirmações dizendo que a garota era egocêntrica, estúpida, ingênua, que é como as pessoas reagem a uma jovem garota bonita tentando se expressar.

Eu não tenho certeza se concordo com ela ou não, e eu digo isso como alguém que viaja compulsivamente. Obviamente, o simples fato de sair e de voltar de algum lugar não vai revelar o que Caitlin Rolls (a autora do artigo) maravilhosamente chamou de "a abnegada e graciosa deusa Phoenix que habita em mim." Os escritores de viagens gastam uma enorme quantidade de tempo tentando traduzir em palavras a alquimia especial e transcendental que a viagem (supostamente) oferece, de modo que é compreensível que Rolls pensasse que isso é o que deveria acontecer com ela. Há uma grande quantidade disso na obra de Tony Hiss, “In Motion: The Experience of Travel” (Em movimento: A Experiência da viagem), para quem viajar é a "catapulta para levantar as asas do espírito humano." Tais afirmações geralmente marcam o ponto em que eu fecho um livro, para nunca mais reabri-lo. Mas eu estava interessada na desconexão entre o espírito subindo de Hiss, a divindade inexplorada de Rolls, e minha necessidade de ver o máximo que eu pudesse do mundo.



De acordo com Tony Hiss, há um estado de ser chamado de Viagem Profunda. Ela é provocada pela estranheza do mundo em torno de nós. Uma vida inteira de rotina e vendo os mesmos prédios povoados pelas mesmas pessoas é o que nos torna um pouco negligentes. Nós podemos ser despertados de nosso sono pelo inesperado. Esta é uma ideia interessante. Eu estou interessada nela. Mas Hiss é um pouco vago sobre o processo de transformação. Ele vai de uma ciência específica para palavras como "aperfeiçoamento" e "renascimento" e assim por diante demasiadamente rápido. É como uma equação científica com uma escala em letras muito pequenas dizendo "e então a magia ..." Mas isso tem algo a ver com a tomada de mais informações, alterando a maneira de pensar, ser capaz de confiar em nossa própria capacidade. A viagem não é sobre o prazer, tanto quanto é trabalho duro.

Estou quase do seu lado. Eu acredito fortemente na necessidade humana de aventura, como acredito nas qualidades amortecedoras da rotina. É o ângulo de pseudo-espiritual que eu me recuso a seguir, assim como o argumento que surgiu há alguns anos, o de viajantes x turistas. Agora nós podemos adicionar uma nova categoria. "Bem, OK, você pode ser um viajante, mas você é um Viajante Profundo? Você está aberto à experiência?”. Aliás, “estar aberto à experiência” é outra frase que quase me fez deixar o livro no trem.
Fragmentos

Estou em Paris. Meus pais, que nunca tiveram passaportes, pediram-me para lhes enviar fotos de Paris, mas eu estou tendo uma dificuldade tremenda para puxar a câmera para fora da minha bolsa. Tudo parece demasiadamente com Paris. Eu assisti muitos filmes franceses, vi as fotografias românticas de amantes de mãos dadas na calçada, em frente de belos edifícios com janelas abertas, música, eu acho que Ravel, soando suavemente para fora de um apartamento. Eu poderia muito bem enviar a meus pais um cartão postal, eu acho, ou um clipe do YouTube tirado de um filme.



Da mesma forma, eu estou atuando em um verdadeiro roteiro de Paris. Eu estava aqui há dois anos, também, e cada vez que eu estou aqui eu consigo andar por aí sozinha, meio de fossa, um pouco à deriva. Ando pelas ruas com vestido preto e óculos de sol, embriagada às 11 horas e pensando apenas no homem com quem eu não estou. Os homens mais velhos me puxam para o lado e enchem o meu copo de vinho e me dizem coisas em francês que eu não consigo entender, mas acaba sendo perfeito. Eles me contam suas próprias histórias de amor que deram errado, como um consolo e um ato de camaradagem, e enquanto eu enxugo as lágrimas fico divagando e imagino se existe uma equipe de filmagem nas proximidades, ou se a minha vida fosse, de repente,  narrada por Marguerite Duras. Me pergunto se o espírito da cidade já infectou minha vida amorosa e este é o resultado inevitável. Como se houvesse outra maneira possível de estar em Paris.

Estou chateando a mim mesma com esse enredo de Paris. Começo a me perguntar por que eu vim para cá, ao invés de, sei lá, Bratislava. Isso - eu digo a mim mesma – não tem volta.



