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terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mongólia, by Bernardo Carvalho

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Minha última leitura revelou-se uma grata surpresa: Mongólia, de Bernardo Carvalho, brasileiro do Rio de Janeiro que vem produzindo uma respeitada carreira literária. Já de cara adorei a capa do livro: fotos em p&b do próprio autor, dá vontade de ver o que tem dentro; um mapa da Mongólia nas páginas 7 e 8 entrega: temos relato de viagem pela frente. E dos bons.

A narrativa de Mongólia é muito interessante: um diplomata carioca aposentado recebe uma missão especial do Itamaraty. Um jovem fotógrafo havia viajado para a Mongólia há muitos meses e ninguém mais sabia do seu paradeiro. Ao diplomata coube a tarefa de enviar alguém à Mongólia em busca do rapaz aventureiro, um subordinado (também ele diplomata) que, assim que descobre de quem se trata, recusa o trabalho. Mas não era um caso a que se pudesse recusar, de modo que o enviado, chamado pelos mongóis de Ocidental, vai a contragosto cumprir sua missão, relatando os acontecimentos de sua viagem em um diário.

A partir desse ponto o leitor conhecerá a Mongólia através de duas fontes narrativas: o diário do Ocidental, lido pelo narrador principal, e o diário que o rapaz sumido escreveu, lido pelo diplomata que parte ao encontro dele. É através do diário do fotógrafo que o Ocidental tenta buscar as pistas que o levarão ao encontro do rapaz. E é pelo olhar dos dois que o leitor irá conhecer um pouco da cultura e da tradição mongol.

No que se refere às pistas deixadas pelo diário do Ocidental, dos lugares por onde andou, há uma passagem muito interessante em que o autor coloca, na boca de um personagem mongol (Purevbaatar) encarregado de guiar o Ocidental pelas estepes, o significado do termo ‘lugar’, que no contexto da cultura nômade ganha uma dimensão diferente quando comparado com a nossa compreensão da mesma palavra:

“Talvez você não tenha entendido o meu trabalho quando me contratou. Não brinco em serviço. Você me pediu para fazer o mesmo percurso que fiz com ele há seis meses. Acontece que esse percurso depende das pessoas que encontramos no caminho. Num país de nômades, por definição, as pessoas nunca estão no mesmo lugar. Mudam conforme as estações. Os lugares são as pessoas. Você não está procurando um lugar. Está procurando uma pessoa. Pois é atrás dela que eu estou indo.”

O mérito de Bernardo Carvalho reside na maneira como ele constrói o diálogo entre as personagens através de seus diários de viagem, numa linguagem simples e bastante descritiva. Vale a pena saber que o autor efetivamente viajou pela Mongólia (como bolsista, em 2002), o que de fato acrescenta à narrativa uma sensação de realidade factual que dá à história um frescor cativante.

Não posso dizer muito mais sobre o enredo sem correr o risco de entregar a surpresa guardada para o final. Por isso, vamos analisar algumas passagens que me pareceram interessantes sob o ponto de vista da literatura odepórica. O que nos revela o olhar do Ocidental? Quais foram as impressões anotadas em seu diário pelo jovem fotógrafo? Como a cultura ocidental dialoga com a cultura dos nômades? Respostas a essas questões vão surgindo aos poucos durante a leitura. Provocação, preconceito, curiosidade, temor, julgamento, tudo isso afeta e ao mesmo tempo constrói o olhar do estrangeiro. Lições que podemos aprender, nós que também adoramos viajar. Mais um motivo para encarar, com prazer, as 185 páginas de Mongólia.


Do diário do desaparecido (pág.38)

5 de julho. Voamos de Ulaanbaatar para Khatgal, na região de Khövsgöl, terra de xamãs na fronteira com a Rússia. O Antonov aterrisa aos sacolejos na pista de terra mal nivelada. Os passageiros pulam em suas cadeiras. Alguns estrangeiros se entreolham e riem. É como pousar num campo esburacado. Batnasan, nosso motorista, um homem grande e boa-pinta, nos espera com seu furgão russo ao lado da pista. Vamos para Tsagaannuur, ao contrário dos outros passageiros, que vieram passar o fim de semana às margens do lago Khövsgöl, na tranqüilidade de um campo turístico com uma paisagem alpina e familiar ao fundo. É o começo da minha viagem.

Meu objetivo é fotografar os tsaatan, criadores de renas que vivem isolados na fronteira com a Rússia, entre a taiga e as montanhas. Estão em vias de extinção. Abastecemos em Khatgal. O vilarejo tem jeito siberiano. Não há um bairro de iurtas, como na maioria das cidades da Mongólia. As iurtas – ou gers, em mongol – são tendas circulares, com estrutura de hastes de madeira, cobertas por uma camada de feltro no interior, outra intermediária de tecido impermeável ou plástico e por último uma lona branca, que funcionam como isolantes no calor ou no frio. Mantêm o frescor no verão de trinta graus e o calor no inverno de menos trinta.

A fenda redonda no topo serve tanto de saída para a chaminé do fogareiro central como de ventilação, e é de especial utilidade durante as tempestades de areia mo deserto. Serve também de relógio de sol, deixando entrar os raios que, ao iluminarem progressivamente diferentes pontos, marcam as horas do dia. A porta, de madeira, fica sempre virada para o sul, por causa do sol provavelmente.

Há todo um cerimonial e uma série de regras de comportamento para quem entra numa iurta, a começar pela interdição de bater na porta, que é sagrada. Bater indica hesitação do viajante e, por conseguinte, constitui uma ofensa aos moradores, como se ele não os considerasse dignos de recebê-lo. Fáceis de montar, as iurtas são ideais para os nômades. Não poderia haver arquitetura mais adequada a um país sem árvores, castigado pelo vento e por oscilações extremas de temperatura.

Já nos vilarejos do norte, como em Khatgal, as casas são de madeira, barracões com telhados de chapas metálicas pintados de verde ou vermelho. É uma região de florestas. A população local não é formada pela maioria étnica mongol, os khalk, mas pelos darkhad, que têm um sotaque forte e são orgulhosos de sua identidade, como o nosso motorista. A viagem até Tsagaannuur deve levar dois dias. O terreno é especialmente ruim e acidentado. Quando não são os buracos e as montanhas, são os pântanos. (...)

Geou pela manhã. Chegamos a Tsagaannuur no final da tarde. É um vilarejo conhecido pelos bêbados, perdido às margens de um pequeno lago. Precisamos pegar uma autorização na polícia de fronteira para visitarmos os tsaatan. A polícia fica num barracão de madeira. No interior do barracão, um grande mapa da região ocupa toda uma parede coberta por uma cortina de cetim vermelho. O delegado é um sujeito gordo, sempre acompanhado por dois soldados simpáticos. Toda a situação tem um quê de peça de Gogol. Seguimos viagem à procura do guia que poderá nos levar a cavalo até os tsaatan, pelas montanhas e pela taiga. (...)

Seguimos de carro à procura de um lugar protegido onde armar as barracas. O terreno é pantanoso. Somos devorados pelos mosquitos. Quando finalmente surge um canto que me parece adequado, Batnasan se recusa a se aproximar com o furgão. Diz que ali é impossível, diz que é proibido e aponta para um pinheiro em que está amarrada uma faixa azul. O local é sagrado, está povoado de espíritos. Alguém pode ter morrido ali.

Estamos em terra de xamãs. Quem viaja por toda a Mongólia vai encontrando pelo caminho amontoados de pedras, como pequenas pirâmides com faixas e estandartes azuis fincados no topo. São os ovoos, que marcam os locais onde há maior proximidade entre o céu e a terra e maior facilidade de comunicação com os espíritos. Designados pelos xamãs, em geral ficam em pontos altos da paisagem, mas nem sempre. E é de bom agouro para o viajante jogar uma pedra e dar três voltas em torno do ovoo, em sentido horário, sempre que depara com um. Na Mongólia, a terra reflete o céu. A sombra das nuvens corre pelo deserto e pelas estepes. O céu está sempre tão perto. A paisagem não se entrega. O que você vê não se fotografa.


Reflexões sobre o nomadismo (do diário do Ocidental, pág 137)

As estradas da Mongólia na realidade são pistas que o motorista tem que decifrar entre dezenas de outras, são marcas de pneus em campos de pedras, desertos e estepes. Marcas deixadas por pneus que, de tanto incidirem sobre o mesmo caminho, acabam criando uma posta. Muitas vezes, no deserto, por exemplo, não há nenhum ponto de referência além das trilhas deixadas pelos pneus de outros carros. Os motoristas insistem em segui-las, como quem toma o caminho seguro, tradicional. O bom motorista é aquele que sabe achar a sua pista no deserto. A boa pista. A repetição é a condição de sobrevivência.

É essa também a cultura dos nômades. Apesar da aparência de deslocamento e de uma vida em movimento, fazem sempre os mesmos percursos, voltam sempre aos mesmos lugares, repetem sempre os mesmos hábitos. O apego à tradição só pode ser explicado como forma de sobrevivência em condições extremas. A ideia de ruptura não passa pela cabeça de ninguém. As estradas só se tornam estradas pela força do hábito. O caminho só existe pela tradição. É isso na realidade o que define o nomadismo mongol, uma cultura em que não há criação, só repetição. Decidir-se por um caminho novo ou por um desvio é o mesmo que se extraviar. E, no deserto ou na neve, esse é um risco mortal. Daí a imobilidade de costumes.
Os dois motivos (losangos ou círculos entrelaçados) que sempre se repetem na decoração das portas, portões, móveis, tapetes, etc., por toda a Mongólia, representam o infinito e o casamento, o que só confirma a obsessão pela estabilidade e pela tradição numa sociedade que em aparência é completamente móvel, a ponto de não haver espaço para nenhum outro movimento.

Entre os nômades, o interessante não é o sistema e os costumes, que são sempre os mesmos, mas os indivíduos. A graça de visitar as iurtas é a surpresa do que se vai encontrar, a diversidade dos indivíduos que ali estão fazendo as mesmas coisas. O nomadismo em si não tem nenhuma graça. A mobilidade é só aparente, obedece a regras imutáveis e a um sistema e a uma estrutura fixos. São as pessoas. Talvez por causa da vida dura e isolada, sem surpresas ou novidades, as visitas em geral sejam tão bem-vindas. O nomadismo é uma estrutura regulada pela necessidade e pela sobrevivência nos seus fundamentos mais essenciais.
Não há liberdade, pois não é possível escapar a essa regra (em última instância, poderia dizer isso de qualquer outra cultura). É uma vida regrada pelas necessidades básicas da natureza. Uma vida simples, reduzida ao essencial para a sobrevivência. O que conta são os indivíduos, quando não sobra mais nada.

Leia:

Mongólia. Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

domingo, 29 de agosto de 2010

La Paz existe? By Osman Lins y Julieta de Godoy Ladeira

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Sabe aquela viagem, aquela em que nada dá certo, ou quase tudo sai errado, em que desgraça pouca é bobagem? Já passou por isso? Pois quem viaja muito certamente deve colecionar alguns episódios, senão uma viagem inteira em que nada do que havia sido previsto saiu da forma tal como imaginada ou sonhada.

O interessante é que quase sempre aqueles “programas de índio” acabam se tornando seus melhores relatos de viagem, aqueles que os amigos sempre pedem para você repetir numa roda de papo descontraído entre um chope e outro. A bem da verdade, ninguém está interessado naquela sua viagem interessantíssima a Manaus ou a qualquer capital de estado, muito menos nas suas impressões sobre determinado museu, estádio de futebol, ruína arqueológica de nome impronunciável, nem mesmo de seus mergulhos fantásticos nas águas claras das Antilhas ou de Fernando de Noronha. Todos fingimos interesse, essa é a verdade.

Em contrapartida, todo mundo quer saber daquele fora que você deu na casa de um parente que mora no exterior, do medo que sentiu ao se meter numa favela mexicana, das bizarrices que testemunhou no submundo de um inferninho qualquer de um país do leste europeu, da roubada em que se meteu quando achou que era tudo de bom passar um mês entre os habitantes de uma tribo no Pará, e por aí vai. Estou mentindo? Claro que não, exagerando um pouco, talvez.

Já li muitos relatos de viagem em que a narrativa ganha fôlego quando o viajante consegue descrever com emoção uma das etapas duras do caminho; quanto mais o fulano ou a fulana sofrem no percurso, mais a gente tem vontade de saber como se dará o desfecho, via de regra torcendo para que tudo termine bem. Essa atração que temos em ler ou ouvir a respeito dos perigos e percalços de uma viagem alheia não é masoquismo nem sadismo, mas um sentimento de empatia que tem origem em camadas profundas do nosso inconsciente.

Rites of passage. By Pauline Murray

De um modo geral, toda viagem possui uma dinâmica básica que obedece às estruturas de um rito de passagem: a partida, o período limiar e a chegada. Na partida percebe-se o momento da separação, quando aquele que viaja abandona temporariamente seu lar, sua família e tudo o que faz parte de sua vida cotidiana; o período limiar, ou a liminaridade, é aquele em que a viagem de fato acontece, a fase intermediária entre a partida e a volta ao lar; finalmente, temos a chegada, o período de agregação, quando aquele que partiu volta transformado após a experiência vivida na liminaridade. A viagem, portanto, é uma facilitadora desse processo de transformação.

É claro que nem toda viagem se enquadra nesse esquema, proposto de maneira singular por Victor Turner, um antropólogo muito bacana que publicou um estudo fantástico sobre o tema, O processo ritual, infelizmente fora de catálogo e difícil de achar em sebos. Se antropologia é sua praia, essa obra é um must.

Quando falamos de ritos de passagem, ou ritos de transformação, podemos relacionar o processo à ideia da jornada do herói, tema magistralmente abordado pelo mitólogo norte-americano mais extraordinário de todos os tempos, o Joseph Campbell, autor que deveria ser lido e estudado em todas as escolas desde os primeiros anos da adolescência.

O herói, (sempre alguém que viaja!), parte em busca de um tesouro e tem como objetivo principal o de estabelecer a ordem (simbolicamente, a ordem interior – seus conflitos, e a exterior, que ocorre geralmente como conseqüência); durante a jornada, muitas dificuldades irão aparecer, dragões simbólicos que devem ser enfrentados para que o ciclo se complete. Vencendo os dragões, o herói volta ao lar fortalecido e transformado, daí a ideia de que aquele que parte nunca é o mesmo que retorna.
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Isso tudo explica, ou tenta explicar, o porquê de nossa atração pelas narrativas de viagem cheias de situações de risco e de obstáculos a serem superados; inconscientemente, colocamo-nos no lugar do herói ou da heroína e torcemos para que consigam enfrentar e vencer os dragões que vez ou outra surgem pelos caminhos vida afora. Uma delícia poder sacar essas metáforas...

Em La Paz existe?, pequeno e divertido relato de viagem escrito a quatro mãos por Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira temos um exemplo clássico de uma viagem que saiu totalmente do controle, apesar de toda a programação antecipada do casal junto a um agente de turismo.

O título do livro, um trocadilho genial, entrega o destino: La Paz, Bolívia. A história, um arraso, literal e metaforicamente falando: um casal de escritores decide visitar a capital da Bolívia, La Paz, depois de uma rápida excursão cheia de contratempos ao Peru. Corria o ano de 1977, de modo que você já pode ir imaginando o que deveria ser uma viagem, de ônibus, há mais de trinta anos, pelas estradas montanhosas de países pobres como o Peru e a Bolívia.

Excursão paga, saem da cidade de Cuzco em direção a La Paz:


“Tínhamos pago, em Cuzco, uma excursão através do lago Titicaca, coordenada com transporte terrestre e assistência até La Paz, incluindo condução para o hotel. Mas para que tudo desse certo era preciso estar no embarcadouro, em Juli, antes das nove e meia, quando saía o hydrofoil.”

Tudo teria corrido bem se (sempre há um “se”) de fato o casal conseguisse chegar a tempo de embarcar no hydrofoil (sabe-se lá o que é isso!), a embarcação que faria a travessia do sagrado Lago Titicaca.

Daí que surge a surpresa dessa narrativa, ora contada por Osman, ora por sua mulher, Jul, cujas reflexões vão pontuando oportunamente o texto, num ying/yang literário cheio de frescor. A viagem, enfim, acontece num outro plano de ação, onde o turismo empacotado dá lugar a uma aventura quase agoniante; o casal de escritores, como que querendo exorcizar a malfadada viagem, surpreende seus leitores com uma narrativa anti-viagem, retratando um episódio que de certa maneira não passaria de uma banalidade, o que só não acontece porque ambos dominam muito bem a arte da escrita. São de Jul as palavras transcritas abaixo, que bem servem como amostra:

Família de qarwas. By Roberto Mamani

“Volto o rosto. Não quero que se saiba até que ponto minha resistência cede. A resistência, como um balão, pode ir sendo mantida com sopros até certo ponto. Nunca se sabe qual. Recordo um filme onde o encontro desse ponto obsedava um homem até a loucura. A fraqueza tem escalas, oscilações. O ponto extremo flutua. O barco se aproxima do pontão.”

O primeiro entrave na viagem acontece quando chegam ao povoado de Puno e descobrem que deveriam haver obtido, em escala anterior, um visto para poderem atravessar o lago. Sem o visto, nada feito. O jeito era voltar todo o caminho outrora percorrido com muito desconforto. Jul não se conforma em recuar, e afinal de contas, qual viajante não se sente extremamente frustrado em ter que refazer, por conta de alguma adversidade, um trecho não prazeroso de uma etapa de viagem?

“O que vejo, à minha frente, são estradas de ir. Não sei se existirão, mas cada instante aqui parece-me perdido, temos que ir, o dia avança, devemos avançar com ele. Para mim, todo caminho de volta é como se tivesse deixado de existir.”

A solução aparece de maneira incerta numa viagem de táxi a Desaguadero, rumo à fronteira. O dinheiro, assim como o tempo de que dispõem para as formalidades burocráticas, é bastante curto. Ainda assim, sobram momentos para reflexões, e algumas cenas, percebidas da janela de um velho automóvel, ajudam a dar um pouco de cor à narrativa. São de Osman as palavras que se seguem:

“Mal saíramos, vimos um grupo de índios, mulheres e homens, que dançavam ao ar livre. Chegava à estrada o som dos instrumentos, flautas, pandeiros, tambores, um som campestre, fresco, antigo, os dançarinos erguiam pernas e braços, batiam com os pés, saltavam, meneavam o corpo, todos de roupas novas, o chão de barro e as paredes de adobe realçavam o colorido das vestes, todos agitavam borlas e bastões de cor, as saias enfunavam-se, fitas ondulavam no ar, era uma cena virgem e que evocava – nas cores, no movimento, na força – as que vemos em certos quadros de Bruegel, como a Dança de Camponeses ou a Dança Nupcial.”

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The wedding dance. By Pieter Bruegel

“O que agora recordo aconteceu a seguir? Antes? Mais tarde? Acreditei ver nuvens muito altas, sobrepostas, de formas singulares. Logo supus que me enganava e que as nuvens, de fato, eram uma alta montanha. Enganava-me ainda: eu via o Titicaca, que, de certo nível e por um efeito ótico, uma insólita incidência da luz, parecia, dada a sua extensão, erguer-se, voar sobre si mesmo. A visão do lago, aliás, naquela rota que em grande parte o contornava, mudava a cada instante, de modo que qualquer descrição, aqui, estaria sempre muito aquém da verdade. Posso dizer apenas que eram visões grandiosas, nas quais a superfície lacustre e cumes elevados trespassavam-se; e que, apesar da grandeza, essas visões confrangiam pela ausência de vida e movimento: o que se movia era a paisagem mesma.”

Lake Titicaca. By Martin Gray

O interessante nessa narrativa é que a viagem, tal como deveria ter acontecido, não se realiza; por conta dos contratempos, do tempo curto de que dispunham para visitar os locais agendados na excursão, da falta de dinheiro, nada mais importava a não ser chegar ao destino final da jornada, a capital La Paz.