“O que estou fazendo aqui?" - O mantra fundamental se não a oração de todos os viajantes. Pois é precisamente em uma viagem, pela manhã, em uma cidade estranha, antes da segunda xícara de café começar a fazer efeito, que você experimenta de maneira mais palpável a estranheza de sua existência banal. Viagem não é mais do que uma forma relativamente saudável de narcótico, afinal "Andrzej Stasiuk é um escritor polonês que também conhece a compulsão para viajar, e ele escreve muito bem sobre isso em A Caminho de Babadag: Viagens pela Outra Europa. Ele é mais realista, menos romântico sobre os efeitos finais do que Tony Hiss. Aquela qualidade narcotizante de viajar parece mais precisa do que a revelação espiritual de Hiss. Você pode ver a interconexão de todas as coisas vivas sob o efeito do LSD. Você também pode ver insetos rastejando sob sua pele.

Hiss quer descobrir o que o movimento faz com o cérebro humano. Por que as pessoas odeiam voar e detestam os aeroportos, tendo que tirar os sapatos na segurança, mas amam e romantizam os trens. (Eu estou interessada nisso também, mas Hiss não vai atrás de uma resposta); ele quer saber o que acontece com uma pessoa que se vê rodeada por gente que só fala o idioma polonês, o resultado de uma pessoa perdida em uma cidade estrangeira (outra coisa que não o lance vago da "transformação"). Ele cita Rumi, Pico Iyer, e Albert Camus. Ao ler Hiss, começo a me perguntar se ele quer vender essa ideia de Viagem Profunda. Ele repete essas palavras repetidas vezes, como um mantra.

Acho que o que ele quer dizer com Viagem Profunda é o estranhamento intenso que pode ocorrer a alguém em uma viagem, a maneira com que uma pessoa tem que reconfigurar sua rotina e os mecanismos para enfrentar desafios a partir do zero, uma vez que os antigos não vão funcionar. Mas a melhor descrição da viagem profunda não vem de Hiss, mas Stasiuk:

É bom ir para um país que você praticamente nada sabe, onde tudo deve ser vagarosamente reconstruído. Em um país em que você tudo desconhece, não há nenhum ponto de referência. Você luta para associar as cores, cheiros e lembranças obscuras. Você vive meio como uma criança, ou um animal. Objetos e eventos podem trazer algumas coisas à memória, mas no final, eles permanecem sendo não mais do que o que eles são de fato. Eles começam apenas quando você os experimenta e desaparecem quando outros surgem em seu lugar.



Ele está certo, no entanto, ao tratar de "um país que você praticamente nada sabe a respeito." É tão fácil abrir mão de sua rotina diária em um país que você conhece através da arte, do cinema e da literatura e ficar só com um de seus enredos. Eles praticamente são vendidos e embalados a vácuo no Duty Free,  ao lado da prateleira de bebidas. As capitais europeias mais visitadas, as que mais aparecem nos cartões postais, sofrem com o peso de tantas fotografias, de tantos jovens à espera de sua transformação.

"A observação elimina os objetos e as paisagens", escreve Stasiuk. "A destruição e o declínio vêm a seguir. O mundo é consumido, como um mapa esfolado, por ser demasiadamente observado."

Um desses homens em Paris começou a falar sobre como tudo isso fez com que a narrativa (de viagem) perdesse seu rumo. Ela desconhece sua própria finalidade. Eu ouvi isso através do filtro da viagem. Escrever, este homem me diz, costumava ser sobre a informação. A escrita de viagens tinha como mote trazer à vida os lugares do mundo que ninguém jamais havia visto, como no caso de Mary Wollstonecraft, que prendeu seu bebê ao corpo e saiu para escrever sobre os confins dos países nórdicos, ou Rebecca West, perambulando através dos Balcãs devastados pela guerra. Mas agora há muito pouco ainda não visto.



Há histórias definitivas sobre quase todos os lugares na Terra agora. E com tantas outras maneiras de se obter informações - se você quer saber sobre a Albânia, por exemplo, agora você pode muito mais facilmente consultar os albaneses - o sentido da escrita de viagens se perdeu no caminho.

Eu costumava ler uma grande quantidade de narrativas de viagem, de modo que conheço bem essas histórias. Levava estes livros para casa, mesmo sem saber nada sobre o autor ou a obra, pois o que eu buscava era apenas um pouco de “aventura de poltrona”. Isto parou por volta da época em que resolvi entrar na internet bêbada à procura de tarifas aéreas internacionais (foi a maneira que encontrei de superar a minha inércia com sede em Chicago e sair do país).