Ainda assim, com a habilidade de quem sabe observar e narrar os acontecimentos que se sucedem, Osman consegue a proeza de transmitir com muita clareza e senso crítico a realidade de uma gente sofrida, que em muito se assemelha à nossa, visto na obra pelas comparações que faz entre o povo andino e o brasileiro. Numa dessas passagens, porém, o autor comenta que das inevitáveis diferenças existentes entre os dois, não chegou a presenciar, em nenhum momento, gente pedindo esmolas, como se por lá não existisse o triste e comum hábito da mendicância tão presente na cultura brasileira.

Tanto Osman quanto Jul percebem no povo andino uma dignidade ímpar, proporcional talvez à sofrida realidade de sua vida; as mulheres nunca pedem dinheiro ou qualquer tipo de ajuda nesse sentindo, embora oportunamente insistam para que os turistas lhes comprem seu artesanato típico, única maneira de arrumar algum capital para obter aquilo que não conseguem produzir.
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Bolivian woman. By Clarke Spin

“Desço o vidro do carro. Ar de chuva, cheiro de lama. E elas passando, centenas, com seu andar lento e certo. As índias: bonitas, em geral com boa pele, aspecto saudável. Nada do raquitismo, do corpo judiado, do rosto prematuramente gasto do brasileiro pobre. Nenhum defeito físico, nenhuma face cavada, nenhum olhar de fome. Imagino que todo o dinheiro ganho seja para a comida. Mas ainda assim. Como conseguirão? Não se deve pensar em termos de todo o dinheiro, mas do pouco dinheiro, entre nós sempre insuficiente para a manutenção, para a preservação de um mínimo de saúde. Tipo de alimentação mais forte? É possível.”

Woman of La Paz. By Clarke Spin

“Parecem distante e salvas (até quando?) da febre consumista. A moda não afeta nem altera suas roupas. Pouco se distingue do corpo de cada uma. As pernas, hastes frágeis, surgem de muitas saias como de um grande e crespo repolho. Essas pernas curtas e finas não combinam com o rosto nem com a imponência do corpo – mas dão caráter à figura, um traço de Goya quebrando todo o equilíbrio do que seria quase um Da Vinci. Os rostos ovalados. Todos.”
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Boliviana mucho lôca

E assim vai transcorrendo a viagem que parece nunca terminar. Nos dois últimos capítulos dessa breve narrativa, o casal passa apuros numa longa jornada de ônibus, que em determinado momento, após sucessivas travessias perigosas pelos Andes, resolve não mais prosseguir: acabara o combustível. A esperança de chegar a La Paz ainda naquela noite já estava quase perdida até que um outro carro aparece para salvá-los do pesadelo. Algumas horas depois, chegavam ao final da viagem. Depois do banho tomado e da fome saciada, Osman, já estirado na cama do hotel diz a Jul que assim que chegar a casa irá escrever um relato sobre a viagem dos dois.

“Eu pensei ainda que afinal havíamos chegado, que estávamos na cidade, uma cidade para nós desconhecida, cujo nome expressava o que o homem sempre busca e nunca, nunca chega a conquistar: La Paz.”

Salt Lake. Uyuni. Bolívia


Leia: La Paz existe?. Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira. 116 págs. Editora Summus, 1977. Está fora de catálogo, mas no site da Estante Virtual há vários exemplares disponíveis.

Mais de Osman Lins? Postei aqui no blog um outro relato de viagem desse maravilhoso autor pernambucano. Para ir direto ao outro post, clique bem aqui.

Mais sobre Bolívia? Vale visitar o blog http://brokeinbolivia.blogspot.com/ - é de lá a linda foto do Salt Lake aí de cima.





quinta-feira, 17 de junho de 2010

Satori em Paris, by Jack Kerouac

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A editora L&PM presenteia mais uma vez os admiradores de Jack Kerouac com o recente lançamento de Satori em Paris, obra publicada originalmente em 1966 e inédita por aqui. Graças ao empenho da L&PM, aos poucos vemos crescer nossa coleção de obras da literatura beat, sobretudo os títulos do mestre Kerouac.

Tentarei ser imparcial aqui, e sinto que para isso terei que comentar Satori em Paris valendo-me de duas abordagens. Primeira delas: ler a obra sob a ótica de alguém que nunca leu Kerouac. Segunda: ler Satori sob a ótica de quem conhece a vida e a obra do autor.

Kerouac partiu para o andar de cima em 1969, aos 47 anos. Satori em Paris é um de seus últimos livros, já muito distante da euforia e vibração de On the road, seu trabalho mais conhecido. Encharcado de álcool, em Satori Jack pouco ou quase nada lembra o aventureiro jovem e inconseqüente que vagabundeava pelos Estados Unidos nas décadas anteriores, quando a estrada era o seu yoga, a sua união com a transcendência.

Pintura: Jack Kerouac, The Gary Buddha

Pode-se dizer que, até certo ponto, Satori em Paris não deixa de colher semelhanças com outras deambulações do escritor; até arrisco afirmar que nunca antes dessa viagem Kerouac havia definido tão objetivamente o motivo de sua partida. A história é simples: em 1965, contando com quarenta e três anos, Jack viaja à França com o intuito de colher informações sobre seus ancestrais, um homem na meia-idade em busca de suas origens, de seu próprio nome, Kerouac:

“Fui à França e à Bretanha apenas para olhar esse meu velho nome que tem cerca de trezentos anos e jamais mudou em todo esse tempo, pois quem mudaria um nome que significa simplesmente Casa (Ker), No Campo (Ouac) – ”

Dez dias é o tempo que dura a sua jornada; apenas dez dias, e pouca coisa realmente acontece nesse curto período de tempo. Por isso escrevi aquilo sobre a ótica de leitura de Satori pois, para um leitor ainda virgem na leitura de Kerouac (ou mesmo aquele que leu apenas On the road), não consigo imaginar sequer um único motivo para indicar essa leitura. Consigo inclusive enumerar alguns motivos para não indicá-la, fosse esse o caso.

O principal motivo para deixar essa obra de lado já aparece no título: Satori. Não se iluda: se houve algum satori nessa experiência de Kerouac em Paris, ele ficou de fora da história. Palavrinha bonita esta, Satori. No Zen, significa “percepção interior do ser em uma ordem mais elevada”. O satori implica numa expansão da consciência, um estado de iluminação espiritual, a mesma noção de samadhi, para o hinduísmo.

Desenho: Jack Kerouac, Face of the Buddha, 1956

Bom, nada disso acontece nesse relato de viagem. Pelo menos, não dessa forma. Por conta disso, se você não acompanha a trajetória kerouakiana vai achar esse relato uma perda de tempo, por isso deixe Satori em Paris de lado e tente Vagabundos iluminados, Viajante solitário ou Big Sur, três ótimas escolhas pós leitura On the road.

Muito bem. Agora vamos pensar em Satori em Paris de uma maneira diferente, supondo que você já conheça um pouco de literatura beat em geral e de Kerouac em particular. De primeira, um fato: duvido que esta obra esteja entre as mais queridas dos leitores de Kerouac, mas mesmo assim há alguns pontos em Satori que devem interessar a quem busca entender um pouco mais a personalidade desse grande escritor.

A viagem é um ponto relevante: Kerouac busca a estrada para encontrar respostas. Ainda que não tenha efetivamente seguido o curso completo do itinerário a que se havia proposto cumprir – por conta das bebedeiras constantes - parece que no final sentiu ter atingido seu objetivo. Até escreveu uma passagem bonita, que transcrevo abaixo:

“Eu já estava com saudade de casa. Contudo este livro é para provar que não importa como você viaje, quão ‘bem-sucedida’ seja sua jornada, ou abreviada, você sempre aprende alguma coisa e aprende a mudar seus pensamentos.”

A questão do satori. É preciso entendê-la dentro do contexto dessa narrativa. Kerouac aproximou-se do budismo em 1954, após uma fase de grande esgotamento intelectual e provavelmente psíquico também; sentindo-se sozinho e desamparado, encantou-se com uma máxima do budismo que afirma que “toda a vida é sofrimento”. Foi um gatilho que disparou na hora certa: o budismo, uma filosofia que, finalmente, era capaz de traduzir suas mais profundas questões interiores.

Jack começou a ler os grandes textos do budismo e também do hinduísmo e toda aquela sabedoria oriental lhe fazia muito sentido e, podemos supor, dava-lhe certo conforto espiritual. Traduziu do francês os sutras do budismo e chegou a escrever uma biografia do Buddha. Levou tudo aquilo muito a sério, ainda que jamais tenha deixado a birita de lado. O budismo, como não poderia deixar de ser, ainda mais em se tratando de um autor tão intenso quanto Kerouac, acabou entrando no corpo de sua obra, pelo que podemos afirmar que na bibliografia kerouakiana existe uma “fase (zen) budista”, tal como a fase azul ou rosa de um Picaso ou a fase católica de um Bob Dylan.

Entretanto, e isso é muito relevante, Jack jamais abandonou sua fé católica, por mais simpático que tenha sido à doutrina budista. Acredito que nesse ponto Jack não se diferencie em nada dos adeptos da Nova Era, onde a mistura de várias idéias, condutas e práticas espirituais não entram em conflito com a religião do praticante. Em outras palavras: pode-se ser católico, frequentar a missa aos domingos, mas isso não impede a pessoa de participar de outras práticas religiosas, como a umbanda o candomblé ou o kardecismo, fato tão corriqueiro aqui no Brasil. Acredito que Kerouac não via o budismo como uma outra religião (coisa que, teoricamente, não é mesmo), mas sim como uma sabedoria que vinha preencher um espaço que sua religião não era capaz de preencher.

E é isso o que justifica aquilo que eu estou tentando escrever aqui tomando certo cuidado com as palavras. Pois, a partir do momento em que você interpreta o conhecimento de uma tradição espiritual fora do contexto em que ele foi escrito, por exemplo, buscando idéias aleatórias fazendo-as se encaixar um sua própria linha de pensamento ou discurso (“toda a vida é sofrimento”), corre no mínimo dois grandes riscos: o primeiro, a deturpação do conhecimento, e o segundo, talvez menos perigoso, pecar pela superficialidade.

E Kerouac foi superficial em Satori em Paris? Absolutamente. Mas um leitor desavisado vai achar que sim. Só que, no contexto da obra e da vida de Jack (uma frase absurda já que em Kerouac a vida e a obra estão completamente conectadas), o uso dos termos budistas soam totalmente plausíveis, fazendo sentido onde aparentemente não há sentido algum.

E essa complexidade kerouakiana faz parte do jogo, meu amigo, por isso é que considero a leitura dos livros de Kerouac um desafio muito mais do que uma diversão. Daí que, para arrematar, dou a dica: o satori de Jack aconteceu sim, no contato dele com o outro (no caso, os outros). Uma questão, portanto, de alteridade, a mensagem que o filósofo Martin Buber nos deixou, a de que o ser humano só se realiza na relação com o outro. Pegou?

Por isso, se você gosta de Kerouac, experimente ler Satori em Paris como quem busca conhecer um pouco melhor a alma de um homem que apesar de haver sucumbido ao vício, conseguiu ser lúcido o suficiente para escrever sobre as condições mais profundas da alma humana. Finalizo com as palavras do escritor:

“Meus modos, por vezes abomináveis, podem ser meigos. Virei um bêbado enquanto envelhecia. Por quê? Porque gosto do êxtase da mente. Sou um Desgraçado. Mas amo o amor.”


Leia: Satori em Paris. Jack Kerouac. Tradução de Lúcia Brito. Coleção L&PM POCKET. Verão de 2010.
As fotos desse post foram tiradas de um blog bacaníssimo: http://rarerarefind.blogspot.com/






sexta-feira, 9 de abril de 2010

Clássicos da Literatura Odepórica: Marinheiro de primeira viagem, by Osman Lins

.(Imagem tirada do site www.osman.lins.nom.br)

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Eis um relato de viagem diferente. Nada de roteiros previsíveis, narrativas lineares e visões manjadas do mundo. Osman Lins, esse viajante que por acaso também foi um homem das letras, escritor de prestígio, traduzido para o francês, alemão e o inglês, era culto, espirituoso e tinha uma alma poética, coisa que você percebe assim, quase sem querer, entre uma passagem e outra desse relato de viagem publicado originalmente em 1963.

Osman Lins nasceu em Pernambuco no ano de 1924 e faleceu em 1978. Não vou me ocupar de sua biografia aqui, mas indicarei no final desse post um site completo e gostoso de ler sobre a vida e a obra dele, e sugiro que o leitor e a leitora passem por lá depois de acabar aqui. Entretanto, posso adiantar que para Osman, o ano de 1961 foi um dos mais importantes de sua vida. Aos 36 anos de idade, esse escritor pernambucano ganhou uma bolsa de estudos da Aliança Francesa - a qual soube aproveitar muito bem, dando um giro pela Europa num período de seis meses. Visitou a França, Bélgica, Holanda, Suíça, Itália, Inglaterra, Espanha e Portugal, nessa ordem tal e qual.

Começa o seu relato pelo fim, escrevendo desde um velho quarto de hotel de Lisboa, nada mais melancólico. Melhor: agradavelmente melancólico. Talvez você estranhe, assim como eu, a narrativa em terceira pessoa, adotada pelo viajante:

“Acaba de chegar a Lisboa, está num velho hotel – cujo nome, por displicência ou fadiga, não reteve – e onde jamais voltará a hospedar-se, mesmo que um dia aqui regresse, pois virão em breve demoli-lo, por causa do metrô. Hotel condenado à morte. (Vibram, implacáveis, as perfuratrizes.) É um dos últimos homens a dormir neste quarto.”

Duas ou três páginas e você logo se acostuma ao detalhe da terceira pessoa. Os textos são curtinhos, impressões de uma viagem já guardada na memória, como num flashback cinematográfico cheio de atitude. O autor é muito estiloso, você irá notar logo nas primeiras páginas, e passada aquela estranheza inicial, tudo flui que é uma beleza. Coisa boa é ler um relato de viagem escrito por quem sabe escrever.

Gostei de muitas coisas desse livro do Osman Lins, e a principal delas foi a maneira como o autor expressou seus sentimentos durante o deslocamento pelas inúmeras cidades que visitou. Seus textos são sempre fragmentados, dando a impressão de serem reflexões sobre a vida mais do que especificamente sobre a viagem que está acontecendo, mas ao mesmo tempo, de um jeito simples e poético, entregam de maneira sui generis a alma dos lugares, a essência de uma cidade - o que quase sempre se encontra muito distante dos pontos turísticos obrigatórios. Esse tipo de percepção é comum na linguagem fotográfica e dou um exemplo: uma imagem do Pão de Açúcar ou do Corcovado nos remete a uma ideia bastante óbvia do Rio de Janeiro, certo? Mas uma foto da calçada de Copacabana, com seu peculiar desenho ondulado pode mostrar, de um modo insinuante, muito mais do “espírito” carioca do que o Corcovado, tão associado que está ao papel de cartão postal da cidade.

É isso o que Osman Lins apresenta, não sei se intencionalmente, em seu relato de viagem, o que resulta num texto encantador, como você irá notar em algumas passagens que irei transcrever abaixo, mas antes disso quero comentar sobre outra qualidade que prezo demais nesse relato, algo que o distingue das narrativas de viagem vulgares, dessas que se aproximam mais de um guia turístico do que de literatura propriamente dita: o foco no ser humano.

Poucas são as passagens em Marinheiro de primeira viagem em que o autor não reserva uma observação, por menor que seja, sobre alguma pessoa; pode ser uma criança brincando num parque, um casal de idosos atravessando uma rua, uma babá passeando com um carrinho de bebê, um mendigo pedindo esmolas, um turista atrapalhado com um mapa nas mãos, qualquer coisa parecida com isso, não importa. Há uma necessidade - isso se torna evidente ao longo da leitura - em se observar o comportamento humano, mas de maneira respeitosa, sem julgamentos, quase como se estivéssemos lendo o relato de um voyeur, só que sem a conotação sexual ligada ao termo. Agucei sua curiosidade? Então veja um exemplo do que acabo de escrever acima e diga se não tenho um pouquinho de razão. A cena se passa num museu em Amsterdã. (Môça Olhando Van Gogh)

Sapatos baixos, calças azuis, casaco de lã negro. Bolsa de vime. Um chapeuzinho branco, cônico, trançado. Na mão, um volume de Shelley. No Museu Municipal, vai de quadro em quadro, de sala em sala, senta-se, levanta-se. Contemplação solitária e evidentemente encantada. Até então, vira reproduções ou quadros isolados. Agora, como num gráfico, vê a trajetória do artista, sua busca, os espectros de Milet, Seurat, Cézanne. Vai de quadro em sala, senta-se, levanta-se. O chapeuzinho cônico. Estudo de mãos. (Suas mãos são finas.) Gestos. (Os seus são lentos.) Uma linha estridente, outra que se perde, frágil, num pulso nu. Placidez e crispação. Busca. Também ela, na vida... Gestos. Em sombras e traços. Lavradores. Comedores de batatas. O velho, seu rosto nas mãos, este sombrio e mudo desespero. Amplo, geral e tão familiar, tão o desespero dela mesma, com seu chapéu trançado. Metamorfoses. O ir da sombra para a claridade, nesta arte que aos poucos amanhece, com a luz dos girassóis e dos trigais em fogo. Amarelo, luz, laranja, cadeira vazia. A solidão do cachimbo esquecido junto a um punhado de fumo. O quarto e a intimidade do jarro, a bacia, o pedaço de pão, a toalha pendurada, a janela entreaberta. Um pequeno mundo iluminado, onde os olhos febris, durante inumeráveis noites, longas horas, viram vermelhos e sonhos, verdes espaços, nenhum vazio, o artista que não dorme, debatendo-se entre cores. Amaria este mundo, se dele participara?

Observa o pintor. O chapéu de palha, a barba descuidada. Sente seu olhar que oprime, é como um peso, dor de mão estendida, não para de pedir. Mão que sempre oferece. E as mãos abandonadas das mulheres. E os rostos sofridos. Doçura inicial, rústica e surpresa, angustiada nos últimos retratos. Não nas paisagens, cada vez mais fluidas. Assemelham-se a plantas estes barcos, plantas aquáticas, o bar é lírico, as árvores manchas que fogem. A silhueta da ponte imita a da contempladora. Nuvens. Fumaça. Campos de trigo girando em círculos quentes, céu e labaredas. Levar consigo uma reprodução. Fazer com que caminhe, a sua vida, para uma identificação com a bela verdade do quadro. Tê-lo à sua frente, ali onde bem longe, um dia, a claridade das manhãs encontre alguma paz adormecida, algum desejo satisfeito, um pouco de beleza conquistada.


Lentamente, afasta-se. Calças azuis, casaco de lã. Vai envolvida em céus iluminados, trigais e girassóis, barcos, árvores flamantes. Ecoam docemente, seus passos miúdos, nas largas tábuas do chão. Compra a reprodução, Praia de Saintes-Maries. Admira-se de que, lá fora, Amsterdam esteja fria e que seja tão pálido o seu ar. Lerá talvez em Shelley: “Quando as candeias se apagam, morre a luz desfeita em pó.” Não totalmente. Em parte, apenas. Muito ficará, numa clareira, lembrança cintilante.



Que lembranças mais belas podem haver de uma visita a um museu do que esta que acabamos de ler? Quantas memórias de viagem não guardamos de situações que, objetivamente, não possuem qualquer importância? Somos capazes de lembrar detalhadamente daquela cafeteria onde apenas entramos para beber um cappuccino e descansar as pernas, mas não temos a mínima lembrança de como era, em seu interior, a catedral gótica situada em frente ao estabelecimento, a mesma em que gastamos horas apreciando os vitrais, atentos às informações detalhadas de um prestativo guia bilíngue.

Por isso achei esse texto de Osman Lins tão interessante, por apresentar uma maneira instigante de observar cenas ou situações corriqueiras aparentemente sem nenhum atrativo, mas que em suas palavras se tornam momentos quase mágicos por conta de sua sensibilidade e da beleza de sua escrita. E há outros momentos como esse que acabamos de ler. Separei alguns para sua apreciação. Não deixe de reparar na linguagem poética de alguns deles, na riqueza das descrições, no estilo do autor (e no seu momento cômico na pequena passagem intitulada Chanson). Em sua totalidade, essa obra de Osman Lins serve como um excelente modelo para quem deseja fazer, de suas memórias de viagem, algo que definitivamente mereça ser lido por alguém.