Não foi fácil encarar o fato de que eu poderia conhecer esses países sozinha; minhas viagens para fora do país não foram o que você chamaria de transformadoras. Assustadoras, sim; às vezes infernalmente deprimentes, humilhantes e, em seguida, alegres, divertidas, solitárias. Na Irlanda, não fui transformada ao encontrar as raízes da minha família nem saí de lá com um novo sentido de lar; em Buenos Aires, a minha vida não foi transformada através da carne vermelha, tango, e sexo com homens latinos. OK, talvez a carne vermelha, um pouco.
 



Viajar é uma escolha. Ou você vai, ou não. Permanecer em casa oferece igualmente muitas oportunidades de crescimento, de transformação, de conexão cerebral e quaisquer outros termos da moda que você gostaria de usar aqui. Se você é do tipo de pessoa que está com mais medo de ficar em casa do que vagando do lado de fora, talvez pegar a estrada seja a opção mais adequada.
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Fragmentos odepóricos


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Gosto imenso de anotar em pedaços de papel pensamentos que colho em minhas leituras, que leio em postagens de redes sociais, em e-mails que recebo, até mesmo em paredes pichadas pelos muros da cidade, como o haikai da Alice Ruiz que transcreverei lá embaixo, finalizando essa postagem.  

Há de tudo um pouco nessa minha pequena coleção de frases, pensamentos, ditados, aforismos e poemas: Fernando Pessoa, Mário Quintana, Vinícius de Moraes, gigantes da poesia, ou Paul Brunton, Franz Rosenzweig e Martin Buber, grandes filósofos e espiritualistas, exemplos que escolhi para marcar essa pequena postagem, nos moldes da escrita fragmentária, a qual muito aprecio.

Uma pausa nos textos longos, às vezes, é mais do quem bem-vinda. Namastê!
Aquela paralisação assombrada, com a qual se iniciava toda a série sintomática que percebemos, acontece quase sempre em um ponto do caminho onde se rasgam os véus da distância e um destes grandes e maciços montanhosos (Homem – Mundo – Deus) se torna visível, por uns instantes, para o caminhante. É por entre essas três cordilheiras antiquíssimas que discorrem as vias da vida. Franz Rosenzweig



Quando não se sabe aonde se quer ir, todo caminho leva a lugar nenhum. Maxime Vangelier
Viajar é mudar a roupa da alma. Mario Quintana


Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto. Esse eterno levantar-se depois de cada queda. Essa busca de equilíbrio no fio da navalha. Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo infantil de ter pequenas coragens. Vinícius de Moraes


Traga sempre à lembrança o fato de que você é um peregrino, e que o mundo não é mais que um lugar, e que as situações em que você se encontra, ou cria para si, devem ser consideradas não somente do ponto de vista mundano, mas de uma busca por nós mesmos. Paul Brunton


Não ande atrás de mim, talvez eu não saiba liderar; não ande à minha frente, talvez eu não queira segui-lo; ande ao meu lado, para podermos caminhar juntos. Provérbio Ute
Eu não evoluo, eu viajo. Fernando Pessoa


Esvaziei a mala, olhei no fundo dela, limpei, e estou indo... preenchê-la com coisas novas. Sensações novas, situações novas, pessoas novas. Tudo novo. Caio Fernando Abreu
É necessário fazer a alma ver coisas que nunca viu. Montesquieu


A melhor estrada para o progresso é a estrada da liberdade. John F. Kennedy
Todas as jornadas possuem destinos secretos, os quais o viajante desconhece. Martin Buber
Acima de tudo, busque o brilho no mundo ao seu redor, porque os maiores segredos estão escondidos nos lugares menos esperados e aqueles que não acreditam na magia jamais os encontrarão. Roald Dahl



O que importa verdadeiramente na vida não são os objetivos que marcamos, senão os caminhos que seguimos para conquistá-los. Percy Shelley
Se você quiser viajar para longe e ligeiro, viaje leve. Deixe para trás suas invejas, ciúmes, rancores, egoísmos e medos. Césare Pavese
Que viagem
assim que você
chega
a abóbora vira
carruagem.