Volendam

Está sentado no barco, ao sol matinal. Vibra um sino, o barco larga as amarras, dirige-se a Volendam, cidade de pescadores, onde, segundo o poético anúncio de viagens, “tudo continua como no tempo de Vermeer”.


Contempla, sentindo a alma leve, as pessoas num restaurante, à beira do cais, as velas dos minúsculos navios, uma igreja bizantina, pombos e gaivotas, a cidade que se afasta. E também ao lado do seu barco, aquela manhã de maio, que navega sobre o mar sereno como ó céu.

Desce do barco, apanha agora um ônibus. A seu lado, vai a moça holandesa. Saia comprida, de listas brancas e azuis, uma blusa negra, cachecol multicor, um xale azul aos ombros. E óculos.

Na paisagem verde e calma, nenhum cartaz de publicidade. Corvos. Vacas de colete vermelho. Por toda parte, gente de pincel na mão, pintando as esquadrias das casas. Como se o país fosse um navio. Associações inesperadas: gaivotas voando sobre um rebanho de ovelhas; vacas e bois deitados entre as tulipas.

Afinal, Volendam. Casas bem cuidadas, envidraçadas, cheias de jarros pesados e com tapetes cobrindo as mesas, como em certos quadros de Rembrandt. Os interiores são mais claros; os tapetes, os mesmos. Anda pelas ruas, sentindo penetrá-lo aquela ordem pacífica. Cruza com mulheres e homens, todas elas vestidas à maneira de sua vizinha de ônibus, e os homens de negro, boné de pala curta, calças balão.

Desce ao porto. Cheiro de peixe, panos secando, gritos de gaivotas. Bandeirolas nas extremidades dos mastros, redes de pescar estendidas, parecendo véus de gaze negra. Mulheres tricotando, à porta das lojas. Os pescadores, com seus sapatos de madeira e o andar bamboleante, seguem ao longo do porto, falam para outros, que respondem dos navios. Um jovem, da proa de um barco, grita para uma mulher que está no cais. Ela é moça, ergue o braço, dá um adeus, sorrindo. E o grito é como que uma âncora lançada. Para sempre.


Quadro

Era domingo e chovia em Antuérpia, mas não naquele instante, em Grote Market. Jorravam, no meio da praça, as águas do chafariz. Em torno, poucas pessoas, todas imóveis. Nas graves fachadas dos prédios, lampiões enormes. Brilhavam, na catedral, os ponteiros do relógio dourado e no extremo da torre a bandeira belga ondulava. No alto de uma casa havia um bergantim, noutra uma águia, um leão noutra, noutra um cão sentado. Então começaram a soar, melodiosos, os sinos da catedral, uma menina surgiu e atravessou a praça, vagarosamente, em trajes de Primeira Comunhão, segui-a um menino de cabeça baixa, seu bandolim às costas, como um anjo músico. Dir-se-ia que era exclusivamente para ela, para a feliz menina de branco, que cantavam os sinos, na manhã de maio.

Sono (em Nápoles)


Viu crianças dormindo sobre uma carroça em movimento, garções dormindo no fundo de um bar, mulheres dormindo na sala, com a porta aberta, homens dormindo nos ônibus. Em certa rua, afastada do centro, uma barraca ocupava toda a largura da calçada. Tinha mesinhas ao lado, era coberta de esteira, com jarros de flores nas mesas, também na coberta. Um menino, com um regador, molhava a calçada e a rua. Depois, molhou um pedaço de sombra, sob a coberta de esteira. Colheu, num jarro, uma flor vermelha, forrou na sombra úmida o jornal, espreguiçou-se e deitou-se, com a flor no peito.

Chanson (em Paris)

Era uma linda tarde de verão, larará-larará, pôs numa sacola sanduíches, La Jalouise, uma garrafa dágua, apanhou o metro, larari, foi para Vincennes, se deitou sob as árvores, ô-laraô, e leu, comeu, bebeu, dormiu e desdormiu, laraí-lararaí, e o parque era como os parques numa tarde estival, crianças brincando, tralalá, vendedores de gelados, tralali, grupos que conversam, lalá, namorados, lalaí-lari, passeantes solitários, lourourô. E luz e sombra entre as árvores, cheiro de folhagem. Et cet aprés-midi fut pour lui une joyeuse chanson. Larará…



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Para conhecer melhor o autor e sua obra acesse o ótimo site da Profa. Dra. Ermelinda Ferreira, da Universidade de Pernambuco (UFPE) clicando bem aqui.
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As obras mais conhecidas de Osman Lins são as seguintes: O visitante (1955), Os gestos (1957), O fiel e a pedra (1961), Lisbela e o prisioneiro (1964), Avalovara (1973).
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Marinheiro de primeira viagem, esse delicioso relato de viagem de Osman Lins, está fora de catálogo. A última edição saiu em 1980, mas não é difícil encomendar um pelo site da Estante Virtual.
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Em 1977, um ano antes de partir para o andar de cima, Osman Lins publicou um outro relato de viagem, intitulado La Paz existe? que foi escrito a quatro mãos com sua esposa Julieta de Godoy Ladeira. Fácil de sebar, paguei pelo meu o preço de um sanduíche de padaria e logo, logo vou falar dele aqui também.


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Veja que cara simpática tinha o Osman:



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sábado, 20 de março de 2010

O diário de viagem de D. Pedro II

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O jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria muito interessante sobre um diário de viagem escrito por Dom Pedro II em sua visita à Palestina encontrado por um historiador da Universidade de Jerusalém, Reuven Faingold, em 1995. Sua pesquisa resultou na publicação, em 1999, de uma obra intitulada D.Pedro 2º na Terra Santa (Editora Sêfer, esgotada).

Vou postar o artigo na íntegra. Leitura recomendadíssima, como tudo o que diz respeito a esse grande personagem da história brasileira, D. Pedro 2º, o qual todos nós, brasileiros, deveríamos nos orgulhar e conhecer melhor. Boa viagem.

Diário reconstitui viagem de D. Pedro 2º

Domingo, 14 de março de 2010
Folha de São Paulo, Caderno Mundo pág. A18.
Autor: Marcelo Ninio

Quando desembarcar em Israel, o presidente Lula mergulhará numa realidade política a anos-luz da encontrada por D. Pedro 2º em 1876, na única visita até hoje de um governante brasileiro à região. Mas quem se aventurar a repetir os passos do imperador na Terra Santa, se surpreenderá com as marcas que resistiram ao tempo e aos conflitos nos locais percorridos pela comitiva real.

A passagem do último imperador do Brasil pela Palestina fez parte de uma monumental excursão que durou 18 meses e passou por mais de cem cidades em quatro continentes.

Nunca antes na história do império o monarca havia ficado tanto tempo fora. Foi a mais longa das três grandes viagens internacionais de D. Pedro 2º, que deixou as turbulências abolicionistas da corte para trás e se lançou no mundo.

É possível reconstituir os passos do imperador na Terra Santa graças às descrições deixadas por ele em um detalhado diário de viagem. Em 24 dias, o imperador visitou Líbano, Síria e Palestina, num percurso de 500 km - uma enormidade para uma comitiva de 200 pessoas movida a tração animal.

O diário de viagem foi achado por acaso em 1995 pelo historiador Reuven Faingold, da Universidade de Jerusalém, que dá aulas na universidade FAAP, em São Paulo.

Com uma lupa, ele transcreveu a letra miúda do autor e publicou "D. Pedro 2º na Terra Santa" em 1999 (Ed. Sêfer, esgotado), um diário que joga luz sobre a personalidade despojada do monarca e descreve cenários que se preservaram e hoje são cercados pelo conflito entre israelenses e palestinos.


Após passar por EUA, Europa e Rússia, a comitiva real chegou ao Oriente Médio pelo Líbano, no dia 11 de novembro de 1876. "Chegava-se à Terra Santa por Beirute, que tinha o melhor porto", explicou Faingold, por telefone. "Não existia ainda Haifa, hoje o maior porto de Israel."

De Beirute, o imperador foi para Damasco, onde apreciou os banhos turcos, e seguiu para a Palestina, então sob domínio otomano. Na Terra Santa o objetivo de D. Pedro 2º, cristão devoto e estudante de hebraico, era a peregrinação por santuários, em especial o Santo Sepulcro, onde celebrou seu 51º aniversário com uma missa.

Mas o mais impressionante foi o mosteiro de Mar Saba (também conhecido como Saint Sabbas), edificação encravada nas montanhas isoladas do deserto de Judá. O lugar, visitado pela Folha, fica a 10 km de Belém e continua de difícil acesso, com despenhadeiros e paisagens de tirar fôlego.

Estabelecido há mais de 1.500 anos para abrigar monges reclusos, Mar Saba fica numa área que faz parte da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Para chegar até lá é preciso passar por uma barreira militar israelense e pelo polêmico muro de segurança construído por Israel na divisa com a Cisjordânia ocupada.




Foto: Mar Saba

A comitiva de Lula passará pelo muro quando for visitar Belém, na próxima terça. A caminho de Mar Saba, no dia 29 de novembro de 1876, D. Pedro 2º não encontrou barreiras no cenário praticamente despovoado que era a Palestina otomana, mas passou por um aperto ao descer a ribanceira que leva ao mosteiro.

"O caminho até perto de S. Sabbas é terrível, atravessando-se gargantas horrivelmente pitorescas", escreveu o imperador em seu diário, destacando que as "ribanceiras de pedra têm centenas de pés de altura."

O mosteiro grego ortodoxo é até hoje a única construção no meio da paisagem desértica, que parece intocada há séculos. Algo que também não mudou desde 1876 é a proibição de entrada a mulheres, que obrigou D. Pedro 2º a dividir a comitiva e a deixar a imperatriz Teresa Cristina fora do programa. Também continua não havendo eletricidade ou telefone.

A palmeira mencionada pelo imperador como o símbolo do mosteiro está lá até hoje. "Ela tem poderes miraculosos", diz o grego Anatasius, um dos 16 monges que vivem no local.

Em seu diário, D. Pedro se queixa da falta de hospitalidade e da ignorância dos 60 monges que ocupavam o mosteiro. Com um sorriso tímido, Anastasius arrisca uma explicação para a queda no número de moradores. "Não é fácil viver recluso no deserto", diz.

Não se sabe se D. Pedro 2º deixou registro em Mar Saba de sua visita, mas em Jerusalém ela existe e será exibida em breve. No Hospício Austríaco, que lhe serviu de hospedagem numa esquina da Via Dolorosa, está preservada a página do livro de hóspedes assinada pelo ele - que é divulgada aqui pela primeira vez.

"Estamos organizando uma exposição sobre as celebridades que estiveram aqui e D. Pedro de Alcântara é uma delas", conta Johannes Safron, que trabalha na hospedaria, hoje um local considerado "cult" por mochileiros europeus.


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Para uma pesquisa rápida sobre a vida de Dom Pedro II clique aqui.



Para ler uma sinopse da obra de Reuven Faingold, visite o site do autor clicando bem aqui.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Uma macumba no Brasil, by Albert Camus

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Tela: Djanira, Três Orixás (1966). Pinacoteca de São Paulo
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Como havia prometido em um post anterior, vamos retomar aqui o relato de Camus em seu Diário de Viagem pelas terras brasileiras. Achei importante separar essa passagem das outras porque o tema me pareceu interessante sobre um ponto de vista antropológico. Temos nessa narrativa sobre a macumba a visão de um estrangeiro que parece se esforçar em detalhar de maneira imparcial um rito religioso, o que não quer dizer que seu testemunho esteja isento de preconceitos e visões deturpadas de uma realidade totalmente alheia à sua, como é o caso. Entretanto, na minha opinião, Camus se saiu muito bem.

Nessa passagem, Camus é levado a um ritual de macumba. Para quem não tem muita noção do que se trata, (e porque o termo é muito carregado de preconceitos) podemos de maneira muito simplista definir a macumba como sendo uma prática mágica, muito mais do que religiosa. Própria das religiões que chegaram ao Brasil com os negros africanos, a macumba é um ritual que envolve dança (e o transe a ela associado), cantos e cerimoniais que podem variar entre os grupos de praticantes (ou de escolas iniciáticas). Tem muita importância na macumba a comida, a bebida, os objetos mágicos, o vestuário, as imagens, e a hierarquia dos participantes.

No imaginário popular, a macumba (cujo termo vem do nome de um instrumento de percussão africano) acabou se transformando em sinônimo de feitiço e baixa magia, um “trabalho” que só pode ser anulado com um contra-feitiço. Para muitos, a macumba também serve para designar as religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda, um conceito totalmente equivocado. Se Camus usou o termo “macumba” foi porque no Rio de Janeiro se usava (não sei se ainda se usa) essa expressão para aquilo que na Bahia se conhece como Candomblé. Ao que parece, não há uma aplicação pejorativa do termo no contexto dessa narrativa em particular. E pelo que lemos na descrição ritual de Camus, o culto a que ele assistiu foi mesmo o do candomblé.

O ator negro de nome Abdias, quem levou Camus até o local onde se passa a narrativa é o escritor, jornalista e político Abdias do Nascimento, à época diretor do Teatro Experimental Negro, que encenara a peça Calígula, de Camus, com um elenco só de negros (informação que consta da nota sumária).

Para terminar, uma observação que não poderia deixar passar. Camus, ao escrever a seguinte afirmação “Echou (Exu), espírito do mal e deus africano” comete o grande erro de associar Exu com o mal, tal como fazem muitas religiões cristãs. Nem entrarei na questão da origem do preconceito associado a essa entidade da Umbanda. No Candomblé, por exemplo, Exu não é considerado uma entidade mas sim um Orixá, que pode ser interpretado como sendo um semi-Deus, devido a sua importância dentro dessa religião. Não importa a maneira como Exu é visto na Umbanda ou no Candomblé, a não ser o fato de que, sob nenhum aspecto, se deve relacionar Exu com algo negativo ou associado ao mal. Essa idéia não é nada mais do que o fruto da ignorância e do preconceito em relação à religião do próximo.

Boa viagem.

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Uma macumba no Brasil

Quando chego à casa da Sra. M., reina a inquietação. O “pai-de-santo” (padre e primeiro-bailarino), que devia organizar a macumba, consultou o santo do dia, que não deu sua autorização. Abdias, o ator negro, pensa, sobretudo, que ele não prometeu dinheiro suficiente para forçar a boa vontade do santo. Seu parecer é de que tentemos, no entanto, numa expedição a Caxias, aldeia dos arredores, a 40 quilômetros do Rio, e que procuremos uma macumba ao acaso. Durante o jantar, deixo que me expliquem as macumbas. São cerimônias cujo propósito parece constante: obter a descida do deus em si, por meio de danças e cantos. O objetivo é o transe. O que distingue a macumba das outras cerimônias é a mistura de religião católica e dos ritos africanos.

Como deuses ou santos, há Echou, espírito do mal e deus africano, mas também Ogoun, que é o nosso São Jorge. Há também santos Cosme e Damião, etc. ..., etc. ... O culto dos santos está integrado, aqui, nos rituais de possessão. Todo dia tem o seu santo, que não é festejado em nenhum outro dia, salvo por autorização especial do principal “pai-de-santo”. O pai-de-santo tem suas filhas (e filhos, suponho), cujos transes ele é encarregado de supervisionar.

Munidos dessas informações elementares, partimos. 40 quilômetros numa espécie de bruma. São 10 horas da noite. Caxias, que me faz pensar numa aldeia-exposição feita de stands. Detemo-nos na praça da aldeia, onde já se encontram uns vinte carros e muito mais gente do que imaginávamos. Mal paramos e um jovem mulato precipita-se diante de mim, oferecendo-me uma garrafa de aguardiente e perguntando se eu havia trazido Tarrou comigo. Ri às gargalhadas, faz brincadeiras, apresenta-me aos colegas. É poeta. Explicam-me, afinal, que ao saberem no Rio que iriam mostrar-me uma macumba (no entanto, haviam me recomendado segredo, que eu, inocentemente, guardei), muita gente quis aproveitar-se disso. Abdias faz algumas perguntas, e depois não se mexe mais. Ficamos ali, conversando no meio da praça. Aparentemente, ninguém mais trata de nada, e cada um sonha com as estrelas. De repente: precipitação geral. Abdias me diz que é preciso ir até a montanha. Embarcamos, rodamos durante alguns quilômetros por uma estrada esburacada, e, sem razão aparente, subitamente paramos. Espera, sem que ninguém pareça ocupar-se de nada. Depois, continuamos. De repente, o carro faz uma volta de 45 graus e toma um caminho de montanha. O carro sobe, arrasta-se, depois pára: a ladeira é abrupta demais. Descemos e caminhamos. O morro é liso, a vegetação escassa, mas parece que estamos em pleno céu, em meio às estrelas. O ar tem cheiro de fumaça. É tão pesado que se tem a impressão de tocá-lo com a testa.

Chegando ao topo da colina, ouvimos tambores e cantos bastante longínquos, mas que logo cessam. Caminhamos em direção ao som. Nem árvores nem casas, é um deserto. Mas num vão, vemos uma espécie de hangar, bastante amplo, sem paredes, com vigas aparentes. Estendidas pelo hangar há guirlandas de papel. De repente, entrevejo uma procissão de moças negras, que sobem em nossa direção. Estão vestidas de branco, de seda grosseira, a cintura baixa. Segue-as um homem, trajando uma espécie de casaca vermelha, com colares de dentes multicoloridos. Abdias o detém e o apresenta a mim. A acolhida é séria e cordial. Mas há uma complicação. Eles vão juntar-se a uma outra macumba, que fica a vinte minutos a pé, e gostariam que os acompanhássemos. Partimos. Consigo ver, numa encruzilhada, uma vela acesa, fincada em plena terra, umas espécies de nichos, nos quais estão metidas estátuas de santos ou de diabo (aliás, muito toscas e de estilo Saint-Sulpice) e uma cuia de água. Mostram-me Echou, vermelho e feroz, de faca na mão. O caminho que seguimos ondula através dos morros sob o céu cheio de estrelas. Os dançarinos e dançarinas precedem-nos, rindo e brincando. Tornamos a descer uma colina, atravessamos a estrada pela qual viemos e reescalamos um outro morro. Barracos de ramagem e de taipa, cheios de sombras que cochicham. Depois, o início da procissão imobiliza-se diante de um terreiro elevado e cercado de uma parede de bambus. No interior, ouvem-se tambores e cantos. Quando estamos todos reunidos, as primeiras mulheres sobem ao terreiro elevado e atravessam aos tropeços a porta de bambus. Depois, os homens.

Entramos num pátio cheio de detritos. De uma pequena casa de sapê e de taipa, à nossa frente, chegam cantos. Entramos. É uma cabana, bastante grosseira, cujas paredes, no entanto, são caiadas. O teto é sustentado por um mastro central, o chão de terra batida. Ao fundo, o pequeno alpendre abriga um altar, encimado por uma gravura representando São Jorge. Como essa, várias outras, parecidas, guarnecem os tabiques. A um canto, sobre um pequeno estrado, ornado de folhas de palmeira, os músicos: dois tambores baixos e um tambor longo. Havia uns quarenta bailarinos e bailarinas quando chegamos. Nós mesmos somos também uns quarenta, e respiramos, portanto, com dificuldade, espremidos uns contra os outros. Encosto-me num tabique e fico olhando.

Os dançarinos e dançarinas dispõem-se em dois círculos concêntricos, os homens no interior. Os dois pais-de-santo (o que nos recebe está vestido, como os dançarinos, com uma espécie de pijama branco) ficam de frente um para o outro no centro dos círculos. Na sua vez, cada um canta as primeiras notas de uma canção, que, imediatamente, todos retomam em coro, com os círculos girando no sentido dos ponteiros do relógio. A dança é simples: um bater de pés no qual se enxerta a dupla ondulação da rumba. Os “pais”, esses indicam apenas o ritmo. Meu intérprete me ensina que esses cantos rogam ao santo que autorize os recém-chegados no local. Entre os cantos, as pausas são bastante longas.