Alice Ruiz


sábado, 3 de novembro de 2012

Brasileza, by Patrick Corneau


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Minhas caçadas literárias odepóricas têm rendido bons frutos. Um deles, grata surpresa: Brasileza- suítes brasileiras, deliciosa leitura que retrata de maneira muito simpática e honesta nosso povo brasileiro. O autor se chama Patrick Corneau, um professor universitário francês que andou perambulando pelas bandas de cá, imagino eu, na década passada, já que ele não informa a data, mas cita em notas de rodapé eventos desse período. Também não importa, o que interessa é que o Patrick conseguiu publicar um livro que traça um perfil surpreendentemente real daquilo que podemos chamar de ethos brasileiro – o conjunto de costumes e hábitos de um povo que acabam por conferir a ele uma identidade própria, que o diferencia de outras culturas.

E qual a melhor maneira de conhecer o caráter de um povo senão viajando e convivendo com os locais? Foi seguindo esse princípio que o professor e escritor francês Patrick Corneau, botou o mochilão às costas e se jogou pelos quatro cantos desse imenso país.


Seu livro apresenta três capítulos e confesso que não entendi bem a conexão com o termo “Suíte”- talvez tenha a ver com o significado do termo em francês (série, conexão) e que nós logo associamos ao jargão musical. Não entendi, mas achei bonito. Na Suíte Brasileira I (Aqui e Agora) é onde acontece a narrativa de viagem propriamente dita, onde conhecemos os deslocamentos do viajante francês.

O relato se costura entre cidades conhecidas, grandes capitais e depois o matão amazônico. Assim, a aventura começa por São Paulo, e passa nessa ordem pelas seguintes localidades: Rio, Parati, Salvador, Brasília, Iguaçu (com esticadinha ao Paraguai), Belo Horizonte, Ouro Preto, Fordlândia, Manaus, Belém e, finalmente, São Luiz do Maranhão.


Surpreende a qualidade das observações do Patrick sobre a cultura e os fatos históricos dos locais que ele visita; não há futilidade nem nas coisas fúteis como provar uma tigela de açaí, por exemplo; nenhum comentário surge sem que dele se aprenda alguma coisa interessante, sem que se agregue algo que nos ajude a construir pouco a pouco a imagem do povo dos trópicos formado de culturas tão diferentes e por isso mesmo tão complexo em sua própria compreensão. É possível, por conta disso, que ao estrangeiro seja mais fácil construir essa identidade brasileira, porque o olhar do outro vê coisas que nós, de tão habituados, já não mais conseguimos enxergar e, pior que isso, saibamos valorizar.

A empatia é imediata: o autor ama o Brasil e os brasileiros, e nós adoramos aqueles que nos amam e admiram, porque brasileiro de verdade tem o ego inflado que só. Mas nem vamos entrar nesse assunto, que é muito instigante mas que foge do nosso tema. Voltemos ao livro e às viagens. O Patrick deve ser muito organizado, além de inteligente e culto. Faz links interessantíssimos entre aquilo que vê e aquilo que leu e pesquisou. Leu bem, aliás; cita bons mestres que ainda hoje são referência nos estudos sobre o povo brasileiro, como Gilberto Freyre, Claude Lévi-Strauss e Sérgio Buarque de Holanda. E cita Clarice, duas vezes, porque tem bom gosto ou porque foi bem assessorado, disso não sei.


Como disse, sua viagem começa por São Paulo, cidade caótica, de trânsito indomável e à mercê da violência. A poluição e a falta de horizonte são fatores que obrigam o paulistano a buscar alternativas para sobreviver à falta de beleza e de espaço, numa cidade onde tudo acontece em direção ao céu, onde “tudo se apresenta sobre um único plano vertical como uma espécie de muro contínuo e cinzento de concreto”, observa muito bem o autor.

Diz o viajante que o que choca o olhar europeu, ao visitar São Paulo, não é a novidade, mas a precocidade das devastações do tempo. “O Novo Mundo é sempre novo, tanto que vestígios sucedem vestígios sem que o tempo traga uma valorização. Assim que um bairro é edificado às pressas – portanto mal na maioria das vezes -, o ciclo da degradação começa: as fachadas se descascam, a chuva e a poluição deixam manchas e sulcos, o estilo cai de moda, a ordem primitiva desaparece sob um novo frenesi de demolições.”