Perto do altar, uma mulher, que canta também, agita um sininho, de modo quase que ininterrupto. A dança está longe de ser frenética. De estilo medíocre, é pesada. No calor que aumenta cada vez mais, as pausas são quase insuportáveis. Eu observo:

1) que não se nota nos dançarinos a mais leve transpiração;
2) um branco e duas brancas que, aliás, dançam pior que os outros.

Em dado momento, um dos dançarinos adianta-se e me fala. Meu intérprete diz que me pedem para descruzar os braços, já que essa atitude impede o espírito de baixar entre nós. Dócil, fico de braços caídos. Pouco a pouco, as pausas entre os cantos diminuem, e a dança se anima. Trazem uma vela acesa, que se enterra no chão, no centro, perto de um copo d’água. Os cantos invocam São Jorge.

“Ele chega na luz da lua
Ele parte na luz do sol”
E ainda:
“Sou o campo de batalha do deus.”

Na verdade, um ou dois dançarinos já apresentam ares de transe, mas, se posso me atrever a dizê-lo, de um transe calmo: as mãos nos quadris, o passo rijo, o olhar fixo e átono. O “pai” vermelho despeja água em volta em volta da vela em dois círculos concêntricos e as danças recomeçam quase sem interrupção. De vez em quando, um dançarino ou uma dançarina deixa o seu círculo para vir dançar no interior, bem junto aos círculos de água, mas sem nunca atravessá-los. Eles precipitam o ritmo, contorcendo-se sobre si mesmos, e começam a emitir gritos desarticulados. A poeira sobe do chão, sufocante, tornando espesso o ar que já se cola à nossa pele. Cada vez mais numerosos, os dançarinos deixam o seu círculo para virem dançar em torno dos “pais”, que, por sua vez, dançam de forma mais rápida. (O pai branco, admiravelmente.)

Agora, tornam-se violentos, e, de repente, o pai vermelho se solta. Com o olhar inflamado, os quatro membros girando em torno do corpo, com os joelhos dobrados, coloca o seu peso alternadamente sobre cada perna, e acelera o ritmo até o final da dança, quando ele se detém, para olhar toda a platéia com um jeito fixo e terrível. Nesse momento, de um canto escuro, surge um dançarino, que se ajoelha e lhe estende uma espada embainhada. O pai vermelho tira a espada e faz com que gire a sua volta, com um ar ameaçador. Trazem-lhe um enorme charuto. Pouco a pouco, todos acendem charutos e fumam-nos, dançando. Retoma-se a dança. Um por um, os assistentes vêm prostrar-se diante do pai, com a cabeça entre as pernas.

Com o lado sem fio da espada, toca-lhes cada ombro, na diagonal; faz com que se levantem, toca-lhes o ombro esquerdo com o seu ombro direito, e depois inversamente; com violência, empurra-os então para a roda, movimento que, na maioria das vezes, desencadeia a crise, variando conforme os dançarinos: um negro grande, firme nas pernas, olhando para o mastro central, com um ar vago, tem apenas um estremecimento da nuca, que se repete interminavelmente. Vejo nele um ar de boxeador knock down. Uma branca gorda, com uma cara animal, uiva sem parar, mexendo a cabeça da direita para a esquerda. Mas umas jovens negras entram no transe mais terrível, com os pés colados ao chão, e o corpo todo percorrido por sobressaltos cada vez mais violentos, à medida que sobem para os ombros. A cabeça – esta se agita da frente para trás, literalmente decapitada. Todos gritam e urram. Depois, as mulheres começam, a cair.

Levantam-nas, apertam-lhes a testa, e elas recomeçam, até tornarem a cair. Atinge-se o auge no momento em que todos gritam, com estranhos sons roucos, que lembram latidos. Dizem-me que isto irá continuar até o amanhecer, sem mudanças. São 2 horas da manhã. O calor, a poeira e a fumaça dos charutos, o cheiro humano, tornam o ar irrespirável. Saio, trôpego, e respiro afinal deliciado o ar fresco. Amo a noite e o céu, mais do que os deuses dos homens.

Fonte:


Diário de Viagem: a visita de Camus ao Brasil. Albert Camus. Editora Record, s/ data, págs 86 a 94.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Diário de viagem de Albert Camus (1913-1960)

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Há 50 anos um acidente de automóvel tirou a vida de um dos grandes escritores da língua francesa, Albert Camus. Confesso que pouco conheço de sua obra, a não ser uma leitura para fins acadêmicos de A Peste, numa aula temática sobre a morte de Deus na literatura. Tema profundo, leitura idem.

Em A Peste (publicada em 1947), Camus escreve sobre um acontecimento trágico ocorrido numa pequena cidade argelina chamada Oran. De uma hora para outra começam a aparecer ratos mortos, e logo ficamos sabendo que o povoado foi assaltado por uma epidemia. A primeira conseqüência disso foi o total exílio de seus habitantes: ninguém mais poderia sair da cidade antes que o fim da epidemia fosse decretado. A personagem que narra a história só revela sua identidade nas últimas páginas da obra, uma jogada genial do autor que com essa escolha conseguiu fazer com que o observador assumisse uma atitude imparcial, relatando objetivamente os eventos ocorridos em Oran por conta da peste.

Uma das leituras mais comuns dessa obra fenomenal é a de que Camus, ao narrar sobre a peste, intencionalmente criou uma alegoria sobre o nazismo; a peste, em si, pode ser interpretada como uma metáfora dos horrores praticados na 2ª Guerra, sobretudo no tocante à resistência francesa frente à ocupação nazista.

Outra leitura interessante sobre essa mesma obra segue uma abordagem mais filosófica: o comportamento do ser humano diante da morte, talvez um dos maiores tabus da humanidade. Partindo desse princípio, Camus vai discutir em vários momentos sobre o papel de Deus e da religião, trazendo à tona questões ainda hoje muito atuais. É interessantíssimo, por exemplo, comparar o que se passa na cidade de Oran, tal como narrado na obra de Camus, com os recentes acontecimentos no Haiti por conta do terremoto devastador que atingiu o país no começo deste ano. O comportamento dos que sobreviveram à tragédia haitiana, conforme podemos acompanhar pela imprensa (desespero, violência, exploração comercial), não difere em quase nada daquele narrado em A Peste. Um indício claro de que Camus conhecia muito bem a natureza humana.

Antes de começar a falar sobre os escritos de viagem de Camus, queria escrever sobre uma passagem de A Peste que tem relação com a temática do Odepórica e que aparece logo na abertura da obra. O narrador, antes de começar a contar sobre os acontecimentos curiosos ocorridos em decorrência da epidemia, descreve Oran, “uma cidade ordinária, simples prefeitura francesa na costa argelina”. Continua:

“Cidade feia, de aspecto sossegado. Com o tempo, vemos o que a distingue de tantas outras cidades comerciais, em todas as latitudes. Como supor uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, sem rumor de asas nem cair de folhas, lugar neutro, enfim? Percebemos no céu a mudança das estações. A primavera se anuncia apenas pela qualidade do ar e pelas cestas de flores que pequenos vendilhões trazem dos subúrbios; é uma primavera que se vende nos mercados. No verão o sol incendeia as casas muito secas e cobre os muros de cinza parda; então só podemos viver à sombra, as janelas fechadas. No outono, pelo contrário, há um dilúvio de lama. Os dias agradáveis só chegam no inverno.

Modo fácil de conhecer uma cidade é procurar saber como os indivíduos se comportam no trabalho, no amor, na morte.”

Genial a maneira como é descrita a pequena cidade, não? E a frase do último parágrafo acima é a “deixa” para começarmos a tratar do Diário de Viagem.

Albert Camus visitou a América do Sul em 1949. Veio da Europa pelo mar, e o Brasil foi o primeiro país visitado no continente. Aborreceu-se tanto com essa viagem que teve vontade de matar-se, escreve Otto Lara Resende na edição que tenho em mãos, o que certamente não foi escrito em sentido figurado: é clássica a afirmação de Camus de que “o suicídio é a única questão filosófica séria”.

Não sei se posso afirmar que o relato dessa viagem ao Brasil é uma leitura indispensável, mas estou certo de que essa obra irá interessar a dois tipos de leitores: os que apreciam Camus e sua produção literária, e aqueles que se interessam por literatura odepórica, principalmente as narrativas que contemplam o Brasil, como é o caso dessa. Nesse quesito, há algumas passagens nesse texto que primam por servir de testemunho histórico, de um país que apesar de haver crescido significativamente, ainda continua apresentando os mesmos tristes problemas de décadas passadas. Quer ver duas amostras? Vamos lá:

“Os motoristas brasileiros ou são alegres loucos ou frios sádicos. A confusão e a anarquia deste trânsito só são compensadas por uma lei: chegar primeiro, custe o que custar.”

“O contraste mais impressionante é fornecido pela ostentação de luxo dos palácios e dos prédios modernos, com as favelas, às vezes a cem metros do luxo, agarradas ao flanco dos morros, sem água nem luz, onde vive uma população miserável, negra e branca. As mulheres vão buscar água no sopé dos morros, onde fazem fila, e trazem de volta sua provisão em latas de alumínio, que carregam na cabeça como as mulheres kabiles. Enquanto esperam, passam diante delas, numa fileira ininterrupta, os animais niquelados e silenciosos da indústria automobilística americana. Nunca o luxo e a miséria me pareceram tão insolentemente mesclados. É bem verdade que, segundo um dos meus companheiros, ‘pelo menos, eles se divertem muito’.”

Meio triste pensar que essas observações sobre a nossa terra foram escritas há sessenta anos e que pouco mudou desde então – isso para não comentarmos o que mudou para pior, como a degradação da natureza e a violência, só para ficarmos na superfície dos problemas.