As observações e os comentários do Patrick ensinam a enxergar além das aparências, algo que se deve tentar praticar nos deslocamentos. Por exemplo, dizer que São Paulo é uma cidade feia é algo óbvio, ainda mais se no contexto houver uma comparação com outra cidade, como o Rio de Janeiro, cartão postal do país. Diz o autor que os que declaram que São Paulo é feia são vítimas de uma ilusão, uma vez que sua beleza selvagem não nasce de sua natureza urbana, e que somente a estética do caos pode nos ajudar a apreender esse monstro.

“Não, São Paulo nunca me pareceu feia, mas indomável, delirante e profética como o cenário de um filme-catástrofe e ébria de movimento, atarefada, ofegante... Finalmente, o que fascina nessa cidade, tão irritante para nossos hábitos de temperança, é essa surpreendente capacidade de fazer misturas, mestiçagens entre o primitivismo e a modernidade, ligando o que nós separamos.”


“Nessa turbulência, essa efervescência cuja razão não distinguimos claramente – uma espécie de condição natural -, mistura complexa de doçura e violência, de vida pública e de vida privada, de razão e afetividade, de individualismo e de clãs há uma ordem sutil que nos conduz necessariamente – se quisermos compreendê-la – a afinar nossa sensibilidade e nossa inteligência.”


Próxima parada: Rio de Janeiro. Mais uma vez, o óbvio, mas não há como não falar do Rio e dos cariocas sem falar da praia, a praia brasileira que “é um espetáculo terrestre luminoso, ensolarado, atmosférico, natal, (...) onde nosso corpo se esparrama, se dilata".

“Diz-se que Ipanema destronou Copacabana nos desfiles de tecidos minúsculos. Mas nada de seios de fora. Mal visto, esse gesto caracterizava outrora as escravas. (...) No ano passado, numa praia de Fortaleza, fui surpreendido pelo gesto de uma bela Lolita que, saindo da água, jogara com pudor sobre si uma saída de banho ligeiramente transparente como para esconder o esplendor de suas formas no espelho parabólico da concupiscência. Jean Baudrillard, fino observador, disse tudo: Os brasileiros (as) têm uma maneira de estar mais nus do que nós, pois eles estão nus por dentro. Nós apenas tiramos a roupa”.


Passagens interessantes sobre o Rio de Janeiro, numa delas me veio à memória velha canção dos Paralamas, aquela que diz – referindo-se à capital fluminense - “cidade que tem braços abertos num cartão postal, com os punhos fechados na vida real”, e o Rio me parece ser bem isso, realidade que se projeta país afora, com certeza, pois mudam as paisagens, os sotaques, mas o povo continua sendo o mesmo, compartilhando desde sempre as desigualdades sociais terceiromundistas.

É possível, tanto no Rio quanto em São Paulo enxergar a beleza implícita no contraste dessas desigualdades, e o jogo na verdade desse relato de viagem é esse, talvez a mensagem que o autor quis passar, a de que o Brasil continua a ser uma terra de contrastes, como sempre foi. Toque de poesia do autor:



“Rio, noite lá fora, jantar num clube chique na Urca. Beleza das favelas que se transformam em constelações de luzes multicolores, e escorrem dos morros para o mar como um diadema colocado sobre a cidade. Unidade sideral que se procuraria em vão durante o dia, emblema de inversões com as quais não se cessa de brincar aqui: é a miséria diurna que produz a maior beleza noturna, como se a injustiça social pudesse ser compensada, mesmo ‘esteticamente’.”

Em Parati o viajante encontra as portas das igrejas escancaradas...vem daí a deixa para falar de algo que me interessa particularmente, a religiosidade popular brasileira. Pela narrativa, imagino que o autor entrou naquela igreja de Parati no momento em que acontecia uma missa carismática, do tipo em que o povo se solta mais, cantando e até dançando, dependendo da maior ou menor exaltação do pároco. Se aqui já começamos a nos acostumar com a “performance” carismática, lá fora o lance ainda parece bem peculiar:



“Assistimos a uma pregação interativa: o padre interpela os fiéis, cita os Evangelhos, questiona, manda levantar a mão. Ele entoa em seguida um cântico, uma pequena orquestra o acompanha, a assembleia bate palmas e entra no embalo. O padre parece feliz com o ambiente, ele se volta para o fundo do coro e lança (em francês): ‘Então padre, você canta conosco?’. Sentado ao lado das crianças do coro, um velho padre francês balança timidamente a cabeça grisalha, com ar incomodado, embaraçado, sem dúvida por esse fervor bastante (demais) tropical. Esse catolicismo convivial explica-se em grande parte pelo caráter intimista que pode revestir no Brasil a devoção. Mais religiosidade do que religião, é um culto amável, quase fraterno, que não cabe bem no cerimonial e suprime as distâncias. Diz-se que mesmo a ponta do Vaticano, se se instalasse no Brasil, não resistiria à irreverência local e que em alguns dias o papa teria um apelido de camarada.” 


Em Salvador o viajante se pega olhando para o céu noturno em busca do Cruzeiro do Sul e a Bahia tem as noites mais lindas que alguém pode ver na vida.... isso quem diz sou eu, mas não são as estrelas do céu de Salvador que impressionam o viajante francês, senão os tambores do Olodum, os de lá do Pelourinho, “num ambiente superaquecido, apimentado pelo cheiro de suor, os rostos hesitando entre furor dionisíaco e terror místico, os dançarinos, em frente à orquestra, avançavam por ondas sucessivas, como imantados pela energia radiante das percussões”. Diz o Patrick que não é o rumor do trânsito que ritma Salvador, mas o bater incessante dos tambores que, de quando em quando e onde quer que se esteja, marca as horas. Impossível discordar dele.



Brasília, BSB, “asfalto e concreto demais, cidade matemática onde se sente que um samba não pode nascer”, escreve ele. Fiquei surpreso ao ler o que vem a seguir, uma passagem que tem muita afinidade com uma das canções mais marcantes e idolatradas da Legião Urbana, Faroeste Caboclo: “Uma cidade de faroeste, humana e suja, miserável e cheia de vida, com suas reverberações, seus ônibus, suas mães de família, trombadinhas... enfim, um repouso benfeitor para os aventureiros e para o olhar do visitante, uma cidade perfeita!”


Falar de Brasília é também falar de Niemeyer, evidentemente. Pois não há neste país cidade onde a arquitetura seja mais discutida do que na capital. Ame ou odeie (seu trabalho), Oscar Niemeyer é um gênio, mas nem por isso temos que gostar do seu estilo, de sua marca. Embora suas obras nem sempre agradem (como aquela pavorosa mão sangrenta no Memorial da América Latina, em Sampa), jamais alguém fica indiferente à presença de algum de seus inúmeros e representativos trabalhos. Tudo bem, nem Gaudí consegue agradar todo mundo sempre, então não tem problema.

E a questão é que a arquitetura brasiliense vai muito além das aparências, cheia de simbolismos que só. Curiosamente, o autor não se prende à arquitetura da capital, mas à imensidão mágica do céu do planalto central:


“Na Praça do Três Poderes, desesperado por não ter nada que se pudesse fotografar, entendo que ali estou pelo ‘amor ao céu’. Para o céu imenso de Brasília, ‘The Big Sky’ – diriam os americanos-, céu cuja doçura caída sabe-se lá de onde parece quase nos fazer esquecer a terra. Era então essa a finalidade da viagem? Seu oriente? A imensidão, simplesmente. Imantada pela visão nostálgica dessas nuvens de altitude ao mesmo tempo tão longe e tão perto, suspensas na vastidão de um céu original que parece ter sido pintado por Dalí ou Tanguy, entrevistas outrora em algum documentário e que me acenavam. O que havíamos esquecido não nos esquece. Sonhar, viajar, têm por base um sous-venir que não cessa, que persiste em sobrevir ao seio de tudo. Já que no mundo falta espaço, a dimensão é a atração dos turistas que nos tornamos. Só a Sibéria, a Antártida e o Saara podem rivalizar com a imensidão brasileira, mas o clima naqueles lugares é desastroso. É por isso que o governo brasileiro, em sua sabedoria, construiu Brasília e cravou suas florestas virgens de estradas...”

Por mais que tenha vontade de compartilhar cada passagem dessas suítes brasileiras, sinto que já escrevi mais do que deveria; já li muitos artigos e algumas obras de visitantes estrangeiros escrevendo sobre o Brasil, mas nenhum escritor me pareceu captar tão bem o ethos brasileiro quanto o Patrick Corneau.

Gostei demais de sua obra, que segue o estilo da escrita fragmentária, tipo de literatura onde “o narrador viajante desloca-se, com frequência sem transição, da nota histórica, lendária ou própria do guia do viajante para o devaneio poético, da descrição da monumentalidade ou da paisagem humana para uma micro-narrativa de enredo sentimental ou aventuroso, sempre fiel a uma estratégia da alternância, potenciando o caráter dinâmico de uma escrita fragmentária e de algum modo adotando a técnica do patchwork” (Maria de Fátima Outeirinho, “Fragmento e Narrativa de Viagem” em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/6712.pdf).