A chegada ao Rio, pela baía de Guanabara, foi descrita de uma maneira muito bonita e sem afetação, em que se percebe a irrepreensível qualidade literária de Camus. Observe:

“Às quatro da manhã, um estardalhaço no convés superior me desperta. Saio. Ainda está escuro. Mas a costa está muito próxima: serras negras e regulares, muito recortadas, mas os recortes são redondos – velhos perfis de uma das mais velhas terras do globo. Ao longe, luzes. Seguimos o litoral, enquanto a noite clareia, a água mal estremece, fazemos uma grande manobra e as luzes agora estão diante de nós, mas longínquas. Volto para o meu camarote. Quando torno a subir, já estamos na baía, imensa, um pouco fumegante no dia que nasce, com súbitas condensações de luz, que são as ilhas. A névoa desaparece rapidamente. E vemos as luzes do Rio correndo ao longo da costa, o ‘Pão de Açúcar’, com quatro luzes no seu topo, e no mais alto cume das montanhas, que parecem esmagar a cidade, um imenso e lamentável Cristo luminoso. À medida que nasce a luz, vê-se melhor a cidade, espremida entre o mar e as montanhas, estendida no comprimento, interminavelmente estirada. No centro, prédios enormes. A cada instante, um ronco acima de nós: um avião decola no dia nascente, confundindo-se, de início, com a terra, elevando-se depois em direção a nós, passando por cima de nossas cabeças. Estamos no meio da baía e as montanhas, à nossa volta, fazem um círculo quase perfeito. Finalmente, uma luz mais sanguínea anuncia o raiar do sol, que surge por trás das montanhas a leste, em frente à cidade, e começa a subir, num céu pálido e fresco. A riqueza e a suntuosidade das cores que brincam sobre a baía, as montanhas e o céu, fazem calar a todos, uma vez mais. Um instante depois, as cores parecem as mesmas, mas é o cartão-postal. A natureza tem horror dos milagres longos demais.”

Belíssima descrição, para mim uma das passagens mais bonitas dessa obra. Prossigamos com a leitura. A presença de Albert Camus no Brasil foi muito esperada e sua agenda esteve cheia durante todo o tempo de sua estadia. Possivelmente foi o excesso de compromissos que fez com que essa viagem lhe fosse tão cansativa e desprovida de maiores encantos; temos que nos apegar ao fato de que o escritor visitou o país prioritariamente a trabalho, o que ameniza nossa opinião – levando-se em conta apenas aquilo que se lê em seus escritos de viagem – sobre sua personalidade aparentemente antipática. A verdade é que, no fundo, Camus deve ter tido muita paciência para, por conta de sua posição, ter que conversar com tanta gente chata do meio intelectual, ou será que não? (ao ser apresentado a um convidado numa recepção escreve o seguinte: “Um filósofo polonês do qual o céu, se for bom, me preservará”).

Num dos inúmeros jantares a que esteve presente, Camus faz um comentário interessante sobre o comportamento brasileiro; fora levado a jantar num restaurante, quando de sua chegada, por um trio: um jovem biólogo francês “furiosamente simpático” (Letarget), um poeta brasileiro (Augusto Frederico Schmidt) “enorme, indolente, com os olhos franzidos, a boca caída”, e um “señorito”, (não nomeado), para quem o Brasil “é um país onde só se trabalha, nada de viciados, aliás, não se tem tempo, trabalha-se, trabalha-se”, o que para nós chega a ser hilário. Eis a cena passada no restaurante:

“Com a ajuda do cansaço, me vem uma cólera tola e já afasto minha cadeira para retirar-me. Uma gentil intervenção de Letarget e também a simpatia que sinto, apesar de tudo, por esse curioso personagem-poeta, me retêm e faço um grande esforço para acalmar-me. ‘Ah’, diz o poeta, chupando os dedos, ‘é preciso muita paciência com o Brasil, muita paciência. ’ Digo apenas, como única vingança, que a mim não parecia ter-me faltado paciência até agora. (...) Apesar de tudo, o resto da refeição passa-se na calma, se bem que o poeta e o señorito não param de fazer apartes em português, nos quais julgo compreender que reclamam um pouco de mim. Além disso, essa grosseria, essa falta de modos, se expõe de forma tão natural que se torna amável.”

E Camus continua sua jornada carioca, cheia de encontros, alguns até lhe dão prazer, como o jantar em que é apresentado ao “poeta nacional” Manuel Bandeira, “pequeno homem extremamente fino” e a Kaïmi (Dorival Caymmi), “um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta”. Não resisto a transcrever um trecho desse encontro:

“Depois do jantar, Kaïmi, um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta, vem cantar com seu violão. São as canções mais tristes e mais comoventes. O mar e o amor, a saudade da Bahia. Pouco a pouco, todos cantam e vê-se um negro, um deputado, um professor da Faculdade e um tabelião cantarem esses sambas em coro, com uma graça muito natural. Totalmente seduzido.”

No dia seguinte, após um passeio de lancha na Guanabara, conhece Murilo Mendes, por quem sentirá grande afinidade, descrito por ele como “poeta e doente” (era ex-tuberculoso, assim como Camus e Manuel Bandeira), de “espírito fino e resistente, um dos dois ou três que realmente me chamaram a atenção aqui.”.

Ainda no Rio de Janeiro, antes mesmo dos encontros relatados acima, Camus escreve sobre o dia em que foi assistir a um ritual de macumba, no município de Caxias, a quarenta quilômetros da capital fluminense. Como me pareceu particularmente interessante, a visão de um estrangeiro sobre um rito religioso brasileiro, vou transcrever as quatro páginas dessa passagem numa outra postagem.

Do Rio de Janeiro Camus segue para Recife, cidade que lhe agrada, descrita por ele como a “Florença dos Trópicos”; visita Olinda no dia seguinte e na volta a Recife oferecem-lhe uma festa popular, porém os cantos e as danças não lhe causaram interesse, uma “macumba-chique” - anota em seu diário. Nesse ponto da viagem, o escritor adoece com freqüência, e é possível que a gripe e o estado febril tenham lhe tirado ainda mais o ânimo de viajar, que já não era grande. Mesmo assim, fascina-se com um espetáculo do “bomba-menboi”, como escreve, “um balé grotesco, dançado por máscaras e figuras totêmicas, sobre um tema que é sempre o mesmo: a matança de um boi”, e dispara a narrar o acontecimento com a evidente noção de quem gostou do que viu.

De Pernambuco à Bahia, que lhe parece “uma imensa casbah (uma espécie de cidadela marroquina) fervilhante, miserável, suja e bela”; Prefere a baía de Salvador, avistada do seu quarto de hotel, à do Rio de Janeiro, “muito espetacular para o meu gosto”. E continua; “esta, pelo menos, tem uma medida e uma poesia”. Visita as igrejas da cidade, que são as mesmas de Recife, “um barroco harmonioso que se repete muito”. Diz que é a única coisa a ser vista neste país (a arte barroca) e que isso se vê depressa. Chega a questionar-se: “Será que sinto vontade de passar alguns anos no Brasil?”, resposta curta e grossa: “Não”.

A empreitada tropical continua. Volta ao Rio, visita Teresópolis e Petrópolis e pela primeira vez sente-se confortável com o clima do país, já que o calor das cidades (ainda que a viagem tenha ocorrido nos meses de julho e agosto) lhe atormenta. Viaja a São Paulo, “cidade estranha, Oran desmedida” e conhece Oswald de Andrade, que lhe expõe a teoria da antropofagia como visão do mundo.

Com Oswald de Andrade (Camus gostou do modernista) faz a viagem a Iguape, que ganhou certo destaque em suas notas de viagem (dessa ida à cidade, onde pode observar as festividades do Bom Jesus, saiu o material para o conto “A pedra que cresce”, de sua obra O exílio e o reino). Aqui Camus escreve quase em tom de humor a “aventura” do deslocamento, um verdadeiro “programa de índio”, como dizem. Afirma que o motorista se parece com Augusto Comte e passa a se referir a ele dessa forma espirituosa. O carro quebra, claro; Augusto Comte não é bom de mecânica, mas são salvos por um caminhoneiro de passagem. Almoçam em Piedade, “pequena aldeia sem graça”. (...) “Refeição brasileira, que não acaba mais, e que passa graças à pinga” – escreve. Augusto Comte erra o caminho e descobre que dirigiram 60 quilômetros além do destino, o que significava, naquelas condições, mais duas ou três horas de estrada.

Na passagem por Registro, uma nota peculiar: “verdadeira capital japonesa no meio do Brasil, onde tive tempo de ver casas de decoração frágil, e até mesmo um quimono”; chegam a Iguape no começo da madrugada. A viagem de 300 quilômetros levou dez horas. Mesmo cansado da viagem, Camus ainda assim reservou um elogio ao povo brasileiro; ao ser bem recebido pelas autoridades locais (apesar do horário avançado) faz a seguinte anotação: “Observo, mais uma vez, a refinada polidez brasileira, talvez um pouco cerimoniosa, mas que, mesmo assim, é melhor que a grosseria européia.”.E reclama, duas vezes, dos roncos ferozes e dos espirros de Augusto Comte, que lhe atrapalham o sono.

Depois de todas essas aventuras brasileiras, o renomado escritor ainda viaja ao Uruguai, Chile e Argentina, onde permanece poucos dias, “em pleno conflito psicológico”, como chega a escrever. “Este duro equilíbrio que a tudo resistiu desmoronou, apesar de todos os meus esforços. Dentro de mim, estão as águas esverdeadas, em que passam formas vagas, em que se dilui minha energia.” Camus tem consciência de que sofre de depressão, mas durante todo o tempo foi um verdadeiro cavalheiro ao tentar, frente a tantos compromissos profissionais aborrecidos, esconder de seus anfitriões os conflitos interiores que lhe atormentavam a alma.

Quarenta e oito dias depois de sua chegada ao Brasil, Albert Camus volta finalmente para casa. As últimas palavras de seu diário não são muito animadoras: “Doente. Bronquite, no mínimo. Telefonam para avisar que partimos esta tarde. Faz um dia radioso. Médico. Penicilina. A viagem termina num caixão metálico, entre um médico louco e um diplomata, em direção a Paris.”


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Leia: Diário de Viagem- a visita de Camus ao Brasil. A cópia que tenho em mãos saiu pela Editora Record, com uma capa horrenda, por volta de 1980 (não consta o ano de publicação) e tem uma boa nota sumária a cargo de Otto Lara Resende. Foi relançada em 1997 (4ª ed.) pela mesma editora.

Se puder e tiver vontade, leia A Peste, de Albert Camus. Procure a edição que venha com a tradução de Graciliano Ramos, daí você sai ganhando duas vezes, certo? A minha, garimpadinha num sebo pelo preço de um picolé, é da Ed. José Olympo, Coleção Sagarana,1973.