Viajar é responder a um chamado, escreve o Patrick Corneau, já finalizando seu texto na estimulante Suíte Brasileira III (Travelogue). O trecho que transcreverei abaixo é das coisas mais bonitas e mais profundas que já li sobre a arte de viajar, algo que eu adoraria ter escrito algum dia. Brasileza é uma obra para ser lida e relida com imenso prazer. Merci, Patrick!



Que proveito tirar da viagem senão o de assumir totalmente a condição de estrangeiro? A estranheza dos estrangeiros, mas também nossa própria estranheza? Um idioma que não compreendemos, uma sociedade e um cotidiano que parecem nos rejeitar, céus que não nos viram nascer. Nada para nos confortar. A viagem quebra em nós uma espécie de cenário interior. Não é mais possível dissimular: eis-nos desnudos. A cortina dos hábitos, a tessitura confortável dos gestos e das palavras em que o espírito se apazigua se ergue lentamente e desvela a face pálida da inquietude.

Ficamos reduzidos ao osso das coisas, e cada coisa nos remete a nossa angústia, a qual lhe dá sorrateiramente seu preço. O homem está face a face consigo mesmo. E é, no entanto, por aí que a viagem o ilumina. Um grande desacordo acontece entre ele e as coisas. Entre ele e essa parte de si mesmo à qual era acostumado e que não reconhece mais. Nessa falha, a música do mundo entra mais facilmente. Nesse despojamento de si, a menor árvore e o sorriso mais leve se tornam a mais terna e a mais frágil das imagens. De novo se aprofunda em nós, com que uma fome da alma, um fervor reencontrado: não estamos prestes a acolher os rostos dos homens enraizados em sua terra, os monumentos nos quais séculos se resumem. Por último, essa fração de nós mesmos desprendida da vida trivial onde rastejamos.


Para dar a cada ser e a cada objeto seu valor de milagre, foi-nos preciso pagar o imposto de um curto abandono. É um de meus exercícios favoritos quando viajo: mudar de pele, pegar um destino-minuto, entrar na vida de um outro e trocar sua opacidade pela minha. As oportunidades são múltiplas para quem não se resigna em ser si mesmo e que, como o Zelig de Woody Allen, entra no molde ou no papel que lhe propõem. Os restaurantes, principalmente quando o serviço demora, são perfeitos observatórios da diversidade humana e favorecem esse exercício de compaixão.

Assim era aquela pizzaria no centro de Manaus, onde parecia ter encalhado uma clientela de viajantes que não queriam se afastar de seus hotéis. As pessoas sozinhas são sempre mais interessantes: não solicitadas por uma conversação ou a presença de outrem, parecem menos protegidas. Um olhar que vagueia pelo salão diz mais do que uma conversa educada. Um gesto ligeiramente inesperado revela de repente uma existência com seu peso de fatalidade, suas dificuldades, suas falhas secretas. (...)


“A finalidade da viagem é a de sentir-se próximo dos Longínquos e consanguíneo dos Diferentes. Sentir-se em casa na concha dos outros. Como um bernardo-eremita. Mas um bernardo-eremita planetário. (citando Jacques Lacarriere, escritor viajante)”.
Saudades do Brasil...



No vôo noturno São Paulo/Paris, dois franceses se jogam pesadamente nos bancos à esquerda e à direita do meu. Com roupas de “mochileiros em férias”, eles começam tirando os sapatos, enrolando-se nas cobertas e botando os pés descalços na divisória entre nossos assentos. Um deles inclinou a poltrona antes da decolagem e passou os braços para trás do encosto, o que parecia incomodar o passageiro de trás. Apoderando-se de minhas duas braçadeiras (“é ‘meu’ lugar”), eles vão passar uma parte do vôo falando por cima de minha cabeça, passando revistas sem emitir o mínimo “com licença”.

Volta à França. Acabaram-se gentileza, sorrisos e boas maneiras. Bem-vindo ao mundo moderno da indelicadeza e da pangrosseria. Desgraça. Saudades do Brasil.
Leia: Brasileza: Suítes Brasileiras. Patrick Corneau. (trad. Mônica Cristina Corrêa). São Paulo: Perspectiva, 2007